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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

11
Ago17

estes dias que passam 359

d'oliveira

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Enquanto a burrice não pagar impostos vamos ter mais

 

mcr

 

Joaquim Namorado, nome cimeiro dos neo-realistas, poeta, professor e agitador cultural em Coimbra nos anos 40-70, apresentou certa vez um projecto de Código Civil que ele considerava simples e eficaz. Tinha apenas um artigo e um parágrafo:

artº 1 e único: é proibido ser estúpido.

parº único: fica revogada toda a legislação em contrário

Convenhamos que a proposta era audaciosa mas razoável. E tanto mais razoável quanto, como sabemos, a falta de senso e cabecinha parece ser uma das mais estendidas características da nossa classe política.

Senão, vejamos o caso estridente das próximas autárquicas, limitando-nos ao Porto e a Oeiras.

No Porto, uma criatura surgida do nevoeiro espesso que o PPD teima em cultivar, entendeu contestar a candidatura de Rui Moreira por esta num cartaz ostentar a palavra partido (o nosso partido é o Porto).

Aquele pobre diabo entende que a palavra partido indicia que há um partido local (mesmo que se saiba que tal coisa não existe nem consta que seja permitida). Assim, uma forte maioria de cidadãos iria pôr a cruzinha no grupo independente no convencimento imbecil de que estava a votar em algo semelhante (credo!, cruzes!, canhoto!) a essa coisa chamada PPD. O segundo ponto da actual reclamação tem por base o facto de Rui Moreira aparecer em fotografia em toda a publicidade para os diferentes órgãos autárquicos.

Recordemos que Moreira muito antes de ser presidente da Câmara já era cem vezes (se calhar mil) mais conhecido que o abencerragem descoberto pelo PPD, um tal Álvaro Almeida que ninguém conhece nem sabe de onde terá surdido.

E, pimba, trabalhos para o Tribunal como se este não tivesse coisa melhor em que se ocupar. Eu espero, sinceramente espero, que seja possível fazer pagar fortemente este pedido tonto, esparvoado, atirando para cima do reclamante com uma taxa que, à falta de melhor, faça pagar pela estupidez.

(declaração de interesses: conheço vagamente Rui Moreira mas não troco com ele qualquer palavra há, pelo menos vinte anos. Todavia, votei nele, votarei nele quanto mais não seja para fugir ao xico-espertismo do PS (outra candidatura com slogan idiota: “fazer pelos dois”, parecendo com isso afirmar que o bizarro Pizarro faria sozinho o trabalho dele e de Moreira. Este Pizarro tem-se feito notar por impor candidaturas perdedoras em várias zonas da área metropolitana e goza da injusta fama de ter feito um bom lugar no pelouro que ocupou. Convém lembrar que, em tudo o que se refere a habitação facilmente se vê o dedo do arquitecto Manuel Correia Fernandes, mas isso é outro falar).

Relembre-se, pour mémoire, que, durante meses,o PS nem candidatura apresentava escudando-se numa extraordinária ideia de fazer parte da lista Moreira. Mais, fizeram disso gala e alguns dos seus mais destacados dirigentes referiram essa aliança como coisa certa e segura.

Quanto às restantes candidaturas ao Porto não vale a pena sequer perder tempo. São meros verbos de encher.

Passemos a Oeiras.

Neste concelho não há quem ignore o trabalho de Isaltino Morais, o prestígio de que (justa ou injustamente) goza. Isaltino, libertado depois de um período na prisão assaz único (normalmente aquilo dava pena suspensa mas parece ter existido a ideia de que era preciso dar o exemplo e Isaltino não era suficientemente forte para, graças a um partido, se defender. Estava fora do quadro partidário e isso enfraquecia-o e permitia uma condenação fácil a pena de prisão efectiva. Não estou a defende-lo mas tão só a dizer alto o que muitos, uma multidão, pensam baixinho).

A candidatura de Isaltino apresentou 37.000 assinaturas( o que só por isso lhe garante um dos primeiros lugares no prélio que se avizinha) e para a tirar de cena (juntamente com uma outra candidatura de uma ex-apoiante do senhor Paulo Vistas, ex-delfim de Isaltino) nada melhor do que um artificioso argumento: os assinantes (todos uns ignorantes, claro!) poderiam desconhecer que estavam a apoiar o seu candidato. É que, segundo o doutíssimo despacho do senhor juiz, deveria constar ao alto de cada folha de assinaturas a imensa lista de candidatos isaltinianos!!!

Passemos piedosamente por este extraordinário argumento que, há uns anos, e sob a pena do mesmo magistrado, tinha sido menosprezado!

Recordemos, entretanto que o senhor juiz ora em questão exerce o seu múnus em Sintra mas, oh novo milagre de Ourique, ou das rosas, ou da santinha da Ladeira!..., ofereceu-se , num gesto de grande generosidade e sentido do dever de cidadania, para estar de turno em Oeiras.

Exactamente em Oeiras, onde um seu padrinho de casamento se candidatava (sempre o fatal Vistas). O senhor juiz terá feito vista grossa a esse acaso mesmo se, ao que parece, habita enm Oeiras, onde sua mulher trabalha para a Câmara ora presidida por Vistas.

Relembremos ainda que nenhum juiz é obrigado a oferecer-se para estes turnos mesmo se, eventualmente, possa ter de ser obrigado a fazê-los. Relembremos também que este senhor juiz poderia ter escolhido outros três concelhos (Mafra, Cascais ou Sintra) para evitar caçar nas terras onde concorre alguém que é seu amigo, quase parente e, de certo modo, patrão da sua mulher.

Movido apenas pelo intuito de servir, de nada disto se lembrou o senhor juiz como também se não terá lembrado do que anteriormente decidira em caso idêntico. Mudar de opinião é, aliás, próprio do homem...

Como é que se descalça esta bota, esta enorme botifarra?

Não sei. De todo o modo, qualquer decisão que torne Isaltino (que não conheço, que me é mais indiferente do que o resultado das eleições em Jacarepaguá (Brasil, RJ) parecerá sempre uma chapelada ainda mais alucinante do que era costume no Portugal de antigamente.

Uma chapelada e uma vergonha!...

 

07
Ago17

estes dias que passam 358

d'oliveira

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Os ditamaduros

Uma inflação que vai acabar brevemente nos 1000%; 160 mortos em manifestações de rua em três meses (todos, aliás da “oposição”); uma histórica chapelada nas eleições da Assembleia Constituinte; 500.000 refugiados na Colômbia (números relativos a 20 de Julho pp);a prisão arbitrária como orática; centenas de presos políticos amontoados nas cadeias, sem processo, sem julgamento ou com julgamento sumário; um parlamento eleito privado de segurança e de poderes; uma procuradora geral expulsa do seu cargo por voto à mão levantada; milícias populares armadas ao lado da polícia para ameaçar, espancar, ferir, prender ou matar manifestantes; um repúdio internacional generalizado desde o Mercosul à União europeia passando pelo Vaticano; negativa de reconhecimento internacional dos novos orgãos legislativos eleitos; queda abissal da moeda nacional face ao dólar e ao euro (1 para 50.000!!!); hospitais sem medicamentos, sem sangue, sem sequer compressas; campos petrolíferos arruinados pela falta de peças, pela ignorância e pelo abandono dos mais qualificados; televisões, rádios e jornais encerrados, confiscados ou proibidos; acusações contínuas de terrorismo ou de traição contra quaisquer vozes desconformes; falta geral de mantimentos, mormente alimentação e fome generalizada em grandes sectores da população, especialmente na que se associa à oposição; corrupção generalizada; etc., etc....

