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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

30
Set17

Diário político 213

mcr

Felizmente, amanhã é sábado

 

d' Oliveira fecit 29-9-17

 

Estamos no fim da mais pobre e abjecta campanha eleitoral de sempre. Quem esperou algum esclarecimento, alguma proposta, alguma discussão, cedo e tristemente se apercebeu desta desgraçada realidade: “No está el horno para bolos”, dizem os nossos vizinhos.

Não está cá mas também não está lá.

Na pátria dos heróis do mar nobre povo, soluções para as autarquias houve poucas sobretudo por parte dos (4+1) partidos tradicionais. O auge do autismo foi para o BE. Desprovido de voz autárquica e de eleitos em número sequer medíocre, eis que os seus principais oradores se desdobraram numa espécie de campanha nacional onde eram mais as indirectas ao PS e ao PC do que à Direita. De todo o modo, nem no capítulo da novidade a campanha deste partido merece referência . Narizes de cera, lugares comuns e, um carregar no acelerador das exigências de carácter económico e social que fazem tábua rasa da real situação do país.

Nos restantes quadrantes, exceptuando, eventualmente, o PC que tenta resistir ao cerco do PS no Alentejo e ao canto das sereias do BE, foi notória falta de empenho local nas propostas. O PPD está, também ele, na defensiva. Passos sente o cerco interno e externo e a contagem de espingardas dentro do partido dá já sinais de turbulência crescente. O PS aponta os êxitos governamentais como se em cada autarquia os pudesse replicar. Nem estupidez do “aeroporto internacional em Coimbra” inventada pelo candidato Machado parece fazer mossa. É obra. O CDS tenta melhorar o seu modesto score autárquico à sombra da campanha de Cristas em Lisboa. Porém dos restantes círculos onde quer manter ou melhorar posições quase nada se ouviu.

Lembraria, se valesse a pena, que, na Europa há dados novos, sobretudo no que diz respeito às eventuais soluções governativas na Alemanha. Iremos, todos, chorar a saída de Schauble pois o sucessor, tudo o indica, virá dos liberais, gente pouco sensível aos europeus do Sul e muito menos “europeístas” do que o anterior ministro das finanças alemão. Os desvelos com que fomos tratados são para estes futuros parceiros de Merkel inadequados e imerecidos.

E da Espanha que notícias nos chegam? Uma porção, claramente minoritária, da população catalã (mesmo se a geometria eleitoral converta os seus eleitos numa pequeníssima maioria) descobriu que poderia, contra a Constituição (largamente votada pelos catalães) e contra o Estatuto de Autonomia, levar a cabo um referendo sobre a independência. E apresentam essa independência sob um cor celestialmente rosa como se fosse possível à Catalunha permanecer na Europa. A União Europeia já preveniu outros vagos autonomistas da impossibilidade de se manterem dentro da Europa política. Isso, só isso, traduzir-se-ia num violento empobrecimento da região quer por estabelecimento de fronteiras reais com o continente quer com a Espanha. Sabe-se, até os independentistas sabem (mas escondem) que uma separação traria incalculáveis consequências para a fortíssima comunidade “espanhola” (galega, aragonesa, castelhana e andaluz) instalada na Catalunha e que forma boa parte do operariado da região. Por seu lado, a Banca, a grande indústria e, genericamente todos quantos na Catalunha trabalham para o mundo peninsular, não querem sequer ouvir falar de um regime que os corte da sua clientela. Um amigo meu, catalão e naquele tempo vagamente autonomista, confidenciava-me maravilhado que “a Catalunha é a única metrópole que se quer separar das suas rendosas colónias”. Nada mais certo e cada vez mais certo. Sem o resto da Espanha a Catalunha passará um mau bocado e terá de reconverter dramaticamente a sua economia. Correm por cá, nos meios “anti-castelhanos” alguns mitos urbanos de pele dura: que a língua é perseguida; que a Catalunha foi em tempos independente; que nos séculos XVII e XVIII houve tentativas independentistas afogadas no sangue; finalmente que durante a conturbada 2ª República e sequente guerra civil, a Catalunha estava do lado republicano. Ora bem e por pontos. O catalão é falado na Catalunha a par do castelhano ou seja do espanhol. Se problemas há, sobretudo entre as camadas não originariamente catalãs, são eles derivados de um ensino e de uma burocracia que fazem o possível por negar a legitimidade do idioma comum. De resto, se é verdade que aparecem revistas e livros em catalão (e cá em casa há vários volumes de poesia catalã, por exemplo) não menos verdade é que se um autor pretende reconhecimento a primeira coisa que faz é traduzir a sua obra em espanhol para poder ser lido por mais de uns centos de leitores. No que toca às famosas “guerras da Catalunha” bom seria lembrar que nunca elas tiveram a independência por objectivo para foram continuadamente suscitadas por conflitos europeus sobre a Espanha, mormente dinásticos (Austrias contra Bourbons, etc) No capítulo da guerra civil, é verdade que a Catalunha ficou no lado republicano. Fundamentalmente o que ocorreu foi que a intentona dos generais falhou em Barcelona graças à acção de comunistas e anarquistas mas à medida que o fim da guerra se aproximava mais e mais se verificava que se havia região dotada de uma poderosa “quinta coluna” essa era a Catalunha. Há, hoje em dia, documentação mais suficiente para o comprovar e a entrada de Franco em Barcelona foi muito mais aplaudida do que a entrada em Madrid. A Catalunha, pura e simplesmente esteve durante boa parte da guerra demasiado afastada das frentes de combate. Só isso. O franquismo floresceu na Catalunha e especialmente em Barcelona com a mesma ou talvez maior intensidade do que no resto da Espanha. E até a língua, hostilizada pelo regime (como hostilizado era o galego, língua de “labregos e marinheiros” e o vasco quase só falado no campo e por pouca gente) se manteve com algum vigor entre algumas elites. E digo elites porquanto foi depois da guerra que acorreram à Catalunha multidões de emigrantes de outras e mais pobres regiões espanholas que contribuíram para uma desigual distribuição da riqueza e para o cada vez mais comum uso do castelhano. O catalão era-lhes desconhecido e assim continuou até ao fim do franquismo.

Portanto, os mitos piedosos sobre os infelizes catalães que correm por alguma direita portuguesa e idêntica esquerda assentam na ignorância da história da península, de como se constituiu o “Estado” espanhol cuja raiz está no casamento dos reis católicos respectivamente Isabel de Castela e Fernando de Aragão (reino de que a Catalunha e as Baleares faziam parte). A Espanha foi-se lentamente construindo desde a “Reconquista” e devorando efémeros reinos (Leão ou Navarra) e aumentando o território graças à continuada conquista das regiões sob controle muçulmano (digo muçulmano e não árabe por duas razões: a primeira é que boa parte dos vencedores dos visigodos eram berberes e berberes continuaram a ser muitos dos componentes dos sucessivos exércitos que atravessaram o Estreito em direcção à Península. Depois porque muitos dos habitantes do Califado e dos reinos de taifa eram hispânicos convertidos. Alguns permaneceram depois da conquista de Granada, outros, os “moriscos” foram expulsos graças às leis sangue editadas. Não foram apenas os judeus a serem varridos do território, como se vê.)

