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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

19
Jun17

Estes dias que passam 355

d'oliveira

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“A morte neste jardim”

(enterrar os mortos e cuidar dos vivos)

As imagens (muitas vezes sensacionalistas) que gulosamente as televisões repetem vezes sem conta, deviam fazer-nos reflectir. Como é que, num país onde Verão após Verão, se sucedem as chamas, as mortes, a ruína dos mais pobres, dos mais velhos e dos mais distantes, ninguém atenta nesta horrenda verdade: gastamos em combate aos incêndios mais (muito mais, várias vezes mais) do que Espanha, França, Itália ou Grécia.

Todavia basta reparar nas imagens: mato por todo o lado, floresta desorganizada, estradas e caminhos, bem como as casas, paredes meia com as árvores. Basta uma chama e vai tudo. Sabemos disto desde há décadas. O interior perde gente, antigas terras agricultadas ficam baldias e selvagens, quem resta investe em eucaliptos e pinheiros, numa desordem que agora cobra um alto preço. Sessenta e um mortos! Para já. Mas é infelizmente previsível que esta macabra contagem continue a registar progressos. Há desaparecidos, as frentes de fogo continuam activas, o calor não baixa, o vento continua a soprar com força, a humidade atmosférica está em níveis baixíssimos.

E o Verão ainda nem começou...

De quem é a culpa? Vai, mais uma vez, morrer solteira? Desta feita não há incendiários, desculpa muitas vezes fácil e esfarrapada que oculta as falhas políticas de todos, Governo, autarquias, pequenos proprietários rurais, proprietários absenteístas ou emigrantes. Não há prevenção que se veja. Ou seja, quando, desde há muito, era imperioso ordenar a floresta, criar leis que o permitissem, punir quem não limpa os seus pinhais e florestas, tornar as estradas nacionais seguras sem barreiras de sombra e de árvores (nunca esquecer que boa parte das vítimas morreu na estrada em fuga, em pânico, perdidas pessoas e bens). Quem ficou teve melhor sorte: até ao momento, pese a angustia, o medo, a desolação, ainda está vivo.

Quem viaja por esse interior intensamente florestado, repara na falta de “estradões” corta fogo. Basta ir a Espanha para ver como se faz. Quem passa pelas matas ordenadas pertença das grandes papeleiras, vê que aí tudo ou muito, ou alguma coisa, se fez para prevenir o incêndio. Prevenir é melhor, é mais barato, é mais futurante do que remediar.

Cada vez se gasta mais em aviões, em helicópteros, em equipamento pesado de bombeiros, em formação. Desgraçadamente, graças a um conjunto dramático de coincidências, tudo isso se mostrou inoperante.

Parece que não há guardas florestais! Parece que nada ou pouco regulamenta as plantações ou simplesmente o que lá está. Grande parte da floresta nacional portuguesa desapareceu sendo substituída pelas plantações rápidas desde o pinheiro ao eucalipto. Que ardem com facilidade, como se vê. De resto, a floresta arde, sempre ardeu, especialmente a mediterrânica. Temos de viver com isso, aliás vivemos com isso há centenas ou milhares de anos. Mas, pelos vistos, não aprendemos nada. Durante séculos a floresta era protegida pelos rebanhos, pelas pessoas que iam por mato para camas dos animais, para aquecimento. Agora não há pessoas, o aquecimento faz-se a gás e os rebanhos são escassos. A erva cresce, seca, torna-se combustível sem mais. E arde.

Agora, o tempo é de choro e de apelos à solidariedade (de todos) e à coragem dos que perderam tudo, para não falar dessa outra quase certeza: daqueles que, durante os próximos três meses irão perder terras, casas, gados, bens, parentes e amigos.

Lamentavelmente, se acaso a selecção se safa, este desastre passará para um plano mais opaco. Se, ao menos, estes primeiros dias de apelos se traduzirem numa ajuda razoável às vítimas sobrevivas, já teremos um milagre mesmo se o verdadeiro auxílio seja a inflexão das políticas da floresta, milagre dos milagres, quase impossibilidade teórica e prática.

Senão... as árvores voltarão a crescer (sobretudo os eucaliptos que convivem com o fogo) a desordem continuará viva e alegremente irresponsável, os estradões ficarão no papel, os guardas florestais brilharão pela ausência, os bombeiros voltarão a receber mais equipamento e as mortes seguramente repetir-se-ão. Como a frágil comoção pública e o dedo apontado aos incendiários (parece que alguém teria pensado numa espécie de prisão preventiva domiciliária dos eventuais ateadores de fogos!!!)

 

Nas reportagens que fui vendo, dois destaques: as televisões repetiam continuamente as mesmas imagens e as mesmas entrevistas numa ânsia de gastar tempo e ganhar audiências.

Vários populares afectados pelos incêndios entenderam queixar-se dos bombeiros (nove ou dez deles já feridos e hospitalizados) que não os ajudavam a salvar os parcos bens, a casa, o terreno. Nem sequer percebiam que os bombeiros tinham uma missão bem mais dura, mais perigosa e mais urgente: salvar todos, circunscrevendo o avanço do fogo. As televisões adoraram estes queixosos, deram-lhes a palavra sem perceber a verdadeira missão de quem informa sobre um desastre medonho e que é não ceder ao fácil, à demagogia e ao egoísmo. Mas isso seria pedir demais aos repórteres no “terreno”, não acham?

 

* O título do folhetim pertence a Luís Buñuel que para este filme (1956) requereu Simone Signoret e Charles Vanel.

O subtítulo pertence ao Marquês de Pombal. Era um déspota, um ambicioso, um parvenu mas também soube ser eficaz. Por vezes, demasiado “eficaz”...

