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Incursões

Instância de Retemperação.

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20
Mar15

Estes dias que passam 324

d'oliveira

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Os cheira-merda ou uma espécie de nova PIDE

 

Em guisa de explicação devo declarar que isso de listas VIP é sempre uma tolice antidemocrática. Quem é uma figura pública não deve ser mais (nem menos) protegido da bisbilhotice alheia que um qualquer pobre cidadão.

Em segundo lugar, a título de declaração de interesses, devo afirmar que o meu risível estado fiscal nunca teve a mínima hipóteses de fugir sequer a uma simples taxa. O que tenho está todo na mão do fisco (rendas de prédios, reforma, algum que outro ganho com trabalho extra.

Em terceiro lugar, e usando um exemplo externo, sempre me irritou o véu de chumbo que cai sobre a biografia política e prisional de cidadãos que deram o corpo ao manifesto nos anos duros. Eu explico: fui alvo de catorze processos promovidos pela PIDE primeiro e pela DGS depois. Em nenhum deles consegui verificar quem eram os denunciantes, os “bufos” ou apenas os tristes que “borregando” nos interrogatórios me indicavam como conspirador ou mesmo como mentor de actividades políticas subversivas. Até por bombista passei, acusado por uma “Catarina” que se atreveu mesmo a inventar a minha presença num qualquer encontro conspirativo em Cantanhede, progressiva terra a que só fui em meados dos anos oitenta!

Ao contrário do que se passa na sempre maléfica Alemanha, os cidadãos portugueses que tiveram os seus dares e tomares com a polícia política não sabem quem os denunciou. E, assim sendo, podem, ainda hoje, cumprimentar o cúmplice da polícia que os vigiou, deteve e eventualmente os torturou.

Bem sei que certas organizações logo no dia 26 de Abril foram à António Maria Cardoso e aí fizeram mão baixa dos processos dos seus militantes para não só saberem qual o comportamento destes enquanto presos mas também, e por isso mesmo, salvaguardarem a duvidosa virtude política dos que convinham à organização.

Aliás, eu mesmo fui beneficiado com algo semelhante. No assalto à sede da PIDE no Porto, um colega e amigo encontrou um processo sobre mim e entregou-mo na quase totalidade. Todavia, nem assim consegui identificar as criaturas que, como o próprio processo indiciava, teriam fornecido informações sobre mim. Azar de quem era free-lancer político!

Voltemos, porém, à vaca fria: Não posso garantir que haja ou não uma lista VIP de perfis fiscais de personalidades políticas (onde caberia muita gente desde Ronaldo a Passos Coelho ou de Sócrates a Manuel Pinho). O que sei de fonte segura é que sempre houve dispositivos de software que preveniam, a posteriori, que alguém bisbilhotava sem fundamento legal, o cadastro do cidadão indefeso. Recordo, mesmo, que desde há anos que na Segurança Social havia algo semelhante a pontos de uma vez que me lembre ter sido aberto processo disciplinar a dois técnicos superiores que, em má hora (para eles) se lembraram de ir fariscar o processo de uma superiora.

Este software (ou lá o que é...) tinha, no entanto, um defeito. Só actuava a posteriori pelo que o cidadão visado era mesmo prejudicado e estava sujeito sabe-se lá a que pressões vindas de quem o espiava ou de quem mandava espiá-lo.

Por mim é benvindo o procedimento que lança um alerta no exacto momento em que a acção pidesca e execrável se inicia.

E espanta-me extraordinariamente , ou nem isso, que uma criatura do sindicato dos trabalhadores fiscais uive o lamento de isso agora suceder. E se entristeça com os justificadíssimos processos que recaíram sobre a rataria indecorosa que resolveu, por seu livre alvedrio (ou por ordem alheia) ir ver os processos fiscais de A ou B.

E que, além disso, exija em alta e virulenta voz, o fim imediata da intrusão pidesca e miserável de modo a inocentar os beneméritos que andam a vasculhar a eventual merda alheia.

Não tenho dúvidas que, nos anos do Estado Novo, estas boas e patrióticas ideias do citado sindicalista rapidamente seriam reconhecidas pelos cavalheiros que dirigiam a PIDE. “Para Chefe de Brigada, já!”, diria gozoso e resplandecente o finado inspector Gouveia.

Um dos casos de ratonice conhecidos é o de uma senhora funcionária que terá acedido ilicitamente ao dossier fiscal do Presidente da República. Apanhada com boca na botija, terá dito em sua defesa uma burrice: apenas queria saber quanto ganha um Pridente de República.

Esta criatura deveria ser imediatamente corrida do emprego. Não por se ter prestado à repugnante tarefa de espionagem a soldo de alguém ou com mero efeito de futura chantagem. Nada disso. Deveria ser mandada para o justo descanso por ter usado uma desculpa tão estúpida. Além de incompetente (pois de certeza sabia que era apanhada) é de uma pobreza de espírito que só não lhe dá o direito ao céu por isto ser demasiado.

Com moderado espanto meu, não tenho visto por aí muita, pouca, quase nenhuma, gente a reprovar as manobras da nova e temível polícia fiscal ilegal.

Que cidadãos estamos a fomentar? Que cidadania? A indignação passou a pagar imposto?

Vale tudo no jogo da (baixa) política? Que país queremos?

Razão tinha Daniel Filipe ao inventar aquele profético título: “Pátria lugar de exílio”

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