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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

13
Abr17

Diario político 213

d’Oliveira

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Na esplanada entre sol e sombra

 

Hoje, os frequentadores da esplanada estavam assanhados. Falavam pelos cotovelos, sempre civilizadamente mas divergindo resolutamente.

A primeira conversa centrou-se no artigo de opinião de João Miguel Tavares (Público, ultima página) onde este questiona os patrocínios de uma biografia (2º volume) de Jorge Sampaio. Tavares reconhece que estão bem explícitas as menções aos patrocinadores (BPI, Fundação Oriente, Fundação Luso-Americana, grupo Visabeira, IPRI (Un Nova) Telecom e Mota-Engil!!!)

Tavares não questiona a procura e obtenção dos patrocínios, aliás bem explícitos na contracapa e na introdução da obra. Até elogia o esforço e a tenacidade de quem os procurou e conseguiu. Elogia também o facto de haver quanto a esta obra “mecenato cultural”. Todavia, depois dos elogios, surdem duas colunas que questionam quatro dos mecenas por estes não revelarem a um jornal o valor dos subsídios. E, cereja no bolo, Tavares também “acha estranho” que a FLAD. O IPRI e a FO se tenham “juntado” para criar uma bolsa destinada a apoiar a feitura de biografias de que, para já, apenas consta esta obra.

Tavares, comentarista que, aliás aprecio, acha esquisito que quer as fundações quer as empresas se fechem em copas sobre os montantes concedidos (Tavares chama a isto falta de transparência como se para alem dos relatórios e contas onde estes valores seguramente figurarão as empresas e as restantes instituições devessem andar a informar o excelentíssimo público sobre a largueza das suas benesses. Tavares,tão (e certamente bem) defensor do privado, do liberalismo, acha que toda a gente tem de saber e que todo o empresário deve prestar contas a estranhos. É que aqui não se trata de dinheiro dos cidadãos, mesmo se os patrocínios com mecenato possam, em diminuta proporção aliviar os impostos.

Tavares vem com o argumento de que Sampaio foi Presidente da República e que só isso, que ocorreu há uns bons dez anos é suficiente para indagar de como a sua biografia está a ser escrita. Arre! E que no meio das personalidades envolvidas pelo menos no que toca à bolsa há um antigo assessor de Sampaio (antigo de há mais de uma década...) Tavares, que escreve bem, muito bem, até, deixa no ar a ideia de que aqui há gato escondido. Que esta bolsa seria apenas um artifício para favorecer um idoso ex-presidente da República que agora exerce, alem fronteiras um trabalho internacional. E que isso, está nas entrelinhas, o compromete ou pode comprometer.

Eu, com a devida vénia, amigo de Sampaio desde os anos 60 (convém esclarecer para que não pairem dúvidas) tenho sobre esta obra de Castanheira um bem diferente parecer. É um tijolo! Um tijolaço. Uma tremenda chatice. Estas duas mil páginas, para o leitor comum poderiam ser trezentas ou quatrocentas desde que bem centradas no que realmente foi importante. E Sampaio foi importante, antes (sobretudo) e durante a Presidência. Com inteligência e rigor e um estilo menos pesado teríamos uma bela obra. Em Portugal, a biografia é terreno baldio e mal cuidado. Nesse capítulo que diferença com a Inglaterra, a França ou a Alemanha! Claro que não peço a Castanheira a verve, o espírito e a intelig~encia narrativa dum Stefan Zweig que tantas biografias deixou. A Zweig o que é de Zweig e a Castanheira o que entenderem.

Somos um país que desconfia de biografias ou de “memórias” (neste capitulo estou a lembrar-me já que se anda em comemorações de Raul Brandão das suas “Memórias” -que, por exemplo, com as José Relvas e o Diário” de João Chagas são fulcrais para se perceber os anos 10 a 30-). A última biografia que li com proveito foi a de Salazar por Filipe Ribeiro de Meneses que evita a maçadoria de ler os tijolos hagiográficos de Franco Nogueira. Ora aí está como com um terço do volume se faz bem melhor obra do que com as cerca de 2500 páginas de FN por muito meticulosas e esclarecedoras que estas sejam.

*** No mesmo local e pouco depois

Desta feita a conversa girou à volta das eleições para A Câmara do Porto. Ninguém conseguia perceber a razão que leva o PS a não se candidatar. Ou melhor, todos estavam de acordo que o primeiro motivo era evitar uma derrota igual ou maior do que a anterior.

Desde o malogrado regresso do dr Fernando Gomes que foi justiceira e friamente chacinado por Rui Rio, que o PS não sabe o que fazer no Porto. Não deixa de ser verdade que na cidade a Federação Socialista é uma espécie de clube de lutas de galos com a agravante de tal actividade ser ilegal, ilegítima e desacreditada. Com a gens socialista passa-se o mesmo. A rua não os conhece, as elites não os respeitam, os poucos socialistas que aparecem escafedem-se pelas esquinas. Não há uma ideia do PS para a cidade a menos que a governação de Rui Moreira a personifique. Os últimos candidatos socialistas à CML ou não ocuparam os seus lugares na vereação ou fizeram-no com tal discrição que deles não há memória. Nem boa nem má. Não existiram, ponto, parágrafo. Todavia, isso, essa arrastada e triste existência não pode servir de pretexto para desistir de aparecer. Por muito desgastada (e com razão) que seja a imagem do PS ela ainda consegue superar as dos dois outros parceiros da geringonça que também não atinam com a cidade. É verdade que, nas páginas mais folclóricas de um jornal citadino ainda se cobrem as declarações estertorosas dos vereadores da oposição mas, na generalidade a ideia que perpassa da irrisória actividade deles é que anda tudo na clandestinidade. Parafraseando: “assim se vê a força de não sei quê”.

Estas criaturas não riscam, não arriscam e muito menos beliscam os tradicionais poderes municipais. Ou então emigraram todos para outras paragens mais propícias e deixaram isto entregue a quem quiser fechar a luz e a porta.

Nem assim o PS se acha obrigado a ir à luta. Ou seja, assim nem valia a pena gastar dinheiro com o processo eleitoral. Ou então, pensam que sem oposição Rui Moreira não mobilizará a mesma multidão que o elegeu há quatro anos!...

E a conversa morreu mansamente, à dúbia luz coada pelas nuvens que anunciam uma eventual Páscoa molhada.

