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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

21
Jun16

Diário político 208

mcr

Canavilhas 2

A senhora Canavilhas insiste. Na televisão e no jornal Público (que ela diz ser o seu jornal de referência) veio agora dizer que o Público (não a policia!) mentiu ao falar em 15000 manifestantes e não no número apresentado pela FENPROF, por acaso parte interessada na matéria. E acha que o uso (ou abuso?) do twiter se reveste de um carácter ligeiro pelo que, presume-se, toda a burrice é desculpada.

Na televisão veio com ar cândido e ofendido afirmar que tem direito à sua opinião como se a sugestão de despedir uma jornalista fosse uma opinião tão inocente quanto aquela que temos de um romance.

Quando, sendo apesar de tudo uma figura pública, se pergunta porque é que uma profissional que cita fontes respeitáveis não é despedida está-se a macaquear o antigo Estado Novo que despedia profissionais em todo o lado (directa ou indirectamente) por delito de opinião, que prendia pelo mesmo motivo (e estou á vontade para o testemunhar) ou outros regimes que parecendo ter cor diferente partilhavam o mesmo horror visceral à liberdade de imprensa.

A senhor Canavilhas é livre de soltar quanta tolice quiser e for capaz e, agora vê-se, no seu argumentário que pode ir longe nesse domínio, mas o facto de ser contraditada nos seus propósitos inquisitoriais e espurgadores não é uma ameaça a nenhuma liberdade dela. Bem pelo contrario: ao censurar-se-lhe de viva voz a sua posição partidária e sectária está-se a defender a liberdade de quem ela ataca e a dela própria se é que a senhora Canavilhas percebe o que aqui vai escrito. Ela pode odiar a jornalista em causa, amar desmesuradamente o senhor Vitor Nogueira e a frente que ele representa, julgar que a escola pública é um paraíso e a privada um infame complot de capitalistas, imperialistas, monopólios e forças obscuras da reacção, a mão invisível do clericalismo mais obscurantista. Está no seu pueril direito. O que não pode é seja ela quem for (ou quem se julga!...) propor medidas coercivas contra quem nada mais faz do que ser uma jornalista.

Ao publicar-lhe a triste prosa, o Público, dá-lhe mais uma lição de civismo, liberdade e tolerância. Será que a criatura aprende?

d'Oliveira fecit 21-06-16

 

 

06
Out15

Diário Político 205

mcr

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Calma, malta! Isto não o fim nem o princípio de coisa nenhuma

É só fumaça!

 

Vamos por partes.

Quarenta e três vírgula sete por cento dos portugueses não se deram ao trabalho de ir votar.

Três vírgula sete por cento votou branco ou nulo.

Dos cinquenta e quatro por cento restantes há os resultados que se conhecem. Há, é um modo de dizer. Ninguém garante que os cadernos eleitorais não continuem pejados de fantasmas, de mortos e enterrados que por inércia não foram varridos dos mapas.

 

Seria bom que os cavalheiros que abrem a boquinha para em nome dos seus partidos (sempre vencedores, ou quase: só o PS confessou a derrota. O resto ganhou tudo. Vão todos à taça dos campeões, ou algo do mesmo género e substância!) proclamam êxitos piramidais fizessem o grande favor de não emitirem opiniões sobre o estado de alma do povo português e do seu ódio medonho aos senhores Coelho e Portas. Pede-se serenidade, e calma à rapaziada que se entusiasmou demais.

Apenas os votantes disseram o que queriam. Mesmo que se não presuma que os não votantes estão de acordo com o Governo convirá não ver na sua abstenção um sinal contra o PAF. De facto, mesmo se o voto não é obrigatório, irou não ir pôr o papelinho na urna é, também um acto político.

E agora os partidos:

Um pequeno e simpático grupo obviamente mais ecologista do que a senhora Apolónia, entrou no Parlamento. Saliente-se o feito tanto mais que essa entrada coincide com o afocinhamento dos deliquescentes ex-bloquistas, do eterno MRPP, e do senhor Marinho e Pinto. Só isto, a derrota desta criatura, já é uma prova do bom senso dos portugueses que anteriormente o tinham sufragado à boleia de um partido que ele, uma vez eleito abandonou miseravelmente.

O BE (esquecido dos tempos em que, de faca nos dente,s uivava pelo Syriza e prometia uns amanhãs cintilantes de sangue e sirtaki) conseguiu apanhar todos os indignados que por aí andavam órfãos e muitos eleitores do PS que acusavam o partido de coisas inomináveis.

Já agora, convém saber se todos estes eleitores subitamente bloquistas estão de acordo com as teses do partido sobretudo as que tratam da Europa, do euro, da mundialização etc...

Se, por acaso, mero acaso, não estão, então não me levem a mal: enganaram-se no voto, desperdiçaram-no e nem sequer conseguiram com isso a tão miraculosa unidade da esquerda. Tal situação continua a ser uma miragem no deserto e nem Santo Antão o Cenobita vale aos que pedem, como o derrotado Tavares (hoje, no “Público”) unidade, unidade e mais unidade. Como era um entusiasta da unidade Tavares formou um partido a juntar ao copioso número dos que já existiam...

Destes votos de descontentes com o Governo que desaguaram no BE, extrai-se outra conclusão. No seu afã de esmagar o governo “ultra-liberal” desarmaram o único partido que, apesar de tudo (e eu não votei no PS) poderia derrotar o PAF! É obra!

