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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

16
Jun17

Au bonheur des dames 410

d'oliveira

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Estamos bem melhor e há muitos anos

 

No “Público” há hoje uma reportagem sobre os efeitos benéficos do Erasmus. Não tenho quaisquer dúvidas sobre isso, basta-me ver o que se passa com uma série de familiares jovens que, ao contrário da minha geração, puderam conhecer mundo sem perder os contactos académicos e por preço acessível.

Sou de um tempo em que viajar ficava caro, caríssimo e estava absolutamente fora do alcance de quem era jovem. Nesses tempos longínquos nem sequer era ainda concebível a primeira revolução ni turismo jovem, o “inter-rail”.

Todavia, apesar disso, dessa dificuldade quase absoluta de viajar, para já não falar dos custos e da possibilidade de ter passaporte (coisa que nos anos de guerra 1961-1974 era quase milagrosa), tive a enorme sorte de poder viajar. E nesse viajar incluo a ida para Moçambique quando tinha 13 anos. Tirando a língua, tudo era diferente, maior, menos convencional, menos (muito menos, pelo menos para os “europeus”) pobre. Até o liceu que frequentei tinha uma característica inédita nos anos 50. Era misto. Melhor dizendo, era misto no 3º ciclo, mas a zona das raparigas só se separava da dos rapazes por um largo pátio central.

Quando regressei à pátria madrasta (à “metrópole”) para acabar o liceu e fazer a universidade pude dar-me conta do fosso que três anos em África representavam. Numa palavra era bem mais cosmopolita do que os meus colegas. Com o passar dos anos, além de ter voltado para férias em Moçambique, comecei a poder viajar pela Europa. A Espanha, a França, a Bélgica e depois a Itália, a Alemanha a Holanda e por aí fora. Claro que, seguindo uma palavra de ordem de Jorge Delgado, um sogro que foi um pai, um amigo, um mentor e um camarada, dispus-me a ir a todo o lado desde que pudesse passar por Paris. Mais tarde, estendi a ideia a Berlin, Roma e Amsterdão. Quando conheci Nova Iorque, foi como se regressasse a casa. Só em Paris, graças ao Lagardére (Paul Féval), ao Vitor Hugo, aos Mosqueteiro (saravah, querido Alexandre Dumas, homem livre e combatente pela liberdade) e a um punhado de franceses mais, tive idêntica sensação. Calcorreava as ruas desde o 1ª ao 7º bairros e tudo me falava a velhas aventuras, lidas desde que me lembro de ler. Que emoção andar pela re Tournon e saber que ali vivia d’Artagnan e, mesmo ao lado, Athos ou Porthos. Acho que, ainda hoje, conheço melhor Paris que Lisboa ou o Porto. Em Veneza, discuti cinema, o velho cinema dos anos 40/5o com um punhado de locais que não acreditavam que existisse um portuga capaz de se recordar (e citar) “Não há paz entre as oliveiras” ou “Arroz amargo”, filmes do enorme Giuseppe de Santis que hoje está tão (mal) esquecido. Em Pescara, ofereci a uma florentina, linda como os amores e ourives, “Portogallo mio remorso” de Alexandre O’Neil numa tradução belíssima de Joyce Lussu que, depois descobri ser mulher de Emilio Lussu, grande dirigente de “Giustizia e Libertá”, várias vezes preso, exilado (inclusive em Portugal) e autor de um livrinho (Teoria da Insurreição”) que nos anos sessenta me impressionou fortemente. Andei 30 anos à procura do livro e quando desesperava (já nem era citado no catálogo da editora Einaudi) consegui-o num alfarrabista italiano encontrado na internet.

Destas viagens trouxe quilos, quintais, toneladas de livros que me habituaram a ler no original centenas de autores. Isso, a curiosidade, a vontade de perceber, fizeram-me ainda mais europeu mesmo se a minha costela da praia de Buarcos, nunca me permitisse esquecer este amaldiçoado rincão tão maltratado pelos seus indígenas, tão descuidado pelos seus políticos e tão sofrido pelos menos afortunados que buscam sob sois menos clementes ou menos brilhantes o pão nosso de todos os dias.

Cosmopolita, pois, mesmo se a tal condenado pelos anos de chumbo. A liberdade vinha de fora, o conhecimento também. Hoje, e era a isso que eu vinha, os vinte anos do programa Erasmus estão em vias de criar uma elite universitária, mais livre, mais disposta conhecer o outro, a reconhecer-se nele, a ver o estrangeiro como um vizinho.

Durante os meus tempos de estudante de “Direito Comparado”, conheci umas     centenas de colegas vindos de toda a Europa (só não havia, et pour cause, russos ou chineses!)e, em menor grau, de outras partes do mundo. Foi nessa amável e gloriosa época que, um alemão me confidenciou que nunca poderia fazer a guerra contra outros povos. Porque os conhecia, através de nós, colegas e amigos, aprendizes bem dispostos de um par de regras de convivência jurídica internacional.

O medo, a estranheza pelo estrangeiro vencem-se pelo convívio, pela tentativa por vezes torpe de falar outra língua, de entender o que nos tentam dizer. Na primeira vez que pisei a Grécia, soltei as duas únicas palavras que sabia, kalimera e/ou kalinicta (– não garanto a grafia.) isso para dizer bom dia ou boa noite, palavras ensinadas por um chef de mesa de um restaurante chinês (!), aqui do Porto.

Foi uma alegria: uma inteira família, que digo?, um clã de gregos guinchou de prazer, cobriram-me de palavras e antes que eu conseguisse dizer que era português já circulavam numa improvisada mesa vinho, azeitonas, pão, queijo e uns tomates comoventes de saborosos. Aquele improvisado ágape (palavra grega) durou horas de conversas impossíveis, risos, cantigas, muita gesticulação. Adoptaram-me, claro, e vi alguma Grécia pelos olhos e companhia deles, orgulhosos de se mostrarem e mostrar uma terra que, ao fim e ao cabo é de nós todos, europeus. Nem a uma missa escapei e a dois baptizados. Descobri que o pope do lugar comia como um abade lusitano dos velhos tempos. E bebia como dois cónegos dos nossos, dos de antigamente. Em boa verdade nem àágua dizia não. Também é verdade que a misturava com um vinho escuro, espesso, oleoso que a mim me soube a papel de música. Ou então já estava também bem servido e melhor bebido.

O Erasmus é o modo mais rápido, mais barato e mais inteligente de criar cidadãos portugueses europeus. Cai na idade de todos os espantos, da aventura possível, da novidade e dos amores de Verão (ou de qualquer outra estação, convenha-se, que a “juventude é”, como afirmava, certeiro, Ruben Dario, outro cosmopolita, “um divino tesouro”).

13
Mai17

Au bonheur des dames 424

d’Oliveira

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Oh que semana!...