 

12
Jan17

Diário Político 212

d’Oliveira

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É assim que eles fazem a História

(o dr Luís Marques Mendes ocupa na televisão um lugar semelhante ao que ocupou o dr Rebelo de Sousa. Há quem ache LMM um Marcelo b. Não é, de todo. Mendes será um pálido Marcelo h ou i se tanto. E bastou a sua intervenção sobre Soares para se perceber isso mesmo. Primeiro um engano menor ao falar das 11 ou 12 prisões de Soares, Mendes falou em 12 anos de prisão. Depois o exagero: Soares teria sido o político mais importante do século passado.)

Não foi nem teve hipóteses de o ser: Soares nunca teve o poder de Salazar e governou muito menos tempo. Ainda por cima em democracia sob o escrutínio de forças políticas hostis ou adversárias (é esse o peso da liberdade) e de outros poderes (PR, Parlamento) que obviamente limitaram muito alguns dos seus projectos. Soares foi, indiscutivelmente um grande político, um grande homem e um intelectual de craveira. Foi, admito sem reserva, o principal pai da Democracia em Portugal mas, como diz Brecht teve pelo menos um cozinheiro, um babeiro, um secretário alguns amigos e camaradas, enfim uma enorme equipa que o ajudou e que também merece ser destacada. Para mim foi, sobretudo pelos seus defeitos, um príncipe e alguém que recordarei sempre com comoção, respeito e amizade. Soares, além de fixe, era humano, não se armava em importante, possuía uma notável coragem física, uma alegria de viver impressionante. E um instinto político digno de menção, sobretudo neste país bisonho onde só se vai à luta quando se acredita ganhar. Soares tinha sido abençoado pelo amor à liberdade, pelo desejo de liberdade, viveu sempre livre e esperançado num futuro breve e melhor.

Todavia, o nosso século XX tem mais alguns nomes impreteríveis. Dividamos o século em duas partes: uma primeira que vai do ano 1901 até 25/26. Quatro homens podem e devem ser recordados mais pelos fracassos do que pelos êxitos: D Carlos e João Franco durante a agonizante monarquia e Afonso Costa e Sidónio Pais. Todos falharam, dois form assassinados, um morreu na sombra e outro no exílio. Depois de Sidónio o sistema entrou em deliquescência pura, no desastre e no caos (lembremos os assassínios de Carlos da Maia e Machado dos Santos os grandes heróis do 5 e Outubro e o de António Granjo que chegou a Presidente do Ministério: uma infâmia absoluta que só a cobardia de muitos e a cumplicidade de outros tantos impediu de esclarecer globalmente) e permitiu o aparecimento e ascensão de Salazar. Salazar governou sem real oposição que se visse até meados dos anos 60 e a sua última batalha (a defesa do Império) teve o apoio de muitos oposicionistas e foi tratada com luvas de veludo pelos poucos que advogavam a independência das colónias. (Vi com estes meus olhos e ouvi com estes meus ouvidos, em 1969 um ilustre político agora muito homenageado dirigir-se aos escassos eleitores num comício da CDE coimbrã, fora de portas, apresentar-se como “ex-combatente do Ultramar”!!!)

Com o 25 de Abril, Soares emergiu como um paladino da Liberdade, causa que era a sua desde os tempos do MUD (finais dos anos 40) onde militou ainda sob a bandeira do PCP. Com ele, vindo de um outro nevoeiro bem mais espesso e consistente, regressou Cunhal. Como Soares, aliás antes dele, porque mais velho, Cunhal era uma figura mítica da Oposição portuguesa. E isso desde finais dos anos 30 quando o jovem Cunhal começa a desempenhar cargos de enorme importância no partido comunista e, mais tarde depois da sua última, longa, dolorosa e heroica prisão, no movimento comunista internacional. Cunhal chega aureolado pela história da resistência comunista e comparado com os seus pares do sul da Europa, não tem rival, Berlinguer ressalvado. Não cede ao euro-comunismo, é o o fiel dos fieis da URSS deliquescente e mantem o partido dentro da mais estrita observância do modelo soviético (e isso vê-se ainda hoje: já ninguém fala ou sequer reconhece os partidos irmãos europeus desaparecidos, sepultados pela História enquanto em Portugal, tal qual a aldeia de Asterix, o PCP se mantém quase com o mesmo número de militantes, simpatizantes, câmaras e deputados de sempre. Cunhal não modificou Portugal como Soares mas deixou uma marca indelével na Constituição e no Regime, mesmo agora. O PCP controla a CGTP, mantém Câmaras mormente no Alentejo e na cintura de Lisboa e mobiliza a rua.

Estes três homens (Salazar, Soares e Cunhal) foram absolutamente determinantes nos segundo, terceiro e quarto quartéis do século vinte. Por mais que se queira, Sá Carneiro não passou de um meteoro, vá lá de um cometa, na vida pública portuguesa. O desastre que o vitimou levou também a melhor esperança do CDS (Amaro da Costa) e o único herdeiro claramente social-democrata dele (Mota Pinto) morreu repentinamente sem herdeiros políticos dignos de menção.

E também aqui, os comentadores e os “parvenus” do comentário político não souberam nem quiseram fazer pedagogia, história ou pelo menos crónica do século. Afundaram-se em narizes de cera, em vulgaridades e na incapacidade de transmitir, ao menos uma vez, um pequeno retrato de Portugal menos baço, menos peremptório, mais abrangente e, provavelmente, mais real. Mas isso são contas de outro rosário ou de outra cidadania.

Como Mendes, outros ajudaram à missa mesmo se o beatificado fosse, laico e republicano (e socialista). Felizmente, o homem, o político e o intelectual é irredutível a simplismos e deve ter-se divertido à grande e à francesa (logo ele que usava um francês desenvolto, demasiado desenvolto e aportuguesado sem vergonha de nenhuma espécie) com todo o teatro que se seguiu à sua morte.

(e quase ninguém referiu essa grande dama do socialismo, da cidadania e da coragem que se chamou Maria de Jesus Barroso. Ao lado – mas não atrás – de um grande homem há sempre uma grande mulher!