Este é o actual retrato da Venezuela que foi, durante anos e anos, um país rico e próspero. Mais rico do que qualquer dos seus vizinhos, provavelmente o mais rico de toda a Ibero-América.

Não se pretende fazer crer que tudo corria no melhor dos mundos. Não corria, havia pobres, havia subúrbios onde se vivia mal e amontoadamente, sem condições de qualquer espécie (exactamente como hoje acrescentando agora o deficit de esperança). Houve ditaores e golpes de Estado, democracia musculada políticos corruptos. Também havia partidos, coisa que agora fora algo que soa a “bolivariano” não existem senão clandestinamente. E é bom recordar que o próprio Hugo Chavez também deu uma perninha no “golpe de estado”, mesmo que depois chegasse ao poder por eleições mais ou menos democráticas. Da mesma espécie das últimas legislativas que, apesar de todos os entraves, foram ganhas pela oposição ao chavismo, (per)versão Maduro. Todavia, nunca a Venezuela se viu perante uma crise tão violenta, um cenário tão assustador e um futuro tão desolador.

Perante tudo isto que faz o PCP. Absolve o poder ditatorial que se vai instalando (com ajuda e treino de especialistas cubanos) e declara o governo venezuelano “democrático”, legítimo e progressista, decretando por outro lado que a oposição chafurda no banditismo, no capitalismo (esta nunca falha) e no proto-fascismo (idem, aspas.

E avisa o Governo Português (que internamente apoia com duas mãos à falta de mais) que seguir a opinião mais que prudente da União Europeia faz perigar a situação da comunidade portuguesa e luso-descendente instalada na Venezuela. A falta de decoro deste aviso atinge as raias da indecência quando se sabe que já há na Madeira cerca de quatro mil refugiados; que na passada semana vários portugueses foram feridos em manifestações; que desde há meses que estabelecimentos comerciais portugueses, mormente padarias, foram assaltados e saqueados. As ameaças à comunidade portuguesa são constantes e inclusivamente vistas na televisão. Aliás, já o não serão, pelo menos em estações portuguesas dada a proibição de entrada de jornalistas portugueses poucos dias antes da caricatura de eleição deste domingo.

Sobre tudo isto, o silêncio do PCP é de oiro. Como de oiro é qualquer opinião (ou falta dela) sobre a ideologia “bolivariana”, arremedo velho e revelho de outras absurdas teses nacional-ditatoriais em voga nos piores anos da “violência” latino-americana. O PCP sempre lesto em criticar o que ele considera como desvio á justa linha marxista-leninista, consegue dar uma prodigiosa cambalhota ao louvar um punhado de tolices que só a cabeça de Maduro poderia evacuar.

Não que esta posição, arrebatada e para uso externo, seja uma novidade. Não é muito antiga uma curiosa opinião de um dirigente do PCP (Bernardino Soares) que “pessoalmente não tinha dúvidas de que na Coreia do Norte não existisse democracia”). Convém lembrar que a criatura foi deputado durante vinte anos, líder da bancada mais de dez e membro da Comissão Política. Também é licenciado em Direito!...

À falta da boa e velha União Soviética, até a Coreia ou esse escárnio vivo chamado Maduro, servem para ilustrar e defender a boa causa.

Estamos servidos.

De verdade e de democracia!

 

 

06
Jul17

Estes dias que passam 357

mcr

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À maneira de Swift

(rescaldo 3)

 

(pensei algum tempo antes de publicar esta crónica. Para quem o ler com alguma atenção sobram amargura e sarcasmo. Escrevi-o sem alegria ou entusiasmo. Há demasiada dor por aí, à solta. E há, certamente muitos culpados fugidos da luz pública, escondidos em falácias e desculpas, em enredos e enganos. Depois, há, também, “um fogo que arde sem se ver”, o lume da cólera, da impotência raivosa e da indignação. É para quem assim se sente que escrevo. Os outros podem passar de largo.)

Desta feita, deu-me para recordar Jonathan Swift, o autor genial das “Viagens de Gulliver” e de vários extraordinários panfletos que o tornaram conhecido, admirado ou detestado em Inglaterra e na Irlanda. Destes, para o caso, destacaria a “Modesta proposta para evitar que os filhos dos pobres da Irlanda sejam uma carga para os seus pai, para o país e para que se convertam em algo de útil para o povo”. Em poucas palavras, Swift propõe, apoiado em cálculos matemáticos, que a fome na Irlanda e a pobreza em geral poderiam ser combatidas engordando as crianças filhas de pobres para serem caçadas. Diminuiria assim o número de habitantes (demasiados face aos recursos da ilha) e a saúde publica melhoraria graças ao suplemento de proteínas animais. Isto, se bem recordo, sem falar nos benefícios obtidos com a permissão para caçar.

Quase se poderá fazer proposta semelhante para todo o interior português, quiçá ressalvando as capitais de distrito.

É verdade que a envelhecida população não forneceria uma carne de qualidade mas também não era para isso que seria usada. A ideia é mais simples: Numa época em que pesam por todo o lado as ameaças do Daech e de outros grupos de malfeitores, seria possível constituir no, apesar de tudo, vasto hinterland lusitano uma extensa zona de guerra de treino anti guerrilhas onde se exercitariam tropas especiais (nacionais e estrangeiras –outra forma de turismo ainda não explorada). Para o efeito, distribuir-se-iam, mediante um modesto pagamento,  aos habitantes de ambos os sexos (em sinal de respeito pela paridade e pela democracia) armas antiquadas que o nosso Exército deve possuir  em quantidade apreciável. Resolvia-se, neste particular aspecto, outro duplo problema nacional: despachava-se armamento obsoleto e reduzir-se-ia o custo das Forças Armadas.

As forças militares portuguesas nada pagariam mas essa perda de rendimento seria compensada pelo que se pediria  a estrangeiros e/ou a milícias particulares.

Sendo certo que, só em pensões, a população do interior custa um dinheirão, bem se pode ver o valor dos ganhos obtidos pelo abate de criaturas praticamente imprestáveis. A essa poupança de dinheiros públicos haverá que somar outra igualmente importante. Centenas de serviços locais ou regionais poderiam ser extintos ou fortemente reduzidos dado o desaparecimento de utentes, mesmo se, num primeiro tempo, pudesse haver um incremento do desemprego dos funcionários respectivos. De todo o modo, poder-se-á estudar, com o auxílio da Caixa Geral de Depósitos o custo real de tal medida. Bastaria pedir à grave instituição, patrioticamente nacional e nossa, o estudo que levou a cabo para fechar a agência de Almeida que, recorde-se, até é sede de Concelho.

Relembra-se ainda que certos problemas estruturais como a falta de médicos ou enfermeiros em todo o Serviço Nacional de Saúde, seria colmatada com a transferência dos que exercem nessas “terras do demo”, finalmente libertadas de doentes. 

Aqui chegados, como diria aquele senhor que finge de Marcelo do Norte na SIC, poderá surgir a pergunta: Que fazer (como diria outro senhor já falecido e bolchevique)  quando já não houver habitantes nessas extensas regiões de fogos e desesperança?

