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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

01
Abr17

estes dias que passam 347

mcr

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Calma, malta, calma

(ou Calma no Brasil que Portugal ainda é nosso!)

 

Um cavalheiro holandês de seu nome Jeroen Dijsselbloem (leia-se, aproximativamente “daisselbleme” coisa que nunca devia prestar-se a patetices alegadamente jocosas ) entendeu explicar a sua política quanto a auxilio ou solidariedade económica entre Norte (dador) e Sul (receptor).

Diz a criatura que não se pode emprestar dinheiro a quem o gasta em “mulheres e copos”. Tem toda a razão. Eu também não emprestaria o meu escasso cacau a quem o fosse malbaratar.

O problema é que Dijsselbloem falava enquanto líder do Eurogrupo e referia a realidade Norte - Sul da Europa. A sensatez ou apenas a prudência aconselhariam usar uma imagem menos popularucha mas aquela cabecinha pensadora foi mais feita para usar brilhantina do que para usar bom senso.

A reacção não se fez esperar, pelo menos por cá onde as famílias se endividam alegremente para um carro novo ou tão só para ir passar umas férias numa praia das Caraíbas.

A indignação (verdadeira ou fingida) subiu ao Parlamento, inundou as televisões e juntou uma multidão ofendida pronta para ver o holandês queimado numa pira no Rossio. Há mesmo um grupo de cidadãos ultrajados que lançou uma petição para correr com o holandês. Trabalho escusado visto que a criatura, estando de saída do governo holandês, perde praticamente a hipótese de continuar no governo da Europa. De todo o modo, os peticionários deveriam arranjar um argumento melhor para defenestrar o batavo: por exemplo provar que no exercício das suas funções era incompetente.

Pessoalmente, Djisselbloem não me consegue ofender. Primeiro sou um moderadíssimo bebedor, depois não pago a mulheres. Sei que vivo num país onde há prostituição mas nunca a vi em montras no centro da cidade como em Amsterdão. Também nunca vi espectáculos de borracheira colectiva como na Alemanha, na Holanda para não falar de outros países do Norte onde o fim de semana é um triste desastre de coma alcoólico quase colectivo. De certo modo, por cá bebe-se com alguma regularidade mas com bastante contenção (não refiro as tristíssimas festas da Queima das Fitas onde os cortejos são um desfile de criaturas propositadamente embriagadas. De qualquer maneira, isso sucede uma vez por ano o que se não é desculpa também não deve ser levado demasiado a sério).

O senhor Djisselbloem poderia ter feito as suas críticas, os seus avisos com a educação, o tacto, a diplomacia que se exige de tão alto cargo. Ninguém, honestamente, pode pôr em dúvida, que os chamados países do Sul nem sempre mostraram bom senso, cautela e muito menos rigor no tratamento das suas desastradas finanças públicas. Eu, se fosse um anónimo cidadão do Norte também desconfiaria da ajuda aos do Sul mesmo se, depois, temperasse as minhas suspeitas com uns pós de solidariedade.

Nestas coisas lembro-me sempre da senhora Merkel que, ainda há poucos anos, foi, por cá, alvo duma enxurrada de insultos e agora prova que, em questões de solidariedade, está bem acima de quaisquer outros. O que cidadãos portugueses acima de toda a suspeita bolsaram sobre a senhora é algo de inenarrável e envergonha duradouramente quem apenas leu o que eles vomitaram por escrito ou nas televisões e rádios.

Há num certo Sul, quente, amável, solar e descontraído, algum facilitismo quanto a números e contas (ainda hoje li que só em Portugal há 134.000 (cento e trinta e quatro mil!!!) famílias que se atrasaram nas prestações da casa comprada. Supondo, com excesso, que haverá um milhão - !!!- de compradores de casa a pagar em prestações mensais, temos no mínimo 13,4% de maus pagadores. É muito. É terrível!)

Há no Norte, frio, austero e escuro, muito dinheiro (produto de muito trabalho e de muito rigor) bem como alguma modéstia no trem de vida, fruto, acaso, da educação protestante. Há também uma noção de pecado que nenhuma confissão apaga ou escamoteia. Genéricamente, no Norte, luterano ou calvinista, os compromissos são para cumprir dê lá por onde der. Cá é o que se sabe.

A indignação fácil não torna a dissipação menos desagradável e a pobreza que daí advém mais ligeira. Nestes poucos dias, ouvi chamar tudo ao holandeses sendo o termo pirata um dos mais usados. Parece, para estes historiadores de praia, que as frotas dos Países Baixos (suponho que na altura se usava “Províncias Unidas”) só se criaram para roubar os desgraçados portugueses que iam para os trópicos, para o Malabar e para o Brasil fazer bem aos indígenas. Ora bem: basta compulsar uma qualquer História portuguesa decente para saber como é que nos comportámos em toda a parte, o terror que inspirávamos, os ódios que suscitámos, o saque que levamos a cabo.

Um cavalheiro, de que nem quero lembrar o nome, entendeu escrever que, no Brasil, Maurício de Nassau nem sequer merece que se diga que levou uma autentica academia cultural para explorar as terras conquistadas. Os brasileiros tem publicados na Editorial Kapa, sob o título genérico de “O Brasil holandês”, sete conjuntos de obras, num total de quase vinte volumes, primorosamente ilustrados que dão conta da obra notável dos holandeses. Em contrapartida apenas podemos oferecer (e ninguém conhece estes extraordinários portugueses cultos e informados!...) o Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, autor de uma extraordinária documentação sobre a Amazónia, e Frei Cristóvão de Lisboa que deixou um belíssimo tratado sobre as plantas e os animais do Maranhão.

A criatura que, para defender as cores nacionais, disse tais coisas é ignorante, mal intencionada e mais estúpida do que convém.

Combater a Holanda, país surgido da lama, da arrebentação do mar do Norte, da extrema pobreza, é uma inigualável tolice que nenhum Jeroen Djisselbloem desculpa. Este cavalheiro combate-se provando as nossas inegáveis qualidades, renegando a nossa tradicional estúrdia (e temos dezenas de milhares de migrantes na Holanda que mostram claramente que os portugueses sabem trabalhar e ser responsáveis).

Eça de Queirós, sempre ele, a propósito de um verrinoso ataque à sua famosa condenação da colonização portuguesa na Índia, inventou a palavra patrioteiro ou patrioteiraço. Parece que, cento e cinquenta anos depois, essa tonta raça persiste. E com que vigor!

Arre que é demais!

 

* na estampa:posters que se encontravam por toda a Holanda significando solidariedade com outros povos (no caso: Portugal eVietnam) trazidos de Amsterdão em 1973.

 

09
Mar17

Estes dias que passam 346

mcr

Adenda ao post das ratazanas

 

Afinal os estudantes reunidos em Assembleia Geral (ou RGA) que protestaram contra a conferência de nogueira Pinto eram 24! Vinte e quatro criaturas descerebradas que se creem portaoras da verdade revolucionária dos novos tempos. Se aquilo é uma assembleia digna de crédito eu sou um usbeque. 

