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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

10
Out17

Estes dias que passam 342

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As/Os padeirinhas/os de S Bento

 

Na curiosa “Assembleia da República” portuguesa passa-se um pouco de tudo. Desta feita, apareceu um voto de condenação da actuação policial no dia do “referendo” (ilegal, seja de que que ponto de vista for) na Catalunha.

Parece que a polícia não foi meiga (e não o foi, é evidente) contra os manifestantes que insistiam em votar. que insistiam, relembre-se, numa actuação ilegal considere-se o “Estatut”, a Constituição de Espanha, a lei geral ou, sequer, o parecer do Tribunal Constitucional.

Convirá recordar que neste género de situações a polícia é sempre violenta. Nem que se trate de simples empurrões aos cidadãos. Por um lado há sempre uma desproporção de forças: de um lado um grupo de polícias, doutro uma multidão. Se é verdade que uns estarão armados (seja de pistolas ou de bastões) não menos verdade é que do outro lado há sempre um número muito maior de pessoas que, e também isso se viu (ou só não foi visto pelas criaturas bloquistas) começando por normais protestos, rapidamente se excitam e começam também elas a mostrar não só violência verbal (e essa a polícia ainda aguenta) mas cara disposiçãoo de romper os cordões policiais à força o que obviamente não se faz com meiguice.

Quem sai para a rua para se manifestar, sabe para o que vai. Ou, pelo menos, no meu tempo (e que tempo: anos cinquenta finais, todos os sessenta e os setenta que se lhe sucederam e não apenas os antes do 25A) sabíamos. Tenho dessa época uma memorável experiência nacional e internacional. De facto, não só não perdi uma única oportunidade de sair e apanhar chanfalhada nos juvenis lombos, mas em terras alheias comi pela medida grande. em França nos anos 68 e seguintes, em Itália durante uma “estate violenta”(1972), em Espanha na época do fim do franquismo et j’en passe. Manifestei-me pelas causas mais diversas (e nem sempre as mais justas: cheguei a ir para rua pela Cinemateca Francesa, contra a construção da “tour de Montparnasse”, entre outras miudezas surpreendentes.)

De todo o modo, eu sabia o que arriscava. E, já agora, percebia o que os meus adversários defendiam e o modo como pensavam defender-se.

Há, além do mais, uma segunda observação a fazer. E ela é a seguinte. Nenhum poder, fáctivo ou legítimo quer afirmar-se pela violência. todos os poderes visam consolidar-se com o sufrágio dos cidadãos. Ou, pelo menos, com a indiferença destes. O dr Salazar usava a terna expressão “safanões dados a tempo”. “Safanões”, vejam bem!

Isto justifica a “violência” venha ela de onde vier? De modo algum. A violência é sempre injustificada. Os fins nunca justificam os meios. E estejam nesses fins a sociedade ideal ou o poder de meia dúzia. Aliás, nisto de sociedades ideais há sempre o poder de um escasso número de iluminados que se sentem os arautos e os salvadores da imensa maioria.

Mas voltemos ao nosso parlamento. Umas padeirinhas e respectivos émulos masculinos (não os esqueçamos) tomaram dores pelos lombos de catalães independentistas como antes já tinham tomado pelos do venezuelanos maduristas. Curiosamente, nem uns nem os outros cheiram, de perto ou de longe, a esquerda, pelo menos a esquerda clássica. Aquilo a que assistimos é populismo histérico, nacionalismo feroz e xenofobia. Desde a Esquerra (e já aqui o notamos) até à CUP aí os temos impantes. E depreciativos para com o resto da comunidade espanhola. Como se a palavra Espanha fosse um insulto. Recordemos que Espanha é o nome, desde os primórdios da construção do império romano, que a península teve. A actual Catalunha estava na chamada “Tarraconense” (de Tarragona) enquanto por aqui a norte estávamos na Galécia e os de Castela na Lusitânia...

(“Arriba, arriba gajeiro, arriba ao mastro real, vê se avistas terras de Espanha, areias de Portugal”) Espanha impôs-se interna e externamente mesmo antes de ser um país unido e unificado com a notável excepção portuguesa, fruto muito do acaso tanto quanto da História e do jogo de interesses europeus (justamente uma das mais tremendas derrotas catalãs tem a ver connosco que com eles e com outros –os que de facto eram influentes- interviemos na guerra da sucessão de Espanha, tendo um exército português ocupado Madrid por um breve período de tempo).