 

 

12
Jun17

estes dias que passam 354

d'oliveira

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Crónica de um naufrágio sem glória

 

Agora que os resultados da 1ª volta são conhecidos é fácil “fazer prognósticos” como, ironicamente se diz no futebol. Todavia, esta hecatombe sofrida pelo PS anunciava-se há muito. O PS francês vivia em respiração assistida muito antes de Hollande chegar à Presidência. Ouvir os tenores do partido nas televisões era já um exercício penoso. As pessoas perguntavam-se como é que numa capoeira com mais galos que galinhas havia uma espécie de paz. Não havia, claro mas o ruído dos duelos era “feutré” e a opinião pública distraía-se com os faits divers dos humores e amores do Presidente, coma escandaleira suscitada pelas acusações de uso indevido de dinheiros (públicos e privados) pelos sarkozistas e, sobretudo pela indefinição das alas mais radicais dos partidos de poder.

Ao longe, ou bem mais perto, a FN ia ganhando terreno nos antigos feudos proletários e aparecia como uma grande triunfadora nas eleições europeias, coisa que, para muito comentador estrangeiro, terá passado quase despercebida. As pessoas ainda acreditavam na política de cordão sanitário usada nas eleições internas (municipais, regionais, legislativas e presidenciais) para atirar para debaixo do tapete a incómoda realidade da Extrema- Direita. Nisto, a França, certa França, sempre deu lições a começar pela cambalhota no final da 2ª Guerra Mundial que transformou um país vencido (e, em muitos casos, convencido) na pátria da Resistência.

Começou aí o mito de uma nação de esquerda, indomável, em que um partido calado (quando não vagamente colaborante) até À invasão da União Soviética se pode apresentar como o campeão da revolta, da insubmissão (onde é que já ouvi isto?), o partido dos mártires (confundindo neste termo os mortos militantes e todos os que, sem partido, sem causa, sem acção ou reacção, eram massacrados pelos ocupantes alemães em guisa de resposta aos atentados).

Então, entre nós, a coisa foi excessiva: francófonos e francófilos desde sempre (e neste “sempre” incluo os anos das dramáticas ocupações francesas logo no início do século XIX) a bitola política foi sempre aferida pelo modelo francês. Até o dr Soares falava no seu “amigo Miterrand”, provavelmente por ser o francês a única língua europeia que(tant bien que mal) dominava.

Boa parte da inteligentsia indígena viveu o exílio em Paris, moldou-se nesse cadinho, importou todas as modas intelectuais gaulesas, desprezando ao mesmo tempo tudo (ou quase) o que se passava no resto do mundo. Suponho que terão ficado muito tristes com os resultados do tsunami deste domingo.

Todavia, que esperavam? Será que não viam o cansaço dos eleitores, a ineficácia das medidas económicas, o retrocesso da economia francesa, ao imobilismo social decorrente da incapacidade de vencer uma espécie perversa de direitos adquiridos por todo o género de corporações, muitas delas justamente sustentáculos dos partidos de poder?

Ontem, na televisão francesa, o actual Primeiro Secretário do PSF , Jean Christophe Cambadelis , advertia contra os perigos de uma excessiva maioria de Macron. Ou seja, fazendo jus, às suas origens trotskistas, Cambadelis entendia que o povo tinha votado mal. Tinha dado o seu sim a uma espécie de coartamento das liberdades democráticas. Uma maioria tão forte, quanto a que é possível imaginar, transformaria o exercício da Presidência num passeio ao campo, e esmagaria o diálogo e o confronto são de ideias. Felizmente, está fora da Assembleia. Perdeu como perderam todos os grandes dirigentes, Hamon incluído. A votação popular não lhes deu qualquer hipótese. Como se os eleitores quisessem dizer “entre estes os próximos de que se desconhece tudo ,antes os segundos. A seu tempo poderão ser corridos.”

O desastre da Esquerda estende-se implacavelmente aos seguidores de Mélenchon e, menos, ao PC que já era quase irrelevante. Com o picante de, em muitos casos, ser a “França Insubmissa” a passar o atestado de óbito aos candidatos do PS.

E a Direita?

OS Republicanos (LR) são também fortemente derrotados mas, apesar de tudo, salvam a mobília. Aparecem já como o segundo maior bloco na Assembleia. Com a vantagem suplementar (e não é assim tão pouca)de serem um partido estruturado, experimentado face a uma coligação onde pouco está definido estrategicamente ( e mesmo tacticamente...) Se alguma fragilidade há em La Republique en Marche esta é a mais evidente. É um bloco protestário, inconformado com o pântano político, mobilizado por u político capaz mas ainda sem a hierarquia necessária, mesmo se mínima, que permita, além do não rotundo à situação actual, um claro sim a medidas mobilizadoras e restauradoras de uma certa grandeur française a que indiscutivelmente Macron aspira.

E a Extrema Direita de Madame Le Pen, Philipot (para já salvo in extremis)? Apanha um grande balde de água fria, aliás um resultado mais consentâneo com a sua real influência na sociedade. O sistema de duas voltas pode ditar-lhe uma sorte negra. Para tal basta que funcione, ou volte a funcionar, o “cordão sanitário”. Neste capítulo, e diferentemente do que sucedeu na 2ª volta das presidenciais, Mélenchon já se pronunciou contra a FN, apelando a votar no candidato que a enfrenta, circunscrição a circunscrição. Claro que, neste caso, Mélenchom persegue um outro objectivo: ter mais deputados do que Marianne Le Pen. Nisto o ego da criatura, émula de Maduro, também conta!

Uma palavra final para o senhor Manuel Valls, ex-primeiro ministro socialista, ex-derrotado nas primárias do PS, ex sabe-se lá mais o quê: passa à 2ª volta graças a não ter tido pela frente (Favor de Macron) candidato LREM. Cabe-lhe derrotar uma senhora melenchonista. Se eu fosse eleitor dessa circunscrição poderia contar com o meu voto. Mal por mal antes um europeísta do que uma caricatura pro-venezuelana.            

06
Jun17

Estes dias que passam 353

d'oliveira

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Espera lá!...

(ou Mexia mexe com quem?)

(nota: não conheço nem nunca vi o sr. dr António Mexia, não conheço (que eu saiba) amigos dele e pouco me importam a sua saúde, o seu salário, o seu nome e a sua reputação).