Pior do que as duas dúzias de criancinhas tresmalhadas é o papel do director da faculdade uma criatura de nome Francisco Caramelo. Conhecem-no? Eu também não. Felizmente!...

Eu não sei para que serve um Director destes numa faculdade dita de Ciências Sociais e Humanas. Algo aqui está a mais, seja a Faculdade, seja a Ciência seja o Social seja o Humano. Ou então é só o presumido "director" a quem um jornalista hoje acusava de cobardia intelectual (O intelectual está a mais: aquilo é apenas cobardia pura e chã).

O Reitor da Universdiade lá tentou emendar a coisa afirmando que a conferência não fora cancelada mas apenas "adiada para momento mais oportuno" depois de um "debate alargado".Isto vindo de um Reitor apenas prova que o analfabetismo dos estudantinhos já chegou ao mais alto escalão da instituição.  

Primeiro um cancelamento não é um aiamento

Segundo, se para uma mera conferência é preciso uma data oportuna (por exemplo 30 de Fevereiro de 2045) e um debate alargado então porue chamar conferência a uma coisa que ira pelo menos ter a espessura azeda de um "seminário", quiçá de um "congresso"?

O dr Rendas, inestimável Reitor da Nova poderia ter dito. Desculpem lá qualquer coisinha. O que aconteceu foi uma burrice de 24 tolinhos e uma parvoejada de um director. Eu, enquanto Reitor, entendo que a conferência se deve fazer, e já para cortar pela raíz qualquer comentário malicioso (p.ex de um certo mcr que nos odeia). 

A posição do dr Rendas, mesmo se mais burilada do que a do Director, sofre da mesma absurda e vergonhosa doença: medo, pavor, obediência ao vozear de duas dúzias de rapazolas que mostram à saciedade não saber nada e muito menos ter a noçaõ de que "compactuar" (palavra muito em voga entre ignorantes e pretensiosos e usada na proposta da assembleia geral) substitui mal o portuguesíssimo verbo pactuar. Mas isso é gramática disciplina que provavelmente não tem curso naquela faculdade dita de ciencias sociais e humanas.

 

08
Mar17

estes dias que passam 345

mcr

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Os aprendizes de ratazana e a necessária digna resposta

(ponto prévio:não conheço e não gosto do sr. dr. Jaime Nogueira Pinto que, nos meus longínquos tempos de estudante, representava a Direita radical na Universidade. Ficou-me desse tempo uma antipatia visceral pela personagem mesmo se admita que os tempos mudam muito quando não mudam tudo. Em teoria, estou disposto até a acreditar que JNP seja actualmente um pacífico conservador pronto a aceitar a Democracia em todos os seus aspectos).

A questão: parece que o dr Nogueira Pinto ia proferir uma conferencia na Universidade Nova sobre Democracia e Populismo. E que a dita conferencia seria apadrinhada por uma organização chamada “Nova Portugalidade”.

Pelos vistos, a Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas entende que a desconhecidíssima Nova portugalidade é “nacionalista e colonialista” pelo que a conferência de Nogueira Pinto mesmo se trata de questões absolutamente diferentes sê-lo-ia também!!!

Vai daí a AE avançou com um protesto que coenvolveria ameaças à boa ordem dos trabalhos. O diligente director da FCSH aproveitou a boleia para cancelar a alegadamente incómoda conferência receando eventualmente pela vida ou pela saúde do dr Nogueira Pinto ou de qualquer eventual espectador.

Nada de novo sob a roda do Sol. Por razões não muito diferentes (sempre a ordem pública) foram proibidas as Conferências do Casino patrocinadas pelos díscolos da Geração de Setenta (o melhor que Portugal teve no século XIX).

Um bando de rapazinhos patetas e provavelmente ignorantes faz um berreiro, grunhe um par de ameaças veladas e lá se vai o verniz democrático de uma Faculdade, dos seus dirigentes e dos seus estudantes que provavelmente desconheceriam o evento na sua esmagadora maioria.

Conheço, de raspão o senhor Coronel Vasco Lourenço e a Associação a que preside (A Associação 25 de Abril onde tenho comido uns magníficos cozidos à portuguesa, numa ambiente simpático e caloroso com amigos de sempre).

A Associação 25 de Abril é claramente – e com todo o direito – uma associação progressista, conotada com a Esquerda e que reúne boa parte dos chamados militares de Abril. Nada pois que permita associá-la a Jaime Nogueira Pinto, claramente um dos vencidos do 25A.

Todavia, nem o facto de JNP ser, eventualmente, um adversário político perturbou o claro pendor democrático e abrangente da Associação 25 de Abril que, ao saber do cancelamento canalha da conferência, imediatamente pôs os seus salões à disposição do conferencista. Chama-se a isto “espírito democrático”, nobreza democrática e amor à liberdade e à discussão livre.

A associação 25 de Abril não precisava de mais louros para se estabelecer como organismo digno e relevante na sociedade portuguesa. Porém, ao perceber ameaçada uma das liberdades que fizeram nascer o movimento que lhe deu corpo e razão de ser não hesitou em mostrar o caminho. O caminho da liberdade, da troca franca e leal de opiniões. Em breve, com os amigos do costume, lá irei para mais um almoço de cozido. Desta feita, entrarei mais contente, mais grato e mais consciente de que piso uma zona livre e digna.

 

*Ao senhor Coronel Vasco Lourenço (de quem por vezes discordo) à Direcção da A25A aos seus associados e frequentadores o abraço do cronista: o 25 A faz-se todos os dias mesmo que isso pese aos imbecis de alguma associação de estudantes e aos que com eles tergiversam, fogem, escondem-se ou calam.

07
Mar17

Estes dias que passam 344

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Debaixo de fogo

 

Tenho tentado alhear-me (aqui, só aqui!) da discussão política em curso no jardim à beira mar plantado. 

Não nego que depois do sufoco anterior sabe bem respirar um pouco mais à vontade.

Sabe ou saberia?

A dúvida que se põe tem alguma base. Mudaram os nossos hábitos de indisciplina económica e financeira? Alguém já tentou saber a que se deve a euforia gastadora dos últimos tempos? Será que o aumento do consumo interno apenas abrangeu produtos nacionais ou, pelo contrário, como tudo aliás indica (cfr as compras de automóveis para não ir mais longe), tal se deve à comprar de produtos importados que fundamentalmente só enriquecem alguns importadores e os países exportadores? Será que o milagre do deficit se deve a uma sábia governação ou apenas e fundamentalmente ao PERES e aos maiores cortes de sempre no investimento público? Será que, para este ano, também vão existir economias do mesmo teor ou já as esgotámos? E se sim, qual vai ser o défice (sobretudo no caso de se voltar a um investimento público já não digo idêntico ao  do plano Centeno - quem ainda se lembra dele?- mas pelo menos semelhante? Os gastos das famílias aumentaram com a consequência de uma grave diminuição do aforro privado e -paralelamente -de um aumento da dívida privada. A dívida pública cresceu. O total dos impostos cobrados não cobre a despesa efectiva. Vão ser necessários mais empréstimos para pcobrir esse diferencial. A que juros? Os bancos parecem apostados em emprestar para despesas pouco ou nada produtivas. E se é verdade que alguns parecem apostados no equilíbrio provisório das suas contas ainda ninguém exclareceu como é que a Caixa, a nossa querida, pesada, vetusta, política Caixa se distraiu em 5,5 mil milhões. Isto para já que ainda há muita conta para se fazer. 

