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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

23
Nov17

Au bonheur des dames 437

d'oliveira

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Santana, regressa que estás perdoado...

mcr em 22.11.17

 

Quando o inestimável dr. Santana era Secretário de Estado da Cultura teve, entre muitas, uma ideia brilhante: deslocalizar a sede da Delegação Regional do Norte da Secretaria de Estado da Cultura. Do Porto onde estava instalada num belo palacete e onde está inserida a Casa das Artes, exilou-a para um cave em Vila Real, cidade como se sabe muito central para quem viva em Chaves. E, a partir daí, foi o que se viu. Da DRN nem novas nem mandados. Dos funcionários, cerca de 20, alguns mudaram-se para outros organismos e os restantes foram para casa onde todos os meses e ao longo de muitos e muitos anos chegava o ordenado.

Pela parte que me toca (relembro que era, na altura, Delegado Regional) demiti-me e fui procurar ser útil na Segurança Social, onde já estivera. E aí permaneci até à reforma. Tentei, baldadamente, convencer os governos socialistas (a partir de Guterres) da necessidade e da utilidade de “reverter” a tola medida de Santana. Nada! Foi preciso aparecer o governo Passos Coelho para o Delegado (agora Director) Regional aparecer definitivamente no Porto. Desconheço se na cave de Vila Real ainda vegeta algum serviço descentrado ou se, de uma vez por todas, se acabou com aquela fantasia imbecil.

Elos vistos, o dr. Costa entendeu agora refazer o percurso errático de Santana e transferir sem dizer “água vai” o INFARMED para o Porto.

Nem funcionários (quase quatrocentos!) nem a direcção sabiam da empreitada. A Câmara do Porto, ao que consta, ficou surpreendida pela benesse governamental. Num primeiro momento, Rui Moreira, um homem reconhecidamente inteligente, engasgou-se e falou de “ressabiamentos”. Não sei se se referia a trezentos funcionários e centenas de familiares que, de súbito, viam a sua vida ameaçada. Sei que apenas vinte funcionários aceitavam ir para o Porto. Os outros trezentos e tal devem ser os “ressabiados”...

Desconheço as “razões” do bodo que Costa quer oferecer ao Porto e, sobretudo, julgo que não poderá transferir ninguém contra vontade visto que a distância mais que decuplica aquela que se considera aceitável para forçar uma mudança de local de trabalho.

Assim sendo, temos que o Governo parece querer aumentar em mais de três centenas o número de funcionários públicos ou num regime semelhante e de efeitos semelhantes. De facto, não vindo os trabalhadores actuais do Infarmed para o Porto, haverá que recrutar outros in loco. E prepará-los, ensiná-los e garantir que serão, no mínimo tão eficazes quanto os que ficaram em Lisboa.

Claro que os “ressabiados” poderão ser alvo de chantagens várias, coisa que também não é de todo desconhecida na função pública. Sugestão aqui, ameaça acolá e a barca vai andando aos bordos sempre perto do naufrágio.

Uma das coisa que mais me espanta (ou nem isso, que eu já conheço as linhas com que um cidadão precavido se cose) é a falta de declarações sindicais ou de partidos ditos “amigos dos trabalhadores”. Nada! (pelo menos até hoje quinta feira).

E, já agora, tentemos perceber o que é que se passa na cabeça dos governantes. Quererão, bondosamente, compensar o Porto pela “perda” da Agência Europeia do Medicamento? Mas será que alguma vez alguma dessas fosforescentes criaturas governamentais sequer sonhou em ganhar a AEM? Desconheceriam (tudo é possível sobretudo para as risíveis mediocridades que trataram do dossier e informavam –intoxicavam – os media nacionais) que só por milagre da Rainha Santa, dos pastorinhos e do beato Nuno (todos juntos mais a “santinha da Ladeira” e a Senhora de Fátima) é que seria possível escolher o Porto?

Num país desvairado pelos fogos, pelo turismo que foge a sete pés do Mediterrâneo perigoso (e de Barcelona que registou este mês menos quarenta (40%) por cento de entradas de turistas e pela obra “intangível” (cfr. Cunha Leal) da geringonça, tudo é possível mas isto (a vinda da AEM) roçava as raias do delírio. O Porto pode ser muito giro para dois dias de trânsito turístico mas só por dois dias. É verdade que tem o dobro dos dias de sol de Amsterdão, metade do custo de vida de Milão e infinitamente menos racismo do que Bratislava. E que há mar menos poluído do que o Báltico ou o mar do Norte, um clima mais ameno do que noutras cidades concorrentes. Todavia, em termos europeus, é, definitivamente, uma cidade periférica. Tanto ou mais que uma romena ou finlandesa Que justamente também não abicharam nada.

Aliás, os funcionários da AEM já tinham manifestado a sua má vontade em vir para Portugal. Tanto ou mais quanto em relação a Bratislava.

O Porto ficou num “honroso” sétimo lugar, ao que sei. Eu, nestas coisas, sou muito pão, pão, queijo, queijo. Só um lugar interessa: o primeiro. O resto é lirismo nacionalista para entreter ingénuos.

Aliás, suponho, que no Porto ninguém acreditava neste milagre das rosas moderno. Por junto, as pessoas, usavam o mesmo raciocínio de quem aposta no euro-milhões: sem nos habilitarmos é que não vem prémio algum. E no dia seguinte, no quiosque do costume, compra-se o jornal e volta-se a preencher o papelinho. Não ficamos mais pobres mas, contra milhões de probabilidades, podemos ficar mais ricos. E durante dois dias gozamos que nem cabindas a pensar no que faríamos aquela dinheirama toda.

Voltando, porém, à vaca fria, quem por estes momentos andará por aí preocupado, angustiado, aflito ou indignado é o lote de funcionários do Infarmed que, como prenda no sapatinho, se vê estúpida e desnecessariamente (e ilegalmente) ameaçado pelo Governo.

O dr. Santana Lopes deve estar a babar-se: afinal as suas tolas mudanças de sede de organismos da ex-SEC estão justificadas. Convirá preveni-lo que uma burrice não apaga outra burrice. Apenas aumenta a primeira. Ouviu, dr. Costa?

 

*A Ilustração não pretende chamar seja o que for aos senhores Santana e Costa. Quanto mais não seja porque, os burros não são, como se poderia pensar, estúpidos. Bem pelo contrário são animais bem mais interessantes do que muitos humanos que por cá peroram e se mexem. 

09
Nov17

Au bonheur des dames 436

mcr

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O menino Jesus chegou antes do Natal e chama-se Nuno Maria

 

É como se fora do meu sangue. A minha enteada Ana (com a ajuda do marido Nuno) presenteou-nos a mim e à CG com um menino são como um pêro que dorme a sono solto.

A CG flutua a uns bons vinte centímetros do chão e continua a tricotar furiosamente roupinhas para o bébé que não vai conseguir usar todo o enxoval que já tem. É o costume, claro.

Ontem, dia do nascimento, logo de manhã já me pediam notícias do viajante pois sabia-se que a coisa estava a rebentar.

Os pais do infante comunicaram à babada futura avó que o internamento seria ontem, que se seguiriam análises e exames e que, depois, o médico diria quando é que o parto teria lugar.

Era uma piedosa mentira destinada aos familiares (quatro avós maternos e uma avó paterna), bisavós e demais antepassados variados, amigos e colegas.

Pessoalmente, eu tinha uma vaga desconfiança de que as coisas se passariam mais depressa: Já por alturas da licenciatura, a Ana nada dissera e deu-me o prazer (e a honra) de ser o primeiro a saber logo que o último exame terminou. Na altura, explicou-me que queria evitar a choradeira da mãe, o nervosismo do pai. Por isso, eu estava em alerta mínimo e tranquilo. Quando a CG me deu a notícia, ouvia-a impávido.

Depois começou o bailinho da Madeira: a CG a alertar (a amotinar) amigas, parentes e demais povo. Os alertados respondiam com salvas de perguntas, guinchavam metaforicamente pelos novos meios de comunicaçãoo. O meu sábio irmão, médico de profissão, pai e avó endurecido, ligou-me a perguntar se já havia novidades. A cunhada dele, ao lado perguntou se o menino era bonito.

