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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

04
Dez17

estes dias que passam 363

d'oliveira

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Também tu, mcr?

 mcr 2 e 4 de Dezembro

Também, leitoras e leitores amigos mesmo se escassos. A minha vontade, confesso-o já, era passar ao lado, assobiar uma modinha e fingir que estava distraído. Mas isso, convenhamos, é impossível. Há mortes que fazem um tal arruído (escrevi arruído, à moda de Fernão Lopes) que não há escapatória possível.

No meu caso, por várias razões sendo que a principal é o facto de ser leitor do “Público”. Leitor desde o primeiro dia com a mesma devoção que me liga a “Le Monde” e a “L’Express”, publicações que compro e leio desde os inícios dos anos 60. Os tempos eram outros, é verdade, mas foi com esses órgãos de imprensa que me formei. Em plena guerra da Argélia, é bom recordar. Numa altura em que era difícil discordar do governo da França e apontar o dedo contra a persistência de mitos como o da pátria indivisível. Hoje qualquer deles mostra cicatrizes e diferenças. Como o Público, claro. Todavia, o caminho do jornalismo livre e independente é mesmo assim. Mudam os tempos, mudam as causas mas não o espírito “frondeur” que, provavelmente amortecido, ainda mantemos mesmo com o passar dos anos, a experiência, as ilusões desfeitas, a “áspera verdade” (Danton) e o inevitável balanço que qualquer um de nós tem (deve) de fazer sob pena de ignorando-o se transformar no papagaio de Long John Silver.

Deixemos, porém, a “Ilha do Tesouro” e passemos à morte do moderno fazedor de tesouros que hoje irá a enterrar: Belmiro de Azevedo, o homem da Sonae, da Optimus, do Público. Morre carregado de um coro de elogios vindos das mais diversas personalidades muitas das quais ele, com algum humor, outro tanto de sarcasmo e muita malícia, foi alfinetando. Bastaria o exemplo de Marcelo Rebelo de Sousa de quem BA disse o que Mafoma não se atreveu a dizer sobre o toucinho. O mais interessante da farpa “belmiriana” é ela acertar em muitos dos pontos fracos de MRS que do comentário do empresário sai muito mal ferido, as mais das vezes com inteira justiça.

Eu nunca falei com a personagem que, de resto, não me fascinava especialmente. Não que não lhe admirasse a habilidade e o gosto pelo risco ou o facto de, ao contrário da grande maioria dos seus colegas, ter criado na Sonae e nos restantes universos empresariais que criou uma verdadeira “cultura de empresa” que, desde cedo, foi claramente visível. Desafiou os poderes do Estado e nem o PREC o conseguiu dobrar. Foi, nessa altura, defendido pelos seus empregados e colaboradores que, como ontem alguém referia, chegaram a fazer uma “greve ao contrário” contra os apetites perigosos de um “Estado” inimigo da iniciativa privada e ignorante do que uma empresa moderna era. As batalhas que perdeu, e o caso da PT é exemplar, perdeu-as na secretaria por batota governamental. A história é o que é mas apetece pensar no que a PT seria gerida por Belmiro. Pior não estaria e é mesmo altamente provável que estivesse muito, mas muito melhor.

Já escrevi que nunca o conheci (nem fiz por isso, aliás). Limitei-me a avistá-lo muitas manhãs de sábado ou domingo a caminhar pelo Molhe metido num vulgar (aliás feio) fato de treino. O homem que passava não parecia rico nem pretendia parece-lo. De certo modo, até essa simplicidade sabe a virtude.

De todo o modo, devo-lhe o “Público”, um jornal que leio desde o primeiro dia e que é uma excepção no panorama jornalístico nacional. Zango-me com o jornal duas ou três vezes por mês mas sei que isso só melhora a relação leitor-jornal. É são discordar. É são irritar-me com certas opiniões ou editoriais. Mas esse é o preço que gostosamente pago diariamente para ter uma informação decente, equilibrada.

Belmiro de Azevedo nunca terá ganho dinheiro com o “Público”. Consta mesmo, que até o perdeu. Aliás, tenho uma prova viva disso. Fui, há largos anos, convidado para colaborar regularmente com uma coluna semanal (ou quinzenal já não recordo). O convite foi aliás repetido durante uns tempos mas tempos de austeridade posteriores deixaram-no sem efeito. Graças a isso, juntei um quarteirão de crónicas que mais tarde com mais alguns acrescentos publiquei em livro. Sem o convite do Público nunca as teria escrito e, provavelmente, nunca teria tido a oportunidade de corresponder ao convite para vir a integrar a equipa deste blog onde escrevo de forma regular há mais de dez anos. Foi bom, foi mau? Só os meus leitores e leitoras poderão responder. A mim dá-me gozo e Belmiro de Azevedo com o seu gesto de criar um jornal (ou de o pagar incondicionalmente) deu-me a coragem para estar aqui a crocitar constantemente contra o estado a que isto chegou.

Para terminar: fala-se muito na coragem de Belmiro em criticar sem receio o poder político. Convenhamos: o homem tinha poder suficiente para o fazer sem temer retaliação. Em vez de coragem, prefiro pensar que ele era profundamente independente dos pequenos potentados que por aí pululam. Mas a independência também tem os seus custos e a PT ou o BPA são disso inequívocos sinais. E isso não é pouco, bem pelo contrário.

R.I.P.

PS: morreu Zé Pedro, guitarrista do Xutos e Pontapés. Não era a minha música, pouco o ouvi mas que ele marcou, e muito, a música ligeira portuguesa, não há dúvidas. E pelo que vi na TV de entrevistas dele, havia ali, um lado luminoso e digno de estar na música e na vida. Só isso já faz uma personalidade.

R.I.P.

 

* razões de pura preguiça atrazaram este post escrito no quente dos acontecimentos. Estive para não o publicar mas o que lá digo diz-se em qualquer momento. Sai hoje sem modificar uma única letra. Preguiça e teimosia e, provavelmente, muita pretensão, são as minhas coordenadas e um pouco o meu compromisso.