O senhor Presidente da República anda imparável no comentário político a pontos de se poder pensar que ele presidia mais ao país quando comentava aos domingos do que agora quando nada mais faz do que andar aos beijinhos, posar para selfies e transpirar felicidade, alegria e progresso na pátria amada. Ninguém pede uma criatura carrancuda no palácio presidencial mas conviria, de quando em vez, alguma contenção, algum bom senso, alguma cautela. Isto é dito sem saudades do anterior mas sem parvamente se pensar que o país precisa de um novo Candide sem a qualidade de Voltaire mas com o pretensiosismo de Cascais. 

Finalmente duas palavras sobre Carlos Costa e Teodora Cardoso. O primeiro, convém lembrar foi nomeado em tempos do senhor José Sócrates. Passos Coelho apenas o manteve. Esta pequena lembrança vai para o distraído senhor Louça, essa espécie de catecúmeno que faz de economista nas horas vagas e que até, quem acreditaria?, o levou a "conselheiro" do Banco de Portugal (tal se deverá claro à sua experiência!) 

A segunda, que ninguém se atreve a considerar de Direita ou sequer conservadora, está sob fogo real por ter explicado que os milagres (sejam os de Fátima nos quais piamente acredita Marcelo, o quarto pastorinho, sejam os da mera economia real) têm sempre uma razão clara e evidente como já aima se disse. 

Para Costa, as "forças do progresso" (boa piada!) pedem a defenestração (coisa que nunca fizeram ao anterior titular do cargo que não viu, ouviu ou pressetiu o BPN) enquanto que para Teodora advogam o fim o do Conselho de Finanças Públicas. 

Chama-se a isto varrer para debaixo do tapete ou, pior, enterrar a cabecinha sonhadora na areia. 

09
Dez16

estes dias que passam 343

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O caimão desdentado

(se va el caiman , se va el caiman...)

 

A cantiga que vem em subtítulo fala de um homem que se transformou em caimão e vem a propósito de um revolucionário educado pelos jesuítas que, em poucos anos, se transformou em ditador e, durante muitos mais, agiu como tal.

Em 1960 éramos poucos os que exaltavam a figura tutelar (mas muito próxima de outras duas, já lá iremos) da nova Cuba. Cheguei a ir à embaixada de Cuba em Lisboa e durante algum tempo recebi (e lia interessadíssimo) algumas publicações de que só recordo a “bohemia” (cfr ilustração) e um par de revistas culturais razoavelmente vanguardistas e com grande diversidade cultural. Foi sol de pouca dura.

Cuba e Fidel, com Guevara e Camilo Cienfuegos, diziam muito aos meus dezoito-vinte anos. Como diziam alguns escritores e poetas subitamente divulgados e lidos ansiosamente (Guillen, Lezama Lima, Guillermo Cabrera Infante, Alejo Carpentier, a que se seguiriam, bastante mais tarde, Reinaldo Arenas, Herberto Padilla, Severo Sarduy, já claramente desiludidos, perseguidos e encarcerados). Era outra, e boa, excelente literatura, toda ela, mesmo no caso de Guillén, muito longe dos postulados do “realismo socialista”.

Todavia, Fidel começou rapidamente a morrer: o caso dos mísseis russos apontados aos EUA, retirados depois do ultimato a Kruschev e do enfrentamento de barcos americanos e soviéticos apontava cruelmente para um certo aventureirismo do soviético e mais ainda do cubano a quem, aliás, o russo nem sequer comunicou a retirada do armamento.

Depois disso, Cuba passou a depender exclusivamente da ajuda soviética que náo supria cabalmente todas as necessidades. Entretanto, campanhas alucinadas para o corte da cana de açúcar lembravam, em mais patético, outras campanhas russas ou chinesas em que o alarde da mobilização escondia o desperdício de energias e a falta de produtividade no campo.

Cuba já não era mais do que um satélite longínquo de Moscovo, caro e impertinente. Servia para irritar os Estados Unidos, para albergar uns escassos centos de refugiados latino americanos e, a certa altura para exportar combatentes para guerras de libertação exteriores. Pouca gente para a Guiné Bissau, mais para a Etiópia e um fortíssimo exercito para Angola. Sem a ajuda de Cuba seria outro e bem diferente o regime de Luanda. Está por esclarecer a razão (a verdadeira razão) da purga do general Ochoa (comandante do exército que salvou o MPLA) e de tantos oficiais seus. A teoria abstrusa e falsa do tráfico de droga e de diamantes nunca se comprovou. Há quem lembre o exemplo das purgas stalinistas em relação aos enviados soviéticos a Espanha ou a decapitação do Exército Vermelho nas vésperas da IIª Guerra mundial. A popularidade interna e externa de Ochoa ameaçariam Fidel e torná-lo-iam um candidato credível à direcção de um país crescentemente fragilizado pela obediência à URSS e pela incapacidade em alimentar o seu povo.

Junte-se ao quadro a persistente fuga de cidadãos que arriscavam a vida ao cruzar os noventa quilómetros de mar até à Florida. Bem antes do Mediterrâneo onde morrem emigrantes e fugitivos da guerra, havia esse pedaço de mar que foi túmulo de milhares de cubanos desesperados. No mínimo a percentagem de refugiados atingiu 12 a 13% da população total cubana.

Não há admiração que resista a esta permanente sangria de gente, fundamentalmente de gente jovem e educada.

Depois, e quase desde o início, houve uma persistente caça aos opositores políticos, aos intelectuais e a até a quadros da primeira resistência. Está ainda por explicar o desaparecimento de Camilo Cienfuegos que, na versão governamental, pereceu num desastre de aviação quando viajava para Havana. A tese de que uma tempestade súbita fez desviar o avião para o mar cai por terra ao não haver registo de qualquer modificação do tempo na região alegadamente sobrevoada por um Camilo já crítico da direcção fidelista.

A partir dos anos oitenta a história do PCC e de Fidel registam maiores e piores desastres: a desaparição da URSS mergulhou um país pobre e subdesenvolvido numa trágica corrida para o abismo. Anos e anos de privações de toda a ordem, onde a fome passou a ser algo de recorrente, evidenciaram a existência de duas Cubas: A primeira, oficial e governamental, e a segunda a que pertence a imensa maioria dos cidadãos, esfomeada se desesperada. A clique dirigente lembrava, para pior, o pior dos anos Brejnev. Velhos, incapazes, doentes e agarrados ao poder. E uma pequena mas resoluta resistência popular de apoio aos presos políticos e a reformas que não chegavam, aparecia e era cada vez mais apoiada internacionalmente a começar pela Europa.