D’Oliveira fecit, 9-11 de Janeiro 2017

 

 

06
Ago16

Diário político 211

d’Oliveira

Trapalhões, imprudentes e a tomarem-nos por parvos

 

A triste historieta dos Secretários de Estado que foram ver a bola à custa da Galp obriga-nos antes de tudo a questionar o bom senso das criaturas e, mais do que isso, a inteligência das mesmas. A justificação apresentada por Rocha de Andrade peca pela arrogância (foi tudo dentro da normalidade e da adequação social) e pela impudência (vou já pagar tudo) dando a perceber que não entendeu ainda que as sus duas declarações são contraditórias. Pior: esqueceu-se de comentar, como devia e podia, que fora demasiado ingénuo (na melhor das hipóteses) ou insensatamente cúpido ao aceitar uma prenda tão choruda de uma empresa com quem o Estado, através do Ministério onde está integrado tem um longo e caríssimo conflito.

Pior do que ele, só mesmo o senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros ao vir admitir que o Governo vai criar um “Código de Conduta” para desincentivar a prática de gestos do mesmo género. O senhor Ministro parece desconhecer a lei que já tutela amplamente situações deste teor. A menos que seja amante de pleonasmos políticos e éticos (sobretudo estes)...

Os restantes comparsas, mais dois Secretários de Estado, tiveram o cuidado de não serem tão falazões como Andrade mesmo se, igualmente, tenham caído na esparrela de garantir que vão pagar as despesas com desveladamente a Galp os mimou.

Imaginemos, por um breve momento, que X, funcionário público se lembrava de ir ver os jogos. Teria no mínimo que “meter” um ou dois dias de férias para ir e vir. Os senhores Secretários, ao que se sabe, foram estiveram e vieram sem que alguém lhes apontasse a faltinha ao trabalho ou que eles imputassem às merecidas férias o(s) dia(s) franceses.

Há neste jardim à beira mar plantado, uma falta de pudor que só não espanta o aborígene lusitano por há muito estar este habituado ao forrobodó dos importantes. Em se apanhando num posto público de responsabilidade, esquecem-se que o público os pode escrutinar.

Rocha Andrade teve há dias uma confusa missão: fazer passar as novas regras das “vistas” para carregar o IMI como coisa boa e sensata. Esqueceu-se o cavalheiro que qualquer regra sobretudo em matéria de impostos tem de escapar inteiramente à arbitrariedade de quem a impõe, ou seja tem de obedecer a critérios claros e indiscutíveis.

Vejamos este (meu) caso. Vivo numa excelente zona (Porto, “Foco”) que na altura em que se construiu tinha por vizinhança um conjunto grande de fábricas em plena laboração e uma auto-estrada com um movimento já evidente (agora é pletórico). As fábricas desapareceram e deram lugar a prédios para classe média a tender para alta. Nos terrenos disponíveis que havia construíram-se duas escolas. Mesmo assim, do meu andar avista-se o mar, há um jardim bastante razoável no meio dos prédios e espera-se que nos terrenos aedificandi remanescentes nasçam zonas de lazer e serviços que aumentarão positivamente a qualidade do edificado. Quem adquirir doravante algum dos excelentes andares que continuamente aparecem para venda (a 1ª geração de moradores foi envelhecendo, morrendo ou depois dos filhos criados, achou os apartamentos demasiado grandes para um casal solitário) irá pagar que IMI? Porquê?

A displicência (e de novo a arrogância) com que Andrade respondeu a estas questões dizem muito, quase tudo, do modo como encara as suas funções. Ele tem razão porque sim. Porque pode, quer e manda. O resto é a paisanagem a quem, de quatro em quatro anos, se permite votar (mesmo se o seu voto nem sempre se traduza numa clara preferência pelo Partido que alcandorou este Secretário de Estado ao mister que exerce.

O Governo pela voz de Santos Silva acha que pode pôr uma pedra no assunto. (“Dissipar” foi o verbo que Sª Exª usou para falar do problema. Conviria ao senhor Ministro ir ver todos os significados da palavra para perceber que nem sempre dissipar ou dissipado são termos que indiquem limpeza... )

Para o Ministro este “deslize” está resolvido com um tardio cheque que, se paga alguma despesa feita pela Galp, não paga o desgaste nem a desconfiança dos portugueses em quem os governa.

Mesmo que a PGR não conclua pela existência de “recebimento indevido de vantagem” fica sempre a leviandade e a inexistência de um pedido de desculpas público. É quanto basta para (como antigamente) se aconselhar estes senhores governantes (nem que seja para “português ver”) a porem os seus lugares à disposição. Ou voltarem à actividade privada, quem sabe ao serviço da Galp ou outra amável empresa do mesmo género.

Mesmo que o façam com a notória irrevogabilidade que Portas usou.

21
Jun16

Diário político 208

d’Oliveira

Canavilhas 2

A senhora Canavilhas insiste. Na televisão e no jornal Público (que ela diz ser o seu jornal de referência) veio agora dizer que o Público (não a policia!) mentiu ao falar em 15000 manifestantes e não no número apresentado pela FENPROF, por acaso parte interessada na matéria. E acha que o uso (ou abuso?) do twiter se reveste de um carácter ligeiro pelo que, presume-se, toda a burrice é desculpada.

Na televisão veio com ar cândido e ofendido afirmar que tem direito à sua opinião como se a sugestão de despedir uma jornalista fosse uma opinião tão inocente quanto aquela que temos de um romance.

Quando, sendo apesar de tudo uma figura pública, se pergunta porque é que uma profissional que cita fontes respeitáveis não é despedida está-se a macaquear o antigo Estado Novo que despedia profissionais em todo o lado (directa ou indirectamente) por delito de opinião, que prendia pelo mesmo motivo (e estou á vontade para o testemunhar) ou outros regimes que parecendo ter cor diferente partilhavam o mesmo horror visceral à liberdade de imprensa.

A senhor Canavilhas é livre de soltar quanta tolice quiser e for capaz e, agora vê-se, no seu argumentário que pode ir longe nesse domínio, mas o facto de ser contraditada nos seus propósitos inquisitoriais e espurgadores não é uma ameaça a nenhuma liberdade dela. Bem pelo contrario: ao censurar-se-lhe de viva voz a sua posição partidária e sectária está-se a defender a liberdade de quem ela ataca e a dela própria se é que a senhora Canavilhas percebe o que aqui vai escrito. Ela pode odiar a jornalista em causa, amar desmesuradamente o senhor Vitor Nogueira e a frente que ele representa, julgar que a escola pública é um paraíso e a privada um infame complot de capitalistas, imperialistas, monopólios e forças obscuras da reacção, a mão invisível do clericalismo mais obscurantista. Está no seu pueril direito. O que não pode é seja ela quem for (ou quem se julga!...) propor medidas coercivas contra quem nada mais faz do que ser uma jornalista.

