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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

18
Out17

Estes dias que passam 343

mcr

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Já devia ter ido há muito, desde sempre!

(mcr 18.Out.2017) 

A Sr.ª Ministra Da Administração Interna pediu finalmente a demissão. Na carta que os meios de comunicação reproduzem afirma que esta demissão fora pedida logo a seguir a Pedrogão. E que só não fora publicitada porquanto o Sr. Primeiro Ministro lhe pediu para permanecer.

Todavia, agora, depois do que aconteceu, depois dos acabrunhantes relatórios sobre os fogos onde pereceram mais de sessenta pessoas (que o Estado não protegeu e que, até à data não obtiveram deste qualquer pedido de desculpas...) , eis que a sr.ª Ministra renova terminantemente o seu pedido não deixando margem a qualquer outra solução.

Por acaso, só por um inefável acaso, morreram mais quarenta portugueses, dos mais pobres, dos mais desprotegidos, dos com menos possibilidades de se defenderem quer pela idade, quer pelo isolamento, quer pela violência da catástrofe. Por acaso, começaram a surgir por todo o lado críticas violentas à Sr.ª Ministra, manifestações, artigos condenatórios na Imprensa e um discurso do Sr. Presidente da República onde a Sr.ª Ministra é claramente um dos alvos.

Não por acaso, mas por canhestra insensibilidade, a mesma Sr.ª Ministra veio para as televisões dizer que para ela “o mais fácil seria pedir a demissão (coisa que nesse momento se recusava a fazer) e que nem férias tinha gozado. No meio destas deploráveis palavras, entendia ainda a Sr:ª Ministra que no repartir de culpas (não dela, claro) havia algumas a apontar às comunidades vítimas, eventualmente aos mortos e feridos, a necessidade de se tornarem mais resilientes às catástrofes. Que esta absurda demonstração de falta de sensatez e de absoluta falta de piedade, de desgosto, não foi obra do acaso prova-o o facto de um seu Secretário de Estado ter abundado no mesmo sentido clamando que tem de ser os povos perdidos nas serranias quem se deve defender sem esperar aviões ou bombeiros.

Isto, esta sintonia miserável e insultuosa entre dois altos responsáveis governamentais não pode ser mera coincidência. Há aqui uma sintonia planificada de declarações que, cumpre dizê-lo, foram passadas em silêncio (concordante?) pelo Sr. Primeiro Ministro.

Foi preciso que o Sr. Presidente da República viesse a terreiro, foi preciso uma ameaça de “moção de censura”, seguida de uma manifestação e precedida de um coro de críticas e de anúncios de mais manifestações, para que, subitamente, a Sr.ª Ministra se tentasse retratar com a carta de demissão e com a “narrativa” de uma outra e anterior atitude idêntica.

Mais uma vez, não se descortina uma palavra de conforto às vítimas (mal de que também enferma o Sr. Primeiro Ministro que, eventualmente, pensará que isso incumbe aos milhares de cidadãos que se solidarizaram enviando contributos pessoais, e ao Presidente da República que (honra Lhe seja) tem constantemente acorrido aos locais das desgraças com uma palavra, as invitáveis selfies e os beijinhos. Mesmo criticando, muitas vezes, a “pro-actividade” (raio de palavra!) presidencial, sou obrigado – e não me custa nada! – a reconhecer que foi o Doutor Rebelo de Sousa quem encarnou os deveres próprios e os do Governo. O que lhe dá o direito (e nunca as mãos lhe doam) de fazer o discurso que fez.

Eu não conheço a Sr.ª Dr.ª Urbano de Sousa. Nem tenho qualquer vontade pois o que dela adivinho é apenas uma absoluta falta de comiseração por quem sofre, por quem está em baixo, pelos cidadãos deste pobre país, por todos quantos a criticámos desde Pedrogão. E a este pecado primário e definitivo junta-se o da falta de ética republicana, queira isto dizer o que quiser. Esta senhora não deve, não pode fazer política. Não se pode depender dela para nada.

Vai fazer as merecidas férias a que tem direito. Que durem anos, décadas! E que leve com ela aquele Secretário de Estado tão repelentemente “pro-activo”. Num país que no dizer do “Jornal de Leiria” perdeu, com o incêndio do pinhal de Leiria, setecentos anos de história, podemos sem qualquer problema perder de vista duas criaturas incompetentes e arrogantes.

10
Out17

Estes dias que passam 342

mcr

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As/Os padeirinhas/os de S Bento

 

Na curiosa “Assembleia da República” portuguesa passa-se um pouco de tudo. Desta feita, apareceu um voto de condenação da actuação policial no dia do “referendo” (ilegal, seja de que que ponto de vista for) na Catalunha.

Parece que a polícia não foi meiga (e não o foi, é evidente) contra os manifestantes que insistiam em votar. que insistiam, relembre-se, numa actuação ilegal considere-se o “Estatut”, a Constituição de Espanha, a lei geral ou, sequer, o parecer do Tribunal Constitucional.

Convirá recordar que neste género de situações a polícia é sempre violenta. Nem que se trate de simples empurrões aos cidadãos. Por um lado há sempre uma desproporção de forças: de um lado um grupo de polícias, doutro uma multidão. Se é verdade que uns estarão armados (seja de pistolas ou de bastões) não menos verdade é que do outro lado há sempre um número muito maior de pessoas que, e também isso se viu (ou só não foi visto pelas criaturas bloquistas) começando por normais protestos, rapidamente se excitam e começam também elas a mostrar não só violência verbal (e essa a polícia ainda aguenta) mas cara disposiçãoo de romper os cordões policiais à força o que obviamente não se faz com meiguice.

Quem sai para a rua para se manifestar, sabe para o que vai. Ou, pelo menos, no meu tempo (e que tempo: anos cinquenta finais, todos os sessenta e os setenta que se lhe sucederam e não apenas os antes do 25A) sabíamos. Tenho dessa época uma memorável experiência nacional e internacional. De facto, não só não perdi uma única oportunidade de sair e apanhar chanfalhada nos juvenis lombos, mas em terras alheias comi pela medida grande. em França nos anos 68 e seguintes, em Itália durante uma “estate violenta”(1972), em Espanha na época do fim do franquismo et j’en passe. Manifestei-me pelas causas mais diversas (e nem sempre as mais justas: cheguei a ir para rua pela Cinemateca Francesa, contra a construção da “tour de Montparnasse”, entre outras miudezas surpreendentes.)

De todo o modo, eu sabia o que arriscava. E, já agora, percebia o que os meus adversários defendiam e o modo como pensavam defender-se.

Há, além do mais, uma segunda observação a fazer. E ela é a seguinte. Nenhum poder, fáctivo ou legítimo quer afirmar-se pela violência. todos os poderes visam consolidar-se com o sufrágio dos cidadãos. Ou, pelo menos, com a indiferença destes. O dr Salazar usava a terna expressão “safanões dados a tempo”. “Safanões”, vejam bem!