Parece que o principal dirigente da EDP está arguido num processo de corrupção. Pelo (pouco, pouquíssimo) que os jornais dizem, a criatura terá conseguido para a empresa que dirige uns excelentes proventos, “rendas”, considerados excessivos pela troika (afinal a tal troika não era assim tão nossa inimiga?) pelo Ministério anterior e, já agora por vários partidos e actores políticos.

Ora, se é que ainda consigo raciocinar, se Mexia está arguido ou é corruptor ou corrompido. No segundo caso, nem se percebe como é que os chineses o aturam e lhe pagam (principescamente).

Enquanto corruptor, isto é alguém que untou as mãos (e provavelmente o antebraço, o braço, o ombro e o resto da anatomia) de quem em nome do Estado lhe concedeu as referidas e excessivas rendas, conviria saber como se construiu a tramoia, quem saiu beneficiado, por quanto, há quanto tempo etc., etc.

Se a informação é boa, essas rendas foram negociada com o governo do irrepreensível e, vagamente, engenheiro sr. Sócrates. Mais, o ministro que deu a cara teria sido um certo cavalheiro de seu nome Manuel Pinho, ou algo do mesmo teor, que depois de sair pela porta baixa da arena onde fazia corninhos a uma qualquer criatura, apareceu travestido em visiting professor da reputada Universidade de Colúmbia em Nova Iorque.

Eventualmente, por acaso, mero acaso, curioso acaso, a dita instituição recebera uma vultuosa soma da EDP para, também eventualmente criar uma cátedra sobre economia da energia ou outra treta qualquer.

Dizer que o sr Pinho (o dos corninhos) fora pago desta maneira pela EDP pelo serviço de negociar brandamente as rendas é passo que não dou, deus me livre, Jesus, Maria, José!...

Pinho, como Sócrates, apesar da cornamenta feita com os dedinhos, é, até prova em contrário, criatura impoluta. Por junto poderei considera-lo grosseirote, esparvoado que isto de fazer figas tão imbecis no Parlamento não lembra nem a um idiota chapado.

Todavia, subsiste esse pequeno pormenor das rendas excessivas que puseram os cabelos em pé até ao careca da troika. Então o Estado, na pessoa do seu Governo dá de mão beijada um porradão de maravedis a uma empresa glutona? E logo um governo do povo, de Esquerda (ou tido como tal...) que mais tarde até foi desautorizado por outro governo, esse de Direita (que como se sabe e o PCP ensina, é sempre reaccionário, favorável aos monopólios, ao patronato, aos ricos e sei lá quem mais) que diminuiu as rendas para o actual nível. E neste ano e meio de governo revertedor, socialista e gerigoncista, ninguém foi às mãos papudas de Mexia e da EDP e lhes ferrou o par de reguadas fiscais da ordem?

E ninguém buscou um corrupto (ou meia dúzia...) já que, segundo os agora clarividentes jornais, toda a gente andava intrigada com as benesses concedidas à EDP? É que, se há corrupção, tem de haver corruptor e corrompido, ou não é assim?

Eu sou um leitor furioso. Leio tudo até a informação, farmacêutica dos medicamentos que tenho de tomar, não vá pílula fazer mais mal que bem. Porém, nisto de pílulas, há sempre um copo de água para acompanhar. Ora aos actuais arguidos (Mexia & alia)falta o copo de água para os engolir. Falta a gente que encheu o bolso em troca da sua generosidade. Falta a gente que permitiu (se é que também não se encheu) ao(s) primeiro(s) corrompido(s) aumentarem a sua fortuna pessoal.

Enquanto este pequeno mistério não se aclarar (contratem o Poirot, que diabo!, ou o Moita Flores ou quem quer que seja) estou de pé atrás. Atrás e fazer figas. A vontade era seguir o exemplo pouco brilhante do sr Pinho mas a mim basta-me entrelaçar os dedos atrás das costas.

 

Nota: o sr Jerónimo de Sousa resolveu dizer que este eventual escândalo nunca ocorreria se a EDP não tivesse sido privatizada. Ou é ingénuo ou não conhece o Estado e a sua engrenagem interna. Aliás, quem senão o Estado ou os seus representantes poderia decidir das rendas a pagar?

Seria de recomendar ao sr Sousa um breve estudo sobre como na anquilosada URSS a burocracia se governava (e desgovernava a sorte dos desgraçados súbditos) e como alguns dos próceres dessa altura se têm mantido à tona sem prestar quaisquer contas aos cidadãos de segunda em que mandam despudoradamente. Mas isso é outro conversar...

  

 

02
Jun17

estes dias que passam 352

d'oliveira

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Boas notícias? Não!

Péssimas notícias!...

 

A inda não tinha secado a metafórica tinta do meu último texto e, Zás!, Catrapáz!, lá foi tudo borda fora.

A Dívida Pública (com letra grande e tudo) voltou a aumentar. Neste momento vai em 247 mil milhões e se o mês correr como o anterior chegarem ao verão com 250 mil milhões!!!

E há todas as razões para crer que a coisa vai ser assim pois verifica-se de há vários meses para cá a tendência suicidaria de subida.

Isto para não falar da dívida privada que, todos os indicadores o confirmam, está outra vez a adejar pelas alturas. Bem podem os optimistas de serviço (Costa ou o 4ª Pastorinho) felicitar-se com outros resultados ao mesmo tempo que, e não por acaso, esquecem este que é esmagador. Em Portugal à melancolia do costume sucede-se a euforia dos tolos e dos ignorantes logo que um raio de sol pálido e fortuito espreita por entre as nuvens. A taxa de aforro privado é a mais baixa de sempre (e isto num país que, durante décadas sempre poupava uns trocados) o que torna ainda mais frágil a posição dos que teimam em dar um passo mais comprido do que a perna. Que o diga o disparo do consumo de bens quase todos importados (com relevância para o automóvel), para a previsão de férias mais caras e mais longe, o arranque do preço da habitação para venda que sobe aceleradamente em todos os lados , sobretudo, em Lisboa e no Porto. Por outro lado não há dos lados da banca (e já nem falo dessa coisa chamada CGD que foge do interior a sete pés e mima o litoral com mais oferta) qualquer sinal de encorajamento da poupança. Quem tem meia dúzia de tostões bem pode gastar a cabeça à procura de alguém que lhe cuide do dinheiro poupado.

