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Incursões

Instância de Retemperação.

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02
Jan18

Estes dias que passam 364

d'oliveira

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Roupa Velha

mcr 2.1.18

 

Há tantas receitas de roupa velha quantos os praticantes e amadores deste excelente aproveitamento. A mais habitual é de bacalhau e usa-se muito no Norte depois no almoço de Natal e no dia de Ano Bom. Os restos do bacalhau bem desfiado juntamente com a couve, ou grelos, cebola cozida um pouco de alho e um traço de vinagre e azeite compõem uma boa entrada para o peru recheado, o cabrito o capão e outras maravilhas que se podem comer nesse ia de fartura, de família e de mesa enorme e generosa.

Em minha casa, quando era pequeno, a roupa velha significava passar por ovo quaisquer estos, mormente de carne e o meu irmão e eu disputávamos sem grande escrúpulo e alguma pouca animosidade cada garfada.

Dito isto vamos à roupa velha com o que nos sobra do ano que lá vai. Prescindindo de outras ”cavalhadas” fiquemo-nos pela lei de financiamento dos partidos adoptada pelas formações parlamentares do PS, PSD, BE e PC. E dos Verdes, ia-me esquecendo. Como é possível olvidar essa formidável organização que só vê o dia na AR por obra e graça de uma alegada “coligação” e que nada mais é do que um pseudónimo proto-ecologista do PC?

Não vale a pena esmiuçar os aspectos mais contestáveis (e são bastantes e surpreendentes) da lei pois isso fez parte dos noticiários, dos comentários e de uma série de artigos publicados durante a semana que passou.

Pessoalmente, nem me estranha o tom confidencial que alegadamente presidiu à confecção da lei. Parece que um distinto constitucionalista veio a terreiro defendendo a pureza dos trbalhos preparatórios e negando o óbvio: os paisanos, isto é, nós todos, devíamos andar em viagem por outra nebulosa porquanto ninguém parecia saber do que se cozinhava nos cafundós do parlamento.

Neste momento, aguarda-se que o Presidente da República mande a lei para “o ventre da mãe terra pelo esófago da latrina” (Camilo Castelo Branco, sempre esse homem das Arábias).

Entretanto, os partidos votantes da lei num raro ataque de quase unanimidade (salvaram-se do escândalo o CDS e o PAN permitindo-me usar o meu defunto latinório: aparente rari nantes in gurgite vasto, Eneida, I, 118) vieram à estacada em ordem dispersa. Enquanto o PS e o PSD tentavam defender o indefensável, o que, de certo modo, os dignifica, os dois comparsas da “Esquerda” “borregaram” vergonhosamente. Numa penada, o BE veio dizer que não concordava com a lei mas que o seu voto favorável representava o seu esforço para melhorar aquela mistela mesmo se o resultado era péssimo. O PC acrescenta a esta graçola de mau gosto a ideia de que a lei votada é inconstitucional não se percebendo a razão do seu voto.

Dito isto, e convidando os leitores que até penaram a procurar na internet os textos completos das absurdas (senão abjectas) declarações destas formações que tentam fugir com o dito cujo à seringa e provocar a confusão nos cidadãos que acabam por não entender qual foi de facto a real motivação dos seus votos a favor (e nada permite sabe-la) podemos ver a que grau zero da responsabilidade política nos tentam condenar. Aquela triste mistela, aquele miserável aproveitamento dos dinheiros públicos, afinal nunca existiu. Há, tão só, dois pulcros partidos, verdadeiros “cavaleiros da Imaculada” (Esta coisa existiu, juro-o mas era, apesar de tudo bem mais inocente) que, perante uma miserável conspirata do “centrão”, tudo fizeram para dignificar a lei e a assembleia que a pariu. E sempre, com a mira num melhoramento futuro, claro mesmo se ele fosse atirado para as calendas gregas.

Esta roupa velha é tóxica e aumenta prodigiosamente o perigo de indigestão post festividades. O mal que esta procissão de lúgubres tontos ou de gente que nos tenta enganar não pode, não deve, ser esquecida depois do foguetório de fim de ano, dos fogachos de artifício, das boas intenções proclamadas para o novo ano.

E não vale a pena tentar vir afirmar que a culpa é dos deputados votantes. A culpa, caros leitores, é das direcções políticas. A deputadagem vota o que lhe mandam, depende absolutamente dos aparelhos partidários, levanta ou senta o calejado cu como lhe mandam os que realmente mandam.

O resto é paisagem.

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