Isto justifica a “violência” venha ela de onde vier? De modo algum. A violência é sempre injustificada. Os fins nunca justificam os meios. E estejam nesses fins a sociedade ideal ou o poder de meia dúzia. Aliás, nisto de sociedades ideais há sempre o poder de um escasso número de iluminados que se sentem os arautos e os salvadores da imensa maioria.

Mas voltemos ao nosso parlamento. Umas padeirinhas e respectivos émulos masculinos (não os esqueçamos) tomaram dores pelos lombos de catalães independentistas como antes já tinham tomado pelos do venezuelanos maduristas. Curiosamente, nem uns nem os outros cheiram, de perto ou de longe, a esquerda, pelo menos a esquerda clássica. Aquilo a que assistimos é populismo histérico, nacionalismo feroz e xenofobia. Desde a Esquerra (e já aqui o notamos) até à CUP aí os temos impantes. E depreciativos para com o resto da comunidade espanhola. Como se a palavra Espanha fosse um insulto. Recordemos que Espanha é o nome, desde os primórdios da construção do império romano, que a península teve. A actual Catalunha estava na chamada “Tarraconense” (de Tarragona) enquanto por aqui a norte estávamos na Galécia e os de Castela na Lusitânia...

(“Arriba, arriba gajeiro, arriba ao mastro real, vê se avistas terras de Espanha, areias de Portugal”) Espanha impôs-se interna e externamente mesmo antes de ser um país unido e unificado com a notável excepção portuguesa, fruto muito do acaso tanto quanto da História e do jogo de interesses europeus (justamente uma das mais tremendas derrotas catalãs tem a ver connosco que com eles e com outros –os que de facto eram influentes- interviemos na guerra da sucessão de Espanha, tendo um exército português ocupado Madrid por um breve período de tempo).

Portugal construiu-se primeiro contra Leão (Afonso Henriques tentou baldadamente apoderar-se de vários territórios galegos, o que nunca conseguiu) depois, e sempre, contra Castela. A monarquia dual filipina foi um mero intervalo, tanto mais que, do ponto de vista legal e político o reino de Portugal continuava a existir. Todavia, esta situação não perdurou muito por culpa de grandes validos espanhóis, da incapacidade de Filipe IV (III de Portugal), dos desastres da guerra entre Espanha e Inglaterra e Holanda. Portugal viu ocupados o Brasil e Angola (ou seja Luanda e cercanias), perdido o Ceilão e outras possessões asiáticas e arruinado boa parte do comércio. Entretida com as guerras e com a manutenção da Catalunha, a Espanha já não teve exércitos suficientes para vencer D João IV. De todo o modo, a guerra da Restauração durou praticamente 30 anos e teve o resultado que teve graças a oportunas alianças com a Inglaterra.

No entanto, a sombra espanhola persistiu sobre Portugal e mais ainda sobre o nosso imaginário pelo que o chamado complexo de Aljubarrota persistiu. Ainda hoje, são evidentes e repetidos, certos traços de anti-espanholismo entre elites portuguesas. O iberismo foi sempre excepcional e a duvidosa aliança entre Salazar e Franco (que aliás chegou a ter um plano para invadir Portugal depois de por este ter sido – e de que maneira! – ajudado durante a “Cruzada” anti República).

Daí um entranhado entusiasmo por bascos (que durante muito tempo por cá andaram sem grandes cautelas), por galegos (A UPG chegou a ter bases em Portugal) ou pelos distantes catalães cuja língua, história e cultura são olimpicamente desconhecidas dos nossos padeirinhos e padeirinhas.

Daí que no Parlamento tivesse aparecido um voto tonto e pueril contra a violência da polícia. Eu até admitiria que tivesse havido alguma discussão, que se tivessem pesado argumentos, que os inocentes deputados tivessem podido esclarecer-se sobre o problema catalão. Mas nada disso sucedeu. como, de resto, se previa.

O voto é tolo, provavelmente uma imbecilidade, não contribui para ajudar uns ou outros ou melhor, ajuda os inflamados que nestes últimos dias terão visto (mesmo se a miopia política seja de regra) que na Catalunha há tantos ou mais anti-independentistas que nacionalistas.

Assistimos a uma fuga para a frente de Puigdemont e companheiros. Sabem que se declararem a independência correm o risco de serem presos o que só lhes convém. Faça Rajov, de resto galego, o que fizer está sempre em dificuldades. Políticas, obviamente, porque na frente económica as coisas correm-lhe de feição. As grandes empresas, os bancos, a indústria estão em debandada da Catalunha. só isso constitui um rombo nas finanças regionais. As pessoas começam a transferir contas para bancos que estejam protegidos pelo BCE. A enorme minoria emigrante na Catalunha inquieta-se. A Europa avisa. Toda a propaganda independentista baseou-se num argumento falso: a permanência na União Europeia. Nem a Espanha, nem a União podem consenti-lo sob pena de despedaçarem a já frágil estrutura de nações nomeadamente no caso da Bélgica, da Itália onde há tentações identitárias de certas regiões, sempre as mais ricas, claro e, identicamente, as mais conservadoras o que também não espanta especialmente.

Claro que o BE, o PC e alguns irridentes do PS não só não se entusiasmam com a ideia europeia como até sonham com uma espécie de fim apocalíptico da História em nome de um cada vez mis longínquo proletariado que a riqueza gerada pela Europa afastou do sonho revolucionário.

Até ao momento, e basta ver como se comportam os países anteriormente “socialistas”, o resultado é claramente de sinal contrário. Os “órfãos do comunismo e da finada e pouco chorada URSS, aproximam-se velozmente da Direita autoritária e xenófoba. como se a frase “morra Sansão e quantos aqui estão” fosse preferível a esta morna mas real prosperidade (que também, e já se viu, estraga os cálculos e vida da Esquerda dita (com algum exagero e inverdade) extrema.

22
Set17

Estes dias que passam 362

d'oliveira

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Lá sair saímos. Para onde?

 

(mcr 22.9.17)

 

“…O jovem Alexandre conquistou a Índia.

Sozinho?


César bateu os gauleses.


Não levava sequer um cozinheiro?”

(Brecht Perguntas de um operário leitor)

 

Se é verdade que a culpa morre solteira, não menos verdadeira é a afirmação de que a vitória é de todos.

Nem tanto ao mar, nem tanto ao mar... De vez em quando lá se descobrem (e se punem) uns culpados como nem sempre a vitória é colectiva.

Vem isto a propósito da saída de Portugal do lixo recentemente aprovada pela Stanley & Poor’s. As parangonas foram gigantescas, o júbilo da imprensa e de alguns políticos alcançou o nível 5 mas talvez convenha alinhar algumas verdades sobre esta missa cantada. Sair do lixo, mesmo que seja para um grau muito abaixo do desejável (e da média da Europa) é para qualquer português uma boa notícia.

Atribuir os louros desta declaração de uma (entre três) agências de rating a um só protagonista é que me parece uma tolice quando não uma vigarice.

