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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

02
Jun17

estes dias que passam 351

d'oliveira

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Há boas notícias? Há.

E vão continuar?

 

1 Se ouvi bem a Sr.ª Secretária de Estado do Turismo, este sector em forte, fortíssima alta, teria criado 39.000 empregos. Se o que penso ter ouvido está certo, então a diminuição do desemprego (sempre benvinda, seja porque razão for e por quanto tempo puder ser) deve-se fundamentalmente, e quase só, a isso.

De todo o modo, dure o que durar, este fenómeno de atractividade nacional é bom. Todavia, eu sou de uma terra (Figueira da Foz) que durante setenta anos assentou boa parte da sua riqueza no turismo. Praticamente, desde o tempo de Ramalho Ortigão (o seu texto sobre a cidade em “As praias de Portugal” é do melhor que já lhe li.) até meados dos anos sessenta do século passado.

De repente, o Algarve emergiu com praias quase vazias, água mais quente, tempo sempre bom, pouco ou nenhum vento. Foi a debandada. Nunca mais a Figueira viveu verões de enchente como os da minha infância e adolescência. A cidade cresceu, tentou diversificar as suas actividades produtivas mas aquele maná de “banhistas” trazidos pelas linhas férreas (a da Beira Alta transportava espanhóis e a do Oeste as gentes da Estremadura enquanto o ramal de Alfarelos enchia a cidade de coimbrões. A Figueira era “Coimbra C” numa menção às duas estações coimbrãs, A e B. ) esmoreceu fortemente. Sic transit...

Os baixos preços portugueses já, nos anos sessenta, tinham trazido uma revoada de estrangeiros, franceses sobretudo. Mesmo hoje, são os baixos preços um dos nossos principais trunfos. Mas não o único. De facto, as zona leste e sul do Mediterrâneo entraram em convulsão. Muitos milhões de veraneantes abandonaram, temporária ou definitivamente, a Turquia, a Síria, o Líbano, o Egipto. A Tunísia está semi-deserta, a Líbia ainda mais, a Argélia no mesmo. Até Marrocos, o último país muçulmano ainda tranquilo, começa a ser olhado de viés.

Portugal foi uma alternativa exequível, pacífica, próxima, apenas um pouco mais cara, que beneficiou da expansão dos voos low cost. Novas zonas turísticas foram finalmente descobertas desde o Douro até ao magnífico Alentejo que já não é só praia.

O único problema do turismo é que, para muitos turistas, basta uma vez. Depois procuram outros locais, sobretudo no caso do turismo estival. Claro que, para compensar, estamos a assistir a um crescimento exponencial do turismo de terceira idade ao mesmo tempo que a combinação preços baixos de alojamento e alimentação com a descida dos custos de viajem (e o crescimento da riqueza individual em certa Europa e na Ásia - China ou Japão) garante, durante mais algum tempo, um fluxo igual ou crescente de visitantes. A descoberta de novos destinos internos também suscita curiosidade e interesse. Ainda há pouco tempo, turisticamente falando, o Porto era medíocre e agora é o que se vê (e, por vezes, se sofre...).

2 Um papagaio televisivo dominical e pouco original afirmava ontem que a eventual vinda de Madona e de mais uma dúzia de celebridades provava a inevitabilidade de uma enxurrada de novos residentes graças a um estatuto fiscal que tem feito despoletar a venda de habitação de luxo. Sem querer retirar o peso dessa procura (no Algarve é significativa) tal não chega para provar o que quer que seja. Não é a habitação de luxo que nos tira da miséria mesmo que engorde alguns construtores civis.

3 O país progredirá se criar mais riqueza, se atrair mais investimento significativo e reprodutivo, se elevar o ratio de exportações às alturas da Holanda ou da Bélgica. Para isso haveria de limpar o nosso incrível sistema fiscal onde a regra é a permanente mudança, agilizar a justiça fiscal e administrativa que mais parece viver em pleno século XIX e ter em clara linha de conta que, em algumas das nossas exportações, ainda pesa bastante o baixo custo da mão de obra. Ora, ao incrementar a produção nesses sectores haverá maior procura de trabalhadores (num país que envelhece a olhos vistos) e, obviamente aumentos salariais importantes. E relembre-se, outra vez, que nem todos os aumentos de produção se traduzem em aumento de emprego...

Isso poderá traduzir-se em preços menos competitivos e/ou em migração da produção para territórios de mão de obra mais barata.

Conviria ainda começar a pensar na clara mudança de paradigma que a revolução digital tecnológica vai trazer. Vão perder-se milhões de empregos e urge pensar em medidas alternativas e alterar o péssimo sistema de ensino que temos.

4 Subitamente, toda a gente, ou alguma, pelo menos, começou a alvoroçar-se com o êxito de Portugal. Tudo serve desde a eurovisão a premiar uma canção menos medíocre do que as concorrentes, até o Ronaldo com namorada e golos novos. No meio, há um deficit ultra lisonjeiro mesmo se obtido com cativações, paragem total de investimento público, efeitos de um oportuno perdão fiscal, manutenção das medidas austeritárias mais duras (ai os impostos indirectos...) e alguns outros normais truques. A questão que se põe é se, nos anos vindouros, este milagre continuará.

5 O Sr. Presidente da República, sempre no seu papel de 4º Pastorinho jura (ainda mais do que o celebrado professor Pangloss) que tudo vai bem, que tudo vai melhorar. Conviria, lembrar a S.ª Ex.ª que temos vivido uma época excepcional de juros baixos ou baixíssimos, de retoma crescente da Europa que naturalmente nos arrasta, de bondades do BCE que mais cedo ou mais tarde acabarão.

6 Seria bom pensar assim: batemos no fundo, falimos e agora as coisas estão menos más. Par que este panorama (cor de rosa aos olhos de Sª Ex.ª) melhore há muito a fazer. Muito esforço, muito sacrifício, muita imaginação, menos auto-elogio, muito menos complacência com os desvarios desenvolvimentistas à Sócrates (por pouco que não estávamos com mais um aeroporto faraónico e com vários TGV de curto percurso). O único grande investimento das últimas décadas que deu certo foi o Alqueva e convém saber como continuá-lo.

7 Finalmente, não basta estancar ou tornar mais lento o progresso da dívida pública. Há que começar seriamente a diminuí-la. E, já agora: atenção à dívida privada que, tudo indica, tem crescido nos últimos meses. Bastou uma aragem para de novo os portugueses se precipitarem em compra de casa e de automóvel, para não falar no crédito a férias e a consumos que poderiam e deveriam ser adiados. Parece que ninguém aprendeu nada. Já assim tinha sucedido nas duas fortes crises post 25 Abril do século passado. Euforia, despesismo, queda abrupta na triste e mesquinha realidade. Má sina, pior fado que nenhum êxito passageiro no futebol, em Fátima ou no fado apagam.