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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

04
Dez17

estes dias que passam 363

d'oliveira

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Também tu, mcr?

 mcr 2 e 4 de Dezembro

Também, leitoras e leitores amigos mesmo se escassos. A minha vontade, confesso-o já, era passar ao lado, assobiar uma modinha e fingir que estava distraído. Mas isso, convenhamos, é impossível. Há mortes que fazem um tal arruído (escrevi arruído, à moda de Fernão Lopes) que não há escapatória possível.

No meu caso, por várias razões sendo que a principal é o facto de ser leitor do “Público”. Leitor desde o primeiro dia com a mesma devoção que me liga a “Le Monde” e a “L’Express”, publicações que compro e leio desde os inícios dos anos 60. Os tempos eram outros, é verdade, mas foi com esses órgãos de imprensa que me formei. Em plena guerra da Argélia, é bom recordar. Numa altura em que era difícil discordar do governo da França e apontar o dedo contra a persistência de mitos como o da pátria indivisível. Hoje qualquer deles mostra cicatrizes e diferenças. Como o Público, claro. Todavia, o caminho do jornalismo livre e independente é mesmo assim. Mudam os tempos, mudam as causas mas não o espírito “frondeur” que, provavelmente amortecido, ainda mantemos mesmo com o passar dos anos, a experiência, as ilusões desfeitas, a “áspera verdade” (Danton) e o inevitável balanço que qualquer um de nós tem (deve) de fazer sob pena de ignorando-o se transformar no papagaio de Long John Silver.

Deixemos, porém, a “Ilha do Tesouro” e passemos à morte do moderno fazedor de tesouros que hoje irá a enterrar: Belmiro de Azevedo, o homem da Sonae, da Optimus, do Público. Morre carregado de um coro de elogios vindos das mais diversas personalidades muitas das quais ele, com algum humor, outro tanto de sarcasmo e muita malícia, foi alfinetando. Bastaria o exemplo de Marcelo Rebelo de Sousa de quem BA disse o que Mafoma não se atreveu a dizer sobre o toucinho. O mais interessante da farpa “belmiriana” é ela acertar em muitos dos pontos fracos de MRS que do comentário do empresário sai muito mal ferido, as mais das vezes com inteira justiça.

Eu nunca falei com a personagem que, de resto, não me fascinava especialmente. Não que não lhe admirasse a habilidade e o gosto pelo risco ou o facto de, ao contrário da grande maioria dos seus colegas, ter criado na Sonae e nos restantes universos empresariais que criou uma verdadeira “cultura de empresa” que, desde cedo, foi claramente visível. Desafiou os poderes do Estado e nem o PREC o conseguiu dobrar. Foi, nessa altura, defendido pelos seus empregados e colaboradores que, como ontem alguém referia, chegaram a fazer uma “greve ao contrário” contra os apetites perigosos de um “Estado” inimigo da iniciativa privada e ignorante do que uma empresa moderna era. As batalhas que perdeu, e o caso da PT é exemplar, perdeu-as na secretaria por batota governamental. A história é o que é mas apetece pensar no que a PT seria gerida por Belmiro. Pior não estaria e é mesmo altamente provável que estivesse muito, mas muito melhor.

Já escrevi que nunca o conheci (nem fiz por isso, aliás). Limitei-me a avistá-lo muitas manhãs de sábado ou domingo a caminhar pelo Molhe metido num vulgar (aliás feio) fato de treino. O homem que passava não parecia rico nem pretendia parece-lo. De certo modo, até essa simplicidade sabe a virtude.

De todo o modo, devo-lhe o “Público”, um jornal que leio desde o primeiro dia e que é uma excepção no panorama jornalístico nacional. Zango-me com o jornal duas ou três vezes por mês mas sei que isso só melhora a relação leitor-jornal. É são discordar. É são irritar-me com certas opiniões ou editoriais. Mas esse é o preço que gostosamente pago diariamente para ter uma informação decente, equilibrada.

Belmiro de Azevedo nunca terá ganho dinheiro com o “Público”. Consta mesmo, que até o perdeu. Aliás, tenho uma prova viva disso. Fui, há largos anos, convidado para colaborar regularmente com uma coluna semanal (ou quinzenal já não recordo). O convite foi aliás repetido durante uns tempos mas tempos de austeridade posteriores deixaram-no sem efeito. Graças a isso, juntei um quarteirão de crónicas que mais tarde com mais alguns acrescentos publiquei em livro. Sem o convite do Público nunca as teria escrito e, provavelmente, nunca teria tido a oportunidade de corresponder ao convite para vir a integrar a equipa deste blog onde escrevo de forma regular há mais de dez anos. Foi bom, foi mau? Só os meus leitores e leitoras poderão responder. A mim dá-me gozo e Belmiro de Azevedo com o seu gesto de criar um jornal (ou de o pagar incondicionalmente) deu-me a coragem para estar aqui a crocitar constantemente contra o estado a que isto chegou.

Para terminar: fala-se muito na coragem de Belmiro em criticar sem receio o poder político. Convenhamos: o homem tinha poder suficiente para o fazer sem temer retaliação. Em vez de coragem, prefiro pensar que ele era profundamente independente dos pequenos potentados que por aí pululam. Mas a independência também tem os seus custos e a PT ou o BPA são disso inequívocos sinais. E isso não é pouco, bem pelo contrário.

R.I.P.

PS: morreu Zé Pedro, guitarrista do Xutos e Pontapés. Não era a minha música, pouco o ouvi mas que ele marcou, e muito, a música ligeira portuguesa, não há dúvidas. E pelo que vi na TV de entrevistas dele, havia ali, um lado luminoso e digno de estar na música e na vida. Só isso já faz uma personalidade.

R.I.P.

 

* razões de pura preguiça atrazaram este post escrito no quente dos acontecimentos. Estive para não o publicar mas o que lá digo diz-se em qualquer momento. Sai hoje sem modificar uma única letra. Preguiça e teimosia e, provavelmente, muita pretensão, são as minhas coordenadas e um pouco o meu compromisso.

13
Nov17

Estes dias que passam 346

mcr

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O “jornalismo” de referência de vez em quando descarrila

 

Sou um empedernido leitor de jornais. Sempre fui, parece-me. Mantenho com elas uma relação de fidelidade quase canina. Com “Le Monde” a relação tem 55 anos. O mesmo com “L’Express” mesmo se, ao longo destes anos, a revista tenha mudado muito, demasiadamente. Durante muitos anos fui um fiel leitor do “Diário de Lisboa”, um vespertino de que me saparei algum tempo depois do 25 A.

Quando o “Público” apareceu (vai para quase trinta anos) despedi-me sem saudades do JN e nunca mais comprei outro jornal diário (português). Volta e meia, irrito-me mas, genericamente (como no caso do “Le Monde”, “El País”, “La Republica”), não desisto.

Todavia, há dias em que me zango. E hoje é um deles. Desde há muito que no “Público” há uma secção chamada “espaço público” que normalmente acompanha o editorial. A coisa funciona assim. Alguém, os redactores, suponho, dão setas verdes ou vermelhas a pequenas notícias. Algo semelhante aos “altos e baixos” do Expresso. Hoje, segunda feira, havia duas notíciasa verde uma nem sim nem sopas e uma a vermelho. É sobre esta que quero escrever: o sr Rajoy foi à Catalunha apoiar o PP local e num comício pediu o voto da maioria silenciosa para “recuperar a região do caos do separatismo”.

O redactor notador achou isto péssimo, mesmo se não saibamos se é a frase em si (dentro de comas), a recuperação (perfeitamente alcançável dado o que sabemos) ou a referencia ao caos do separatismo.

Vejamos

A frase é perfeitamente plausível num político conservador ou até num político qualquer desde que não seja a favor do separatismo.

Que Rajoy apele a essa maioria (que raramente vota e que, segundo consta, é contra a independência) é absolutamente normal e se seta vermelha houvesse seria devido a não pedir esse voto.

