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Incursões

Instância de Retemperação.

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24
Dez17

diário político 220

d'oliveira

Duas cartas fartamente esclarecedoras

(d’Oliveira fecit 24-12-17)

Dois leitores do “Público”, entenderam opinar sobre os resultados das eleições catalãs. É um direito que ninguém, e muito menos eu, lhes retira.

Porém, no seu intenso amor pela Catalunha, dizem coisas que só a demência amorosa poderia justificar. Assim um senhor Mário Pires Miguel vem defender que nenhum país que luta pela independência tem a totalidade da população a seu lado. Mesmo que assim seja, conviria lembrar-lhe que, no caso em apreço, há uma região partida ao meio, coisa que torna muito problemática qualquer causa e bastante próxima a guerra civil. Depois, sempre na mesma onda afirma que “é da história que, para impedir os independentistas de serem dominantes, o poder central usa a emigração para esses territórios para criar forças oponentes à independência” (sic). Perante uma parvoíce deste tamanho qualquer simpatizante da Catalunha fugiria a sete pés. Então será que alguém está a ver os malvados “espanhóis” a empurrar dois milhões e meio de andaluzes, estremenhos, valencianos ou galegos para a “pátria” catalã, com o fito único de desbaratar os legítimos anseios da comunidade local? E que dizer das dezenas de milhares de catalães expatriados na Espanha madrasta? Foram enviados pela Generalitat para submeter a castelhanagem impura ou, pressentindo uma invasão espúria de metecos pobres, fugiram para não serem apanhados na guerra a vir? Mais: a “grande dinâmica da economia da Catalunha”(sic)foi construída por quem e, sobretudo à custa de quem? Ignorará Mário Pires Miguel, alegadamente morador na Catalunha e também ele emigrante (será que Portugal também pretende abichar com uma parte do território? Se assim for, eu gostaria que tomassem S Feliu de Guixols onde passei uns dias inolvidáveis e lúbricos) que a “emigração” na Catalunha (por exemplo o pai de Manuel Vasquez Montalban, galego e proletário)é toda ela ou quase de gente pobre que foi ali vender a sua força de trabalho e enriquecer sobretudo a poderosa burguesia catalã tão bem representada pelos Junqueras e pelos Puigmont na cadeia ou em parte incerta?

Finalmente este pobre Miguel remata que os comentadores “associados aos grandes interesses dos espanhóis” só estragam democracia. Ignorará a tonta criatura que ao falar de grandes interesses está certmente mais perto de interesses da indústria e do grande comércio catalães do que de quaisquer outros na península?

O segundo preopinante, Quintino da Silva de Paredes de Coura, esforçada mente que cita Confúcio e António Gedeão em meia dúzia de frases laboriosas, acha que há uma “chantagem exercida pelas empresas que saíram da Catalunha certamente em conluio com o Governo de Espanha”. E acha até que os votantes se estão “borrifando” para tão indecoroso acto.

As empresas saídas passam já dos três milhares e, apesar de apenas terem transferido as suas sedes sociais, já vão custar uns milhões ao erário da autonomia. Se de todo saírem isso traduzir-se-ia em dezenas ou centenas de milhares de empregos. Se lhes juntarmos a não entrada no mercado europeu como existe nas actuais circunstâncias, logo veremos que a coisa fia fino. E fia tanto mais fino quanto já se sabe que o turismo baixou, que o desemprego já aumentou e que tudo isso já começa a ter reflexos. E eles até já são mensuráveis pela simples comparação dos assentos parlamentares. Do anterior para este parlamento não foi só o PP que perdeu lugares. Foram também os independentistas cuja maioria se tornou mais escassa e mais, muito mais, dependente de alianças cada vez mais estranhas e menos sólidas. Se é que conseguem formar um governo fiável e duradouro, conhecidas que são as divisões entre os dois partidos mais fortes.

Não sei se o Público ao publicar estas duas cartas quis algo mais do que mostrar o ridículo de certos catalanistas e, assim, dar uma mãozinha a Rajoy. Espanta-me, ainda que moderadamente, que sobre esta questão não tenha havido uma, ao menos uma, opinião mais pensada e menos estouvada (uso este adjectivo para não maltratar mais os opinantes. A simples citação das suas frases chega e sobra para os avaliar.