Quem me foi lendo ao longo dos anos, sabe a fraca opinião que sempre tive do governo anterior. Houve mesmo leitores que se zangaram: que eu era injusto, que tinha uma agenda própria contra o centro-direita, que fazia propaganda pela esquerda, sei lá que mais. Liam-me vesgamente e já não se lembravam do que eu escrevera sobre Sócrates. Ou sobre Durão Barroso e o great portuguese disaster que no século se chamou Santana Lopes.

Convenhamos, desde a desilusão Guterres que não me sinto especialmente comovido, muito menos entusiasmado, com os sucessivos primeiros ministros e respectivas equipas que nos atropelam. Na melhor das hipóteses roçaram o sofrível mas depressa, muito depressa, caíram no fosso da mediocridade.

Portugal, os portugueses, aguentou estoicamente, como de costume. Gente habituada a uma terra sáfara entre a praia e a montanha pobre, fez das tripas coração e desandou por esse mundo fora. Onde menos se espera, encontramos um português desde aquele Gastão, amigo de Sandokan e casado com uma “rani” indiana até ao senhor Oliveira da Figueira com que Tintin se cruza em “OS charutos do faraó”.

Isto, esta presença modesta mas múltipla de portugueses por esse mundo de Deus serve para vir dizer que esta saída do lixo se deve a muita gente, desde, obviamente, os actuais governantes, ao inditoso Passos Coelho e, muito, a todos os paisanos que aguentaram os anos duros.

Num texto anterior às últimas eleições legislativas, eu dava conta de alguns sinais ténues mas dignos de nota de uma clara melhoria da situação e da sua percepção pelos portugueses. Aliás, baseado nisso mesmo, eu prevenia Costa que as eleições poderiam não ser, como não foram, um triunfo para o PS (obviamente não previa –nem ninguém que eu saiba- a constituição da “geringonça”, tanto mais que, naqueles ásperos dias, PC e BE rivalizavam em duras acusações ao PS).

Centeno e Costa teriam metido um formidável golo ao PSD e ao CDS se, com naturalidade e verdade, os tivessem associado –ainda que minimamente – à saída do “lixo”. Tanto mais que ainda faltam duas agências, a dívida pública é o que é e o nosso progresso é acompanhado (e até superado) pelos nossos parceiros europeus.

Há, entre certos comentadores e, sobretudo, em certos dirigentes partidários, uma ideia de que as agências de rating são uns monstros que, ainda por cima, não proveem de uma votação democrática (!). Isto é uma chapada parvoíce porquanto esta boa gente parece ignorar tudo sobre as ditas agências. Ninguém, nenhum país, está obrigado a consultá-las, a ouvi-las a segui-las. Sobretudo quando se sabe que pagam generosamente os serviços de rating! Todavia, os investidores (grandes e pequenos e mesmo pequeníssimos), à falta de melhor indicador (que não há) apostam os seus dinheiros no parecer destas instituições que, como milhares de outras estabelecem paradigmas, limites e vias para o investimento. Só a bronquidão dos fanáticos é que vê nisto mais fantasmas do que os que não existem.

A segunda (conveniente) consequência de associar os partidos da oposição (mesmo em porção meticulosamente côngrua) a esta nova situação é que assim, também, porventura indirectamente, se “amarravam” estes a parte das políticas e dos desígnios prosseguidos pelo Governo e (eventualmente) se salvaguardava alguma distância para com o PC e o BE. Que, aliás, contribuíram, e não pouco, e a contragosto, para o clima de paz social que influenciou a decisão da Stanley & Poor’s.

Finalmente, é bom não esquecer que, como acima se diz, esta saída é ainda muito pequenina. Estamos muito longe do AAA e bastante longe da média dos nossos parceiros na UE. Digamos: estamos melhor do que a Grécia mas isso não é sequer uma pequena alegria. 

27
Ago17

Estes dias que passam 361

d'oliveira

Revisões da matéria dada (variante terceira)

mcr 26.Ago.17

 

Há dez anos, porventura onze, publiquei aqui o texto que abaixo se reproduz.

Tratava-se do "estes dias..." nº 74

 Razões de mera arrumação da minha escrita pregressa fizeram-me dar com ele e verificar a sua terrível actualidade. Republico-o agora sem lhe alterar nada, ou tão somente alguma gralha ou virgula defeituosa. 

 

 

A imaginação nunca ultrapassa a realidade

 

De quando em quando, escrevo aqui umas balivérnias que leitoras condescendentes interpretam como frutos da minha imaginação. E, de facto, sob um fundo pesado de realidade lá vou vaporizando as minhas peças de alguma imaginação.

Hoje, todavia, renuncio de todo em todo à cavalgada imaginadora das minhas “pequenas células cinzentas”, como diria o inestimável Hercule Poirot. E se falo no belga filho da imaginação da senhora Christie é porque o tema de hoje lembra um mistério desses difíceis com que a velha dama nos divertia. É, na verdade, um mistério a boa imprensa de que gozam, entre nós, alguns países, ou melhor os governos de alguns países espalhados por essas vastas geografias de medo e infâmia.

Comecemos pela Venezuela, hoje dirigida por um antigo putchista da direita mais militarona e reaccionária. De facto o senhor Chavez, o arauto de uma rocambolesca revolução bolivariana, começou a sua discutível carreira de estadista, tentando levar a cabo um desditoso golpe nos anos 90 contra o presidente legal Carlos Andrés Pérez. A jogada deu para o torto, ele terá feito quase dois anos de prisão suave e, para espanto dos que ainda se espantam, conseguiu ganhar as eleições presidenciais em 98. Depois, tem sido reeleito. E com margens importantes, há que dizê-lo. O dinheiro do petróleo (cujos preços estão desde há muito em alta) redistribuído em parte pelos mais pobres, pelos militares (ai não!) tem disfarçado a ausência de política e de clareza no discurso populista de Chavez. A América do Sul tem visto outros aprendizes de ditador, tem assistido ao corte crescente das liberdades, ao cantonamento das oposições (cuja inteligência política é inversamente proporcional ao amor ao poder e aos seus mais evidentes frutos) e à lenta edificação de um estado policial. Cá pelo burgo, parece que alguém terá achado que Chavez é o Messias da esquerda. A idade não perdoa, é o que é. Genericamente, os europeus vão dialogando com Chavez tanto mais que o seu petróleo é menos incerto que o da península arábica. Depois, quando acordarem, será tarde.

Não abandonemos este desamparado continente sem referir uma vez mais a infâmia que se representa nas florestas colombianas onde um partido “revolucionário” detém umas centenas de reféns. Desta vez há notícia da morte de uma série de políticos colombianos, que alegadamente terão sido vítimas das tropas governamentais. Digamos para já que, a ser verdade a autoria da tropa governamental, sempre haverá uma certeza: os reféns serviram de escudos humanos. Todavia, não é difícil imaginar que estas mortes se reduzem a meros assassínios de futuros opositores das FARC se e quando estas forem um partido político legal.