Que a Catalunha enfrenta grandes dificuldades futuras ninguém duvida. Fugiram, até sábado passado, 2700 empresas. Pelo menos metade (aliás um pouco mais) dos votantes nas últimas legislativas é anti independentista e já se tem manifestado com uma força semelhante às manifestações independentistas. Que uma “república catalã” ficaria absolutamente isolada na Europa (ou na Europa da UE) é, até à data, uma clara certeza. Que os cidadãos catalães ficariam fora do euro, de Schengen, idem. Que o principal mercado catalão (a Espanha) pode fugir, boicotar, diminuir é outra verdade de La Palisse. Que isso criará dificuldades enormes e protestos identicamente fortes é uma evidência. Que o primeiro ministro de Espanha não queira uma situação deste género nem merece discussão.

Portanto, pergunta-se à criatura que assina RS onde é que ela vê razão para uma seta vermelha.

Claro que RS pode não gostar de Rajoy. Pode detestar o PP e os conservadores onde quer que seja. Pode ter um profundo amor pela “causa catalã”, pelo senhor Puigdemont, pela senhora Forcadell, pela CUP. Pode detestar medonhamente a Espanha, a União Europeia, o euro e sei lá o que mais.

Todavia, para isso, só tem de pegar na caneta e escrever um artigo de opinião. Se a tem. Se é capaz de falar do assunto com um mínimo de conhecimento e, já agora, de qualidade. Não pode, ou não deve, fingir que a sua seta tem razão de ser numa notícia de dez escassas linhas. A menos que ache que Rajoy é um fascista encapotado que, de faca nos dentes, está a invadir a Catalunha para sufocar pela força das armas o que alguma lei (qual) direitos ofendidos e legítimos.

Já por aqui falei dos padeirinhos de Aljubarrota espécie indígena que traz nos meigos coraçõezinhos a lembrança imperecível dos batalhadores da época joanina, dos restauradores de 40 e a cólera pelo roubo de Olivença. Não suporta “castelhanos”? Pois que não vá ao “El corte Inglês”, que não compre na “Maximo Dutti”, na “Zara” que não tenha conta no Santander Totta ou no Millenium (hoje de “La Caixa”, empresa que logo no primeiro dia abandonou a Catalunha). Que indague cuidadosamente se as laranjas ou as cenouras ou as cebolas que compra no supermercado vêm ou não do odiado país. E cuidado com o peixe que vem de Espanha às toneladas. E com os camarões congelados, os carabineiros sem falar do bacalhau (há três ou quatro grandes marcas espanholas a impingir-nos o bacalhau deles. O mesmo se passa com o atum. O melho seria mesmo fazer uma campanha contra os milhões de turistas espanhóis que invadem o país nas datas festivas (brevemente cairão por cá durante o feriado da proclamação da Constituição). Coño, RS, a por ellos!

E "visca Catalunya liura"...

02
Nov17

Estes dias que passam 345

mcr

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O regresso do presidente

ou o não regresso

ou...

 

Parece que o senhor Puigdemont volta à “pátria” desalmada, depois de não ver Bruxelas em festa com a sua fulgurante presença (e nem refiro os seus consellers igualmente em trânsito pela capital belga). A conferência de imprensa, não obstante ser dada em três línguas (não me pareceu ouvir catalão, provavelmente porque ninguém perceberia) foi de uma pobreza dramática. Eu não sei se o sr. Puigdemont se apercebeu do ridículo da sua posição, da inabilidade da sua fuga precipitada, da impossibilidade (legal, teórica, política e ética) de alguém lhe conceder asilo político.

Também não consigo entender como é que alguém se lembra de desandar para paisagens mais amenas e deixar para trás cinco companheiros de Govern, para não falar em milhares de cidadãos desamparados, desesperados e (eventualmente) envergonhados com a deserção do chefe.

A menos que.... a menos que o pobre Carles quisesse fazer um frete a Rajov. Este, se bem conheço o galego, deve ter esfregado as mãos de contente. Um “sedicioso” em fuga confessa todos os crimes mesmo os que não ocorreram.

.................................

Estava eu entretido com outras coisas, sem terminar o texto que acima se lê, quando afinal verifico que o fugaz fugitivo não voltava à “terra liura” porque tanto suspirava. À terá onde, em conferência de imprensa, jurou voltar. Em duas ou três horas mudou mais uma vez, e como é seu costume, de opinião. Puigdemont não só erra a cada momento como é errático. Com esta (sei lá se derradeira) posição complica a vida dos seus companheiros. Dos que ficaram e dos três que, tendo-o acompanhado, entenderam vir defender-se em Madrid. Dar a cara. Ter a coragem das suas opiniões e convicções, mesmo se delas se discorde. Carles, o insubmisso inconstante, ficou no quentinho de Bruxelas, amparado por um advogado flamengo que já se distinguira por defender os pistoleiros da ETA. Está, pois, em boa companhia mesmo se qualquer pessoa dotada de senso duvide que ele, Puigdemont seja capaz de brandir uma pistola mesmo contra um adversário desarmado. Carles é tímido, para não dizer que é um cobardolas até dizer basta.

Afirma ele, pelo advogado dos mafiosos, que não confia na Justiça espanhola que, porém, inspira todos os restantes -e são uma boa dúzia- de dirigentes independentistas. A menos que os anime uma fé de mártires (sempre convenientes para uma causa nada e criada na boa burguesia catalã), eles esperam poder enfrentar a juíza que os vai ouvir hoje sem grande sobressalto. Todavia, e é aí que bate o ponto, a fuga de Puigdemont e de três ou quatro ex-consellers, basta, segundo juristas de várias tendências (incluindo no lote catalães), para se ordenar a prisão preventiva por receio de fuga. Aqui temos um belo exemplo da solidariedade do ex-President e do desnorte que campeia no bando nacionalista. Isto, esta caótica e insensata retirada do campo (incruento) de batalha, permite ver mais claro como a campanha independentista foi, como se alimentou de mentiras (Junqueras garantia mesmo depois da saída da “Caixa” que aquilo era mero folclore e que tudo regressaria à normalidade depois da declaração de independência), de obsessivos erros continuados (uma Catalunha independente da Espanha não teria nunca lugar na União Europeia, não exportaria os seus produtos com a actual liberdade, não conseguiria para os seus cidadãos a livre circulação na União, perderia seguramente grande parte do seu mercado exportador (que é, lembremos, intra-espanhol) não conseguiria para os seus habitantes um mirífico estatuto de dupla nacionalidade (como se anunciava) para não falar nos entraves que uma Espanha ferida poderia criar-lhe na fronteira (que é duas vezes maior do que a francesa). É duvidoso que conseguisse voos que sobrevoassem o espaço aéreo espanhol para o seu aeroporto e arriscava que as empresas estrangeiras até agora sedeadas em território catalão continuassem lá, sobretudo as que exportam (industria automóvel por exemplo). A propaganda independentista baseava toda a sua propaganda na aceitação cordial, simpática, construtiva do negregado “Estado espanhol”, sobretudo deste Estado ora governado pelo Partido Popular.

À margem: leiam o programa do partido de Puifdemont ou da Esquerra Republicana e tentem vislumbrar na sua filosofia intrínseca e nos princípios para que apelam, diferenças substanciais com o programa do PP.

Ainda mais à margem: uma gloriosa mas escassíssima minoria de entusiastas portugueses (os padeirinhos de Aljubarrota) sentiram-se profundamente irmanados com o agrupamento CUP que, numa região eminentemente burguesa e intrinsecamente capitalista por convicção e tradição, propõem sair da Europa, do euro e mergulhar nas delícias de uma espécie de via albanesa ou coreana( do norte, entenda-se).

Eu bem sei que estes lusitaninhos ardentes estão a dois passos de passar a colaboradores, ou aliados íntimos, do PS, de eventualmente, nele se integrarem. Vontade não lhes falta e muito menos descaramento mas que a coisa vem aí, ai vem, vem. Podem estar certos. O poder cheira deliciosamente a quem está à frente dele e não lhe toca. Ou como alguém já disse: o poder corrompe. Muito ou pouco, mas corrompe, desvaria, enlouquece.