Mais: a Banca, toda ela, aumentou todos os preços dos seus serviços que, graças à informática, tem baixado sucessivamente. A deputadagem na AR e a gentinha das finanças andam mais preocupadas em afrontar os escassos organismos independentes de controlo do que em evitar que quem pode mande os dinheiros para fora. Agora, sem que se perceba muito bem, Jersey, a ilha de Man e o Uruguai já saíram da lista de off-shores suspeitos. Consta que quem devia dar parecer sobre o assunto não foi ouvido.

A discussão (ou a pré-discussão ) sobre o futuro Orçamento está prenhe de sound-bites despesistas. O senhor Mário Nogueira, eterno dirigente da Fenprof, depois de um silêncio obediente de quase dois anos, volta a alanzoar reivindicações. A funçanata pública agita-se e promete greves tremendas que, como de costume atingem apenas uns desgraçados inocentes. Sempre os mais pobres e os mais desprotegidos, nunca os poderosos. Na disputa sobre quem exige mais, o excelso BE na voz de um tal Jorge Costa, deputado, quer ainda mais. “Desobedecer à Europa”, sintetiza o jornal. Esta criatura finge que não sabe de onde nos veio durante décadas o dinheiro, todo o dinheiro, de onde ele ainda vem, dos baixos ou nulos juros, enfim para ele, e amigos, a Europa é um ogre e nós somos o carneirinho tenro onde a malvada criatura ferra o dente fétido e mortífero.

Evidentemente, não comparo este despesista irresponsável e ignorante com os drs Costa e Centeno que, apesar de tudo, certos que já quase têm no papo uma sólida maioria, travam às quatro rodas. Mas a opinião pública excita-se mais com o esganiçamento reivindicativo do que a cautela do dia a dia.

E as notícias são as que os beijinhos e as selfies narram na televisão assim como os épicos sucessos do jardim à beira mar plantado, o “torrãozinho de açúcar” de que falava uma das personagens de Eça...

 

 

02
Jun17

estes dias que passam 351

d'oliveira

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Há boas notícias? Há.

E vão continuar?

 

1 Se ouvi bem a Sr.ª Secretária de Estado do Turismo, este sector em forte, fortíssima alta, teria criado 39.000 empregos. Se o que penso ter ouvido está certo, então a diminuição do desemprego (sempre benvinda, seja porque razão for e por quanto tempo puder ser) deve-se fundamentalmente, e quase só, a isso.

De todo o modo, dure o que durar, este fenómeno de atractividade nacional é bom. Todavia, eu sou de uma terra (Figueira da Foz) que durante setenta anos assentou boa parte da sua riqueza no turismo. Praticamente, desde o tempo de Ramalho Ortigão (o seu texto sobre a cidade em “As praias de Portugal” é do melhor que já lhe li.) até meados dos anos sessenta do século passado.

De repente, o Algarve emergiu com praias quase vazias, água mais quente, tempo sempre bom, pouco ou nenhum vento. Foi a debandada. Nunca mais a Figueira viveu verões de enchente como os da minha infância e adolescência. A cidade cresceu, tentou diversificar as suas actividades produtivas mas aquele maná de “banhistas” trazidos pelas linhas férreas (a da Beira Alta transportava espanhóis e a do Oeste as gentes da Estremadura enquanto o ramal de Alfarelos enchia a cidade de coimbrões. A Figueira era “Coimbra C” numa menção às duas estações coimbrãs, A e B. ) esmoreceu fortemente. Sic transit...

Os baixos preços portugueses já, nos anos sessenta, tinham trazido uma revoada de estrangeiros, franceses sobretudo. Mesmo hoje, são os baixos preços um dos nossos principais trunfos. Mas não o único. De facto, as zona leste e sul do Mediterrâneo entraram em convulsão. Muitos milhões de veraneantes abandonaram, temporária ou definitivamente, a Turquia, a Síria, o Líbano, o Egipto. A Tunísia está semi-deserta, a Líbia ainda mais, a Argélia no mesmo. Até Marrocos, o último país muçulmano ainda tranquilo, começa a ser olhado de viés.

Portugal foi uma alternativa exequível, pacífica, próxima, apenas um pouco mais cara, que beneficiou da expansão dos voos low cost. Novas zonas turísticas foram finalmente descobertas desde o Douro até ao magnífico Alentejo que já não é só praia.

O único problema do turismo é que, para muitos turistas, basta uma vez. Depois procuram outros locais, sobretudo no caso do turismo estival. Claro que, para compensar, estamos a assistir a um crescimento exponencial do turismo de terceira idade ao mesmo tempo que a combinação preços baixos de alojamento e alimentação com a descida dos custos de viajem (e o crescimento da riqueza individual em certa Europa e na Ásia - China ou Japão) garante, durante mais algum tempo, um fluxo igual ou crescente de visitantes. A descoberta de novos destinos internos também suscita curiosidade e interesse. Ainda há pouco tempo, turisticamente falando, o Porto era medíocre e agora é o que se vê (e, por vezes, se sofre...).

2 Um papagaio televisivo dominical e pouco original afirmava ontem que a eventual vinda de Madona e de mais uma dúzia de celebridades provava a inevitabilidade de uma enxurrada de novos residentes graças a um estatuto fiscal que tem feito despoletar a venda de habitação de luxo. Sem querer retirar o peso dessa procura (no Algarve é significativa) tal não chega para provar o que quer que seja. Não é a habitação de luxo que nos tira da miséria mesmo que engorde alguns construtores civis.

