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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

30
Set17

Diário político 213

mcr

Felizmente, amanhã é sábado

 

d' Oliveira fecit 29-9-17

 

Estamos no fim da mais pobre e abjecta campanha eleitoral de sempre. Quem esperou algum esclarecimento, alguma proposta, alguma discussão, cedo e tristemente se apercebeu desta desgraçada realidade: “No está el horno para bolos”, dizem os nossos vizinhos.

Não está cá mas também não está lá.

Na pátria dos heróis do mar nobre povo, soluções para as autarquias houve poucas sobretudo por parte dos (4+1) partidos tradicionais. O auge do autismo foi para o BE. Desprovido de voz autárquica e de eleitos em número sequer medíocre, eis que os seus principais oradores se desdobraram numa espécie de campanha nacional onde eram mais as indirectas ao PS e ao PC do que à Direita. De todo o modo, nem no capítulo da novidade a campanha deste partido merece referência . Narizes de cera, lugares comuns e, um carregar no acelerador das exigências de carácter económico e social que fazem tábua rasa da real situação do país.

Nos restantes quadrantes, exceptuando, eventualmente, o PC que tenta resistir ao cerco do PS no Alentejo e ao canto das sereias do BE, foi notória falta de empenho local nas propostas. O PPD está, também ele, na defensiva. Passos sente o cerco interno e externo e a contagem de espingardas dentro do partido dá já sinais de turbulência crescente. O PS aponta os êxitos governamentais como se em cada autarquia os pudesse replicar. Nem estupidez do “aeroporto internacional em Coimbra” inventada pelo candidato Machado parece fazer mossa. É obra. O CDS tenta melhorar o seu modesto score autárquico à sombra da campanha de Cristas em Lisboa. Porém dos restantes círculos onde quer manter ou melhorar posições quase nada se ouviu.

Lembraria, se valesse a pena, que, na Europa há dados novos, sobretudo no que diz respeito às eventuais soluções governativas na Alemanha. Iremos, todos, chorar a saída de Schauble pois o sucessor, tudo o indica, virá dos liberais, gente pouco sensível aos europeus do Sul e muito menos “europeístas” do que o anterior ministro das finanças alemão. Os desvelos com que fomos tratados são para estes futuros parceiros de Merkel inadequados e imerecidos.

E da Espanha que notícias nos chegam? Uma porção, claramente minoritária, da população catalã (mesmo se a geometria eleitoral converta os seus eleitos numa pequeníssima maioria) descobriu que poderia, contra a Constituição (largamente votada pelos catalães) e contra o Estatuto de Autonomia, levar a cabo um referendo sobre a independência. E apresentam essa independência sob um cor celestialmente rosa como se fosse possível à Catalunha permanecer na Europa. A União Europeia já preveniu outros vagos autonomistas da impossibilidade de se manterem dentro da Europa política. Isso, só isso, traduzir-se-ia num violento empobrecimento da região quer por estabelecimento de fronteiras reais com o continente quer com a Espanha. Sabe-se, até os independentistas sabem (mas escondem) que uma separação traria incalculáveis consequências para a fortíssima comunidade “espanhola” (galega, aragonesa, castelhana e andaluz) instalada na Catalunha e que forma boa parte do operariado da região. Por seu lado, a Banca, a grande indústria e, genericamente todos quantos na Catalunha trabalham para o mundo peninsular, não querem sequer ouvir falar de um regime que os corte da sua clientela. Um amigo meu, catalão e naquele tempo vagamente autonomista, confidenciava-me maravilhado que “a Catalunha é a única metrópole que se quer separar das suas rendosas colónias”. Nada mais certo e cada vez mais certo. Sem o resto da Espanha a Catalunha passará um mau bocado e terá de reconverter dramaticamente a sua economia. Correm por cá, nos meios “anti-castelhanos” alguns mitos urbanos de pele dura: que a língua é perseguida; que a Catalunha foi em tempos independente; que nos séculos XVII e XVIII houve tentativas independentistas afogadas no sangue; finalmente que durante a conturbada 2ª República e sequente guerra civil, a Catalunha estava do lado republicano. Ora bem e por pontos. O catalão é falado na Catalunha a par do castelhano ou seja do espanhol. Se problemas há, sobretudo entre as camadas não originariamente catalãs, são eles derivados de um ensino e de uma burocracia que fazem o possível por negar a legitimidade do idioma comum. De resto, se é verdade que aparecem revistas e livros em catalão (e cá em casa há vários volumes de poesia catalã, por exemplo) não menos verdade é que se um autor pretende reconhecimento a primeira coisa que faz é traduzir a sua obra em espanhol para poder ser lido por mais de uns centos de leitores. No que toca às famosas “guerras da Catalunha” bom seria lembrar que nunca elas tiveram a independência por objectivo para foram continuadamente suscitadas por conflitos europeus sobre a Espanha, mormente dinásticos (Austrias contra Bourbons, etc) No capítulo da guerra civil, é verdade que a Catalunha ficou no lado republicano. Fundamentalmente o que ocorreu foi que a intentona dos generais falhou em Barcelona graças à acção de comunistas e anarquistas mas à medida que o fim da guerra se aproximava mais e mais se verificava que se havia região dotada de uma poderosa “quinta coluna” essa era a Catalunha. Há, hoje em dia, documentação mais suficiente para o comprovar e a entrada de Franco em Barcelona foi muito mais aplaudida do que a entrada em Madrid. A Catalunha, pura e simplesmente esteve durante boa parte da guerra demasiado afastada das frentes de combate. Só isso. O franquismo floresceu na Catalunha e especialmente em Barcelona com a mesma ou talvez maior intensidade do que no resto da Espanha. E até a língua, hostilizada pelo regime (como hostilizado era o galego, língua de “labregos e marinheiros” e o vasco quase só falado no campo e por pouca gente) se manteve com algum vigor entre algumas elites. E digo elites porquanto foi depois da guerra que acorreram à Catalunha multidões de emigrantes de outras e mais pobres regiões espanholas que contribuíram para uma desigual distribuição da riqueza e para o cada vez mais comum uso do castelhano. O catalão era-lhes desconhecido e assim continuou até ao fim do franquismo.