Ao publicar-lhe a triste prosa, o Público, dá-lhe mais uma lição de civismo, liberdade e tolerância. Será que a criatura aprende?

d'Oliveira fecit 21-06-16

 

 

16
Jun16

diário político 208

mcr

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Ai Pátria, que escorregadela!

 

Então não se empatou com a Islândia! Com a Islândia, santo Deus, com uma caloira nestas coisas da bola.

O sr Ronaldo, a quem, por vezes, convinha estar mudo e quedo como um penedo, com o mau perder que se lhe reconhece, veio dizer que os islandeses eram uns analfabetos em futebol, que era só atirar para a frente, pôr um autocarro na baliza, enfim um chorrilho de tontices que as televisões avidamente glosaram.

A verdade, a pobre e honrada verdade, manda que se diga que os cavalheiros do Norte não se acobardaram e não se deram por vencidos. Um empate servia-lhes mesmo se com um pouco mais de audácia pudessem até ter criado uma surpresa (como quando defrontaram a Holanda, lembram-se?).

Ronaldo, o falador, não fez história neste jogo. Generosamente, deixou os louros para Nani. Não sei porquê este eclipse de Ronaldo lembra a triste história do último Mundial onde também a grande equipa portuguesa (mailos heróis do mar e os egrégios avós) saiu pela porta pequena.

Convenhamos: a equipa portuguesa, malgrado os esforços de Fernando Santos, deixou-se inebriar pela imprensa, pela televisão, pelos comentadores, pela euforia geral, pelo Sr. Presidente. Achou que bastava pôr o mimoso pé no relvado para que os adversários tremessem. Vê-se que nunca leu uma saga nem sabe que aqueles calmeirões rosadinhos e educados são descendentes de vikings, vivem numa terra de gelo e vulcões, navegaram ainda antes dos portugueses até à América e não toleram toleirões.

Vejamos, agora, o que se irá dizer dos austríacos...

d'Oliveira fexit, 16-6.16

08
Abr16

diário político 207

d’Oliveira

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Ódio velho não cansa*

Ou

17 anos é muito tempo

 

(declaração de interesses: sou amigo de Augusto Seabra desde 75/76. Cruzei-me com ele numa aventura política, o MES, e posteriormente fomo-nos encontrando e desencontrando em sessões de cinema, concertos, livrarias, idas ao teatro para não falar em bares onde se reinventava o mundo. Tenho-o por uma das pessoas mais cultas e mais honestas que conheço. Nunca vendeu a pena por favores, conhecimentos ou compadrio. Nunca se vendeu, coisa bem rara hoje em dia. Ler Seabra hoje é, rigorosamente, lê-lo há vinte, trinta ou mais anos, pese embora um que outro ajuste que o tempo e os autores também mudam, muitas vezes para melhor. Quisesse Seabra vergar a espinha ou refrear a língua e hoje era rico e famoso. )

 

O sr. João Soares é, para surpresa de muitos, espanto de todos e vergonha nacional, ministro da Cultura. Conseguiu-se, assim, provar que depois de Carrilho, outro valentaço, e da inominável senhora Canavilhas, havia ainda lugar a pior, muito pior. Estas duas criaturas, três se contarmos o sr. Soares, fazem ter saudades de Santana Lopes, o que não é dizer pouco.

A que vem, contudo, esta chamada do insignificante Soares às páginas deste blog? Pois muito simplesmente a uma sua antiga (e reactualizada) promessa de ferrar dois bofetões na cara escanzelada e antiga de Augusto M Seabra.

Ao que parece a promessa das “lambadas” vem de 1999, isto é do século passado!!!

Há 17 anos que este para de “lamparinas” está prometido ao crítico. 17 anos é muito tempo, tempo a mais. Se as prometidas e incumpridas estaladas tivessem o mesmo juro dos dinheiros públicos a coisa, por esta altura traduzir-se-ia num “arraial de porrada”, numa sarabanda tremenda e medonha que transformaria a face esmaecida de Seabra numa waste land, caso nos seja permitido citar T.S . Elliott, poeta que, eventualmente, o sr Soares conhecerá pois há várias e antigas traduções portuguesas.

É que, vejamos, uma promessa de dois tabefes feita em 1999, e depois acintosamente postergada por quase dúzia e meia de anos, é um cúmulo, uma falta de educação, uma ofensa. Então alguém torna-se credor de uma agressão anunciada aos quatro ventos e passa seta carrada de anos sem que as ventas se avermelhem pela marca de quatro dedos?

Como é que é possível que o heroico sr. Soares nunca tenha conseguido lobrigar o temível Seabra que, como o doce da Teixeira, está sempre visível em tudo o que mexe culturalmente?

Será que promitente agressor se desencontrou inexplicavelmente com o putativo agredido em todas estas centenas de oportunidades? Meditemos: enquanto se Seabra acode a S Carlos para a ópera, está Soares numa corrida de toiros em Salvaterra. Se acaso é uma vernissage na S Mamede, está Soares numa sessão de bingo em Caneças. Se é na Gulbenkian que acontece um concerto, anda Soares pelo Intendente a comprar caril em pó. Sempre, acrescente-se, na pista do crítico que pelos vistos o insulta copiosamente desde esses longínquos anos noventa. Já é azar! Que digo, azar?. É um “galo” tremendo, máxime um “crespo” infernal, uma maldição, um desconsolo, uma úlcera no duodeno, uma fístula no dito cujo, um ataque de hemorroidal medonho que nenhum medicamento susta, assusta ou socorre.

Anda, pois, uma criatura por aí, munida de um par de mãos desocupadas, com luvas cirúrgicas para calçar no momento em que, finalmente, aleluia!, glória!, viva, viva, viva!, der pelo evanescente crítico e lhe arrear o prometido (e devido) exemplar castigo, com os juros de tantos e tão sofridos anos, e nada!

Ao longo de muitas décadas, dei comigo a não falar com duas (2) criaturas. Nunca me lembrei de lhes prometer, pública ou privadamente, um “enxerto de porrada”, sequer um canelão ou um mero olhar enviesado. Deixei, pura e simplesmente de as conhecer e nem sequer os avisei disso. Não valia a pena comunicar a tais insignificâncias que passavam à orwelliana categoria de “unpersons”, de invisíveis, ou de translúcidos, na melhor das hipóteses. Pois querem acreditar que volta que não volta, me topo com as desgraçadas criaturas, mesmo se de há muito deixei de frequentar os lugares que elas assombram? Até na esplanada da Brasileira encontrei uma delas. Outra que jamais manifestara disposição para acordar cedo, passou a frequentar uma esplanada frente ao mar onde durante uma boa dúzia de anos nunca a vira, tanto mais que distava um bom par de quilómetro do antro onde vivia. Arre!