Também aqui a resposta é simples. Desaparecida que está a população, a floresta deixa de ter dono. Deixando de ter dono, não necessita de Cadastro, operação demorada, custosa e dificílima. Poderá pois ser nacionalizada  até se atingir os rácios europeus (40%) deixando a restante para outros usos: campos de golf, quintas para estrangeiros amadores da doçura dos nossos costumes e clima, libertação de terrenos para plantação de carvalhos, castanheiros e outras espécies nobres que o pinheiro e eucalipto afugentaram, pastos para  bisontes (boa carne e boa pele) importados da Polónia ou dos Estados Unidos, consoante o preço, criação de reservas de caça tropical (importando espécies cinegéticas de África, mormente lusófona sem exceptuar a Guiné Equatorial (neste caso poder-se-ia mesmo alugar a esse curioso país algumas extensões de terreno para que as suas autoridades pudessem construir campos de detenção provisoriamente definitivos para oposicionistas políticos, permitindo assim à nova e lusófona nação substituir a pena de morte local por humaníssimas prisões perpétuas).

Dir-me-ão que nem todo o interior é igualmente defeituoso e que forçoso será criar “corredores” mais ou menos largos para poupar terras boas e ligações a Espanha e ao mundo. Que, portanto, esta evidência potenciaria a criação de um arquipélago de enclaves no meio da waste land (se permitem que cite Elliott). Ora a nossa (lusitana e imperial) experiência em enclaves está indelevelmente manchada pela história do fim do meio século XX, quando se perderam Dadrá e Nagar-Aveli (territórios respectivamente comprado pelo Estado Português e recebido como indemnização por ter sido afundado um navio português). A União Indiana invadiu ou mandou invadir essas duas inúteis e isoladas regiões começando assim o fim do Império do Oriente.

Não creio que com as zonas libertadas de população se corra idêntico risco. A Espanha já tem com que se entreter com os seus distritos fronteiriços mesmo se aquilo já não é como “Las Hurdes” do genial Buñuel. De tierra sin pan eis que estão convertidas em reserva natural visitável por turistas esquecidos da ancestral miséria. Aqui está um bom indicador para o que proponho. Ou seja, admito que, depois de um período de desertificação, possa haver outro com povoamento controlado a exemplo do que se faz com a reintrodução do lince ibérico.

Há sempre alguém, mal intencionado e ignorante que virá a terreiro com o argumento de que assim se perde população. Perde-se gente mas ganha-se em rendimento per capita. Perde-se gente que gasta o dinheiro que não produz e ainda o dinheiro dos que labutam no litoral. Diminui-se a despesa sem tocar na receita. Do mesmo modo que se acabaram muitos impostos directos (sempre alvo de recriminações desagradáveis por parte da CGTP – quando isso lhe é permitido!- ) vantajosamente substituídos por indirectos que, aliás, são mais democráticos: atingem todos, pobres e ricos mesmo se as consequências em cada um destes estractos possam ser diferentes.

 

* Vai este folhetim para Maria L.A, amiga inesquecível numa Coimbra vestida com a cor da nossa “juventud divino tesoro”. Nesses tempos de vinho e rosas (e de chumbo e de caminhos cortados) teremos visto no cineclube de Coimbra “Las Hurdes” . Foi também o tempo da descoberta de Swift, Elliott ou Ruben Dario, igualmente citados.

 

05
Jul17

Estes dias que passam 356

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 Rescaldo (I) 

(* Pedro Correia, do blog "Delito de Opinião", fez-me um honroso convite: publicar um texto meu no seu excelente blog. O resultado é o que se vai ler mais em baixo. 

Publica-se aqui, passado qie foi o "período de nojo" necessário para (mesmo tendo em conta a fragilidade dos meus escritos) salvaguardar a leitura em cada um dos espaços.

Mais uma vez, agradeço a Pedro Correia a hospitalidade oferecida. Quando ele quiser, acolhê-lo-ei no meu espaço com prazer e alegria.)

 

O rescaldo

 

Enterraram-se os mortos e, agora, há que cuidar dos vivos como mandava o temível mas eficaz marquês de Pombal. E cuidar dos vivos não significa, mais outra vez, umas vagas ajudas, duas palmadinhas nas costas, boas palavras e uma selfie com o Senhor Presidente (mesmo se os seus encorajamentos tenham sido oportunos, pelo menos desta vez).

Cuidar dos vivos significa apurar as necessidades, prevenir o futuro e tratar de saber a quem cabe a responsabilidade.

Comecemos por esta última tarefa que, não sendo a mais preocupante, convém não esquecer.

À primeira vista, todos somos responsáveis, por acção, por omissão, pelo silêncio, pelos votos naqueles que não fizeram o trabalho de casa. Todavia, de nada nos valerá – como já li algures – vir disparar sobre o defunto dr. Salazar por ter sido ele quem, primeiro, mandou reflorestar o país. Mandou e mandou bem mesmo se, com os meios da altura (e aí se inclui a incapacidade de os povos se rebelarem), bem se poderia ter pensado em que espécies arbóreas se devia apostar. Apostou-se no pinheiro bravo (e depois no eucalipto) por duas razões crescem em toda a parte, produzem lucros ao fim de poucos anos e quase não exigem cuidados.

Porém, aumentam a vulnerabilidade da floresta mediterrânica por serem facilmente presa do fogo.

Voltando aos responsáveis, toda a gente está de acordo que o abandono das terras agricultáveis, o despovoamento daí resultante, o crescimento descontrolado de “mato”, conjugam-se para tornar extensas zonas em alvo fácil das chamas. Junte-se-lhe o abandono de caminhos rurais e teremos uma situação mais complicada.

No entanto, o abandono do interior foi potenciado por múltiplos factores dos quais o menor não é seguramente o facto de em grande parte do interior a parca agricultura que existia ser de mera subsistência, permitindo que a miséria rondasse cada lar e, desde há séculos(!) empurrasse multidões de camponeses para a emigração. Assim se fez o Brasil, alguma (pouca) África colonial e quase toda a industrialização do país. As cidades, sobretudo as do litoral, cresceram e crescem com transmontanos, beirões e alentejanos. E mesmo as cidades do interior concentraram, também elas, muita gente das aldeias em redor.

Isso terá tido como consequência a perda ou a não actualização do cadastro florestal. Heranças que se foram dividindo e subdividindo, terras abandonadas, perda dos marcos etc., tornaram a selva do interior mais misteriosa do que a Amazónia.

Também não é menos verdade que, hoje em dia, ninguém vai “roçar” mato para arranjar lenha para as lareiras, cama para os gados ou material para produzir adubo. O mesmo e já falado despovoamento fez desaparecer os rebanhos, mormente de cabras que limpavam eficientemente o terreno mais maninho. (Também é verdade, mas ninguém se lembra – ou se quer lembrar...- que muitos fogos ocorriam devido à incúria de pastores que tentavam queimar mato para obter pasto para o gado).