Portanto, os mitos piedosos sobre os infelizes catalães que correm por alguma direita portuguesa e idêntica esquerda assentam na ignorância da história da península, de como se constituiu o “Estado” espanhol cuja raiz está no casamento dos reis católicos respectivamente Isabel de Castela e Fernando de Aragão (reino de que a Catalunha e as Baleares faziam parte). A Espanha foi-se lentamente construindo desde a “Reconquista” e devorando efémeros reinos (Leão ou Navarra) e aumentando o território graças à continuada conquista das regiões sob controle muçulmano (digo muçulmano e não árabe por duas razões: a primeira é que boa parte dos vencedores dos visigodos eram berberes e berberes continuaram a ser muitos dos componentes dos sucessivos exércitos que atravessaram o Estreito em direcção à Península. Depois porque muitos dos habitantes do Califado e dos reinos de taifa eram hispânicos convertidos. Alguns permaneceram depois da conquista de Granada, outros, os “moriscos” foram expulsos graças às leis sangue editadas. Não foram apenas os judeus a serem varridos do território, como se vê.)

Há na ditosa pátria bem amada, um forte sentimento anti-espanhol como se ainda vivêssemos antes de Aljubarrota ou durante os Filipes (que aliás governaram um reino independente dos restantes territórios da coroa espanhola). Que o aclamado patriotismo primeiro dezembrista faça tábua rasa da multidão portuguesa que aceitou Filipe II (1º de Portugal) e lembre comovida o inglório esforço do Prior do Crato (que nunca teve apoio real que se visse, mesmo e contra Manuel Alegre, do povo miúdo) é apenas mais um pundonoroso véu patrioteiro que dá jeito. E bastaria lembrar que, mesmo depois de 1640, permaneceram em Espanha muitos portugueses (Faria e Sousa o grande autor da “Ásia Portuguesa” ou Pedro Teixeira, o brilhante cartógrafo autor do extraordinário “atlas do Rei Planeta”).

Há nestes portugueses dos cinco ou seis costados a mesma ideia de alguns franceses do século passado quanto à Alemanha (gostavam tanto dela que a preferiam dividida em duas, três ou mais partes...) Complexos de pequenez que ainda não passaram com o tempo.

Há uns anos escrevi aqui sobre o mesmo tema, mesmo se tivesse por alvo essa coisa fascistóide chamada “Esquerra Republicana”. Lembrava que a Europa não aceita Padânias, Córsegas ou Escócias ou outras eventuais contaminações nacionalistas. Como não aceita o facto consumado da Crimeia e outros na zona ou no Cáucaso onde a Rússia cerceia os vizinhos criando e protegendo umas republiquetas que nada têm de autónomo e mais não são do que chantagem sobre os vizinhos.

Finalmente, há países europeus onde coexistem harmoniosamente regiões dotadas de grande autonomia. É o caso da Alemanha de longe o mais avançado e bem sucedido estado federal- E recorda-se a criação da Itália (nação muito mais recente do que a Espanha, com diferenças muito mais acentuadas, uma história comum de guerras contínuas, de repúblicas, ducados, principados, reinos de toda a ordem usando uma língua comum (o toscano) mas mantendo-se bem vivas línguas e dialectos variados (basta ir a Veneza ou a Bari ou a Nápoles para não falar na Sicília) onde até se nota profundamente algum espanhol herdado do antigo reino de Napoles e das duas Sicílias. E tudo isto num país onde por vezes nem se verifica a continuidade territorial (Sicília ou Sardenha). Contudo, a cegueira nacionalista, mãe da xenofobia e de todos os autoritarismos incluindo o fascismo, recebe numa pequena fracção da elite portuguesa (ou presumida como tal) um aplauso indisfarçado e um apoio que roça o grotesco e fossa na mais pura ignorância histórica.

 

11
Jul17

Diário político 216

mcr

(o texto que se segue pertence a d’Oliveira. De facto, na sequência de uma estranha complicação de assinaturas desapareceu a de d’Oliveira pelo que entretanto a sua série “diário político” se publicará à boleia de mcr)

 

 

Afinal como é? Como foi?

Alguns senhores Secretários de Estado entenderam apresentar a sua demissão para, segundo Sas Ex.as poderem defender-se de uma fantasiosa acusação fabricada (ou a fabricar) no Ministério Público.

Achavam os respeitáveis governantes que havia na opinião pública um processo larvar e pertinaz que os “assava em lume brando”. Assim, e sem que, pelo menos para a generalidade dos cidadãos interessados, houvesse constituição de arguidos (coisa que neste momento –que eu saiba - ainda se não concretizou) resolveram os alvos dessa feroz, cavilosa e alegada conspiração (a todos os títulos “injusta e ridícula”) avançar eles próprios com o pedido ao MP de “constituição de arguido” para lavar a face e salvar a honra.

Conviria desmontar esta historieta barata que mete água poor todos os lados.

Porque é que os jovens estadistas demoraram um inteiro ano em dar o passo que, segundo os admiradores, foi de autentico respeito pelo interesse de Estado. Foi?

Andam por aí gentes que, notoriamente de má fé, inimigas do progresso pátrio e da virtude pública, que garantem que os agora ex-governantes sabiam da acusação do MP.