O Papa! Os pastorinhos! O quarto pastorinho que exerce de Presidente da República e de modelo para selfies! Isto vai ser um regabofe de piedade ultramontana e peregrina. Mesmo estimando bastante Francisco I, um Papa vindo do outro lado do mar e, provavelmente, do outro lado da Igreja, educado na disciplina intelectual da Companhia de Jesus, herdeiro da tradição de uma Ordem que, mais do que qualquer outra, foi alvo contínuo de admiração intensa e de perseguição sem quartel, vou ouvir até à exaustão (até ficar surdo?...) o relato das suas 23 horas em Portugal, capital Cova da Iria. Os jornais e as televisões andam desde há dias numa sarabanda noticiosa onde tudo, mas tudo, é contado, recontado, requentado. Ele são as caminhadas dos peregrinos que juram a pés juntos que “o caminho” é uma experiência imorredoira (isto lembra-me as histórias do “caminho de Santiago”, bem descrita naquele admirável “codex calistinus” de que não se arranja facsimil decente e a preço honrado), as obras no santuário (raras vezes se conseguiu arquitectura tão trivial, tão desconsolada. Agora até há um terço gigante, cópia, julgo, de um outro existente na América do Sul...

A pátria está comovida e em estado de sítio, fronteiras semi-fechadas, milhares de polícias e similares de prevenção, um feriado na sexta (hoje mesmo se o Papa só chega lá para a tardinha) para que a lusitana gente possa consagrar-se desde matinas até vésperas à oração, ao cilício e ao jejum.

Vamos ter Fátima à fartazana. Isto só acabará com o “tetra” que sempre fugiu ao Benfica. Desta feita, os pastorinhos, finalmente santos, darão essa alegria à torcida encarnada.

 

Para trás, ficam os desastres do Porto, ou seja, a defenestração do PS. Nunca compreendi que um partido com a dimensão deste não concorresse à Câmara. A menos que, nas hostes do dr. Pizarro reinasse a convicção (nada absurda, por acaso) de que Rui Moreira tinha a eleição no papo. Mesmo assim, havia precedentes: o PS arrolou contra o imbatível Rui Rio Francisco de Assis e Elisa Ferreira que sabiam o desagradável destino que os aguardava (derrotas severas, claro).

A futura disputa eleitoral vai ser curiosa: Moreira elogia Pizarro (beijo da morte?), este responde no mesmo tom. Que plataforma eleitoral irá o PS apresentar que o distinga claramente da “situação” camarária em que durante quatro anos se empenhou? A Moreira basta prometer mais do mesmo, mas para o PS parece necessária uma violenta epifania coisa que provavelmente estará na cabeça do dr. Costa que, também, peregrinará com a conhecida unção a Fátima. (a drª Ana Catarina Mendes talvez vá mas terá de fazer o percurso de joelhos para ver se aprende que à política também se aplica a expressão “muita cautela e caldos de galinha”. Que lhe aproveite! ).

Dos restantes candidatos pouco há a dizer. O PSD apresenta um desconhecido enquanto BE e PC recorrem a duas figuras já conhecidas e, aliás, um tanto ou quanto usadas. Vê-se que a imaginação e a renovação começam a rarear nesta banda. Nada de novo a leste.

 

O terceiro mistério gozoso deste rosário (Fátima oblige) é a reconciliação Porto Sporting. Não há nada como perder campeonatos para juntar os derrotados numa aliança sem futuro. Haverá alguma coisa comum a estas duas instituições (tirante o facto de jogarem à bola)? O Sporting é mais um clube de Lisboa (onde também coexistem o Benfica, o Atlético, o Oriental e até o Belenenses. O Porto é o arauto da cidade mesmo se, provavelmente terá nela menos adeptos do que nas imediatas cercanias. O Boavista nunca lhe disputou o lugar mesmo no tempo fantasioso dos Loureiros, pai & filho. Porventura, nos anos 40, o Porto teria no Sporting dos cinco violinos o verdadeiro adversário lisboeta e “centralista”. Mas isso foi há gerações e, de facto, o seu único adversário, aquele que conta, aquele que coloca as claques fanatizadas em pé de guerra, é o Benfica. O Sporting, para o Porto e para a opinião pública é um clube com vocaçãoo de terceiro lugar, ou seja, não existe. Fazerem as pazes ou zangarem-se, restabelecerem relações institucionais é, para o universo dos adeptos e da paisanagem que, como eu, nada tem a ver com eastes cavalheiros, zero, menos do que zero. Mesmo para este sofrido e infiel adepto da Naval 1º de Maio, isto é uma não-notícia cuja duvidosa utilidade é só esta: entrar na crónica de hoje e fazer-nos rir.

Acabemos a litania com Costa. De quando em quando, o homem tem boas saídas. João Miguel Tavares, cronista do Público tinha criticado a “tolerância de ponto” que lhe punha os filhos (quatro!, que coragem!) em casa quando ele e a mulher tinham imperiosamente afazeres profissionais. Na crónica, propunha Tavares, que Costa lhe tomasse conta dos miúdos já que lhe (JMT) parecia difícil obter um emprego de curta duração na função pública. E não é que Costa aceitou cuidar das crianças! Tavares, ele mesmo, informou o jornal e até terá publicado uma fotografia dos meninos em S Bento. De vez em quando assistimos a estas trocas civilizadas e pensamos que isto é outro país. Bem jogado, dr. Costa (e bem jogado também, JMT.)

Era para acabar mas afinal ainda há mais: em França, os primeiros candidatos de Macron são classificados assim, dois terços à esquerda e os dois sextos restantes igualmente divididos por direita e centro. convém notar que são apenas os primeiros e que ainda falta muita gente. Um segundo ponto: o movimento “en marche” não apresentará candidato contra Manuel Valls, situação que se repete em relação a alguns candidatos do grupo de Jupée. Mas não aceitaram Valls, o imprudente, nas suas listas, o que também diz bastante.

O terceiro ponto desta investida além Pirinéus, é a verificação de uma vergonhosa campanha contra Brigitte Macron, mulher do Presidente. Parece que o facto de ser 24 anos mais velha que o marido, de ser inteligente e, ao que se diz, apaixonada pelo marido – e ele por ela- assenta mal nos pergaminhos de uma República em que os presidentes traem as respectivas, andam escondidos em aventuras amorosas ou como o imortal Félix Faure, morto no “campo da honra” ou seja nos braços da amante em pleno Eliseu.

Finalmente, prosseguindo na sua cruzada contra a reacção, o capitalismo, o imperialismo, o cosmopolitismo, etc., etc.., o senhor Mélenchon entendeu viajar até Marselha para se candidatar a deputado. Em Marselha, no círculo em que o admirador de Maduro concorre, há um deputado eleito do Partido Socialista que agora vê a sua candidatura mais ameaçada. Já agora, recordemos que, na passada eleição legislativa, Mélenchon foi fragorosamente derrotado no Pas de Calais por Marine Le Pen e pelo candidato do PS. Agora, à cautela, tenta Marselha no extremo oposto da França... Assim vai o mundo...

Finis, laus Deo.

* Na gravura: António Costa recebe os filhos de JM Tavares em S Bento. Chapeau!