“Ó Maria Manuel, então isso pergunta-se?”

Respondi-lhe que estava em frente do alucinado pai (que andava com dores de parta há umas boas semanas) e que medindo quase dois metros, calçando 48 biqueira larga, me poderia agredir no caso de eu dizer qualquer coisa menos simples do que afirmar que a criaturinha era maravilhosa.

Com este subterfúgio escapei ao nariz de cera habitual e cortei cerce qualquer pedido para dizer com quem a criança era parecida.

Os bébés, à nascença, parecem-se com outros bébés, ponto, parágrafo.

A minha excelente Mãe já se tinha adiantado com um cheque simpático para o menino começar a ter conta no banco. Em troca exigiu uma fotografia verdadeira, em papel como deve ser, nada dessas mariquices no telefone. A Old Lady tem cataratas e quer ver com olhos (os dela) de ver. Pede pouco mas bom. Uma fotografia que o caixilho há-de me encarregar de comprar. Como de costume.

“E coisa boa, nada dessas quinquilharias tão na moda!” É para já Senhora, minha Mãe: vou num pé e venho noutro!  

Os filhos e netos, nossos ou dos nossos parentes e amigos,  são,  sempre, um milagre.

Por junto, hoje, mandei um mail à Zé Albarran explicando que o menino se parece com a avó porque dormia com a boca aberta. Enquanto estive no quarto da parturiente não se dignou abrir o olho e dormiu regaladamente. Isto de nascer cansa, está visto.

Que cresça bem, rodeado de amor e carinho e que o mundo a que chega seja melhor do que aquele a que cheguei num longínquo Novembro de 41.

Agora, cá o espero para o ensinar a jogar bilhar, ouvir muito jazz e alguma ópera, provar uns patés decentes e passear com este imprestável avô até ao café ao pé do jardim. E para o que mais for preciso.

09
Nov17

Au bonheur des dames 435

mcr

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Da Galiza para Portugal

(em memória de Luís Seoane e para Xesus Alonso Monteiro com profunda admiração)

 

A Galiza tem uma área que é cerca de um terço da de Portugal. Essencialmente é uma região montanhosa com profundas rias por vezes rodeadas de vales não demasiadamente extensos. Com excepção da Guardia e da Corunha as principais cidades estão relativamente afastadas do mar mesmo se este é a origem da maior riqueza galega: o peixe e os mariscos. Além da vinha, a floresta é outra das riquezas da região. Foi esta floresta que sofreu em Outubro passado incêndios violentíssimos que devastaram 50.000 hectares, mataram quatro pessoas e fizeram 2400 desalojados.

Uma semana depois da calamidade, a Junta da Galiza começou a tomar medidas. Assim foram logo fixadas as indemnizações para quem perdeu casa (quer a primeira habitação quer a segunda respectivamente de cem mil e quarenta mil euros. Num conjunto de 30 pontos rapidamente aprovados (passa agora um mês sobre os fogos) foram decretadas e começaram a ser executadas medidas contra a ocorrência de novos fogos, indemnizações aos empresários, reconstrução de estruturas agrícolas (currais, redis, armazéns, silos). Estipularam-se novos perímetros de defesa contra fogos, de limpeza da floresta, de posse administrativa de terras sem proprietário conhecido, de fiscalização florestal, de novos meios de combate a incêndios.

E começaram já os cortes de árvores ardidas!

Também já estão a ser pagas as indemnizações por morte de pessoas (75.000 euros).

A Galiza é “apenas” uma região autónoma espanhola sem ter sequer poderes tão latos quanto outras. Não é rica senão de gente abnegada, generosa, risonha apesar da “morriña”, que fala o velho galego dos “labregos e marinheiros” e se entende às mil maravilhas com os trezentos mil portugueses que a invadem no Verão e com os restantes espanhóis que lhe procuram as praias e a belíssima gastronomia. Nunca vi (e eu sou um habitué da Galiza, das suas livrarias, dos seus pequenos restaurantes, de Vigo, de Pontevedra, de Santiago) um local deixar sem resposta outro espanhol que não sabe galego. Nunca!

Entre o período visigótico e a ascensão do reino de Leão, a Galiza constituiu um breve reino que pouco durou. Ou melhor: o reino centrou-se em Leão e as terras galegas (como as do norte de Portugal) eram feudatárias dessa entidade política. Depois, o reino desapareceu. Afonso Henriques, já livre do suserano leonês, tentou por duas ou três vezes conquistar territórios galegos com incursões entre Tui, A Guarda e Vigo mas foram apenas pequenos triunfos sem consequências. O Minho impôs-se como fronteira até hoje.

Durante a curta República (a 2ª) a Galiza dotou-se de certa autonomia, como o País Basco e a Catalunha (que entretanto não se podiam gabar dos mesmos antecedentes históricos...) mas a “cruzada” franquista rapidamente liquidou as aspirações galegas. Durante a guerra civil, e mesmo depois, ainda havia pequenos focos de guerrilha no “monte” havendo mesmo na raia muitos portugueses que acolheram os prófugos galegos. Em 1950, nada restava desse pequeno grupo. Nos finais do franquismo, apareceu a UPG e houve pequenas acções armadas de escassa importância. Com a democracia, a UPG constituiu um bloco independentista mas a tendência, depois de um apogeu no fim dos anos oitenta, decresceu significativamente enquanto o Partido Popular ia aumentando significativamente a sua influência. Até hoje. O governo Feijoo tem maioria absoluta na região e tudo indica que assim continuará.

Do ponto de vista cultural, a Televisão Galega é seguida (até em Portugal), há algumas editoras de livros em galego (curiosamente, muitas delas dedicadas à produção literária galaico –portuguesa com belíssimas antologias indispensáveis para quem queira saber da nossa comum origem literária). Editam-se, com tiragens decentes, alguns escritores galegos desde a eterna Rosalia deCastro até Manuel Rivas passando pelos incontornáveis Castelao, Cunqueiro, Celso Emílio Ferreiro e, pasme-se!, Rodrigues Lapa, insigne filólogo português respeitadíssimo no Além-Minho.

Curiosamente, alguns dos grandes escritores galegos do sec XIX ou do XX, escreveram sempre em espanhol e em alguns casos recusaram a tradução das suas obras para o galego. Tinham, de resto, uma excelente razão: parte do encanto da língua que usaram tinha galeguismos em profusão e isso dá(va) um encanto especial à narração (falo de Camilo José Cela, Torrente Ballester e do extraordinário Ramón del Valle Inclan, autores que não me canso de reler.)

Os leitores que me desculpem. Eu ia só falar da rapidez, da eficácia, da generosa solidariedade dos governantes galegos e comparar a atitude deles com o que por cá se passa.

Uma catástrofe obriga a medidas extraordinárias. E a medidas rápidas. Há demasiado sofrimento, demasiadas vítimas e nenhum tempo a perder. Os galegos, bem mais pobres do que nós, mais emigrantes do que nós (a maior cidade galega é Buenos Aires...) deram, neste capítulo, uma lição às nossas elites governantes. Aliás, já tinham, ao contrário de nós, tirado a devida lição dos grandes fogos (o último a que assisti foi em 2006), criando um comando único de ataque ao fogo (prevenção e combate), profissionalizando os corpos de bombeiros retirando grande parte das competências aos chamados “voluntários” que podem ser generosos e heroicos, mas não são suficientemente profissionais e eficazes.

(um jornal de hoje relata em página inteira como o ex-Secretário de Estado Jorge Gomes recusou o recrutamento de 40 novos bombeiros para a Força Especial de Bombeiros com o argumento de que ainda não estava concluída a regulamentação do Estatuto da FEB. A proposta vinha do presidente da ANPC, Joaquim Leitão e pretendia colmatar falhas ainda durante a futura “fase Bravo”. Não irei ao ponto de dizer que a falta destes quarenta homens em Pedrógão levou à morte de dezenas de pessoas. A história não se inventa nem se reescreve. Todavia, a falta deles não só não ajudou como seguramente prejudicou o combate aos fogos.