Assim, em vez de saírem à estacada para defender o bom nome, os demissionários resolveram defender-se “corajosamente”, desafiando os novos “inquisidores” a sair a terreiro e a mostrar a sua horrenda fauce de perseguidor de justos.

.............

Estava este texto naquele exacto ponto quando sai a notícia que o MP tinha enviado a 6 de Julho os respectivos avisos de constituição de arguidos. Teria assim havido, como de costume, uma fuga de informação que permitiu aos demissionários aparecerem de corda ao pescoço e vestidos de burel perante o algoz.

Afinal a famosa coragem política, o súbito rebate de dignidade ofendida não passariam de um tosco ardil cozinhado no fim de semana.

Oiço, neste momento, o dr Miguel Sousa Tavares, comentador da SIC que, em substância, acha que ambas as versões (demissão por motu próprio ou obrigada pelas circunstâncias) deixam muito espaço para dúvidas. Está enganado o ilustre comentador. Redondamente enganado. Se há um despacho do MP com data de 6, quinta feira que, de facto, só poderá ser conhecido – e com sorte – na segunda seguinte, das duas uma. Ou isso é verdade e o MP não está a tentar torpedear a renúncia dos agora arguidos ou é mentira e está a tentar lançar areia aos olhos do estimável público e finge que se antecipou à demissão das “vítimas” de um (mais um...) processo politico. Para tal, falsificou entre esta manhã e depois do anúncio da demissão e consequente pedido dos senhores Secretários, a data do despacho!

O dr. Sousa Tavares é licenciado em Direito, quiçá ainda advogado. Que me lembre sempre o vi na onda do jornalismo e, nos intervalos, a escrever umas vagas mediocridades ficcionais com grande favor público, coisa em que não é o único mesmo se sabemos que qualquer criatura que apareça na televisão e nos jornais pode, mesmo sem querer, ser tomada por génio literário. O país de poetas é hoje uma zona infestada por romancistas & similares saídos da mesma mole televisiva. Felizmente, isto, esta gloríola proto-literária, dura o tempo de um suspiro e desaparece nas dobras da História da Literatura num par de anos. Aliás, a receita já é tão conhecida e a concorrência tão numerosa que estes robustos talentos comentarísticos e literários se atropelam uns aos outros.

Acrescentou o imortal autor de “Equador” que não aprecia o MP e que sempre o criticará desde que ele se comporte como correntemente acha que se comporta. É um seu direito exactamente como, e muito bem, é contra o acordo ortográfico e, menos bem, a favor das touradas. Não vou questionar o seu direito à opinião mas já me parece duvidosa a sua campanha contra o MP entidade que não me é particularmente querida mas a que reconheço, dadas as conhecidas limitações em que trabalha, algum mérito e alguma virtude.

Aliás, sempre que o MP avança com um inquérito ou um processo sensível desata-se uma gritaria nem sempre inocente nem visando o triunfo da justiça.

Estamos em Portugal, está tudo dito.

 

D’Oliveira fecit 10-07.17    

01
Jul17

Estes dias que passam 340

mcr

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Rescaldo (2)

(Pirotugal)

 

(A 1ª parte deste texto saiu no blog “delito de opinião” a convite amável de Pedro Correia que muito me honrou)

 

Uma criatura que dá por Jaime Soares e que, pelos vistos, tem tabuleta de expert em fogos & similares, garante a pés juntos que o fogo de Pedrógão teve mão criminosa. O homem é, ou foi, presidente da Liga dos bombeiros valha isso o que valer.

Até à data, não só se falava em trovoada seca mas, ainda por cima, parecia garantida a árvore atingida por um raio e origem do fogo. Tudo parecia apontar para a seriedade desta asserção sobretudo este comezinho facto: num país onde os pirómanos verdadeiros ou falsos são multidão (pelo menos nos jornais, que, depois, quando os ânimos esfriam e a justiça intervém com o seu cortejo de perícias policiais, os acusados diminuem tremendamente.

De facto há pirómanos mas duvida-se que sejam tantos quantos os que se perfilam ao primeiro fogacho. Todavia, os pirómanos são de uma extrema utilidade. Uma vez passada a ideia de que num fogo houve mãozinha pirómana tudo se simplifica. Não houve más políticas, erros humanos, abandono rural, inércia dos responsáveis. Houve um patifório, um inimigo da pátria, do interior, do povo, dos bombeiros, um imitador de Erostrato, o autor da pira funerária do templo de Diana em Éfeso. A criatura aspirava ao seu momento de fama. E teve-a per saecola saeculorum, como se sabe.

O cavalheiro Soares é, estou convicto, incapaz de atear sequer uma fogueira na praia. Não brinca com o fogo, pelo menos aquele que queima. Resta saber se a sua estrondosa declaração de que havia incendiário em Pedrógão incendiará ou não a comunicação social. Algo é certo: o homem teve os seus minutos de antena, agora que parecia esquecido. Perguntado pelas razões daquela intima convicção, limitou-se a dizer que isso só o diria à Polícia Judiciária. É pouco, é quase nada. Uma declaração daquelas sobressalta o país e os tele-espectadores. então morrem sessenta e quatro pessoas e não se persegue o fantasma que   atormenta Jaime Soares?

A PJ, por seu turno, informa que Jaime Soares só tem que se dirigir aos seus serviços, em Coimbra, Leiria ou até a qualquer das brigadas no terreno. Parece, mesmo, que os polícias mostravam alguma surpresa pelo facto de o afirmativo Soares ainda os não ter contactado. Surpresa que partilho esperando que algum leitor também se espante.