 

02
Mai17

Au bonheur des dames 423

d'oliveira

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Nuno Brederode, secreto e discreto

 

A notícia chegou-me tarde pelo “Público” através de uma pequena nota necrológica e de um texto de Seixas da Costa. O Nuno morrera no dia anterior (30 de Abril) de “doença prolongada”.

Conheci o Nuno no dia em que, em Coimbra, se celebrou o 1º (e único) “Encontro Nacional de Estudantes”. Pelas minhas contas terá sido em 61, ou seja há 56 anos! Uma vida...

Não sei se é possível afirmar que ficámos amigos a partir desse dia. Isto nunca é assim tão simples, mas a verdade é que nos voltámos a encontrar no “Dia doe Estudante”, em Março do ano seguinte e muitas vezes durante os meses que se seguiram. Depois, o Nuno arribou a Coimbra, expulso da Universidade de Lisboa e calhou sermos colegas de curso e até, termos vagamente estudado juntos algumas vezes. Foi nessa altura que me apercebi que estava frente a uma das pessoas mais inteligentes com me vim a cruzar.

Inteligente, culto, excelente conversador, de uma ironia a toda a prova e já, naquela altura, um fanático da discreção. Por qualquer razão que nunca perguntei, o Nuno mostrava-se avesso à luz crua dos holofotes e preferia ,ou isso é a minha percepção, a conversa, o debate, a discussão “en petit comité”.

Vivendo em cidades diferentes só nos encontrávamos de longe em longe, situação que se modificou após os 25 de Abril. Durante quase um ano fomos camaradas dentro do MES, comungando da mesma visão sobre a política nacional e a partidária. O Nuno bateu com a porta antes de mim, engrossando o grupo “sampaísta”, enquanto eu, baldadamente, aguardava acto idêntico do meu grupo de amigos com o qual tinha aderido. Ao fim de pouco tempo, enchi uma dúzia de folhas de papel, enderecei-as À Comissão Política do Porto e desandei em paz com a minha consciência, lamentando o tempo perdido e prevendo um fraco futuro par aquela pequena organização que acabara por se definir comunista, marxista-leninista e, sobretudo, aberrantemente tola e presunçosa.

Por razões profissionais comecei a ter de ir a Lisboa várias vezes ao mês. Aproveitei para começar a frequentar assiduamente o snack-bar do Hotel Florida que era a cantina dos meus amigos sampaístas (o Jorge e a Maria José, o César Oliveira meu antigo colega de Coimbra, o Nuno, o Joaquim Mestre, outro cavalheiro partidário da discreção, o Luís Nunes de Almeida, o Nuno Portas, o Francisco Soares, o João Bénard da Costa e, não tenho a certeza, o Zé Manuel Galvão Telles) que em breve formariam o G.I.S. (Grupo de Intervenção Socialista) de que fui “compagnon de route” (não valia a pena ser mais visto viver longe e não ter hipóteses de participar nas discussões e elaboração de programa). Aliás, pouco depois, este grupo entrou no PS coisa que adiei por bastante tempo. E pouco depois de entrar fui-me distanciando sem apelo nem agravo até readquirir a qualidade de independente. E foi já nessa qualidade que participei na campanha guterrista e no Conselho Coordenador dos Estados Gerais onde o voltei a encontrar.

A partir da eleição de Jorge Sampaio para Presidente da República, apenas sabia que (como convinha ao seu feitio) era Conselheiro do Presidente mas, com grande pesar meu (e maior preguiça) já não o encontrei mais.

Ou melhor:  volta que não volta encontrava-o nas páginas de um livrinho magnífico (“Rumor Civil” Relógio de Água, ed., 1990?).  Sempre que o encontro nalgum alfarrabista, prontamente compro para oferecer aos meus melhores amigos. Trata-se, sem exagero nem qualquer dúvida, de um dos melhores livros de crónicas aparecidos nos últimos trinta ou quarenta anos. Um escrita deliciosa, irónica, expressiva, inteligente e cuidada. Alguns, muitos, quase todos ,dos seus textos são francamente antológicos e retratam Portugal com verdade, verve, sensibilidade, humor e amor.

Como de costume, com o Nuno, este livro foi surpreendentemente “filho único” quando seria de esperar que da mesma pena saísse mais uma boa e entusiasmante dúzia de obras. Mas aquele sacana era mesmo assim: parco e discreto, demasiadamente discreto, quase secreto. Fica na memória dos amigos como um segredo bem guardado. Que desperdício...

Que saudade...Que remorsos por o não ter procurado mais vezes.

*A fotografia do NBS que se junta é bem antiga, foi pilhada na internet e mostra um Nuno jovem tal qual o conheci

 

 

28
Abr17

Au bonheur des dames 422

d'oliveira

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 mistérios gozosos

 

Não lembrava ao malacueco esta de o Governo dar uma folga no dia 13 de Maio. que diabo, o país é laico, este Governo afirma-se pujantemente herdeiro da 1ª República, da do Sr. Dr. Afonso Costa, renega (como Mafoma do chouriço) do beatério que, segundo alguns dos seus maiores entusiastas, inquinava o Estado Novo. Que eu me lembre, nunca Fátima, "altar do mundo", mereceu semelhante feriado.

Poder-se-ia pensar que o Governo pretende dar aos funcionários públicos uma oportunidade de ir ver o Papa ou de ir recolher-se na Cova de Iria para celebrar a entrada dos três pastorinhos na lista longa, longuíssima, de santos e beatos que povoam o orbe celestial.

Ou, de outro modo, e mais certamente, esta borla vai dirigida ao 4º Pastorinho, o Sr.   Professor Marcelo (Rebelo de Sousa), católico assumido e anunciado peregrino a Fátima. Sª Exª fica assim livre para faltar por um dia a Belém se é que ao Augusto Magistrado também se aplica o regime da tolerância de ponto. 

Nada tenho, bem pelo contrário, contra Fátima (exceptuado o mau gosto das construções religiosas e civis lá semeadas a esmo), muito menos contra o mais que maioritário povo católico (em que incréus como seu são uma imensa minoria) ou contra a visita de um Papa com que simpatizo fortemente. 

Todavia, esta medida extemporânea, esta excessiva generosidade em conceder feriados (num período que começou a 25 pp, continuará a 1 de Maio p.f., e se alongará brevemente com os santos populares, 10 de junho, Corpo de Deus etc...etc...) parece-me atoleimada, oportunista e fora de qualquer razoabilidade.

A César o que é de César, e a Deus o de Deus. Receba-se Francisco com a pompa e o respeito que merece não apenas por ser Papa mas também por ser quem é (e é muito).  Que o Presidente da República lá vá, plenamente de acordo. É o Chefe do Estado a receber outro Chefe de Estado. Ao fim e ao cabo, Portugal nasceu pela força das armas de Afonso Henriques e pelo reconhecimento papal , mesmo, se depois, foram vários os nossos reis que o Vaticano escomungou, pelo menos temporariamente. 