Este país adora perder-seem burocracias enquanto a barca do Estado mete água e vai lentamente soçobrando em evitáveis naufrágios.

Por uma vez, imitem os galegos. Ou vão até lá aprender. É perto e há bom marisco, vinho albariño e uma gentileza fraternal. E entendem-nos e não nos pedem para falar galego!

 

 

31
Out17

Au bonheur des dames 434

mcr

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Carta a um aspirante a padeira de Aljubarrota

 

Ex.ª Senhora

Entendamo-nos: longe de mim tentar apouca-la, retirando-lhe algum eventual título universitário que possua. Mesmo que padeira seja uma profissão eminentemente útil, eventualmente mais útil e mais, muito mais, necessária que um quarteirão de licenciaturas ornamentais que as nossas universidades prodigam. De pão precisamos todos, se possível fresco, bem feito, bem tostado e com pouco sal.

Isto de padeira é apenas para lembrar a lendária Brites, padeira nos arredores da Aljubarrota que terá mandado ad patres sete castelhanos fugidos da curta mas definitiva batalha que garantiu o trono a João, Mestre de Avis contra João I, rei de Castela e marido de Beatriz, herdeira legítima de seu pai Fernando, o Formoso, ou melhor de Fernando o rei da lei das sesmarias, o reconstrutor da muralha do Porto e muitas outras fortalezas do Reino, enfim o marido apaixonado e cego de amor de uma intrigante mulher, inteligente e ambiciosa que conseguiu mal dispor o povo, os mercadores de Lisboa e alguma aristocracia.

Não há provas da valentia da gentil padeira nem da mortandade infligida aos invasores e ainda menos da história dos infelizes soldados terem sido atirados para o forno. Porém, a lenda ficou. Ficou como o milagre de Ourique (que um meu antepassado terá testemunhado) ou a bela, verdadeira e pungente história de Duarte de Almeida, o Decepado.

(Verifico neste momento que estou para aqui a gastar o meu latim com uma jovem (enfim uma senhora com metade da minha idade) que provavelmente teve nos seus anos de secundário uma passagem breve e descuidada pela História pátria. )

Já aqui, neste blog malicioso e inconveniente se referiu a padeira de Aljubarrota nomeando alguns entusiastas recentes da Catalunha liure (escrevi liure, que é catalão, língua em que me aguento) que, ao arrepio da história recente ou pregressa, amam desmesuradamente aquela terra, Gaudi e a “botifarra” enquanto abominam medonhamente Castela e a sua natural extensão a Espanha. É o nacionalismo português em toda a sua empáfia, o nacionalismo “brigadeiro” citado por Eça (Eça, Ex.ª Senhora é um escritor do século XIX), a afirmação bem lusitana da nossa pertinaz liberdade republicana.

Note que, V.ª Ex.ª não é única: no ridente torrão de açúcar não faltam os inimigos de Castela que ainda não perceberam que, depois dos Reis Católicos (trata-se de um casal já antigo de que poderei fornecer biografia caso queira) deixou de existir tal reino e apareceram a Espanha, o Império etc... Normalmente, é gente conotada com os conservadores quem usa Castela mesmo sabendo (e eles sabem História) que o termo é redutor e inadequado. De todo o modo, há entre a lusa e fera gente um sólido horror ao vizinho, maior, mais próspero, mais conhecido, mais rico. Perpassa neste estremecimento de patriotismo desvelado a lembrança dos reis Filipes (I,II e III ou II,III e IV de Espanha) que depois da morte do aventureiro Sebastião, foram reis de Portugal (ou seja Portugal nunca foi anexado a Espanha mas permaneceu como reino independente mesmo se a sua sorte estivesse ligada à de Espanha e à mercê das guerras que esta travava com ingleses, holandeses, franceses). Terá sido, justamente a última guerra de independência (1640-1668) dita da Restauração, que desatou, por cá, um estremecido amor pela Catalunha. Corre por lá um pio convencimento de que os combates na Catalunha salvaram Portugal. Conviria lembrar que o teatro de guerra espanhol era bem maior do que a Catalunha e com adversários bem mais formidáveis. A Catalunha, de per si, nunca impediria uma intervenção militar em Portugal que, aliás, ocorreu e com alguns insucessos para as nossas armas até ulteriores vitórias, nossas e dos nossos aliados, e um tratado de paz celebrado em 1668.

Não fomos salvos pela Catalunha nem, aliás, esta região autonómica desempenhou em relação a Portugal qualquer papel de relevo. Aqui para nós, o que existe é um enorme desconhecimento que vai desde o não haver cem portugueses que consigam ler catalão até uma gigantesca massa de compatriotas que sabem tudo sobre o Barcelona FC, menos todavia do que os que sabem tudo sobre o Real Madrid onde pontifica o “melhor jogador do mundo”.

Passa-se, entre alguma esquerda portuguesa, quanto à Catalunha o mesmo que antes se passara quanto à Grécia. A mesma ignorância espessa e o mesmo arroubo que morre ao primeiro choque com a realidade. Tsipras já só é um fantasma, Varufakis uma ilusão e os dirigentes catalães agora em parte incerta (Molenbeeck, Bruxelas?) um par de heróis falidos e falhados de uma causa inexistente.

A “república catalã” durou, nesta fase, o tempo de um suspiro para não referir uma outra e menos agradável exalação corporal. Aquilo foi fogo de vista, uma acendalha claramente de Direita soprada por uma CUP dita de extrema Esquerda, baseada numa história de mentirolas repetidas até à exaustão e que condenavam cinco milhões de pessoas a uma existência pária numa Europa que os não recebe, os não aceita, os não compreende. A Catalunha que V., num artigo de opinião, exaltava nunca existiu historicamente, viveu sempre confortavelmente dentro de uma Espanha plural e, como diz uma expressão muito em uso nos meios catalães mais nédios mas a la mode, foi sempre uma “metrópole que queria libertar-se das suas colónias”. A resposta aos devaneios de um tonto Puigdmont ,de uma senhora Forcadell, de um cínico Junqueras, foi dada nas ruas e não serão os fascistóides flamengos da Bélgica quem amparará os escafedidos consellers ora em fuga.

Os dirigentes “independentistas” pensaram que, nas ruas, o povo se insurgiria, que a repressão criaria vítimas e emblemas sangrentos que, a posteriori, justificariam aquelas discursatas vãs, aquele caminho aventureiro percorrido nos últimos meses. A economia, realidade cruel, encarregou-se do primeiro aviso. Duas mil empresas transferiram as sedes para territórios mais seguros, destinatários dos seus produtos. Nem os bascos fizeram mais do que uma piscadela de olhos. Rajov não é, queiram eles ou não, um discípulo de Franco. De resto, vem da mesma família ideológica de Puigdemont, da Esquerra Republicana que de esquerra nada e de republicana só o nome (a última vez que se ouviu falar dessa gente foi para se ficar a saber que não gostavam de árabes, mormente emigrantes). Metade da Catalunha é constituída por 1ª ou 2ª geração de emigrantes galegos, estremenhos, andaluzes e outros espanhóis. Estes, trabalhadores modestos, na maior parte não estão interessados numa independência e numa república que não só os afasta das suas origens mas sobretudo ameaça os seus empregos . Por outro lado, outros catalães de pura cepa também não se reveem num país que se “enroca” e nada propõe que não seja um hino semi selvagem (Els segadors”), uma bandeira que deu as cores à de Espanha e um par de dirigentes que foge do eventual perigo mais depressa do que uma lebre assustadiça. E que deixa os seus cidadãos sós e desamparados, provando, assim, que apenas os considera como carne para canhão. O fugidio Puigdemont esperava que Rajov mandasse os tanques e que os independentistas que povoaram as ruas no sábado, embrulhados na senyera estellada se portassem como os checos diante do exército vermelho em Praga. E que alguém, se possível um jovem, se imolasse pelo fogo (foc). Azar! nem tanques nem gente nas ruas. Ou melhor umas centenas de milhares de cidadãos defendendo a unidade nacional, jurando que também eles são Catalunha e Espanha.