Pessoa amiga que acabou de ler parte deste texto tentou uma explicação: Soares nunca teve por objectivo passar da palavra ao acto (Ele próprio terá escrito que é um homem pacífico e nunca se envolveu em zaragatas pelo que pediria desculpa se tivesse assustado alguém). Pior a amêndoa do que o sorvete! Então anda por aí a distribuir putativas bofetadas e, quando alguém lhe reprova a fúria sanguinária, logo lhe passa a ira, o desejo de desforço, a ameaça trauliteira e eis que de águia passa a galinha pedrês, num cocorico blandicioso e deferente?

O sr Soares não tem condições (nunca teve) para ser ministro seja do que for. É um erro de casting, uma tropelia de mau gosto e pior falta de senso, por muito que isto se pareça com uma república bananeira ou, como (se bem recordo) apontava Eça, através de um seu cónego, um jardim, um “torrãozinho de açúcar”.

Parece que Seabra lhe apontava umas cumplicidades maçónicas sugerindo que ele proteia gente da sua “loja”. Sem desprimor para os cada vez mais raros profissionais do ramo, entendo que Soares só combina com loja na qualidade de marçano aprendiz.

Antes isso que aprendiz de feiticeiro!

No meio desta tola bravata, Soares terá também anunciado umas salutares bofetadas em Vasco Pulido Valente. A distancia que vai dele a VPV mede-se em anos luz de inteligência, cultura, humor, talento para escrever e biografia. Não importa. VPV placidamente e em três palavras retorquiu “cá o espero”.

Nas redes sociais é o delírio: centenas de pessoas riem, gargalham, retorcem-se agarradas à barriga e caem desamparadas no metafórico chão dos twites e dos facebooks. Tmbém riria se isto se nõ passasse no meu país e no seio do Governo que o rege.

Mandem por favor a criatura para Pyongyang ou coisa parecida. 

* o título refere um velho provérbio e o nome de um romance de Rebelo da Silva

d'Oliveira fecit 

07
Nov15

Diário político 207

d’Oliveira

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A corrida dos lemings para o abismo

 

Há lá para as zonas frias um bicharoco simpático e pequeno que a tradição popular assegura que se suicida em massa em certas alturas. Claro que tal teoria é falsa mas, na verdade, o mito dos lemings em corrida para o abismo tem vida dura e serve bem de exemplo parao que se passa com a rapaziada do PS de Costa.

Por razões que agora me dispenso de pormenorizar, um tempo houve em que fui militante do PS. O partido tinha acabado de averbar uma valente derrota e um velho amigo meu convenceu-me a ir dar o corpo ao manifesto.

Relutantemente, lá me dispus a fazer toda a via sacrificial desde comparecer disciplinadamente às reuniões da secção (como sou pontual era o primeiro e vezes houve que aguardei na rua que alguém chegasse com uma chave para entrar e esperar. Só isso já me chegaria para deixar a militância mas eu era novo (enfim, semi-novo) e queria ajudar.

Para minha surpresa, as reuniões eram algo de surpreendente. Não se discutia política e no que toca à teoria aquilo andava abaixo de zero. Não havia naquela abençoada secção uma criatura que não jurasse por dos pequenos barões da cidade e isso, pelos vistos, substituía a ausência de qualquer ponto de vista teórico. Aquilo parecia a cabecinha do dr João Soares em dia de discussão política. Um horrendo vácuo!

Como tinha algum à vontade e sabia quem eram Antero de Quental, Marx e Proudhon rapidamente subi na consideração dos meu camaradas de tal modo que em poucas semanas era delegado a um congresso da federação e candidato a um lugar decente na respectiva comissão política.

Por razões novamente inúteis lá cumpri a minha tarefa no Congresso mas recusei a honra imerecida de ir para a dita comissão. Mais tarde ainda me quiseram para vereador ou, caso recusasse, para deputado municipal. Recusei outra vez não só porue não queria abandonar o trabalho que tinha e não me seduzia a parlamentarite camarária. ainda fiz parte de um grupo de pessoas que votaram Vitor Constâncio (mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa) mas quando o PS embarcou na moção daquele desastrado Partido Renovador Democrático contra o PPD de Cavaco Silva, deixei de pagar cotas esperando que os competentes órgãos do partido me expulsassem por dívidas. A coisa demorou anos (como se vê a organização era primorosa) mas finalmente pude participar no Conselho Coordenador dos “Estados Gerais” de Guterres como independente.

A tal situação devo um gentil convite para uma mordomia cultural bem paga que obviamente recusei. Mais tarde recusaria mais um par de cargos cuja designação atribuí, por boas ou más razões, à minha familiaridade com alguns membros do Governo. À cautela preferi continuar onde estava e não ser alvo de algum dedo apontado.

Durante todo este tempo, fui verificando que o PS era um aglomerado de pessoas cujas coordenadas político –ideológicas apenas se verificavam na elite do partido. E mesmo assim a coisa não era famosa. soares, Zenha Sampaio, mais uns quantos sabiam ao que andavam. O resto ou era vagamente anticomunista, eventualmente democrata e seguramente contra os ricos. Pouco mais. No campo do anticomunismo se razões havia e são tantas e tão dramáticas quanto a história da Esquerda depois do nascimento da Terceira Internacional (o famoso Komintern), não era por aí que ele se manifestava e orientava. O PS português era uma mistura do republicanismo histórico e “democrático” (de Afonso Costa) da efémera Esquerda republicana dos fins da 1ª República, de mações aventalistas e outra gente (a melhor) que vinha do “reviralho” anti salazarista. Fundamentalmente, dominava a classe média (baixa e média com muita predominância de bancários e outros grupos profissionais afins), professores e rapazes cheios de ardor por bons lugares. Não se via um empresário, sequer um industrial e quando se caía numa discussão sobre as finanças nacionais aquilo era um nevoeiro mais espesso do que o de Alcácer Kibir.

