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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

17
Out17

Diário político 223

mcr

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quantos mortos mais serão precisos?

(d'Oliveira fecit  17.10.2017)

 

A sr.ª Ministra da Administração Interna não teve férias. Ao contrário de cem mortos deste Verão que as vão ter e eternas. E quentinhas. A sr.ª Ministra faz jus ao nome: é constante na sua imparável teimosia, no autismo que parece habitá-la, na absoluta miopia política, ética (para já não falar da profissional) e pessoal.

Pior, bem pior, é a sua vertiginosa corrida par o abismo da tolice. Bastou ouvi-la um par de segundos ao afirmar que as comunidades tem de se tornar mais resilientes às catástrofes.

As comunidades de que ela fala são constituídas maioritariamente por idosos, camponeses abandonados, pobres, provavelmente pouco ou nada instruídos. Gente, digamo-lo, adoptando eventualmente o mesmo olhar gélido da sr.ª Ministra: gente descartável.

Vê-la ao lado de Costa, ausente, sem um esgar, sem um frémito, sem corar (ninguém lhe pede para chorar, obviamente) é um exercício penoso e faz-nos sentir vergonha por ela, por nós, por Portugal. E uma imensa revolta tintada por outra imensa piedade pelos que tudo perderam neste fim de semana alucinante que, pudicamente, ela afirmou ser de centenas de “ignições”. Ignições, disse a criatura. Faltou-lhe língua, coragem, português de lei para dizer incêndios, fogos mortais.

Olha-se para esta mulher e damos com um fácies liso, impenetrável, insensível e com um vago lamento pela falta de férias. Que vá já de férias. Para a Venezuela, para a Somália, para a Líbia, para a Coreia do Norte, para o raio que a parta. que desapareça e por muitos e bons.

Este fantasma que percorre de longe o país calcinado e os corredores do Governo poderia, por mera precaução perfeitamente justificável por um Verão violento (haja quem se lembre desse filme magnífico de Zurlini), quentíssimo, sequíssimo ter adiado os prazos do fim da fase “Charlie”. As datas que a definem são meramente indicativas e, ontem mesmo, todos os especialistas o disseram e repetiram. A fase “Charlie” só chega ao fim por decisão política. Política, repete-se. Ou seja por decisão governamental, apoiada em proposta da sr.ª Ministra responsável.

Este Orçamento que nos cairá em cima, aproveita uma folga de mais de mil milhões de euros. Com isso vão chover subsídios, progressões nas carreiras, diminuição de IRS, aumentos normais e extraordinários de pensões, sei lá que mais. E vai mesmo haver um pequeno desconto nos encargos com os cidadãos que morreram. Por uma ínfima parcela desses milhões ter-se-iam mantido cá aviões e helicópteros enquanto durasse este insuportável calor e enquanto permanecesse a seca tremenda, “extrema” que afecta todo o pais e que é trágica para as Beiras, Trás-os-Montes, e o interior do Ribatejo, da Estremadura e da Beira Litoral. E de boa parte do Minho, donde o fogo galgou para a Galiza. Sexta feira, se não erro, vi um pungente documentário sobre o distrito de Bragança onde as terras se esboroam de secas, as oliveiras estiolam, os gados perecem de fome e sede e os homens, os poucos que ainda restam, os “resilientes” na expressão canalha da sr.ª Ministra já não sabem o que fazer.

Domingo, nos distritos de Viseu, Guarda Castelo Branco e Coimbra, outros gados, centenas senão milhares de animais morriam queimados. E queimadas ficavam casas, fábricas, pequenas lojas, hortas e plantações variadas.

E a sr.º Ministra sem o aconchego de umas férias, sem um mergulho no mar das Caraíbas, no mar Vermelho, no mar do Japão mas permitindo que um mar de fogo lavasse (levasse) de vez mais trinta e tal inúteis cidadãos portugueses culpados de não serem urbanos e de serem constantes na terra amaldiçoada que os viu nascer, crescer (e morrer).

Quantos mortos mais serão necessários para enterrar a sr.ª Ministra?

E já agora, quantos serão também necessários para mandar o sr. Jorge Gomes, digno Secretário de Estado da sr.ª Ministra, “ser proactivo” quando um fogo justiceiro se cevar em sua casa, enquanto ele estoico não chama bombeiros nem aviões carregados de água. A insensibilidade ministerial tem um eco fiel na inexistente inteligência da frase do seu fiel Secretário de Estado. Estão bem um para o outro.

Há uns tempos, na Assembleia da República, alguém citou uma frase vinda dos tempos tremendos da “Propaganda Republicana”: Disse-a Afonso Costa: “por muito menos crimes do que os de D Carlos ...rolou, pelo cadafalso a cabeça de Luís XVI” e repetiu-a já não sei quem.

Por muito menos (imperícia, descaso, falta de zelo, incompetência) o sr. Jorge Coelho, Ministro de um Governo igualmente socialista se demitiu devido à queda da ponte de Entre-os-Rios. O homem não tinha de nenhum modo responsabilidade no sucedido e nem sequer a ponte parecia correr um risco especial. Mas demitiu-se. Por vergonha, por honra pessoal, por ética republicana, por decência.

