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Incursões

Instância de Retemperação.

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08
Jul15

Grécia, União Europeia e Portugal

José Carlos Pereira

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Grécia, União Europeia e demais credores correm contra o tempo, em busca de um acordo que permita salvar a Grécia, a Europa e o euro. Ninguém sabe o que sucederá se esse acordo não for alcançado e houver uma ruptura. Alguém quererá experimentar?!
Após décadas de sucessivos erros, abusos e má governação, nas mãos da Nova Democracia e do PASOK alternadamente, a Grécia procurou sair do beco sem saída em que se encontrava elegendo um governo liderado pelo Syriza, força política emergente na extrema-esquerda. Pior do que estava não podia ficar e os gregos decidiram apostar naqueles que ainda não tinham alcançado o poder.
Aqui e ali com alguma ligeireza e demasiado show-off, o novo governo decidiu afrontar as instâncias europeias, negociou sem negociar, avançou e recuou e viu o seu país ir definhando, sem encontrar, da parte da União Europeia e dos credores, a abertura e a solidariedade que o país justificava, depois de uma queda histórica de 26% do PIB entre 2008 e 2013, que colocou 36% dos cidadãos gregos em risco de pobreza ou de exclusão social, que deixou mais de um quarto da população activa desempregada e elevou a dívida pública para cerca de 180% do PIB.
Sem poder aceitar mais doses sucessivas de austeridade, que agravariam as condições do país e dos cidadãos, o primeiro-ministro Tsipras avançou, temerário, para o referendo do passado domingo, que acabou por reforçar a sua posição no país e na Europa. Logo no dia seguinte, deixou cair o ministro das Finanças, que passara a ser um obstáculo em Bruxelas, e reuniu o apoio efectivo dos principais partidos da oposição. Tsipras deixou de ser o primeiro-ministro do Syriza e passou a representar um vasto espectro político, que apenas deixou de fora os comunistas e a extrema-direita.
É impossível não simpatizar com a coragem e a tenacidade do povo grego. É totalmente justo pugnar por um outro caminho, uma vez que está visto que a austeridade por si só não serve. A direita (do capital? dos interesses?) tomou conta do poder em quase toda a Europa e parece que estamos condenados a seguir a sua cartilha. Como alguém já escreveu, parece que deixou de haver lugar para políticas de esquerda ou de centro-esquerda nesta Europa de pensamento único.
Ver altos dirigentes socialistas e sociais-democratas seguirem de forma acrítica o PPE – autênticos suplentes do PPE como apropriadamente lhes chamou Pacheco Pereira – interpela todos aqueles que acreditam numa forma diferente de fazer política e de construir uma sociedade. Não nos podemos resignar a esse caminho único.
O PSE acabou de aprovar uma declaração comum assente em quatro pontos fundamentais: evitar o “Grexit”, defender menos austeridade e mais investimento e ajustar o serviço da dívida ao ciclo económico. Esses propósitos têm de ser perseguidos. A União Europeia não pode atirar a Grécia para fora do euro e entrar em mares nunca dantes navegados, como referiu Mario Draghi. Qual o preço que teríamos de pagar?
Quanto a Portugal, sempre na linha da frente a exigir mão dura e punitiva sobre a Grécia, percebe-se que ao governo PSD/CDS interesse afirmar que não há via alternativa àquela que adoptou em Portugal, seguindo os ditames europeus. Caso contrário, todo o seu argumentário político cairia por terra.
Creio, contudo, que a altivez dos nossos governantes passaria depressa caso a Grécia mergulhasse numa crise profunda com a saída do euro, pois isso não deixaria de afectar sobremaneira a dívida pública portuguesa e o financiamento da nossa economia. Só não vê quem não quer.
De resto, como hoje avisa Teresa de Sousa no “Público”, “as consequências de uma saída grega para Portugal são óbvias. Se um sai, outros podem sair no futuro. É só ficar à espera da próxima crise”. Ora nem mais.