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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

09
Jun17

o leitor (im)penitente 205

d'oliveira

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Manuel Alegre

Um belo dia

Estou na esplanada do costume, frente às árvores e aos cães que correm num dia de sol, quente e macio. Já tomei o primeiro café da manhã, beberrico a água que a jovem e amável empregada me trouxe e leio no jornal a notícia: o Manel (Alegre) ganhou o Camões! Eu, nisto de prémios, só me lembro das boas notícias. Por exemplo o Nobel ao Cela que sempre li com gosto e divertido. No ano seguinte foi o Octávio Paz: nova alegria. Caseiramente vários bons e velhos amigos foram distinguidos. O Zé Mattoso e o Herberto Hélder, o Craveirinha e o Manuel António Pina, só para lembrar os que imediatamente me ocorrem. A alguns deles liga-me uma amizade de 30, 40 ou mais anos. Agora o Alegre que eu, caloiro na lúgubre Faculdade de Direito, conheci em 1960. Acho que foi ele que, protetor e amigável, me chamou o “caloiro que gosta de Rilke”. A partir desses dias partilhei com ele lutas e desencantos, perseguições e esperança, bons dias e outros maus. Recordo-lhe a voz forte e poderosa nas “Magnas” no pátio do velho convento dos Grilos, então sede da Associação Académica, os primeiros poemas publicados na “Via Latina”, uma memorável bebedeira na véspera da partida dele para Angola. O Manel, sempre dramático, envolvido na capa, cantava qualquer coisa como “capa negra, rosa negra, rosa sem roseira” tema depois musicado por um dos nossos companheiros dessa noite, o Adriano. Talvez também estivesse connosco o António Portugal, cunhado do Manel, guitarrista exímio e amigo certo que ainda hoje choro. Éramos jovens, vivíamos a esperança, apesar de tudo a nossa comum juventude era mais de vinho e rosas do que de chumbo e cólera. Mas a guerra espreitava. Espreitavam também o exílio dele, as nossas prisões, as nossas desilusões. Nos anos em que estava longe, por várias vezes tive ocasião de o lembrar. Quanto mais não fosse porque uma vez tive, jovem advogado, de ir amedrontar um editor, livreiro gatuno e oportunista, que publicara uma contrafação de um dos seus livros, enchendo-se de dinheiro. Foi a minha mais rápida e mais saborosa vitória: o energúmeno nem tugiu nem mugiu e passou-me para a mão umas dezenas de contos que fui pressurosamente entregar à minha editora (Centelha, Coimbra) que de seguida os entregou à mãe do poeta para lhos fazer chegar ao exílio.

Depois do 25 A, fomo-nos encontrando sobretudo em festejos de homenagem à AAC, ao CITAC, às nossas comuns e antigas lutas estudantis. Amigos queridos foram morrendo, já citei dois, e dos melhores, o António Portugal e o Adriano Correia de Oliveira, sem esquecer, claro, o Fernando Asis Pacheco, outro membro dessa inconsútil frátria nascida na velha Universidade, nas ruas da Alta, na praia da Figueira e no frenesi de mil conspirações (e aqui saúdam-se dois outros queridos amigos e poetas, também: Rui Namorado e António Lopes Dias, felizmente vivos e a escrever, eles também desses longínquos anos coimbrãos, dos “Poemas Livres”, da “Vértice”, das noites do “Mandarim” e da Praça da República -naqueles tempos ingénuos felizes havia quem dissesse “Kremlin e Praça Vermelha”.

Depois, já por este século, apoiei-o por duas vezes nas campanhas para a Presidência da República, mesmo se da segunda vez, como então lhe disse e ele agora reconhece, só a amizade de dezenas de anos me fizesse dar tal passo

Mas voltemos ao dia de hoje: o Manuel Alegre ganha o Camões. Ganha-o sem rivais, sem segundas voltas, sem hesitações. Ganha-o graças a um júri internacional (um beijo, Maria João Reynaud, amiga antiga da mesmíssima Coimbra, se bem que muito mais nova) que deixa constância da motivação do prémio: a intrínseca qualidade poética e a honrada e constante luta pela liberdade, pela dignidade humana, por Portugal e por África.

Este prémio não honra apenas o Manel. Honra (como já acontecera com o Manuel António Pina) uma geração de intelectuais e cidadãos que disseram presente a todas as lutas destes últimos cinquenta anos. É provável que nem sempre tivéssemos a razão pelo nosso lado, que por vezes olhássemos a realidade com óculos demasiado fumados e torpes, que pecássemos “por pensamentos, palavras e obras”. Todavia, num saldo quase final a que a idade e proximidade da morte nos obriga, tenho por certo que cumprimos o nosso dever, que defendemos honrosamente a liberdade e a esperança.

Tenho por mim que merecemos o verso (lembrança de Villon) de Brecht

Vós que haveis de surgir das

cheias

Em que nos afundámos

................

pensai em nós

com indulgência.

Um abraço, querido Manel. Mais abraços Rui e Didi e outros  não mencionados mas sempre presentes, vocês que resistiram às cheias e à praia hostil onde agora sobrevivemos. O dia é de festa!

Cave diem!

 

* na gravura: Kandinsky, movimentos 4