24
Out17

Estes dias que passam 344

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jurista não praticante

 

Formei-me em Direito na Universidade de Coimbra no fim dos anos 60. Frequentei, até ser preso, o então chamado 6º ano, ou seja o Curso de Ciências Jurídicas, privilégio apenas acessível a quem tivesse uma média de 14 valores. A coisa seria, na época, uma antecipação do actual Mestrado, talvez um pouco mais, não sei dizê-lo ao certo. Nos anos que se seguiram, já advogado (a função pública estava-me vedada por razões políticas) frequentei e concluí o “Cours Superieur de Droit Comparé”, bem como duas outras variantes do mesmo dedicadas respectivamente ao Direito de Trabalho Comparado e ao Direito das Instituições Europeias. Depois da severa brutalidade das aulas conimbricenses era fácil obter notas bastante agradáveis nesses cursos e, por isso, obter bolsas de estudo que permitiam frequentar as universidades europeias onde esses estudos tinham lugar.

Entretanto, veio o 25 de Abril e alguns amáveis cavalheiros da “oposicrática” entenderam que eu poderia utilmente salvar a pátria dos egrégios avós, servindo a causa pública, primeiro na Segurança Social e depois na Cultura. Acabou-se o exercício do Direito e a eventual abastança que, na altura, ele prometia.

Confesso que a desistência da perseguição da riqueza não me causou especial engulho. A função pública, mesmo se levada a sério e rigorosamente, permite ao funcionário consciencioso fazer o que tem a fazer bem e dentro, muito dentro do horário convencionado. Ficavam-me, pois, livres os fins de tarde, as noites e os fins de semana. E as férias todas, tudo coisas impossíveis para um advogado que não tenha padrinhos. aproveitei conscienciosamente esse tempo imenso para ler, ver exposições, viajar, ir a festivais de cinema, de teatro e de jazz bem como a jogar bridge uma paixão que herdei de meu pai.

O mundo solene do Direito foi-se afastando de mim e eu dele sem remorso, saudade ou desgosto. Apenas um par de velhos amigos e colegas me ia dando notícia dos tribunais. E assim sobrevivi sem grande abalo até hoje.

Todavia, hoje, este meu adormecido mundo antigo, digno e austero, devotado à causa das pessoas e dos seus direitos começou a cambalear.

De facto a notícia de uma sentença que, além de insensível e insensata, cheira a beatério jihadista e a preconceito rançoso e canalha, sobressalta mesmo quem, desde há muito, anda longe dos subterrâneos da Justiça.

Ora vejamos: uma mulher casada teve uma relação adúltera com outro caalheiro. Resolveu, porém, terminar tal relação. Inconformado o amante preterido doravante chamado “corneador” solicitou ao marido “ultrajado” (doravante referido como “cornudo”, “chifrudo” ou “pirilau mole”) ajuda para a difícil tarefa de pôr a relapsa na renovada via do adultério.

Este, sempre prestável (resta saber se não terá ele mesmo empurrado a amantíssima esposa para os braços do galã repudiado) muniu-se de uma moca convenientemente reforçada por pregos e, juntamente com o outro (ou, pelo menos, às suas ordens), espancou fortemente a grevista aos actos de cama.

A criatura espancada pediu justiça, o que não é para menos. Afinal, como parece verificar-se, recusara as solicitações amorosas do seu antigo amante pelo que, força-la a reactivá-las sob ameaça de agressão a dois e com moca configura, para o senso comum, uma tentativa de violação.

O cornudo que, pelos vistos, usa uma moca com pregos para substituir um pénis inerme e inerte ajudou claramente o corneador na sua tarefa de obrigar uma mulher a deitar-se com ele. Provavelmente, o “pirilau mole” teria direito a deleitar-se com o espectáculo da legítima sob o resfolegar acintoso do corneador.

O caso foi julgado e da decisão de primeira instância (eventual condenação do(s) agressor(es) houve recurso para a Relação.

Ora. é aqui que entra em cena um Senhor Desembargador (e uma Senhora Desembargadora, já agora) que numa sentença de que entre espantado, envergonhado e enojado li na íntegra.

Já os jornais, várias associações e, mesmo que de forma pouco clara, para não dizer absolutamente obscura, o Conselho Superior de Magistratura, tiveram oportunidade de questionar as extraordinárias e aviltantes considerações do juiz desembargador sobre a medonha situação das mulheres adúlteras.

Até a Bíblia é chamada à colação! E mal chamada, ou viciosamente chamada, porquanto o meritíssimo Desembargador e a não menos excelentíssima Desembargadora, não recordam -ou ocultam a resposta de Cristo quando observa que à mulher adúltera só podem atirar pedras os ue não pecaram anteriormente.

Portanto, os dois desembargadores deveriam reflectir (e bastante) antes de citar o que não conhecem, ou conhecem mal, muito mal.

Seguidamente, e aqui que o meu ponto assume alguma relevância, é que foram dois homens conluiados e armados que exerceram uma indescritível violência contra uma mulher (normalmente mais fraca, mais frágil e com menos capacidade para se defender) . Um deles, o amante preterido chamou como ficou provado o marido de quem a mulher estava separada havia meses- Depois, não colhe o miserável argumento da indignação do marido quando também ficou provado que havia meses que sabia da “infidelidade” da mulher que dele se separara chegando ao ponto de a acusar de puta e de não se deixar sodomizar por ele quando, no dizer do triste cornúpeto o fazia com “todos os homens” (sic).

A simples ideia de que uma relação conhecida há meses, seguida de separação, é capaz de suscitar uma depressão é uma barbaridade para não dizer algo mais forte e provavelmente mais verdadeiro acerca do bom senso e inteligência de quem aceita esta esfarrapada desculpa.

A cobardia manifesta ainda não é alvo de censura jurídica. Mas os actos violentos que ela genera já o são. O adultério pode ter sido considerado uma coisa horrenda durante séculos. Ainda é punido com a lapidação em países bárbaros como alguns do Médio Oriente. No Ocidente, o adultério, há muito, praticamente sempre, foi desculpado ao homem. No que toca à mulher a coisa fiou mais fino mas, mesmo assim, no século XIX era mais um argumento de grandes romances (Madame Bovary ou Ana Karenina, ou mesmo “O amante de Lady Chaterley)) do que um crime tão grave como a insuportável adjectivação utilizada pelo distinto magistrado.

Entre nós, há muito que a coisa perdeu boa parte do significado que alguma vez teve.

“ O tempora, o mores”: que de crimes se cometem em nome da modernidade. Felizmente alguém vela. Pelo menos, um homem e uma mulher no Relação do Porto. Com ele as desavergonhadas, as desonestas, as traidoras do lar estão sob cuidada e piedosa suspeita. Pena já não haver o depósito da mulher (extinto em 1967) e, pelos vistos não citado pelos abnegados servidores da justiça que, porém, não se coíbem de citar um Código Penal há muito revogado.

Já não bastavam os fogos, o BES, a corrupção de vários uitos próceres da Pátria Imortal e eis que agora, insidiosamente, uma sentença dada em pleno século XXI nos faça regredir enquanto, nação, país, povo para as brumas da memória.

E mesmo aí, há que reflectir: um bastardo de D Pedro I , o Cru, João de seu nome, apunhalou a sua mulher (D Maria Teles, irmã da Rainha) sob o falso pretexto de que ela o traía. De facto, pretendia casar com a sobrinha Beatriz, herdeira do trono. Teve de se homiziar para escapar ao castigo, acabou como renegado ao serviço de Castela, invadiu Portugal sem glória nem proveito e acabou prisioneiro do rei castelhano, morrendo na prisão e na infâmia.

Ou seja, nem sempre o castigo da adúltera foi passado sob silêncio ou compreensão. E à medida que os costumes se humanizavam, mais e mais, diminuiu a condenação da sociedade, equiparando cada vez mais o adultério feminino ao masculino.

Conviria dar conhecimento disto aos senhores desembargadoras, ora em causa. Mesmo se não se esperem grandes resultados. A intolerância entranha-se e é coo uma nódoa de azeite: expande-se e não desaparece sequer com lavagens sucessivas.

*os leitores verificarão que não se nomeiam as personagens desta novela de faca e alguidar. É por mero decoro, por imerecida piedade e por sentido de vergonha.

 

**na gravura lapidação de adúltera (pilhado na internet)  

 

 

18
Out17

Estes dias que passam 343

mcr

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Já devia ter ido há muito, desde sempre!