Um velho, querido e saudoso amigo que já lá vai dizia que a terra é um bem finito e que, por isso, todos a queriam e ninguém vendia. É verdade e essa ideia antiquíssima que funda na propriedade da terra a ideia da dignidade do camponês foi durante séculos, e hoje ainda, uma ideia força que venceu todos os ideólogos da “reforma agrária ou da nacionalização forçada da terra. Mesmo nas situações mais violentas (desde a Rússia bolchevique à China) a apropriação estadual da terra foi progressivamente forçada a conviver com os talhões individuais, com a propensão à propriedade privada e, finalmente, com o derrube do chamado “socialismo real” de que ainda cá subsistem uns vagos defensores. (E lembremos que no centro e no norte do país, nunca os estatizantes defenderam sem mais o esbulho dos proprietários aliás quase sempre pequenos e pequeníssimos.)

Isto, por muito que não seja politicamente correcto, significa que os fogos também se devem a muitos dos lesados, mesmo se seja verdade que na maioria das vezes se trata de gente idosa, analfabeta, empobrecida que não pode custear a desmatação, a limpeza dos seus parcos terrenos.

Sabe-se, igualmente, que, em toda a Europa a que pertencemos, a média de floresta pertença do Estado ronda os 40% da superfície total. Em Portugal, a floresta pública atinge com dificuldade os 2%!...

Tudo isto, e é muito, é gigantesco, não pode, porém, fazer esquecer, perdoar, ignorar que há uma coisa chamada “responsabilidade política”. Quem é ministro deveria saber ao que se arrisca quando aceita o cargo (tanto mais que ninguém é obrigado). Há dúzia e meia de anos, caiu uma ponte em Entre-os-Rios. Era ministro do Equipamento Social um cavalheiro que perante a evidência de meia centena de mortes declarou (honra lhe seja) que a culpa não podia morrer solteira. E demitiu-se irrevogavelmente.

Actualmente, vagueia por aí, uma senhora, seguramente muito meritória, cheia de estudos, que neste momento faz de ministra. Antes disso, e isso é importante sublinhar, fora adjunta duas ou três vezes de ministros da Administração Interna. Ou seja, sabe, ou devia saber, como é que as coisas se passam. Vimo-la, com ar melancólico na zona dos incêndios, ouvimo-la, depois, dizer umas vacuidades simpáticas sobre a tragédia (felizmente, honradamente, não pôs no seu cenário um cadáver como certa jornalista da TVI).

Que um responsável político vá uma vez ao local da tragédia mesmo se nada pode fazer não me causa repugnância. Que ele assente arraiais no sítio sem ter competências específicas que o tornem útil no combate às chamas é que já me parece demais.

A senhora ministra deveria saber (ou pelo menos pensar) que não era ali que poderia ser mais útil. Era lá em Lisboa, a reunir com gente que a pudesse aconselhar. Com esses desafortunados especialistas que andam desde há anos (que digo?, desde há décadas...) a fazer o diagnóstico das sucessivas situações e a propor os meios de as evitar.

À Sr.ª Ministra pedem-se políticas mesmo se caia bem o seu natural ar compungido e merencório. A quem está no terreno pedem-se coisas tremendamente práticas. Apagar o fogo, salvar vidas e bens (árvores, casas, animais, ia a dizer memórias e afectos mas isso espero que esteja implícito).

Sª Excelência não é bombeira, não é médica, não é psicóloga, não é enfermeira, não parece ser escuteira ou pertencer a uma ONG, à Misericórdia ou ao Banco Alimentar. Também não é sacerdote, sacristã, coveira ou irmã da caridade.

É ministra, raios! Ministra! Tem de governar. Não precisa andar com um colete de bombeiro, sapatilhas e ar (sempre melancólico) grave e solidário. Que os ministros, os deputados, os autarcas e o resto das paisanos em me que incluo estão solidários é um mínimo, um sinal de civilização, de cidadania de honradez pessoal.

Para beijos, abraços e afectos já basta o Senhor Presidente que, cada vez mais, para o melhor e para o pior, se assume como o 4º Pastorinho. Mas o Senhor Presidente não governa, não tem de estar a todo o tempo a estudar o essencial que é tornar certo e evidente, hoje, o NUNCA MAIS. Nunca mais isto, esta infâmia, esta vergonha, este desespero, este modo tão português de impotência e irresponsabilidade.

É por isso, Exª Senhora Ministra, que com alguma tristeza mas com toda a convicção que me permito dizer-Lhe que, mesmo já fora de tempo, ficaria bem pôr o Seu lugar à disposição. Nem me atrevo a sugerir-Lhe uma demissão irrevogável (das irrevogáveis como a de Jorge Coelho e não das irrevogáveis passageiras que imortalizaram um político agora felizmente na reserva (e, vá lá, em relativo silêncio).

 

*na gravura: um carvalho. Dentro em pouco será algo quase desaparecido na nossa floresta. Se esta pertencesse em percentagem razoavel (europeia) ao Estado poderia haver alguém, inteligente e sensível que nesses terrenos públicos e desolados se lembrasse de plantar carvalhos. E teixos. E castanheiros. E faias. Etc., etc....

 

 

 

 

 

   

19
Jun17

Estes dias que passam 355

d'oliveira

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“A morte neste jardim”

(enterrar os mortos e cuidar dos vivos)

As imagens (muitas vezes sensacionalistas) que gulosamente as televisões repetem vezes sem conta, deviam fazer-nos reflectir. Como é que, num país onde Verão após Verão, se sucedem as chamas, as mortes, a ruína dos mais pobres, dos mais velhos e dos mais distantes, ninguém atenta nesta horrenda verdade: gastamos em combate aos incêndios mais (muito mais, várias vezes mais) do que Espanha, França, Itália ou Grécia.

Todavia basta reparar nas imagens: mato por todo o lado, floresta desorganizada, estradas e caminhos, bem como as casas, paredes meia com as árvores. Basta uma chama e vai tudo. Sabemos disto desde há décadas. O interior perde gente, antigas terras agricultadas ficam baldias e selvagens, quem resta investe em eucaliptos e pinheiros, numa desordem que agora cobra um alto preço. Sessenta e um mortos! Para já. Mas é infelizmente previsível que esta macabra contagem continue a registar progressos. Há desaparecidos, as frentes de fogo continuam activas, o calor não baixa, o vento continua a soprar com força, a humidade atmosférica está em níveis baixíssimos.

E o Verão ainda nem começou...

De quem é a culpa? Vai, mais uma vez, morrer solteira? Desta feita não há incendiários, desculpa muitas vezes fácil e esfarrapada que oculta as falhas políticas de todos, Governo, autarquias, pequenos proprietários rurais, proprietários absenteístas ou emigrantes. Não há prevenção que se veja. Ou seja, quando, desde há muito, era imperioso ordenar a floresta, criar leis que o permitissem, punir quem não limpa os seus pinhais e florestas, tornar as estradas nacionais seguras sem barreiras de sombra e de árvores (nunca esquecer que boa parte das vítimas morreu na estrada em fuga, em pânico, perdidas pessoas e bens). Quem ficou teve melhor sorte: até ao momento, pese a angustia, o medo, a desolação, ainda está vivo.

Quem viaja por esse interior intensamente florestado, repara na falta de “estradões” corta fogo. Basta ir a Espanha para ver como se faz. Quem passa pelas matas ordenadas pertença das grandes papeleiras, vê que aí tudo ou muito, ou alguma coisa, se fez para prevenir o incêndio. Prevenir é melhor, é mais barato, é mais futurante do que remediar.

Cada vez se gasta mais em aviões, em helicópteros, em equipamento pesado de bombeiros, em formação. Desgraçadamente, graças a um conjunto dramático de coincidências, tudo isso se mostrou inoperante.