3 O país progredirá se criar mais riqueza, se atrair mais investimento significativo e reprodutivo, se elevar o ratio de exportações às alturas da Holanda ou da Bélgica. Para isso haveria de limpar o nosso incrível sistema fiscal onde a regra é a permanente mudança, agilizar a justiça fiscal e administrativa que mais parece viver em pleno século XIX e ter em clara linha de conta que, em algumas das nossas exportações, ainda pesa bastante o baixo custo da mão de obra. Ora, ao incrementar a produção nesses sectores haverá maior procura de trabalhadores (num país que envelhece a olhos vistos) e, obviamente aumentos salariais importantes. E relembre-se, outra vez, que nem todos os aumentos de produção se traduzem em aumento de emprego...

Isso poderá traduzir-se em preços menos competitivos e/ou em migração da produção para territórios de mão de obra mais barata.

Conviria ainda começar a pensar na clara mudança de paradigma que a revolução digital tecnológica vai trazer. Vão perder-se milhões de empregos e urge pensar em medidas alternativas e alterar o péssimo sistema de ensino que temos.

4 Subitamente, toda a gente, ou alguma, pelo menos, começou a alvoroçar-se com o êxito de Portugal. Tudo serve desde a eurovisão a premiar uma canção menos medíocre do que as concorrentes, até o Ronaldo com namorada e golos novos. No meio, há um deficit ultra lisonjeiro mesmo se obtido com cativações, paragem total de investimento público, efeitos de um oportuno perdão fiscal, manutenção das medidas austeritárias mais duras (ai os impostos indirectos...) e alguns outros normais truques. A questão que se põe é se, nos anos vindouros, este milagre continuará.

5 O Sr. Presidente da República, sempre no seu papel de 4º Pastorinho jura (ainda mais do que o celebrado professor Pangloss) que tudo vai bem, que tudo vai melhorar. Conviria, lembrar a S.ª Ex.ª que temos vivido uma época excepcional de juros baixos ou baixíssimos, de retoma crescente da Europa que naturalmente nos arrasta, de bondades do BCE que mais cedo ou mais tarde acabarão.

6 Seria bom pensar assim: batemos no fundo, falimos e agora as coisas estão menos más. Par que este panorama (cor de rosa aos olhos de Sª Ex.ª) melhore há muito a fazer. Muito esforço, muito sacrifício, muita imaginação, menos auto-elogio, muito menos complacência com os desvarios desenvolvimentistas à Sócrates (por pouco que não estávamos com mais um aeroporto faraónico e com vários TGV de curto percurso). O único grande investimento das últimas décadas que deu certo foi o Alqueva e convém saber como continuá-lo.

7 Finalmente, não basta estancar ou tornar mais lento o progresso da dívida pública. Há que começar seriamente a diminuí-la. E, já agora: atenção à dívida privada que, tudo indica, tem crescido nos últimos meses. Bastou uma aragem para de novo os portugueses se precipitarem em compra de casa e de automóvel, para não falar no crédito a férias e a consumos que poderiam e deveriam ser adiados. Parece que ninguém aprendeu nada. Já assim tinha sucedido nas duas fortes crises post 25 Abril do século passado. Euforia, despesismo, queda abrupta na triste e mesquinha realidade. Má sina, pior fado que nenhum êxito passageiro no futebol, em Fátima ou no fado apagam.

08
Mai17

estes dias que passam 348

d'oliveira

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Uma vitória, duas derrotas

Eu sei que as eleições francesas já deram o que tinham a dar. Macron ganhou, diz-se (e é gloriosamente verdade) e basta. Não, não basta. Não basta por toda uma série de razões: Macron neste momento já vai nos 66, 1 contra 33,9 de Le Pen. Ou seja já está quase no dobro da adversária. É uma derrota pesada, pesadíssima para esta, digam lá o que disserem.

Mesmo com uma crescente abstençãoo, Macron ganha folgadamente, o que significa não apenas a rejeiçãoo da adversária mas também, que diabo!, a aceitaçãoo de algumas das suas propostas.

Os arautos da insubmissão (e amigos da Maduro, convém lembrar) não conseguiram impedir esta limpa vitória, sequer ensombrá-la. Das duas uma: ou os seus eleitores menos próximos desobedeceram às vergonhosas recomendações de voto branco (e estou em crer que foram bastantes) ou outros antigos abstencionistas perceberam que isto não era a feijões e que a tese ultra imbecil do “quanto pior melhor” tresandava.

Há uma certa ironia histórica nisto. Em tempos não demasiadamente recuados (Alemanha nos anos 30) o forte KPD (Partido Comunista Alemão, obedecendo ao Komintern, lançou a política “Klasse gegen Klasse” (classe contra classe) atacando com a máxima virulência o SPD (Partido Socialista) que foi considerado a “vanguarda da reacção”, um bando de social-fascistas e outros mimos do mesmo género.

Foram baldadas as tentativas de criar uma frente comum anti Hitler, e o resultado foi devastador. Uma vez no poleiro o “pintor de paredes” ilegalizou o PC e mandou os seus deputados e dirigentes para os campos de concentração entretanto inaugurados. O PS não demorou a seguir este destino mas por uma causa nobre: os socialistas negaram votar os “plenos poderes” a Hitler e foram, por sua vez, reduzidos à prisão e ao exílio.

Quando a classe contra classe morreu já era tarde. Todavia, logo que a guerra eclodiu, os partidos comunistas, mais uma vez em obediência cega às directivas da 3ª Internacional, condenaram as potências democráticas e declararam-se neutrais. Em França, levaram o atrevimento impudente a solicitar das entidades ocupantes, licença para voltar a publicar”L’Humanité”. Os alemães recusaram.

Foi preciso que a Alemanha invadisse a URSS para, então, os comunistas ocidentais se proclamarem anti-fascistas e combatentes!...

Felizmente, anda restava em França alguma memória destes tempos miseráveis em que os comunistas silenciavam as atrocidades do ocupante e o servilismo de Vichy. (para memória: logo que a ocupação alemã se tornou efectiva, Paul Nizan, destacado intelectual comunista, recusou a directiva da Internacional. Foi acusado pelo servil Thorez, dirigente do PCF, como traidor e polícia!...Assim se vê de que lado estava a inteligência e em que fossa nadava o colaboracionismo dos pseudo-revolucionários vermelhos. )

Voltando às eleições francesas, depois desta digressão infelizmente necessária dada a ocultação da história recente: A vitória de Macron é também a vitória de quem vê o mundo actual tal como ele é e está, contra os saudosos do passado. Queira-se ou não, 2017 não é 1917, 1870 ou 1789. O mundo em vogam inocentemente os Mélenchons e os seus amiguinhos e amiguinhas portugueses, não existe, não volta. Se importa mudá-lo convém, para já, compreendê-lo, explica-lo.