Um passeio agora por África, mais precisamente por um país que, custa dizê-lo registava ainda há uns dez, doze anos, alguns índices de prosperidade: o Zimbabwe. Convirá esclarecer algum leitor desatento que, desta banda, nunca se louvou o senhor Ian Smith um dos aliados racistas de um Portugal antigo que não para de renascer. O senhor Smith conseguira, todavia, criar um país com uma sólida economia agro-industrial, nas mãos dos brancos evidentemente. Os negros faziam de paisagem, de boys, de trabalhadores agrícolas como é costume. A estrutura económica que passou intacta para as mãos rapaces de Mugabe pospunha a manutenção das grandes fazendas, mesmo se nacionalizadas. A sua divisão arruinou os trabalhadores agrícolas das antigas fazendas, destruiu a exportação, substituindo-lhe uma economia de subsistência que nem isso chega a ser. O Zimbabwe tem fome. Fome como nunca teve num passado recente e infame. E tem uma ditadura que deve fazer empalidecer de inveja o velho Ian Smith hoje exilado no Cabo. Mugabe vai liquidando metodicamente os opositores políticos, negros desta vez, enquanto o pais soçobra no caos. A Europa torce-lhe o nariz mas os africanos recusam-se a condená-lo. E convenhamos que os ingleses também não o molestam demasiadamente. Ao que parece os mortos actuais já não comovem as consciências democráticas como há anos. A diferença deve ser esta: agora são os negros que matam os outros negros. Logo está tudo bem. Não há colonialismo.

Daqui até à Líbia vai um salto. Por cima do Darfur e do seu imenso desastre. Curiosamente, o meu primeiro sogro, Jorge Delgado ofereceu-me ainda nos anos 60 uma brochura sobre o Darfur, comprada na “Joie de Lire” do François Maspero. Um escândalo que dura vai para cinquenta anos já o não é. O que me admira é que ainda aí haja gente para morrer. Os pretos têm a pele dura, dizia-me um amigo também negro, angolano, assassinado pelos nitistas, em Angola. Teve sorte: provavelmente o MPLA também lhe trataria da saúde, mais tarde.

E a Líbia? Pois a Líbia é o que sempre foi: Kadafi um iluminado sentado em cima do petróleo (que tanta falta faz) continua a sua “revolução verde” (esta gentinha adora falar de revolução!) e faz-se rogar pelos ocidentais. Desta feita, é um processo kafkiano que me traz este personagem à caneta. Meia dúzia de enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano acusados de inocularem vírus mortais a umas centenas de crianças líbias, viram confirmadas pelo Supremo Tribunal as penas de morte. Agora, dizem os nossos jornais, resta apelar a Kadafi. O que vai ser feito, obviamente. Ou seja a campanha de branqueamento do cavalheiro entra numa fase superior, como se dizia nos velhos tempos de “análise concreta da situação concreta”. Vai uma apostinha em como ainda veremos Kadafi ser recebido como benfeitor da humanidade em Bruxelas?

Ou em Varsóvia, já agora e para terminar. Eu confesso que nada tenho contra os polacos, bem pelo contrario, adoro Chopin e fui principescamente recebido pelos meus amigos de Varsóvia quando, in illo tempore, fui visitar uns colegas do Direito Comparado. Detestei a atmosfera política, o medo, a pobreza, o desespero dos meus amigos, tanto quanto apreciei a gentileza deles, a cultura, a amizade demonstrada e a dignidade de um povo que não se submetia.

Que esse povo seja agora governado por uma parelha de gémeos abaixo de qualquer classificação é coisa que me consegue ainda espantar. É que a coligação que governa a Polónia e que ostenta aquelas duas criaturas à frente do Estado e do Governo não é sequer conservadora, mas retintamente reaccionária. Eu nem falo da homofobia, coisa que ainda conseguiria vagamente perceber dada a profunda religiosidade polaca que além do mais é um factor de unidade nacional e lhes permitiu sobreviver ao período soviético. Isto não significa que não condene as perseguições de rua e legais à minoria sexual, claro. Não consigo entender as leis sobre as provas de cidadania reiteradas à caça de antigos polícias, de colaboradores do antigo regime, de gente que se calou ou que não se manifestou (como se isso fosse possível!...). Actualmente o ambiente tem piorado: os gémeos não só se recusam a aplicar fartas doses de legislação comunitária como entendem chantagear a Europa, desenvolver uma campanha inaudita contra a Alemanha e tentar obter para o seu país (que entretanto assinou com uma mão distraída os tratados que agora alegremente pretende modificar a seu favor) condições de privilégio que nada fundamenta. Os manos Kakzinsky conseguiram o impossível: nomearam uma senhora mediadora para os direitos da infância cuja primeira missão foi despistar “a publicidade subliminal da homossexualidade nuns bonecos infantis – os teletubbies – porque um usava um saco vagamente feminino...

Uma Europa onde esta gente tem entrada não é só triste. É ridícula.

Espero que ao escrever isto num blog não esteja a infringir uma regra de ouro inventada por uma senhora Secretária de Estado que entende que o humor (aqui dolorosamente em falta, mas enfim...) sobre personalidades fica bem em casa, eventualmente numa rua escusa, na praia (se deserta) ou num campo de concentração. Esperemos que os blogs hoje tão na mira dos zelotas e dos filisteus entrem nessas categorias de inocência confirmada.    

27
Ago17

Estes dias que passam 361

d'oliveira

Revisões da matéria dada (variante terceira)

mcr 26.Ago.17

 

Há dez anos, porventura onze, publiquei aqui o texto que abaixo se reproduz.

Tratava-se do "estes dias..." nº 74

 Razões de mera arrumação da minha escrita pregressa fizeram-me dar com ele e verificar a sua terrível actualidade. Republico-o agora sem lhe alterar nada, ou tão somente alguma gralha ou virgula defeituosa. 

 

 

A imaginação nunca ultrapassa a realidade

 

De quando em quando, escrevo aqui umas balivérnias que leitoras condescendentes interpretam como frutos da minha imaginação. E, de facto, sob um fundo pesado de realidade lá vou vaporizando as minhas peças de alguma imaginação.

Hoje, todavia, renuncio de todo em todo à cavalgada imaginadora das minhas “pequenas células cinzentas”, como diria o inestimável Hercule Poirot. E se falo no belga filho da imaginação da senhora Christie é porque o tema de hoje lembra um mistério desses difíceis com que a velha dama nos divertia. É, na verdade, um mistério a boa imprensa de que gozam, entre nós, alguns países, ou melhor os governos de alguns países espalhados por essas vastas geografias de medo e infâmia.