(mcr 18.Out.2017) 

A Sr.ª Ministra Da Administração Interna pediu finalmente a demissão. Na carta que os meios de comunicação reproduzem afirma que esta demissão fora pedida logo a seguir a Pedrogão. E que só não fora publicitada porquanto o Sr. Primeiro Ministro lhe pediu para permanecer.

Todavia, agora, depois do que aconteceu, depois dos acabrunhantes relatórios sobre os fogos onde pereceram mais de sessenta pessoas (que o Estado não protegeu e que, até à data não obtiveram deste qualquer pedido de desculpas...) , eis que a sr.ª Ministra renova terminantemente o seu pedido não deixando margem a qualquer outra solução.

Por acaso, só por um inefável acaso, morreram mais quarenta portugueses, dos mais pobres, dos mais desprotegidos, dos com menos possibilidades de se defenderem quer pela idade, quer pelo isolamento, quer pela violência da catástrofe. Por acaso, começaram a surgir por todo o lado críticas violentas à Sr.ª Ministra, manifestações, artigos condenatórios na Imprensa e um discurso do Sr. Presidente da República onde a Sr.ª Ministra é claramente um dos alvos.

Não por acaso, mas por canhestra insensibilidade, a mesma Sr.ª Ministra veio para as televisões dizer que para ela “o mais fácil seria pedir a demissão (coisa que nesse momento se recusava a fazer) e que nem férias tinha gozado. No meio destas deploráveis palavras, entendia ainda a Sr:ª Ministra que no repartir de culpas (não dela, claro) havia algumas a apontar às comunidades vítimas, eventualmente aos mortos e feridos, a necessidade de se tornarem mais resilientes às catástrofes. Que esta absurda demonstração de falta de sensatez e de absoluta falta de piedade, de desgosto, não foi obra do acaso prova-o o facto de um seu Secretário de Estado ter abundado no mesmo sentido clamando que tem de ser os povos perdidos nas serranias quem se deve defender sem esperar aviões ou bombeiros.

Isto, esta sintonia miserável e insultuosa entre dois altos responsáveis governamentais não pode ser mera coincidência. Há aqui uma sintonia planificada de declarações que, cumpre dizê-lo, foram passadas em silêncio (concordante?) pelo Sr. Primeiro Ministro.

Foi preciso que o Sr. Presidente da República viesse a terreiro, foi preciso uma ameaça de “moção de censura”, seguida de uma manifestação e precedida de um coro de críticas e de anúncios de mais manifestações, para que, subitamente, a Sr.ª Ministra se tentasse retratar com a carta de demissão e com a “narrativa” de uma outra e anterior atitude idêntica.

Mais uma vez, não se descortina uma palavra de conforto às vítimas (mal de que também enferma o Sr. Primeiro Ministro que, eventualmente, pensará que isso incumbe aos milhares de cidadãos que se solidarizaram enviando contributos pessoais, e ao Presidente da República que (honra Lhe seja) tem constantemente acorrido aos locais das desgraças com uma palavra, as invitáveis selfies e os beijinhos. Mesmo criticando, muitas vezes, a “pro-actividade” (raio de palavra!) presidencial, sou obrigado – e não me custa nada! – a reconhecer que foi o Doutor Rebelo de Sousa quem encarnou os deveres próprios e os do Governo. O que lhe dá o direito (e nunca as mãos lhe doam) de fazer o discurso que fez.

Eu não conheço a Sr.ª Dr.ª Urbano de Sousa. Nem tenho qualquer vontade pois o que dela adivinho é apenas uma absoluta falta de comiseração por quem sofre, por quem está em baixo, pelos cidadãos deste pobre país, por todos quantos a criticámos desde Pedrogão. E a este pecado primário e definitivo junta-se o da falta de ética republicana, queira isto dizer o que quiser. Esta senhora não deve, não pode fazer política. Não se pode depender dela para nada.

Vai fazer as merecidas férias a que tem direito. Que durem anos, décadas! E que leve com ela aquele Secretário de Estado tão repelentemente “pro-activo”. Num país que no dizer do “Jornal de Leiria” perdeu, com o incêndio do pinhal de Leiria, setecentos anos de história, podemos sem qualquer problema perder de vista duas criaturas incompetentes e arrogantes.

10
Out17

Estes dias que passam 342

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As/Os padeirinhas/os de S Bento

 

Na curiosa “Assembleia da República” portuguesa passa-se um pouco de tudo. Desta feita, apareceu um voto de condenação da actuação policial no dia do “referendo” (ilegal, seja de que que ponto de vista for) na Catalunha.

Parece que a polícia não foi meiga (e não o foi, é evidente) contra os manifestantes que insistiam em votar. que insistiam, relembre-se, numa actuação ilegal considere-se o “Estatut”, a Constituição de Espanha, a lei geral ou, sequer, o parecer do Tribunal Constitucional.

Convirá recordar que neste género de situações a polícia é sempre violenta. Nem que se trate de simples empurrões aos cidadãos. Por um lado há sempre uma desproporção de forças: de um lado um grupo de polícias, doutro uma multidão. Se é verdade que uns estarão armados (seja de pistolas ou de bastões) não menos verdade é que do outro lado há sempre um número muito maior de pessoas que, e também isso se viu (ou só não foi visto pelas criaturas bloquistas) começando por normais protestos, rapidamente se excitam e começam também elas a mostrar não só violência verbal (e essa a polícia ainda aguenta) mas cara disposiçãoo de romper os cordões policiais à força o que obviamente não se faz com meiguice.

Quem sai para a rua para se manifestar, sabe para o que vai. Ou, pelo menos, no meu tempo (e que tempo: anos cinquenta finais, todos os sessenta e os setenta que se lhe sucederam e não apenas os antes do 25A) sabíamos. Tenho dessa época uma memorável experiência nacional e internacional. De facto, não só não perdi uma única oportunidade de sair e apanhar chanfalhada nos juvenis lombos, mas em terras alheias comi pela medida grande. em França nos anos 68 e seguintes, em Itália durante uma “estate violenta”(1972), em Espanha na época do fim do franquismo et j’en passe. Manifestei-me pelas causas mais diversas (e nem sempre as mais justas: cheguei a ir para rua pela Cinemateca Francesa, contra a construção da “tour de Montparnasse”, entre outras miudezas surpreendentes.)

De todo o modo, eu sabia o que arriscava. E, já agora, percebia o que os meus adversários defendiam e o modo como pensavam defender-se.

Há, além do mais, uma segunda observação a fazer. E ela é a seguinte. Nenhum poder, fáctivo ou legítimo quer afirmar-se pela violência. todos os poderes visam consolidar-se com o sufrágio dos cidadãos. Ou, pelo menos, com a indiferença destes. O dr Salazar usava a terna expressão “safanões dados a tempo”. “Safanões”, vejam bem!

Isto justifica a “violência” venha ela de onde vier? De modo algum. A violência é sempre injustificada. Os fins nunca justificam os meios. E estejam nesses fins a sociedade ideal ou o poder de meia dúzia. Aliás, nisto de sociedades ideais há sempre o poder de um escasso número de iluminados que se sentem os arautos e os salvadores da imensa maioria.

Mas voltemos ao nosso parlamento. Umas padeirinhas e respectivos émulos masculinos (não os esqueçamos) tomaram dores pelos lombos de catalães independentistas como antes já tinham tomado pelos do venezuelanos maduristas. Curiosamente, nem uns nem os outros cheiram, de perto ou de longe, a esquerda, pelo menos a esquerda clássica. Aquilo a que assistimos é populismo histérico, nacionalismo feroz e xenofobia. Desde a Esquerra (e já aqui o notamos) até à CUP aí os temos impantes. E depreciativos para com o resto da comunidade espanhola. Como se a palavra Espanha fosse um insulto. Recordemos que Espanha é o nome, desde os primórdios da construção do império romano, que a península teve. A actual Catalunha estava na chamada “Tarraconense” (de Tarragona) enquanto por aqui a norte estávamos na Galécia e os de Castela na Lusitânia...