Claro que a pertinaz oposição dos EUA e o bloqueio económico, tiveram uma enorme importância na estagnação de Cuba. E, sob certo prisma nem sequer foram eficientes. Cuba transformou-se num símbolo da luta popular, numa ilha cercada pelo imperialismo e tudo isso fortaleceu objectivamente a posição de Fidel. Criticar “el comandante” era afinal trair o país cercado e bandear-se com “los gusanos” anti-castristas, termo que por ali se transformou em anti-cubanos. De certa maneira, o bloqueio serviu os interesses da direcção cubana e foi a desculpa sempre repetida dos desastres da “revolução”

Boa parte da aura de Fidel deveu-se a uma esquerda romântica e cansada do sovietismo, do comunismo chinês e de outras gerontocracias do mesmo teor. O seu principal ideólogo foi Régis Debray cujo livro “révolution dans le revolution” se transformou na bíblia de uma aparente teoria do foco guerrilheiro baseado nos campos.

Debray chegou a tentar a aventura guerrilheira junto a Guevara mas este mandou-o embora por, alegadamente, o intelectual ter medo. Foi, entretanto preso pelo exercito boliviano e graças às declarações que prestou (sem tortura!), que ocorreu a prisão do Che. Claro que este estava já completamente isolado sem apoio na população que, autisticamente, pretendia libertar. A liberdade não vem nunca de fora, como no caso peninsular se viu com a invasão dos exércitos napoleónicos. Como de costume condenação de Debray a uma pena de prisão duríssima foi anulada pelo presidente Barrientos e regressou a França surpreendentemente aureolado pela glória militar revolucionária! É assim que se faz a história.

Obviamente, mesmo tendo dado longas entrevistas a Debray, Fidel não é responsável pela absurda teoria foquista de Debray. De resto, Fidel nunca se proclamou um teórico do marxismo mesmo se, nos seus longuíssimos e numerosos discursos, tenha ensaiado um par de vezes uma que outra novidade ideológica. Era um homem de acção e não exactamente um pensador.

Durou quarenta e seis anos como “líder máximo” e mais dez como fantasma persistente, trocando a farda caqui por um horrendo fato de treino. Deixou ao irmão Raul, personalidade menos carismática, a tarefa de governar e de ir, cautelosamente, enterrando alguns dos mais persistentes mitos e práticas revolucionários.

A sua última e definitiva morte (esta) por muito que o cortejo fúnebre impressione já não comove. Mesmo tendo a seu favor algumas importantes medidas sociais desde a reforma da saúde até ao combate ao analfabetismo, ficam de permeio a perseguição desenfreada aos opositores, a absoluta falta de liberdade cidadã, a incapacidade de criar uma economia eficiente, incluindo nela a capacidade para alimentar, mesmo espartanamente, a população.

Corre por aí, com estranha insistência, a tese que não houve culto da personalidade de Fidel. De facto, ele mesmo consignou que não queria medalhas, estátuas, nome em ruas ou o retrato em selos. É verdade. Todavia, por interpostos comités populares de defesa da revolução ou outros, instalou-se desde cedo na ilha o culto do “líder máximo” do “comandante”, a referência constante ao mais ligeiro dos seus ditos tornados verdades absolutas que convinha respeitar.

A humildade de Fidel lembra a de um outro governante perpétuo que fazia gala da pobreza, das solas esburacadas e da frugalidade. Também, por altura da sua (igualmente segunda) morte multidões encheram o país de prantos e de homenagens. Haja quem se lembre desse sombrio principio de Verão de 1970.

  • o dr Louça, alegado profundo conhecedor da literatura cubana actual opinou do alto da sua consabida cultura livresca que em Cuba havia tanta liberdade que até Leonardo Padura conseguia publicar os seus livros. Tirante o facto de desconhecer outros autores a quem a edição foi sempre negada, convém lembrar que Padura começou a ser publicado nos anos noventa já no auge dos anos difíceis e contou sempre com o apoio dos seus editores espanhóis. Não foi a edição cubana quem o consagrou mas a espanhola. E, até, a portuguesa. E o facto de, mesmo quando retrata Trotsky, optar por um tipo de romance “policial” permitiu-lhe, como ele próprio afirmou, passar entre as gotas da chuva.

 

 

 **na gravura: capa da revista "bohemia"

 

14
Nov16

Estes dias que passam 342

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Procuram-se seis milhões e quinhentos mil votos

Ou

Não foi Trump quem ganhou mas Hillary que perdeu

 

Há pouco mais de oito anos, discutia eu diariamente com o Iduíno Gomes, médico, luso-americano com trinta anos de hospitais em Boston. O Iduíno era filho de emigrantes no Massachussets mas ficou retido em Portugal durante a guerra e cá se formou em Coimbra.

Era um homem bom, generoso, eficiente e trouxe com ele, depois do 25 A, todo o seu saber na luta contra a droga. Ainda está de pé muita da legislação que ele propôs e Almeida Santos, seu velho amigo de Coimbra, redigiu.

Na altura eu era por Obama e o Iduíno por Hillary. Um dos seus argumentos era este: aquela era a última oportunidade para quem já passara a barreira dos sessenta anos. “Veja M, se o Obama ganha, ela só poderá candidatar-se com quase setenta anos. Este país (os EUA) não é para velhos, muito menos para mulheres velhas!”

Valha a verdade que, uma vez vencida nas primárias a sua candidata, o Iduíno, democrata leal e americano liberal (e socialista português), prontamente se declarou “obamiano”.

Não vou recordar o que, já naquela altura, me intrigava em Hillary. Nem sequer a áspera campanha por ela travada contra o seu rival. Convém, todavia, lembrar como o cavalheiresco Obama a nomeou para um altíssimo cargo e sempre a defendeu e apoiou.

Clinton, desde logo se percebeu, não desistiu de ser Presidente. Ao longo destes últimos oito anos, vimo-la tecer pacientemente uma rede de apoios, consolidar uma posição e impedir a progressão de uma nova geração de eventuais candidatos à nomeação pelos Democratas.

Esbarrou, apenas, em Bernie Sanders, um velho, e opiniático, senador, membro da ala esquerda do Partido Democrático.

E logo, na corrida pela nomeação, se viu onde estavam os jovens, os millenials, a nova geração do partido. Também é verdade que, provavelmente, o radicalismo de Sanders o impediria de bater o adversário republicano, fosse ele qual fosse. (Ou não! Sabe-se lá o rumo que a roda da História desenharia...)

Depois, começámos todos, pelo menos os que vêm talk-shows (Fallon ou Colbert que passam na tv portuguesa a horas das telenovelas), a ver que, se Trump era detestado, Hillary apenas conseguia aparecer como um mal menor. E não era por ser mulher, por ser competente, estudiosa e inteligente. Ela era, superlativamente, isto tudo como também aparecia como ambiciosa, fria, calculista e ligada aos grandes interesses corporativos (Já Obama lhe dissera o mesmo, lembram-se?). Advogada, senadora, Secretária de Estado, Hillary amassara juntamente com o marido, aliás um bom presidente com um único e grave defeito na América (womanizer, isto é mulherengo) e um erro de palmatória chamado bombardeamentos no Iraque (os Bush só vieram completar o já iniciado por ele), uma fortuna colossal não isenta de reparos e de críticas.