O PC, solitária voz que também clama no deserto onde desde sempre se acoitou, viu-se ultrapassado pelo BE. De todo o modo cantou vitória. Canta sempre. Desta feita celebra três mil e tal votos a mais. E veio solenemente recordar ao povo amigo que sessenta por cento dos eleitores rejeitaram o PAF.

Esqueceu-se, o PC, pouco dado a contas de subtrair e somar, que noventa por cento dos mesmos eleitores o rejeitaram a ele!

De todo o modo, o PC segurou os seus eleitores, manteve a sua área de influência e deu outra vez boleia a uma coisa inexistente chamada “os verdes” que serve sempre para dizer no Parlamento alguma coisa que o PC acha não dever dizer.

O PS, pela voz de Costa (e confesso que o admirei!...) veio dizer que perdeu! Caramba, homem, isso é a única coisa que se não diz! Ou se o dizemos, logo de seguida, arranjamos uma desculpa, repartimos as culpas. Tivesse Costa usado da mesma linguagem na campanha, outro galo lhe cantaria. Agora, ali está, desafiando os adversários internos, a sair da toca (alguém os viu na campanha? Não? Eu também não os lobriguei. Mas vão aparecer para uma noite vagamente de “facas longas”). Há, porém um problema: não se vislumbra, naquela contestária arruaça ninguém com peso, percurso e autoridade, para enfrentar Costa. Ou alguém acha que o senhor Álvaro Beleza, uma sublime insignificância, ou a senhora Ana Gomes, anteontem tão chorosa, são capazes de ir a jogo?

A ideia, bronca e trucidadora, de que mal há uma derrota se deveMas substituir o líder prova a nossa inenarrável incultura política.

E os vencedores? Para a oposição impotente, eles foram derrotados por não conseguir a maioria absoluta! Não tenho, por mera culpa minha, mau feitio e neurasténico pessimismo, qualquer simpatia por Portas ou por Passos. O defeito é meu, claro.

Todavia, lembraria algum leitor mais indignado, que ali por Abril, Maio, Junho, mesmo Julho, não havia ninguém que não augurasse uma tremenda derrota da coligação. Estão feitos, dizia-se. Confesso que, por desfastio, apostei um par de almocinhos na vitória da coligação. Mas esperava perder...

Pertenço ao escasso grupo de pessoas que gosta, mesmo com o risco de perder a aposta, de contrariar os politicamente correctos e, mais ainda, os que acham que a política pede muita fé, muito entusiasmo, muita arruada e muita colagem de cartazes. E pouca, nenhuma, reflexão. O povo, para muitos destes cavalheiros, é uma abstração. O povo por quem eles, arrogantemente, pensam, ou julgam pensar.

Ora bem: nada disso ocorreu. O povo ordeiro e composto não está convosco!

As pessoas anseiam por segurança, estabilidade e detestam a aventura. E o desconhecido. Apanharam no lombo com uma carga de varapau de austeridade. Começaram, mal ou bem, a ver uma pequeníssima hipótese de melhorar a vida. Como a heroína de Gil Vicente, preferem “asno que os carregue do que cavalo que os derrube”. Conviria a um par de excelentes amigos meus reler os clássicos. Todos os clássicos e não apenas Mestre Gil. E a História pátria, a boa e não a panfletada que por aí corre a título de boa e progressista.

Desculpem esta tirada populista mas eu andei numa escola recheada de gente muito pobre e mantive durante muitos anos contactos com esses colegas humildes que fizeram pela vida, subiram a pulso, puseram os filhos a estudar, não recuaram perante nenhum sacrifício, emigraram, souberam o que era dividir uma sardinha por dois. Essa gente vota. Mesmo sem ter feito o liceu e, muito menos a universidade sabem da poda, da política e da propriamente dita. E sabem defender os seus interesses.

Agora, diz-se, abre-se um novo ciclo político. Nem tanto, nem tanto. Governos minoritários tivemos já uma boa meia dúzia. Soares esteve minoritário, Cavaco idem, Santana Lopes e Guterres e até o inefável Sócrates cuja sombra perpassou pela campanha e prejudicou largamente o PS. De cada vez que Soares ia visitar o “preso político” (só em Portugal é que alguém sem corar diz esta barbaridade e não é imediatamente chibatado pela imprensa!) os cidadãos escaldados viam nisso um recado de e para o PS.

De todos os governantes minoritários, destacam-se Soares que soube dar a volta ao texto e Cavaco (a quem todos atiram pedras e pedregulhos...) que aproveitou as burrices dos adversários para firmar a mais longa carreira de primeiro ministro desta Terceira República.

Eu não me atrevo a dizer que a coligação ganhou por mérito próprio. Mas que a campanha confusa dos seus adversários deu uma ajudinha, ai disso não duvido. E quando falo de adversários não meto só o PS. O PC e o BE tanto falaram no lobo que as pessoas deixaram de ouvir.

Agora, rezemos a Santa Rita de Cássia, padroeira das mulheres maltratadas e dos impossíveis: vamos lá a ver se como europeus, que presumimos ser, se consegue andar para a frente. O verdadeiro patriotismo está em pensar na melhor maneira de sair da alhada e não em convocar cruzada sobre cruzada (com a conhecida inutilidade e piores consequências que estas tiveram) contra o PAF. Falar e negociar é a chave do êxito. Não de A ou de B mas dos cidadãos simples que andam por aí.