Não se faça, porém,  disto, desta visita, dos pastorinhos mais do que aquilo é. Sobretudo num país que impavidamente assistiu à defenestração de Santo António, o maior santo português, um dos grandes santos da Igreja,um intelectual de envergadura e um santo imensamente popular, cuja rua no Porto, chamada de Santo António desde sempre, foi rebaptizada para 31 de Janeiro, uma data pouco gloriosa, uma derrota  vexatória, uma jornada em que segundo conspícuos historiadores da época, andavavam por alí "uns dinheirinhos da polícia". Há no Porto imensas ruas que poderiam ter outro nome. A dois passos da do 31 de Sto António há a de Entreparedes que já nada significa para ninguém. Mas não, tinha de ser na rua onde uns escassos centos de amotinados republicanos foram varridos pelo tiroteio da polícia municipal deixando pelo caminho farta dose de chapéus e bonés. Santo António, mesmo tendo várias patentes militares e uma cidade a ele dedicada, foi varrido da toponímia municipal pelo mesmo republicanismo vesgo que apeou D João III, o grande protetor da Universidade de Coimbra, quiça, o mais importante na sua história para dar ao liceu com o seu nome o de um praticamente descnhecido e esquecido político da República. 

"É assim que se faz a história" e também, do mesmo modo atabalhoado, se fazem feriados. 

26
Abr17

au bonheur des dames 421

d'oliveira

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À atenção de alguns comentadores “distraídos”, muito distraídos.

 

Comecemos pelo óbvio. O senhor Macron ganhou a 1ª volta das presidenciais francesas. Teve 24, 1% contra 21,3 da senhora Le Pen.

Até aqui pouca novidade. Tratava-se de uma vitória anunciada. Além de tudo o mais, Macron já levava na bagagem importantes apoios de conservadores e de socialistas. A senhora Le Pen vê a sua margem crescer de 17, 9% há cinco anos para os actuais quase 21,3%. Conviria verificar se no meio deste crescimento não vão alguns votos fugidos ao senhor Fillon, candidato “gaulista”. De todo o modo, é uma meia vitória com sabor amargo

O Dr Pacheco Pereira, num artigo demasiado apressado, publicado no dia 24, fala em “pesada derrota” dos gaulistas e dos socialistas. Não se percebe como é que mete no mesmo saco dois resultados tão abissalmente diferentes. Fillon, apesar de ter esbanjado a sua candidatura por via dos empregos fictícios da mulher e filhos, ainda conseguiu mais de 20%. Se compararmos a sua votação com a de Sarkozy na última eleição (27%) temos que vê fugirem-lhe cerca de 7% do total de eleitores. Já o surpreendente candidato socialista dá um trambolhão de 28,6 (Hollande em 2012) para pouco mais de 6%. É obra. Aqui, sim, há uma pesadíssima derrota. Mesmo que se saiba que muitos dos votos socialistas fugiram, por raiva, desespero ou o que quer que seja para o senhor Melenchon de que já se falará.

A derrota (importante) de Fillon) não compromete demasiadamente “Os Republicanos” enquanto que no Partido Socialista está tudo para reconstruir. E está porque a escolha de Hamon foi, ela própria, um desastre de todo o tamanho. Hamon nunca passou de uma figura apagada, desconhecida do grande público na melhor hipóteses e antipática para os que o viram combater (não vou dizer trair) Hollande depois de ter aceitado ser ministro...

Hamon nunca foi dado como candidato com hipóteses mas o fiasco é estrondoso. Deixou de existir politicamente. No PS e na França.

Vejamos o caso Melenchon, um tonitruante ex-socialista, criatura arrebatada que desde há muito vive de slogans grandiloquentes e de um cachecol vermelho que deve ser a única coisa eventualmente revolucionaria com que se adorna. Teve o dobro dos votos da eleição presidencial anterior. Como suspeito, muitos, quase todos, virão de eleitores socialistas que, muito justamente, não se reviam na inconsistente figura de Hamon. De todo o modo, Melenchon é, no conturbado panorama político francês, um exemplo de tudo o que é antiquado, falso, desvairado, na esquerda francesa. O homenzinho apresenta-se, actualmente, como alguém que se inspira nos populistas latino-americanos nomeadamente Chavez (e o seu discípulo dilecto Maduro) e Correia. Chavez, ex-golpista inventou uma coisa chamada bolivarianismo que é uma espécie de cocktail demagógico do pior da tradição sul americana. Conseguiu colocar a Venezuela ao bordo do precipício donde o seu alucinado sucessor se prepara para o grande salto para baixo.

A Venezuela é hoje um país absolutamente falido, onde a maioria popular votou um parlamento anti Maduro, onde um submisso Supremo Tribunal nomeado pelo Presidente tentou desqualificar a representação popular, onde um exército visceralmente dependente do poder mata com a ajuda de milícias civis os manifestantes desarmados. Não se passa dia sem mortos por bandos de motoqueiros mascarados, sem pessoas gaseadas pela polícia do regime, sem condenações à perda de direitos políticos, sem continuada e persistente prisão de opositores, sem pão nas padarias, sem medicamentos nas farmácias. Onde tudo falta já só sobra a raiva.

É deste desacreditado regime que Cuba cada vez mais tenta afastar-se que Melenchon se reclama. As suas hostes intitulam-se les insoumis, la France insoumise, enfim uma patetada que nada significa e que, sobretudo, de insubmisso nada ou pouco tem. Trata-se como no campo de Le Pen, de um aglomerado de criaturas órfãs do velho PCF, de uma pequena burguesia citadina e rabugenta que odeia a Europa, a mundialização, que não percebe o seu declínio enquanto classe e enquanto federação de privilégios ameaçados. A única diferença que há entre estes “insoumis”e as gentes lepenistas é que aqui subsistem os restos de um velho proletariado francês e comunista que viu as suas regiões industriais morrerem. É apenas ir consultar os velhos mapas eleitorais relativos aos anos 60, 70 e 80 do último século. Algo, todavia as aproxima: Le Pen é abertamente xenófoba enquanto Melenchon o é disfarçadamente. A sua recusa da Europa e da mundializaçãoo é isso mesmo: la France d’abord. Mesmo se essa França “gloriosa” (algo que enche a boquinha mimosa de boa parte da inteligentsia melenchonista) seja tão só saudades de um passado morto e enterrado

Quanto a caceteiros são iguais. Ainda em pleno dia eleitoral, em Paris, pequenas mas bem organizadas hordas “insubmissas” começaram a manifestar-se violentamente logo que os primeiros resultados apontavam para o 4º lugar do seu caudilho.

Pouco depois, nos diferentes debates televisivos transmitidos pelas televisões francesas, viu-se a componente política dos jovens energúmenos. Interrogados sobre quem apoiariam na 2ª Volta, os porta-vozes de Mélenchon rematavam para canto, harangavam sobre a subida do seu candidato, acusavam Macron (muito mais que Le Pen sobre quem quase nada diziam). Nessa altura já Fillon e Hamon apelavam ao voto em Macron.