Hillary partiu para a batalha eleitoral, acossada à esquerda, lembrada como “falcão” e finalmente desarmada pelas reticências com que a esquerda do partido pareceu apoiá-la. Pior do que isso, o eleitorado democrata não parecia entusiasmar-se.

Hillary, como o bem aconselhado Trump avisou, representava o “sistema” seja lá isto o que for, não respondia aos desejos ou sonhos dos brancos (que ainda são a maioria) pobres e afastados do progresso. A América não é só Harvard ouYale, Springsteen ou Beyouncé, não é só o Upper East Side ou Wall Street. Se Hillary tivesse ouvido, pelo menos uma vez, as canções do Boss teria percebido isso. E teria percebido que Trump, milionário, canhestro, filho de emigrantes, era, apesar de tudo, uma das representações do sonho americano. E que talvez não fosse boa política ampará-lo na luta contra os outros candidatos à nomeação pelo Great Old Party, gente mais apresentável mesmo se entre eles estivessem dois “latinos” (Cruz e Rubio) fortemente ancorados à Direita. Ou Jeb Bush, outro representante do sistema e da aristocracia política republicana.

Em segundo lugar, tenho a ideia, porventura errada, de que os democratas viveram este ano que passou num estado de autismo político. Ouviam apenas o queriam ouvir e não perceberam a mensagem das primárias republicanas onde todos os candidatos “respeitáveis” morderam o pó sem apelo nem agravo. Trump, o grosseiro, o racista, o predador sexual, não só proferia as mais absurdas declarações como as repetia se atacado. E em dose reforçada. É verdade que alguns beaux esprits do GOP desviavam o olhar com ar horrorizado mas não as multidões que acudiam aos comícios. E mesmo as sondagens, sempre com os mesmos alvos, ouvindo as mesmíssimas pessoas, nunca deram a Clinton uma vantagem apreciável. Provavelmente, se os sondadores se tivessem dedicado a insistir nos swing states, talvez tivessem percebido que era ali que tudo se poderia passar.

Teria sido melhor pensar que um habitante de Detroit, cidade que tenta sair da horrível falência em que caiu, esperaria fervorosamente as promessas de Trump, de regresso à indústria americana tal como todos os “laissés por compte” do perdido império americano.

Em terceiro lugar, se é verdade que os EUA se criaram com emigrantes, nunca o número destes (dos nascidos fora do país foi tão forte em percentagem: Há vinte anos representavam 5% do total da população, agora, ouvi-o ainda hoje, tal número ultrapassa os 17%. Juntem-lhe a mundialização que é sentida como uma real perda de empregos pelos mais frágeis que, como na Europa, entendem que os seus benefícios vão genericamente para os mais ricos.

Trump, na América não diz nada de substancialmente diferente do que os populistas europeus dizem. Qualquer adepto do Brexit o compreende perfeitamente e, mais, o apoia. Basta ver como a srª Le Pen ou os populistas italianos festejaram esta vitória. Cujos ecos chegaram a Amsterdão, a Budapeste ou a Berlin e Varsóvia.

As reacções de que vou tendo notícia são surpreendentemente mais violentas do que as que Erdogan (que ainda ontem prometia regressar ao tema da “grande Turquia que não cabe nos 780.000 quilómetros quadrados” de hoje!) desperta. Ou a boa vontade que parece aureolar a China, país onde a democracia prospera como se sabe. Trump não gosta de emigrantes. Será que a nossa Europa, que nos enche de empáfia, trata melhor os milhões de fugitivos que batem à sua porta, quando se não afogam?

Voltemos à eleição americana. E aos seus números: Em relação aos votantes de Obama, Clinton regista uma perda segura de quase sete milhões de votos. Trump não melhorou o score republicano do anterior candidato e os resultados globais para as duas Câmaras provam-no. Se os democratas não ganham nos Representantes e no Senado não é menos verdade que melhoraram e os republicanos tiveram paralelamente algumas perdas. Nem o triunfo dos primeiros nem a perda dos segundos modifica decisivamente as perspectivas do novo Presidente que, para já, poderá nomear um juiz conservador para o Supremo Tribunal. Só isso terá consequências gravíssimas. As promessas de novos muros, de repatriamento massivo de emigrantes ou mesmo de retaliações contra o Irão, o Daesh são meras hipóteses dada a dificuldade em levar a cabo tais actuações.

Voltando, de novo, à eleição: parece que em muitas cidades americanas (quase todas de maioria democrata) há manifestações contra Trump. Parece que apesar do óbvio triunfo de Trump, há quem se bata na rua contra a escolha dele. Trata-se de um fenómeno marginal ou é algo mais? E se for assim, porque é que tanta gente se mostrou horrorizada quando Trump, “sempre esse homem fatal”, deixou no ar a ameaça de não aceitar a vitória de Hillary? Será que o protesto de esquerda é o único que vale?

Faço parte dos derrotados nas eleições americanas. Não morro de amores por Hillary mas sufoca-me a ideia de Trump ser o novo Presidente dos EUA. E, mesmo não sendo americano, aterra-me a ideia de que Trump vai ser uma fonte de inspiração para muitos europeus. Na França, no Reino Unido, na Itália, na Holanda (ai minha querida Amesterdão!...) . Isto não falando na Europa Central onde o trumpismo já é de regra. Assusta-me a ideia de que provavelmente já não verei (estou a dias de (per)fazer 75 outonos) um democrata na Casa Branca. Que diabo, um homem tem o direito de morrer descansado e o único Donald de que gosto é o pato.

*A jornalista Teresa de Sousa pede que não se faça de Hillary o bombo da festa. A culpa que morre sempre solteira, não é da senhora mas eventualmente de todos nós.

Vários outros abencerragens do comentário político culpam a Constituição Americana e o sistema dos grandes eleitores. Ou seja, são contra as regras do jogo quando este não tem o resultado que lhes agrada.

  • o comentador Rui Tavares andou dias e dias a confortar-nos com uma vitória de Clinton. Só de o ler, comecei a temer o pior. Tavares toma os desejos dele pela realidade. E, como de costume, engana-se.
  • Quando referi que só donald Duck me entusiasmava, esquecia-me do grande Donald Byrd, o trompetista revelado pelos Jazz Messengers e principal autor do disco “Black Byrd”, um must. Glória e paz à sua amável memória.

 

11
Set16

Estes dias que passam 339

mcr

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 Mário Silva 

(1929-2016)

 

Eu acabava de chegar à faculdade, ignorante de tudo ou quase mas convencido como qualquer caloiro que se prezasse, o que nem sequer me tornava original. De pintura nada sabia ou tão pouco que dava no mesmo. Tinha, em abono da minha boa vontade, começado a comprar uns livrinhos da Hazan de que só resta um dedicado a Utrillo com o título "Montmartre". Vejo agora que  o adquiri em Setembro de 59, na Figueira e traz o nº de ordem da minha biblioteca "1A" (provavelmente isto quereria dizer 1Arte. Recordo vagamente que depois vinha outro da mesma série sobre Renoir. Gostaria de pensar que já nesses meus 17/18 anos andava às voltas com arte quase moderna mas, de facto, fui comprando os livrinhos que a pequena livraria tinha meio perdidos e a preço de ocasião nas estantes.