( o folhetim traz demasiadas referências cristãs. É puro artifício. De facto o dia de anteontem era, no calendário patafísico perpétuo, 27 de Absoluto, festa das Santas Gigolette e Gaufrette, dogaresas. E o que se passou neste canto da Europa deve ser analisado nessa perspectiva).

d’Oliveira fecit (29 de Absoluto, hunyadi, festa de Le Jet Musical)

 

 

07
Jan15

diário político 202

d'oliveira

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A infamia absoluta 

 

Em nome de Alá ou de Maomé ou de qualquer outra coisa mata-se alegremente. Não que sectários de outras religiões do Livro ou não não matem também. 

Todavia, oss que matm em nome do Islão (de um Islão bem só deles, exclusivo e exclusivista) tem dado nas vistas, ultimamente. 

Agora, num repelente, miserável ataque, dizimaram a redacção de "Charlie Hebdo". Doze mortos entre eles Charb, Cabu e Wollinsky. 

Conta o pincel da sátira a kalashnikov dos assassinos. 

Exactamente no mesmo dia em que começam a ser selecionados os membros do juri que integrará o tribunal de Boston onde se julga outro assassino que mesmo contra toda a evidência grita a sua inocência. 

quem como eu é leitor assíduo do Chalie Hebdo como já fora, desde os anos 6o, leitor do Harakiri sente-se de luto e invadido pela raiva. Desculpem lá os do pensamento correcto mas, neste momento (depois talvez acalme), só me acodem desejos de que os assassinos cobardes morram de morte violenta e dolorosa. 

Começo a pensar que a bonomia com que se encara o multiculturalismo e se compreende o Islão na Europa (quando nos territórios muçulmanos nem uma Igreja se consegue abrir)  deve ser repensada. O ataque à redacção do "charlie..." não pode, de modo algum, ficar impune. Não se pode aceitar que a liberdade de imprensa sofra outro castigo que não os de um tribunal tanto mais que esse meio está à disposição dos "crentes" muçulmanos franceses. 

Este ataque vai, aliás, reforçar a extrema Direita francesa mesmo se "Charlie hebdo" nunca a poupasse.

Não me espantarei se, de repente, começarem a ser atacadas mesquitas ou outros locais de reunião de muçulmanos. Por muito menos isso já ocorreu. Só que depois deste massacre haverá seguramente mais gente a admiti-lo, quiçá a aplaudi-lo.

Não o desejo, mas também não daria um passo para (como tantas vezes fiz) voltar à rua a protestar

contra a alegada islamofobia dos franceses. 

Primeiro, a comunidade muçulmana, os seus imans e restantes dignitários religiosos e políticos terão de mostrar de que lado estão: da civilização laica e democrática ou da charia selvagem e primitiva?

d'Oliveira fecit 7-1-15 

28
Nov14

diário político 204

d'oliveira

Crise? Qual crise?

 

Anda por aí uma opinião que sustenta que com os recentes “casos” (vistos gold, BES, Sócrates, entre outros) põem o regime em crise.

Sinto muito mas tenho uma opinião completamente diferente. A crise, existiria isso sim, se sabendo-se, ou suspeitando-se (como era o caso em quase todas estas situações....), de ilícitos graves nada acontecesse. O Estado de Direito reforça-se quando actua naturalmente. E actuar naturalmente é fazer o que a Lei impõe. Só para referir a questão Sócrates, parece que foi uma denúncia da CGD (obrigatória quando os movimentos de capitais ultrapassam uma certa quantia) que activou os mecanismos de exame do Ministério Público.

Isto significa que a instituição funcionou saudavelmente. Não se veja neste adverbio de modo qualquer espécie de consideração moral sobre a eventual culpabilidade do ex-primeiro ministro. Nem sequer a certeza que houve qualquer transferência ilícita de dinheiro. Não tenho qualquer espécie de informação que não seja a que é veiculada pelo jornal “Público” que aliás leio com “cautela e caldos de galinha”.

A ética comum manda que se considere um acusado inocente até um Tribunal determinar sem margem para dúvidas a sua clara culpabilidade.

O senhor Sócrates e os restantes detidos estão a ser alvo de uma investigação preliminar e obrigatória que, em teoria, os defende mais do que os compromete. Pode hoje mesmo ser determinado que este processo não tem pernas para andar. Mesmo que sejam arbitradas medidas coercivas de liberdade, nem isso, prova qualquer delito mas tão só vestígios comprometedores de que algo não está claro.

Os Estados de Direito funcionam assim: ás claras, sem objecções à defesa plena das pessoas, sem medidas administrativas especiais e/ou secretas. Não estamos na Alemanha do Reich eterno nem no paraíso soviético. Não estamos sequer na Coreia do Norte ou na China dita popular.  

Corrupção, branqueamento de capitais, fuga aos impostos sempre houve e eventualmente haverá para futuro. Não que seja aceitável este estado de coisas mas convém sublinhar que o essencial é punir os ilícitos e não fingir que eles não existem. A possibilidade de punição é infelizmente a única prevenção possível: o medo de ser apanhado é que tolhe o eventual infractor.