Esta ideia estranhíssima de primeiro amotinar a comunicação social via televisões e depois, quando lhe apetecer, conversar com a Judiciária é exactamente o contrário do que se espera de alguém sensato. Duvido que o sr Soares seja Poirot, Maigret ou o detective Olho Vivo e que graças à sua prodigiosa inteligência, à sua estonteante capacidade de análise. e ao seu olhar penetrante, possa só por convicção apontar um criminoso. Um criminoso credível, diga-se. Com provas claras de crime, também.

A não ser assim, poderemos estar perante uma tola chamada de atenção que, no momento, assume foros de escândalo para não usarmos uma expressão mais forte como talvez se impusesse.

 

 

20
Jun17

Diário político 215

mcr

De tudo um pouco

Comecemos pelas eleições francesas bis. A segunda volta tira teimas entre os mais votados. Macron e aquela incipiente frente heterogénea que ameaça tornar-se partido voltaram a ganhar. Era esperado. Ganharam, porém, ligeiramente menos do que se previa após a primeira volta. Os Republicanos (LR) aguentaram o embate mesmo se registam um dos piores resultados de sempre: 113 deputados. A FN conseguiu meter oito deputados, o PCF mantém a sua fraca representação (10), Mélenchon consegue 17. O PS elege 29 e com aliados consegue 44. Uma hecatombe!

Os vencedores são, no entanto, vários. A FN entra no Parlamento, o Modem, outra bizarria oscilante dirigida por Bayrou aliado de Macron averba 42 mandatos, mesmo se pela história pregressa valha muito menos. A República em marcha junta 308, o que já lhe dá a maioria de que precisa.

Não vale a pena ir buscar os resultados da 1ª volta das presidenciais para artificialmente arguir de uma derrota de Mélenchon ou de Le Pen. Os resultados nacionais só valem para eleições nacionais e num sistema proporcional. Com quase 600 círculos uninominais e duas voltas a coisa sai bastante diferente. Sendo certo que os deputados franceses representam, prima facie, os seus eleitores não me parece que alguém se possa queixar. Os eleitores querem quem por eles fale, quem os defenda quem os represente. Os interesses dum eleitor de Bordéus não são de certeza os mesmos dum eleitor duma perdida circunscrição da Saboia. De resto ainda há uma Segunda Câmara, cujo corpo eleitoral, os grandes eleitores, escolhe os senadores dentro de um rigoroso sistema proporcional (Faço parte dos que em Portugal defendem não o só bicameralismo mas também o sistema uninominal para a 1ª câmara deixando para a 2ª a eleição proporcional, corrigindo-se assim as anomalias da 1ª).

A gritaria que se desatou contra a vitória folgada de Macron, a ideia de que isso prejudicava a democracia, apenas significava por parte dos grandes tenores derrotados (por todos Cambadelis, 1º Secretário do PS) um profundo desprezo pela vontade dos eleitores.

Por outro lado, agora, como na 1ª volta, toda a gente aponta para a abstenção (gigantesca e em aumento) como algo que deslegitima os eleitos. A abstenção não tira legitimidade a ninguém eleito e muito menos torna a massa dos que não votam numa força seja ela qual for. Pode sempre dizer-se que quem não quis votar está de acordo com os resultados apurados. Se alguém não gosta do que vê tem sempre a possibilidade de um voto de protesto (e em França desde a FN à França Insubmissa, para não falar em pequenos grupos que não obtiveram mandatos há candidatos para quase tudo).

 

Conviria, agora, referir, algumas anomalias condenáveis. Comecemos pela a agressão à derrotada deputada Nathalie Kosciusko-Morizer /LR) que é uma das principais vozes da Direita e foi até candidata à Câmara de Paris. O agressor, um certo Vincent Debraize, é maire de uma pequenina povoação normanda e patrocinou a candidatura de um certo Henry Guaino de quem se falará de seguida.

Este anormal entendeu ser sua missão agredir NKM que tinha batido Guaino na circunscrição parisiense em que ambos se apresentavam. NKM era a candidata oficial do LR e Guaino um vago e abstruso dissidente que obteve um resultado ridículo para quem há um par de anos se candidatara à presidência da UMP (antecessora de LR).

NKM distribuía panfletos na place Maubert e, à vista de todos, foi agredida, caiu ao chão desmaiada e teve de ser socorrida no hospital. O corajoso agressor fugiu do local mas a vídeo vigilância e vários telemóveis identificaram-no sem dificuldade. Ao saber-se descoberto, recorreu à esperteza de se apresentar no comissariado. Cobarde, palerma e agressor.

O senhor Le Guaino é um velho conhecido na Direita francesa e foi deputado uma única vez. Depois armou tais reboliços e confusões variados (incluindo ataques a um magistrado de que decorreu uma condenação posteriormente anulada com o fundamento de que ele não referia claramente o juiz difamado) que terminaram num ataque a Fillon. Não contente com esta agitada carreira, tentou candidatar-se à Presidência da República mas não obteve sequer 10% dos (500) apoios necessários para o efeito. Recusou dar indicações de voto e não obteve o patrocínio do seu partido quer na circunscrição que antes representara quer em Paris onde entendeu desafiar NKM. Como já vinha sendo habitual obteve escassos votos.

Tal resultado levou-o a qualificar os eleitores desse círculo parisiense como gente que (lhe) provocava vómitos, o que mostra a elegância da criatura e a imbecilidade manifesta de pedir votos a quem finalmente ele mostra tanto desprezo. Em França quando a um indivíduo lhe dá para a canalhice supera qualquer concorrente no resto do mundo. Parece que depois se gabou de uma proposta de Marine Le Pen mas tudo indica que nem isso ocorreu. Terá também afirmado que não conhecia o agressor de NKM embora este o tivesse apoiado!...