Para esta duvidosa caricatura do “maduro-bolivarianismo” avec sauce française, além dela tudo é igual e mau. A velha e gloriosa “Internationalle” conta nos seus versos este: “du passé faisons table rase”. Na langue de bois dos melenchonistas já não se trata do passado mas sim do presente. Como quem diz: morra Sansão e quantos aqui estão. No caso em apreço, parece que esta gente prefere um quinquénio Marine Le Pen que, depois, milagrosamente, provocaria um sobressalto cívico e “revolucionário” (!!!) que inauguraria finalmente “os amanhãs que cantam” sob o consulado de Melenchon que, à falta de barrete frígio, sempre tem um cachecol vermelho.

Por cá, vê-se, com parca ou nula surpresa, a mesma atitude. BE e PCP, jurando sempre pelo mais exaltado anti-fascismo, já enterraram Macron debaixo de toda uma série de acusações, as mais das vezes pouco credíveis. O que os arrelia é a atitude pro-Europa do candidato francês. Comunistas e bloquistas são visceralmente contra o “cosmopolitismo”. Os primeiros sempre foram, convém salientar. Nos bons tempos do stalinismo puro e duro a acusação de “cosmopolitismo” era das mais graves. Na URSS e satélites levava ao gulag ou a destinos definitivos e piores. Nos partidos comunistas do Ocidente era quanto bastava para excluir militantes.

Para estas criaturas o “internacionalismo” (que já nem é “proletário”...) traz um perfume perigoso de livre troca de ideias, de liberdade de apreciação e de comparação que é, como se sabe, um preventivo para as ideias feitas e para o autismo político. Uma França activamente pro-europeia estraga os vagos projectos desta esquerda desacreditada ideológica e socialmente. No caso do PC nem sequer a memória desse velho bolchevique que se chamou Álvaro Cunhal parece ser apreciada. Todavia, foi ele, que no confronto Soares Freitas do Amaral (que na altura era acusado de tudo) mandou (repito: mandou) votar no primeiro mesmo que isso significasse engolir um elefante. Quanto ao BE, é o costume: um ligeiro toque de “radicalismo pequeno burguês” (variante benigna da “doença infantil” denunciada por Lenin) e um tom de ambiguidade que servirá para, oportunamente (ou oportunisticamente) salvar a face e deixar cair a senhora Le Pen, aliada táctica e estratégica.

 

* A ilustração reproduz a capa de um famoso texto do senhor Marquês de Sade, escritor que seguramente não diz nada aos cavalheiros leitores do PC e do BE. Ainda bem!...

11
Abr17

au bonheur des dames 420

d'oliveira

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Morte, onde está a tua vitória? 

Conheci a Professora Doutora Maria Helena Rocha Pereira no longínquo ano de 1961 quando me aventurei a entrar numa aula de História da Cultura Clássica.

Expliquemo-nos: eu era um pobre caloiro de Direito que já não aguentava a aridez das aulas nos Gerais. Por outro lado, a Faculdade de Letras era mesmo ali ao lado, passando (saindo) a Porta Férrea. 

Letras era o reino das raparigas, sexo raro, raríssimo em Direito. Depois havia um bar! Um bar! Um sítio onde se podia beber uma bica e mirar les jeunes filles en fleur. Le bonheur, quoi! 

Num dia, sentindo-me particularmente audacioso, segui uma bela rapariga de olhos grandes e prometedores (mais tarde, a verdade, a "áspera verdade" -Danton - destruiu-me as esperanças: Aqueles olhos que se cruzavam com os meus -admiradores e arrebatados - eram, afinal, quase cegos, enfim terrivelmente míopes pelo que a aceitação que lhes adivinhava era apenas uma total incapacidade de me ver! ) até ao grande anfiteatro onde a Doutora Rocha Pereira oficiava de grande pitonisa dos Estudos Clássicos. 

Não vou dizer que foi amor à primeira mas quase. A voz suave, o sorriso, a elegância,  a clareza da explicação de um passo da Odisseia, aquele em que Ulisses chega à Ilha dos Feácios e vê - e fala - com Nausicaa, criaram em mim uma tal impressão que, numa correria, Quebra Costas abaixo fui dali à livraria Atlantida comprar, endividando-me, a "Hélade" que li num rompante. A partir daí, sempre que podia, evadia-me dos Gerais e caía certeiro  nas aulas de Cultura Clássica. Às tantas, com a coragem dos conversos de fresca data, no fim da aula, fui falar com a Professora, explicando-lhe quem era, o que fazia nas suas aulas e pedindo licença para assistir. Divertida, a Doutora Rocha Pereira observou-me que eu já invadira duradouramente as suas aulas e gabou-me o gosto pela Grécia. De passo, autorizou-me a frequentar as suas lições.

Em troca de tal gentileza, falei-lhe de um conto de uma velha escrava da minha avó Aldina onde um audaz viajeiro enganava um gigante com um só olho no meio da testa e que por isso se chamava Olharapo". Ou seja numa perdida cidade do Sul de Angola, a Chibia, alguém adulterara e pintara de escuro um personagem da Odisseia e, de par, o astucioso Ulisses. A Professora ficou encantada e repetiu-me o convite para assistir às suas aulas.  

Os anos, tantos anos, passaram mas a minha admiração persistiu e cresceu. Li muito sobre gregos e sempre me surpreendeu verificar que por maiores que fossem os autores que frequentei e que possuo, em todos eles, ou nos melhores, descobria afinidades com Rocha Pereira. Ela estava (está) entre os maiores, entre os melhores. Ler os seus escritos sobre a Grecia ou sobre Roma é não um exercício mas um prazer, um passeio por um tempo que continua tão presente entre nós.

Conheci, em Coimbra, alguns grandes Professores (Ferrer Correia, Mota Pinto, Teixeira Ribeiro em Direito, Luís de Albuquerque nas Ciências, Paulo Quintela, Fernandes Martins, ou Rocha Pereira em Letras. Com todos privei de perto, escutei-os com atenção (e adiração) aprendi o que pude que foi muito menos do que eles quiseram ensinar-me. Devo-lhes muito do que sou e a todos recordo com saudade e respeito. Agora chegou a vez da "Velha Senhora" dos Estudos Clássicos. Alguém nos jornais admirava-se de ela nunca ter ganho o Prémio Pessoa. Acho que foi o prémio que perdeu, foi o seu júri que não percebeu que estava ali uma estátua viva, uma sábia do tempo dos sete sábios míticos, alguém que escutava a melodia dos deuses e entendia todas as subtilezas dos velhos coros teatrais. Não deram conta? Esqueceram-se? Bom proveito lhes faça! Mas passaram ao lado de uma oportunidade única de premiarem o melhor que havia em Portugal, algo que só entre raros helenistas alemães, franceses e ingleses tinha par.

Agora é tarde, Inês é morta. Helena, Maria Helena da Rocha Pereira está viva e quem não for demasiado distraído deverá correr às livrarias à procura das suas obras.    