Também não tenho a certeza que o caso Sócrates (pelo menos nesta forma pré-julgamento) possa atingir violentamente o poder politico, mormente o PS. Até á data nada atinge o PS mesmo se corra por aí que Costa se louve em Sócrates. É verdade que a sua eleição pode fazer parecer que se inverteu dentro do PS o “apagamento” do ex-primeiro ministro. Convenhamos que até isso me pareceu sempre algo de exagerado. A AR estava pejada de “socráticos”, Seguro tinha a confiança de muitos desses cavalheiros e a condenação da orientação política anterior era discreta, discretíssima. Aliás, a oposição ao Governo e ás suas medidas parecia indiciar uma certa colagem de Seguro à “herança” medonhamente esconjurada por Coelho e amigos.

A segunda questão que anda nas bocas do mundo é o perigo de se estar a assistir a um “julgamento da rua”. Esse é um dos riscos que a liberdade pressupõe. Pior seria se a opinião fosse violentada pela policia, pelos bufos, pelos informadores, pelo medo de ser preso. A “rua” julga sempre. E há muito que ela chama gatuno, criminoso a qualquer politico. Note-se, de passagem, que muitas vezes a rua é assanhada por responsáveis políticos. Não se lembram de todas as acusações que certos tenores da “esquerda” (esquerda entre parêntesis, diga-se já) tem continuadamente feito ao governo que, verdade seja, se põe muito a jeito...

A terceira questão é a levantada pela “comunicação social”. As televisões ululam com a falta de notícias do Tribunal de Instrução. Nem sequer pensam que essa falta de notícias prefira ou pode prefigurar a defesa do detido. Antes poucas notícias ou nenhumas do que um comunicado feito á pressa que imediatamente poria um cento de comentadores a fazer complicados exercícios de interpretação.

A quarta e última observação que me ocorre é esta: a questão Sócrates pode perturbar fortemente as possibilidades de Costa na sua corrida ao Ministério. Mesmo que Sócrates fique detido, o processo seguramente não estará despachado tão cedo (a menos que haja uma confissão, que as provas sejam esmagadoramente conhecidas e que a opinião pública se convença maioritariamente do seu fundamento). O problema que eventualmente poderia prejudicar o PS é a suspeita de actuações criminosas durante o Governo do ex-primeiro ministro. Aí, de facto, seria difícil, excluir da actuação de Sócrates muitos outros responsáveis de topo do partido. Mas, até ao momento, e esperemos que nunca, tal não ocorreu.

Todos os países correm riscos, assistem a escândalos, à indignação dos cidadãos e ao protesto destes. Isso é sempre um bom sinal de vitalidade, de consciência cidadã e de funcionamento das instituições. O resto, ou o contrario, é que é o cemitério da liberdade. E nos campos santos nem os mortos respiram.

 

(este texto não entrou no blog por razões misteriosas que se devem apenas à minha eventual falta de habilidade e jamais ao actual detido em Évora, aos jornalistas, ao senhor Sousa Tavares ou mesmo ao dr Mário Soares. Publica-se dois dias depois com mais algumas reflexões)

algumas criaturas com mesa posta nas televisões e jornais entenderam (muitas vezes ao arrepio do que sobre outras situações escreveram) que se está a assistir à pública defenestração do ex-primeiro ministro. Desde a “humilhação” até à condenação do entorse feito ao “segredo de justiça” (mesmo se implicitamente dão a entender que conhecem as motivações do Tribunal e dos seus membros) tem sido um rosário.

Perfila-se mesmo uma curiosa opinião de “classe”: no caso de Sócrates todo este circo é horrível, medonho, fruto de rancores miseráveis, ao mesmo tempo que nunca ouvi estas piedosas personagens dizerem o mesmo dos restantes casos de fixação de prisão preventiva aplicados a cidadãos também eles presumivelmente inocentes mas definitivamente paisanos. Ou, por outras palavras: a prisão preventiva ofende, assassina, maltrata um poderoso a que é aplicada! Quanto à peonagem, não tem importância, já estão habituados a ser tratados como gado...

Depois, e aqui as coisas são mais graves e tocam a sensibilidade de quem, noutras épocas e por exclusivos motivos políticos se opôs à política do Estado Novo cometendo apenas delitos de opinião. Da mera opinião que ia da simples exigência de eleições livres até ao respeito pelo art. 8º da constituição vigente. Cadeia com eles, sem juiz de instrução, sem acusação formulada, sem direito a advogado assistente, em interrogatórios que duravam não algumas horas mas dias a fio, sem dormir e sem poder sequer sentar o dito cujo numa cadeira. Sei do que falo por experiência própria. E uma vez confinado ao segredo de Caxias, as visitas eram apenas de familiares, e nem todos, sob a escuta de um prestável agente, entre um par de vidros do locutório, sempre sujeito a ser imediatamente interrompida a exígua conversa que se poderia tentar ter.

Esses presos, de facto políticos, não estavam em celas com pátio, e tinham, quando tinham, direito a uma meia hora de ar puro, nem sempre diária. Também ninguém lhes permitia ler qualquer jornal mas tão só os que apoiavam o regime vigente e, muito menos, era permitida a entrada de livros em língua estrangeira. E os nacionais eram alvo de forte censura.