E para tal, é necessário rearmar a ideia de Europa, desta comum Europa que, pela primeira vez na História está em paz há mais de setenta anos. Em França ou cá, onde também, quatro tristes agoureiros (ou agoureiras) pretendem convencer-nos contra a mais plácida e visível evidência de que o euro, a Europa, o cosmopolitismo, são a doença e não a cura. Há que melhorar as coisas? Claro! Há que democratizar as instituições comunitárias? Sem dúvida! Há que repensar a política internacional e interna? Absolutamente (e aqui vai uma dica: conviria pensar num parlamento nacional eleito mais democraticamente sem se elegerem deputados à molhada. Seria bom podermos chamar à pedra o fulano (ou fulana) que elegemos para ver se não se escondem na multidão que vota sem ligar nenhum aos eleitores).

A vitória de Macron é, sem qualquer dúvida, uma vitória sobre a direita, nacionalista, autoritária e xenófoba mas também sobre uma esquerda identicamente autoritária, igualmente nacionalista e, graças à sua diabolização da mundialização e do espaço europeu, recorrentemente xenófoba também. Digam eles o que disserem. Para caricaturas de Maduro, já chega o “Podemos”, não precisamos do pobre Mélenchon.

Paz à sua alma. Amén!

* na gravura duas bandeiras: a francesa e a europeia. É assim que se pode fazer a História. Assim seja. 

01
Abr17

estes dias que passam 347

d'oliveira

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Calma, malta, calma

(ou Calma no Brasil que Portugal ainda é nosso!)

 

Um cavalheiro holandês de seu nome Jeroen Dijsselbloem (leia-se, aproximativamente “daisselbleme” coisa que nunca devia prestar-se a patetices alegadamente jocosas ) entendeu explicar a sua política quanto a auxilio ou solidariedade económica entre Norte (dador) e Sul (receptor).

Diz a criatura que não se pode emprestar dinheiro a quem o gasta em “mulheres e copos”. Tem toda a razão. Eu também não emprestaria o meu escasso cacau a quem o fosse malbaratar.

O problema é que Dijsselbloem falava enquanto líder do Eurogrupo e referia a realidade Norte - Sul da Europa. A sensatez ou apenas a prudência aconselhariam usar uma imagem menos popularucha mas aquela cabecinha pensadora foi mais feita para usar brilhantina do que para usar bom senso.

A reacção não se fez esperar, pelo menos por cá onde as famílias se endividam alegremente para um carro novo ou tão só para ir passar umas férias numa praia das Caraíbas.

A indignação (verdadeira ou fingida) subiu ao Parlamento, inundou as televisões e juntou uma multidão ofendida pronta para ver o holandês queimado numa pira no Rossio. Há mesmo um grupo de cidadãos ultrajados que lançou uma petição para correr com o holandês. Trabalho escusado visto que a criatura, estando de saída do governo holandês, perde praticamente a hipótese de continuar no governo da Europa. De todo o modo, os peticionários deveriam arranjar um argumento melhor para defenestrar o batavo: por exemplo provar que no exercício das suas funções era incompetente.

Pessoalmente, Djisselbloem não me consegue ofender. Primeiro sou um moderadíssimo bebedor, depois não pago a mulheres. Sei que vivo num país onde há prostituição mas nunca a vi em montras no centro da cidade como em Amsterdão. Também nunca vi espectáculos de borracheira colectiva como na Alemanha, na Holanda para não falar de outros países do Norte onde o fim de semana é um triste desastre de coma alcoólico quase colectivo. De certo modo, por cá bebe-se com alguma regularidade mas com bastante contenção (não refiro as tristíssimas festas da Queima das Fitas onde os cortejos são um desfile de criaturas propositadamente embriagadas. De qualquer maneira, isso sucede uma vez por ano o que se não é desculpa também não deve ser levado demasiado a sério).

O senhor Djisselbloem poderia ter feito as suas críticas, os seus avisos com a educação, o tacto, a diplomacia que se exige de tão alto cargo. Ninguém, honestamente, pode pôr em dúvida, que os chamados países do Sul nem sempre mostraram bom senso, cautela e muito menos rigor no tratamento das suas desastradas finanças públicas. Eu, se fosse um anónimo cidadão do Norte também desconfiaria da ajuda aos do Sul mesmo se, depois, temperasse as minhas suspeitas com uns pós de solidariedade.

Nestas coisas lembro-me sempre da senhora Merkel que, ainda há poucos anos, foi, por cá, alvo duma enxurrada de insultos e agora prova que, em questões de solidariedade, está bem acima de quaisquer outros. O que cidadãos portugueses acima de toda a suspeita bolsaram sobre a senhora é algo de inenarrável e envergonha duradouramente quem apenas leu o que eles vomitaram por escrito ou nas televisões e rádios.

Há num certo Sul, quente, amável, solar e descontraído, algum facilitismo quanto a números e contas (ainda hoje li que só em Portugal há 134.000 (cento e trinta e quatro mil!!!) famílias que se atrasaram nas prestações da casa comprada. Supondo, com excesso, que haverá um milhão - !!!- de compradores de casa a pagar em prestações mensais, temos no mínimo 13,4% de maus pagadores. É muito. É terrível!)

Há no Norte, frio, austero e escuro, muito dinheiro (produto de muito trabalho e de muito rigor) bem como alguma modéstia no trem de vida, fruto, acaso, da educação protestante. Há também uma noção de pecado que nenhuma confissão apaga ou escamoteia. Genéricamente, no Norte, luterano ou calvinista, os compromissos são para cumprir dê lá por onde der. Cá é o que se sabe.