(“Arriba, arriba gajeiro, arriba ao mastro real, vê se avistas terras de Espanha, areias de Portugal”) Espanha impôs-se interna e externamente mesmo antes de ser um país unido e unificado com a notável excepção portuguesa, fruto muito do acaso tanto quanto da História e do jogo de interesses europeus (justamente uma das mais tremendas derrotas catalãs tem a ver connosco que com eles e com outros –os que de facto eram influentes- interviemos na guerra da sucessão de Espanha, tendo um exército português ocupado Madrid por um breve período de tempo).

Portugal construiu-se primeiro contra Leão (Afonso Henriques tentou baldadamente apoderar-se de vários territórios galegos, o que nunca conseguiu) depois, e sempre, contra Castela. A monarquia dual filipina foi um mero intervalo, tanto mais que, do ponto de vista legal e político o reino de Portugal continuava a existir. Todavia, esta situação não perdurou muito por culpa de grandes validos espanhóis, da incapacidade de Filipe IV (III de Portugal), dos desastres da guerra entre Espanha e Inglaterra e Holanda. Portugal viu ocupados o Brasil e Angola (ou seja Luanda e cercanias), perdido o Ceilão e outras possessões asiáticas e arruinado boa parte do comércio. Entretida com as guerras e com a manutenção da Catalunha, a Espanha já não teve exércitos suficientes para vencer D João IV. De todo o modo, a guerra da Restauração durou praticamente 30 anos e teve o resultado que teve graças a oportunas alianças com a Inglaterra.

No entanto, a sombra espanhola persistiu sobre Portugal e mais ainda sobre o nosso imaginário pelo que o chamado complexo de Aljubarrota persistiu. Ainda hoje, são evidentes e repetidos, certos traços de anti-espanholismo entre elites portuguesas. O iberismo foi sempre excepcional e a duvidosa aliança entre Salazar e Franco (que aliás chegou a ter um plano para invadir Portugal depois de por este ter sido – e de que maneira! – ajudado durante a “Cruzada” anti República).

Daí um entranhado entusiasmo por bascos (que durante muito tempo por cá andaram sem grandes cautelas), por galegos (A UPG chegou a ter bases em Portugal) ou pelos distantes catalães cuja língua, história e cultura são olimpicamente desconhecidas dos nossos padeirinhos e padeirinhas.

Daí que no Parlamento tivesse aparecido um voto tonto e pueril contra a violência da polícia. Eu até admitiria que tivesse havido alguma discussão, que se tivessem pesado argumentos, que os inocentes deputados tivessem podido esclarecer-se sobre o problema catalão. Mas nada disso sucedeu. como, de resto, se previa.

O voto é tolo, provavelmente uma imbecilidade, não contribui para ajudar uns ou outros ou melhor, ajuda os inflamados que nestes últimos dias terão visto (mesmo se a miopia política seja de regra) que na Catalunha há tantos ou mais anti-independentistas que nacionalistas.

Assistimos a uma fuga para a frente de Puigdemont e companheiros. Sabem que se declararem a independência correm o risco de serem presos o que só lhes convém. Faça Rajov, de resto galego, o que fizer está sempre em dificuldades. Políticas, obviamente, porque na frente económica as coisas correm-lhe de feição. As grandes empresas, os bancos, a indústria estão em debandada da Catalunha. só isso constitui um rombo nas finanças regionais. As pessoas começam a transferir contas para bancos que estejam protegidos pelo BCE. A enorme minoria emigrante na Catalunha inquieta-se. A Europa avisa. Toda a propaganda independentista baseou-se num argumento falso: a permanência na União Europeia. Nem a Espanha, nem a União podem consenti-lo sob pena de despedaçarem a já frágil estrutura de nações nomeadamente no caso da Bélgica, da Itália onde há tentações identitárias de certas regiões, sempre as mais ricas, claro e, identicamente, as mais conservadoras o que também não espanta especialmente.

Claro que o BE, o PC e alguns irridentes do PS não só não se entusiasmam com a ideia europeia como até sonham com uma espécie de fim apocalíptico da História em nome de um cada vez mis longínquo proletariado que a riqueza gerada pela Europa afastou do sonho revolucionário.

Até ao momento, e basta ver como se comportam os países anteriormente “socialistas”, o resultado é claramente de sinal contrário. Os “órfãos do comunismo e da finada e pouco chorada URSS, aproximam-se velozmente da Direita autoritária e xenófoba. como se a frase “morra Sansão e quantos aqui estão” fosse preferível a esta morna mas real prosperidade (que também, e já se viu, estraga os cálculos e vida da Esquerda dita (com algum exagero e inverdade) extrema.

22
Set17

Estes dias que passam 362

d'oliveira

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Lá sair saímos. Para onde?

 

(mcr 22.9.17)

 

“…O jovem Alexandre conquistou a Índia.

Sozinho?


César bateu os gauleses.


Não levava sequer um cozinheiro?”

(Brecht Perguntas de um operário leitor)

 

Se é verdade que a culpa morre solteira, não menos verdadeira é a afirmação de que a vitória é de todos.

Nem tanto ao mar, nem tanto ao mar... De vez em quando lá se descobrem (e se punem) uns culpados como nem sempre a vitória é colectiva.

Vem isto a propósito da saída de Portugal do lixo recentemente aprovada pela Stanley & Poor’s. As parangonas foram gigantescas, o júbilo da imprensa e de alguns políticos alcançou o nível 5 mas talvez convenha alinhar algumas verdades sobre esta missa cantada. Sair do lixo, mesmo que seja para um grau muito abaixo do desejável (e da média da Europa) é para qualquer português uma boa notícia.

Atribuir os louros desta declaração de uma (entre três) agências de rating a um só protagonista é que me parece uma tolice quando não uma vigarice.

Quem me foi lendo ao longo dos anos, sabe a fraca opinião que sempre tive do governo anterior. Houve mesmo leitores que se zangaram: que eu era injusto, que tinha uma agenda própria contra o centro-direita, que fazia propaganda pela esquerda, sei lá que mais. Liam-me vesgamente e já não se lembravam do que eu escrevera sobre Sócrates. Ou sobre Durão Barroso e o great portuguese disaster que no século se chamou Santana Lopes.

Convenhamos, desde a desilusão Guterres que não me sinto especialmente comovido, muito menos entusiasmado, com os sucessivos primeiros ministros e respectivas equipas que nos atropelam. Na melhor das hipóteses roçaram o sofrível mas depressa, muito depressa, caíram no fosso da mediocridade.

Portugal, os portugueses, aguentou estoicamente, como de costume. Gente habituada a uma terra sáfara entre a praia e a montanha pobre, fez das tripas coração e desandou por esse mundo fora. Onde menos se espera, encontramos um português desde aquele Gastão, amigo de Sandokan e casado com uma “rani” indiana até ao senhor Oliveira da Figueira com que Tintin se cruza em “OS charutos do faraó”.

Isto, esta presença modesta mas múltipla de portugueses por esse mundo de Deus serve para vir dizer que esta saída do lixo se deve a muita gente, desde, obviamente, os actuais governantes, ao inditoso Passos Coelho e, muito, a todos os paisanos que aguentaram os anos duros.

Num texto anterior às últimas eleições legislativas, eu dava conta de alguns sinais ténues mas dignos de nota de uma clara melhoria da situação e da sua percepção pelos portugueses. Aliás, baseado nisso mesmo, eu prevenia Costa que as eleições poderiam não ser, como não foram, um triunfo para o PS (obviamente não previa –nem ninguém que eu saiba- a constituição da “geringonça”, tanto mais que, naqueles ásperos dias, PC e BE rivalizavam em duras acusações ao PS).

Centeno e Costa teriam metido um formidável golo ao PSD e ao CDS se, com naturalidade e verdade, os tivessem associado –ainda que minimamente – à saída do “lixo”. Tanto mais que ainda faltam duas agências, a dívida pública é o que é e o nosso progresso é acompanhado (e até superado) pelos nossos parceiros europeus.

Há, entre certos comentadores e, sobretudo, em certos dirigentes partidários, uma ideia de que as agências de rating são uns monstros que, ainda por cima, não proveem de uma votação democrática (!). Isto é uma chapada parvoíce porquanto esta boa gente parece ignorar tudo sobre as ditas agências. Ninguém, nenhum país, está obrigado a consultá-las, a ouvi-las a segui-las. Sobretudo quando se sabe que pagam generosamente os serviços de rating! Todavia, os investidores (grandes e pequenos e mesmo pequeníssimos), à falta de melhor indicador (que não há) apostam os seus dinheiros no parecer destas instituições que, como milhares de outras estabelecem paradigmas, limites e vias para o investimento. Só a bronquidão dos fanáticos é que vê nisto mais fantasmas do que os que não existem.