Há na ditosa pátria bem amada, um forte sentimento anti-espanhol como se ainda vivêssemos antes de Aljubarrota ou durante os Filipes (que aliás governaram um reino independente dos restantes territórios da coroa espanhola). Que o aclamado patriotismo primeiro dezembrista faça tábua rasa da multidão portuguesa que aceitou Filipe II (1º de Portugal) e lembre comovida o inglório esforço do Prior do Crato (que nunca teve apoio real que se visse, mesmo e contra Manuel Alegre, do povo miúdo) é apenas mais um pundonoroso véu patrioteiro que dá jeito. E bastaria lembrar que, mesmo depois de 1640, permaneceram em Espanha muitos portugueses (Faria e Sousa o grande autor da “Ásia Portuguesa” ou Pedro Teixeira, o brilhante cartógrafo autor do extraordinário “atlas do Rei Planeta”).

Há nestes portugueses dos cinco ou seis costados a mesma ideia de alguns franceses do século passado quanto à Alemanha (gostavam tanto dela que a preferiam dividida em duas, três ou mais partes...) Complexos de pequenez que ainda não passaram com o tempo.

Há uns anos escrevi aqui sobre o mesmo tema, mesmo se tivesse por alvo essa coisa fascistóide chamada “Esquerra Republicana”. Lembrava que a Europa não aceita Padânias, Córsegas ou Escócias ou outras eventuais contaminações nacionalistas. Como não aceita o facto consumado da Crimeia e outros na zona ou no Cáucaso onde a Rússia cerceia os vizinhos criando e protegendo umas republiquetas que nada têm de autónomo e mais não são do que chantagem sobre os vizinhos.

Finalmente, há países europeus onde coexistem harmoniosamente regiões dotadas de grande autonomia. É o caso da Alemanha de longe o mais avançado e bem sucedido estado federal- E recorda-se a criação da Itália (nação muito mais recente do que a Espanha, com diferenças muito mais acentuadas, uma história comum de guerras contínuas, de repúblicas, ducados, principados, reinos de toda a ordem usando uma língua comum (o toscano) mas mantendo-se bem vivas línguas e dialectos variados (basta ir a Veneza ou a Bari ou a Nápoles para não falar na Sicília) onde até se nota profundamente algum espanhol herdado do antigo reino de Napoles e das duas Sicílias. E tudo isto num país onde por vezes nem se verifica a continuidade territorial (Sicília ou Sardenha). Contudo, a cegueira nacionalista, mãe da xenofobia e de todos os autoritarismos incluindo o fascismo, recebe numa pequena fracção da elite portuguesa (ou presumida como tal) um aplauso indisfarçado e um apoio que roça o grotesco e fossa na mais pura ignorância histórica.

 

02
Ago16

diário político 210

mcr

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A vitória (in)esperada

 

Parece que Portugal, ou boa parte dele se transformou no arcanjo Miguel e matou o dragão. Ou seja a Europa. Ou a comissão, ou o Ecofin. Ou os invejosos do Norte que não tem sol (mas tem dinheiro).

A não aplicação de sanções que criou uma patriótica cruzada chefiada à vez por Marcelo e Costa foi insistentemente referida como uma vitória da justiça por todos e até pela dr.ª Ferreira Leite.

Lamento estar, como de costume (arre que vício tão feio!), a contracorrente. Não houve nenhuma vitória nacional apesar das cartas, dos telegramas, dos telefonemas do senhor Presidente e do senhor Primeiro Ministro. Ou do senhor Passos Coelho, o principal interessado em passar través das malhas duras dos Tratados europeus. Afinal era o Governo dele que precisava de ser ilibado...

O novo milagre das rosas europeu chama-se tão só Espanha. Espanha, o nosso parceiro peninsular e, igualmente, o nossos parceiro alvo das hipotéticas sanções.

Estivesse a Espanha fora do deficit excessivo alguém acredita que não comíamos pela medida grande? Mas a Espanha e a sua economia, uma das cinco mais poderosas da Europa, estava atravessada no caminho vingador dos que ainda acham que os tratados devem ser cumpridos (pacta sunt servanda) custe o que custar. Portugal, para um holandês ou um finlandês, é coisa pouca mas com a Espanha a coisa fia mais fino.

Aliás, o senhor Rajov, logo que ouviu a sirene europeia, pôs as barbas de molho e anunciou medidas de redução de despesa que valiam 6.000 milhões de euros. Por cá o Governo fez ouvidos de mercador e persistiu na patriótica ideia de que os tratados eram meros papéis (onde é que eu já ouvi isto?) e que seria uma injustiça punir o já longo e habitual desregramento financeiro. Curiosamente, mesmo sem querer, o Governo actual desculpava implicitamente o anterior Executivo quanto ao deslize do deficit.

Claro que nesta maratona de falsas generosidades financeiras e verdadeiros mergulhos na realpolitik algo ficou destruído: a Europa ou a União Europeia tal como a conhecíamos que começa cada vez mais como uma união a la carte. Este presente ao “nobre povo, nação valente”, é um presente de grego. Hoje perdoam-nos uma multa, amanhã exigirão uma capitis diminutio politicamente mais onerosa. Ou diminuirão verbas com destino ao Portugal.

Vamos pagar a nossa incerta aventura deficitária com língua de palmo. Quando e como é coisa que não se pode antecipar.

d'Oliveira fecit 2-8-16

 

28
Nov14

diário político 204

d'oliveira

Crise? Qual crise?

 

Anda por aí uma opinião que sustenta que com os recentes “casos” (vistos gold, BES, Sócrates, entre outros) põem o regime em crise.

Sinto muito mas tenho uma opinião completamente diferente. A crise, existiria isso sim, se sabendo-se, ou suspeitando-se (como era o caso em quase todas estas situações....), de ilícitos graves nada acontecesse. O Estado de Direito reforça-se quando actua naturalmente. E actuar naturalmente é fazer o que a Lei impõe. Só para referir a questão Sócrates, parece que foi uma denúncia da CGD (obrigatória quando os movimentos de capitais ultrapassam uma certa quantia) que activou os mecanismos de exame do Ministério Público.

Isto significa que a instituição funcionou saudavelmente. Não se veja neste adverbio de modo qualquer espécie de consideração moral sobre a eventual culpabilidade do ex-primeiro ministro. Nem sequer a certeza que houve qualquer transferência ilícita de dinheiro. Não tenho qualquer espécie de informação que não seja a que é veiculada pelo jornal “Público” que aliás leio com “cautela e caldos de galinha”.

