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Incursões

Instância de Retemperação.

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22
Set15

O leitor (im)penitente 192

d'oliveira

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Vítor Silva Tavares

 

Leio no jornal a notícia da morte deste (grande, enorme) editor, deste animador cultural no verdadeiro sentido da palavra, deste Senhor rebelde e inconformado que escrevia com uma elegância rara mesmo se a sua escrita estivesse marcada pela rareza e pela discrição.

Acabo de saber que algumas fulgurantes edições ainda dos anos 60 se devem à sua intervenção de director literário da Ulisseia: alguns surrealistas, o Luís Pacheco ou, mesmo se dramaticamente ultrapassado e datado, o Franz Fanon.

E recordo com uma intensa alegria, ainda que tintada pela nostalgia, a revista (ou jornal ou o que quer que seja) “& etc.” de que fui comprador e, logo de seguida, assinante desde o primeiro ao último número. Burramente, nunca me lembrei de comprar as capas “de editora” que me dizem ter existido. A (ou o) “& etc.” é um dos grandes monumentos literários dos anos 70 (mais propriamente de Janeiro de 73 a Outubro de 74). De certa maneira, a revista quinzenal anunciava a revolução (enfim o que se convencionou chamar revolução) e terá morrido um pouco atropelada por esta. Os tempos não estavam para este belíssimo quinzenário, as pessoas tinham outras e mais absorventes ocupações e, mesmo com leitores, a revista não sobreviveu.

Ou melhor: sobreviveu enquanto projecto editorial graças a VST que continuou o mítico título na sua casa. A editora continua a existir (e agora? Como será?) ao fim de quarenta anos brilhantes. Poucas, muito poucas, editoras terão conseguido um percurso tão extraordinário, tão rigoroso quanto a do Vítor. A “Hiena” do Rui Martiniano, meu amigo e meu alfarrabista que mensalmente me força a mão e me convence a comprar livros nos sábados da Rua Anchieta, acabou. Ainda se conseguem adquirir livros editados por ela na banca do Rui. A “frenesi” do também amigo e alfarrabista incontornável Paulo da Costa Domingos está temporariamente encerrada por via de um complicado processo. Outras pequenas casas ainda resistem, publicando livros que as “grandes editoras” não querem, não sabem ou não podem editar. Ao entrar numa livraria, cada vez mais me pergunto se aquelas montanhas de livros, com capas berrantes, publicidade enganosa, más traduções conseguem ainda enganar tanta gente. Devem conseguir pois, mês após mês, saem catadupas de livros inúteis, desinteressantes, num ramerrão tristonho e medíocre que alimenta a incultura indígena.

Era, neste panorama desolador, nesta “terra sem vida”, que se distinguia o trabalho do Vítor Silva Tavares. Edições cuidadas, textos raros ou diferentes, capas feitas amorosamente, tudo indicava o homem que gostava de livros, de literatura e tinha bom gosto.

Foi ainda há pouco, muito pouco tempo, provavelmente a meados de Agosto, que o encontrei na “Letra Livre” (olhem aqui está uma livraria a sério e diferente: vão por ela. Fica na Calçada do Combro em Lisboa e podem comprar-se lá livros velhos (a preços sensatos) e novos. Nesse dia, VST estava imparável: Debitou um pacote de historietas, de anedotas literárias, sobre já não sei quantos temas à volta de um projecto que espero se concretize. O livreiro e eu, estávamos, como de costume com VST, rendidos àquela verve, àquela sedução, àquela “liberdade livre”. Mal sabia eu que era a última vez que o via.

Vítor Silva Tavares deixa um enorme vazio e um exemplo ainda maior. Do primeiro não há remédio. Quanto ao segundo, esperemos que haja quem o siga.

 

(PS: ao falar de editores rigorosos e que antepõem o livro ao mercado, não posso deixar de referir dois “reformados” da edição que continuam – e com que alegre liberdade! – a animar a ediçãoo. Refiro-me, obviamente a dois amigos: Carlos Veiga Ferreira (“Teodolito”) e Nelson de Matos (edições com o mesmo nome)

* As edições “& etc” (e outras do mesmo teor) têm no Porto um modesto abrigo na livraria “Utopia” (Rª da Regeneração). Em Coimbra apanham-se coisas destas e surrealismo q.b. na bela livraria do Miguel de Carvalho (Adro de Baixo). No primeiro andar até há umas poltronas para ler antes de comprar, para conversar, para usar o computador. E os preços não são escandalosos.