Depois de sair do PS pela porta de serviço, continuei a dar-lhe o meu pobre voto: não havia alternativa capaz à Direita (Credo! Jesus, Maria, José!) e muito menos à Esquerda onde, nesse tempo ainda pregava Pacheco Pereira e um patusco Clube da Esquerda Liberal, a UDP com um solitário deputado no Parlamento, uma sucursal da IVª Internacional traduzida do francês, mas em calão (a LCI), e o “partidão” sempre guiado por Cunhal (e antes por ele –que ao menos sabia ao que vinha, era culto e ideólogo – do que pelos seus minúsculos sucessores!...).

Que o PS e alguns dos seus iluminados líderes andava desnorteado foi visível a partir dos finais do século XX. como política preferiu propor aumento da dívida com recurso a empréstimos “baratos” não reparando em coisas tão simples quanto a estagnação industrial, a baixa continua do PIB em relação ao aumento dos encargos do Estado, enfim, parecendo desconhecer que os milagres keynesianos que pretendia repetir nem sequer nos EUA tinham dado os resultados pretendidos. Foi a guerra e a tremenda expansão industrial que as necessidades militares provocaram, que finalmente tirou o país da boa parte da crise. Keynes deve ser usado e/ou invocado cum grano salis mas isso foi areia demasiada para a prodigiosa cabecinha do senhor “engenheiro” Sócrates e de deu no que tinha quedar: um estoiro cujos ecos e réplicas ainda se ouvem e que provavelmente irão de novo soar imparavelmente sob a batuta de Costa se a mescambilha que prepara for para a frente.

Tudo indica que irá pese o pouco que se sabe do PC.

Para o efeito, entretanto algumas criaturas do PS tem desenvolvido nos jornais, mormente no “Público” alguns argumentos cuja debilidade teórica só é comparável à ignorância histórica que demonstram. A começar por uma respeitável senhora que se afirma mais perto do BE e do PC do que da coligação não se percebendo bem o que isso quer dizer (será a senhora leninista, assumirá como seu o argumento de que a Europa é risível, o euro uma imposição de algum deus nórdico (Thor, Odin?) o défice abaixo dos 3% um papão capitalista e as diferentes versões da famosa “Klasse gegen Klasse” e dos seus sinónimos (social traidor, social fascista) com que os comunistas sempre qualificaram os seus camaradas –isto no caso de ser militante do PS-, terá já, num arrebatamento iluminado, esquecido que durante toda a campanha eleitoral (e, desde sempre, antes) os qualificativos com que o PS foi brindado poe Jerónimo e acólitos? Recordará, porventura, a guerrilha anti-Guterres, a defenestração de Sócrates e a continua desqualificação política, ética e cultural que o PC em nome da “verdadeira Esquerda” sempre bolsou sobre os seus eventuais companheiros de partido?

Num tom menor (se bem que mais responsável por vir de um dos jovens turcos de Costa) surdiu outro esmagador argumento: o PPD (mailo CDS) ter-se-iam afastado do “centro”. Esta afirmação delirante merece um comentário. Para o jovem Pedro Santos (ou algo do género) o PPD e o CDS estiveram no centro mas depois abandonaram-no. Suponha-se que Santos, o “teórico” apenas queria referir o PPD mesmo se, ao que vamos vendo, o CDS se apresente com alguma razão como um partido democrata cristão, se é que ainda alguém se preocupa e sabe o que isso é.

Se o PPD esteve ao centro onde é que estava o PS cujo percurso, medidas e argumentário em quase nada se diferenciou daquele. À esquerda? De quê e de quem? Santos, pelos vistos acha que há em Portugal uma imensa multidão à direita. Vê-se que a criatura não sabe o que é um partido conservador a sério. Provavelmente não sabe francês, inglês, espanhol ou italiano (já não se lhe pede alemão) onde os Cameron, os Sarkozy – nem refiro a criatura Le Pen- os Berlusconi ou o enigmático galego aqui do lado (e o senhor Mas na Catalunha ou a gente que governa os bascos) pois se soubesse, se lesse, se ao menos ouvisse os noticiários estrangeiros alguma coisa aprenderia se é que na suave cabecinha que usa (presume-se) alguma ideia consegue entrar para além da imensa vontade de governar, de começar a ganhar a vidinha com um governo de feição.

No meio desta barafunda, onde os socialistas (ou alguns deles) estão contentíssimos por entrar na categoria (marxista-leninista stalinista) dos compagnons de route, vulgo “inocentes úteis”, verdadeiramente “idiotas úteis” (Stalin dixit), enfim nos lemings lendários e suicidários, só o PC (apesar de tudo um partido com história, memória e convicções fortes) mostra alguma coerência: pode ser que acabe (a minha presunção é qua acaba) por assinar um acordo mínimo com o PS. Todavia, repare-se que ao fim de um mês aquela máquina política irrepreensível ainda anda a tentar digerir o “sapo” (ou o elefante, é uma questão de perspectiva) que terá de engolir. Um inteiro mês!

(fica por analisar a posição do BE: não vale a pena gastar muita cera com tão ruim defunto: à uma cresceu à custa de uma milagrosa transferência de votos claramente de protesto que amanhã irão para ou sítio, sumir-se-ão sem apelo nem agravo. Já se viu o mesmo com o partido eanista de má memória, um cometa breve e irrelevante na política nacional. Depois, e é essa a razão da existência de uma franja esquerdista à esquerda do PC, aquilo é gente que quer um lugar à mesa do orçamento e anda nisso há que tempos. A mouvance trotskista sempre teve uma ideia fixa: o “entrismo” nas zonas sindicais e no aparelho autárquico. Até agora, por cá, nunca o conseguiram: a sua clientela fixa é feita de jovens urbanos desenraizados e indignados que mesmo sendo muitos não estão ligados às tradicionais máquinas militantes. Estar com um pé no poder é uma hipótese aliciante por todos os motivos: há empregos, há permeabilidade possível para entrar nos aparelhos que lhes estão fechados e há, esquecia-me a fé.