A indignação fácil não torna a dissipação menos desagradável e a pobreza que daí advém mais ligeira. Nestes poucos dias, ouvi chamar tudo ao holandeses sendo o termo pirata um dos mais usados. Parece, para estes historiadores de praia, que as frotas dos Países Baixos (suponho que na altura se usava “Províncias Unidas”) só se criaram para roubar os desgraçados portugueses que iam para os trópicos, para o Malabar e para o Brasil fazer bem aos indígenas. Ora bem: basta compulsar uma qualquer História portuguesa decente para saber como é que nos comportámos em toda a parte, o terror que inspirávamos, os ódios que suscitámos, o saque que levamos a cabo.

Um cavalheiro, de que nem quero lembrar o nome, entendeu escrever que, no Brasil, Maurício de Nassau nem sequer merece que se diga que levou uma autentica academia cultural para explorar as terras conquistadas. Os brasileiros tem publicados na Editorial Kapa, sob o título genérico de “O Brasil holandês”, sete conjuntos de obras, num total de quase vinte volumes, primorosamente ilustrados que dão conta da obra notável dos holandeses. Em contrapartida apenas podemos oferecer (e ninguém conhece estes extraordinários portugueses cultos e informados!...) o Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, autor de uma extraordinária documentação sobre a Amazónia, e Frei Cristóvão de Lisboa que deixou um belíssimo tratado sobre as plantas e os animais do Maranhão.

A criatura que, para defender as cores nacionais, disse tais coisas é ignorante, mal intencionada e mais estúpida do que convém.

Combater a Holanda, país surgido da lama, da arrebentação do mar do Norte, da extrema pobreza, é uma inigualável tolice que nenhum Jeroen Djisselbloem desculpa. Este cavalheiro combate-se provando as nossas inegáveis qualidades, renegando a nossa tradicional estúrdia (e temos dezenas de milhares de migrantes na Holanda que mostram claramente que os portugueses sabem trabalhar e ser responsáveis).

Eça de Queirós, sempre ele, a propósito de um verrinoso ataque à sua famosa condenação da colonização portuguesa na Índia, inventou a palavra patrioteiro ou patrioteiraço. Parece que, cento e cinquenta anos depois, essa tonta raça persiste. E com que vigor!

Arre que é demais!

 

* na estampa:posters que se encontravam por toda a Holanda significando solidariedade com outros povos (no caso: Portugal eVietnam) trazidos de Amsterdão em 1973.

 

09
Mar17

Estes dias que passam 346

d'oliveira

Adenda ao post das ratazanas

 

Afinal os estudantes reunidos em Assembleia Geral (ou RGA) que protestaram contra a conferência de nogueira Pinto eram 24! Vinte e quatro criaturas descerebradas que se creem portaoras da verdade revolucionária dos novos tempos. Se aquilo é uma assembleia digna de crédito eu sou um usbeque. 

Pior do que as duas dúzias de criancinhas tresmalhadas é o papel do director da faculdade uma criatura de nome Francisco Caramelo. Conhecem-no? Eu também não. Felizmente!...

Eu não sei para que serve um Director destes numa faculdade dita de Ciências Sociais e Humanas. Algo aqui está a mais, seja a Faculdade, seja a Ciência seja o Social seja o Humano. Ou então é só o presumido "director" a quem um jornalista hoje acusava de cobardia intelectual (O intelectual está a mais: aquilo é apenas cobardia pura e chã).

O Reitor da Universdiade lá tentou emendar a coisa afirmando que a conferência não fora cancelada mas apenas "adiada para momento mais oportuno" depois de um "debate alargado".Isto vindo de um Reitor apenas prova que o analfabetismo dos estudantinhos já chegou ao mais alto escalão da instituição.  

Primeiro um cancelamento não é um aiamento

Segundo, se para uma mera conferência é preciso uma data oportuna (por exemplo 30 de Fevereiro de 2045) e um debate alargado então porue chamar conferência a uma coisa que ira pelo menos ter a espessura azeda de um "seminário", quiçá de um "congresso"?

O dr Rendas, inestimável Reitor da Nova poderia ter dito. Desculpem lá qualquer coisinha. O que aconteceu foi uma burrice de 24 tolinhos e uma parvoejada de um director. Eu, enquanto Reitor, entendo que a conferência se deve fazer, e já para cortar pela raíz qualquer comentário malicioso (p.ex de um certo mcr que nos odeia). 

A posição do dr Rendas, mesmo se mais burilada do que a do Director, sofre da mesma absurda e vergonhosa doença: medo, pavor, obediência ao vozear de duas dúzias de rapazolas que mostram à saciedade não saber nada e muito menos ter a noçaõ de que "compactuar" (palavra muito em voga entre ignorantes e pretensiosos e usada na proposta da assembleia geral) substitui mal o portuguesíssimo verbo pactuar. Mas isso é gramática disciplina que provavelmente não tem curso naquela faculdade dita de ciencias sociais e humanas.

 

08
Mar17

estes dias que passam 345

d'oliveira

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Os aprendizes de ratazana e a necessária digna resposta

(ponto prévio:não conheço e não gosto do sr. dr. Jaime Nogueira Pinto que, nos meus longínquos tempos de estudante, representava a Direita radical na Universidade. Ficou-me desse tempo uma antipatia visceral pela personagem mesmo se admita que os tempos mudam muito quando não mudam tudo. Em teoria, estou disposto até a acreditar que JNP seja actualmente um pacífico conservador pronto a aceitar a Democracia em todos os seus aspectos).

A questão: parece que o dr Nogueira Pinto ia proferir uma conferencia na Universidade Nova sobre Democracia e Populismo. E que a dita conferencia seria apadrinhada por uma organização chamada “Nova Portugalidade”.

Pelos vistos, a Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas entende que a desconhecidíssima Nova portugalidade é “nacionalista e colonialista” pelo que a conferência de Nogueira Pinto mesmo se trata de questões absolutamente diferentes sê-lo-ia também!!!

