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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

11
Abr17

o leitor (im)penitente 200

d'oliveira

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Livros, alfarrabistas & otras fantasias 6

 

Outro canto e outras armas 

Em 1940, em plenas comemorações dos “Centenários”, um brioso militar, capitão de seu estado e Joaquim António Pereira, de seu nome, entendeu juntar a sua bélica voz ao clamor patriótico e artístico que varria o país. Vai daí, ajudado por musas parentes longínquas das Tágides camoneanas, deu ao prelo um livro que intitulou “Grandezas de Portugal” com o subtítulo “história, pátria, verso”.

Em 310 quadras, 23 oitavas, 1 sextilha e uma décima, ofereceu toda a história de Portugal desde Afonso Henriques (Em mil cento e trinta e nove,/foi fundado Portugal./Sendo dádiva de Jove,/criamos a capital)até ao Marechal Carmona (Temos general Carmona,/ é alma bondosa e pura./ É a vela bujarrona,/ desta nau da Ditadura.).

A primeira vez que ouvi o nome do poético guerreiro devo-a ao Rui Feijó e ao António Alçada Baptista que, pelos vistos pertenciam a um buliçoso grupo de rapazes universitários da década de quarenta que, tendo tido notícia deste extraordinário livro, prontamente o adoptaram, pelo menos nas quadras mais significativas, usando-as como jocosos gritos de guerra. Impressionado pela troca de galhardetes citações entre os dois cavalheiros acima citados prontamente comecei a procurar o livro. Foi o nunca assaz chorado Manuel Matos Fernandes quem me ofereceu a primeira versão em fotocópia integral. A partir desse momento, passei a oferecer a amigos uma antologia do capitão Pereira até que um outro Pereira (Manuel Sousa ), escultor, amador de livros e da gens feminina digitalizou duas cópias em excelente papel. Tais cópias mandei-as encadernar oferendo uma ao meu amigo e ficando com a outra. De facto, desistira de procurar o original tantas foram as negas que recebi de alfarrabistas de todo o país.

Todavia, num dia de escandalosa despesa em números da “Ilustração Portuguesa” (se alguém souber dos nos 820, 822, 823 e 889 que me avise. Compro-os por preço generoso. Também me ofereço para adquirir o vol 31º por inteiro pois queria completar a colecção) num alfarrabista portuense, mencionei o livro ao empregado mais antigo da loja. Este, ouviu-me atentamente e, num gesto descuidado, sem virar a cabeça, deitou o braço direito para trás, para a estante a que estava encostado e de lá, num passe de pura magia, ofereceu-me o livro que eu procurava há vinte anos.

Chorei de pura emoção e, desde esse dia primordial e bendito, guardo a edição em lugar especial. Quero crer que quem tem algum exemplar do livrinho o guarda a sete chaves pois nunca, por nunca, o vi no mercado.

Torna-se difícil, para não dizer impossível, explicar aos leitores a valia literária desta obra pelo menos para todos quantos têm da literatura uma visão optimista e recreativa. Na sua aparente banalidade há todo um retrato deste Portugal dos pequeninos em que desconsoladamente (sobre)vivemos. Junto meia dúzia de quadras que mostram – e de que maneira – como tantos para não dizer quase todos – sentem pulsar neles a pátria madrasta.

Está na moda não ensinar História ou então ensiná-la segundo métodos ditos materialistas e científicos. À ignorância de um lado junta-se o panfleto do outro. Em ambos o horror a nomes, datas, indivíduos, acontecimentos marcantes é explicado pela necessidade de poupar os instruendos, vítimas infelizes duma coisa chamada “eduquês” que, tal como uma mezinha salvadora, veio libertar a juventude do ensino do Estado Novo. Se este era o que sabemos o actual consegue ser igual ou ainda pior.

Felizmente a nossa juventude escolar mostra o que vale em terras do inimigo espanhol. Vê-se logo, como dizia uma mamã ufana que não foram lá para ler o Saramago. O Capitão Pereira teria orgulho neles.

 

antologia

 

descobertas

 

Diniz Dias, continúa,

p'la mesma costa africana.

Cabo Verde chama sua,

nêle descobre a banana.

 

 

  1. João II

 

De carácter reflectido,

perseverante e enérgico,                                                

tinha o hábito aferido,

e o seu proceder sinérgico.

 

****

 

Veio o Garcia da Horta,

incomparável botânico,

Até salva gente morta,

fugida d'horrível pânico.

Revolução Liberal

 

As idéias liberais,

dos conjurados do Porto,                                               

foram tantas, até tais,

que endireita, o que é torto,

 

 

D Pedro V

 

Curso de Letras criou.

Também telégrafo eléctrico.

O combóio caminhou,

e estradas em quilométrico.

 

Foram criadas escolas;

duas, médico-cirúrgicas.

Instruiu os rapasolas.

Tais criações, eram úrgicas.

 

       Mousinho

 

Por o capitão Mousinho,

ter vencido o Gungunhana,                                             

a tropa tira-o do ninho...

«Rataplana, rataplana...!»

 

 

 

Ditadura

 

O saneamento, começa.

Não escalda. Tem brandura.                                           

Pois, e então? Ora essa!

É benévola a Ditadura.