14
Fev17

Au bonheur des dames 419

d'oliveira

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Maria Cabral

Eu não sei se foi antes ou depois de aparecer em “O cerco”, filme que a atirou para o primeiro lugar absoluto das actrizes portuguesas e, particularmente, do cinema novo. Todavia, há uma teimosa memória dela, anos antes. Vista ou mais precisamente entrevista nos anos de brasa sequentes à crise de 62, terei ficado fascinado pela sua beleza, pela graça que dela dimanava e que iluminava quem inocentemente a contemplasse.

Não, não era uma paixão (oh quem dera!) de jovem rapaz a desbravar a universidade, os livros novos, a política, o cinema e o jazz. Apaixonado andava já eu, e com fortes razões, por uma mulher de que, cinquenta anos depois, todos me falam com carinho e admiração. Chegava e sobrava para me tirar o sono, que o estado de enamoramento dá a volta à cabeça (e mais órgãos) de qualquer um. Não: a Maria Cabral era, na esconsa realidade portuguesa, no meio do beatério que se nos se impunha, uma aparição de liberdade, de outra eventual e possível realidade, de uma juventude alternativa que procurávamos (sem o conseguir, pelo menos plenamente) viver.

Nunca tive inveja de ninguém mas abro uma excepção para o Vasco Pulido Valente que escreve como um enciclopedista libertino e curioso e, ainda por cima, era ou fora casado com ela. Raios partam o homem a quem tudo sorriu, incluindo a fabulosa equipa da revista “almanaque” que o acolheu e reconheceu teria ele escassos dezasseis anos! Arre!

Leio nos jornais que Maria Cabral morreu longe, no país que escolheu e a que se acolheu. Diz quem sabe que vivia cercada de livros, de música numa paz budista entre montanhas e campos pacíficos.

Agora, morrem-me constantemente amigos e conhecidos. A idade vai-me reduzindo à crescente solidão, também no meio de livros, alguma pintura e muita música. A sobrevivência aprende-se mesmo se, por vezes, parece (e é) intolerável. Vejo-me envelhecer bem mais tolerante do que alguma vez imaginei, bem mais descrente do que alguma vez jurei ser, muito mais desiludido com as partidas que a História me vai pregando (agora o Trump, Jesus, Maria José!). Não me doem o cabelo branco, o andar mais devagar, as picadelas diárias para verificar a glicose, ou o frio que sinto com mais intensidade (e o calor do Verão, idem...). Aquilo a que me não resigno é a esta partida sucessiva de amigos e, sobretudo, à imparável entrada em cena do xico-espertismo político, do oportunismo berrante, da absoluta falta de ideologia naquilo que é ou foi o meu campo político. No meio desse pântano obscuro havia breves ilhas onde o Luís Monteiro ou a Maria Cabral resplandeciam e resistiam. Agora nem isso. Não desjo a morte mas confesso que já a não temo. Que quando vier seja rápida como fulgor de uma faca é tudo o que peço. E quem cá ficar que atire o meu imprestável corpo ao mar se isso (coisa muito mais fácil do que a eutanásia) ao mar, o meu horizonte inicial e a minha última sagrada verdade.

Amén!

 

*** 

Também, por estes miseráveis dias, morreu José Vicente, livreiro alfarrabista. Conhecia-o há anos e era cliente assíduo e amigo grato. José Vicentehonrva a profissão e era sem qualquer favor um dos grandes alfarrabistas portugueses. Comprei-lhe muito livro e fui um dos licitantes mais fieis e constantes dos seus excelentes leilões. aconselhou-me muitas vezes, informou-me muitas mais e recebia-me mensalmente (quase sempre numa das últimas quartas feiras do mês) com um sorriso e duas palavras amigas. Acompahei a sua luta para manter a "Olisipo" naquele belo sítio, festejámos a sua vitória e esperei sempre que seria ele a lamentar a minha futura ausencia, tanto mais que era mais nov. Não foi assim. Resta-me esperar que o seu filho e restante família consigam manter a livraria e o rigor que José Vicente sempre demonstrou. Vai fazer muita falta a clientes e amigos que aliás eram quase sempre os mesmos. 

19
Jan17

Au bonheur des dames 418

d'oliveira

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Soares, único, irrepetível e humano, definitivamente humano

 

Lidos e ouvidos centenas de testemunhos sobre Mário Soares, verifico com alguma perplexa surpresa que toda aquela boa gente era amiga, muito amiga, amicíssima, do ex- Presidente da República. O grande senhor há de ter passado a vida num sufoco de carinho, amizade, respeito extraordinários. Morreu em estado de santidade absoluta como o sr. padre Américo ou o “milagreiro” dr. Sousa Martins cuja estátua em Lisboa é mais florida que muitos altares de Igreja.

Também me apercebi que toda a gente com quem Soares trocara uma ou duas palavras se considerava arrebatadamente tocada pela Graça, pelo júbilo e sentira, a partir dessa epifania, nascer uma amizade imorredoura e partilhada com o velho socialista, laico e republicano.

Nada disso aconteceu comigo pese embora ter uma enorme consideração e respeito pelo dr. Soares. Mais ainda, conheci-o e encontrei-me com ele uma escassa dúzia de vezes, uma das quais na sua própria casa, um paraíso de livros e quadros que me fizeram padecer de um agudo ataque de inveja.

Porém, tudo isso não chega para clamar, urbi et orbe, essa transcendente e extensa amizade que transbordou em televisões, jornais e rádio por todos os lados. A amizade é, para mim, pelo menos, algo mais sólido do que o facto de o interlocutor nos conhecer o nome ou nos tratar com simpatia.

Todavia, visto que me cruzei com ele, atrevo-me a também vir dar o meu testemunho.

Creio que terá sido o Luís Filipe Madeira, ex-governante, ex-deputado europeu e bom amigo, que teve a ideia de reunir (em 1970) na velha república dos Kágados em Coimbra, um punhado de rapazes que tinham sido participantes ultra activos na crise académica de 1969 e o dr. Mário Soares. A única característica comum a essa dúzia e meia de militantes estudantis seria o facto de nenhum deles ser do PCP ou passar por tal. Soares (E o Luís Filipe Madeira, claro) estaria a ensaiar uma pescaria de futuros militantes ainda da ASP e mais tarde do PS. Para tal deslocou-se a Coimbra acompanhado de Catanho de Meneses, depois fundador do PS.

Foi com este último que primeiro conversei explicando um pouco o meu empenhamento político, a minha participação na crise e a prisão que se lhe seguira. Por alguma obscura razão, Catanho achou-me digno de ser recomendado ao dr. Soares que logo aí foi de uma extrema amabilidade a pontos de me garantir que “queria muito” falar comigo e me convidar a sentar-me a seu lado no espartano e republicano almoço que se seguiu.

Já não recordo com fiel exactidão o que se concluiu mas tenho a ideia que, para nós, rapazolas com sangue na guelra e devorados pela paixão radical, Soares foi pouco convincente. “É mais um “oposicrático”, teremos pensado, um reviralhista, enfim um “social democrata”.