A primeira vez que se me deparou pintura ao vivo, nessa Coimbra que eu começava a a percorrer como jovem toleirão e vivaço, foi  uma exposição do Mário Silva que na altura (inicios dos sessenta) causou farto escândalo não só porque ninguém estava à espera daquilo (pintiras, catálogo e, se não me engano, o traje do artista durante a vernissage) mas também, porque, noutro ponto da baixa Mario Silva apresentava uma composição que consisti  num arame farpado do qual pendiam esfaceladas duas luvas grossas raiadas de vermelho.

O Mário era um velho cábula bem disposto, vagamente aluno de Ciências, filho de um notabilíssimo professor da Universidade afastado pelo Estado Novo. Isso, o seu inato talento para o desenho, e o seu claro desejo de escandalizar a pacífica e iletrada burguesia coimbrã deram-lhe imediatamente naquele mar de águas paradas um perfil de audácia cultural e política que ele, posteriormente, justificou com nobreza, coragem e bom humor.

De facto, em Maio de 62, ei-lo que se junta sereno e corajoso, ao grupo de estudantes que ocupam pela segunda vez a sede da Associação Académica que a polícia selara depois de uma outra e anterior ocupação. 

A PIDE entendeu transferir para Caxias quarenta e quatro desses ocupantes. Entre eles, Mário Silva e quem estas linhas vai debitando. Foi uma estreia absoluta para ambos e uma espantosa lição de vida e de camaradagem para quantos ali penaram nas casamatas do reduto norte da cadeia de Caxias. 

Dessas forçadas férias, guardo com ternura e comoção um desenho do Mário oferecido "ao companheiro de cela Marcelo com um abraço do Mário silva, Caxias 29 de Maio de 62" Quiz digitalizá-lo mas a minha conhecida inépcia não soube aviar as linhas do desenho pelo que optei por uma fotografia do pintor.

A partir daí, tornámo-nos amigos e ao longo destes últimos cinquenta anos fomo-nos encontrando de longe em longe mas com alguma constância sobretudo quando eu regressava à Figueira da Foz, cidade que Mário Silva escolheu nos anos 80 para viver. Honra seja feita à minha cidade: há desde há vários ano, uma praia e um largo com o nome do pintor e um busto dele. 

O Mário nunca perdeu o seu ar de boémio bem humorado, mesmo se isso lhe tirava clientes ou lhe diminuía credibilidade como artista. Sempre que o via, irradiava entusiasmo,esquecia sacanices, tentava manter-se fiel à sua juventude e ao seu longínquo projecto artístico O Mário era, cum granu salis, uma réplica tardia mas limpa de uma certa maneira de estar no mundo que ia buscar atitudes e rebeldia à "escola de Paris", mesmo se ele nunca tivesse tentado ser um epígono: ele tinha imaginação, sensibilidade e cultura mais que suficientes para evitar ser um discípulo retardado.

Todavia, a alegria, a vitalidade e a honradez intrínseca do Mário deixarão um rasto nos amigos que restam (e já não somos assim tantos...).  Para mim, esta é uma semana negra dois amigos no mesmo dia é dose. Dois artistas plásticos é uma coincidência triste. Ficamos todos mais pobres e mais sós. 

Permita-se-me que neste adeus ao Mário, o junte a uma já extensa lista de desaparecidos no grupo dos presos de Caxias em Maio de 62 (apenas citarei os mortos de que tenho a certeza, podendo infelizmente haver mais)

Abilio Vieira, António Ferreira Guedes, Alfredo Soveral Martins, Alfredo Fernandes Martins, José Martins Baptista, Francisco Delgado, Jorge Manuel Bretão, João Quintela, Luís Bagulho. Curiosamente, ou talvez não, todos eles se distinguiram no combate cultural, na organização da democracia  e são, foram, exemplos de vida  e de ética. Orgulho-me deles, orgulho-me muito deles.Que falta me fazem. 

08
Set16

Estes dias que passam 341

d’Oliveira

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“... fogo que arde sem se ver...”

 

O Verão é mau conselheiro e a prova mais evidente disso é o conjunto de trapalhadas em que o governo se meteu. Não vale a pena falar dos três briosos Secretários de Estado que aproveitaram a boleia da GALP para ir ver a bola. Parece que não se demitem e, espantoso!, ninguém os manda dar uma volta ao bilhar grande. Vão continuar por aí, diminuídos na sua tarefa, olhados pelo público como gente que se vende por pouco, incapacitados de meter o bedelho desavergonhado nos problemas da GALP (e não só...), vistos com desconfiança por boa parte dos agentes económicos e apontados a dedo pela Direita que, desta vez tem três bombos da festa à disposição.

Mas parece que eles não percebem, o que diz muito da inteligência das criaturas e, mais ainda, da ética delas.

A Caixa Geral dos Depósitos então, é um sufoco. Um escândalo, um sinal de parvoíce daquele pobre Ministro das Finanças que, dia a dia, mostra eloquentemente a verdade do famoso “princípio de Peter”. Aquele pobre diabo era um técnico razoável e tinha, com mais uma dúzia de luminares,, fabricado uma espécie de plano financeiro para o P.S.. Depois, com os acordos da “geringonça” o projecto tantas voltas sofreu que mais parecia a túnica de S Sebastião mártir.

O homenzinho aguentou a desfeita e, deslumbrado pelo poder, seguiu em frente com a barriga recheada de sapos.

Não percebeu, não aprendeu (duvida-se que sequer aprenderá), e aí anda ele com todas as previsões a saírem-lhe furadas. Agora esta aventura da direcção da Caixa é o que é: a opinião pública, o Presidente da República e os parceiros da frente popular dão-lhe com os mimosos pés. Desconheço o que farão as personalidades imprudentemente convidadas e recusadas pelo BCE. Algumas optarão por fazer o mesmo que Leonor Beleza (que não precisava disto e que se dispunha a exercer o cargo de borla) e já avisou que não dá nada mais para o peditório.

Depois, mesmo que haja naquele banco mastodôntico e cheio de fífias, culpas de anteeriores Governos, a opinião geral virar-se-á sempre contra o actual. A CGD não é uma entidade simpática e, sobretudo, foi sempre algo de lento, perro, burocrático e tristonho. Eu que, como dezenas de milhares de aposentados da função pública, aturo a inércia da Caixa por mera preguiça descubro estupefacto que são precisos mais de cinco mil milhões para por aquele naufrágio à tona. Para já!

Claro que somos nós todos, os do costume, os que pagam impostos, os que não conseguem fugir às investidas do fisco, quem pagará esta brutalidade. Sem garantias de que, desta vez, fique tudo bem! Sem garantias de que não haverá despedimentos! Claro que vai haver! Sem garantias de que permanecerão os mesmos balcões. Claro que muitos encerrarão!