 

Este o quadro geral. Que irá acontecer? Tendo em conta os outros candidatos à Presidência, o descalabro dos partidos tradicionais, a recorrente tentação xenófoba e populista que se arrisca a tornar-se transversal nos agrupamentos políticos franceses, seja qual for a cor com que se apresentam, atrevo-me a pensar que o choque Macron e essa estranha coisa que se chama “A República em marcha”, poderão ser úteis ao país, à Europa, e - o que é diferente – aos cidadãos europeus entre os quais estamos nós, portugueses.

 

 

 

13
Abr17

Diario político 213

mcr

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Na esplanada entre sol e sombra

 

Hoje, os frequentadores da esplanada estavam assanhados. Falavam pelos cotovelos, sempre civilizadamente mas divergindo resolutamente.

A primeira conversa centrou-se no artigo de opinião de João Miguel Tavares (Público, ultima página) onde este questiona os patrocínios de uma biografia (2º volume) de Jorge Sampaio. Tavares reconhece que estão bem explícitas as menções aos patrocinadores (BPI, Fundação Oriente, Fundação Luso-Americana, grupo Visabeira, IPRI (Un Nova) Telecom e Mota-Engil!!!)

Tavares não questiona a procura e obtenção dos patrocínios, aliás bem explícitos na contracapa e na introdução da obra. Até elogia o esforço e a tenacidade de quem os procurou e conseguiu. Elogia também o facto de haver quanto a esta obra “mecenato cultural”. Todavia, depois dos elogios, surdem duas colunas que questionam quatro dos mecenas por estes não revelarem a um jornal o valor dos subsídios. E, cereja no bolo, Tavares também “acha estranho” que a FLAD. O IPRI e a FO se tenham “juntado” para criar uma bolsa destinada a apoiar a feitura de biografias de que, para já, apenas consta esta obra.

Tavares, comentarista que, aliás aprecio, acha esquisito que quer as fundações quer as empresas se fechem em copas sobre os montantes concedidos (Tavares chama a isto falta de transparência como se para alem dos relatórios e contas onde estes valores seguramente figurarão as empresas e as restantes instituições devessem andar a informar o excelentíssimo público sobre a largueza das suas benesses. Tavares,tão (e certamente bem) defensor do privado, do liberalismo, acha que toda a gente tem de saber e que todo o empresário deve prestar contas a estranhos. É que aqui não se trata de dinheiro dos cidadãos, mesmo se os patrocínios com mecenato possam, em diminuta proporção aliviar os impostos.

Tavares vem com o argumento de que Sampaio foi Presidente da República e que só isso, que ocorreu há uns bons dez anos é suficiente para indagar de como a sua biografia está a ser escrita. Arre! E que no meio das personalidades envolvidas pelo menos no que toca à bolsa há um antigo assessor de Sampaio (antigo de há mais de uma década...) Tavares, que escreve bem, muito bem, até, deixa no ar a ideia de que aqui há gato escondido. Que esta bolsa seria apenas um artifício para favorecer um idoso ex-presidente da República que agora exerce, alem fronteiras um trabalho internacional. E que isso, está nas entrelinhas, o compromete ou pode comprometer.

Eu, com a devida vénia, amigo de Sampaio desde os anos 60 (convém esclarecer para que não pairem dúvidas) tenho sobre esta obra de Castanheira um bem diferente parecer. É um tijolo! Um tijolaço. Uma tremenda chatice. Estas duas mil páginas, para o leitor comum poderiam ser trezentas ou quatrocentas desde que bem centradas no que realmente foi importante. E Sampaio foi importante, antes (sobretudo) e durante a Presidência. Com inteligência e rigor e um estilo menos pesado teríamos uma bela obra. Em Portugal, a biografia é terreno baldio e mal cuidado. Nesse capítulo que diferença com a Inglaterra, a França ou a Alemanha! Claro que não peço a Castanheira a verve, o espírito e a intelig~encia narrativa dum Stefan Zweig que tantas biografias deixou. A Zweig o que é de Zweig e a Castanheira o que entenderem.

Somos um país que desconfia de biografias ou de “memórias” (neste capitulo estou a lembrar-me já que se anda em comemorações de Raul Brandão das suas “Memórias” -que, por exemplo, com as José Relvas e o Diário” de João Chagas são fulcrais para se perceber os anos 10 a 30-). A última biografia que li com proveito foi a de Salazar por Filipe Ribeiro de Meneses que evita a maçadoria de ler os tijolos hagiográficos de Franco Nogueira. Ora aí está como com um terço do volume se faz bem melhor obra do que com as cerca de 2500 páginas de FN por muito meticulosas e esclarecedoras que estas sejam.

*** No mesmo local e pouco depois

Desta feita a conversa girou à volta das eleições para A Câmara do Porto. Ninguém conseguia perceber a razão que leva o PS a não se candidatar. Ou melhor, todos estavam de acordo que o primeiro motivo era evitar uma derrota igual ou maior do que a anterior.

Desde o malogrado regresso do dr Fernando Gomes que foi justiceira e friamente chacinado por Rui Rio, que o PS não sabe o que fazer no Porto. Não deixa de ser verdade que na cidade a Federação Socialista é uma espécie de clube de lutas de galos com a agravante de tal actividade ser ilegal, ilegítima e desacreditada. Com a gens socialista passa-se o mesmo. A rua não os conhece, as elites não os respeitam, os poucos socialistas que aparecem escafedem-se pelas esquinas. Não há uma ideia do PS para a cidade a menos que a governação de Rui Moreira a personifique. Os últimos candidatos socialistas à CML ou não ocuparam os seus lugares na vereação ou fizeram-no com tal discrição que deles não há memória. Nem boa nem má. Não existiram, ponto, parágrafo. Todavia, isso, essa arrastada e triste existência não pode servir de pretexto para desistir de aparecer. Por muito desgastada (e com razão) que seja a imagem do PS ela ainda consegue superar as dos dois outros parceiros da geringonça que também não atinam com a cidade. É verdade que, nas páginas mais folclóricas de um jornal citadino ainda se cobrem as declarações estertorosas dos vereadores da oposição mas, na generalidade a ideia que perpassa da irrisória actividade deles é que anda tudo na clandestinidade. Parafraseando: “assim se vê a força de não sei quê”.