De há um par de dias, os enganados independentistas vagueiam pelas ruas azabumbados. O céu caiu-lhes em cima mas eles não são o chefe gaulês de Asterix. Quanto aos do Govern, os corajosos passeiam-se na Grand Place sob a proteção de um flamengo fascistóide para mostrarem à Europa quão europeu é o problema catalão.

Ex.ª Sr.ª, eu sei que o meigo coração de Vexa se arrebata por qualquer longínquo clarão no horizonte. Onde esvoaçou um bandeira vermelha e amarela com um estrela no canto, V terá visto, claramente visto, o lume vivo do heroico proletariado de Barcelona. E lembrou-se dos dias gloriosos da semana sangrenta quando o exército reprimiu duramente a revolta dos populares que se recusavam a ir para a guerra. Ou recordou os outros mais próximos da reacção popular e anarquista durante os inícios da guerra civil. Provavelmente, esqueceu que foi justamente em Barcelona, e um pouco por toda a Catalunha, que o “verdadeiro partido do operariado” esmagou na rua e depois nas “checas” o que restava de anarquistas e, sobretudo, os militantes do POUM. Perante a indiferença, aliás, da população que, à semelhança da burguesia quinta-colunista, aguardava a chegada das tropas franquistas que entraram na cidade sob aplausos e flores bem ao contrário da Madrid malvada que aguentou sozinha um cerco de anos. Mas isto é História antiga e V não se ocupa dessas peripécias. V ama ternamente Puigdemont, Junqueras e Forcadell e as bravatas soltadas num Parlament desertado pelas forças políticas constitucionalistas.

E, acaso, esperava, sonhava com uma Comuna de Paris traduzida em catalão. Enganou-se, Ex.ª Sr.ª a História só se traduz em calão e quando se repete a coisa torna-se uma farsa.

Está, pois, V.ª Ex.ª órfã, outra vez. Órfã política, órfã de causas, entenda-se. Terá de esperar pela próxima. A Escócia é pouco provável, na Itália, a Lombardia e o Veneto apenas querem maior autonomia, resta a Flandres que não anda nem desanda. No resto do mundo, há sempre a causa da Venezuela ou a da Coreia do Norte que a China já se declarou marxista-leninista-maoísta-capitalista e agora só aceita o pensamento inefável do seu actual presidente.

É chato.

“se corres sempre endins

de la nit del teu odi

............

el fuet i l’espasa

t’han de governar”

 

Deixo-a com uns versos de Espriu que seguramente saberá entender. Ou não. Se calhar não. Definitivamente, não!

*a ilustração:  Joan Miró

26
Out17

Au bonheur des dames 433

mcr

A remoção da moção

 

Por mais que uma pessoa não queira espantar-se, as circunstâncias não a deixam em paz. Desta vez, temos a moção de censura do CDS.

Ora atente-se: esta moção como duas dúzias de outras anteriores no actual regime, estava condenada ao fracasso. Politicamente, este fenómeno não passava de um anunciado nado-morto.

Não havendo maioria para a votar, a moção ia morrer de morte macaca. O CDS sabia disso perfeitamente e, supõe-se que a geringonça não o ignorava.

Isto dito, pergunta-se: então, supondo que a professora doutora Cristas não é tonta (e pelo que se sabe e vê, não o é) que efeito pretendia o CDS?

A princípio, tinha um conjunto de propostas sobre o modo de combater os fogos, a situação decorrente dos mesmos e o reordenamento de todo o interior. É facto que boa parte das propostas do CDS estavam, ou iriam estar, abrangidas pelas medidas propostas pela Comissão Independente. Sobravam algumas que ou não foram ainda acolhidas ou poderão ser desnecessárias para já. De todo o modo, na altura do anúncio da moção ainda não se sabia com segurança que medidas exactas iria o Governo tomar num Conselho de Ministros extraordinário. Claro que o bom senso parecia apontar no sentido de serem acolhidas todas as propostas da CI mas uma coisa é o bom senso e outra a política quotidiana.

Uma vez anunciada a moção, começou a berrata. Que aquilo era uma vileza, uma canalhice, que o país estava de luto, que havia aproveitamento político...

Lembremos que quando se apresenta uma moção de censura é porque, para além da sua eventual justeza, alguém quer tirar dividendos políticos. Por isso mesmo, houve já um quarteirão de moções perdidas. A maior parte delas, aliás, vinha da Esquerda que, agora, se disfarçava de virgem pura e incapaz de querer dividendos políticos de uma acção normal em qualquer Parlamento democrático.

Se quisermos verificar a cronologia, decerto notaremos que entre a decisão de um Conselho de Ministros (ao sábado) e a discussão da moção (uma terça imediatamente a seguir) pouco espaço resta para eventualmente modificar a agenda da Assembleia.

Mas há mais: o CDS nunca terá sequer sonhado com uma vitória. Aquela gente terá defeitos mas ainda deve conhecer a aritmética.

Resta, pois, tentar perceber o que é que o partido “centrista” (convenhamos conservador com uns laivos de Democracia Cristã) queria. Será que apenas (e já não é nada pouco) queriam mostrar ao país alarmado e em estado de choque, quem estava com um Governo que, não há volta a dar-lhe, falhou clamorosamente (uma Ministra incompetente, uma Direcção da Protecção Civil sem preparação, sem qualidade, nomeada as mais das vezes com base em critérios políticos, uma tibieza generalizada por parte dos poderes públicos, um Primeiro Ministro incapaz de mostrar uma réstea de comoção) e mortes, muitas mortes. ).

O CDS pretendeu, e conseguiu, mostrar aos portugueses, ou a alguns portugueses que BE e PCP, falam muito, exigem muito mas que, quando a coisa é a sério, não tiram da sua vozearia as consequências que poderiam parecer impor-se. Que o PS, claramente fragilizado, como aliás afirmou um dos novos ministros, só se aguentava graças à muleta da geringonça.

Poder-se-á retorquir que isso é coisa por demais sabida. Desde o dia em que um Costa, derrotado nas urnas, ressuscita da tumba eleitoral, para formar um governo que não tem paralelo na UE e que só durará enquanto este instável equilíbrio se mantiver. Até há meses, futurava-se que Costa, mal se apanhasse com as costas quentes e a popularidade em alta, tentaria novas eleições e a maioria absoluta. E, por isso mesmo, durante, longo tempo, PC e BE nem se mexiam. Não havia greves, manifestações, protestos públicos, mas tão só umas mansas admoestações, uma espécie de pedidos a medo, ora deem lá qualquer coisinha para isto e para aquilo.

Com os fogos, esta idílica paz estoirou. Primeiro, porque o que se passou foi medonho. Depois, porque os muletas do PS fugiam a sete pés de qualquer responsabilidade na actual situação, finalmente porque o próprio PS ficou atordoado e incapaz de se mobilizar a tempo e horas. Tudo isto, notem, depois de uma eleições autárquicas que confortaram o PS, nada deram ao BE e mostraram um cartão vermelho vivo ao PC que perdeu de uma assentada dez municípios. Entretanto, o PPD afundava-se e o CDS registava um score a todos os títulos notável. Claro que as perdas do PSD são eventualmente reversíveis e a vitória do CDS é, tão só a vitória de um pequeno partido. Não faz mossa a ninguém. É bom para o ego de Cristas mas ainda não foi desta que se fez História com H grande.

A discussão da moção foi um espectáculo pungente. Primeiro, a moção estava esvaziada pela assumpção das medidas propostas pela Comissão Independente. Depois, porque já tudo fora dito antes, quer pelos adversários, sobretudo, mas também pelos defensores da moção. Finalmente, porque daquele delirante gargarejo de tenores áfonos pouco ou nada saiu de novo.