Ouvir o dr Soares alanzoar tresloucadamente um par de tolices e tentar contrabandear sem grand argúcia a teses da perseguição política é dramático, vergonhoso e disparatado. Pior, na sua absurda filípica o “jurista” Soares dispara sobre os decisores da actual situação prisional de Sócrates. A adjectivação de Soares diz muito de quem começa a parecer cada dia que passa uma cabeça em roda livre.

E não deixa de ser interessante ver os defensores do Tribunal Constitucional atacarem agora outro tribunal, porventura não tão importante mas absolutamente essencial no sistema de justiça de qualquer pais civilizado. Pelos vistos, este último tribunal não deve ser órgão de soberania e os seus titulares não merecem qualquer espécie de consideração. O senhor Passos Coelho e os seus boys devem rebolar-se de gozo.

Cada cavadela cada minhoca!

d’Oliveira fecit (25 e 27 de Novembro) 2014

 

19
Dez13

Diário Político 192

d'oliveira

 

 

Ora limpem-se a este guardanapo!

 

Por unanimidade, notem, por unanimidade, o Tribunal Constitucional chumbou o corte das pensões.  

Enquanto pagador durante trinta e cinco anos de uma elevada percentagem dos meus salários na FP estou satisfeito. E volto a salientar a unanimidade que não só dá uma lição ao legislador burro mas volta a referir o princípio da confiança que está mais que consagrado na Constituição que temos desde há muitos anos.

Como é mais que sabido, não nutro pelo actual Presidente da República qualquer espécie de carinho, bem pelo contrário.

Todavia, ao contrário de muitos vociferantes que abundam por aí, tenho que reconhecer que, neste caso, a sua exposição de motivos ao TC era muito bem feita, clara e radical. Relembro, de passo, que Cavaco Silva é campeão em pedidos de conhecimento da constitucionalidade de diplomas governamentais ou da AR averbando vinte e um pedidos ou seja está quase a ultrapassar o total conjunto dos seus dois imediatos antecessores. Já agora, e de passagem, também já vetou politicamente um pancadão de textos legislativos. Para quem é acusado de inércia, é obra! Conviria antes de atacar ver bem o que se ataca e como se ataca.  

E com isto, desejo aos meus leitores um Bom Natal. 

 

d'Oliveira fecit. 19-12-13

19
Out12

Diário Político 184

mcr

 

Na morte de um amigo querido, de um poeta notabilíssimo e de um cidadão atento e exemplar

 

 

 

“Morrer não é coisa que se faça a um gato.

Que há-de um gato fazer

num apartamento vazio?

......................................

Havia aqui alguém que há muito estava e estava

e que de repente desapareceu

e agora insistentemente não está

.................................................

 procurou-se em todos os armários

revistaram-se as estantes

..........................................

que mais se pode fazer?

Dormir e esperar.

 

Quando regressar ele vai ver

...................................

Vai ficar a saber

que isto não é coisa que se faça a um gato

 

Caminhar-se-á em direcção a ele

como que contrariado, devagarinho,

com patas amuadas.

E nada de saltos ou mios. Pelo menos ao princípio.”

 

 

Excertos do poema “Gato num apartamento vazio” de Wislawa Szimborska (1921-2012), prémio Nobel de Literatura em 1996, em tradução de Manuel António Pina


* na gravura: o gato de Chesshire figura primordial de "Alice no país das maravilhas" pela maravilhosa pena de Tenniel. ilustrador impar. MAP era um grande leitor e admirador de Lewis Carrol

20
Set12

Diário Político 181

mcr

A catástrofe iminente e os meios  de a conjurar

 

 

 

O título obviamente pertence ao senhor Vladimir Ilicht Ulianov que nov século usou Leninv (o homem do Lena, local onde esteve convenientemente deportado pelas autoridades tzaristas ).

 

E lembrei-me destye título, por in illo tempore, ter feito forte gasto da literatura deste autor, por ter consumido uns fartos 80%  dos três grossos tomos das “obras escolhidas” (na versão francesa, editions du progrés,  Moscovo). Em meu abono apenas refiro que os livros me foram oferecidos por um sogro generoso e sabedor que mos trouxe directos da “librairie du globe” ali da rue de Buci se não erro.

 

Em 1965 li aquilo de rajada, saltando apenas uns relatórios e umas arengas que considerei desnecessárias para a minha formação “leninista” Tinha vinte e poucos anos, eram os anos sessenta e entre o círculo de amigos e companheiros que frequentava ler Lenin era “fundamental”. E Marx, Lukacs, Konstantinov e mais um par de cavalheiros entre os quais Plekanov, Preobajensky e Bukarine, já agora. Naquele tempo (primeira metade dos sessenta) os “clássicos” eram considerados como o sine qua non de uma carreira de esquerdista.

 

Confesso, também em meu abono que fiquei a metade do “Materialismo e empirocriticismo”, uma absoluta estopada filosofante do mesmo Lenin que deveria querer mostrar que era igual a Marx. Não era e a dolorosa história da URSS bem o exemplifica.

 

Todavia, voltemos à “Catástrofe iminente...”. O texto começa com uma dramática descrição da situação do país mergulado em greves, falta de géneros essenciais, manifestações e tumultos e ineficácia governamental. E é a partir daí que Lenin, fino político, propõe uma série de medidas de salvação.  Vale a pena, mesmo hoje, passar uma vista de olhos por este texto (julgo que anda pelos alfarrabistas uma tradução editada pela saudosa “Centelha” a preço mais ou menos vil. Para quem atura a rapaziada do Bloco ou o estertor do PC esta literatura até pode ser saudável...