Parece que não há guardas florestais! Parece que nada ou pouco regulamenta as plantações ou simplesmente o que lá está. Grande parte da floresta nacional portuguesa desapareceu sendo substituída pelas plantações rápidas desde o pinheiro ao eucalipto. Que ardem com facilidade, como se vê. De resto, a floresta arde, sempre ardeu, especialmente a mediterrânica. Temos de viver com isso, aliás vivemos com isso há centenas ou milhares de anos. Mas, pelos vistos, não aprendemos nada. Durante séculos a floresta era protegida pelos rebanhos, pelas pessoas que iam por mato para camas dos animais, para aquecimento. Agora não há pessoas, o aquecimento faz-se a gás e os rebanhos são escassos. A erva cresce, seca, torna-se combustível sem mais. E arde.

Agora, o tempo é de choro e de apelos à solidariedade (de todos) e à coragem dos que perderam tudo, para não falar dessa outra quase certeza: daqueles que, durante os próximos três meses irão perder terras, casas, gados, bens, parentes e amigos.

Lamentavelmente, se acaso a selecção se safa, este desastre passará para um plano mais opaco. Se, ao menos, estes primeiros dias de apelos se traduzirem numa ajuda razoável às vítimas sobrevivas, já teremos um milagre mesmo se o verdadeiro auxílio seja a inflexão das políticas da floresta, milagre dos milagres, quase impossibilidade teórica e prática.

Senão... as árvores voltarão a crescer (sobretudo os eucaliptos que convivem com o fogo) a desordem continuará viva e alegremente irresponsável, os estradões ficarão no papel, os guardas florestais brilharão pela ausência, os bombeiros voltarão a receber mais equipamento e as mortes seguramente repetir-se-ão. Como a frágil comoção pública e o dedo apontado aos incendiários (parece que alguém teria pensado numa espécie de prisão preventiva domiciliária dos eventuais ateadores de fogos!!!)

 

Nas reportagens que fui vendo, dois destaques: as televisões repetiam continuamente as mesmas imagens e as mesmas entrevistas numa ânsia de gastar tempo e ganhar audiências.

Vários populares afectados pelos incêndios entenderam queixar-se dos bombeiros (nove ou dez deles já feridos e hospitalizados) que não os ajudavam a salvar os parcos bens, a casa, o terreno. Nem sequer percebiam que os bombeiros tinham uma missão bem mais dura, mais perigosa e mais urgente: salvar todos, circunscrevendo o avanço do fogo. As televisões adoraram estes queixosos, deram-lhes a palavra sem perceber a verdadeira missão de quem informa sobre um desastre medonho e que é não ceder ao fácil, à demagogia e ao egoísmo. Mas isso seria pedir demais aos repórteres no “terreno”, não acham?

 

* O título do folhetim pertence a Luís Buñuel que para este filme (1956) requereu Simone Signoret e Charles Vanel.

O subtítulo pertence ao Marquês de Pombal. Era um déspota, um ambicioso, um parvenu mas também soube ser eficaz. Por vezes, demasiado “eficaz”...

 

 

12
Jun17

estes dias que passam 354

d'oliveira

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Crónica de um naufrágio sem glória

 

Agora que os resultados da 1ª volta são conhecidos é fácil “fazer prognósticos” como, ironicamente se diz no futebol. Todavia, esta hecatombe sofrida pelo PS anunciava-se há muito. O PS francês vivia em respiração assistida muito antes de Hollande chegar à Presidência. Ouvir os tenores do partido nas televisões era já um exercício penoso. As pessoas perguntavam-se como é que numa capoeira com mais galos que galinhas havia uma espécie de paz. Não havia, claro mas o ruído dos duelos era “feutré” e a opinião pública distraía-se com os faits divers dos humores e amores do Presidente, coma escandaleira suscitada pelas acusações de uso indevido de dinheiros (públicos e privados) pelos sarkozistas e, sobretudo pela indefinição das alas mais radicais dos partidos de poder.

Ao longe, ou bem mais perto, a FN ia ganhando terreno nos antigos feudos proletários e aparecia como uma grande triunfadora nas eleições europeias, coisa que, para muito comentador estrangeiro, terá passado quase despercebida. As pessoas ainda acreditavam na política de cordão sanitário usada nas eleições internas (municipais, regionais, legislativas e presidenciais) para atirar para debaixo do tapete a incómoda realidade da Extrema- Direita. Nisto, a França, certa França, sempre deu lições a começar pela cambalhota no final da 2ª Guerra Mundial que transformou um país vencido (e, em muitos casos, convencido) na pátria da Resistência.

Começou aí o mito de uma nação de esquerda, indomável, em que um partido calado (quando não vagamente colaborante) até À invasão da União Soviética se pode apresentar como o campeão da revolta, da insubmissão (onde é que já ouvi isto?), o partido dos mártires (confundindo neste termo os mortos militantes e todos os que, sem partido, sem causa, sem acção ou reacção, eram massacrados pelos ocupantes alemães em guisa de resposta aos atentados).

Então, entre nós, a coisa foi excessiva: francófonos e francófilos desde sempre (e neste “sempre” incluo os anos das dramáticas ocupações francesas logo no início do século XIX) a bitola política foi sempre aferida pelo modelo francês. Até o dr Soares falava no seu “amigo Miterrand”, provavelmente por ser o francês a única língua europeia que(tant bien que mal) dominava.

Boa parte da inteligentsia indígena viveu o exílio em Paris, moldou-se nesse cadinho, importou todas as modas intelectuais gaulesas, desprezando ao mesmo tempo tudo (ou quase) o que se passava no resto do mundo. Suponho que terão ficado muito tristes com os resultados do tsunami deste domingo.

Todavia, que esperavam? Será que não viam o cansaço dos eleitores, a ineficácia das medidas económicas, o retrocesso da economia francesa, ao imobilismo social decorrente da incapacidade de vencer uma espécie perversa de direitos adquiridos por todo o género de corporações, muitas delas justamente sustentáculos dos partidos de poder?

Ontem, na televisão francesa, o actual Primeiro Secretário do PSF , Jean Christophe Cambadelis , advertia contra os perigos de uma excessiva maioria de Macron. Ou seja, fazendo jus, às suas origens trotskistas, Cambadelis entendia que o povo tinha votado mal. Tinha dado o seu sim a uma espécie de coartamento das liberdades democráticas. Uma maioria tão forte, quanto a que é possível imaginar, transformaria o exercício da Presidência num passeio ao campo, e esmagaria o diálogo e o confronto são de ideias. Felizmente, está fora da Assembleia. Perdeu como perderam todos os grandes dirigentes, Hamon incluído. A votação popular não lhes deu qualquer hipótese. Como se os eleitores quisessem dizer “entre estes os próximos de que se desconhece tudo ,antes os segundos. A seu tempo poderão ser corridos.”

O desastre da Esquerda estende-se implacavelmente aos seguidores de Mélenchon e, menos, ao PC que já era quase irrelevante. Com o picante de, em muitos casos, ser a “França Insubmissa” a passar o atestado de óbito aos candidatos do PS.

E a Direita?