Comecemos pela Venezuela, hoje dirigida por um antigo putchista da direita mais militarona e reaccionária. De facto o senhor Chavez, o arauto de uma rocambolesca revolução bolivariana, começou a sua discutível carreira de estadista, tentando levar a cabo um desditoso golpe nos anos 90 contra o presidente legal Carlos Andrés Pérez. A jogada deu para o torto, ele terá feito quase dois anos de prisão suave e, para espanto dos que ainda se espantam, conseguiu ganhar as eleições presidenciais em 98. Depois, tem sido reeleito. E com margens importantes, há que dizê-lo. O dinheiro do petróleo (cujos preços estão desde há muito em alta) redistribuído em parte pelos mais pobres, pelos militares (ai não!) tem disfarçado a ausência de política e de clareza no discurso populista de Chavez. A América do Sul tem visto outros aprendizes de ditador, tem assistido ao corte crescente das liberdades, ao cantonamento das oposições (cuja inteligência política é inversamente proporcional ao amor ao poder e aos seus mais evidentes frutos) e à lenta edificação de um estado policial. Cá pelo burgo, parece que alguém terá achado que Chavez é o Messias da esquerda. A idade não perdoa, é o que é. Genericamente, os europeus vão dialogando com Chavez tanto mais que o seu petróleo é menos incerto que o da península arábica. Depois, quando acordarem, será tarde.

Não abandonemos este desamparado continente sem referir uma vez mais a infâmia que se representa nas florestas colombianas onde um partido “revolucionário” detém umas centenas de reféns. Desta vez há notícia da morte de uma série de políticos colombianos, que alegadamente terão sido vítimas das tropas governamentais. Digamos para já que, a ser verdade a autoria da tropa governamental, sempre haverá uma certeza: os reféns serviram de escudos humanos. Todavia, não é difícil imaginar que estas mortes se reduzem a meros assassínios de futuros opositores das FARC se e quando estas forem um partido político legal.

Um passeio agora por África, mais precisamente por um país que, custa dizê-lo registava ainda há uns dez, doze anos, alguns índices de prosperidade: o Zimbabwe. Convirá esclarecer algum leitor desatento que, desta banda, nunca se louvou o senhor Ian Smith um dos aliados racistas de um Portugal antigo que não para de renascer. O senhor Smith conseguira, todavia, criar um país com uma sólida economia agro-industrial, nas mãos dos brancos evidentemente. Os negros faziam de paisagem, de boys, de trabalhadores agrícolas como é costume. A estrutura económica que passou intacta para as mãos rapaces de Mugabe pospunha a manutenção das grandes fazendas, mesmo se nacionalizadas. A sua divisão arruinou os trabalhadores agrícolas das antigas fazendas, destruiu a exportação, substituindo-lhe uma economia de subsistência que nem isso chega a ser. O Zimbabwe tem fome. Fome como nunca teve num passado recente e infame. E tem uma ditadura que deve fazer empalidecer de inveja o velho Ian Smith hoje exilado no Cabo. Mugabe vai liquidando metodicamente os opositores políticos, negros desta vez, enquanto o pais soçobra no caos. A Europa torce-lhe o nariz mas os africanos recusam-se a condená-lo. E convenhamos que os ingleses também não o molestam demasiadamente. Ao que parece os mortos actuais já não comovem as consciências democráticas como há anos. A diferença deve ser esta: agora são os negros que matam os outros negros. Logo está tudo bem. Não há colonialismo.

Daqui até à Líbia vai um salto. Por cima do Darfur e do seu imenso desastre. Curiosamente, o meu primeiro sogro, Jorge Delgado ofereceu-me ainda nos anos 60 uma brochura sobre o Darfur, comprada na “Joie de Lire” do François Maspero. Um escândalo que dura vai para cinquenta anos já o não é. O que me admira é que ainda aí haja gente para morrer. Os pretos têm a pele dura, dizia-me um amigo também negro, angolano, assassinado pelos nitistas, em Angola. Teve sorte: provavelmente o MPLA também lhe trataria da saúde, mais tarde.

E a Líbia? Pois a Líbia é o que sempre foi: Kadafi um iluminado sentado em cima do petróleo (que tanta falta faz) continua a sua “revolução verde” (esta gentinha adora falar de revolução!) e faz-se rogar pelos ocidentais. Desta feita, é um processo kafkiano que me traz este personagem à caneta. Meia dúzia de enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano acusados de inocularem vírus mortais a umas centenas de crianças líbias, viram confirmadas pelo Supremo Tribunal as penas de morte. Agora, dizem os nossos jornais, resta apelar a Kadafi. O que vai ser feito, obviamente. Ou seja a campanha de branqueamento do cavalheiro entra numa fase superior, como se dizia nos velhos tempos de “análise concreta da situação concreta”. Vai uma apostinha em como ainda veremos Kadafi ser recebido como benfeitor da humanidade em Bruxelas?

Ou em Varsóvia, já agora e para terminar. Eu confesso que nada tenho contra os polacos, bem pelo contrario, adoro Chopin e fui principescamente recebido pelos meus amigos de Varsóvia quando, in illo tempore, fui visitar uns colegas do Direito Comparado. Detestei a atmosfera política, o medo, a pobreza, o desespero dos meus amigos, tanto quanto apreciei a gentileza deles, a cultura, a amizade demonstrada e a dignidade de um povo que não se submetia.

Que esse povo seja agora governado por uma parelha de gémeos abaixo de qualquer classificação é coisa que me consegue ainda espantar. É que a coligação que governa a Polónia e que ostenta aquelas duas criaturas à frente do Estado e do Governo não é sequer conservadora, mas retintamente reaccionária. Eu nem falo da homofobia, coisa que ainda conseguiria vagamente perceber dada a profunda religiosidade polaca que além do mais é um factor de unidade nacional e lhes permitiu sobreviver ao período soviético. Isto não significa que não condene as perseguições de rua e legais à minoria sexual, claro. Não consigo entender as leis sobre as provas de cidadania reiteradas à caça de antigos polícias, de colaboradores do antigo regime, de gente que se calou ou que não se manifestou (como se isso fosse possível!...). Actualmente o ambiente tem piorado: os gémeos não só se recusam a aplicar fartas doses de legislação comunitária como entendem chantagear a Europa, desenvolver uma campanha inaudita contra a Alemanha e tentar obter para o seu país (que entretanto assinou com uma mão distraída os tratados que agora alegremente pretende modificar a seu favor) condições de privilégio que nada fundamenta. Os manos Kakzinsky conseguiram o impossível: nomearam uma senhora mediadora para os direitos da infância cuja primeira missão foi despistar “a publicidade subliminal da homossexualidade nuns bonecos infantis – os teletubbies – porque um usava um saco vagamente feminino...

Uma Europa onde esta gente tem entrada não é só triste. É ridícula.

Espero que ao escrever isto num blog não esteja a infringir uma regra de ouro inventada por uma senhora Secretária de Estado que entende que o humor (aqui dolorosamente em falta, mas enfim...) sobre personalidades fica bem em casa, eventualmente numa rua escusa, na praia (se deserta) ou num campo de concentração. Esperemos que os blogs hoje tão na mira dos zelotas e dos filisteus entrem nessas categorias de inocência confirmada.    

23
Ago17

Estes dias que passam 360

d'oliveira

 

 

O comentador “comprometido”

 

por mcr  22.Ago.17

 

O dr. Marques Mendes viu-se alcandorado ao posto de comentador dos domingos na tv. Marcelo foi para outras e altas paragens, Mendes segue-lhe peugada, sabe-se lá se não sonha com Belém (Credo, Deus nos acuda, Santa Rita nos guarde).