É bom lembrar que, entre nós, apenas uma moção de censura teve um imerecido êxito. Aquela suscitada por um partido nascido do nada e a ele, feliz e rapidamente, regressado, contra um governo minoritário de Cavaco Silva. Com uma confrangedora miopia política, o PS apoiou o PRD (um ajuntamento sebastianista, eanista e populista) e, apesar dos avisos de Mário Soares (na altura Presidente da República), Cavaco tombou para depois se levantar com duas esmagadoras maiorias absolutas.

Só que, enquanto o PS pouco tinha a perder e o PRD corria o risco de quase desaparecer, Cavaco tinha tudo a ganhar. E o PC, por seu lado, olhava para aquilo e sentia que, fosse qual fosse o resultado, alguma migalha lhe cairia no regaço.

Desta vez, Cristas nada tinha a perder. Queria, e conseguiu, colar o PS ao BE e ao PC (não vale a pena falar nos inexistentes verdes e no PAN. Uns, porque são um pseudónimo pouco original do PC e outros porque nunca conseguiram explicar ao que vinham, como, porquê e para quê. Além do mais são um puro produto urbano, uma espécie de escoteiros laicos e pouco imaginativos. Eventualmente, devem o seu solitário deputado ao voto de protesto mas nem isso merecem.

Não vou referir o PSD. Cumpriram a sua parte mas estão metidos numa eleição interna que, até à data apresenta dois candidatos piores um que o outro, envelhecidos e sem imaginação. De todo o modo, quem ganhar vai ter de atravessar o deserto da oposição e pode mesmo acontecer que, se as coisas melhorarem, apareçam outros candidatos mais credíveis, mais novos e menos cansados.

Em último lugar: a derrota da moção fortalece ou fragiliza o Governo. Costa tentou dizer que a derrota da moção fortalecia o Governo. Não é verdade a menos que o seu resultado fosse imprevisível. Não o era. Sabia-se, sem dúvida alguma, que a hipótese da moção vencer era inimaginável. E tê-lo-á fragilizado? Também não parece garantido. O Governo vive do apoio do BE e do PC mas isso já não é um mistério para ninguém. De todo o modo, PC e BE tiveram algum trabalho par explicar o seu apoio. Foi por isso, e só por isso, que repartiram a resposta em dois planos. Criticaram, sem especial convicção, o PS e atiraram-se que nem gatos a bofe ao CDS. Mas se a primeira acção não resultou convincente, a segunda por estridência demasiada também não teve especial êxito.

E se bem repararem ninguém discutiu efectivamente a essência da moção. Uns tentaram fazer um processo de intenções e o acusado tentou defender-se. Nada mais.  

23
Out17

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Ay flores do verde pino

(mcr 23.Out. 2017)

 

Saberão as leitoras (e os leitores, espero) que andam por aí (ou pelo menos em países mais civilizados e mais amigos da floresta) um par de livros que asseguram que a floresta, enquanto tal, age como um ser vivo ou seja as plantas (no caso as árvores) tem estratégias de desenvolvimento, de crescimento e de defesa comuns. Há, pelos vistos, uma actuação solidária perante as ameaças sejam elas um fungo, malévolo ou até a acção de animais. Fiquei fascinado com esta tese e encomendei já o livro mais recente sobre o tema que mereceu, de resto, artigos nas mais sérias revistas científicas do mundo.

A ser verdade, e tudo o indica, à floresta portuguesa calhou o mais temível ataque possível. O fogo. Não que as florestas (e em particular a floresta mediterrânica) não ardam. Ardem e há mesmo nesse fogo “normal” aspectos positivos. Existem mesmo árvores que necessitam do fogo para libertar as sementes.

Todavia, em Portugal, sempre em Portugal, a floresta é vítima de fogo a mais, de Governo a menos, de descuido, de descaso, de ignorância.

Desta feita, foi com o seu dramático cortejo de vítimas humanas e de milhares de animais domésticos ( gado, aves de capoeira, cães e gatos...) mais uma forte porção do pinhal interior que desapareceu. E, com ele desapareceram, casas, campos lavrados, apetrechos agrícolas, cabos eléctricos, condutas de água, fábricas e toda a sorte de veículos de trabalho, de transporte ou de recreio.

No meio dessa medonha devastação, perdeu-se oitenta por cento do Pinhal do Rei. Do pinhal dito de Leiria que em boa verdade chega até à minha terra (Figueira) e continua para lá do Cabo Mondego até Mira.

O pinhal do Rei tinha setecentos anos! Setecentos anos! Quase a idade deste desgraçado país, longe de Deus e perto, demasiado perto, de homens sem fé nem lei, de um Governo (aliás, de vários governos sucessivos) para quem o país é um longa praia de Setúbal até Viana, da rebentação até trinta, quarenta, vá lá cinquenta quilómetros para dentro. Um país onde cabem Braga, Guimarães, Aveiro, Coimbra, Leiria, eventualmente Santarém e, mais longe uma faixa costeira do Algarve onde o verde da vegetação se deve apenas aos campos de golf criados para os estrangeiros que eventualmente apreciam mais o nosso país do que os instalados no Terreiro do Paço. No próprio e nos que sobram em mais meia dúzia de cidades que do campo só sabem que é very tipical e que é de lá que vem o vinho, o presunto, as alheiras e o queijo da Serra. E as azeitonas, se para o ano houver que cheguem depois de milhares de oliveiras (que dura(va)m centenas de anos) terem ficado carbonizadas.

O pinhal de Leiria, as “matas nacionais”, o pinhal do Rei (e era assim que todos quantos nos importamos com a nossa herança, a nossa história, a nossa diferença, a nossa cultura) o chamavam, ardeu. Corre o risco de desaparecer. Era um monumento nacional vivo, “resiliente” como algum imbecil governamental diz, era tão nosso quanto a Batalha, os Jerónimos ou o castelo de Montemor. Respirava, era um imenso pulmão, uma defesa contra as areias, dava pinhas e acolhia centenas de animais. E dava, deu sempre, madeira para construção civil, soalhos, móveis, barcos sei lá que mais.

Este pinhal tinha menos guardas do que o museu dos coches (cuja nova sede custou milhões que faltarem dramaticamente nas terras abandonadas da “selva” interior). E dois solitários técnicos.

Não é por acaso que boa parte da mancha ardida elege um pequeníssimo número de deputados. O interior forneceu criadas, operários, emigrantes para a cidade, para os Brasis, para a Europa e para o mundo. Nada de importante, só gente que, com as pobres e honradas mãos, ainda tentava dar vida a um extenso território, a mais de 70% do território nacional. Só gente que combateu as chamas com ramos de árvore, com baldes de água, com mangueiras antigas e pouco eficazes. E, todavia, sabe-se de muitos casos de homens e mulheres que salvaram outros, muitos, homens e mulheres. E animais. Há a história de um morto a tentar salvar os cães. A outro, sucedeu-lhe o mesmo quando tentava libertar um par e vacas que nem dele eram. Mas pelos vistos, ou segundo aquela execrável criatura que passava por governante, não eram “resilientes”. Ou segundo uma outra, ainda mais cavilosa, só sabiam pedir ajuda, aviões e bombeiros. Note-se que toda esta gente paga impostos. Os mais idosos andaram numa guerra em terras desconhecidas para defender interesses duma burguesia nacional, o ventre que pariu boa parte das cliques dirigentes.

Vejo-os na televisão com o Presidente da República. Há lágrimas, como não? As lágrimas são próprias do homem. Ou de alguns, quase todos, mas não de um Primeiro Ministro a quem não se pedia choro mas tão só algum consolo, alguma piedade, uma palavra, uma simples palavra. que surgiu tarde, depois do discurso, do grande discurso, e eu não fui, não sou e não me parece que alguma vez seja, um fã de Marcelo Rebelo de Sousa. Critiquei-o aqui, várias vezes, antes e depois de ser Presidente, mas, neste momento tremendo, confesso a minha admiração pelo seu discurso e mais ainda, muito mais, pela sua incansável peregrinação pelas terras devastadas. Aqueles portugueses tiveram, provavelmente, pela primeira vez, uma imagem decente do Estado. Desta feita, ninguém lhes vem cobrar impostos, taxas, dar ordens, transmitir proibições, olhá-los como bichos. É caso para dizer: ainda bem que nenhum governante lá apareceu. Ao ver-lhes as caras de pau, a verborreia tecnocrática, política (baixa política), a confissão de impotência sobe-me uma raiva que só é compensada pela imensa dignidade das vítimas que nem na desgraça foram poupadas à absoluta imbecilidade das declarações que todos conhecemos.