OS Republicanos (LR) são também fortemente derrotados mas, apesar de tudo, salvam a mobília. Aparecem já como o segundo maior bloco na Assembleia. Com a vantagem suplementar (e não é assim tão pouca)de serem um partido estruturado, experimentado face a uma coligação onde pouco está definido estrategicamente ( e mesmo tacticamente...) Se alguma fragilidade há em La Republique en Marche esta é a mais evidente. É um bloco protestário, inconformado com o pântano político, mobilizado por u político capaz mas ainda sem a hierarquia necessária, mesmo se mínima, que permita, além do não rotundo à situação actual, um claro sim a medidas mobilizadoras e restauradoras de uma certa grandeur française a que indiscutivelmente Macron aspira.

E a Extrema Direita de Madame Le Pen, Philipot (para já salvo in extremis)? Apanha um grande balde de água fria, aliás um resultado mais consentâneo com a sua real influência na sociedade. O sistema de duas voltas pode ditar-lhe uma sorte negra. Para tal basta que funcione, ou volte a funcionar, o “cordão sanitário”. Neste capítulo, e diferentemente do que sucedeu na 2ª volta das presidenciais, Mélenchon já se pronunciou contra a FN, apelando a votar no candidato que a enfrenta, circunscrição a circunscrição. Claro que, neste caso, Mélenchom persegue um outro objectivo: ter mais deputados do que Marianne Le Pen. Nisto o ego da criatura, émula de Maduro, também conta!

Uma palavra final para o senhor Manuel Valls, ex-primeiro ministro socialista, ex-derrotado nas primárias do PS, ex sabe-se lá mais o quê: passa à 2ª volta graças a não ter tido pela frente (Favor de Macron) candidato LREM. Cabe-lhe derrotar uma senhora melenchonista. Se eu fosse eleitor dessa circunscrição poderia contar com o meu voto. Mal por mal antes um europeísta do que uma caricatura pro-venezuelana.            

06
Jun17

Estes dias que passam 353

d'oliveira

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Espera lá!...

(ou Mexia mexe com quem?)

(nota: não conheço nem nunca vi o sr. dr António Mexia, não conheço (que eu saiba) amigos dele e pouco me importam a sua saúde, o seu salário, o seu nome e a sua reputação).

Parece que o principal dirigente da EDP está arguido num processo de corrupção. Pelo (pouco, pouquíssimo) que os jornais dizem, a criatura terá conseguido para a empresa que dirige uns excelentes proventos, “rendas”, considerados excessivos pela troika (afinal a tal troika não era assim tão nossa inimiga?) pelo Ministério anterior e, já agora por vários partidos e actores políticos.

Ora, se é que ainda consigo raciocinar, se Mexia está arguido ou é corruptor ou corrompido. No segundo caso, nem se percebe como é que os chineses o aturam e lhe pagam (principescamente).

Enquanto corruptor, isto é alguém que untou as mãos (e provavelmente o antebraço, o braço, o ombro e o resto da anatomia) de quem em nome do Estado lhe concedeu as referidas e excessivas rendas, conviria saber como se construiu a tramoia, quem saiu beneficiado, por quanto, há quanto tempo etc., etc.

Se a informação é boa, essas rendas foram negociada com o governo do irrepreensível e, vagamente, engenheiro sr. Sócrates. Mais, o ministro que deu a cara teria sido um certo cavalheiro de seu nome Manuel Pinho, ou algo do mesmo teor, que depois de sair pela porta baixa da arena onde fazia corninhos a uma qualquer criatura, apareceu travestido em visiting professor da reputada Universidade de Colúmbia em Nova Iorque.

Eventualmente, por acaso, mero acaso, curioso acaso, a dita instituição recebera uma vultuosa soma da EDP para, também eventualmente criar uma cátedra sobre economia da energia ou outra treta qualquer.

Dizer que o sr Pinho (o dos corninhos) fora pago desta maneira pela EDP pelo serviço de negociar brandamente as rendas é passo que não dou, deus me livre, Jesus, Maria, José!...

Pinho, como Sócrates, apesar da cornamenta feita com os dedinhos, é, até prova em contrário, criatura impoluta. Por junto poderei considera-lo grosseirote, esparvoado que isto de fazer figas tão imbecis no Parlamento não lembra nem a um idiota chapado.

Todavia, subsiste esse pequeno pormenor das rendas excessivas que puseram os cabelos em pé até ao careca da troika. Então o Estado, na pessoa do seu Governo dá de mão beijada um porradão de maravedis a uma empresa glutona? E logo um governo do povo, de Esquerda (ou tido como tal...) que mais tarde até foi desautorizado por outro governo, esse de Direita (que como se sabe e o PCP ensina, é sempre reaccionário, favorável aos monopólios, ao patronato, aos ricos e sei lá quem mais) que diminuiu as rendas para o actual nível. E neste ano e meio de governo revertedor, socialista e gerigoncista, ninguém foi às mãos papudas de Mexia e da EDP e lhes ferrou o par de reguadas fiscais da ordem?

E ninguém buscou um corrupto (ou meia dúzia...) já que, segundo os agora clarividentes jornais, toda a gente andava intrigada com as benesses concedidas à EDP? É que, se há corrupção, tem de haver corruptor e corrompido, ou não é assim?

Eu sou um leitor furioso. Leio tudo até a informação, farmacêutica dos medicamentos que tenho de tomar, não vá pílula fazer mais mal que bem. Porém, nisto de pílulas, há sempre um copo de água para acompanhar. Ora aos actuais arguidos (Mexia & alia)falta o copo de água para os engolir. Falta a gente que encheu o bolso em troca da sua generosidade. Falta a gente que permitiu (se é que também não se encheu) ao(s) primeiro(s) corrompido(s) aumentarem a sua fortuna pessoal.

Enquanto este pequeno mistério não se aclarar (contratem o Poirot, que diabo!, ou o Moita Flores ou quem quer que seja) estou de pé atrás. Atrás e fazer figas. A vontade era seguir o exemplo pouco brilhante do sr Pinho mas a mim basta-me entrelaçar os dedos atrás das costas.

 

Nota: o sr Jerónimo de Sousa resolveu dizer que este eventual escândalo nunca ocorreria se a EDP não tivesse sido privatizada. Ou é ingénuo ou não conhece o Estado e a sua engrenagem interna. Aliás, quem senão o Estado ou os seus representantes poderia decidir das rendas a pagar?

Seria de recomendar ao sr Sousa um breve estudo sobre como na anquilosada URSS a burocracia se governava (e desgovernava a sorte dos desgraçados súbditos) e como alguns dos próceres dessa altura se têm mantido à tona sem prestar quaisquer contas aos cidadãos de segunda em que mandam despudoradamente. Mas isso é outro conversar...

  

 

02
Jun17

estes dias que passam 352

d'oliveira

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Boas notícias? Não!

Péssimas notícias!...

 

A inda não tinha secado a metafórica tinta do meu último texto e, Zás!, Catrapáz!, lá foi tudo borda fora.

A Dívida Pública (com letra grande e tudo) voltou a aumentar. Neste momento vai em 247 mil milhões e se o mês correr como o anterior chegarem ao verão com 250 mil milhões!!!

E há todas as razões para crer que a coisa vai ser assim pois verifica-se de há vários meses para cá a tendência suicidaria de subida.