Marques Mendes apareceu na política muito depressa e muito novo pela mão dos cavalheiros nortenhos do PPD. Foi deputado não sei quantas vezes, secretário de Estado, Ministro (e no meio disto tudo terá sido (e ainda é) advogado. Foi dirigente do PPD mas a memória desse conturbado tempo não parece brilhante ou imorredoira. De todo em todo, recordo que foi ele quem tentou pôr ponto final na carreira autárquica de Isaltino Morais. Falhou. Morais livre do partido e de Mendes ganhou redondamente a eleição e continuou a ganhar até dar com os costados na cadeia por, corrijam-me se estou em erro, lavagem de dinheiro e fuga aos impostos. Curiosamente, foi o primeiro político a ir para a cadeia e a cumprir pena.

Saiu e aí está de volta às lides e com fortes probabilidades de ganhar de novo Oeiras.

Não conheço Mendes nem tão pouco Isaltino. Não conheço e falece-me a vontade de os conhecer, mesmo se vários paroquianos de Oeiras me jurem que Isaltino fez um excelente lugar na presidência da Câmara. Provavelmente melhor do que Mendes no Parlamento ou nos Ministérios por onde passou...

Mendes, já o disse, exerce de comentador na TV. Às vezes pergunto-me se um Conselheiro de Estado deveria fazê-lo mas, pelos vistos, o que a mim me surpreende não incomoda ninguém.

Aos domingos, lá o vejo e oiço. Não que tal exercício penoso me seja grato ou que aproveite o facto para descontar nos meus pecados. É a minha mulher que comanda a televisão à hora do jantar pelo que não me resta alternativa viável. Depois, já suportei o piedoso professor Marcelo pelo que já tenho a pele curtida para o melífluo Mendes. Oiço-o entre duas garfadas e resmungo.

Desta feita, porém, Mendes foi longe. E mal. Já sabemos que não suporta Isaltino, logo ele (Mendes) homem pequenino que não consta ser bailarino. Isaltino, pelos vistos, ignora-o publicamente mesmo se em privado possa criticar o comentador.

Ora bem: Mendes, na sua última e untuosa prédica dominical veio dizer que Isaltino não deveria poder concorrer. Que o crime, cuja pena já cumpriu é grave; que, eventualmente, o Tribunal Constitucional –se fosse requerido – poderia condena-lo à inabilitação eleitoral. Que o senhor Paulo Vistas (ex-delfim de Isaltino e, agora, seu oponente, poderia ter recorrido para esse alto Tribunal e que não o fazendo fora generoso e cavalheiresco!

Eu começo por não perceber como é que um cavalheiro licenciado pela mesmíssima universidade que eu, entende que além da pena a que alguém foi condenado ainda lhe deveria acrescer a inabilitação eleitoral. Consultada a Constituição nada lá existe que preveja tal pena acessória. Nada! Ponto final, parágrafo.

Em segundo lugar, não vejo a razão especial para ser Vistas e não nenhum dos restantes candidatos a Oeiras (e serão no mínimo, meia dúzia) a recorrer para o TC.

Mendes ao referir (imprudentemente) Vistas parece estar a aceitar que o anterior despacho que inabilitava Isaltino (dado por um senhor juiz que, curiosamente, mudou de opinião quanto à fundamentação do despacho e que, também curiosamente é afilhado de casamento do senhor Vistas e que, finalmente e mais curiosamente ainda se oferecera vindo de Sintra para juiz de turno em Oeiras no período de validação das candidaturas...) beneficiava o ainda actual presidente da Câmara de Oeiras, directamente herdada de Isaltino...

Eu percebo, ou faço por isso, que o senhor dr. Mendes detesta Isaltino. Lá terá as suas (Boas ou más )razões. De todo o modo, o papel de comentador carece de uma certa altura (e isto não se refere ao tamanho de Mendes) de uma certa neutralidade e não pode, e muito menos não deve, transformar-se em propaganda eleitoral barata e feia contra Isaltino. Mas foi.

Mendes, praticamente, apelou ao TC e às forças partidárias, para que fosse defenestrado Isaltino. Já não recordo se avisou a audiência da sua particular condição de jurista mas esta é, apesar de tudo, conhecida.

Mendes tem todo o direito de pensar que a certos crimes de colarinho branco (que ele entende ser gravíssimos) se deveria aplicar uma pena acessória de inabilitação eleitoral (de dez anos pareceu-me ouvir).

Conviria recordar a Mendes que, por enquanto e até lei expressa, nenhum Tribunal pode aplicar penas não previstas. Isaltino já cumpriu pena. Pagou com prisão efectiva (efectiva!!!, recordo)e com uma valente multa a famosa evasão fiscal relativa a uns dinheiros depositados numa conta na Suiça.

Em Portugal, e até há bem pouco, os políticos ou não iam a julgamento ou não eram condenados, ou sendo-o a pena de prisão ficava suspensa. Aliás, tem havido penas de prisão suspensas por vários anos por crimes de similar gravidade e nunca vi Mendes condenar tal inércia de julgadores.

Uma amiga minha jura que “lhe saltou a tampa” queira isto dizer o que quer que seja. Ver um Conselheiro de Estado e um comentador (que creio regiamente pago) neste papel de cabo eleitoral ou de insofrida raiva é algo que me revolve as entranhas e me estraga a digestão. Mesmo se a coisa vem de Mendes criatura a que dou muito pouco crédito e que me faz,ai meu Deus!, ter saudades de Marcelo!!! (ao que cheguei!)

É claro que poderíamos dizer que estamos em Agosto, em plena silly season, mas mesmo assim...

É que, para terminar, pode ocorrer que esta intempestiva arenga de Mendes tenha um efeito devastador quer para candidatura de Vistas quer para a do PPD local. E que seja utilizada pelos apoiantes de Isaltino (e consta que foram mais de trinta mil os munícipes que o propuseram. Ou seja que na contabilidade das proposituras Isaltino arrecadou mais de metade das que foram publicitadas.) para reforçarem a aura de vitimização do seu candidato, coisa sempre exaltante num país que continua sebastianista.

11
Ago17

estes dias que passam 359

d'oliveira

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Enquanto a burrice não pagar impostos vamos ter mais

 

mcr

 

Joaquim Namorado, nome cimeiro dos neo-realistas, poeta, professor e agitador cultural em Coimbra nos anos 40-70, apresentou certa vez um projecto de Código Civil que ele considerava simples e eficaz. Tinha apenas um artigo e um parágrafo:

artº 1 e único: é proibido ser estúpido.

parº único: fica revogada toda a legislação em contrário

Convenhamos que a proposta era audaciosa mas razoável. E tanto mais razoável quanto, como sabemos, a falta de senso e cabecinha parece ser uma das mais estendidas características da nossa classe política.

Senão, vejamos o caso estridente das próximas autárquicas, limitando-nos ao Porto e a Oeiras.

