Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

06
Jul15

estes dias que passam 330

d'oliveira

GRECIA-mapa1.jpg

 

Foi não. E agora?

 

Se o “não” ganhar – e parece que são fortes as possibilidades disso acontecer – a pergunta é esta: e agora?

Antes de responder conviria lembrar as razões duma vitória que poderá ser, à boa (má) moda grega pirrónica- de Pirro rei do Epiro que no fim da vitória em Ásculo comentou que mais uma vitória desse tipo seria o seu fim. Pirro, como se sabe, acabou por perder tudo podendo dele dizer que foi de “vitória em vitória até à derrota final”.

A vitória do Syriza e do “não” deve-se sobretudo à tragédia dos partidos tradicionais (Nova Democracia e Partido Socialista) que (des)governaram a Grécia durante décadas. E convém não esquecer que a extrema direita (desde os “gregos independentes ao Aurora Dourada) se juntou num extraordinário conúbio ao Syriza. Basta ver a alegria de Marine Le Pen para saber que ventos sopraram e ameaçam soprar no Egeu. E na Europa...

A segunda e tradicional razão da vitória assenta num mito (e na terra deles há sempre outro a nascer), a saber: a “humilhação” que os “europeus” (burocratas, “virtuosos”, ricos, exploradores) trouxeram à Grécia obrigando-a a endividar-se para além do inimaginável. É bom lembrar que à declarada dívida de 320 mil milhões (160% do PIB) deverá acrescentar-se uma parcela não contabilizada que deverá elevar o débito grego a 200% do PIB.

Já o finado Adolph Hitler baseava toda a sua belicosa campanha na “humilhação” sofrida pela Alemanha. Não foi o primeiro a usar essa arma (Mussolini também usou o mesmo truque) e até por cá, se recorreu ao mesmo tema nos confusos tempos do final inglório da 1ª República e os alvores da Ditadura quando os credores de Portugal apresentavam exigências dramáticas.

A lista dos presumidos humilhados continua desde uns chefes de Estado africanos que justificam as suas ditaduras com a reivindicação de acabarem com as desfeitas contra a independência recém adquirida e malbaratada por ele   até ao senhor Putin, ao accionar a ocupação da Crimeia e ao alimentar os ucranianos russófonos em armas e dinheiro (para não falar em fortes contingentes militares clandestinos), veio dizer que os tempos em que a Rússia era humilhada (sic) tinham acabado.

A segunda questão que se põe é esta: será que a posição europeia irá mudar depois da inesperada decisão de Tsipras em convocar o referendo?

Ou (mera hipótese já sugerida em várias partes) será que os países europeus vão eles mesmos perguntar, por referendo, aos seus povos se estes estão dispostos a abrir os cordões à bolsa para não só perdoar uma parte substancial da dívida actual mas ainda para emprestar mais dinheiro? (no mínimo 30 mil milhões ou segundo o FMI mais de 50) Não se pode esquecer que os eventuais futuros emprestadores perguntarão com óbvia ansiedade se o seu dinheiro lhe voltará aos bolsos.

A terceira questão que se põe é puramente teórica: se quando num país a dívida cresce imparavelmente que solução segura para quaisquer credor haverá depois do segundo eventual precedente grego. Lembremos que ainda há pouco tempo a Grécia viu perdoados cento e muitos milhares de milhões.

A quarta questão é medonhamente indecente: quanto dinheiro deverá um Portugal, que ainda não saiu da fase de sangria a que se viu submetido, meter no bolo comum que a “europa” deveria, emprestar à Grécia?

A quinta questão, desta vez despudoradamente interna tem a ver com a acusação continuamente feita ao Governo, aos partidos que o sustentam e a Cavaco Silva, sobre a sua violência contra a Grécia. Também aqui, sem pôr em causa, a mais que provável aversão desta gente contra o Syriza (e já agora contra os seus incríveis parceiros de extrema direita – de que nunca se fala) é bom lembrar que a “linha da frente” da “firmeza” perante a Grécia vem dos países bálticos e dos pequenos estados centro-europeus todos eles mais pobres que a Grécia com salários mínimos inferiores em mais de 50%, com pensões mais baixas, muito inferiores mesmo às actualmente miseráveis (na maioria) pensões dos reformados gregos.

Em sexto lugar, circula com surpreendente e alarmante despautério a ideia de que foi o BCE quem ordenou, provocou ou forçou o encerramento dos bancos. Ao mesmo tempo, o BCE foi garantindo a liquidez dos mesmos bancos o que, pelo menos, deveria ser explicado. Os bancos gregos estão falidos e tem sido a assistência do BCE que os mantém de pé.

Em sétimo lugar, corre com persistente insistência a ideia de que a “Europa” volta aos bons velhos tempos do senhor Metternich (no caso do euro-grupo) ou à falida “Primavera dos povos” (representada pelo Syriza e pelo “Podemos” que irá dar que falar) que, aliás, ocorreu depois do afastamento do antigo chancelar do Império austro-húngaro. Ou seja: a direita quer domar a esquerda. No caso a esquerda é o Syriza (e o seu parceiro de extrema direita, essencial para haver Governo) e a direita é a tradicional que governa em vários países (mas não a “frente nacional” francesa, entusiástica apoiante do “não”) bem como a maioria dos partidos socialistas (desde o alemão) que poderiam ser representados por Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu que ainda hoje afirmou que a vitória do “não” é a saída do euro e a restauração de uma moeda nacional.

Em oitavo lugar, seria bom tentar saber se não seria preferível para a Grécia recuperar o controlo das alfândegas, da moeda nacional, da “soberania” económica e financeira, em vez de continuar a viver de balões de oxigénio europeus. Lembremos que, mesmo em Portugal, há quem advogue uma saída, prudente mas imperiosa, do euro. Nada disso impediria uma relação com os países do euro nem, muito menos, a sua permanência na União Europeia.

Nona questão: há alguém que acredita que uma rendição do euro-grupo (ou vista como tal pelas opiniões públicas) possa ser favorável à Europa e à Grécia?

Décima e ultima questão: quais são as possibilidades reais, próximas e claramente urgentes de a Grécia mesmo com os dinheiros que exige, levar a cabo as reformas que a retirem do grupo dos Estados quase falhados para a introduzir uma vez por todas na Europa. Mesmo tendo em conta a difícil situação em que estava aquando da vitória do Syriza, a verdade é que se não vislumbra sequer uma vaga proposta de reforma dos sistemas fiscal e financeiro, do acesso às reformas, da diminuição imprescindível do alto grau de despesas militares, da aplicação à Igreja de um mínimo de gravames tributários. E por aí fora.

Cá em Portugal uma semi-jovem pasionária e o senhor Rui Tavares conseguiram a quadratura do círculo. Tout ira bien, madame la marquise. Melhor do que eles só o dr Marcelo Rebelo de Sousa que num arriscado exercício de contorcionismo político disse tudo, e sobretudo nada, sobre a questão. Para alguém que “modestamente” (ainda) não é candidato à Presidência da República, ontem o dia foi extraordinário. Se o elegem ainda iremos ter saudades de Cavaco!

 

* Este texto foi escrito antes de haver resultados definitivos do referendo.

** o mapa que o ilustra visa também mostrar que, ao contrário de um par de ignorantes locais, a Grécia não está isolada da UE visto ter fronteira comum e extensa com a Bulgária que pertence à UE e que confina tambem com vários países da UE. E, de passagem, deitar por terra a ideia que põe a Grécia a "fechar" o Mar Negro de que está separada pela Turquia. Essa sim, com a Bulgária, Roménia, Ucrania e Geórgia é que "fecha" o dito mar.