Tudo em nome do “banco público” que nunca procedeu como tal. A CGD estava no terreno tal qual os bancos privados, gorda à custa de ser o banco pagador de centenas de milhar de funcionários, gerida por criaturas escolhidas a dedo pela sua competência (veja-se Vara!!!) que deram aval a operações que se traduziram em prejuízos gigantescos e a este buraco negro que só o BE e o PC pintam alegremente de vermelho.

Deixemos, entretanto, estas miudezas e passemos aos fogos.

E comecemos pela imbecilidade maior. Alguns cavalheiros e, mormente, a rapaziada do Governo, não perceberam que a teoria do fogo posto (que obviamente existe) não justifica a teoria de que somos vítimas de uma conspiração de incendiários medonhos. Sobretudo o argumento cretino que que muitos fogos “começaram de noite”. Se essas criaturas tivessem um mínimo de testa poderiam dizer isso mas temperando a afirmação com estoutra: tais incêndios foram detectados de noite o que é um pouco diferente. O mato poderia já estar a arder brandamente mas só com a escuridão, o vento e a força crescente das chamas é que verdadeiramente se deu pelo incêndio. Como diz a epígrafe (mesmo se aplicada a outra circunstância) ele há fogo que arde sem se ver. Pelo menos quando começa.

A segunda desculpa é a de que as medidas propostas há cerca de dez anos são caras. Claro que são. Mas para quem não quer o pais ainda mais “litoralizado” é pela prevenção, é a juzante que se tem de começar, aliás, falar de custos aqui é algo de ignóbil. Mesmo poucos, os cidadãos do interior não podem constar de um deve haver burocrático que os reduz a uma enxurrada de campónios velhos, fracos, doente e feios.

Não há um cadasto sequer medíocre, dos proprietários florestais mesmo que se saiba que dezenas de milhares ou mais de um centena de milhares são desconhecidos e, porventura, como é o caso de um amigo meu que se descobriu herdeiro de umas bouças perdidas no interior profundo, ignorantes da sua parca, exígua riqueza.

O meu amigo referido, mesmo que quizesse visitar os seus domínios florestais, teria de encontrar quem o guiasse, quem reconhecesse marcos perdidos e pudesse (mesmo pagando) mostrar-lhe três pinheiros e muito mato à solta.

O cavalheiro (um ministro) que disse duas pacoviadas sobre este assunto nem percebeu que há milhares de proprietários rurais que não limpam os terrenos por as despesas serem sempre superiores ao valor das árvores que lá estão.

Todavia, a questão central permanece: sem cadastro não há solução. Ou há: confisquem-se todas as terras ardidas de que se desconhece dono e/ou responsável por medidas de prevenção. Parece que há cavalheiros que propõem esta solução deveras drástica.

Outra questão: porque é que não ardem, ou ardem raramente, as florestas propriedade das grandes empresas de papel? Será porque, ao contrario dos pequenos e médios proprietários (e muitas vezes do Estado ou das autarquias) pagam e mantém batalhões de sapadores e vigiam a todo o tempo as suas matas?

Outro ponto: há alguma política que preveja, proteja, incentive a plantação de floresta tradicional portuguesa, ou afinal só se protege o eucalipto (árvore que até se dá bem com o fogo) e o pinheiro? Ao que sei, mas posso estar mal informado, os carvalhos, os castanheiros, as faias ou os teixos ardem menos. Claro que investir nestas (e noutras) espécies tradicionais é investir a longo prazo, não dá lucro fácil, demora muito a ver as plantações crescidas.

A floresta, todos o sabem, arde. Cá ou na Califórnia, na Austrália ou na China. A floresta siberiana arde. Mas não arde com esta impetuosidade quase anual. Até há dias, metade da área ardida na União Europeia era portuguesa! Isto não espanta os tolinhos que tem responsabilidade no sector? Será que só cá é que há uma praga medonha de incendiários, a soldo sabe-se lá de quem, que tem por fito devastar o ridente campo português?

Fiquemo-nos por aqui neste descoroçoado rosário de queixas antigas. Ou melhor: faça-se uma referência à tragédia da Madeira. Ao que parece, apesar de tudo, e do Jardim, há um projecto para reflorestar as zonas invadidas por espécies exógenas e voltar à boa e vlha laurissilva e ao arvoredo indígena. Há, viu-se, uma actuação decidida e rápida para minorar a vida de quem perdeu tudo. Todavia, conviria recomendar ao senhor Presidente do Governo Regional mais cautela quando (esperemos que não se repita) houver outro incêndio. Sª Exª deverá ser menos, muito menos, assertivo. Bem sei que lhe cabia o ingrato papel de tranquilizador dos turistas que lá estam e dos que para lá irão. Foi porém imprudente quando anunciou ter a situação controlada. Foi impudente quando declarou que não precisava de auxílio exterior (parecia o seu antecessor). Precisou, obteve-o e vai precisar ainda de muita solidariedade nacional. Aos governantes não compete parlapiar tecnicamente. Isso é com quem sabe e Albuquerque não é metereologista nem bombeiro. É um político e apesar de tudo está a dissipar a imagem daquele Bokassa (cito o brilhante Jaime Gama que lapidarmente definiu o cidadão Alberto João) insular que o antecedeu.

Do mesmo modo, acho indecente, os ataques à Ministra da Administração Interna por não ter acorrido ao primeiro sinal. A ministra também não é bombeira e a sua presença no local só ia prejudicar a já dificl tarefa dos bombeiros. Dizer que a criatura foi para uma festa na hora em que estlou um incêndio é uma canalhada. À Senhora pede-se bom senso, direcção política e, já agora, que tenha a força suficinte para convencer o Governo a fazer o que há dez anos se propôs e foi esquecido. Se calhar está-se a pedir demais. Esperemos que no próximo ano de incêndios (e este inda vai no meio) alguma coisa esteja feita. Até, para quem é crente, só resta reza.

(este texto foi escrito ainda em Agosto mas o computador de Lisboa agora recusa-se a entrar no blog!  Manias de quem é velho e não vê quem o passe à reforma.)

 

 

 

 

 

14
Jul16

Estes dias que passam especial

d’Oliveira

Alto e pára o baile!

 

Os escassos leitores que ainda me aturam sabem que respeito escrupulosamente o direito (deles) de comentarem os meus textos.

Tento com isso, manter tanto quanto possível um diálogo que vá um pouco mais além do que ocorre com outras plataformas onde, para entrar numa "conversa", é preciso obedecer a várias condições.

Aqui é simples: opino sobre o que quero ou me cai à mão e, se alguém estiver para aí virado, comenta e inicia-se, eventualmente, um diálogo civilizado. 

Ocorre, porém, que, de longe em longe, um aprendiz de comentador, entende vir falar de bugalhos quando eu me fiquei pelos alhos. Ou seja, não bate a letra com a careta.

Isso ocorreu num post da série "Estes dias que passam" onde a propósito de um bom poeta e velho amigo que muita falta faz, eu tratava entre, outras coisas, de uma grosseira manipulação da história cometida por um cavalheiro que tem tabuleta e lugar fixo num jornal de referência e azucrina os leitores com umas crónicas onde se mistura muita parra, muita interpretação e pouco facto histórico correcto. 