No Porto, uma criatura surgida do nevoeiro espesso que o PPD teima em cultivar, entendeu contestar a candidatura de Rui Moreira por esta num cartaz ostentar a palavra partido (o nosso partido é o Porto).

Aquele pobre diabo entende que a palavra partido indicia que há um partido local (mesmo que se saiba que tal coisa não existe nem consta que seja permitida). Assim, uma forte maioria de cidadãos iria pôr a cruzinha no grupo independente no convencimento imbecil de que estava a votar em algo semelhante (credo!, cruzes!, canhoto!) a essa coisa chamada PPD. O segundo ponto da actual reclamação tem por base o facto de Rui Moreira aparecer em fotografia em toda a publicidade para os diferentes órgãos autárquicos.

Recordemos que Moreira muito antes de ser presidente da Câmara já era cem vezes (se calhar mil) mais conhecido que o abencerragem descoberto pelo PPD, um tal Álvaro Almeida que ninguém conhece nem sabe de onde terá surdido.

E, pimba, trabalhos para o Tribunal como se este não tivesse coisa melhor em que se ocupar. Eu espero, sinceramente espero, que seja possível fazer pagar fortemente este pedido tonto, esparvoado, atirando para cima do reclamante com uma taxa que, à falta de melhor, faça pagar pela estupidez.

(declaração de interesses: conheço vagamente Rui Moreira mas não troco com ele qualquer palavra há, pelo menos vinte anos. Todavia, votei nele, votarei nele quanto mais não seja para fugir ao xico-espertismo do PS (outra candidatura com slogan idiota: “fazer pelos dois”, parecendo com isso afirmar que o bizarro Pizarro faria sozinho o trabalho dele e de Moreira. Este Pizarro tem-se feito notar por impor candidaturas perdedoras em várias zonas da área metropolitana e goza da injusta fama de ter feito um bom lugar no pelouro que ocupou. Convém lembrar que, em tudo o que se refere a habitação facilmente se vê o dedo do arquitecto Manuel Correia Fernandes, mas isso é outro falar).

Relembre-se, pour mémoire, que, durante meses,o PS nem candidatura apresentava escudando-se numa extraordinária ideia de fazer parte da lista Moreira. Mais, fizeram disso gala e alguns dos seus mais destacados dirigentes referiram essa aliança como coisa certa e segura.

Quanto às restantes candidaturas ao Porto não vale a pena sequer perder tempo. São meros verbos de encher.

Passemos a Oeiras.

Neste concelho não há quem ignore o trabalho de Isaltino Morais, o prestígio de que (justa ou injustamente) goza. Isaltino, libertado depois de um período na prisão assaz único (normalmente aquilo dava pena suspensa mas parece ter existido a ideia de que era preciso dar o exemplo e Isaltino não era suficientemente forte para, graças a um partido, se defender. Estava fora do quadro partidário e isso enfraquecia-o e permitia uma condenação fácil a pena de prisão efectiva. Não estou a defende-lo mas tão só a dizer alto o que muitos, uma multidão, pensam baixinho).

A candidatura de Isaltino apresentou 37.000 assinaturas( o que só por isso lhe garante um dos primeiros lugares no prélio que se avizinha) e para a tirar de cena (juntamente com uma outra candidatura de uma ex-apoiante do senhor Paulo Vistas, ex-delfim de Isaltino) nada melhor do que um artificioso argumento: os assinantes (todos uns ignorantes, claro!) poderiam desconhecer que estavam a apoiar o seu candidato. É que, segundo o doutíssimo despacho do senhor juiz, deveria constar ao alto de cada folha de assinaturas a imensa lista de candidatos isaltinianos!!!

Passemos piedosamente por este extraordinário argumento que, há uns anos, e sob a pena do mesmo magistrado, tinha sido menosprezado!

Recordemos, entretanto que o senhor juiz ora em questão exerce o seu múnus em Sintra mas, oh novo milagre de Ourique, ou das rosas, ou da santinha da Ladeira!..., ofereceu-se , num gesto de grande generosidade e sentido do dever de cidadania, para estar de turno em Oeiras.

Exactamente em Oeiras, onde um seu padrinho de casamento se candidatava (sempre o fatal Vistas). O senhor juiz terá feito vista grossa a esse acaso mesmo se, ao que parece, habita enm Oeiras, onde sua mulher trabalha para a Câmara ora presidida por Vistas.

Relembremos ainda que nenhum juiz é obrigado a oferecer-se para estes turnos mesmo se, eventualmente, possa ter de ser obrigado a fazê-los. Relembremos também que este senhor juiz poderia ter escolhido outros três concelhos (Mafra, Cascais ou Sintra) para evitar caçar nas terras onde concorre alguém que é seu amigo, quase parente e, de certo modo, patrão da sua mulher.

Movido apenas pelo intuito de servir, de nada disto se lembrou o senhor juiz como também se não terá lembrado do que anteriormente decidira em caso idêntico. Mudar de opinião é, aliás, próprio do homem...

Como é que se descalça esta bota, esta enorme botifarra?

Não sei. De todo o modo, qualquer decisão que torne Isaltino (que não conheço, que me é mais indiferente do que o resultado das eleições em Jacarepaguá (Brasil, RJ) parecerá sempre uma chapelada ainda mais alucinante do que era costume no Portugal de antigamente.

Uma chapelada e uma vergonha!...

 

07
Ago17

estes dias que passam 358

d'oliveira

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Os ditamaduros

Uma inflação que vai acabar brevemente nos 1000%; 160 mortos em manifestações de rua em três meses (todos, aliás da “oposição”); uma histórica chapelada nas eleições da Assembleia Constituinte; 500.000 refugiados na Colômbia (números relativos a 20 de Julho pp);a prisão arbitrária como orática; centenas de presos políticos amontoados nas cadeias, sem processo, sem julgamento ou com julgamento sumário; um parlamento eleito privado de segurança e de poderes; uma procuradora geral expulsa do seu cargo por voto à mão levantada; milícias populares armadas ao lado da polícia para ameaçar, espancar, ferir, prender ou matar manifestantes; um repúdio internacional generalizado desde o Mercosul à União europeia passando pelo Vaticano; negativa de reconhecimento internacional dos novos orgãos legislativos eleitos; queda abissal da moeda nacional face ao dólar e ao euro (1 para 50.000!!!); hospitais sem medicamentos, sem sangue, sem sequer compressas; campos petrolíferos arruinados pela falta de peças, pela ignorância e pelo abandono dos mais qualificados; televisões, rádios e jornais encerrados, confiscados ou proibidos; acusações contínuas de terrorismo ou de traição contra quaisquer vozes desconformes; falta geral de mantimentos, mormente alimentação e fome generalizada em grandes sectores da população, especialmente na que se associa à oposição; corrupção generalizada; etc., etc....

Este é o actual retrato da Venezuela que foi, durante anos e anos, um país rico e próspero. Mais rico do que qualquer dos seus vizinhos, provavelmente o mais rico de toda a Ibero-América.

