Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

02
Jun14

estes dias que passam 321

d'oliveira

Um gesto útil, necessário e compreensível

 

A abdicação hoje conhecida de Juan Carlos é um notícia que merece ser destacada e saudada mesmo por um republicano português.

Para começar pelo essencial: o Rei estava gasto, fisicamente gasto. Os setenta e seis anos que tem parecem mais e mais velhos. Via-se a olho nu. Com essa idade a grande maioria dos políticos entende dever reformar-se. E os que não o fazem, não são exemplos de grande clarividência e muito menos não mostram ser capazes de desempenhar uma tarefa que, se tem muito de decorativo, é também pesadamente política e, convenhamos, esgotante.

Depois há o peso de um par de erros que pareceram maiores por virem de quem vinham. E a constante exposição perante uns media agressivos e ávidos não ajudou (nunca ajuda) nada. A pergunta dos cem milhões seria esta: fosse Juan Carlos um paisano normal e alguém falaria de uma caçada, de algum devaneio amoroso ou de um genro que se meteu em negócios pelo mínimo duvidosos?

Todavia, tudo isso, nunca fará esquecer o homem que, com o filho pequeno ao lado, apareceu nas televisões a defender com firmeza e coragem a democracia, a incerta, nascente, difícil, democracia espanhola. 

E não faltavam na conturbada história espanhola exemplos de reis apeados mandados para o exílio, alvos de assassínio, de atentados. Até nisso o gesto é exemplar. Como exemplar foi o pedido de desculpas depois da história da caçada.

Se fosse espanhol poderia discutir o futuro da monarquia, as suas virtudes e defeitos face à república que, convenhamos, também não correu especialmente bem nas duas tentativas que se conhecem.

A Monarquia espanhola é muito menos poderosa do que muitas Repúblicas “reais”, basta atentar na francesa para não ir mais longe. 

Todavia, basta-me ser português, interessado na boa vizinhança com um pais que frequento, com uma cultura que aprecio, com uma arte e um saber viver que às vezes invejo. Não creio estar a ser sequer generoso quando afirmo que Juan Carlos foi, apesar de tudo, um Rei razoável, popular, democrata. Durante quase quarenta anos a Espanha foi um pais estável, progressivo, reconciliada consigo própria. Foram quarenta anos de progresso em todos os domínios (tomáramos nós que também não nos podemos queixar dos nossos anos depois de 25 de Abril mesmo se seja hábito recordar apenas as más horas).

Com uma idade não muito distante da do Rei ora abdicatário, recordo bem os tempos do franquismo final. Entre meados dos anos sessenta e a chamada ao poder de Adolfo Suarez, fui muitas vezes a Espanha. Assisti em Madrid às manifestações proto-fascistas desencadeadas contra a reprovação internacional pelas execuções dos últimos “terroristas” (Verão de 1975). Fiz parte dos muitos portugueses que apoiaram, alojaram e esconderam oposicionistas espanhóis que por cá andaram fugidos.

Ainda me doem os lombos de umas fugazes cacetadas apanhadas durante uma manifestação em Madrid. Quando lá regresso que diferença! Agora fala-se com um polícia, com um guarda civil como se fosse com alguém normal. A criatura está ali para ajudar e para proteger.  E isso, se não é obra exclusiva de Juan Carlos, é também resultado da sua acção.

Alguma vez ouvi e vi (na televisão) populares espanhóis chamarem-lhe “Torero!” o que por lá soa a elogio. Na hora da sua saída, espero que se reconheça que pode sair da praça pela Porta do Príncipe. Mereceu-o, apesar de tudo.

 

(na gravura Juan Carlos dirige-se ao país pela televisão contra a "tejerada": um momento quase fundador da democracia espanhola)