A mesma fé que fez o sr padre Silva abandonar as estruturas da Igreja para professar num convento bem mais radical e autoritário como é o comité central do PCP galvaniza comoventemente as criaturas bloquistas

Que o PS de Costa não veja isto, não me admira: o homem só tem uma solução: depois de uma derrota retumbante nas eleições legislativas só a conquista do governo alicerçada numa coligação contra natura o salva do linchamento pelos seus pares. Ou melhor: não o salva, apenas adia. Daqui a meia dúzia de meses, máxime, um ano, cá estaremos para o verificar. Entretanto lá nos iremos “albanizando” (de Albânia a risonha pátria de Enver Hodja que Deus tem e que foi o farol daquele cinzento sr Fazenda que por aí anda sumido e esquecido graças a uma boa dúzia de mulheres bloquistas que ao lado dele parecem ainda mais inteligentes do que na realidade são.)

nota: não refiro Assis. Se por um lado nunca fui muito à sua missa, por outro, recordo com respeito a atroz via sacra que, como dirigente socialista, cumpriu na terra da srª Fátima Felgueiras. Foi corajoso e foi digno. ´É inteligente e, pelo menos, parece conhecer melhor a história do PS (e o seu eventual ideário) do que toda a gente acima referida.

nota 2: a ilustração de hoje é uma obra de Pancho Guedes, um arquitecto único e irrepetível que acaba de morrer. Tristan Tzara não se enganou quando o reclamou como “o grande arquitecto dada”. Foi isso e mais até: protegeu e lançou artistas que sem ele dificilmente teriam tido percurso quanto mais êxito (Malagantana, por exemplo) Moçambicano por adopção deixa uma extraordinária colecção de “arte negra”, das melhores de Portugal que, espera-se, cá ficará para glória e honra nossa. Pancho, o Panchicho dos tempos de familiares meus em S Tomé, mereceria como Marcel Griaule há anos ou Jean Malaurie (ainda vivo ) que o povo que ele amou o enterre e o recorde. A África merece Pancho e Pancho merece-a absolutamente.

 

 

06
Out15

Diário Político 205

d’Oliveira

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Calma, malta! Isto não o fim nem o princípio de coisa nenhuma

É só fumaça!

 

Vamos por partes.

Quarenta e três vírgula sete por cento dos portugueses não se deram ao trabalho de ir votar.

Três vírgula sete por cento votou branco ou nulo.

Dos cinquenta e quatro por cento restantes há os resultados que se conhecem. Há, é um modo de dizer. Ninguém garante que os cadernos eleitorais não continuem pejados de fantasmas, de mortos e enterrados que por inércia não foram varridos dos mapas.

 

Seria bom que os cavalheiros que abrem a boquinha para em nome dos seus partidos (sempre vencedores, ou quase: só o PS confessou a derrota. O resto ganhou tudo. Vão todos à taça dos campeões, ou algo do mesmo género e substância!) proclamam êxitos piramidais fizessem o grande favor de não emitirem opiniões sobre o estado de alma do povo português e do seu ódio medonho aos senhores Coelho e Portas. Pede-se serenidade, e calma à rapaziada que se entusiasmou demais.

Apenas os votantes disseram o que queriam. Mesmo que se não presuma que os não votantes estão de acordo com o Governo convirá não ver na sua abstenção um sinal contra o PAF. De facto, mesmo se o voto não é obrigatório, irou não ir pôr o papelinho na urna é, também um acto político.

E agora os partidos:

Um pequeno e simpático grupo obviamente mais ecologista do que a senhora Apolónia, entrou no Parlamento. Saliente-se o feito tanto mais que essa entrada coincide com o afocinhamento dos deliquescentes ex-bloquistas, do eterno MRPP, e do senhor Marinho e Pinto. Só isto, a derrota desta criatura, já é uma prova do bom senso dos portugueses que anteriormente o tinham sufragado à boleia de um partido que ele, uma vez eleito abandonou miseravelmente.

O BE (esquecido dos tempos em que, de faca nos dente,s uivava pelo Syriza e prometia uns amanhãs cintilantes de sangue e sirtaki) conseguiu apanhar todos os indignados que por aí andavam órfãos e muitos eleitores do PS que acusavam o partido de coisas inomináveis.

Já agora, convém saber se todos estes eleitores subitamente bloquistas estão de acordo com as teses do partido sobretudo as que tratam da Europa, do euro, da mundialização etc...

Se, por acaso, mero acaso, não estão, então não me levem a mal: enganaram-se no voto, desperdiçaram-no e nem sequer conseguiram com isso a tão miraculosa unidade da esquerda. Tal situação continua a ser uma miragem no deserto e nem Santo Antão o Cenobita vale aos que pedem, como o derrotado Tavares (hoje, no “Público”) unidade, unidade e mais unidade. Como era um entusiasta da unidade Tavares formou um partido a juntar ao copioso número dos que já existiam...

Destes votos de descontentes com o Governo que desaguaram no BE, extrai-se outra conclusão. No seu afã de esmagar o governo “ultra-liberal” desarmaram o único partido que, apesar de tudo (e eu não votei no PS) poderia derrotar o PAF! É obra!

O PC, solitária voz que também clama no deserto onde desde sempre se acoitou, viu-se ultrapassado pelo BE. De todo o modo cantou vitória. Canta sempre. Desta feita celebra três mil e tal votos a mais. E veio solenemente recordar ao povo amigo que sessenta por cento dos eleitores rejeitaram o PAF.

Esqueceu-se, o PC, pouco dado a contas de subtrair e somar, que noventa por cento dos mesmos eleitores o rejeitaram a ele!

De todo o modo, o PC segurou os seus eleitores, manteve a sua área de influência e deu outra vez boleia a uma coisa inexistente chamada “os verdes” que serve sempre para dizer no Parlamento alguma coisa que o PC acha não dever dizer.

O PS, pela voz de Costa (e confesso que o admirei!...) veio dizer que perdeu! Caramba, homem, isso é a única coisa que se não diz! Ou se o dizemos, logo de seguida, arranjamos uma desculpa, repartimos as culpas. Tivesse Costa usado da mesma linguagem na campanha, outro galo lhe cantaria. Agora, ali está, desafiando os adversários internos, a sair da toca (alguém os viu na campanha? Não? Eu também não os lobriguei. Mas vão aparecer para uma noite vagamente de “facas longas”). Há, porém um problema: não se vislumbra, naquela contestária arruaça ninguém com peso, percurso e autoridade, para enfrentar Costa. Ou alguém acha que o senhor Álvaro Beleza, uma sublime insignificância, ou a senhora Ana Gomes, anteontem tão chorosa, são capazes de ir a jogo?

A ideia, bronca e trucidadora, de que mal há uma derrota se deveMas substituir o líder prova a nossa inenarrável incultura política.