Estas criaturas não riscam, não arriscam e muito menos beliscam os tradicionais poderes municipais. Ou então emigraram todos para outras paragens mais propícias e deixaram isto entregue a quem quiser fechar a luz e a porta.

Nem assim o PS se acha obrigado a ir à luta. Ou seja, assim nem valia a pena gastar dinheiro com o processo eleitoral. Ou então, pensam que sem oposição Rui Moreira não mobilizará a mesma multidão que o elegeu há quatro anos!...

E a conversa morreu mansamente, à dúbia luz coada pelas nuvens que anunciam uma eventual Páscoa molhada.

 

12
Jan17

Diário Político 212

mcr

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É assim que eles fazem a História

(o dr Luís Marques Mendes ocupa na televisão um lugar semelhante ao que ocupou o dr Rebelo de Sousa. Há quem ache LMM um Marcelo b. Não é, de todo. Mendes será um pálido Marcelo h ou i se tanto. E bastou a sua intervenção sobre Soares para se perceber isso mesmo. Primeiro um engano menor ao falar das 11 ou 12 prisões de Soares, Mendes falou em 12 anos de prisão. Depois o exagero: Soares teria sido o político mais importante do século passado.)

Não foi nem teve hipóteses de o ser: Soares nunca teve o poder de Salazar e governou muito menos tempo. Ainda por cima em democracia sob o escrutínio de forças políticas hostis ou adversárias (é esse o peso da liberdade) e de outros poderes (PR, Parlamento) que obviamente limitaram muito alguns dos seus projectos. Soares foi, indiscutivelmente um grande político, um grande homem e um intelectual de craveira. Foi, admito sem reserva, o principal pai da Democracia em Portugal mas, como diz Brecht teve pelo menos um cozinheiro, um babeiro, um secretário alguns amigos e camaradas, enfim uma enorme equipa que o ajudou e que também merece ser destacada. Para mim foi, sobretudo pelos seus defeitos, um príncipe e alguém que recordarei sempre com comoção, respeito e amizade. Soares, além de fixe, era humano, não se armava em importante, possuía uma notável coragem física, uma alegria de viver impressionante. E um instinto político digno de menção, sobretudo neste país bisonho onde só se vai à luta quando se acredita ganhar. Soares tinha sido abençoado pelo amor à liberdade, pelo desejo de liberdade, viveu sempre livre e esperançado num futuro breve e melhor.

Todavia, o nosso século XX tem mais alguns nomes impreteríveis. Dividamos o século em duas partes: uma primeira que vai do ano 1901 até 25/26. Quatro homens podem e devem ser recordados mais pelos fracassos do que pelos êxitos: D Carlos e João Franco durante a agonizante monarquia e Afonso Costa e Sidónio Pais. Todos falharam, dois form assassinados, um morreu na sombra e outro no exílio. Depois de Sidónio o sistema entrou em deliquescência pura, no desastre e no caos (lembremos os assassínios de Carlos da Maia e Machado dos Santos os grandes heróis do 5 e Outubro e o de António Granjo que chegou a Presidente do Ministério: uma infâmia absoluta que só a cobardia de muitos e a cumplicidade de outros tantos impediu de esclarecer globalmente) e permitiu o aparecimento e ascensão de Salazar. Salazar governou sem real oposição que se visse até meados dos anos 60 e a sua última batalha (a defesa do Império) teve o apoio de muitos oposicionistas e foi tratada com luvas de veludo pelos poucos que advogavam a independência das colónias. (Vi com estes meus olhos e ouvi com estes meus ouvidos, em 1969 um ilustre político agora muito homenageado dirigir-se aos escassos eleitores num comício da CDE coimbrã, fora de portas, apresentar-se como “ex-combatente do Ultramar”!!!)

Com o 25 de Abril, Soares emergiu como um paladino da Liberdade, causa que era a sua desde os tempos do MUD (finais dos anos 40) onde militou ainda sob a bandeira do PCP. Com ele, vindo de um outro nevoeiro bem mais espesso e consistente, regressou Cunhal. Como Soares, aliás antes dele, porque mais velho, Cunhal era uma figura mítica da Oposição portuguesa. E isso desde finais dos anos 30 quando o jovem Cunhal começa a desempenhar cargos de enorme importância no partido comunista e, mais tarde depois da sua última, longa, dolorosa e heroica prisão, no movimento comunista internacional. Cunhal chega aureolado pela história da resistência comunista e comparado com os seus pares do sul da Europa, não tem rival, Berlinguer ressalvado. Não cede ao euro-comunismo, é o o fiel dos fieis da URSS deliquescente e mantem o partido dentro da mais estrita observância do modelo soviético (e isso vê-se ainda hoje: já ninguém fala ou sequer reconhece os partidos irmãos europeus desaparecidos, sepultados pela História enquanto em Portugal, tal qual a aldeia de Asterix, o PCP se mantém quase com o mesmo número de militantes, simpatizantes, câmaras e deputados de sempre. Cunhal não modificou Portugal como Soares mas deixou uma marca indelével na Constituição e no Regime, mesmo agora. O PCP controla a CGTP, mantém Câmaras mormente no Alentejo e na cintura de Lisboa e mobiliza a rua.