 

E porque é que falo em “catástrofe iminente...” Pela pequena e forte razão de que, por cá, anda tudo em polvorosa. Em breves palavras: desde o mergulho mortal de costas de Coelho para a piscina quase vazia, vai por aí uma vozearia desconforme.

 

Poder-se-ia pensar que nas combalidas hostes da esquerda, revigoradas pela tonta entrevista de Coelho, reinaria não só uma animaçãqo mas, mais do que isso, um princípio de consenso quanto à política a defender e às medidas a tomar. Medidas claras, simples, enérgicas que nos tirassem deste atoleiro wm que a pátria se debate.

 

Lamento dizer que se oiço gritos e condenações em quantidade nem um sussurro me chega de soluções.

 

Melhor, aliás pior: começa a ouvir-se com crescente intensidade que este Governo não presta mas que deve ser ele ou outro da mesma cor e som a enfrentar os tormentosos tempos que se avizinham. Da parte do P.S., a coisa chega a roçar a mais descarada obscenidade: O P.S. parece ter adquirido uma brande virgindade política (nada disto é com eles, a troika também não, os acordos que a trouxeram a estas ridentes paragens ainda menos e a desastrada governação de anos não tem nada a ver com isto que ora se vive). Há semanas Seguro jurava, de voz embargada, que estava pronto para governar. Passou-lhe depressa a vontade, como declarações recentes fartamente sugerem. Socialistas (ou gente que se assume como tal) começam a apelar ao Presidente da República para que este, numa espécie de golpe de Estado institucional, demita o Governo e nomeie outro vinda da mesma banda ou constituído por independentes e técnicos. Não foi outra a sugestão do dr. Mário Soares que, repentinamente começou a renegar de tudo o que no passado recente o tornava uma referência.

 

Claro que me dirão que o PC e o Bloco não dizem a mesma coisa (mesmo se altos quadros sindicais, por exemplo, façam também eles o discurso da intervenção presidencial). Dizer, não dizem. Mas também não dizem o contrário. Se nos lembrarmos que só com muito boa vontade estes dois partidos (e os Verdes, claro, os Verdes, como é que eu me esquecia dessa sucursal do partidão? Então poder-se-á lá passar sem o arrebatamento pasionário da dr.ª Heloísa Apolónia que curiosamente sempre me pareceu mais vermelha do que os seus colegas de coligação que desde sempre dão boleia a esta infíma fração dos ecologistas portugueses?) reúnem 20% dos votos expressos nas eleições o que os torna dispensáveis para qualquer cálculo político e governamental.  Aliás, nem sequer se entendem entre eles, como ainda há bem pouco se verificou quando, perante uma imprensa arrebatada e entusiasta tiveram de adiar para as calendas gregas um encontro a sério.

 

Depois, o P.S. foge desta gente como o diabo da cruz. E eles, pese embora uma mimosa entrevista duma gentil senhorinha do BE , fogem do P.S. com igual velocidade mas mais repugnância.

 

Ninguém quer pegar na batata quente. Ninguém. Aventam-se as mais loucas hipóteses de sair desta engreguilho medonho, reconduzindo-se todas a uma intervenção de Cavaco ou a um governo de tecnocratas.

 

A cereja no bolo disto tudo, a triste cereja, é a extraordinária afirmação do “herói de Abril”, do “cérebro da revolução” do ex-Castro português, o senhor coronel Otelo Saraiva de Carvalho.

 

Diz esta luminária militar que o “que precisamos é de um homem honesto como o dr. Salazar”, de um homem que salvou o pais da bancarrota, que criou emprego e deixou o Banco de Portugal abarrotado de oiro que deu muito geito no período a seguir ao 25 de Abril!” (a citação é bastante livre mas podem estar certos que é isto mesmo que a criatura assevera).

 

Se o dr. Soares parodia, sem o perceber, o senhor Cunha Leal nos prolegómenos do 28 de Maio de 26, Otelo parece inspirar-se em Filomeno da Câmara um dos heróis da revolução dos “fifis”, que aliás não teve sucesso.

 

(e ainda anda por aí um grupo de historiadores a criticar Rui Ramos por este, alegadamente e aos seus inquisitoriais olhos, “desculpabilizar” Salazar? Já agora, e marginalmente, um vago doutor por extenso de Coimbra e historiador parcamente lido entende que um estilo limpo e uma escrita agradável são pecados capitais num historiador! Quousque tamdem abutere... etc,etc.?)

 

Estamos, caros leitores, a caminho de reencontrar todos os velhos demónios da nossa saga sebastianista e milenária. As vozes que clamam por um salvador, por um técnico, independente dos partidos (como se não fossem estes, mesmo maus ou até péssimos como é o triste caso actual, um elemento central e definitvo da Democracia), justificam o elogio de Salazar feito por OSC (ou Óscar?)e podem prenunciar um triunfal regresso de um Estado já não Novo mas semi-velho que,. com um par de safanões a tempo, resolva o problema de algumas criaturas incómodas.

