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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

29
Set17

Au bonheur des dames 428

mcr

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Houve gente melhor

(e, sobretudo, uma imensa multidão claramente pior)

mcr 29.09.17

 

Não era sobre Hugh Heffner (HH) que pretendia escrever. Todavia, a sua morte merece um comentário tanto quanto possível desapaixonado e, espero fervorosamente, sem pôr em causa a eminente dignidade das mulheres.

Convenhamos que é uma empreitada difícil. A “Playboy” notabilizou-se pelas fotografias (aliás belíssimas) de mulheres com pouca ou nenhuma roupa. As famosas “coelhinhas” (bunnies) que, mensalmente, apareciam em quantidade inimaginável na revista e, depois de fundada a “Mansão”, por toda a propriedade de HH.

A revista “Playboy”, e as dezenas de edições noutras línguas, tem mais de sessenta anos e, mesmo se já não vende como vendia, é ainda um grande negócio editorial.

Para além disso, a “Playboy” foi sempre uma revista com enormes ambições literárias e não só. Não tem conta o número de grandes escritores (e não só americanos) que ali publicou artigos, novelas, contos ou poemas. Publicou e foi regiamente pago, é bom dizê-lo. Os mais empedernidos adversários de HH juram que a vertente literária era meramente um álibi, uma desculpa para a publicação das fotografias. Admitamo-lo. Porém, além desta intensa e magnífica colaboração literária, HH trouxe para a revista a discussão de causas “fracturantes” (como agora se usa tanto). E nisso foi porta-voz voluntário e decidido de algumas grandes reivindicações feministas, a começar pela liberdade de prescrição da pílula e a continuar pela discussão sobre o aborto.

Outras causas (casamento de homossexuais, defesa das minorias sexuais, ataque ao puritanismo sexual ) foram cavalos de batalha de Heffner que nunca virou costas a uma boa (e geralmente justa) luta.

O exemplo dele foi seguido abundantemente e em todos os tons (da francesa “Lui” até à “Penthouse” – mais atrevida e à “Hustler” que chegou a reivindicar a pornografia) e em todas as latitudes, carreando para este tipo de revistas todos os ataques de moralistas, fanáticos religiosos e, é bom relembrar, extremistas de Direita. Multas e prisão (incluindo uma tentativa de assassinato contra Larry Flint, editor da “Hustler” que, em consequência ficou reduzido a uma cadeira de rodas. O agressor pertencia a uma grupo supremacista branco e o ataque tinha como causa próxima um ensaio fotográfico que mostrava um negro e uma branca).

Também seria interessante lembrar a constante atenção às artes, mormente à pintura, ao cinema e à música. Na “Playboy” publicaram-se alguns dos grandes textos sobre jazz de que tenho memória, mesmo se, nunca tenha passado de um leitor ocasional. Claro que as fotografias das “playmates” me seduziram, ai não que não seduziram. Mas a revista ia muito para além disso e, em matéria de de exploração da mulher há uns milhares de títulos de “imprensa cor de rosa” que nunca suscitaram a mesma desenfreada ira de feministas e de moralistas. Com uma diferença: Nada nessa revistas (e por cá são mais de vinte entre mensais, semanais ou quinzenais) tem a qualidade e, sobretudo, a qualidade da “Playboy” para já não falar na completa ausência de textos dignos sequer de uma leitura em viés.

Heffner, um herói do nosso tempo? Nem tanto, nem tanto, mas, pelo menos, uma personalidade que moldou duradouramente muita coisa e foi, queiram ou não alguns adversários, um defensor da liberdade. Num mundo cada vez mais perigoso e alienado, só isso merece um cumprimento e um agradecimento.

* na gravura: Marilyn no 1º numero da "Playboy"