E o pinhal do Rei... um pinhal que estava à responsabilidade do Estado! Onde, nos tempos do antigamente, havia mais de duzentos guardas florestais e trabalhadores diversos, sobravam dez e dois técnicos. Será o Estado “resiliente”?

Os investimentos que faziam falta há anos, ou mais prosaicamente há quatro meses, aparecem agora de supetão!

E o pinhal? Duvido que em minha vida, no que me resta viver, o volte a ver, vivo e sano (como o amigo no poema que dá título a este folhetim) A vê-lo como o via, quando todos os meses, à passagem pela A17 e A8 na minha ida mensal a Lisboa para visitar a minha Mãe. Apesar de tudo, a esperança (e eu sou um optimista) é teimosa. Há uns anos vi arder o parque da Serra da Boa Viajem, na Figueira. Um parque onde brinquei, namorei, vivi. Está de novo em pé, vivo, verde, pujante. E era também uma floresta do Rei (no caso, porque quem incansavelmente o criou, quase do nada, se chamava Rei).

Só por isso, sonho com voltar a ver o pinhal de Leiria, restituído à sua verde grandeza e ao nome que, durante séculos, os povos lhe davam. Tanto mais que aquilo de “matas nacionais” afinal nada significava. O Estado, neste caso, portou-se como o pior dos proprietários.

.......

Era por aqui que eu terminaria o meu texto. Porém, ao ouvir o dr Miguel Sousa Tavares e umas criaturinhas do BE, numa fúria apocalíptica e anti-eucaliptica, deu-me para perguntar a estas robustas mentes citadinas: o que é que um camponês do interior, dono de pequenas parcelas de floresta, pelas quais paga imposto, há-de ter para poder assegurar um pequeno, pequeníssimo rendimento? Pinheiros que demoram a crescer o dobro do tempo? Carvalhos ou castanheiros que demoram seis a oito vezes mais? De que vive nessas décadas de intervalo? A senhora Martins quererá propor a funcionalização dos habitantes do interior? Dar-lhes umas fardas verde-azeitona e pô-los todos na carreira administrativa da restante funçanata pública, que de resto logo em começo de carreira ganha o dobro de um agricultor do interior?

Será que o dr Tavares que, dizem-me, é proprietário de um monte alentejano, já por lá plantou alguma árvore que eventualmente nunca verá adulta? Ao menos um par de oliveiras, meia dúzia de sobreiros ou, vá lá uma azinheira das que acabam por não saber a idade?

Quanto à senhora Martins não peço tanto. Não me atrevo a perguntar-lhe nada sobre botânica. Apenas me temo que sobre isso não vá mais longe do que vai na política.

 

* as duas ilustrações são um antes e um depois do pinhal do Rei As imagens tem tamanhos diferentes porque eu sou um desastrado que não sabe fazer melhor. Mas acho que se percebe bem o que me vai na alma e,sobretudo, o que vai por lá. 

16
Out17

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Algumas perguntas inocentes

 

As leitoras e os leitores recordarão, espero-o bem, que nunca me pronunciei pela culpabilidade do sr. José sócrates. Apenas, e de raspão, referi que até ao fim do julgamento, qualquer acusado se presume inocente.

Claro que isto, esta pública posição, não me retira o direito de pensar dele o que muito bem entenda. Jurista de formação e democrata desde sempre ou, pelo menos há cerca de 60 anos (presumindo que, depois dos 15/16, já saberia o que queria (coisa que não era difícil nos ásperos tempos em que vivi a adolescência e os primeiros anos de adulto) e, sobretudo o que não queria.

Também recordarão que pouco, quase nada, me durou a ilusão de que o sr. José Sócrates era um estadista. Pareceu sê-lo quando o comparávamos com o dr. Santana Lopes (que agora, reciclado e com menos cabelo, regressa às lides amparado pela amnésia colectiva nacional – de que Sócrates também largamente beneficia.

Aqui mesmo, poucos meses, um ano talvez, após a sua tomada de posse, já eu começava a duvidar da razoabilidade da sua governação. Essa crescente dúvida transformou-se em inexorável certeza durante o segundo e medonho mandato da criatura. A arrogância, a incultura, o autoritarismo e, sobretudo, o autismo político ultrapassaram tudo o que se poderia esperar.

Todavia, mesmo depois de ter sido varrido do poder, mantive o mesmo propósito: não julgar senão politicamente um homem que já não estava (bem pelo contrário!) acima de qualquer suspeita. Os “casos” já eram mais que muitos desde o “Freeport” até aos exames ao domingo, à licenciatura, ao seu teor de vida. Depois foi Paris. Aí este cavalheiro pretendia tirar um qualquer curso e estudar imenso não se sabe bem o quê. Dessa passagem ficámos a conhecer – de fora – a casa onde vivia. No XVI bairro, se faz favor. Na zona mais cara de Paris, para quem não saiba. E os restaurantes onde iria. Restaurantes, digo, nada de bistrots, nada de baratezas. E por aí fora. Maravilhavam-se os portugueses com aquele trem de vida que, por baixo, bem por baixo, rondaria os 10.000 euros mês. É que se sabia, graças a declarações do próprio que ele “apenas” auferia uma pensão que não chegava a sequer um terço do que obrigatoriamente gastava só em alojamento e alimentação.

Depois soube-se, para ainda maior surpresa (os milagres nunca aparecem sós), que havia um amigo que lhe emprestara um forte soma, ao mesmo tempo, que lhe cedia gratuitamente o belíssimo apartamento onde vivia.

E que esse amigo havia de repetir o magnânimo gesto vezes sem conta, chegando mesmo a comprar imóveis à mãe dele. Mesmo assim, os maldosos incrédulos não acreditavam. Amigos destes, que entregam (como depois foi confirmado pelo próprio) somas muito importantes sempre em dinheiro, sem um papel (o sr. José Sócrates não sabe, como confirmou publicamente, quanto dinheiro ainda deve. As contas certas serão com o generoso Silva.

Depois de regressar e ser preso, o sr. José Sócrates vendeu um caríssimo apartamento onde vivia em Lisboa e com esse dinheiro terá pago parte da dívida ao tal Silva. E alugou outro apartamento, desta feita no Parque das Nações, cuja renda não será (ou será pouco) inferior à sua pensão.

Como é que sobrevive ´um mistério. Será que como as tribos de Israel, o Senhor Deus dos Exércitos, lhe manda diariamente o maná dos céus. E passes para os transportes? E um anjo para guarda de corpo? Terá sido a Senhora dos Aflitos quem comprou os milhares de exemplares do livrinho que se lhe atribui e que ele, a bomba y a platillo, diz duas larachas vagamente sarapintadas de filosofia política?

Eu, oficialmente, não sei nada da corrupção das três dezenas de crimes de que o acusam, das dezenas de milhões que lhe terão caído no bolso distraído, das traficâncias com duas dezenas de criaturas que constam do mesmo processo. Nada. O Tribunal há-de decidir mesmo se, como prevejo, com algum desapontado realismo, eu já não assista ao desenlace. Tal processo durará presumivelmente uma boa dezena de anos e mesmo gozando eu de razoável saúde a coisa atira-me para lá dos oitenta e cinco anos.

Portanto, mesmo sem julgar a criatura, tenho sobre ele esta tremenda primeira opinião: donde lhe vêm os meios, o cacau, o pilim, a massaroca, para viver como vive?

Não sei onde é que há fogo, mas o fumo, ai o fumo, é intenso. Espesso, contínuo, intoxicante.  