Vai daí a AE avançou com um protesto que coenvolveria ameaças à boa ordem dos trabalhos. O diligente director da FCSH aproveitou a boleia para cancelar a alegadamente incómoda conferência receando eventualmente pela vida ou pela saúde do dr Nogueira Pinto ou de qualquer eventual espectador.

Nada de novo sob a roda do Sol. Por razões não muito diferentes (sempre a ordem pública) foram proibidas as Conferências do Casino patrocinadas pelos díscolos da Geração de Setenta (o melhor que Portugal teve no século XIX).

Um bando de rapazinhos patetas e provavelmente ignorantes faz um berreiro, grunhe um par de ameaças veladas e lá se vai o verniz democrático de uma Faculdade, dos seus dirigentes e dos seus estudantes que provavelmente desconheceriam o evento na sua esmagadora maioria.

Conheço, de raspão o senhor Coronel Vasco Lourenço e a Associação a que preside (A Associação 25 de Abril onde tenho comido uns magníficos cozidos à portuguesa, numa ambiente simpático e caloroso com amigos de sempre).

A Associação 25 de Abril é claramente – e com todo o direito – uma associação progressista, conotada com a Esquerda e que reúne boa parte dos chamados militares de Abril. Nada pois que permita associá-la a Jaime Nogueira Pinto, claramente um dos vencidos do 25A.

Todavia, nem o facto de JNP ser, eventualmente, um adversário político perturbou o claro pendor democrático e abrangente da Associação 25 de Abril que, ao saber do cancelamento canalha da conferência, imediatamente pôs os seus salões à disposição do conferencista. Chama-se a isto “espírito democrático”, nobreza democrática e amor à liberdade e à discussão livre.

A associação 25 de Abril não precisava de mais louros para se estabelecer como organismo digno e relevante na sociedade portuguesa. Porém, ao perceber ameaçada uma das liberdades que fizeram nascer o movimento que lhe deu corpo e razão de ser não hesitou em mostrar o caminho. O caminho da liberdade, da troca franca e leal de opiniões. Em breve, com os amigos do costume, lá irei para mais um almoço de cozido. Desta feita, entrarei mais contente, mais grato e mais consciente de que piso uma zona livre e digna.

 

*Ao senhor Coronel Vasco Lourenço (de quem por vezes discordo) à Direcção da A25A aos seus associados e frequentadores o abraço do cronista: o 25 A faz-se todos os dias mesmo que isso pese aos imbecis de alguma associação de estudantes e aos que com eles tergiversam, fogem, escondem-se ou calam.

07
Mar17

Estes dias que passam 344

d'oliveira

Debaixo de fogo

 

Tenho tentado alhear-me (aqui, só aqui!) da discussão política em curso no jardim à beira mar plantado. 

Não nego que depois do sufoco anterior sabe bem respirar um pouco mais à vontade.

Sabe ou saberia?

A dúvida que se põe tem alguma base. Mudaram os nossos hábitos de indisciplina económica e financeira? Alguém já tentou saber a que se deve a euforia gastadora dos últimos tempos? Será que o aumento do consumo interno apenas abrangeu produtos nacionais ou, pelo contrário, como tudo aliás indica (cfr as compras de automóveis para não ir mais longe), tal se deve à comprar de produtos importados que fundamentalmente só enriquecem alguns importadores e os países exportadores? Será que o milagre do deficit se deve a uma sábia governação ou apenas e fundamentalmente ao PERES e aos maiores cortes de sempre no investimento público? Será que, para este ano, também vão existir economias do mesmo teor ou já as esgotámos? E se sim, qual vai ser o défice (sobretudo no caso de se voltar a um investimento público já não digo idêntico ao  do plano Centeno - quem ainda se lembra dele?- mas pelo menos semelhante? Os gastos das famílias aumentaram com a consequência de uma grave diminuição do aforro privado e -paralelamente -de um aumento da dívida privada. A dívida pública cresceu. O total dos impostos cobrados não cobre a despesa efectiva. Vão ser necessários mais empréstimos para pcobrir esse diferencial. A que juros? Os bancos parecem apostados em emprestar para despesas pouco ou nada produtivas. E se é verdade que alguns parecem apostados no equilíbrio provisório das suas contas ainda ninguém exclareceu como é que a Caixa, a nossa querida, pesada, vetusta, política Caixa se distraiu em 5,5 mil milhões. Isto para já que ainda há muita conta para se fazer. 

O senhor Presidente da República anda imparável no comentário político a pontos de se poder pensar que ele presidia mais ao país quando comentava aos domingos do que agora quando nada mais faz do que andar aos beijinhos, posar para selfies e transpirar felicidade, alegria e progresso na pátria amada. Ninguém pede uma criatura carrancuda no palácio presidencial mas conviria, de quando em vez, alguma contenção, algum bom senso, alguma cautela. Isto é dito sem saudades do anterior mas sem parvamente se pensar que o país precisa de um novo Candide sem a qualidade de Voltaire mas com o pretensiosismo de Cascais. 

Finalmente duas palavras sobre Carlos Costa e Teodora Cardoso. O primeiro, convém lembrar foi nomeado em tempos do senhor José Sócrates. Passos Coelho apenas o manteve. Esta pequena lembrança vai para o distraído senhor Louça, essa espécie de catecúmeno que faz de economista nas horas vagas e que até, quem acreditaria?, o levou a "conselheiro" do Banco de Portugal (tal se deverá claro à sua experiência!) 

A segunda, que ninguém se atreve a considerar de Direita ou sequer conservadora, está sob fogo real por ter explicado que os milagres (sejam os de Fátima nos quais piamente acredita Marcelo, o quarto pastorinho, sejam os da mera economia real) têm sempre uma razão clara e evidente como já aima se disse. 

Para Costa, as "forças do progresso" (boa piada!) pedem a defenestração (coisa que nunca fizeram ao anterior titular do cargo que não viu, ouviu ou pressetiu o BPN) enquanto que para Teodora advogam o fim o do Conselho de Finanças Públicas. 

Chama-se a isto varrer para debaixo do tapete ou, pior, enterrar a cabecinha sonhadora na areia.