Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

16
Jun17

diario político 214

mcr

Unknown.jpeg

 

Ir por lã e voltar tosquiado

A Sr.a Teresa May, depois de suceder ao Sr. Cameron na chefia dos conservadores ingleses, entendeu (contra, aliás, anteriores declarações) aumentar significativamente a maioria absoluta que detinha nos Comuns. A razão, afirmava esta deprimente caricatura de Margaret Thatcher, seria poder abordar as negociações do Brexit com reforçada força.

A Sr.ª May era uma obscura política tory sem historial relevante mas a espantosa falta de argúcia de Cameron (que promoveu o referendo sobre o Brexit para continuar na Europa!...) catapultou-a para a primeira linha. Pelos vistos, Boris Johnson e outros do mesmo teor, reservavam-se para mais tarde pelo que abriram alas à passagem desta dama que ninguém de bom senso caracterizaria como “de ferro”.

A Srª May, além de outras bizarrias, acredita(va) profundamente nos ziguezagues da opinião pública e, com alguma razão, descria das escassas qualidades do chefe trabalhista Corbyn. De facto, esta criatura, também ela caricatura mas de Aneurin Beevan, é o representante no Reino Unido e na Europa, de um malogrado sebastianismo socialista e, sobretudo, de uma pertinaz miopia política e social que visa fazer regredir o programa trabalhista aos tempos de antes da guerra se é que não vai ainda mais longe.

Criticado dentro do Labour e, mais ainda, fora dele, enfraquecido pelo tombo eleitoral na Escócia que parecia passar-se de armas e bagagens para o independentismo, Corbyn aparentava ser uma vítima perfeita para um maior engrandecimento dos conservadores.

Ainda hoje está por perceber se May acreditava numa segunda volta do “Brexit” engrandecendo os tories, ou se pretendia tão só afirmar internamente a sua autoridade. De todo o modo, atirou-se de cabeça para umas eleições falhas de objectivo, ou com objectivo limitado à negociata do “Brexit”. Como se isto fosse pouco, May esquecia anteriores posturas de não recorrer a eleições gerais. Por outro lado, cereja em cima do bolo, afrontava o seu eleitorado mais fiel (a população mais idosa) com uma delirante taxa sobre pensões.

A Corbyn bastou esperar, fazer poucas ondas e a reafirmar contidamente os temas menos controversos do seu programa. O homem pode ser reaccionário (e é-o...) mas de parvo não tem nada. Deixou a adversária esticar a corda esperando, com razão, vê-la enforcar-se.

O terceiro comparsa nesta campanha é a dirigente da Escócia. Opositora de May e tendo esmagado os trabalhistas que, durante décadas, tiveram na região um dos seus maiores e mais aguerridos feudos, a Sr.ª Nicola Sturgeon, pôs em lume brando a causa independentista por razões várias, a mais importante das quais é o facto da Europa tratar com pinças a questão (a Catalunha, o País Basco, a Córsega, para não ir mais longe, por exemplo à Flandres já são dores de cabeça suficientes e violentas para Bruxelas). Todavia, Sturgeon estava convencida que a Escócia, depois do tsunami nacionalista, era “trigo limpo, farinha Amparo”, como em tempos se dizia. De facto, nesta guerra de trincheiras, os escoceses estavam numa posição delicada para não dizer incómoda. Não queriam sair da Europa ou, saindo, gostariam de um acordo tão sensato quanto possível. May prometia tudo, até isso, o que esvaziava a posição de Sturgeon.

Foi neste vago labirinto que a campanha se processou. Os eleitores, porém, não descortinavam a razão das eleições ou, quando pensavam ter percebido, enfureciam-se. Os citadinos e os jovens anti-brexistas, abominavam os conservadores e May a sua falsa profeta. Os idosos sentiam-se ameaçados, os trabalhistas rosnavam vingança, escoceses e irlandeses sentiam-se órfãos.

Foi assim que numa noite de prodígios e assombros, May se viu apeada da sua maioria, Corbyn, graças a ela, seu involuntário cabo eleitoral, saiu confortado com o resultado inesperado da desconfiança que a inábil May provocou no seu eleitorado. E Sturgeon? Pois Sturgeon também se viu a saltar da frigideira para o lume. Perdeu quase metade dos seus deputados. Pior: uma parte deles foi directamente para os conservadores desmentindo, por uma segunda vez, que aquilo era território trabalhista momentaneamente obnubilado pela visão de uma Escócia fugida à Rainha.

Na Irlanda, dez deputados todos vindos da minoria protestante, ultra-reaccionária, poderão ser os garantes da sobrevivência de May. A que preço?

May, agora, pede desculpa ao partido. Este finge aceitar enquanto se vai preparando para contar as espingardas. A Europa espera pacientemente pelas negociações mesmo que estas não sejam seguramente fáceis que o velho leão mesmo ferido ainda impõe algum respeito. De todo o modo, o interlocutor britânico parte com menos vantagens.

Se a isso se acrescentar o resultado das eleições francesas e a previsível vitória de Merkel (confortada por três triunfos regionais consecutivos e convincentes) a vida da Srª May não vai ser fácil.

Ainda bem!