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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

19
Jun17

Estes dias que passam 355

d'oliveira

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“A morte neste jardim”

(enterrar os mortos e cuidar dos vivos)

As imagens (muitas vezes sensacionalistas) que gulosamente as televisões repetem vezes sem conta, deviam fazer-nos reflectir. Como é que, num país onde Verão após Verão, se sucedem as chamas, as mortes, a ruína dos mais pobres, dos mais velhos e dos mais distantes, ninguém atenta nesta horrenda verdade: gastamos em combate aos incêndios mais (muito mais, várias vezes mais) do que Espanha, França, Itália ou Grécia.

Todavia basta reparar nas imagens: mato por todo o lado, floresta desorganizada, estradas e caminhos, bem como as casas, paredes meia com as árvores. Basta uma chama e vai tudo. Sabemos disto desde há décadas. O interior perde gente, antigas terras agricultadas ficam baldias e selvagens, quem resta investe em eucaliptos e pinheiros, numa desordem que agora cobra um alto preço. Sessenta e um mortos! Para já. Mas é infelizmente previsível que esta macabra contagem continue a registar progressos. Há desaparecidos, as frentes de fogo continuam activas, o calor não baixa, o vento continua a soprar com força, a humidade atmosférica está em níveis baixíssimos.

E o Verão ainda nem começou...

De quem é a culpa? Vai, mais uma vez, morrer solteira? Desta feita não há incendiários, desculpa muitas vezes fácil e esfarrapada que oculta as falhas políticas de todos, Governo, autarquias, pequenos proprietários rurais, proprietários absenteístas ou emigrantes. Não há prevenção que se veja. Ou seja, quando, desde há muito, era imperioso ordenar a floresta, criar leis que o permitissem, punir quem não limpa os seus pinhais e florestas, tornar as estradas nacionais seguras sem barreiras de sombra e de árvores (nunca esquecer que boa parte das vítimas morreu na estrada em fuga, em pânico, perdidas pessoas e bens). Quem ficou teve melhor sorte: até ao momento, pese a angustia, o medo, a desolação, ainda está vivo.

Quem viaja por esse interior intensamente florestado, repara na falta de “estradões” corta fogo. Basta ir a Espanha para ver como se faz. Quem passa pelas matas ordenadas pertença das grandes papeleiras, vê que aí tudo ou muito, ou alguma coisa, se fez para prevenir o incêndio. Prevenir é melhor, é mais barato, é mais futurante do que remediar.

Cada vez se gasta mais em aviões, em helicópteros, em equipamento pesado de bombeiros, em formação. Desgraçadamente, graças a um conjunto dramático de coincidências, tudo isso se mostrou inoperante.

Parece que não há guardas florestais! Parece que nada ou pouco regulamenta as plantações ou simplesmente o que lá está. Grande parte da floresta nacional portuguesa desapareceu sendo substituída pelas plantações rápidas desde o pinheiro ao eucalipto. Que ardem com facilidade, como se vê. De resto, a floresta arde, sempre ardeu, especialmente a mediterrânica. Temos de viver com isso, aliás vivemos com isso há centenas ou milhares de anos. Mas, pelos vistos, não aprendemos nada. Durante séculos a floresta era protegida pelos rebanhos, pelas pessoas que iam por mato para camas dos animais, para aquecimento. Agora não há pessoas, o aquecimento faz-se a gás e os rebanhos são escassos. A erva cresce, seca, torna-se combustível sem mais. E arde.

Agora, o tempo é de choro e de apelos à solidariedade (de todos) e à coragem dos que perderam tudo, para não falar dessa outra quase certeza: daqueles que, durante os próximos três meses irão perder terras, casas, gados, bens, parentes e amigos.

Lamentavelmente, se acaso a selecção se safa, este desastre passará para um plano mais opaco. Se, ao menos, estes primeiros dias de apelos se traduzirem numa ajuda razoável às vítimas sobrevivas, já teremos um milagre mesmo se o verdadeiro auxílio seja a inflexão das políticas da floresta, milagre dos milagres, quase impossibilidade teórica e prática.

Senão... as árvores voltarão a crescer (sobretudo os eucaliptos que convivem com o fogo) a desordem continuará viva e alegremente irresponsável, os estradões ficarão no papel, os guardas florestais brilharão pela ausência, os bombeiros voltarão a receber mais equipamento e as mortes seguramente repetir-se-ão. Como a frágil comoção pública e o dedo apontado aos incendiários (parece que alguém teria pensado numa espécie de prisão preventiva domiciliária dos eventuais ateadores de fogos!!!)

 

Nas reportagens que fui vendo, dois destaques: as televisões repetiam continuamente as mesmas imagens e as mesmas entrevistas numa ânsia de gastar tempo e ganhar audiências.

Vários populares afectados pelos incêndios entenderam queixar-se dos bombeiros (nove ou dez deles já feridos e hospitalizados) que não os ajudavam a salvar os parcos bens, a casa, o terreno. Nem sequer percebiam que os bombeiros tinham uma missão bem mais dura, mais perigosa e mais urgente: salvar todos, circunscrevendo o avanço do fogo. As televisões adoraram estes queixosos, deram-lhes a palavra sem perceber a verdadeira missão de quem informa sobre um desastre medonho e que é não ceder ao fácil, à demagogia e ao egoísmo. Mas isso seria pedir demais aos repórteres no “terreno”, não acham?

 

* O título do folhetim pertence a Luís Buñuel que para este filme (1956) requereu Simone Signoret e Charles Vanel.

O subtítulo pertence ao Marquês de Pombal. Era um déspota, um ambicioso, um parvenu mas também soube ser eficaz. Por vezes, demasiado “eficaz”...