Este sinistro par que assombra o Ministério parece inamovível. Nada os empurra, os demove, os comove.

Só um oportuno incêndio nos gabinetes a que se agarram como lapas. Ou, como noutros tempos, o tiro de algum Buiça armado em justiceiro ou em vingador daqueles povos abandonados. Não apelo ao homicídio, fique bem claro, mas não seria o filho do meu pai que iria em socorro deles se os visse cercados pelo fogo ou acidentados na estrada: os indiferentes morrem cercados de indiferença. “Bon débarras!, como dizem os franceses.

Os ministros e restantes governamentais mesmo em estado cadaveroso são daninhos

01
Ago17

Diário político 217

d'oliveira

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Mais venezuelano que isto só no finado Reich de mil anos

Uma criatura dada, ao que consta, à sociologia, entendeu dever defender o inqualificável regime venezuelano nas páginas do “Público”. O jornal, na sua ansia de respeitabilidade e de independência, dá lugar a todos os plumitivos mesmo aos que, como é o caso, defendem a prisão arbitrária (e na Venezuela a coisa além de comum, frequente é abundante), a repressão policial (já quase nem se contam os feridos e os presos nas manifestações mesmo se o número de mortos (de mortos, reparem bem) já ultrapasse a centena, o ataque às instituições, mormente ao parlamento eleito há pouco mais de um ano, seja o que se sabe.

Na Venezuela, os proventos do petróleo servem para pagar pinguemente os polícias, os militares, as milícias e fornecer uma espécie de refeições aos sequazes do regime. O resto, a maioria, que se aguente. Nos hospitais falta tudo, a inflação ronda os 800%, faltam os produtos mais básicos no mercado e não se passa um dia sem que uma população inerme mas desesperada não proteste, arriscando a liberdade e a vida. Na Colômbia já passa de meio milhão o número de refugiados. Ainda ontem, o governo colombiano(o mesmo que conseguiu fazer a paz com a guerrilha, estendeu o direito de permanência sem limite de tempo a essas centenas de milhares de pessoas que assolados pela fome e pela ameaça passa as fronteiras.

Tirando Cuba, beneficiária de generosas doações de petróleo, não há país latino americano que abone aquele ridículo mas perigoso ditador de pacotilha herdeiro do falecido Chavez, inventor duma delirante ideologia “bolivariana”. O “bolivarianismo” é um cocktail de velhas ideias todas mais ou menos radicais que fizeram a desgraça da América Latina e a glória de uma pequena multidão de generais e caciques corruptos, incultos e ignorantes.

O senhor (presumo) professor ou ex-professor em Coimbra atreve-se a dizer que de fora da Venezuela chovem medonhos ataques contra a democracia cristalina defendida por Maduro e sequazes. A palavra democracia neste arauto da tirania grotesca que assola um país que poderia ser próspero, rico e tranquilo, parece a de um émulo daquele Scaramucci que durou dez dias na Casa Branca. No afã de defender o indefensável, o sociólogo coimbrão mostra até que ponto pode descer um “intelectual” fascinado pelo fanatismo ideológico, pela moda dos radicalismos cada vez menos operantes naquela parte do mundo.

Por muito menos, infinitamente menos, Antero qualificou um intelectual do seu tempo como “esgoto moral”.

Maduro, o herói do embevecido “sociólogo” faz Trump parecer um democrata inteligente e um político tolerante. A que miserável ponto chegámos!

Depois de mais uma facecia eleitoral, em que pouco mais de dois milhões de eleitores votaram, ainda não se conhece país, decente ou menos decente, que aprove esta caricatura de democracia. Mais, são já numerosos os governos que declararam não reconhecer esta fraude chamada eleição da assembleia constituinte, fuga para a frente de um regime iníquo, criminoso e opressor.

Sabe-se, aliás, e socorro-me, entre outros, de “Le Monde” que boa parte dos votantes compareceram mais por temor de serem excluídos (ainda mais excluídos) dos favores do regime do que por convicção. As ameaças de Maduro, hoje mesmo postas já em execução com a prisão de dirigentes da posição recentemente saídos dos calabouços onde vegetavam há anos cumprindo penas enormes por “conspiração”, “traição” e outras acusações aberrantes são um sinal de que as coisas vão piorar. Com o aplauso do liberticida de Coimbra, espera-se, adivinha-se...

(é propositadamente que se não nomeia a criatura ora posta em questão. Uma pessoa, mesmo condenando, não deve sujar a metafórica folhinha de papel em que escreve nomeando-a. De resto, e desde há muito, desde sempre, aliás, a criatura mostra o que vale. Desde um passado de assistente no tempo em que estes só entravam nesse grupo depois da aprovação dos poderes da altura, até um lamentável livrinho de versos tudo concorria para tornar a personagem risível. Todavia, isto, o artigo no Público, ultrapassa todas as (más) espectativas que a vaidade e o desejo de se mostrar poderiam suscitar. O homenzinho não presta. Não presta e, como uma espécie de Midas da fossa, transforma em merda tudo o que toca).

d'Oliveira fecit,  1 Agosto 2017