Naquele tempo isto, não sendo uma condenação inapelável, não era recomendação alguma. Nós, ou eu pelo menos, alimentávamo-nos a Maio de 68, a Marcuse, a “Vietnam vencerá”, líamos todos os heterodoxos e ainda achávamos Lenine um génio, um fiel discípulo de Marx.

O PS fundou-se sem que daquele grupo tenha havido, que me lembre, alguma contribuição. No entanto, quando Soares se apresentou como candidato à Presidência de República, já me contava entre os raros e primeiros apoiantes.

De facto, ainda durante a “pré-campanha”, acompanhado pela mulher que eu conhecera no rescaldo de um memorável espectáculo em Coimbra, Soares veio ao Porto fazer uma apresentação da candidatura na sede da Ordem dos Médicos. A instâncias do Rui Feijó fui com ele e com a Dolly Cochofel, sua mulher, buscar Soares (e Maria Barroso) à estação de Campanhã. Não havia ninguém à espera deles pelo que a nossa chegada foi um pequeno consolo. Apinhados no meu carro, lá seguimos para a OM. No trajecto, verifiquei, com certa vaidade que o diabo do homem se lembrava do meu nome, dizendo ao Rui Feijó que me conhecia desde 70.

Durante a campanha, desdobrei-me em militâncias várias e escrevi não só no “Belém” (órgão da campanha) mas noutros jornais, nomeadamente no Jornal de Notícias do Porto a favor do candidato Soares.

Mais tarde, encontrei-o na livraria Académica de que ambos éramos clientes e, sobretudo, na sede portuense da Delegação Regional do Norte da Secretaria de Estado da Cultura, onde, quando exerci como Delegado Regional, tive o privilégio e a alegria de o receber. A sua amabilidade (e a excelente memória) constituem para mim uma recordação jubilosa e sempre me impressionou o facto de numa primeira palavra ele recordar um encontro anterior e a nossa comum inclinação pelos livros, sobretudo estes. Não era o reatar de uma conversa anterior e inacabada mas a verdade é que, uma única vez, tendo convidado o Rui Feijó para sua casa e sabendo que eu estava com ele tornou o convite extensivo a mim.

Tudo isto é pouco para me arrogar como amigo, mas é suficiente para afirmar que nos encontros e desencontros políticos, ele sempre me apareceu como uma figura ímpar e central da política portuguesa.

Não fui da CEUD mas antes da CDE, não votei Eanes da primeira vez mas Otelo, votei Eanes quando ele se negou a fazê-lo, votei Alegre contra ele e nos últimos anos, houve um par de vezes em que, sendo profundamente contrário ao governo Passos Coelho, discordei da sua oposição a outrance e da cobertura que o seu imenso prestígio dava a uma espécie de vaga Frente Popular que, na verdade, e como se vai percebendo, guinava para um frentismo anti europeu e anti euro. Nem sequer refiro o seu apoio a Sócrates. De facto perceberia uma visita de solidariedade mas a repetição desta, e por duas ou três vezes mais, pareceu-me demais, para não dizer um claro enfrentamento com a Justiça ou, pelo menos, uma insinuação de que esta se movia por obscuros fins políticos.

Porém, sabendo–lhe dos defeitos (Soares quando se zangava com alguém era intratável) sempre lhe admirei a irredutível postura de defesa da liberdade, da liberdade pura e simples, a recusa de posterga-la fosse por que razão fosse e, sobretudo, em nome de um futuro radioso, e um inalcançável “temps des cerises”, ou de uma política de classe contra classe de que ele desconfiava como o diabo da cruz. Soares, licenciado em História e belíssimo leitor, conhecia demasiadamente bem a História recente (séculos XIX e XX) para cair na esparrela grosseira do “fim da História” veiculada por uma espécie singular de catecúmenos de um materialismo histórico descarnado e adulterado.

Soares, laico e agnóstico, desconfiava dessas promessas quase religiosas de amanhãs que cantam desde que os “hojes” sejam duros e chorosos. Venceu batalhas incertas apenas animado pela sua grande coragem (moral e física), pela cultura, pela vontade de ser livre e, sobretudo, pelo seu imoderado amor pela vida. Só isso bastaria para o pôr num lugar importante entre os raros (meia dúzia, se tanto) políticos que influenciaram o nosso século XX.

17
Jan17

au bonheur des dames 417

d'oliveira

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No lugar do morto (definitivamente)

Adeus, Luís

 

Na fotografia veem-se quatro amigos a jogar bridge. Estão quase no fim de uma partida e aquele que tem cartas viradas para cima é o “morto”, ou seja o parceiro do declarante (aquele que marcou o naipe que serve de trunfo, bem como o número de vasas que pretende conseguir para “cumprir o contrato”). Neste caso é o Luís (Meneses Monteiro) que, sorridente, está “morto”, ou seja não intervém de modo algum no carteio que o parceiro leva a cabo.

Em frente, já lá iremos, está o Zé (Portocarrero) desaparecido há um ano, enquanto que nos campos laterais estão o Fernandinho Maia Pinto e eu próprio tentando impedir a vitória daqueles agora desaparecidos, queridos, saudosos amigos. Poderiam estar também a assistir o Zé Valente ou o Pedro Sá Carneiro Figueiredo, também eles uma ausência cruel.

Fiquemos, porém, no Luís, falecido há meia dúzia de dias, aliás nem tanto. Médico, doutorado, professor no ICBAS deixa um rasto de inteligência, saber e dedicação aos doentes, extraordinário. Havia, por aí, entre doentes e familiares, uma persistente simpatia pelo neurologista que curava, que resolvia, que explicava em palavras simples a doença e os meios de a ultrapassar. E que se dedicava aos seus doentes com a mesma paixão com que ia à caça, à pesca (comprara um barco onde enjoava prodigiosamente!!!...) ou ao bridge.

Há muitos, demasiados anos, que não curam a ausência, o meu pai sofreu um AVC vastíssimo. Corremos para o hospital com ele e lá, à nossa espera, já estavam, sei lá por que milagre, o Octávio Ribeiro da Cunha e o Luís. Meia hora depois, apareceu este último, agarrou-me com alguma violência pelo ombros e declarou: "o teu pai ou morre ou fica como uma couve! Reza pela primeira hipótese."

O meu pai morreu e, felizmente, não tive de o ver absolutamente diminuído numa cadeira de rodas ou numa cama. A última, ou a penúltima, imagem que dele guardo é a de um homem de sessenta e sete anos, risonho, a comer um cozido à portuguesa e a sorrir. Do Luís, também: nós à conversa e ele a rir às gargalhadas, riso farto, riso bom, generoso, vindo de quem dizia uma brutalidade ou uma gentileza porque só assim exprimia o que verdadeiramente sentia. Curiosamente, o meu pai foi o primeiro parceiro de brídge que perdi, logo ele que me, ensinara tudo ou quase. Depois foram indo os mais velhos, da geração dele, até que com o Zé Valente, começaram a sair da mesa os companheiros de uma alegre comandita que  se reunia ora na minha casa, ora na casa do Luís ou ainda na do Zé (como acontece com o momento da fotografia).