 

As multidões na rua reclamando-se de apartidarismo podem facilmente ser engodadas por uma promessa de resolução radical dos actuais problemas em troca dessa coisa de somenos que é a liberdade (a liberdade que seguramente não está a passar por aqui...).

 

d’Oliveira fecit -20.09.12

 

(a pedido de mcr vai esta para dois antigos subversivos coimbrãos chamados António Noronha e Carlos Granés. Parece que fazem o favor de me ler, coisa que cada vez mais é de agradecer)

 

 

 

13
Set12

Diário Político 182

mcr

Perguntas de um leitor que não é operário*

 

Balão de ensaio? 

Gaspar igual a Borges? 

O que faz correr Coelho?

Então agora recorrem a Cavaco?

Que é que a troika disse ao Governo?

A situação económica e financeira é a que dizem?

Relvas ainda é licenciado?

Portas bate com a porta?

 

Respostas nos próximos capítulos 

 

* nem o quereria ser, sobretudo agora

11
Set12

Diário Político 180

mcr

 

 

 

 

A caça às bruxas em versão nacional-bolchevique

 

 

 

Um Jdanov(zinho) de algibeira metido a Vichinsky doméstico entendeu expender em dois longos artigos no “Público” uma caricata “crítica” de uma História de Portugal coordenada por Rui Ramos e oferecida aos fascículos no “Espresso”. 

 

Quando li aquela vil sandice, esfreguei os olhos: não me recordava de RR exaltar Salazar, branquear o colonialismo etc... etc...

 

Entendia até, e isso mesmo terá aqui sido salientado, que esta "História de Portugal" vinha preencher um enorme vazio pois nada havia no género desde a congénere tentativa de Oliveira Marques, ha muito esgotada e desactualizada. Aliás, a crítica -especializada ou não - saudara entusiasticamente esta edição e, se bem me lembro, RR e os seus dois parceiros neste intento tinham mesmo recebido um importante prémio. 

 

Que RR não é um "revolucionário" (queira isso significar o que se quiser) não é novidade nenhuma.  Todavia, comparando a sua démarche (para já não falar nos seus estilo e escrita) com a de alguns representantes dessa outra tendência historiográfica, facilmente se detecta que em questão de "empapamento ideológico" (para usar uma expressão sinistra e infeliz de Fernando Rosas) está bem abaixo dos seus detractores (Rosas incluído). Ou de um jovem Avelãs Nunes que agora também saiu a terreiro na defesa de um excelso historiador do "fascismo" nacional. 

 

 

 

Este debate, que tem ocupado as páginas do "Público" caracteriza-se por algo de extraordinário. Por um lado RR foi acusado de uma extravagante defesa de Salazar  que nenhum leitor sério e honrado pode partilhar. Não há tal defesa, bem pelo contrário, não há branqueamento, ocultamento, olvido, desculpa, sequer simpatia pelo cavalheiro de Santa Comba. 

 

Num primeiro momento RR veio a terreiro e desfez as tolas acusações (e difamatórias) de que fora alvo. 

 

Esqueceu-se de referir que não tem culpa do sucesso absolutamente invulgar da venda do seu livro. Só isso dava para muito rapazola se sentir agravado. "Ai o mariola vai já na 5ª edição? Deixa estar que já tas canto…"

 

Entretanto, várias pessoas saíram a terreiro em defesa do bom nome de Ramos. 

 

Num segundo momento, Fernando Rosas entendeu dever pontificar. Pontificar, repito, pois FR, depois da sua assinalada entrada como comentador nas televisões, assumiu uma postura bizarra de pequeno oráculo político. 

 

Começando por declarar que todos têm direito a opinar (olha a novidade!…) FR recorre ao habitual truque de pôr em igualdade ofensor e ofendido, agressor e agredido. É a sua(dele) ideia de democracia. 

 

Faltando-lhe seguidamente argumentos para provar que RR branqueava o salazarismo, eis que Rosas desvia o tiro para a "1ª república". E vá de  atacar a ferocidade de RR quanto aos desastrosos (o adjectivo é meu e de uma esmagadora maioria de historiadores de todas as tendências que se debruçaram sobre o período) dezasseis anos de "República". 

 

Mas nem sequer aí Rosas atinge o alvo. Mais uma vez, assaca a RR  intenções e opiniões que qualquer vulgar estudioso do período 1910-1926   sabe reconhecer. Não vou aqui fazer o processo desses anos tumultuosos, carregados de intentonas, revoluções, golpes e contragolpes. Não vale a pena lembrar a severa condenação do regime e dos governos que levaram a cabo uma política tão anti-operária que a CGT qualificou de "racha sindicatos" e que está descrita, por exemplo, por César Oliveira ou Pacheco Pereira. Não é necessário lembrar as milícias partidárias à solta, a "formiga branca", os espancamentos na via pública, os ataques aos jornais adversários do partido democrático, os empastelamentos, a ofensiva gratuita contra o clero, os assassínios (e nem sequer refiro a "camioneta fantasma" cujos tripulantes abateram altas figuras da Revolução de 1910) de dezenas de pessoas, os atentados, a contínua dança de governos, as crises endémicas política e financeira.  

 

Não serve RR? Leiam-se António José Telo, Douglas Wheeler ou mais uma boa dúzia. Não servem? Leiam-se Raul Brandão, José Relvas ou João Chagas. 