A ética comum manda que se considere um acusado inocente até um Tribunal determinar sem margem para dúvidas a sua clara culpabilidade.

O senhor Sócrates e os restantes detidos estão a ser alvo de uma investigação preliminar e obrigatória que, em teoria, os defende mais do que os compromete. Pode hoje mesmo ser determinado que este processo não tem pernas para andar. Mesmo que sejam arbitradas medidas coercivas de liberdade, nem isso, prova qualquer delito mas tão só vestígios comprometedores de que algo não está claro.

Os Estados de Direito funcionam assim: ás claras, sem objecções à defesa plena das pessoas, sem medidas administrativas especiais e/ou secretas. Não estamos na Alemanha do Reich eterno nem no paraíso soviético. Não estamos sequer na Coreia do Norte ou na China dita popular.  

Corrupção, branqueamento de capitais, fuga aos impostos sempre houve e eventualmente haverá para futuro. Não que seja aceitável este estado de coisas mas convém sublinhar que o essencial é punir os ilícitos e não fingir que eles não existem. A possibilidade de punição é infelizmente a única prevenção possível: o medo de ser apanhado é que tolhe o eventual infractor.

Também não tenho a certeza que o caso Sócrates (pelo menos nesta forma pré-julgamento) possa atingir violentamente o poder politico, mormente o PS. Até á data nada atinge o PS mesmo se corra por aí que Costa se louve em Sócrates. É verdade que a sua eleição pode fazer parecer que se inverteu dentro do PS o “apagamento” do ex-primeiro ministro. Convenhamos que até isso me pareceu sempre algo de exagerado. A AR estava pejada de “socráticos”, Seguro tinha a confiança de muitos desses cavalheiros e a condenação da orientação política anterior era discreta, discretíssima. Aliás, a oposição ao Governo e ás suas medidas parecia indiciar uma certa colagem de Seguro à “herança” medonhamente esconjurada por Coelho e amigos.

A segunda questão que anda nas bocas do mundo é o perigo de se estar a assistir a um “julgamento da rua”. Esse é um dos riscos que a liberdade pressupõe. Pior seria se a opinião fosse violentada pela policia, pelos bufos, pelos informadores, pelo medo de ser preso. A “rua” julga sempre. E há muito que ela chama gatuno, criminoso a qualquer politico. Note-se, de passagem, que muitas vezes a rua é assanhada por responsáveis políticos. Não se lembram de todas as acusações que certos tenores da “esquerda” (esquerda entre parêntesis, diga-se já) tem continuadamente feito ao governo que, verdade seja, se põe muito a jeito...

A terceira questão é a levantada pela “comunicação social”. As televisões ululam com a falta de notícias do Tribunal de Instrução. Nem sequer pensam que essa falta de notícias prefira ou pode prefigurar a defesa do detido. Antes poucas notícias ou nenhumas do que um comunicado feito á pressa que imediatamente poria um cento de comentadores a fazer complicados exercícios de interpretação.

A quarta e última observação que me ocorre é esta: a questão Sócrates pode perturbar fortemente as possibilidades de Costa na sua corrida ao Ministério. Mesmo que Sócrates fique detido, o processo seguramente não estará despachado tão cedo (a menos que haja uma confissão, que as provas sejam esmagadoramente conhecidas e que a opinião pública se convença maioritariamente do seu fundamento). O problema que eventualmente poderia prejudicar o PS é a suspeita de actuações criminosas durante o Governo do ex-primeiro ministro. Aí, de facto, seria difícil, excluir da actuação de Sócrates muitos outros responsáveis de topo do partido. Mas, até ao momento, e esperemos que nunca, tal não ocorreu.

Todos os países correm riscos, assistem a escândalos, à indignação dos cidadãos e ao protesto destes. Isso é sempre um bom sinal de vitalidade, de consciência cidadã e de funcionamento das instituições. O resto, ou o contrario, é que é o cemitério da liberdade. E nos campos santos nem os mortos respiram.

 

(este texto não entrou no blog por razões misteriosas que se devem apenas à minha eventual falta de habilidade e jamais ao actual detido em Évora, aos jornalistas, ao senhor Sousa Tavares ou mesmo ao dr Mário Soares. Publica-se dois dias depois com mais algumas reflexões)

algumas criaturas com mesa posta nas televisões e jornais entenderam (muitas vezes ao arrepio do que sobre outras situações escreveram) que se está a assistir à pública defenestração do ex-primeiro ministro. Desde a “humilhação” até à condenação do entorse feito ao “segredo de justiça” (mesmo se implicitamente dão a entender que conhecem as motivações do Tribunal e dos seus membros) tem sido um rosário.

Perfila-se mesmo uma curiosa opinião de “classe”: no caso de Sócrates todo este circo é horrível, medonho, fruto de rancores miseráveis, ao mesmo tempo que nunca ouvi estas piedosas personagens dizerem o mesmo dos restantes casos de fixação de prisão preventiva aplicados a cidadãos também eles presumivelmente inocentes mas definitivamente paisanos. Ou, por outras palavras: a prisão preventiva ofende, assassina, maltrata um poderoso a que é aplicada! Quanto à peonagem, não tem importância, já estão habituados a ser tratados como gado...

Depois, e aqui as coisas são mais graves e tocam a sensibilidade de quem, noutras épocas e por exclusivos motivos políticos se opôs à política do Estado Novo cometendo apenas delitos de opinião. Da mera opinião que ia da simples exigência de eleições livres até ao respeito pelo art. 8º da constituição vigente. Cadeia com eles, sem juiz de instrução, sem acusação formulada, sem direito a advogado assistente, em interrogatórios que duravam não algumas horas mas dias a fio, sem dormir e sem poder sequer sentar o dito cujo numa cadeira. Sei do que falo por experiência própria. E uma vez confinado ao segredo de Caxias, as visitas eram apenas de familiares, e nem todos, sob a escuta de um prestável agente, entre um par de vidros do locutório, sempre sujeito a ser imediatamente interrompida a exígua conversa que se poderia tentar ter.

Esses presos, de facto políticos, não estavam em celas com pátio, e tinham, quando tinham, direito a uma meia hora de ar puro, nem sempre diária. Também ninguém lhes permitia ler qualquer jornal mas tão só os que apoiavam o regime vigente e, muito menos, era permitida a entrada de livros em língua estrangeira. E os nacionais eram alvo de forte censura.

Ouvir o dr Soares alanzoar tresloucadamente um par de tolices e tentar contrabandear sem grand argúcia a teses da perseguição política é dramático, vergonhoso e disparatado. Pior, na sua absurda filípica o “jurista” Soares dispara sobre os decisores da actual situação prisional de Sócrates. A adjectivação de Soares diz muito de quem começa a parecer cada dia que passa uma cabeça em roda livre.