De todos, e são muitos, restamos o Fernando e eu. Já só jogo na internet. Não quero conhecer mais novos parceiros. Amedronta-me a ideia de ter me despedir de mais alguém, sobretudo agora, que se aparecer será, quase de certeza, mais novo. O lugar do morto, no bridge, dura o tempo de uma partida mas o dos meus amigos desaparecidos é para sempre e, mesmo se penso estar preparado para a minha morte, não consigo ter a mesma frieza perante a morte dos outros. Provavelmente é porque me sinto cada vez mais só, mais triste e com menos paciência mas isso, dizem, é uma característica de quem vê os anos correrem, a força diminuir e os achaques da idade aparecerem.

Resta-me a consolação, fraca, de saber que o Luís, como os outros, deixa saudades, uma vida ´que foi útil a muitos e uma memória feliz.

Que a mesma sorte me caiba quando ocupar finalmente o lugar do “morto”.

 

25
Out16

au bonheur des dames 416

d'oliveira

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Saberá ele o que quer dizer “orçamento”?

 

Não sei se quero falar do “orçamento”. De facto aquilo ainda não é senão um projecto. Só depois dos pais e mães (e filhos) da Pátria se ajuntarem e discutirem é que a coisa se transforma em Lei.

Todavia, alguma coisa já se pode dizer sobre o documento.

Comecemos pelo mais fácil. O Sr. Ministro Centeno veio dar-nos a extraordinária novidade de aquilo ser um “orçamento de escolhas”. Conviria lembrar a S.ª Ex.ª , seguramente um luminar de finanças mas um fraco conhecedor de português que um orçamento, qualquer orçamento, é sempre uma (ou um conjunto de) escolha.

E tanto o é que, ao contrário dos cavalheiros do anterior Governo (também eles luminares da ciência financeira), este governo escolheu outros meios de financiar o Estado e enfrentar a despesa pública que, pelos vistos, não só não desce mas, porventura, subirá.

Em segundo lugar (e esta vai par outra luminar, desta feita do BE) convém avisar que ir buscar aos ricos para pagar pensões aos pobrezinhos não existe. O Orçamento é um todo, os impostos correm para um bolo único e nada nos pode fazer pensar que a quantia sacada aos ricos (e os ricos em Portugal são, noutras latitudes, gente remediada) vai direitinho para as pensões. Isto aqui não é uma agência de consignações. Se fosse, os meus descontos para a Segurança Social teriam por objecto único a minha reforma, por exemplo.

A terceira observação é que este “orçamento” vai dar aos ricos mais dinheiro do que aos pobres mais pobres.

Em quarto lugar, se eventualmente for verdade uma descida do IRS, convém lembrar que uma boa parte dos novos impostos (ou dos impostos indirectos que são agravados) vai penalizar as classes menos favorecidas. Ou alguém acha que os talassas andam no fast food, nos refrigerantes ou se passeiam em carros a gasóleo. Proporcionalmente, os impostos indirectos atingem mais os de baixo rendimento do que os malvados capitalistas e as classes suas aliadas.

Em quinto lugar, a ideia peregrina de baixar o IVA da restauração (baixa, aliás, um tanto ou quanto restrita) não só não significa uma baixa de preços mas sobretudo beneficia os turistas que, por pouco que gastem, sempre comem duas vezes ao dia. Chegou-me aos ouvidos que poderão ser mais de vinte milhões os turistas neste ano. O que significa pelo menos quarenta milhões de refeições se apenas se demorarem um dia no torrãozinho de açúcar lusitano.

Caso demorem mais de três dias a coisa significa que o número de refeições vendidas a estrangeiros será superior às fornecidas a portugueses. Como, ainda por cima, os nossos preços são muitíssimo inferiores aos dos países de onde nos vem os turistas, isto significa uma perda brutal de receita. É a reversão em todo o seu esplendor.

As medidas sob o património já tiveram um resultado: fogem capitais a todo o vapor para sítios já conhecidos. Consta que as transferências para a Suíça ultrapassaram os mais loucos sonhos dos banqueiros da Confederação.

E isto, esta procissão–debandada, ainda vai no adro. A ideia peregrina de taxar violentamente o alojamento local (que, parece, tem permitido, o restauro de bairros inteiros de Lisboa e Porto) poderá trazer uns tostões a curto prazo mas matará a galinha dos ovos de ouro, duradouramente. Ou voltar-se-á ao aluguer clandestino, especialidade portuguesa que vigorou impune e impante durante dezenas de anos. De todo o modo, haverá consequências para o investimento no ramo. E menos emprego.

Deixo, por inútil, a discussão sobre o investimento e a criação de empregos. Quem é que virá suicidariamente meter o seu dinheirinho num país que tem a instabilidade fiscal como princípio de vida?

Os nacionais ou não têm dinheiro ou preferem pô-lo a salvo. Os estrangeiros receiam as mortaguices ingénuas mas perigosas com que as campeãs do anti-capitalismo diariamente nos ameaçam.

Graças a esta gente, tornei-me subitamente rico. Não aumentei o meu património imobiliário, bem pelo contrário. Até vendi (com mais dois familiares comproprietários) dois miraculosos apartamentos cujos inquilinos quase centenários abandonaram este mundo de tristezas por outra, e melhor, vida eterna. Só que, com todos os truques sobre o IMI e com esse limite baixíssimo para a fronteira da riqueza, eis que prédios antigos mas bem (e custosamente!) conservados começam a parecer-se com a Trump Tower de Nova Iorque. Só diferem nesse pequeno pormenor que é a rentabilidade. Só para dar um exemplo: num dos prédios, a substituiçãoo do elevador custou mais do que a soma das rendas durante dois anos. Acrescentem-se as taxas, as taxinhas, as despesas gerais, a limpeza e a iluminação das partes comuns e veja-se a fortuna dos infortunados proprietários.

Um orçamento é, devia ser, um momento de esperança, uma aposta sobre o futuro, uma garantia ou, pelo menos, uma previsão, de melhores tempos.

Este orçamento é, tão só, uma ideia de continuar na mesma, de sobreviver amparada numa curiosa especulação sobre melhorias que não parecem estar no horizonte próximo. E se for verdade a previsão sobre os países que importam mais de Portugal, então o futuro vagamente rosa com que a medo nos acenam será bem menos colorido do que os sonhos de Centeno e Costa presumivelmente são.

Mas isso é, vai ser, outra (e pior) história.

(quanto ao famoso deficit abaixo dos 3% é bom lembrar que o Banif não entra nessas contas. O que só por si representaria uma acréscimo de 1,4%!!! E para o ano teremos 5.000 milhões para a CGD que também não irão entrar nas contas. Mas saem-nos do bolso, ai isso saem)