 

E se nada disso chegar, atente-se que o 28 de Maio tem a assinatura de muitos e prestigiados republicanos (Gomes da Costa, Cabeçadas, por exemplo) de maçons (Carmona) de ex-ministros da República (por todos Cunha Leal), para já não falar da benigna expectativa de sectores da Esquerda (Seara Nova incluída) para com o movimento, melhor dizendo o "passeio" entre Braga e Lisboa. 

 

Tudo isto, porém, deve ser faits-divers para Rosas e para o seu defendido afilhado. No fundo, a História é para ser exercida por gente que pense pela mesma estreita cartilha embebida, mas não empapada, em progresso, amor pelo povo e muito materialismo histórico.  E outro tanto, senão mais,  de materialismo dialéctico. (Mal usados, um e outro, acrescente-se, mas isso deriva de outros factores e de uma deformada e exígua formação marxista: quem contra todas as evidências, tapou os olhos e os ouvidos a Praga 68, aos gulags, à degenerescência dos estados de democracia popular e ao abalo da Revolução Cultural, pode dar-se ao luxo de confundir agressores e vítimas, fascismo mau e fascismo bom (o que se se personificou nos infames pactos Ribentrop-Molotov, na entrega de refugiados alemães aos nazis, no apoio em bens e géneros de toda a ordem ao Reich quando este atacava as democracias ocidentais).

 

Em Portugal, as discussões têm sempre este lado escabroso. À falta de argumentos utiliza-se a cacetada e a confusão. Ao fim e ao cabo, daqui a dias já ninguém se lembra.

 

 

 

A latere: que este modesto caso não nos faça esquecer o excelso cavalheiro Relvas, subitamente tão discreto e silencioso.

 

ainda a latere: alguém viu por aí o tão prometido esclarecimento completo dos métodos usados pela universidade lusófona para atribuir créditos a quem não segue o percurso vulgar de estudos necessários à obtenção de licenciatura? 

 

 

 

 

 

nota final: os leitores terão reparado que não se identifica a criatura que em duas peças de má prosa e pior ética (?) atacou Rui Ramos. Esta gente não merece que sujemos metaforicamente o dedo dactilográfico com o seu nome. 

 

d'Oliveira fecit

 

 

04
Jul12

Diário Político 179

mcr

Mais um cadáver esquisito

 

 

 

Éramos um grupo espantado e sonolento, hoje na esplanada do costume. Com a sua particular gravidade, Y repetia: “É enorme!”. X, sempre ele, retorquia “É lindo.”

 

“Lindo, o tanas e o badanas", repontávamos os outros. Eu citava um velho amigo e murmurava, “O Tanhäuser e o Badanäuser!”

 

Alguém ( o grande W?) sentenciou: “Isto é surrealista”.

 

K barafustou. K, já em Coimbra, ou até antes, tinha a mania dos surrealistas. E da Patafísica, acrescente-se. Não sendo uma religião, o surrealismo foi para ele sempre uma coisa séria. Mais do que um movimento artístico, menos do que uma fé, sempre uma atitude.

 

"Isto não tem nada a ver com surrealismo mas merece que se organize um cadáver esquisito".

E foi ao quiosque dos jornais por papel e duas esferográficas.

 

Ao assumir o comando, K preveniu: "Vamos fazer umas quadras mas não esforcem as meninges que o Ministro e a tal Lusófona não merecem esforços de maior. Quadras de pé quebrado e basta que aquela gentinha não merece sequer a redondilha maior. Ao trabalho. Começa o “Tripé”.

 

E foi assim, animados por um café razoável, sob um guarda-sol amigo, que se pariu a versalhada que se segue. A malta ria-se mas, no fundo, a qualidade da poesia produzida lembrava mais que não aguentávamos o fardo de ser portugueses. Isto ás vezes mói. E dói. Muito.

 

 

 

 

 

Com quatro cadeirinhas

 

se faz um senhor doutor

 

acendam-se velinhas

 

em honra deste valor

 

 

 

trinta era o número final

 

mas os méritos eram tais

 

que dos créditos no total

 

sobram vinte e cinco ou mais

 

 

 

Com um dez solitário

 

Numa faculdade de direito

 

Cumpre-se o necessário

 

Para lhe rendermos preito

 

 

 

São versos de pé quebrado

 

Indignos dum ministro.

 

Que querem? É o fado

 

de viver num pais sinistro!

 

 

 

Convenhamos que já é azar

 

Só agora se saber desta pista

 

Algum dia quem roubar

 

Tira um diploma de economista.

 

 

 

Fosse isto no velho Brasil

 

E só durante o Carnaval

 

As gargalhadas seriam mil

 

Mas, porra, isto é Portugal.

 

 

 

Por um largo par de dias

 

Vai haver  alto falatório

 

Mas depois as arrelias

 

tiram o gajo do purgatório.

 

 

 

Que ele vai voltar lampeiro

 

Ungido pela “sua” universidade

 

Com fama de gajo porreiro

 

Pode ser triste mas é verdade.

 

 

 

O futuro a Deus pertence

 

E o presente aos espertalhões

 

E quem sempre vence

 

Ri-se de nós, os paspalhões!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 * na gravura: cadavre exquis com a participação de Yves Tanguy, Miró, Man Ray e Max Morise