E não deixa de ser interessante ver os defensores do Tribunal Constitucional atacarem agora outro tribunal, porventura não tão importante mas absolutamente essencial no sistema de justiça de qualquer pais civilizado. Pelos vistos, este último tribunal não deve ser órgão de soberania e os seus titulares não merecem qualquer espécie de consideração. O senhor Passos Coelho e os seus boys devem rebolar-se de gozo.

Cada cavadela cada minhoca!

d’Oliveira fecit (25 e 27 de Novembro) 2014

 

28
Set14

Diário Político 203

mcr

Um dia como os outros

 

Sem surpresa Seguro perdeu, e por forte percentagem (calculo), as eleições para (pasmemos!) “candidato a Primeiro Ministro”.

E comecemos por aí: houve muitas criaturas a babarem-se com a democracia desta consulta.

Eu, desculparão, sempre tive por certo que o candidato a 1ª Ministro é o dirigente do Partido. Agora, podem coexistir (o que não vai ser o caso) um candidato a 1ª Ministro e um Secretario Geral. Imaginam a confusão?

Em Portugal, é perigosamente habitual copiar as modas estrangeiras, os costumes políticos de fora sem haver, previamente, um claro estudo da sua adequação ao nosso sistema político.

No caso vertente, a aceitação do voto de “simpatizantes” (que, para o provar, apenas basta inscreverem-se sem ter de provar esse entusiasmo e amor ao Partido que os aceita como eleitores de pleno direito) leva a este incongruente resultado de haver um peso fortíssimo de “simpatizantes” face aos militantes.

Um militante pode, doravante, interrogar-se seriamente sobre a sua função no Partido. Anda por ali a pagar quotas, a assistir a chatíssimas reuniões de secção, a perder tempo a encher salas de comício, a gastar solas e tempo a colar cartazes, a fazer arruadas e depois aparecem uns cavalheiros que durante esses penosos momentos de militância estiveram repimpados em casa, no bem bom, sem sequer abrir os cordões à bolsa, mesmo se a espórtula é irrelevante.

Conheço muita boa gente que correu a inscrever-se como simpatizante sem ter no seu “histórico” uma contínua votação no PS. Aliás, toda a gente conhece.

Claro que pode sempre dizer-se que os militantes ainda são (serão?...) os únicos que podem participar nos congressos onde se define o programa politico, se elegem os órgãos dirigentes e, de certo modo, os candidatos a deputados e a edis camarários.

Mas se a teoria é eleger o “candidato a 1º Ministro”  com a mais ampla participação popular, que razão haverá para, com muito mais facilidade e “democracia”, se eleger o presidente da Junta, o da Câmara e até o deputado ?

E, nesse caso, onde fica a utilidade do partido?

O rapazote  Seguro abriu esta caixa de Pandora. Ele que a feche. Mas não fecha porque, neste momento esmagado pela maior derrota que em Portugal se registou, já não é ninguém, ou, pelo menos, muito pouco. Deputado, se é que não leva até ao fim a sua vis demissionista. Não leva, claro. Este é o seu emprego, o seu ganha pão e não será Costa quem lho tirará. Dá-lhe jeito ter Seguro pela trela parlamentar, à mercê, à sua mercê.

Seguro no seu patético discurso da derrota não deixou de mencionar as vitórias que obteve. Até nisso foi mal aconselhado. Bastar-lhe-ia lembrar a carreira de Ferro Rodrigues, um politico absolutamente melhor que ele, e com melhor currriculo e melhor história política ( o homem tinha sido um dos líderes da revolta estudantil dos anos finais do marcelismo...) que foi esmagado dentro do mesmíssimo Partido Socialista por um arrivista, vindo da Direita e chamado Sócrates.  Nem na saída, o Tozé acertou.

E agora, Costa.

Desta feita, a coisa não vai ser como na “quadratura do círculo” onde Costa estava placidamente sentado a ver a disputa entre os dois restantes membros desse círculo. Bastava-lhe estar calado e depois dos dois se tentarem trucidar, ele, Costa, tirava as castanhas do lume.

Agora isto vai ser mais sério.

Au charbon, monsieur Costa, au charbon.

Agora, há que mostrar ao país a nova política, o novo empenho, a nova via. Convenhamos que a seu favor tem a novidade, mas Passos não lhe vai fazer a vida fácil. Quem governa pode sempre fazer uns malabarismos, baixar um imposto, alargar um benefício e aproveitar o estado de guerra civil latente do PS. Costa teve uma maioria esmagadora mas os vencidos não irão perder as suas últimas oportunidades. Tiveram três anos para se entrincheirar e mesmo se é provável que haja deserções ainda podem dar alguma luta. Costa tem, no máximo, dois meses para arrumar a casa e começar a mostrar as suas alternativas e a sua “verdadeira” oposição ao Governo.  Convenhamos que a tarefa parece ser ciclópica.

De todo o modo, boa sorte!

 

d'Oliveira fecit 28.09.14

 

 

20
Set14

Diário Político 202

mcr

 

 

 

 

 

 

Quem perde ganha ou as ironias da História

Agora que mais de 10 pontos separam os adeptos do Não e do Sim na Escócia convém relembrar o que  se dizia em cada campo.

É fácil perceber que os independentistas queriam sol na eira e chuva no nabal. A começar juravam que o país, graças ao petróleo, iria ficar rico e distribuir um maná absoluto pelo povo. Não é bem assim, nunca foi bem assim, como largamente se sabe. Por outro lado os independentistas juravam que a libra permaneceria, bem como a monarquia (?) actual. Obviamente, a libra (como aliás alguns dos principais bancos que, rapidamente o anunciaram), várias grandes empresas geradoras de emprego, desapareceriam da Escócia.

Conviria dar um salto atrás no tempo e relembrar o que era a Escócia independente, melhor dizendo o protectorado escocês. A independência não só dependia da boa vontade inglesa (inglesa e não britânica, fique claro) como também e sobretudo da errática política dos mais poderosos clãs. Os ingleses (outra vez, os ingleses) tiveram sempre para lá do Clyde os seus agentes e os seus numerosos aliados.

Por muitos e maus filmes que correram nos nossos cinemas (no tempo em que os havia...) que se tenham produzido, a verdade é que nunca houve uma vitória estratégica das tropas escocesas. Nunca.  Eu sei que as boas almas, cândidas e ignorantes, choram desabaladamente com a Rainha Maria Stuart e com Braveheart. Outras, mais cultivadinhas, apelam a Rob Roy como se de uma figura histórica se tratasse. Não que não tenha existido um modelo para ele, um homem do clã MacGregor que, depois de ter sido um partidário jacobita, terá acabado como uma caricatura de Robin dos Bosques, aventura que o levou à cadeia. Graças a um texto de Defoe, foi amnistiado pelo Rei e morreu tranquilamente na cama. Mais tarde, Walter Scott escreveu o romance (que não vale Wawerley ou Ivanhoe) e criou-se mais uma lenda.  Mas não é caso único: Durante algum tempo, a história escocesa viveu de outro balão literário, “Os cantos de Ossian”, uma burla de medíocre valor literário e poético, imaginada por um cavalheiro de escasso talento chamado Macpherson. Curiosamente, foi mesmo essa fraude que tornou o homem conhecido e admirado. A aldrabice foi descoberta há pouco mais de um século, o que não travou a sua popularidade. Assim se constroem os mitos e se faz a história...