Quando um jornalista (TV1) lhe perguntou qualquer coisa relacionada com isto, o sr. José Sócrates explodiu. enfim, enfureceu-se, zangou-se, amuou. Que não admitia aquele género de jornalismo! que aquilo parecia encomendado pelo “correio da manhã” (coisa que não pude comprovar porque, como aliás faço com o mesureiro “diário de notícias”, não frequento o dito jornal.

Lembremos que aquilo era uma entrevista, não uma missa de casamento, um te deum à glória do ex-primeiro ministro. Ele não era obrigado a ir.

Se queria aplausos, guardava-se para o lançamento do seu segundo best-seller que ocorreu no Porto, numa sala cheia de amigos do peito (reconheci entre divertido e espantado, alguns daqueles que daqui a dias, meses, anos irão antecipar-se ao terceiro canto do galo) e de uma berrata que uivava qualquer coisa como Sócrates amigo o povo está contigo.

Daqui, desta esplanada onde escrevo, há um quarteirão de criaturas que, pelo que ouço, ou não são povo ou não estão com ele. Noutros lugares (sempre detestáveis e maldosos) por onde tenho passado repete-se este mesmo feio cenário: Povo ausente, público maledicente. Decididamente há dois Portugais...  

11
Out17

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uma farsa ou

um passo em frente, dois atrás

 

(lembrando e abraçando Montse, Margarita, Ferran, Eugeni e Xavier, amigos inolvidáveis)

 

Nunca dei nada pelo senhor Carles Puigdemont. Se fosse vendedor de automóveis nem uma trotineta lhe compraria. fosse por que preço fosse!

O homenzinho tem o ar, a postura e o discurso de alguém profundamente perturbado. E só um perturbado (a menos que seja um imbecil) é que proclama a independência e logo, de seguida, a suspende.  Suspende o quê? A proclamação? A independência? No primeiro caso escusava de vir ao Parlamente. No segundo, inventou uma nova ideia de independência, uma coisa que hoje há e que amanhã não ou vice versa e assim sucessivamente.

Saberá este pobre diabo o que é que significa independência? Saberão os que o ouviram e bateram palminhas? Anda toda esta gente a jogar ao chinquilho, à macaca ou aos quatro cantinhos?

Mas há mais e mais surpreendente. Tomando, uma vez sem exemplo, a sério a declaração e sabendo-se o que toda a gente sabe, que valor se pode dar à ideia de tentar um diálogo através da suspensão (se é que tal coisa tem significado, valor jurídico, efeitos políticos)?

O pateta (e estou a medir as minhas palavras por consideração pelos meus velhos amigos catalães) pensa que convence alguém? Sobretudo, que convence o Governo espanhol, sequer os membros menos estouvados do Parlament, os cidadãos catalães (incluindo os independentistas) ?

Não se dá conta da tontaria, melhor, da estupidez, da improbabilidade da sua proposta?

Então, depois de duas leis contrárias à Constituição, votadas por uma unha negra (o bloco constitucional tem praticamente os mesmos deputados mesmo se, como se sabe tenha tido mais votos -52 contra 48%) vem agora com este artifício de pé quebrado, esta tentativa de fuga à responsabilidade, tentar encurralar um Governo que já tinha obtido várias vitórias (apoio da Europa, apoio de uma fortíssima – e provavelmente maioritária- opinião pública catalã, apoio de bancos e empresas que rapidamente se transferiram para locais menos perigosos do que a Catalunha (o mesmo sucedendo a clientes que, aos milhares, abrem contas fora do território. em menos de uma semana, a Catalunha pode já contabilizar uma forte descida nos impostos a cobrar, uma perda clara de riqueza que tornará a vida mais difícil para os catalães e para quem os governar seja uma restaurada Generalitat da autonomia, seja um governo republicano.

A única explicação (que ultrapasse o diagnóstico de idiotia profunda e incurável) estará, como já se vai dizendo, na procura de confrontos violentos, de mártires para a causa, de mortos, até. Todavia, a propalada violência policial traduziu-se em quatro feridos ligeiros e nem todos oriundos da causa independentista.

Estamos perante uma farsa que só não é absolutamente ridícula porque poderá ter algumas consequências trágicas. A população “constitucional” que andava calada e cozida às paredes no temor de represálias (e as ameaças tinham sido constantes nos últimos tempos) resolveu sair para a rua. Encheu-a tanto quanto os partidários de Puigdemont, percebeu, ela também, a sua força e é duvidoso que doravante se cale.

Os independentistas desejavam o confronto com “Madrid”, agora parece que terão de enfrentar outra Barcelona, outra Catalunha, para não falar no resto de Espanha. Os independentistas (radicais, anarquistas. direita xenófoba, bem pensantes e outros inocentes úteis) apostavam na estratégia da tensão (coisa que de resto não é nova na Europa e que já deu maus resultados noutros países e noutras alturas), não perceberam que, mesmo em Euzkadi, onde a ETA e os seus satélites tinham colonizado a sociedade (colonizado no sentido mais duro e abrangente do termo) tinham reduzido ao silêncio os seus adversários que se viram obrigados a fugir para não morrerem com a famosa bala na nuca (e foram muitos como se lembrarão os mais interessados), tal estratégia tinha falhado redondamente, Demorou trinta e muitos anos, quase mil mortos, outros tantos presos, milhares de emigrados (por todos Fernando Savater) até chegar ao ponto actual. Não é por acaso que os independentistas bascos não se mexeram ou mexeram-se tão pouco que vem a dar no mesmo.

A Europa, com tudo o que tem de imperfeito, é o melhor que se fez depois da guerra. A Europa de cá, a que se foi pacientemente construindo desde a Comunidade do Carvão e do Aço até hoje. É essa Europa um dos alvos da CUP e de várias organizações satélites que, todavia pretendem os seus benefícios sem as suas condições. Sabem, demasiadamente o sabem, que fora disso, é a pobreza que espreita. Seriam as indústrias que desertariam, o desemprego que cresceria exponencialmente, falto de investimento. Até o turismo (e mesmo aí Barcelona não dá grandes sinais de perceber o fenómeno) sofreria e não pouco. Quem é que vai passear-se para zonas de incerteza?

 

Outros amigos meus, desta feita galegos, caracterizavam Rajoy: é como muitos galegos um tipo que mesmo dentro de um elevador não diz se está a subir ou a descer.

Porém, neste conflito, mesmo que se possa apontar-lhe erros (e não foram poucos, sobretudo os derivados de uma total intransigência que, entretanto, também era de antemão conhecida e esperada) como é que Puigdemont o vem desafiar (independência e república) e acto contínuo exigir um diálogo? Com prazo e tudo (poucas semanas)!

Eu estaria para aqui a rir-me que nem um cabinda não fosse gostar da Catalunha, dos seus poetas, dos seus artistas (mas não de Gaudi!...), ter lá amigos, uma antiga namorada, das praias (ai as praias...) da comida e, vejam lá, da língua que compreendo bem (até já traduzi dois livros do catalão) que falo patrioticamente muito mal mas que tem sons belíssimos e me fazem pensar no que deveria ser o provençal, idioma de trovadores (e de heréticos...).

Mas isto, esta palhaçada, esta vergonha parece-me demais. Quando, por cá, um político se demitiu irrevogavelmente, saindo por uma porta para entrar pela janela, eu, que nada tenho a ver com ele, com o partido dele, com o governo dele, senti vergonha. Por Portugal. Bem sei que temos cá de tudo mas mesmo assim não me conformo com as aberrações. Neste momento, peninsular, ibérico, europeu, que sou volto a estar envergonhado. A Europa, alguma Europa nortista e altaneira lá estará a dizer baixinho e escarninhamente: Estão a ver como aquela gente é? São do Sul, está tudo dito. Bebem vinho, consomem azeite, gostam de peixe, são maioritariamente católicos, igualmente pecadores (ai o jeito que a Confissão dá...), gozam a vida e à falta de disciplina são, pelo menos inventivos”.