A segunda (conveniente) consequência de associar os partidos da oposição (mesmo em porção meticulosamente côngrua) a esta nova situação é que assim, também, porventura indirectamente, se “amarravam” estes a parte das políticas e dos desígnios prosseguidos pelo Governo e (eventualmente) se salvaguardava alguma distância para com o PC e o BE. Que, aliás, contribuíram, e não pouco, e a contragosto, para o clima de paz social que influenciou a decisão da Stanley & Poor’s.

Finalmente, é bom não esquecer que, como acima se diz, esta saída é ainda muito pequenina. Estamos muito longe do AAA e bastante longe da média dos nossos parceiros na UE. Digamos: estamos melhor do que a Grécia mas isso não é sequer uma pequena alegria. 

27
Ago17

Estes dias que passam 361

d'oliveira

Revisões da matéria dada (variante terceira)

mcr 26.Ago.17

 

Há dez anos, porventura onze, publiquei aqui o texto que abaixo se reproduz.

Tratava-se do "estes dias..." nº 74

 Razões de mera arrumação da minha escrita pregressa fizeram-me dar com ele e verificar a sua terrível actualidade. Republico-o agora sem lhe alterar nada, ou tão somente alguma gralha ou virgula defeituosa. 

 

 

A imaginação nunca ultrapassa a realidade

 

De quando em quando, escrevo aqui umas balivérnias que leitoras condescendentes interpretam como frutos da minha imaginação. E, de facto, sob um fundo pesado de realidade lá vou vaporizando as minhas peças de alguma imaginação.

Hoje, todavia, renuncio de todo em todo à cavalgada imaginadora das minhas “pequenas células cinzentas”, como diria o inestimável Hercule Poirot. E se falo no belga filho da imaginação da senhora Christie é porque o tema de hoje lembra um mistério desses difíceis com que a velha dama nos divertia. É, na verdade, um mistério a boa imprensa de que gozam, entre nós, alguns países, ou melhor os governos de alguns países espalhados por essas vastas geografias de medo e infâmia.

Comecemos pela Venezuela, hoje dirigida por um antigo putchista da direita mais militarona e reaccionária. De facto o senhor Chavez, o arauto de uma rocambolesca revolução bolivariana, começou a sua discutível carreira de estadista, tentando levar a cabo um desditoso golpe nos anos 90 contra o presidente legal Carlos Andrés Pérez. A jogada deu para o torto, ele terá feito quase dois anos de prisão suave e, para espanto dos que ainda se espantam, conseguiu ganhar as eleições presidenciais em 98. Depois, tem sido reeleito. E com margens importantes, há que dizê-lo. O dinheiro do petróleo (cujos preços estão desde há muito em alta) redistribuído em parte pelos mais pobres, pelos militares (ai não!) tem disfarçado a ausência de política e de clareza no discurso populista de Chavez. A América do Sul tem visto outros aprendizes de ditador, tem assistido ao corte crescente das liberdades, ao cantonamento das oposições (cuja inteligência política é inversamente proporcional ao amor ao poder e aos seus mais evidentes frutos) e à lenta edificação de um estado policial. Cá pelo burgo, parece que alguém terá achado que Chavez é o Messias da esquerda. A idade não perdoa, é o que é. Genericamente, os europeus vão dialogando com Chavez tanto mais que o seu petróleo é menos incerto que o da península arábica. Depois, quando acordarem, será tarde.

Não abandonemos este desamparado continente sem referir uma vez mais a infâmia que se representa nas florestas colombianas onde um partido “revolucionário” detém umas centenas de reféns. Desta vez há notícia da morte de uma série de políticos colombianos, que alegadamente terão sido vítimas das tropas governamentais. Digamos para já que, a ser verdade a autoria da tropa governamental, sempre haverá uma certeza: os reféns serviram de escudos humanos. Todavia, não é difícil imaginar que estas mortes se reduzem a meros assassínios de futuros opositores das FARC se e quando estas forem um partido político legal.

Um passeio agora por África, mais precisamente por um país que, custa dizê-lo registava ainda há uns dez, doze anos, alguns índices de prosperidade: o Zimbabwe. Convirá esclarecer algum leitor desatento que, desta banda, nunca se louvou o senhor Ian Smith um dos aliados racistas de um Portugal antigo que não para de renascer. O senhor Smith conseguira, todavia, criar um país com uma sólida economia agro-industrial, nas mãos dos brancos evidentemente. Os negros faziam de paisagem, de boys, de trabalhadores agrícolas como é costume. A estrutura económica que passou intacta para as mãos rapaces de Mugabe pospunha a manutenção das grandes fazendas, mesmo se nacionalizadas. A sua divisão arruinou os trabalhadores agrícolas das antigas fazendas, destruiu a exportação, substituindo-lhe uma economia de subsistência que nem isso chega a ser. O Zimbabwe tem fome. Fome como nunca teve num passado recente e infame. E tem uma ditadura que deve fazer empalidecer de inveja o velho Ian Smith hoje exilado no Cabo. Mugabe vai liquidando metodicamente os opositores políticos, negros desta vez, enquanto o pais soçobra no caos. A Europa torce-lhe o nariz mas os africanos recusam-se a condená-lo. E convenhamos que os ingleses também não o molestam demasiadamente. Ao que parece os mortos actuais já não comovem as consciências democráticas como há anos. A diferença deve ser esta: agora são os negros que matam os outros negros. Logo está tudo bem. Não há colonialismo.

Daqui até à Líbia vai um salto. Por cima do Darfur e do seu imenso desastre. Curiosamente, o meu primeiro sogro, Jorge Delgado ofereceu-me ainda nos anos 60 uma brochura sobre o Darfur, comprada na “Joie de Lire” do François Maspero. Um escândalo que dura vai para cinquenta anos já o não é. O que me admira é que ainda aí haja gente para morrer. Os pretos têm a pele dura, dizia-me um amigo também negro, angolano, assassinado pelos nitistas, em Angola. Teve sorte: provavelmente o MPLA também lhe trataria da saúde, mais tarde.

E a Líbia? Pois a Líbia é o que sempre foi: Kadafi um iluminado sentado em cima do petróleo (que tanta falta faz) continua a sua “revolução verde” (esta gentinha adora falar de revolução!) e faz-se rogar pelos ocidentais. Desta feita, é um processo kafkiano que me traz este personagem à caneta. Meia dúzia de enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano acusados de inocularem vírus mortais a umas centenas de crianças líbias, viram confirmadas pelo Supremo Tribunal as penas de morte. Agora, dizem os nossos jornais, resta apelar a Kadafi. O que vai ser feito, obviamente. Ou seja a campanha de branqueamento do cavalheiro entra numa fase superior, como se dizia nos velhos tempos de “análise concreta da situação concreta”. Vai uma apostinha em como ainda veremos Kadafi ser recebido como benfeitor da humanidade em Bruxelas?

Ou em Varsóvia, já agora e para terminar. Eu confesso que nada tenho contra os polacos, bem pelo contrario, adoro Chopin e fui principescamente recebido pelos meus amigos de Varsóvia quando, in illo tempore, fui visitar uns colegas do Direito Comparado. Detestei a atmosfera política, o medo, a pobreza, o desespero dos meus amigos, tanto quanto apreciei a gentileza deles, a cultura, a amizade demonstrada e a dignidade de um povo que não se submetia.