Não tenho qualquer simpatia especial pela Grã Bretanha, sinto-me mesmo alguém que, desde o tratado de Methuen, não saiu da cepa torta. Trocar vinho vendido a baixo preço por têxteis bem mais caros não só não foi bom para Portugal mas, sobretudo, impediu a industrialização nacional. Começou aí a nossa lenta descida ao estatuto de protectorado da Grã Bretanha de que, aliás, muita gente escocesa beneficiou. 

Todavia, se fosse escocês e eleitor,  teria votado não sem pestanejar. Detesto os nacionalismos serôdios e a mentira que os alimenta, para já não falar na campanha do Sim e do vitimismo que o sustentava.

De todo o modo, o voto Não conseguiu para Escócia um estatuto de quase independência sem as desvantagens inerentes e com uma soma de benefícios que vai acabar por tornar o auto-demitido Salmons em mais um enganoso mito da “liberdade escocesa”: se o homenzinho tivesse ganho é provável que a História futura não lhe perdoasse o mau passo e a imprudência. Vencido será veneravelmente recordado como um benfeitor da terra pátria. Assim se faz a História, como diria o meu querido amigo (tão estupidamente desaparecido) Eduardo Guerra Carneiro

 

d'Oliveira fecit 19.9.014

 

na gravura: tartan do clã Mac Gregor (a que peretenceu Rob Roy)

 

 

11
Set14

Diário Político 200

mcr

 

 

 

 

Esta criatura não sabe o que diz

 

Nunca tive boa opinião de Seguro. O rapaz é fraco, fraquinho e só as alucinações da derrota justificadíssima de Sócrates é que podem ter levado os militantes do PS a alcandorá-lo a Secretário Geral.

Isso e a certeza reconhecida de que os líderes da Oposição só servem para atravessar o deserto. Aproximando-se a hora da verdade, o partido (seja ele qual for) entra em convulsão, defenestra o pastor que o guiara até ali e escolhe alguém com mais carisma, mais força e mais inteligência para tentar a sua sorte nas eleições.

Seguro, ou Tó Zé, como parece gostar de ser tratado, passeou a sua inexistente capacidade política pelo PS socrático, mudo e quedo como um penedo. Daquela boquinha austeramente fechada nem uma palavra saía. Só um bocejo. Aliás três: um dele e dois de cada um de nós.

Durante os primeiros dois anos de “oposição”, só o ouvimos dizer não sem nunca, mas nunca, explicar porquê, como é que faria, se é que faria.

Depois inventou um rol de piedosas declarações que Costa, magnânimo, reduziu a seis e meia. Nem isso, em boa verdade: são quatro e já implícitas em declarações políticas vindas de vários quadrantes. 

Quando ouviu Costa reduzir a tão exígua porção o seu estafado brilharete, ei-lo que proclamou que o adversário apoucava “contributos de milhares de pessoas”. Parecia um responsável comunista de segunda linha a cumprir a cassete habitual dos relatórios preliminares a congressos. Por aquela banda, há sempre milhares de contributos, de grande valia, que vão sendo peneirados graças ao centralismo democrático até se chegar à “linha justa” e geral. Seguro que nunca deve ter sequer pensado no PC (e que bem que lhe faria, apesar de tudo) achou que com isto calava a objecção de Costa. Não calou apesar da choraminguice que usa.

Finalmente, e para não gastar mais cera com tão ruim defunto, fiquemo-nos por aquele grito de alma: No caso de ter de aumentar impostos, demitir-se-ia! Isto, caros leitores, brada aos céus e, mais ainda aos infernos. Em que país vive a criatura, que espera ela dos eleitores, que força lhes transmite, que esperança?

Nenhum candidato a candidato (outra supina cretinice!...) a Primeiro Ministro pode dar-se a este luxo. Sabe lá ele, Seguro, como será a próxima legislatura,  o próximo Governo, o mundo, a Europa e Portugal, já agora... Um Primeiro Ministro, todos os PMs, não gosta de aumentar impostos, sequer de manter os existentes. Se pudesse, o dr Coelho teria diminuído impostos, taxas, derramas, muitas tudo. Teria oferecido bacalhau a pataco, canecas de cerveja ao preço de finos, com tremoços e camarões incluídos. Só que..., só que o mundo é o que é e não aquilo que candidamente Seguro quer.

Se por fatal desgraça, ele vier a governar este desgraçado país e esta sofrida gente, é perfeitamente provável que algum imposto terá de aumentar para cumprir apenas metade das promessas que já fez e pagar a anulação de cortes nas despesas praticadas pelo actual Governo.

Nesse caso, o homenzinho demite-se! Demite-se, vejam bem. E precipita o poáis numa nova crise de governabilidade, em mais tempo perdido, enfim, naufraga clamorosamente depois de ter deitado fora o cinto de salvação.

 E nós, com ele!

Mal por mal, antes os jihadistas do Califado: matam mais depressa!

 

d'Oliveira fecit, 11.9.2014

 

10
Jul14

diário Político 199

mcr

 

Sete a um!!!

E podia ser ainda pior. Quem viu a equipa brasileira a arrastar-se na relva, a tropeçar nos próprios pés, a ver a bola passar com facilidade, elegância, de teutão para teutão que se passeavam pelo “Mineirão” como se estivessem a banhos em Ibiza ou nas Baleares.

Conviria lembrar que a equipa canarinha defrontou uma outra que toda a gente chama a “Mannschaft” como se não percebessem que isso (Mannschaft”) quer apenas dizer “equipa”. Equipa. Ou seja onze cavalheiros que acreditam nas vantagens de um conjunto harmonioso. De um conjunto, perceberam? De um conjunto. A equipa alemã não tem ídolos populares mas apenas profissionais, Não tem nenhum “melhor jogador do mundo” (onde é que esses mjdm andam, gostava bem de saber...), tem apenas profissionais que sabem que o seu valor individual melhora num conjunto em que todos colaboram.

O Brasil, ou melhor as autoridades (e a sua “Presidenta”, com A e tudo no fim), gastou um balúrdio em estádios (onde é que eu já vi isto, este despesismo imbecil e infrene, este ridículo herdado do colonizador?) tudo feito a granel, tudo colado com cuspo, ainda há dias lá se foi um viaduto, e a coisa só agora está a começar.

Um país que faz do futebol o seu cartão de visita (a par com o carnaval e as telenovelas) acaba por merecer esta brutal queda no real.

