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Incursões

Instância de Retemperação.

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21
Ago14

O salvífico Marinho Pinto

José Carlos Pereira

Marinho Pinto foi um bastonário da Ordem dos Advogados (OA) que se tornou conhecido do grande público pela frontalidade, pelo verbo fácil e pela crítica áspera a certos poderes. O povo gosta disso e a maioria dos advogados também lhe reconheceu qualidades quando o elegeu por duas vezes. A bagagem jornalística fez com que o seu discurso passasse bem na comunicação social e Marinho Pinto soube tirar partido disso.

Esgotados os mandatos na OA, Marinho Pinto abalançou-se para a política e conseguiu um surpreendente resultado nas últimas eleições europeias, em que conquistou dois mandatos para o MPT, o partido barriga de aluguer que lhe permitiu ganhar um lugar em Bruxelas. Digo partido barriga de aluguer porque o próprio Marinho Pinto não se cansou de dizer que foi ele que escolheu o partido pelo qual concorreria, programas e princípios ideológicos à parte. Para ele, que tanto critica o sistema e os políticos, afinal parece que qualquer partido servia para alcançar o que queria.

Confesso que não contava com o resultado que Marinho Pinto obteve, mesmo reconhecendo que o seu discurso populista – sim, populista – granjeia simpatias. Bater nos políticos, nos partidos e nas instituições, “malhar” nos privilégios das classes dirigentes, clamar contra os corruptos, sem materializar qualquer denúncia concreta nos locais próprios, e pelo caminho adicionar alguns toques de marialvismo, é música para o ouvido de muitos. Conseguiu, assim, o que outras candidaturas ao Parlamento Europeu fora dos maiores partidos nunca tinham conseguido.

Chegado a Bruxelas, Marinho Pinto viu-se envolvido num rocambolesco processo para integração nos grupos parlamentares existentes e o MPT acabou excluído do grupo dos Verdes. O novel político percebeu certamente que não teria na Europa o palco que pretendia, ou então, como muitos defendem, esse foi apenas um passo preparatório para a sua entrada na política nacional. Marinho Pinto já veio dizer que concorrerá nas próximas legislativas e até, possivelmente, nas presidenciais. Claro. Se não for ele, quem mais restará ao povo para escolher? Quem trará a salvação?

Os partidos que o vão acolher ou apoiar pouco lhe importam, desde que se submetam à sua vontade pessoal. Nisso não anda longe do seu conterrâneo Avelino Ferreira Torres, ex-autarca, dirigente e senador (!) do CDS, que sempre disse que não precisava e não queria saber do partido para nada e que, sendo dirigente desse partido, chegou a concorrer como independente a eleições autárquicas porque pensava que faria disso uma vantagem.

Muitos consideram que a palavra de Marinho Pinto será útil no parlamento. Mas para quê? Com que programa político? Certamente, os portugueses não querem eleger um deputado que se limite a ser um amplificador das caixas de comentários da internet, onde se dispara em todas as direcções e nada se acrescenta ao debate. Será que Marinho Pinto almeja uma votação que faça do seu partido unipessoal o fiel da balança na próxima legislatura? Safa!

Uns meses antes das eleições europeias, ouvi um amigo advogado defender que o projecto pessoal de Marinho Pinto passava pela candidatura à Presidência da República e que a candidatura ao Parlamento Europeu era um primeiro passo nesse sentido. Achei isso improvável e não levei muito a sério a previsão. Hoje vejo que esse amigo, que conhece bem Marinho Pinto, estava certo. O agora eurodeputado deve pensar que tem um dom salvífico pelo qual os portugueses anseiam. Mas a democracia e o país precisam de tudo menos destes pretensos salvadores da pátria…