Isto para não falar da dívida privada que, todos os indicadores o confirmam, está outra vez a adejar pelas alturas. Bem podem os optimistas de serviço (Costa ou o 4ª Pastorinho) felicitar-se com outros resultados ao mesmo tempo que, e não por acaso, esquecem este que é esmagador. Em Portugal à melancolia do costume sucede-se a euforia dos tolos e dos ignorantes logo que um raio de sol pálido e fortuito espreita por entre as nuvens. A taxa de aforro privado é a mais baixa de sempre (e isto num país que, durante décadas sempre poupava uns trocados) o que torna ainda mais frágil a posição dos que teimam em dar um passo mais comprido do que a perna. Que o diga o disparo do consumo de bens quase todos importados (com relevância para o automóvel), para a previsão de férias mais caras e mais longe, o arranque do preço da habitação para venda que sobe aceleradamente em todos os lados , sobretudo, em Lisboa e no Porto. Por outro lado não há dos lados da banca (e já nem falo dessa coisa chamada CGD que foge do interior a sete pés e mima o litoral com mais oferta) qualquer sinal de encorajamento da poupança. Quem tem meia dúzia de tostões bem pode gastar a cabeça à procura de alguém que lhe cuide do dinheiro poupado.

Mais: a Banca, toda ela, aumentou todos os preços dos seus serviços que, graças à informática, tem baixado sucessivamente. A deputadagem na AR e a gentinha das finanças andam mais preocupadas em afrontar os escassos organismos independentes de controlo do que em evitar que quem pode mande os dinheiros para fora. Agora, sem que se perceba muito bem, Jersey, a ilha de Man e o Uruguai já saíram da lista de off-shores suspeitos. Consta que quem devia dar parecer sobre o assunto não foi ouvido.

A discussão (ou a pré-discussão ) sobre o futuro Orçamento está prenhe de sound-bites despesistas. O senhor Mário Nogueira, eterno dirigente da Fenprof, depois de um silêncio obediente de quase dois anos, volta a alanzoar reivindicações. A funçanata pública agita-se e promete greves tremendas que, como de costume atingem apenas uns desgraçados inocentes. Sempre os mais pobres e os mais desprotegidos, nunca os poderosos. Na disputa sobre quem exige mais, o excelso BE na voz de um tal Jorge Costa, deputado, quer ainda mais. “Desobedecer à Europa”, sintetiza o jornal. Esta criatura finge que não sabe de onde nos veio durante décadas o dinheiro, todo o dinheiro, de onde ele ainda vem, dos baixos ou nulos juros, enfim para ele, e amigos, a Europa é um ogre e nós somos o carneirinho tenro onde a malvada criatura ferra o dente fétido e mortífero.

Evidentemente, não comparo este despesista irresponsável e ignorante com os drs Costa e Centeno que, apesar de tudo, certos que já quase têm no papo uma sólida maioria, travam às quatro rodas. Mas a opinião pública excita-se mais com o esganiçamento reivindicativo do que a cautela do dia a dia.

E as notícias são as que os beijinhos e as selfies narram na televisão assim como os épicos sucessos do jardim à beira mar plantado, o “torrãozinho de açúcar” de que falava uma das personagens de Eça...

 

 

02
Jun17

estes dias que passam 351

d'oliveira

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Há boas notícias? Há.

E vão continuar?

 

1 Se ouvi bem a Sr.ª Secretária de Estado do Turismo, este sector em forte, fortíssima alta, teria criado 39.000 empregos. Se o que penso ter ouvido está certo, então a diminuição do desemprego (sempre benvinda, seja porque razão for e por quanto tempo puder ser) deve-se fundamentalmente, e quase só, a isso.

De todo o modo, dure o que durar, este fenómeno de atractividade nacional é bom. Todavia, eu sou de uma terra (Figueira da Foz) que durante setenta anos assentou boa parte da sua riqueza no turismo. Praticamente, desde o tempo de Ramalho Ortigão (o seu texto sobre a cidade em “As praias de Portugal” é do melhor que já lhe li.) até meados dos anos sessenta do século passado.

De repente, o Algarve emergiu com praias quase vazias, água mais quente, tempo sempre bom, pouco ou nenhum vento. Foi a debandada. Nunca mais a Figueira viveu verões de enchente como os da minha infância e adolescência. A cidade cresceu, tentou diversificar as suas actividades produtivas mas aquele maná de “banhistas” trazidos pelas linhas férreas (a da Beira Alta transportava espanhóis e a do Oeste as gentes da Estremadura enquanto o ramal de Alfarelos enchia a cidade de coimbrões. A Figueira era “Coimbra C” numa menção às duas estações coimbrãs, A e B. ) esmoreceu fortemente. Sic transit...

Os baixos preços portugueses já, nos anos sessenta, tinham trazido uma revoada de estrangeiros, franceses sobretudo. Mesmo hoje, são os baixos preços um dos nossos principais trunfos. Mas não o único. De facto, as zona leste e sul do Mediterrâneo entraram em convulsão. Muitos milhões de veraneantes abandonaram, temporária ou definitivamente, a Turquia, a Síria, o Líbano, o Egipto. A Tunísia está semi-deserta, a Líbia ainda mais, a Argélia no mesmo. Até Marrocos, o último país muçulmano ainda tranquilo, começa a ser olhado de viés.

Portugal foi uma alternativa exequível, pacífica, próxima, apenas um pouco mais cara, que beneficiou da expansão dos voos low cost. Novas zonas turísticas foram finalmente descobertas desde o Douro até ao magnífico Alentejo que já não é só praia.

O único problema do turismo é que, para muitos turistas, basta uma vez. Depois procuram outros locais, sobretudo no caso do turismo estival. Claro que, para compensar, estamos a assistir a um crescimento exponencial do turismo de terceira idade ao mesmo tempo que a combinação preços baixos de alojamento e alimentação com a descida dos custos de viajem (e o crescimento da riqueza individual em certa Europa e na Ásia - China ou Japão) garante, durante mais algum tempo, um fluxo igual ou crescente de visitantes. A descoberta de novos destinos internos também suscita curiosidade e interesse. Ainda há pouco tempo, turisticamente falando, o Porto era medíocre e agora é o que se vê (e, por vezes, se sofre...).

2 Um papagaio televisivo dominical e pouco original afirmava ontem que a eventual vinda de Madona e de mais uma dúzia de celebridades provava a inevitabilidade de uma enxurrada de novos residentes graças a um estatuto fiscal que tem feito despoletar a venda de habitação de luxo. Sem querer retirar o peso dessa procura (no Algarve é significativa) tal não chega para provar o que quer que seja. Não é a habitação de luxo que nos tira da miséria mesmo que engorde alguns construtores civis.

3 O país progredirá se criar mais riqueza, se atrair mais investimento significativo e reprodutivo, se elevar o ratio de exportações às alturas da Holanda ou da Bélgica. Para isso haveria de limpar o nosso incrível sistema fiscal onde a regra é a permanente mudança, agilizar a justiça fiscal e administrativa que mais parece viver em pleno século XIX e ter em clara linha de conta que, em algumas das nossas exportações, ainda pesa bastante o baixo custo da mão de obra. Ora, ao incrementar a produção nesses sectores haverá maior procura de trabalhadores (num país que envelhece a olhos vistos) e, obviamente aumentos salariais importantes. E relembre-se, outra vez, que nem todos os aumentos de produção se traduzem em aumento de emprego...

Isso poderá traduzir-se em preços menos competitivos e/ou em migração da produção para territórios de mão de obra mais barata.