Um leitor SILVA lembrou-se de vir falar num casino, num despedimento colectivo e em juizes segundo ele corruptos. Nada a ver, nadinha, com o meu pobre texto. Ando um pouco preguiçoso, metido noutras cavalarias e passo dias sem vir ao blog. Quando dei pela nota "Tem um comentário para aprovar" fiquei envergonhado com o meu desleixo e, entre dois goles do primeiro café da manhã, despachei logo a autorização para publicação. Depois iria ver se valia pa pena reponder.

Depois..., depois esqueci-me e publiquei três ou quatro textos sem nunca mais me lembrar do comentário. Um dos meus diligentes companheiros de viagem incursional, lembrou-me hoje do comentário que nada comentava.  

Obviamente, esse comentário merece ser apagado e sê-lo-á se eu conseguir perceber como é que a coisa se faz. Entretanto, aqui venho, de corda ao pescoço, muito cheio de mea culpa, mea maxima culpa, pelo meu deslize. 

E prometo vir a ter mais atenção. 

16
Jun16

Estes dias que passam 340

mcr

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Além do mais presunçosos e/ou ignorantes

 

O jornal Público pela pena de uma senhora chamada Leonete Botelho persiste em falar de bidonville (substantivo masculino) ou seja do “bairro da lata”, em letra grande e no feminino. Bidonvilles houve dezenas ou centenas à volta de Paris, das suas cidades satélite e de outras grandes ou médias urbes para onde a emigração se dirigiu.E conviria lembrar à criatura que não há nenhuma povoação chamada Bidonville pelo que a letra grande só demonstra ignorância. Crassa!

A mesma senhora ao falar das porteiras de Paris (sobretudo das condecoradas) chamou-lhes “gardiennes” o que nem está mal mas, desta feita, precedeu a palavra de um artigo masculino. Estaria certa se falasse de “gardien(s)” mas o seu a sua dona. As excelentes porteiras mantêm em francês o género feminino....

 

 

O Senhor Presidente da República lá entendeu celebrar o 10 de Junho em Paris. Daí não veio mal ao mundo e até entusiasmou uns milhares de portugueses que por alí fazem pela vida.

Parece-me, porém, estulto, duvidoso e pouco sério, o populismo com que atacou as elites e louvou o “povo”. Ele próprio, Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, é um acabado exemplo de membro das elites, nasceu nas elites e os seus amigos, familiares, colegas e demais conhecidos vêm todos das elites. De elites que vêm desde o Estado Novo ou mesmo antes até hoje. E que se têm continuado pelos filhos do Sr Presidente, emigrantes de luxo no Brasil

Que muita da elite nacional, nossa, seja o que é, e é bem pouco, não justifica o populismo tolo (para não usar expressão mais dura e mais adequada) da comparação. Pode exaltar-se o trabalho, o sacrifício, a honradez e progresso sem andar a armar aos cucos. Mas, como previ, o Senhor Presidente não tem contenção no entusiasmo e na procura de popularidade fácil.

 

O Sr Primeiro Ministro, sempre à boleia do PR entendeu discursar em francês. Por acaso dirigia-se aos emigrantes e bem poderia ter metido algumas frases em português. Mas não: lá foi desfiando num francês medíocre, alguns lugares comuns nisso igualando o PR que também não disse nada de substantivo. Digamos que ambos teráo pensado que para quem era (o povo ignaro emigrante) bacalhau bastava.

Bem mais disse Hollande que até prometeu muito ensino de português nas escolas francesas. Promessas de Hollande são o que são mas, na verdade até falou das relações franco-portuguesas e da Europa. Os dois portugueses bem poderiam ter aprendido alguma coisa mesmo se o professor (Hollande) raras vezes ultrapasse o sofrível se é que lá chega.

Uma senhora Secretária de Estado da “Educação” é, diz-se, a ponta de lança do ajuste de contas com o ensino privado. A criatura, seguramente mãe estremosa e endinheirada, tem dois rebentos que frequentam a Escola Alemã, coisa privada e cara. Parece que a senhora justifica o facto com a vantagem da aprendizagem de uma segunda língua (“materna”) e com as possibilidades de um ensino (e de um futuro?) “internacionalizante”!

Entschuldigung, gnadige Frau, a internacionalização pela língua alemã é de via estreita. Dá para a Alemanha e para a Áustria, por junto e atacado. Para as criancinhas adoráveis se internacionalizarem mais valera o Liceu Francês ou as diferentes escolas inglesas incluindo a St. Julians!

Vir uma criatura assim defender com argumentos irrisórios e coxos a sua opção prova que nisto de Educação quem tem dinheiro foge para o Privado mesmo a cantar as maravilhas do Público. Resta saber se a Escola Alemã foi alvo por parte do Estado Português de alguma benesse mesmo que não se traduza em apoio financeiro.

A discussão ensino público versus privado esquece que os privados estão obrigados a leccionar exactamente o mesmo que o público. Fica, também, por saber quanto custa cada turma no público. Dizem-me que o mesmo ou até mais. Ponhamos que até é menos (não estou a ver os privados a perder dinheiro ou, a deixar de o ganhar). A questão essencial é saber onde reside o melhor ensino, o mais próximo, o mais adequado, o dotado de melhores instalações e melhores professores para já não falar das actividades circum-escolares postas à disposição dos educandos. Andei, quando liceal, quer em liceus quer em colégios. Bons e maus. A única diferença que notei era que no privado a turma era mais, muito mais, pequena (Falo dos 6º e 7º anos alínea de Direito) o que tinha como consequência um ensino muito mais personalizado, logo mais eficaz.

E terminemos com o fantasma do senhor Nogueira da Fenprof. Convenhamos que em 30 anos de professor apenas deu aulas nos dez primeiros. E, mesmo durante esse período, já gozava das regalias atribuídas aos sindicalistas, o que provavelmente reduzirá o seu tempo efectivo de professor ainda mais.

Há vinte anos, mais de metade da sua vida adulta, que não dá aulas. Teme-se mesmo que vá passar os próximos vinte a fazer o mesmo que ora faz. Pessoalmente, entendo que para a função sindical deveria funcionar o mesmo limite que existe para um par de funções públicas relevantes seja a de Presidente da Câmara seja a de Presidente da República. Para evitar a cristalização no ortorrômbico...

Eu sei que há instituições, mormente políticas, em que a profissão de origem é orgulhosamente apresentada mesmo se o marceneiro ou o serralheiro não entram há décadas numa oficina. Convém, porém, manter a ficção de que são trabalhadores, verdadeiros proletários, povo e não elites, como afirma o Sr. Presidente da República, morador no bairro económico da Quinta da Marinha.

Acabemos, para já, o folhetim melancólico sobre o estado pouco reluzente da “pátria exausta” se é que me permitem citar o sr. Couto Viana, poeta e corifeu do Estado Novo de que já ninguém, mesmo eu, se lembra com exactidão. Também estas criaturas acima citadas caminham velozmente para o olvido. Daqui a 50 anos serão puro esquecimento o que se não me consola sempre me alegra.