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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

13
Jul15

Estes dias que passam 331

d'oliveira

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Um imenso, criminoso, desperdício

Recordemos os factos: há um par de anos um dirigente grego (Papandreu) tentou levar a cabo um referendo sobre a situação grega.. Entre os que o recusaram estava o senhor Tsipras.

Em finais de 2014, o governo “tecnocrata” grego que substituíra o do senhor Samaras, não podia cantar vitória (era provisório por essência) mas conseguia gabar-se de alguns escassos resultados positivos numa paisagem político-económica que sempre se caracterizara por um crescente mau resultado. Não era a reviravolta mas era pelo menos uma paragem na descida ao precipício.

Entretanto, a Grécia votou e o partido Syriza alcançou a maioria relativa (32%, se bem recordo) a que, dadas as bizarras particularidades do sistema, se acrescentaram 50 deputados (em 300) para permitir o aparecimento de maiorias estáveis. Como tal não sucedia, o partido ganhador associou-se a um partido xenófobo e de extrema direita para conseguir maioria na câmara.

(Repare-se que poderia ter escolhido outro parceiro, desta feita de esquerda, para obter idêntico resultado... Todavia, foi a direita quem foi premiada. Poderá sempre dizer-se que podia ser ainda pior: Mais à direita ainda há o Aurora Dourada, monstruosidade francamente nazi e com uma inata vocação para a violência de rua. )

Em Janeiro, o Syriza sob a batuta de Tsipras e Varufakis, encetou uma longa conversa guerrilheira com a “Europa”. Havia que conseguir mais um acordo com credores (que, lembremos, já por uma vez, e só de uma vez!, perdoara 100 mil milhões de euros à Grécia. Esta soma, pelos vistos desprezível aos olhos dos helenófilos radicais de cá, é como se sabe superior em 20% ao que Portugal conseguiu junto da troika).

Durante seis longos meses, no meio de estertores cada vez mais violentos, os dois líderes gregos, pensando provavelmente que estavam nas Termópilas sob as ordens de Leónidas perante uns persas travestidos em euro-grupo, recusaram obstinadamente qualquer acordo.

(convém lembrar que os espartanos que lutaram e pereceram nesse formidável desfiladeiro, tinham sido escolhidos entre os homens que já tinham descendência, útil precaução do Estado a que pertenciam. Também é bom lembrar que a seu lado estavam uns milhares de soldados fócios e da Tessália. E que a derrota grega foi obra de um certo Efialtes, grego também, como muitos comandantes do exército persa, que ensinou um caminho que contornava a forte posição defensiva de Leónidas).

Quando, em Julho caiu o prazo de pagamento da primeira dívida, havia uma forte possibilidade de se chegar a um acordo. Eram escassas e de pouco alcance as diferenças que persistiam. Subitamente, depois de uma reunião que parecera prometedora, Tsipras telefona a Merkel e Hollande, denunciando qualquer acordo e anunciando um referendo.

Os “amigos da Grécia” ulularam de pura alegria. Finalmente, um povo que não se verga. Finalmente, a democracia a agir (é extraordinário que o referendo seja mais democrático do que a representação mediada por assembleias livremente eleitas mas isso são pormenores. Ou não: para os novos “doentes infantis do comunismo”, de cá ou da Europa, a democracia parlamentar é uma bizantinice, um “cretinismo” e uma falsa representação da realidade. Como, aliás, a existência de vários partidos ou de opiniões contrárias).

Uma certa “europa” ajudou à festa. Uns (as extremas direitas cuja paradigma mais grego é Marine Le Pen) por ódio puro e simples à democracia, outros que se distinguem mais pela arrogância do que pelo bom senso, entenderam que chegara o momento de provar que o Syriza era um exemplo a não seguir.

Foi neste mar de escolhos que os auto-proclamados novos Argonautas se meteram a navegar. Imprudentes, sem saber um mínimo de História (a deles e a dos outros) acreditaram que uma ameaça de auto Grexit era suficiente para os restantes voltarem a emprestar sem garantias de qualquer espécie.

E nisto foram acompanhados por um par de boas almas que juram a pés juntos que, sem a Grécia, não há Europa. Que a Grécia, provavelmente a clássica, era a mãe da democracia (o que não é exactamente verdadeiro); que a cultura grega (sempre a clássica) era um dos dois pés da Europa, o que também não é toda a verdade, sequer grande parte dela: A Europa também se fez com o cristianismo, com Roma, com os Germanos, com os escandinavos sem excluir muitos autóctones não gregos (os “barbaroi”) de que os míticos celtas, os iberos e outros desaparecidos podem ser exemplos. A Europa construiu-se dificultosamente (às vezes contra os gregos como ocorreu com os conflitos constantes com Constantinopla) e deve muito à expansão europeia quinhentista, ao Império britânico, à filosofia alemã, à contribuição árabe, mormente a peninsular e por aí fora.

Se é evidente que a construção europeia não pode ser apenas económica também não é menos verdade que tudo começou na “Comunidade do carvão e do Aço”, no “Benelux” no “Mercado Comum”. A guerra fria, por um lado e a necessidade de defesa concorreram com a ideia generosa de uma por enquanto mítica unidade europeia que em tempos ia do Atlântico aos Urais.