Portugal construiu-se primeiro contra Leão (Afonso Henriques tentou baldadamente apoderar-se de vários territórios galegos, o que nunca conseguiu) depois, e sempre, contra Castela. A monarquia dual filipina foi um mero intervalo, tanto mais que, do ponto de vista legal e político o reino de Portugal continuava a existir. Todavia, esta situação não perdurou muito por culpa de grandes validos espanhóis, da incapacidade de Filipe IV (III de Portugal), dos desastres da guerra entre Espanha e Inglaterra e Holanda. Portugal viu ocupados o Brasil e Angola (ou seja Luanda e cercanias), perdido o Ceilão e outras possessões asiáticas e arruinado boa parte do comércio. Entretida com as guerras e com a manutenção da Catalunha, a Espanha já não teve exércitos suficientes para vencer D João IV. De todo o modo, a guerra da Restauração durou praticamente 30 anos e teve o resultado que teve graças a oportunas alianças com a Inglaterra.

No entanto, a sombra espanhola persistiu sobre Portugal e mais ainda sobre o nosso imaginário pelo que o chamado complexo de Aljubarrota persistiu. Ainda hoje, são evidentes e repetidos, certos traços de anti-espanholismo entre elites portuguesas. O iberismo foi sempre excepcional e a duvidosa aliança entre Salazar e Franco (que aliás chegou a ter um plano para invadir Portugal depois de por este ter sido – e de que maneira! – ajudado durante a “Cruzada” anti República).

Daí um entranhado entusiasmo por bascos (que durante muito tempo por cá andaram sem grandes cautelas), por galegos (A UPG chegou a ter bases em Portugal) ou pelos distantes catalães cuja língua, história e cultura são olimpicamente desconhecidas dos nossos padeirinhos e padeirinhas.

Daí que no Parlamento tivesse aparecido um voto tonto e pueril contra a violência da polícia. Eu até admitiria que tivesse havido alguma discussão, que se tivessem pesado argumentos, que os inocentes deputados tivessem podido esclarecer-se sobre o problema catalão. Mas nada disso sucedeu. como, de resto, se previa.

O voto é tolo, provavelmente uma imbecilidade, não contribui para ajudar uns ou outros ou melhor, ajuda os inflamados que nestes últimos dias terão visto (mesmo se a miopia política seja de regra) que na Catalunha há tantos ou mais anti-independentistas que nacionalistas.

Assistimos a uma fuga para a frente de Puigdemont e companheiros. Sabem que se declararem a independência correm o risco de serem presos o que só lhes convém. Faça Rajov, de resto galego, o que fizer está sempre em dificuldades. Políticas, obviamente, porque na frente económica as coisas correm-lhe de feição. As grandes empresas, os bancos, a indústria estão em debandada da Catalunha. só isso constitui um rombo nas finanças regionais. As pessoas começam a transferir contas para bancos que estejam protegidos pelo BCE. A enorme minoria emigrante na Catalunha inquieta-se. A Europa avisa. Toda a propaganda independentista baseou-se num argumento falso: a permanência na União Europeia. Nem a Espanha, nem a União podem consenti-lo sob pena de despedaçarem a já frágil estrutura de nações nomeadamente no caso da Bélgica, da Itália onde há tentações identitárias de certas regiões, sempre as mais ricas, claro e, identicamente, as mais conservadoras o que também não espanta especialmente.

Claro que o BE, o PC e alguns irridentes do PS não só não se entusiasmam com a ideia europeia como até sonham com uma espécie de fim apocalíptico da História em nome de um cada vez mis longínquo proletariado que a riqueza gerada pela Europa afastou do sonho revolucionário.

Até ao momento, e basta ver como se comportam os países anteriormente “socialistas”, o resultado é claramente de sinal contrário. Os “órfãos do comunismo e da finada e pouco chorada URSS, aproximam-se velozmente da Direita autoritária e xenófoba. como se a frase “morra Sansão e quantos aqui estão” fosse preferível a esta morna mas real prosperidade (que também, e já se viu, estraga os cálculos e vida da Esquerda dita (com algum exagero e inverdade) extrema.