Estes três homens (Salazar, Soares e Cunhal) foram absolutamente determinantes nos segundo, terceiro e quarto quartéis do século vinte. Por mais que se queira, Sá Carneiro não passou de um meteoro, vá lá de um cometa, na vida pública portuguesa. O desastre que o vitimou levou também a melhor esperança do CDS (Amaro da Costa) e o único herdeiro claramente social-democrata dele (Mota Pinto) morreu repentinamente sem herdeiros políticos dignos de menção.

E também aqui, os comentadores e os “parvenus” do comentário político não souberam nem quiseram fazer pedagogia, história ou pelo menos crónica do século. Afundaram-se em narizes de cera, em vulgaridades e na incapacidade de transmitir, ao menos uma vez, um pequeno retrato de Portugal menos baço, menos peremptório, mais abrangente e, provavelmente, mais real. Mas isso são contas de outro rosário ou de outra cidadania.

Como Mendes, outros ajudaram à missa mesmo se o beatificado fosse, laico e republicano (e socialista). Felizmente, o homem, o político e o intelectual é irredutível a simplismos e deve ter-se divertido à grande e à francesa (logo ele que usava um francês desenvolto, demasiado desenvolto e aportuguesado sem vergonha de nenhuma espécie) com todo o teatro que se seguiu à sua morte.

(e quase ninguém referiu essa grande dama do socialismo, da cidadania e da coragem que se chamou Maria de Jesus Barroso. Ao lado – mas não atrás – de um grande homem há sempre uma grande mulher!

D’Oliveira fecit, 9-11 de Janeiro 2017

 

 

06
Ago16

Diário político 211

mcr

Trapalhões, imprudentes e a tomarem-nos por parvos

 

A triste historieta dos Secretários de Estado que foram ver a bola à custa da Galp obriga-nos antes de tudo a questionar o bom senso das criaturas e, mais do que isso, a inteligência das mesmas. A justificação apresentada por Rocha de Andrade peca pela arrogância (foi tudo dentro da normalidade e da adequação social) e pela impudência (vou já pagar tudo) dando a perceber que não entendeu ainda que as sus duas declarações são contraditórias. Pior: esqueceu-se de comentar, como devia e podia, que fora demasiado ingénuo (na melhor das hipóteses) ou insensatamente cúpido ao aceitar uma prenda tão choruda de uma empresa com quem o Estado, através do Ministério onde está integrado tem um longo e caríssimo conflito.

Pior do que ele, só mesmo o senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros ao vir admitir que o Governo vai criar um “Código de Conduta” para desincentivar a prática de gestos do mesmo género. O senhor Ministro parece desconhecer a lei que já tutela amplamente situações deste teor. A menos que seja amante de pleonasmos políticos e éticos (sobretudo estes)...

Os restantes comparsas, mais dois Secretários de Estado, tiveram o cuidado de não serem tão falazões como Andrade mesmo se, igualmente, tenham caído na esparrela de garantir que vão pagar as despesas com desveladamente a Galp os mimou.

Imaginemos, por um breve momento, que X, funcionário público se lembrava de ir ver os jogos. Teria no mínimo que “meter” um ou dois dias de férias para ir e vir. Os senhores Secretários, ao que se sabe, foram estiveram e vieram sem que alguém lhes apontasse a faltinha ao trabalho ou que eles imputassem às merecidas férias o(s) dia(s) franceses.

Há neste jardim à beira mar plantado, uma falta de pudor que só não espanta o aborígene lusitano por há muito estar este habituado ao forrobodó dos importantes. Em se apanhando num posto público de responsabilidade, esquecem-se que o público os pode escrutinar.

Rocha Andrade teve há dias uma confusa missão: fazer passar as novas regras das “vistas” para carregar o IMI como coisa boa e sensata. Esqueceu-se o cavalheiro que qualquer regra sobretudo em matéria de impostos tem de escapar inteiramente à arbitrariedade de quem a impõe, ou seja tem de obedecer a critérios claros e indiscutíveis.

Vejamos este (meu) caso. Vivo numa excelente zona (Porto, “Foco”) que na altura em que se construiu tinha por vizinhança um conjunto grande de fábricas em plena laboração e uma auto-estrada com um movimento já evidente (agora é pletórico). As fábricas desapareceram e deram lugar a prédios para classe média a tender para alta. Nos terrenos disponíveis que havia construíram-se duas escolas. Mesmo assim, do meu andar avista-se o mar, há um jardim bastante razoável no meio dos prédios e espera-se que nos terrenos aedificandi remanescentes nasçam zonas de lazer e serviços que aumentarão positivamente a qualidade do edificado. Quem adquirir doravante algum dos excelentes andares que continuamente aparecem para venda (a 1ª geração de moradores foi envelhecendo, morrendo ou depois dos filhos criados, achou os apartamentos demasiado grandes para um casal solitário) irá pagar que IMI? Porquê?

A displicência (e de novo a arrogância) com que Andrade respondeu a estas questões dizem muito, quase tudo, do modo como encara as suas funções. Ele tem razão porque sim. Porque pode, quer e manda. O resto é a paisanagem a quem, de quatro em quatro anos, se permite votar (mesmo se o seu voto nem sempre se traduza numa clara preferência pelo Partido que alcandorou este Secretário de Estado ao mister que exerce.

O Governo pela voz de Santos Silva acha que pode pôr uma pedra no assunto. (“Dissipar” foi o verbo que Sª Exª usou para falar do problema. Conviria ao senhor Ministro ir ver todos os significados da palavra para perceber que nem sempre dissipar ou dissipado são termos que indiquem limpeza... )

Para o Ministro este “deslize” está resolvido com um tardio cheque que, se paga alguma despesa feita pela Galp, não paga o desgaste nem a desconfiança dos portugueses em quem os governa.