O “euro” foi inventado para amarrar a Alemanha reunificada e, por isso mesmo, foram criados mecanismos severos que, se tivessem sido observados, seguramente excluiriam a Grécia e, quiçá, outros países. Portugal eventualmente mas também outros agora tão exigentes com os gregos.

A dramática situação (e foi ela quem empurrou Varufakis e não a má vontade dos europeus, mas a história é sempre mal contada...) que se foi agravando dia após dia desde Janeiro sem que os dirigentes gregos se afligissem especialmente, teve o seu ponto de non retour com a vitória do não.

A alegada medonha “humilhação” (já Hitler abusava do termo, talqualmente os generais golpistas argentinos quando se auto-suicidaram com a invasão das Malvinas. E mais recentemente, um pobre diabo sul americano vai pastoreando o seu povo para o nada sempre contra uma histórica humilhação do capitalismo) terá impulsionado os cidadãos gregos a votar um “não” a que Tsipras os convidava.

E o inferno escancarou as suas temíveis portas, soltou demónios que antes rosnavam mas não berravam (os verdadeiros finlandeses e os seus cúmplices na europa severa nórdica e também centro europeia).

As reuniões absolutamente angustiosas (para gregos sobretudo mas também para quem, apesar de tudo, ainda crê numa hipótese europeia) sucederam-se enquanto se ia verificando que a necessidade grega ia muito mais além dos parcos milhares de milhões discutidos até às vésperas do desvairado referendo.

Agora, era uma soma bem maior a necessária. A Grécia no consulado de Tsipras vira a crise aumentar desordenadamente e nesta ultima semana o “desastre era iminente” e não se lobrigavam “meios para o evitar”. As tristíssimas filas à porta de bancos fechados (e falidos), os velhos sentados na rua a chorar, eram a contra prova crudelíssima da alegria pelo não.

Mesmo que ainda não se conheça todas as medidas acordadas unanimemente hoje de madrugada, mesmo que se não saiba qual vai ser o voto do parlamento grego, uma coisa é certa. A Grécia vai passar por um longo período de dramáticas condições de vida, vai ser finalmente obrigada a fazer as reformas que nunca quis levar a cabo, vai ter de terminar com um ciclo que se caracterizava por uma continua injecção de fundos e de empréstimos que com os saldos do turismo convertiam a população num aglomerado de rentistas modestos enquanto os ricos, a Igreja ortodoxa, os armadores e centenas de corporações profissionais não pagavam impostos ou, se o faziam, era numa quantidade obscenamente ridícula. Isto para não falar numa imensa multidão de funcionários públicos que, à semelhança dos anedóticos jardineiros de uma instituição sem terreno iam ganhando a vida sem trabalho nem vergonha.

Eu não sei, nem sequer adivinho, o que Tsipras vai dizer ao parlamento. Nem sequer tenho a certeza, agora que conheço a personagem, se até lá, não muda de opinião. Sei, apenas que as suas desastradas farroncas empurraram o país que se lhe confiou duas vezes para uma situação que talvez só tenha um ou dois precedentes conhecidos: o Zimbabue onde se morre de fome ou a Coreia do Norte onde ocorre o mesmo mas sob o controle férreo de um louco anormal.

Em ambos os casos, as tiranias reinantes, destruíram tudo e irão destruir ainda mais.

Na Grécia antiga que enche a boca de muita ignorância atrevida, melhor dizendo em Atenas, inventora de uma democracia escassa que excluía mulheres estrangeiros escravos e mesmo algumas classes pobres, nessa Atenas que se auto-imolou quando criado um império marítimo mão soube conservá-lo por negar às cidades aliadas os mesmos exactos benefícios da democracia com que se governava internamente, havia uma especial tradição jurídica quanto aos erros dos seus governantes. Com uma periodicidade regular, o povo reunia e votava uma espécie de moção de confiança nos seus altos representantes.

Num pedaço de barro cozido, os cidadãos escreviam o nome daqueles que a seus olhos deveriam ser banidos da cidade por períodos que podiam ir até aos dez anos. Chamava-se a isso votar o ostracismo e dele foram vítimas alguns cidadãos extremamente célebres.

Se tal medida fosse votada hoje, estou em crer que, além de muito “boa” gente ligada aos velhos partidos clientelares poderia preparar-se para viver no exílio. Tsipras pelo que fez, pelo que não fez, pelo que prometeu e pela situação que criou poderia também fazer parte do lote. A sua governação vai deixar marcas, cicatrizes, feridas por sarar que, por muito tempo, serão uma visível vacina a brandir por adversários políticos e ideológicos um pouco por toda a Europa.

No meio disto tudo quem sai a ganhar? Não aposto em Scheubel, mas mais comezinhamente na insidiosa extrema direita que vai prudentemente fazendo o seu caminho em muitos e diversos lugares. Apoiaram a sanha anti-europeia do revolucionarismo maximalista do Syriza e, agora, quais abutres, comem-lhe eleitoralmente os restos.

Vai uma aposta?

 

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