Conviria ainda começar a pensar na clara mudança de paradigma que a revolução digital tecnológica vai trazer. Vão perder-se milhões de empregos e urge pensar em medidas alternativas e alterar o péssimo sistema de ensino que temos.

4 Subitamente, toda a gente, ou alguma, pelo menos, começou a alvoroçar-se com o êxito de Portugal. Tudo serve desde a eurovisão a premiar uma canção menos medíocre do que as concorrentes, até o Ronaldo com namorada e golos novos. No meio, há um deficit ultra lisonjeiro mesmo se obtido com cativações, paragem total de investimento público, efeitos de um oportuno perdão fiscal, manutenção das medidas austeritárias mais duras (ai os impostos indirectos...) e alguns outros normais truques. A questão que se põe é se, nos anos vindouros, este milagre continuará.

5 O Sr. Presidente da República, sempre no seu papel de 4º Pastorinho jura (ainda mais do que o celebrado professor Pangloss) que tudo vai bem, que tudo vai melhorar. Conviria, lembrar a S.ª Ex.ª que temos vivido uma época excepcional de juros baixos ou baixíssimos, de retoma crescente da Europa que naturalmente nos arrasta, de bondades do BCE que mais cedo ou mais tarde acabarão.

6 Seria bom pensar assim: batemos no fundo, falimos e agora as coisas estão menos más. Par que este panorama (cor de rosa aos olhos de Sª Ex.ª) melhore há muito a fazer. Muito esforço, muito sacrifício, muita imaginação, menos auto-elogio, muito menos complacência com os desvarios desenvolvimentistas à Sócrates (por pouco que não estávamos com mais um aeroporto faraónico e com vários TGV de curto percurso). O único grande investimento das últimas décadas que deu certo foi o Alqueva e convém saber como continuá-lo.

7 Finalmente, não basta estancar ou tornar mais lento o progresso da dívida pública. Há que começar seriamente a diminuí-la. E, já agora: atenção à dívida privada que, tudo indica, tem crescido nos últimos meses. Bastou uma aragem para de novo os portugueses se precipitarem em compra de casa e de automóvel, para não falar no crédito a férias e a consumos que poderiam e deveriam ser adiados. Parece que ninguém aprendeu nada. Já assim tinha sucedido nas duas fortes crises post 25 Abril do século passado. Euforia, despesismo, queda abrupta na triste e mesquinha realidade. Má sina, pior fado que nenhum êxito passageiro no futebol, em Fátima ou no fado apagam.

08
Mai17

estes dias que passam 348

d'oliveira

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Uma vitória, duas derrotas

Eu sei que as eleições francesas já deram o que tinham a dar. Macron ganhou, diz-se (e é gloriosamente verdade) e basta. Não, não basta. Não basta por toda uma série de razões: Macron neste momento já vai nos 66, 1 contra 33,9 de Le Pen. Ou seja já está quase no dobro da adversária. É uma derrota pesada, pesadíssima para esta, digam lá o que disserem.

Mesmo com uma crescente abstençãoo, Macron ganha folgadamente, o que significa não apenas a rejeiçãoo da adversária mas também, que diabo!, a aceitaçãoo de algumas das suas propostas.

Os arautos da insubmissão (e amigos da Maduro, convém lembrar) não conseguiram impedir esta limpa vitória, sequer ensombrá-la. Das duas uma: ou os seus eleitores menos próximos desobedeceram às vergonhosas recomendações de voto branco (e estou em crer que foram bastantes) ou outros antigos abstencionistas perceberam que isto não era a feijões e que a tese ultra imbecil do “quanto pior melhor” tresandava.

Há uma certa ironia histórica nisto. Em tempos não demasiadamente recuados (Alemanha nos anos 30) o forte KPD (Partido Comunista Alemão, obedecendo ao Komintern, lançou a política “Klasse gegen Klasse” (classe contra classe) atacando com a máxima virulência o SPD (Partido Socialista) que foi considerado a “vanguarda da reacção”, um bando de social-fascistas e outros mimos do mesmo género.

Foram baldadas as tentativas de criar uma frente comum anti Hitler, e o resultado foi devastador. Uma vez no poleiro o “pintor de paredes” ilegalizou o PC e mandou os seus deputados e dirigentes para os campos de concentração entretanto inaugurados. O PS não demorou a seguir este destino mas por uma causa nobre: os socialistas negaram votar os “plenos poderes” a Hitler e foram, por sua vez, reduzidos à prisão e ao exílio.

Quando a classe contra classe morreu já era tarde. Todavia, logo que a guerra eclodiu, os partidos comunistas, mais uma vez em obediência cega às directivas da 3ª Internacional, condenaram as potências democráticas e declararam-se neutrais. Em França, levaram o atrevimento impudente a solicitar das entidades ocupantes, licença para voltar a publicar”L’Humanité”. Os alemães recusaram.

Foi preciso que a Alemanha invadisse a URSS para, então, os comunistas ocidentais se proclamarem anti-fascistas e combatentes!...

Felizmente, anda restava em França alguma memória destes tempos miseráveis em que os comunistas silenciavam as atrocidades do ocupante e o servilismo de Vichy. (para memória: logo que a ocupação alemã se tornou efectiva, Paul Nizan, destacado intelectual comunista, recusou a directiva da Internacional. Foi acusado pelo servil Thorez, dirigente do PCF, como traidor e polícia!...Assim se vê de que lado estava a inteligência e em que fossa nadava o colaboracionismo dos pseudo-revolucionários vermelhos. )

Voltando às eleições francesas, depois desta digressão infelizmente necessária dada a ocultação da história recente: A vitória de Macron é também a vitória de quem vê o mundo actual tal como ele é e está, contra os saudosos do passado. Queira-se ou não, 2017 não é 1917, 1870 ou 1789. O mundo em vogam inocentemente os Mélenchons e os seus amiguinhos e amiguinhas portugueses, não existe, não volta. Se importa mudá-lo convém, para já, compreendê-lo, explica-lo.

E para tal, é necessário rearmar a ideia de Europa, desta comum Europa que, pela primeira vez na História está em paz há mais de setenta anos. Em França ou cá, onde também, quatro tristes agoureiros (ou agoureiras) pretendem convencer-nos contra a mais plácida e visível evidência de que o euro, a Europa, o cosmopolitismo, são a doença e não a cura. Há que melhorar as coisas? Claro! Há que democratizar as instituições comunitárias? Sem dúvida! Há que repensar a política internacional e interna? Absolutamente (e aqui vai uma dica: conviria pensar num parlamento nacional eleito mais democraticamente sem se elegerem deputados à molhada. Seria bom podermos chamar à pedra o fulano (ou fulana) que elegemos para ver se não se escondem na multidão que vota sem ligar nenhum aos eleitores).

A vitória de Macron é, sem qualquer dúvida, uma vitória sobre a direita, nacionalista, autoritária e xenófoba mas também sobre uma esquerda identicamente autoritária, igualmente nacionalista e, graças à sua diabolização da mundialização e do espaço europeu, recorrentemente xenófoba também. Digam eles o que disserem. Para caricaturas de Maduro, já chega o “Podemos”, não precisamos do pobre Mélenchon.

Paz à sua alma. Amén!

* na gravura duas bandeiras: a francesa e a europeia. É assim que se pode fazer a História. Assim seja.