Que esse povo seja agora governado por uma parelha de gémeos abaixo de qualquer classificação é coisa que me consegue ainda espantar. É que a coligação que governa a Polónia e que ostenta aquelas duas criaturas à frente do Estado e do Governo não é sequer conservadora, mas retintamente reaccionária. Eu nem falo da homofobia, coisa que ainda conseguiria vagamente perceber dada a profunda religiosidade polaca que além do mais é um factor de unidade nacional e lhes permitiu sobreviver ao período soviético. Isto não significa que não condene as perseguições de rua e legais à minoria sexual, claro. Não consigo entender as leis sobre as provas de cidadania reiteradas à caça de antigos polícias, de colaboradores do antigo regime, de gente que se calou ou que não se manifestou (como se isso fosse possível!...). Actualmente o ambiente tem piorado: os gémeos não só se recusam a aplicar fartas doses de legislação comunitária como entendem chantagear a Europa, desenvolver uma campanha inaudita contra a Alemanha e tentar obter para o seu país (que entretanto assinou com uma mão distraída os tratados que agora alegremente pretende modificar a seu favor) condições de privilégio que nada fundamenta. Os manos Kakzinsky conseguiram o impossível: nomearam uma senhora mediadora para os direitos da infância cuja primeira missão foi despistar “a publicidade subliminal da homossexualidade nuns bonecos infantis – os teletubbies – porque um usava um saco vagamente feminino...

Uma Europa onde esta gente tem entrada não é só triste. É ridícula.

Espero que ao escrever isto num blog não esteja a infringir uma regra de ouro inventada por uma senhora Secretária de Estado que entende que o humor (aqui dolorosamente em falta, mas enfim...) sobre personalidades fica bem em casa, eventualmente numa rua escusa, na praia (se deserta) ou num campo de concentração. Esperemos que os blogs hoje tão na mira dos zelotas e dos filisteus entrem nessas categorias de inocência confirmada.    

27
Ago17

Estes dias que passam 361

d'oliveira

Revisões da matéria dada (variante terceira)

mcr 26.Ago.17

 

Há dez anos, porventura onze, publiquei aqui o texto que abaixo se reproduz.

Tratava-se do "estes dias..." nº 74

 Razões de mera arrumação da minha escrita pregressa fizeram-me dar com ele e verificar a sua terrível actualidade. Republico-o agora sem lhe alterar nada, ou tão somente alguma gralha ou virgula defeituosa. 

 

 

A imaginação nunca ultrapassa a realidade

 

De quando em quando, escrevo aqui umas balivérnias que leitoras condescendentes interpretam como frutos da minha imaginação. E, de facto, sob um fundo pesado de realidade lá vou vaporizando as minhas peças de alguma imaginação.

Hoje, todavia, renuncio de todo em todo à cavalgada imaginadora das minhas “pequenas células cinzentas”, como diria o inestimável Hercule Poirot. E se falo no belga filho da imaginação da senhora Christie é porque o tema de hoje lembra um mistério desses difíceis com que a velha dama nos divertia. É, na verdade, um mistério a boa imprensa de que gozam, entre nós, alguns países, ou melhor os governos de alguns países espalhados por essas vastas geografias de medo e infâmia.

Comecemos pela Venezuela, hoje dirigida por um antigo putchista da direita mais militarona e reaccionária. De facto o senhor Chavez, o arauto de uma rocambolesca revolução bolivariana, começou a sua discutível carreira de estadista, tentando levar a cabo um desditoso golpe nos anos 90 contra o presidente legal Carlos Andrés Pérez. A jogada deu para o torto, ele terá feito quase dois anos de prisão suave e, para espanto dos que ainda se espantam, conseguiu ganhar as eleições presidenciais em 98. Depois, tem sido reeleito. E com margens importantes, há que dizê-lo. O dinheiro do petróleo (cujos preços estão desde há muito em alta) redistribuído em parte pelos mais pobres, pelos militares (ai não!) tem disfarçado a ausência de política e de clareza no discurso populista de Chavez. A América do Sul tem visto outros aprendizes de ditador, tem assistido ao corte crescente das liberdades, ao cantonamento das oposições (cuja inteligência política é inversamente proporcional ao amor ao poder e aos seus mais evidentes frutos) e à lenta edificação de um estado policial. Cá pelo burgo, parece que alguém terá achado que Chavez é o Messias da esquerda. A idade não perdoa, é o que é. Genericamente, os europeus vão dialogando com Chavez tanto mais que o seu petróleo é menos incerto que o da península arábica. Depois, quando acordarem, será tarde.

Não abandonemos este desamparado continente sem referir uma vez mais a infâmia que se representa nas florestas colombianas onde um partido “revolucionário” detém umas centenas de reféns. Desta vez há notícia da morte de uma série de políticos colombianos, que alegadamente terão sido vítimas das tropas governamentais. Digamos para já que, a ser verdade a autoria da tropa governamental, sempre haverá uma certeza: os reféns serviram de escudos humanos. Todavia, não é difícil imaginar que estas mortes se reduzem a meros assassínios de futuros opositores das FARC se e quando estas forem um partido político legal.

Um passeio agora por África, mais precisamente por um país que, custa dizê-lo registava ainda há uns dez, doze anos, alguns índices de prosperidade: o Zimbabwe. Convirá esclarecer algum leitor desatento que, desta banda, nunca se louvou o senhor Ian Smith um dos aliados racistas de um Portugal antigo que não para de renascer. O senhor Smith conseguira, todavia, criar um país com uma sólida economia agro-industrial, nas mãos dos brancos evidentemente. Os negros faziam de paisagem, de boys, de trabalhadores agrícolas como é costume. A estrutura económica que passou intacta para as mãos rapaces de Mugabe pospunha a manutenção das grandes fazendas, mesmo se nacionalizadas. A sua divisão arruinou os trabalhadores agrícolas das antigas fazendas, destruiu a exportação, substituindo-lhe uma economia de subsistência que nem isso chega a ser. O Zimbabwe tem fome. Fome como nunca teve num passado recente e infame. E tem uma ditadura que deve fazer empalidecer de inveja o velho Ian Smith hoje exilado no Cabo. Mugabe vai liquidando metodicamente os opositores políticos, negros desta vez, enquanto o pais soçobra no caos. A Europa torce-lhe o nariz mas os africanos recusam-se a condená-lo. E convenhamos que os ingleses também não o molestam demasiadamente. Ao que parece os mortos actuais já não comovem as consciências democráticas como há anos. A diferença deve ser esta: agora são os negros que matam os outros negros. Logo está tudo bem. Não há colonialismo.

Daqui até à Líbia vai um salto. Por cima do Darfur e do seu imenso desastre. Curiosamente, o meu primeiro sogro, Jorge Delgado ofereceu-me ainda nos anos 60 uma brochura sobre o Darfur, comprada na “Joie de Lire” do François Maspero. Um escândalo que dura vai para cinquenta anos já o não é. O que me admira é que ainda aí haja gente para morrer. Os pretos têm a pele dura, dizia-me um amigo também negro, angolano, assassinado pelos nitistas, em Angola. Teve sorte: provavelmente o MPLA também lhe trataria da saúde, mais tarde.

E a Líbia? Pois a Líbia é o que sempre foi: Kadafi um iluminado sentado em cima do petróleo (que tanta falta faz) continua a sua “revolução verde” (esta gentinha adora falar de revolução!) e faz-se rogar pelos ocidentais. Desta feita, é um processo kafkiano que me traz este personagem à caneta. Meia dúzia de enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano acusados de inocularem vírus mortais a umas centenas de crianças líbias, viram confirmadas pelo Supremo Tribunal as penas de morte. Agora, dizem os nossos jornais, resta apelar a Kadafi. O que vai ser feito, obviamente. Ou seja a campanha de branqueamento do cavalheiro entra numa fase superior, como se dizia nos velhos tempos de “análise concreta da situação concreta”. Vai uma apostinha em como ainda veremos Kadafi ser recebido como benfeitor da humanidade em Bruxelas?

Ou em Varsóvia, já agora e para terminar. Eu confesso que nada tenho contra os polacos, bem pelo contrario, adoro Chopin e fui principescamente recebido pelos meus amigos de Varsóvia quando, in illo tempore, fui visitar uns colegas do Direito Comparado. Detestei a atmosfera política, o medo, a pobreza, o desespero dos meus amigos, tanto quanto apreciei a gentileza deles, a cultura, a amizade demonstrada e a dignidade de um povo que não se submetia.