Tenho pelo Brasil um sentimento muito forte, dúzias de antepassados brasileiros quer pelo lado de meu pai, nascido no Rio de Janeiro de mãe do Rio Grande do Sul (mesmo se ela mesma fosse neta de um médico alemão que hoje é nome de uma pequena cidade (Doutor Ricardo) onde ele exerceu abnegadamente) quer da minha mãe cujo bisavô era brasileiro de Minas Gerais. Adoro a literatura brasileira estranhamente fora do Nobel, vá lá perceber-se porquê. Mas nada disso esconde esta dramática entrada na realidade: o pais dos inventivos do futebol (quem esquece Pelé ou Garrincha, para não ir mais longe?) viveu sempre muito da habilidade de alguns mas isso, por muito simpático que seja, por muito anti-alemão que alguém possa ser, não substitui esta breve verdade: o futebol é jogado por onze contra onze e não por génios individuais. Quem viu o jogo tem alguma dúvida que com Neymar o resultado não sofreria grandes modificações?

E, para a História, relembremos aquele famoso campeonato em que os portugueses (com Eusébio, com Coluna e com outros dedicados e esforçados companheiros) que no Brasil eram acusados de jogar com uma bola “quadrada” apagaram aquela equipa (que tinha Pelé e outros do mesmo gabarito), derrotando os brasileiros sem apelo nem agravo. Uma equipa que aliás chegou longe contra outra que, como agora, vivia de trunfos individuais mas não se conseguia organizar.

Se fosse malicioso, poderia  tentar fazer um paralelismo com o que se passa na política e na economia. Ou como um pais “quadrado”, “pouco imaginativo” (e tudo o mais que quiserem) leva sempre a melhor sobre os jeitosos, os desembaraçados, os alegres, os chicos espertos. Mas deixemos isso para outros carnavais e olhemos para este desastre brasileiro mesmo se isso não nos consola dos justíssimos quatro que de lá trouxemos. E recordemos que a nossa única “vitória” naquele drama de faca e alguidar se deveu a um auto-golo e que,  contra os USA, suámos as estopinhas e metemos um golo mesmo no fim do jogo...

É bom que ninguém se ria dos nossos parentes do lado de lá.

Ou melhor, esperemos que eles e nós, sobretudo nós, aprendamos de uma vez por todas.

A esperança é a última coisa a morrer...

 

d'Oliveira fecit 

 

 

 

17
Jun14

diário Político 198

mcr

Perder um jogo e perder a dignidade

 

 

Os leitores  espantar-se-ão: geralmente não falo de futebol. Por várias e boas razões:  não sou um especial aficionado; não quereria, por nada deste mundo, imitar aquelas empertigadas criaturas que povoam a nossa televisão falando horas a fio sobre os jogos, as tácticas, a bola mostrando bem mais a sua doentia preferência clubista do que algum eventual resquício saudável de amar o desporto; acho malsão e perigosamente estúpido endeusar os rapazes talentosos (como o correcto, alegre e inteligente Cristiano Ronaldo) atirando para cima de um único jogador a responsabilidade da salvação da pátria.

Para dizer a verdade, eu não queria ver o jogo, não queria ficar nervoso. Preferia, no fim ver o resumo os golos com uma secreta e pouco sólida esperança na vitória dos portugueses. Porém, a MQT (mais que tudo) uivou, vociferou, pediu, chateou e claro, lá se pôs a televisão a mostrar aquela inacreditável xaropada. O desastre! Alcácer Quibir em versão post-moderna. A anemia contra a alegria, onze vencidos antecipados contra uma “equipa” (A “Mannschaft” que quer dizer isso mesmo), aquilo era uma equipa de futebol a jogar contra um grupo desses de solteiros e casados destroçados pela idade e pela incapacidade.

Mas perder, coisa em que, lá fora, era aposta certa e, cá dentro, um indisfarçado temor (contra a Alemanha temos perdido sistematicamente) temperado pela mais louca esperança, é uma coisa. Perder daquela maneira, à Pepe, é outra.

E é disso que quero falar. Desse cavalheiro que entendeu naturalizar-se português e agora nos cobre de vergonha. De vergonha: a sua imbecil sarrafada no teutão é uma burrice supina, mesmo antes de ser uma canalhada. A sua cabeçada (encosto de cabeça berram alguns mais exaltadamente míopes) é  a cereja no bolo. A má criação, a selvajaria, atingiu o seu clímax. Expulsão sem apelo nem agravo, justíssima. Com aquele gesto inexplicável, o senhor Pepe pôs a equipa, que já estava naufragada, ainda mais fundo. Foram quatro mas podiam ter sido seis. Ou mais. Valeu-nos o facto dos alemães resolverem descansar. Tinham o jogo ganho, os adversários dominados, e bastava-lhes aguentar sem grande maçada a segunda parte. Foi o que fizeram. Arrasaram-nos e, pior do que isso, deixaram que o sentimento de vergonha nos destroçasse.

Quando o senhor Bento veio falar ainda esperei dele um assomo de dignidade e uma clara e contundente condenação do gesto de Pepe. Alguém viu isso? Se bem me lembro até disse que o árbitro (sempre o árbitro, claro) fez e aconteceu e estava contra nós,  e que até nem via especial razão para o cartão vermelho. Que este lhe parecera “forçado” ou algo no mesmo género.

Quando se esperava do indivíduo uma declaração a explicar que para honra da equipa e sobretudo do pais, o senhor Pepe já tinha as malas feitas para Lisboa, nada!

Poderei estar enganado mas creio que o tal Pepe, conhecido, aliás, por estropícios do mesmo género no Real Madrid onde depois de “abater” um adversário lhe “pôs” suavemente a delicada patinha no rosto e com isso ganhou umas prolongadas férias (terão sido doze jogos?) já não jogará, por castigo nenhum dos jogos desta fase. Com as anunciadas baixas de Coentrão e Almeida, a coisa, complica-se bastante. Que seja, perder ou ganhar é natural. Perder com cenas destas envergonha todo um país, um povo e um futebol que até é cotado. Perder em dois minutos uma reputação ou ganhar outra bem pior é que é (mesmo que isto só seja futebol) dramático.

Estou a ver, a adivinhar, muitos filisteus a vozearem que faço disto um caso tremendo. Os mais ignorantes, que os há, dirão sem saberem o conceito que isto é “tremendismo”. Não é, não é.

Nem sequer é exagero.

É apenas pudor, sentido da realidade, noção de honra e de vergonha.

Vergonha, que é uma coisa que se vai perdendo aceleradamente à medida que, também, com crescente rapidez, se aceita a corrupçãozinha, o carreirismo, a espertalhice saloia e a insensibilidade.