Mesmo que a PGR não conclua pela existência de “recebimento indevido de vantagem” fica sempre a leviandade e a inexistência de um pedido de desculpas público. É quanto basta para (como antigamente) se aconselhar estes senhores governantes (nem que seja para “português ver”) a porem os seus lugares à disposição. Ou voltarem à actividade privada, quem sabe ao serviço da Galp ou outra amável empresa do mesmo género.

Mesmo que o façam com a notória irrevogabilidade que Portas usou.

02
Ago16

diário político 210

mcr

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A vitória (in)esperada

 

Parece que Portugal, ou boa parte dele se transformou no arcanjo Miguel e matou o dragão. Ou seja a Europa. Ou a comissão, ou o Ecofin. Ou os invejosos do Norte que não tem sol (mas tem dinheiro).

A não aplicação de sanções que criou uma patriótica cruzada chefiada à vez por Marcelo e Costa foi insistentemente referida como uma vitória da justiça por todos e até pela dr.ª Ferreira Leite.

Lamento estar, como de costume (arre que vício tão feio!), a contracorrente. Não houve nenhuma vitória nacional apesar das cartas, dos telegramas, dos telefonemas do senhor Presidente e do senhor Primeiro Ministro. Ou do senhor Passos Coelho, o principal interessado em passar través das malhas duras dos Tratados europeus. Afinal era o Governo dele que precisava de ser ilibado...

O novo milagre das rosas europeu chama-se tão só Espanha. Espanha, o nosso parceiro peninsular e, igualmente, o nossos parceiro alvo das hipotéticas sanções.

Estivesse a Espanha fora do deficit excessivo alguém acredita que não comíamos pela medida grande? Mas a Espanha e a sua economia, uma das cinco mais poderosas da Europa, estava atravessada no caminho vingador dos que ainda acham que os tratados devem ser cumpridos (pacta sunt servanda) custe o que custar. Portugal, para um holandês ou um finlandês, é coisa pouca mas com a Espanha a coisa fia mais fino.

Aliás, o senhor Rajov, logo que ouviu a sirene europeia, pôs as barbas de molho e anunciou medidas de redução de despesa que valiam 6.000 milhões de euros. Por cá o Governo fez ouvidos de mercador e persistiu na patriótica ideia de que os tratados eram meros papéis (onde é que eu já ouvi isto?) e que seria uma injustiça punir o já longo e habitual desregramento financeiro. Curiosamente, mesmo sem querer, o Governo actual desculpava implicitamente o anterior Executivo quanto ao deslize do deficit.

Claro que nesta maratona de falsas generosidades financeiras e verdadeiros mergulhos na realpolitik algo ficou destruído: a Europa ou a União Europeia tal como a conhecíamos que começa cada vez mais como uma união a la carte. Este presente ao “nobre povo, nação valente”, é um presente de grego. Hoje perdoam-nos uma multa, amanhã exigirão uma capitis diminutio politicamente mais onerosa. Ou diminuirão verbas com destino ao Portugal.

Vamos pagar a nossa incerta aventura deficitária com língua de palmo. Quando e como é coisa que não se pode antecipar.

d'Oliveira fecit 2-8-16

 

20
Jun16

a varapau 22

d'oliveira

E vão dois

Não quero fazer de Cassandra mas que algo vai mal no torrãozinho de açúcar não restam dúvidas. A equipa que ia disputar a final arrisca-se a ter de o fazer já e sem qualquer garantia. A arma miraculosa do melhor do mundo é o que se vê. Nem num penalty! Não foi a figura do jogo e entre os colegas houve quem ficasse melhor na fotografia.

A coisa piora quando nos lembramos das tolices de Ronaldo depois do jogo contra a Islândia. Afinal o autocarro existe e esteve na baliza da Áustria. Ou só no poste, o que vem dar ao mesmo.

 

d'Oliveira fecit 

16
Jun16

diário político 208

d'oliveira

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Ai Pátria, que escorregadela!

 

Então não se empatou com a Islândia! Com a Islândia, santo Deus, com uma caloira nestas coisas da bola.

O sr Ronaldo, a quem, por vezes, convinha estar mudo e quedo como um penedo, com o mau perder que se lhe reconhece, veio dizer que os islandeses eram uns analfabetos em futebol, que era só atirar para a frente, pôr um autocarro na baliza, enfim um chorrilho de tontices que as televisões avidamente glosaram.

A verdade, a pobre e honrada verdade, manda que se diga que os cavalheiros do Norte não se acobardaram e não se deram por vencidos. Um empate servia-lhes mesmo se com um pouco mais de audácia pudessem até ter criado uma surpresa (como quando defrontaram a Holanda, lembram-se?).

Ronaldo, o falador, não fez história neste jogo. Generosamente, deixou os louros para Nani. Não sei porquê este eclipse de Ronaldo lembra a triste história do último Mundial onde também a grande equipa portuguesa (mailos heróis do mar e os egrégios avós) saiu pela porta pequena.

Convenhamos: a equipa portuguesa, malgrado os esforços de Fernando Santos, deixou-se inebriar pela imprensa, pela televisão, pelos comentadores, pela euforia geral, pelo Sr. Presidente. Achou que bastava pôr o mimoso pé no relvado para que os adversários tremessem. Vê-se que nunca leu uma saga nem sabe que aqueles calmeirões rosadinhos e educados são descendentes de vikings, vivem numa terra de gelo e vulcões, navegaram ainda antes dos portugueses até à América e não toleram toleirões.

Vejamos, agora, o que se irá dizer dos austríacos...

d'Oliveira fexit, 16-6.16