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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

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15
Jul15

Estes dias que passam 332

d'oliveira

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Em que ficamos?

Em que não ficamos?

 

O sr. Tsipras assume “ as (suas) responsabilidades por...qualquer erro cometido. Assume a responsabilidade por um texto em que não acredita e que só assinou para evitar o desastre no país”.

Tudo isto que já não é pouco vem escarrapachado no editorial do “Público”. Quem o assina esqueceu-se (?!) de uma outra declaração que corre as televisões de todo o mundo, até a portuguesa. Tsipras, sempre ele, sempre inspirado, declarou que em Bruxelas foi alvo de “sufoco e de chantagem”.

Deixemos de lado a acusação aos restantes colegas que já tinham sido elegantemente acusados de “terrorismo” pelo sr. Varufakis.

Na saída da reunião onde conseguiu (diz ele) evitar o desastre (coisa que ainda não está provada), não foram estas as palavras do Primeiro Ministro grego. Nem de perto nem de longe.

Tenho a vaga impressão que Tsipras pensará que na “Europa”, entre os barbaroi (os que não falam grego) ninguém percebe a sua língua materna (mesmo se esta já está, e desde há muito, muito afastada da língua de Demóstenes ou de Péricles). Confiando no analfabetismo dos restantes comparsas, Tsipras, em chegando a casa, sacode o pó da viagem, calça as pantufas e reponta contra os malandros que só querem a perdição do Syriza, dele e dos gregos.

Um par de criaturas muito suas afeiçoadas (e refiro-me a um ignoto Carlos César, cuja pujança intelectual ou política desconheço, e ao ex-deputado europeu Rui Tavares que hoje mesmo apela para uma quinta ou sexta ou enésima Internacional que finalmente nos levará aos “amanhãs que cantam” numa “sinfonia” de boas vontades, solidariedades, juras de amor, generosidades à “Europa” (a dele, claro) construída sobre os cadáveres obscenos dos mafiosos que assaltam a Grécia, a obrigam a receber mais 85 mil milhões, a fazer uma reforma fiscal que ponha toda a boa gente helénica a pagar impostos devidos, a organizar o cadastro predial do país, a limitar a absurda despesa militar, a alterar a idade da reforma para parâmetros europeus, etc., etc.

Faço parte dos que pensam que a Grécia estaria melhor fora do que dentro do euro. Tenho a ideia que com menos milhões de euros se poderia ter ajudado o país a sair com alguma dignidade. Ou, que saísse, com um vasto e segundo perdão parcial da dívida. Não acredito que ela venha a pagar o que actualmente deve. Tenho por certo que os 5 mil milhões avalizados por Portugal nunca mais regressarão à pátria.

(É curioso mas nenhum dos “nossos” desvelados amigos da Grécia alguma vez falou disto. Nem quando falam da situação económica portuguesa que, apesar de tudo, melhoraria um pouco com o regresso desses euros pródigos. Pelas vagas contas que consigo fazer, neste pacote agora prometido, vão mais mil milhões que serão também eles pagos pelos contribuintes portugueses, esperando eu que os senhores César e Tavares também contribuam.)

Mas, voltemos à vaca fria: que crédito se pode dar a um primeiro ministro que vai aplicar uma política em que não acredita, que é fruto de chantagem, que é contestada por uma substancial e perigosa fracção do partido que o sustenta e que, trágica circunstância, vai ter de pedir apoio à oposição? Quanto tempo lhe darão? Que meios?

Mas há mais, se os leitores/as fossem grego/as que pensariam de um governante que o/a convida a dizer não a um acordo e, depois de obter o seu aval, vai negociar algo muito pior, muito mais oneroso, muito mais “humilhante”, numa situação que, no espaço de uma semana, ainda se degradou mais devido, justamente, ao suspense criado pelo anúncio do referendo?

E, ainda mais: que pensarão os cidadãos dos países mais recalcitrantes (e nem sequer falo na Alemanha que no meio disso é seguramente a mais moderada), Finlândia, Bálticos, Eslováquia, Áustria, Holanda (cujo primeiro ministro há ainda pouco tempo, afirmava que “para a Grécia nem mais um cêntimo” (iria)?

Há dias, a senhora Merkel lembrava que o que tinha falhado era a “fiabilidade” de Tsipras. Será que estas últimas observações do cavalheiro grego contrariam a sua opinião?

Regressando, por momentos, ao sr. Rui Tavares, desta feita a um seu artigo de anteontem, anotemos que ele afirma que há na Europa um par de governos que quer enterrar o Syriza. Claro que há.

Só não se percebe a indignação de Tavares que, suponho, acredita na “luta de classes” e nos seus inúmeros avatares. Será que o Syriza, o “Livre”, o “podemos” e outras aflorações de uma nova Esquerda radical não querem enterrar os partidos conservadores? E não querem, como sempre quiseram, enterrar os partidos socialistas “moles”, mormente os social-democratas que foram sempre indicados como social-traidores, social-fascistas, “cúmplices” da Direita?

Não deixa de ser curioso (será?) que no discurso dos Tavares todos que por cá pululam, se ignore ou omita sempre, a posição da Extrema Direita que, na Grécia ou em França ou noutras ásperas latitudes, tem sido carinhosa para com o Syriza, que aliás, nela obteve o aliado essencial para governar a Grécia.

(Governar é modo de dizer: desde que foi eleito não se conhece ao Syriza qualquer projecto de lei destinado a disciplinar as finanças gregas, a economia grega, o escândalo fiscal, as extraordinárias anomalias sociais e corporativas, o império desmesurado da Igreja Ortodoxa, a insolência dos armadores, o poder dos mediadores de turismo e outras aberrações dentre as quais é bom não esquecer a corrupção endémica e a ineficácia duma administração pública gigantesca e parasitária.)

Nada disto ocorreu aos súbitos e imprevisíveis admiradores de Tsipras que, de resto, devem estar a pensar transferir-se para outro diácono da mesma diocese não profanado por acordos com os (repito) desalmados barbaroi que, à imagem dos soldados de Maomé 2º cercaram (e conquistaram) Constantinopla.

Na longa e pouco caridosa tradição da extrema Esquerda a defenestração dos líderes é não só normal como considerada saudável. Esperemos pois por um substituto de Tsipras que Tavares, César, as senhoras do BE e restantes representantes da pureza revolucionária, erguerão como exemplo da alternativa anti autoritária, anti austeritária e verdadeira expressão dos povos cuja nova e anunciada primavera se aproxima.

Amen!