E os vencedores? Para a oposição impotente, eles foram derrotados por não conseguir a maioria absoluta! Não tenho, por mera culpa minha, mau feitio e neurasténico pessimismo, qualquer simpatia por Portas ou por Passos. O defeito é meu, claro.

Todavia, lembraria algum leitor mais indignado, que ali por Abril, Maio, Junho, mesmo Julho, não havia ninguém que não augurasse uma tremenda derrota da coligação. Estão feitos, dizia-se. Confesso que, por desfastio, apostei um par de almocinhos na vitória da coligação. Mas esperava perder...

Pertenço ao escasso grupo de pessoas que gosta, mesmo com o risco de perder a aposta, de contrariar os politicamente correctos e, mais ainda, os que acham que a política pede muita fé, muito entusiasmo, muita arruada e muita colagem de cartazes. E pouca, nenhuma, reflexão. O povo, para muitos destes cavalheiros, é uma abstração. O povo por quem eles, arrogantemente, pensam, ou julgam pensar.

Ora bem: nada disso ocorreu. O povo ordeiro e composto não está convosco!

As pessoas anseiam por segurança, estabilidade e detestam a aventura. E o desconhecido. Apanharam no lombo com uma carga de varapau de austeridade. Começaram, mal ou bem, a ver uma pequeníssima hipótese de melhorar a vida. Como a heroína de Gil Vicente, preferem “asno que os carregue do que cavalo que os derrube”. Conviria a um par de excelentes amigos meus reler os clássicos. Todos os clássicos e não apenas Mestre Gil. E a História pátria, a boa e não a panfletada que por aí corre a título de boa e progressista.

Desculpem esta tirada populista mas eu andei numa escola recheada de gente muito pobre e mantive durante muitos anos contactos com esses colegas humildes que fizeram pela vida, subiram a pulso, puseram os filhos a estudar, não recuaram perante nenhum sacrifício, emigraram, souberam o que era dividir uma sardinha por dois. Essa gente vota. Mesmo sem ter feito o liceu e, muito menos a universidade sabem da poda, da política e da propriamente dita. E sabem defender os seus interesses.

Agora, diz-se, abre-se um novo ciclo político. Nem tanto, nem tanto. Governos minoritários tivemos já uma boa meia dúzia. Soares esteve minoritário, Cavaco idem, Santana Lopes e Guterres e até o inefável Sócrates cuja sombra perpassou pela campanha e prejudicou largamente o PS. De cada vez que Soares ia visitar o “preso político” (só em Portugal é que alguém sem corar diz esta barbaridade e não é imediatamente chibatado pela imprensa!) os cidadãos escaldados viam nisso um recado de e para o PS.

De todos os governantes minoritários, destacam-se Soares que soube dar a volta ao texto e Cavaco (a quem todos atiram pedras e pedregulhos...) que aproveitou as burrices dos adversários para firmar a mais longa carreira de primeiro ministro desta Terceira República.

Eu não me atrevo a dizer que a coligação ganhou por mérito próprio. Mas que a campanha confusa dos seus adversários deu uma ajudinha, ai disso não duvido. E quando falo de adversários não meto só o PS. O PC e o BE tanto falaram no lobo que as pessoas deixaram de ouvir.

Agora, rezemos a Santa Rita de Cássia, padroeira das mulheres maltratadas e dos impossíveis: vamos lá a ver se como europeus, que presumimos ser, se consegue andar para a frente. O verdadeiro patriotismo está em pensar na melhor maneira de sair da alhada e não em convocar cruzada sobre cruzada (com a conhecida inutilidade e piores consequências que estas tiveram) contra o PAF. Falar e negociar é a chave do êxito. Não de A ou de B mas dos cidadãos simples que andam por aí.

( o folhetim traz demasiadas referências cristãs. É puro artifício. De facto o dia de anteontem era, no calendário patafísico perpétuo, 27 de Absoluto, festa das Santas Gigolette e Gaufrette, dogaresas. E o que se passou neste canto da Europa deve ser analisado nessa perspectiva).

d’Oliveira fecit (29 de Absoluto, hunyadi, festa de Le Jet Musical)

 

 

07
Jan15

diário político 202

mcr

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A infamia absoluta 

 

Em nome de Alá ou de Maomé ou de qualquer outra coisa mata-se alegremente. Não que sectários de outras religiões do Livro ou não não matem também. 

Todavia, oss que matm em nome do Islão (de um Islão bem só deles, exclusivo e exclusivista) tem dado nas vistas, ultimamente. 

Agora, num repelente, miserável ataque, dizimaram a redacção de "Charlie Hebdo". Doze mortos entre eles Charb, Cabu e Wollinsky. 

Conta o pincel da sátira a kalashnikov dos assassinos. 

Exactamente no mesmo dia em que começam a ser selecionados os membros do juri que integrará o tribunal de Boston onde se julga outro assassino que mesmo contra toda a evidência grita a sua inocência. 

quem como eu é leitor assíduo do Chalie Hebdo como já fora, desde os anos 6o, leitor do Harakiri sente-se de luto e invadido pela raiva. Desculpem lá os do pensamento correcto mas, neste momento (depois talvez acalme), só me acodem desejos de que os assassinos cobardes morram de morte violenta e dolorosa. 

Começo a pensar que a bonomia com que se encara o multiculturalismo e se compreende o Islão na Europa (quando nos territórios muçulmanos nem uma Igreja se consegue abrir)  deve ser repensada. O ataque à redacção do "charlie..." não pode, de modo algum, ficar impune. Não se pode aceitar que a liberdade de imprensa sofra outro castigo que não os de um tribunal tanto mais que esse meio está à disposição dos "crentes" muçulmanos franceses. 

Este ataque vai, aliás, reforçar a extrema Direita francesa mesmo se "Charlie hebdo" nunca a poupasse.

Não me espantarei se, de repente, começarem a ser atacadas mesquitas ou outros locais de reunião de muçulmanos. Por muito menos isso já ocorreu. Só que depois deste massacre haverá seguramente mais gente a admiti-lo, quiçá a aplaudi-lo.

Não o desejo, mas também não daria um passo para (como tantas vezes fiz) voltar à rua a protestar

contra a alegada islamofobia dos franceses. 

Primeiro, a comunidade muçulmana, os seus imans e restantes dignitários religiosos e políticos terão de mostrar de que lado estão: da civilização laica e democrática ou da charia selvagem e primitiva?

d'Oliveira fecit 7-1-15