 

d'Oliveira fecit 17.06.14

 

(fique claro que, condenando o acto de Pepe, de modo algum sigo a corrente que o quer de volta para o Brasil. Nenhum português, mesmo naturalizado, deve ser privado da nacionalidade. Deixemos isso para os estalinistas e os fascistas que privaram milhares de cidadãos soviéticos e alemães desse direito.)  

27
Mai14

Diário Político 197

mcr

 

 

 

Calma, Manuel, não me parece ser hora para foguetes

 

Manuel Alegre, um amigo, um velho companheiro, um socialista que não merece ser comparado com a água chilra que hoje dirige o seu partido, está ufano por o PS nacional ter o melhor resultado da Europa. Julgo que, mesmo nisso, se engana porquanto na Roménia, ao que sei o Centro-Esquerda abona-se com 45% dos votos.  Claro que se trata de uma coligação mas mesmo assim...E de mais um par de países onde as coisas não correram de feição.

E na Itália, o governo onde participa maioritariamente o PD ganhou as eleições sem apelo nem agravo com uma percentagem de mais de 40%.  Homero, por vezes, dormita...

E, lembraria, a esse meu generoso Amigo, que pouca festa há quando, aqui mesmo ao lado, o PSOE perde dez deputados e um pouco mais além, o PSF se esboroa tragicamente.  

Em segundo lugar, conviria ter claro que, ao que tudo indica, não serão os socialistas a obter a maioria no Parlamento europeu. Morrem na praia e, se isso acontece, a culpa é muito dos franceses (terceira e péssima posição) e dos gregos (quarta posição depois da extrema direita).

Em terceiro lugar, só por muito boa vontade é que se poderá considerar o PCP um partido claramente europeísta.  Ou, pelo menos, se o europeísmo significa ser a favor do euro. A questão tem importância na medida em que, depois de nos metermos nessa camisa de onze varas (e não fiz parte dessa clientela...) a coisa mais difícil que afrontamos é o dilema de continuar (sempre ou quase) na mó de baixo ou de sair com custos que ninguém, prudentemente, se atreve a calcular.

Ficaremos pior, disso não tenho dúvidas mas continuar com uma moeda forte não augura grandes satisfações.

Em quarto lugar, as proclamadas mutualização e política de desemprego apoiada por fundos europeus estão mais adiadas. Vale a pena salientar que boa parte da retórica de Seguro se baseava nessas suas hipóteses miraculosas.

Em quinto lugar, a abstenção continua a aumentar. E disso haveria que tirar consequências e perceber que tradicionalmente o centro direita é a sua maior vítima. Quanto mais moles os partidos, menos voto militante existe. E a surpresa –se surpresa houver- será menor se, como se espera, houver uma subida na votação dos partidos mais radicais e de esquerda, dado que não se conhece extrema direita organizada e candidata.

Diria, mesmo, que o PCP cuja posição melhora é um dos favorecidos visto não ter de se defrontar com fuga de votantes. Será interessante confrontar o total de votantes desta eleição com idênticos totais das últimas eleições. Não tenho quaisquer dúvidas que o PC perdeu votos em relação aos seus anteriores resultados nas legislativas.

Mas há mais e pior, neste retrato do PCP: passou estas semanas a martelar numa espécie de repetição dos piores anos do estalinismo: ao insistir na condenação do PS, relembra a famosa e trágica “Klasse gegen Klasse” com que o partido comunista alemão se alimentava. O resultado foi o que se viu (Hitler no poder e, pior ainda o infame “pacto Ribentropp Molotov” que permitiu o avanço nazi na Polónia e depois em França e mais tarde o desastre da invasão de uma URSS confiante e colaboracionista. 

Em pior lugar está o BE que como se previa (só eles é que não) desce violentamente e começa a desintegrar-se como se viu com os militantes que vão saindo, com a incapacidade notória de se articular com outros esquerdistas ou de polarizar o descontentamento.

Em boa verdade, onde pára essa imensa multidão que nestes três anos se manifestou país fora?

Nos pequenos partidos ditos da esquerda radical? Também, mas sobretudo nos novos agrupamentos ad-hoc que capitalizam mais de 200.000 votos.

Ou seja: um pouco mais do que as perdas do BE de que muito provavelmente aproveitou o PCP.

No que toca a este último a famosa grande vitória fica-se modestamente em 37 mil votos. É uma vitória? É, mas claramente à custa do BE ou seja, na zona onde ambos recrutam. Em boa verdade, se eu tivesse de escolher entre os dois não perderia o meu tempo com o bloco. Nasceu torto, continuou ambíguo e agora o que era um albergue espanhol começa a parecer-se perigosamente com um saco de gatos. Ironicamente, em Lisboa o pequeno e improvisado LIVRE teve mais votos que o BE. Isto diz muito, senão quase tudo, da “catástrofe iminente” para a qual, ao ouvir a arrebatada drª Catarina Martins, não vejo “meios de a conjurar. (Recomendaria à senhora algum prudente silêncio e outro tanto de leitura de Lenin).

Restam os dois grandes blocos ditos do arco de governo. A queda dos partidos governamentais é severa: evaporou-se meio milhão de votos. Para onde, só Deus sabe. Muito provavelmente será o Marinho e Pinto o feliz (e espero que esporádico) herdeiro dessas muitas dezenas de milhares de eleitores desaparecidos.

O PS terá abichado um quinto desses eleitores flutuantes (86 mil votos).

Convenhamos que se era isto o que Seguro pretendia, a coisa não vai longe. A vitória existe mas em tom menor. Ou, até, em pequeno drama depois da proclamação entusiástica de Assis  e da barulheira eleitoral. Digo isto mas poderia dizer também e, se calhar com mais acerto, que o discurso de Assis apenas pretendia evitar que o lume brando em que está a panela socialista não passasse para fervura alta. Começo a suspeitar que Seguro tem muito trabalho pela frente, mais do que até aqui: Soares, como se sabe, despreza-o, os socráticos querem, sempre quiseram, fazer-lhe a cama, Costa espreita lá do alto da CML e a turbamulta acha-o fraco, pífio e, a la longue, perdedor. Eu também. O homem tem (escasso) estofo de líder entre duas guerras mas não o vejo a conquistar nada e muito menos como timoneiro desta nau que mete água por vários lados.

E a Europa, nisto tudo? Pois a Europa está mal e não se recomenda. Não que me preocupe dramaticamente a extrema direita que finalmente se vê às claras e que vai ter de se expor. Sempre defendi que o cordão sanitário à volta desta seita poderia ter efeitos perversos e que há que dar-lhe  corda sobretudo se for para se enforcar. Não quero com isto adoptar a postura do “quanto pior melhor”, bem pelo contrário. Deixo esse piedoso voto a uma certa extrema esquerda que também tem vivido à margem e que, perante a realidade quotidiana do parlamento europeu vai ter pensar duas vezes, se é que tal esforço é possível.