Que esse povo seja agora governado por uma parelha de gémeos abaixo de qualquer classificação é coisa que me consegue ainda espantar. É que a coligação que governa a Polónia e que ostenta aquelas duas criaturas à frente do Estado e do Governo não é sequer conservadora, mas retintamente reaccionária. Eu nem falo da homofobia, coisa que ainda conseguiria vagamente perceber dada a profunda religiosidade polaca que além do mais é um factor de unidade nacional e lhes permitiu sobreviver ao período soviético. Isto não significa que não condene as perseguições de rua e legais à minoria sexual, claro. Não consigo entender as leis sobre as provas de cidadania reiteradas à caça de antigos polícias, de colaboradores do antigo regime, de gente que se calou ou que não se manifestou (como se isso fosse possível!...). Actualmente o ambiente tem piorado: os gémeos não só se recusam a aplicar fartas doses de legislação comunitária como entendem chantagear a Europa, desenvolver uma campanha inaudita contra a Alemanha e tentar obter para o seu país (que entretanto assinou com uma mão distraída os tratados que agora alegremente pretende modificar a seu favor) condições de privilégio que nada fundamenta. Os manos Kakzinsky conseguiram o impossível: nomearam uma senhora mediadora para os direitos da infância cuja primeira missão foi despistar “a publicidade subliminal da homossexualidade nuns bonecos infantis – os teletubbies – porque um usava um saco vagamente feminino...

Uma Europa onde esta gente tem entrada não é só triste. É ridícula.

Espero que ao escrever isto num blog não esteja a infringir uma regra de ouro inventada por uma senhora Secretária de Estado que entende que o humor (aqui dolorosamente em falta, mas enfim...) sobre personalidades fica bem em casa, eventualmente numa rua escusa, na praia (se deserta) ou num campo de concentração. Esperemos que os blogs hoje tão na mira dos zelotas e dos filisteus entrem nessas categorias de inocência confirmada.    

23
Ago17

Estes dias que passam 360

d'oliveira

 

 

O comentador “comprometido”

 

por mcr  22.Ago.17

 

O dr. Marques Mendes viu-se alcandorado ao posto de comentador dos domingos na tv. Marcelo foi para outras e altas paragens, Mendes segue-lhe peugada, sabe-se lá se não sonha com Belém (Credo, Deus nos acuda, Santa Rita nos guarde).

Marques Mendes apareceu na política muito depressa e muito novo pela mão dos cavalheiros nortenhos do PPD. Foi deputado não sei quantas vezes, secretário de Estado, Ministro (e no meio disto tudo terá sido (e ainda é) advogado. Foi dirigente do PPD mas a memória desse conturbado tempo não parece brilhante ou imorredoira. De todo em todo, recordo que foi ele quem tentou pôr ponto final na carreira autárquica de Isaltino Morais. Falhou. Morais livre do partido e de Mendes ganhou redondamente a eleição e continuou a ganhar até dar com os costados na cadeia por, corrijam-me se estou em erro, lavagem de dinheiro e fuga aos impostos. Curiosamente, foi o primeiro político a ir para a cadeia e a cumprir pena.

Saiu e aí está de volta às lides e com fortes probabilidades de ganhar de novo Oeiras.

Não conheço Mendes nem tão pouco Isaltino. Não conheço e falece-me a vontade de os conhecer, mesmo se vários paroquianos de Oeiras me jurem que Isaltino fez um excelente lugar na presidência da Câmara. Provavelmente melhor do que Mendes no Parlamento ou nos Ministérios por onde passou...

Mendes, já o disse, exerce de comentador na TV. Às vezes pergunto-me se um Conselheiro de Estado deveria fazê-lo mas, pelos vistos, o que a mim me surpreende não incomoda ninguém.

Aos domingos, lá o vejo e oiço. Não que tal exercício penoso me seja grato ou que aproveite o facto para descontar nos meus pecados. É a minha mulher que comanda a televisão à hora do jantar pelo que não me resta alternativa viável. Depois, já suportei o piedoso professor Marcelo pelo que já tenho a pele curtida para o melífluo Mendes. Oiço-o entre duas garfadas e resmungo.

Desta feita, porém, Mendes foi longe. E mal. Já sabemos que não suporta Isaltino, logo ele (Mendes) homem pequenino que não consta ser bailarino. Isaltino, pelos vistos, ignora-o publicamente mesmo se em privado possa criticar o comentador.

Ora bem: Mendes, na sua última e untuosa prédica dominical veio dizer que Isaltino não deveria poder concorrer. Que o crime, cuja pena já cumpriu é grave; que, eventualmente, o Tribunal Constitucional –se fosse requerido – poderia condena-lo à inabilitação eleitoral. Que o senhor Paulo Vistas (ex-delfim de Isaltino e, agora, seu oponente, poderia ter recorrido para esse alto Tribunal e que não o fazendo fora generoso e cavalheiresco!

Eu começo por não perceber como é que um cavalheiro licenciado pela mesmíssima universidade que eu, entende que além da pena a que alguém foi condenado ainda lhe deveria acrescer a inabilitação eleitoral. Consultada a Constituição nada lá existe que preveja tal pena acessória. Nada! Ponto final, parágrafo.

Em segundo lugar, não vejo a razão especial para ser Vistas e não nenhum dos restantes candidatos a Oeiras (e serão no mínimo, meia dúzia) a recorrer para o TC.

Mendes ao referir (imprudentemente) Vistas parece estar a aceitar que o anterior despacho que inabilitava Isaltino (dado por um senhor juiz que, curiosamente, mudou de opinião quanto à fundamentação do despacho e que, também curiosamente é afilhado de casamento do senhor Vistas e que, finalmente e mais curiosamente ainda se oferecera vindo de Sintra para juiz de turno em Oeiras no período de validação das candidaturas...) beneficiava o ainda actual presidente da Câmara de Oeiras, directamente herdada de Isaltino...

Eu percebo, ou faço por isso, que o senhor dr. Mendes detesta Isaltino. Lá terá as suas (Boas ou más )razões. De todo o modo, o papel de comentador carece de uma certa altura (e isto não se refere ao tamanho de Mendes) de uma certa neutralidade e não pode, e muito menos não deve, transformar-se em propaganda eleitoral barata e feia contra Isaltino. Mas foi.

Mendes, praticamente, apelou ao TC e às forças partidárias, para que fosse defenestrado Isaltino. Já não recordo se avisou a audiência da sua particular condição de jurista mas esta é, apesar de tudo, conhecida.

Mendes tem todo o direito de pensar que a certos crimes de colarinho branco (que ele entende ser gravíssimos) se deveria aplicar uma pena acessória de inabilitação eleitoral (de dez anos pareceu-me ouvir).

Conviria recordar a Mendes que, por enquanto e até lei expressa, nenhum Tribunal pode aplicar penas não previstas. Isaltino já cumpriu pena. Pagou com prisão efectiva (efectiva!!!, recordo)e com uma valente multa a famosa evasão fiscal relativa a uns dinheiros depositados numa conta na Suiça.

Em Portugal, e até há bem pouco, os políticos ou não iam a julgamento ou não eram condenados, ou sendo-o a pena de prisão ficava suspensa. Aliás, tem havido penas de prisão suspensas por vários anos por crimes de similar gravidade e nunca vi Mendes condenar tal inércia de julgadores.

Uma amiga minha jura que “lhe saltou a tampa” queira isto dizer o que quer que seja. Ver um Conselheiro de Estado e um comentador (que creio regiamente pago) neste papel de cabo eleitoral ou de insofrida raiva é algo que me revolve as entranhas e me estraga a digestão. Mesmo se a coisa vem de Mendes criatura a que dou muito pouco crédito e que me faz,ai meu Deus!, ter saudades de Marcelo!!! (ao que cheguei!)

É claro que poderíamos dizer que estamos em Agosto, em plena silly season, mas mesmo assim...

É que, para terminar, pode ocorrer que esta intempestiva arenga de Mendes tenha um efeito devastador quer para candidatura de Vistas quer para a do PPD local. E que seja utilizada pelos apoiantes de Isaltino (e consta que foram mais de trinta mil os munícipes que o propuseram. Ou seja que na contabilidade das proposituras Isaltino arrecadou mais de metade das que foram publicitadas.) para reforçarem a aura de vitimização do seu candidato, coisa sempre exaltante num país que continua sebastianista.