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Incursões

Instância de Retemperação.

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12
Jun17

estes dias que passam 354

d'oliveira

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Crónica de um naufrágio sem glória

 

Agora que os resultados da 1ª volta são conhecidos é fácil “fazer prognósticos” como, ironicamente se diz no futebol. Todavia, esta hecatombe sofrida pelo PS anunciava-se há muito. O PS francês vivia em respiração assistida muito antes de Hollande chegar à Presidência. Ouvir os tenores do partido nas televisões era já um exercício penoso. As pessoas perguntavam-se como é que numa capoeira com mais galos que galinhas havia uma espécie de paz. Não havia, claro mas o ruído dos duelos era “feutré” e a opinião pública distraía-se com os faits divers dos humores e amores do Presidente, coma escandaleira suscitada pelas acusações de uso indevido de dinheiros (públicos e privados) pelos sarkozistas e, sobretudo pela indefinição das alas mais radicais dos partidos de poder.

Ao longe, ou bem mais perto, a FN ia ganhando terreno nos antigos feudos proletários e aparecia como uma grande triunfadora nas eleições europeias, coisa que, para muito comentador estrangeiro, terá passado quase despercebida. As pessoas ainda acreditavam na política de cordão sanitário usada nas eleições internas (municipais, regionais, legislativas e presidenciais) para atirar para debaixo do tapete a incómoda realidade da Extrema- Direita. Nisto, a França, certa França, sempre deu lições a começar pela cambalhota no final da 2ª Guerra Mundial que transformou um país vencido (e, em muitos casos, convencido) na pátria da Resistência.

Começou aí o mito de uma nação de esquerda, indomável, em que um partido calado (quando não vagamente colaborante) até À invasão da União Soviética se pode apresentar como o campeão da revolta, da insubmissão (onde é que já ouvi isto?), o partido dos mártires (confundindo neste termo os mortos militantes e todos os que, sem partido, sem causa, sem acção ou reacção, eram massacrados pelos ocupantes alemães em guisa de resposta aos atentados).

Então, entre nós, a coisa foi excessiva: francófonos e francófilos desde sempre (e neste “sempre” incluo os anos das dramáticas ocupações francesas logo no início do século XIX) a bitola política foi sempre aferida pelo modelo francês. Até o dr Soares falava no seu “amigo Miterrand”, provavelmente por ser o francês a única língua europeia que(tant bien que mal) dominava.

Boa parte da inteligentsia indígena viveu o exílio em Paris, moldou-se nesse cadinho, importou todas as modas intelectuais gaulesas, desprezando ao mesmo tempo tudo (ou quase) o que se passava no resto do mundo. Suponho que terão ficado muito tristes com os resultados do tsunami deste domingo.

Todavia, que esperavam? Será que não viam o cansaço dos eleitores, a ineficácia das medidas económicas, o retrocesso da economia francesa, ao imobilismo social decorrente da incapacidade de vencer uma espécie perversa de direitos adquiridos por todo o género de corporações, muitas delas justamente sustentáculos dos partidos de poder?

Ontem, na televisão francesa, o actual Primeiro Secretário do PSF , Jean Christophe Cambadelis , advertia contra os perigos de uma excessiva maioria de Macron. Ou seja, fazendo jus, às suas origens trotskistas, Cambadelis entendia que o povo tinha votado mal. Tinha dado o seu sim a uma espécie de coartamento das liberdades democráticas. Uma maioria tão forte, quanto a que é possível imaginar, transformaria o exercício da Presidência num passeio ao campo, e esmagaria o diálogo e o confronto são de ideias. Felizmente, está fora da Assembleia. Perdeu como perderam todos os grandes dirigentes, Hamon incluído. A votação popular não lhes deu qualquer hipótese. Como se os eleitores quisessem dizer “entre estes os próximos de que se desconhece tudo ,antes os segundos. A seu tempo poderão ser corridos.”

O desastre da Esquerda estende-se implacavelmente aos seguidores de Mélenchon e, menos, ao PC que já era quase irrelevante. Com o picante de, em muitos casos, ser a “França Insubmissa” a passar o atestado de óbito aos candidatos do PS.

E a Direita?

OS Republicanos (LR) são também fortemente derrotados mas, apesar de tudo, salvam a mobília. Aparecem já como o segundo maior bloco na Assembleia. Com a vantagem suplementar (e não é assim tão pouca)de serem um partido estruturado, experimentado face a uma coligação onde pouco está definido estrategicamente ( e mesmo tacticamente...) Se alguma fragilidade há em La Republique en Marche esta é a mais evidente. É um bloco protestário, inconformado com o pântano político, mobilizado por u político capaz mas ainda sem a hierarquia necessária, mesmo se mínima, que permita, além do não rotundo à situação actual, um claro sim a medidas mobilizadoras e restauradoras de uma certa grandeur française a que indiscutivelmente Macron aspira.

E a Extrema Direita de Madame Le Pen, Philipot (para já salvo in extremis)? Apanha um grande balde de água fria, aliás um resultado mais consentâneo com a sua real influência na sociedade. O sistema de duas voltas pode ditar-lhe uma sorte negra. Para tal basta que funcione, ou volte a funcionar, o “cordão sanitário”. Neste capítulo, e diferentemente do que sucedeu na 2ª volta das presidenciais, Mélenchon já se pronunciou contra a FN, apelando a votar no candidato que a enfrenta, circunscrição a circunscrição. Claro que, neste caso, Mélenchom persegue um outro objectivo: ter mais deputados do que Marianne Le Pen. Nisto o ego da criatura, émula de Maduro, também conta!

Uma palavra final para o senhor Manuel Valls, ex-primeiro ministro socialista, ex-derrotado nas primárias do PS, ex sabe-se lá mais o quê: passa à 2ª volta graças a não ter tido pela frente (Favor de Macron) candidato LREM. Cabe-lhe derrotar uma senhora melenchonista. Se eu fosse eleitor dessa circunscrição poderia contar com o meu voto. Mal por mal antes um europeísta do que uma caricatura pro-venezuelana.