A famosa fuga europeísta para a frente teria de ter consequências. Promessas não cumpridas, incapacidade para acordos viáveis, uma moeda demasiado forte e perigosa, políticas económicas desajustadas, indiferença perante a desindustrialização, aumento do desemprego, não poderiam suscitar nos cidadãos anónimos mais do que irritação ou indiferença. E é esta, sobretudo, que espreita. Já que não nos sentimos plenamente representados, assobiamos para o lado. Os europeus ainda não são cidadãos de pleno direito nesta amálgama de “soberanias limitadas”. E uso este termo, vindo de uma longínqua e desastrada teoria de Brejnev porque o status-quo actual imita o do “bloco socialista” nos vinte anos finais do sistema “socialista” comandado pela URSS que, aliás, pereceu às mãos da economia e da dívida  externa. E da desmobilização medonha dos militantes mais idealistas. Claro que, nessa longa agonia, também havia o fim da ideologia, a brutal constatação dos desvios da teoria marxista-leninista, o sufoco do policiamento sem limites, as limitações austeras ao consumo, fosse ele qual fosse, a incapacidade ilimitada de ouvir a sociedade a falsidade de boa parte dos seus postulados com a consequente gulaguização de crescentes minorias.

É nesse exemplo que conviria atentar, para evitar consequências semelhantes à derrocada  que se observou.

Falaram disto os “nossos” candidatos? Não consta. Falarão, agora que se apanharam no confortável hemiciclo europeu? Convinha.

Regressando à pátria  ama(rgura)da: Já afirmei que as eleições europeias não podem nem devem ser mais valorizadas do que são. Como teste ao Governo e pré-legislativas não servem senão de pequeno indicador. E ainda bem, porquanto o que daqui saiu foi uma salada russa. Se o país parece pouco governável tal como está, a fotografia que ontem foi tirada é ainda pior.

No mesmo momento , ou quase, uma mega sondagem trazia uma fotografia ainda mais cruel das actuais expectativas dos cidadãos. De facto entre o PS e o PSD haveria uma margem de 0,4% de intenções de voto, o PC não chegaria aos 12% e o resto era mera paisagem. Ingovernabilidade total. As sondagens são o que são (uma das vítimas favoritas costuma ser o CDS, saiba-se lá porquê, que tem sempre resultados muito superiores aos encontrados), mas convém, estar atento. Sem elas as previsões seriam ainda mais arriscadas.

Enfim, estas eleições, pelo menos na sua versão doméstica e lusitana, reduziram-se a Much ado about nothing, para parafrasear Shakespeare.

E é pena!

NB: acima afirmei que todos os partidos (BE exceptuado) tiveram menos eleitores do que nas legislativas e nas locais. Convém lembrar que as percentagens de abstenção são profundamente diferentes. E de todo o modo os resultados reais são aferidos de outra forma 

 

d'Oliveira fecit 26.05.2014

20
Mai14

diário Político 196

mcr

 

 

 

O estranho caso do comboio fantasma

 

Há um par largo de anos as misteriosas criaturas que se escondem debaixo da sigla “Eixo do Atlântico” que, em Portugal comportavam um par de presidentes de Câmara, a comissão de coordenação da região norte e mais uma dúzia de luminárias do mesmo gabarito exigiram (e tiveram o apoio) do Governo Sócrates que a ligação ferroviária Porto Vigo se transformasse num TGV moderníssimo. O argumento (infindavelmente repetido) era de esta região era um alfobre de riqueza, de talentos e de viajantes pelo que fazer os 150 quilómetros Porto Vigo devia ser obra de pouco mais de meia hora. E, obviamente, garantiam a rentabilidade de tl despilfarro de  dinheiro.

Convém (re)lembrar para os que sempre se esquecem que a linha que serve este comboio é antiga as mais das vezes nem é dupla e que essa viagem demorava um ror de horas. Em Espanha, a coisa era de tal modo grotesca que nem havia revisor. Não valia a pena: o comboio, nos dias bons, conseguia transportar 11 (onze) passageiros o que nem dá para uma equipa de futebol que sempre terá um ou dois suplentes.

Por cá, os tempos eram de dinheiro fácil pedido ali na esquina e um tgv vinha mesmo a calhar.

Relembremos ainda que entre o Porto e Vigo há uma belíssima autoestrada cujo movimento a partir de Famalicão é fraco e a partir de Braga é nulo. Do outro lado a coisa repete-se pois os espanhóis fogem para a autovia Tui Vigo muito mais barata (e perigosa, mas isso é com eles que têm a mania de ser toureiros).

Todavia, o peso dos senhores autarcas e comissários, cá e lá, foi suficiente para que os ministros espanhol e português lá decidissem manter o dito comboio. Em duas horas e um quarto a composição vencia os cento e cinquenta quilómetros e levava no seu bojo 26 (vinte e seis) passageiros. Ou seja uma taxa de ocupação de 12%!   Com um pequeno prejuízo de milhão e meio de euros confessados e dois milhões e tal bem medidos depois de se fazerem (boas) contas.

Agora, uma sumidade galega, o senhor Xoán Mao (de parceria com outra rotunda inteligência desta feita lusitana, o senhor José Maria Costa, presidente da Câmara de Viana e ex- presidente do famigerado Eixo) quer mais. Novas automotoras, melhores e mais confortáveis, mais viagens diárias, mais paragens (pelo menos Viana e Braga) com o argumento de que assim haveria mais passageiros.

Diz mais, o senhor Mao: que o comboio serve uma região de oito milhões de habitantes (!) e que num futuro próximo a viagem poderia ser feita em hora e meia num Alfa Pendular ou no seu congénere espanhol.

E, ainda melhor: que também no mesmíssimo futuro radioso poderia fazer-se um percurso Corunha Faro!

É evidente que o delírio nunca morre e que s braatas espanholas têm sobre as nossas o sobre-dimensionamento quixotesco de quem vê pontes a construir sobre o Atlântico unindo Vigo e Nova Iorque.

Cá, a miopias vianense (e bracarense?)  ainda se não deu conta do deserto que é a A-5 (Porto)-Braga-Valença, uma inutilidade ruinosa que concorre com outras iguais (a A-17, por exemplo). E insistem na imensa possibilidade de angariarem mais passageiros (4, 10, 20?) nas paragens intermédias, esquecendo que isso alongará ainda mais os tempos de viagem. Porém, a macro-visão do colega galego ultrapassa tudo inclusive quando fala dos oito milhões de criaturas bafejados pelo comboio. Oito milhões é toda a gente contida no Norte português e na Galiza. Na margem do comboio ha milhão e meio e já é falar com muito optimismo.

Por favor mandem uma troika especial para a fronteira de Valença e a tempo inteiro. A menos que, voltando ao significado antigo e verdadeiro do termo, se ponham os mais exaltados elementos deste contubérnio luso galego atrelados ao veículo que em tempos terá servido o senhor Miguel Strogoff na sua perigosa missão de correio do czar.

 

d'Oliveira fecit 20.5.14