Envergonho-me pela vergonha dos meus amigos acima citados. E dói-me esta triste maneira de dar razão a um famoso prócere da Direita espanhola, assassinado pela polícia da República nas vésperas da Guerra Civil, Calvo Sotelo que afirmava: España antes roja que rota.

E não me conformo.

* na gravura: uma composição de Jordi Cuixart 

27
Set17

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Palminhas para o 4º pastorinho e silêncio para Portugal

 

mcr 27.09.17

 

A cerimónia de posse do novo Presidente de Angola ocorreu ontem. Curiosamente

a posse verifica-se mesmo antes de publicados oficialmente os resultados eleitorais. Parece que tal publicação será apenas um pormenor mesmo se tal situação dê azo às maiores dúvidas, para não falar de suspeitas.

É como se a eleição não passasse de uma mera formalidade inócua dado conhecer-se antecipadamente o vencedor. Como, aliás, se conhecia...

O Sr. Presidente da República Portuguesa esteve presente e ao que se sabe tomou banhos de mar na Ilha de Luanda, beijou criancinhas e foi muito aplaudido.

Curiosamente, a par com estas manifestações de higiene, desporto e carinho, Portugal foi olimpicamente ignorado no discurso do Sr. general Lourenço actual inquilino do Futungo de Belas (se é que será aí a sede da Presidência). A dúvida é legítima visto saber-se que o anterior presidente continua assustadoramente presente na nebulosa de poder angolano. Melhor dizendo: a criatura saiu mas não saiu. Agora, é “presidente emérito”, dotado de amplos poderes, maiores privilégios, intocável e com a família aos comandos da economia angolana.

Deixemos, porém, essa surpreendente situação e voltemos ao discurso do novo Presidente. Não vale a pena recordar que ele referiu a corrupção “que grassa no aparelho de Estado”, mandou muitos recados à juventude, como é costume, aludiu brandamente às insuficiências da liberdade de imprensa e da comunicação social (o mesmo é dizer que piedosamente fingiu assobiar para o lado) e citou trinta países importantes para Angola.

O Sr. Doutor Rebelo de Sousa não ouviu o nome do seu país referido pelo seu homónimo angolano. E não ouviu porque obviamente o poder angolano não gosta de Portugal mesmo se este é o seu maior parceiro comercial e o país que tem a maior colónia estrangeira em Angola. Também é o país onde a elite angolana vem fazer compras, tratar da saúde, evadir os capitais e entrar no capital de grandes empresas, bancos incluídos.

Num discurso escrito isto não foi um acaso muito menos uma distração. Foi algo propositado, lançado à cara do convidado Rebelo de Sousa e, por interposta televisão, a Portugal.

Os cavalheiros angolanos têm uma pedra no sapato contra a antiga metrópole. E curiosamente é o MPLA quem mais carrega nas tintas. O mesmo MPLA que foi levado ao colo pelas autoridades portuguesas no difícil período da transição. Sem o empenho de governantes e militares portugueses, o MPLA dificilmente teria sobrevivido tanto mais que a providencial e salvadora (absolutamente salvadora) ajuda cubana ainda não tinha chegado. O MPLA está onde está graças às autoridades portuguesas no território depois do 25 de Abril que tudo fizeram para o fortalecer e defender da FNLA e da UNITA.

Mesmo assim, é o que se vê. Trinta países 2importantes”, “amigos”, parceiros. E um ausente mesmo se lá estava a fazer não sei bem que papel o Sr. Presidente Rebelo de Sousa. Provavelmente estaria a fazer as vezes de comissário das bandeiras azuis provando com o seu crawl impecável que a praia de Luanda merece tal distinção. Ou para fingir que joga basquetebol como, desastradamente, provou num raro momento desportivo do noticiário.

Outro que nanja eu, diria que Rebelo de Sousa foi a Angola apanhar bonés. Não digo tanto por respeito. Foi aumentar a sua colecção de selfies e de beijinhos às criancinhas luandenses. Enquanto Lourenço falava da juventude, Marcelo amparava a infância.

Um jornal afirma que o Presidente português foi alvo de uma grande ovação (eventualmente a maior!...). Modestamente, o Doutor Rebelo de Sousa recusou ser o alvo das palminhas dizendo que a ovação foi para Portugal. Acredita mesmo nisso ou estamos, como de costume, perante mais um caso de visão celestial do 4º Pastorinho?  

15
Set17

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Escrever à Sr.ª Aung San Suu Kyi

 

(mcr  15.09.17)

 

Se valesse a pena, escreveria a esta Senhora por cuja liberdade, tantos e tantos de nós se bateram. Durante anos a fio, fomo-la recordando, ao mesmo tempo que condenávamos a Junta de generais birmaneses que a reduzia à prisão em casa.

Valeu a pena? Claro que valeu. A liberdade mesmo de uma só pessoa é sempre melhor do que a privação dela.

Esperávamos algo em troca? Pela parte que me toca, bastava-me a ideia de que, uma vez livre, Suu Kyi conseguisse trazer a democracia ao seu povo. E a democracia significa, desde logo, liberdade, igualdade de oportunidades, respeito pelos direitos humanos, pelas crenças legítimas de todos.

Já, no tempo obscuro em que Suu Kyi estava prisioneira em sua própria casa, se falava de uma minoria muçulmana, distante e perdida nos limites do país, os Rohingya. Eram também os mais afastados do progresso que eventualmente poderia cair sobre os habitantes, os mais mal servidos em conforto, assistência, habitação se é que na Birmânia/Myamar se pode falar disso.

Não se esperava de budistas piedosos uma tão grande aversão e um tal desprezo por compatriotas que não ameaçavam nada nem ninguém e que, por junto, estavam unidos pela religião muçulmana, situação absolutamente espectável numa região que está paredes meias com o Bangladesh, também ele muçulmano. E miserável, acrescente-se.

Desde a libertação de Suu Kyi e da vitória eleitoral do seu partido, do acordo celebrado entre os seus adeptos e os militares, não só os Rohingya não viram melhorada a sua situação mas, pelo contrário, viram a repressão abater-se sobre as suas paupérrimas e longínquas aldeias.

Foi essa a origem duma incipiente e frágil revolta de gente inerme e praticamente desarmada. Gente que, ainda por cima, estava longe de tudo e, pelos vistos, até de Deus seja ele qual for.

Não é caso único. Há cinquenta ou sessenta anos que se fala do Darfur, do Sul do Sudão, das profundezas do Congo ex-belga. Ou da minoria berbere. Ou de curdos perseguidos e dizimados pela Turquia, pelo Irão, pelo Iraque e pela Síria. Ou das minorias muçulmanas nos confins da China. E por aí fora.

Tem todos em comum a miséria, o facto de serem minorias étnicas, linguísticas ou religiosas e, sempre, pobres e isolados. E sem voz. E sem representação nos governos dos países onde mal sobrevivem. Os do costume. Os verdadeiros “condenados da terra”, que Fanon me perdoe.

Sei bem, mais que bem, que um blog é só um blog. Que não influencia ninguém ou, na melhor das hipóteses um punhado de leitores, tão inermes quanto quem estas linhas vai traçando. Todavia, o silêncio é ainda pior. Pior até que a indiferença porquanto quem silencia sabe o que se passa quando a maior parte das vezes o indiferente ou não sabe, ou não percebe.

Receio, porém, que não valha a pena escrever à Sr.ª Suu Kyi. Alguns dos seus súbitos defensores afirmam que o silêncio dela tem um motivo: defender a frágil convivência semi-democrática que se vive em Rangun. Navegar entre o escolho dos militares e a multidão budista que sofreu anos de opressão.

Todavia, isto, mesmo se fosse assim, tem um preço. E esse é a morte, a expulsão dos Rohingya e a repressão que sobre eles se exerce impiedosa e brutal. É uma falsa e má contabilidade. E uma desculpa, que me perdoem os defensores de Suu Kyi (que, à cautela, não irá à Assembleia Geral da ONU) que nada resolve, tudo agrava e destrói uma biografia.