Não se pretende fazer crer que tudo corria no melhor dos mundos. Não corria, havia pobres, havia subúrbios onde se vivia mal e amontoadamente, sem condições de qualquer espécie (exactamente como hoje acrescentando agora o deficit de esperança). Houve ditaores e golpes de Estado, democracia musculada políticos corruptos. Também havia partidos, coisa que agora fora algo que soa a “bolivariano” não existem senão clandestinamente. E é bom recordar que o próprio Hugo Chavez também deu uma perninha no “golpe de estado”, mesmo que depois chegasse ao poder por eleições mais ou menos democráticas. Da mesma espécie das últimas legislativas que, apesar de todos os entraves, foram ganhas pela oposição ao chavismo, (per)versão Maduro. Todavia, nunca a Venezuela se viu perante uma crise tão violenta, um cenário tão assustador e um futuro tão desolador.

Perante tudo isto que faz o PCP. Absolve o poder ditatorial que se vai instalando (com ajuda e treino de especialistas cubanos) e declara o governo venezuelano “democrático”, legítimo e progressista, decretando por outro lado que a oposição chafurda no banditismo, no capitalismo (esta nunca falha) e no proto-fascismo (idem, aspas.

E avisa o Governo Português (que internamente apoia com duas mãos à falta de mais) que seguir a opinião mais que prudente da União Europeia faz perigar a situação da comunidade portuguesa e luso-descendente instalada na Venezuela. A falta de decoro deste aviso atinge as raias da indecência quando se sabe que já há na Madeira cerca de quatro mil refugiados; que na passada semana vários portugueses foram feridos em manifestações; que desde há meses que estabelecimentos comerciais portugueses, mormente padarias, foram assaltados e saqueados. As ameaças à comunidade portuguesa são constantes e inclusivamente vistas na televisão. Aliás, já o não serão, pelo menos em estações portuguesas dada a proibição de entrada de jornalistas portugueses poucos dias antes da caricatura de eleição deste domingo.

Sobre tudo isto, o silêncio do PCP é de oiro. Como de oiro é qualquer opinião (ou falta dela) sobre a ideologia “bolivariana”, arremedo velho e revelho de outras absurdas teses nacional-ditatoriais em voga nos piores anos da “violência” latino-americana. O PCP sempre lesto em criticar o que ele considera como desvio á justa linha marxista-leninista, consegue dar uma prodigiosa cambalhota ao louvar um punhado de tolices que só a cabeça de Maduro poderia evacuar.

Não que esta posição, arrebatada e para uso externo, seja uma novidade. Não é muito antiga uma curiosa opinião de um dirigente do PCP (Bernardino Soares) que “pessoalmente não tinha dúvidas de que na Coreia do Norte não existisse democracia”). Convém lembrar que a criatura foi deputado durante vinte anos, líder da bancada mais de dez e membro da Comissão Política. Também é licenciado em Direito!...

À falta da boa e velha União Soviética, até a Coreia ou esse escárnio vivo chamado Maduro, servem para ilustrar e defender a boa causa.

Estamos servidos.

De verdade e de democracia!

 

 

06
Jul17

Estes dias que passam 357

mcr

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À maneira de Swift

(rescaldo 3)

 

(pensei algum tempo antes de publicar esta crónica. Para quem o ler com alguma atenção sobram amargura e sarcasmo. Escrevi-o sem alegria ou entusiasmo. Há demasiada dor por aí, à solta. E há, certamente muitos culpados fugidos da luz pública, escondidos em falácias e desculpas, em enredos e enganos. Depois, há, também, “um fogo que arde sem se ver”, o lume da cólera, da impotência raivosa e da indignação. É para quem assim se sente que escrevo. Os outros podem passar de largo.)

Desta feita, deu-me para recordar Jonathan Swift, o autor genial das “Viagens de Gulliver” e de vários extraordinários panfletos que o tornaram conhecido, admirado ou detestado em Inglaterra e na Irlanda. Destes, para o caso, destacaria a “Modesta proposta para evitar que os filhos dos pobres da Irlanda sejam uma carga para os seus pai, para o país e para que se convertam em algo de útil para o povo”. Em poucas palavras, Swift propõe, apoiado em cálculos matemáticos, que a fome na Irlanda e a pobreza em geral poderiam ser combatidas engordando as crianças filhas de pobres para serem caçadas. Diminuiria assim o número de habitantes (demasiados face aos recursos da ilha) e a saúde publica melhoraria graças ao suplemento de proteínas animais. Isto, se bem recordo, sem falar nos benefícios obtidos com a permissão para caçar.

Quase se poderá fazer proposta semelhante para todo o interior português, quiçá ressalvando as capitais de distrito.

É verdade que a envelhecida população não forneceria uma carne de qualidade mas também não era para isso que seria usada. A ideia é mais simples: Numa época em que pesam por todo o lado as ameaças do Daech e de outros grupos de malfeitores, seria possível constituir no, apesar de tudo, vasto hinterland lusitano uma extensa zona de guerra de treino anti guerrilhas onde se exercitariam tropas especiais (nacionais e estrangeiras –outra forma de turismo ainda não explorada). Para o efeito, distribuir-se-iam, mediante um modesto pagamento,  aos habitantes de ambos os sexos (em sinal de respeito pela paridade e pela democracia) armas antiquadas que o nosso Exército deve possuir  em quantidade apreciável. Resolvia-se, neste particular aspecto, outro duplo problema nacional: despachava-se armamento obsoleto e reduzir-se-ia o custo das Forças Armadas.

As forças militares portuguesas nada pagariam mas essa perda de rendimento seria compensada pelo que se pediria  a estrangeiros e/ou a milícias particulares.

Sendo certo que, só em pensões, a população do interior custa um dinheirão, bem se pode ver o valor dos ganhos obtidos pelo abate de criaturas praticamente imprestáveis. A essa poupança de dinheiros públicos haverá que somar outra igualmente importante. Centenas de serviços locais ou regionais poderiam ser extintos ou fortemente reduzidos dado o desaparecimento de utentes, mesmo se, num primeiro tempo, pudesse haver um incremento do desemprego dos funcionários respectivos. De todo o modo, poder-se-á estudar, com o auxílio da Caixa Geral de Depósitos o custo real de tal medida. Bastaria pedir à grave instituição, patrioticamente nacional e nossa, o estudo que levou a cabo para fechar a agência de Almeida que, recorde-se, até é sede de Concelho.

Relembra-se ainda que certos problemas estruturais como a falta de médicos ou enfermeiros em todo o Serviço Nacional de Saúde, seria colmatada com a transferência dos que exercem nessas “terras do demo”, finalmente libertadas de doentes. 

Aqui chegados, como diria aquele senhor que finge de Marcelo do Norte na SIC, poderá surgir a pergunta: Que fazer (como diria outro senhor já falecido e bolchevique)  quando já não houver habitantes nessas extensas regiões de fogos e desesperança?

Também aqui a resposta é simples. Desaparecida que está a população, a floresta deixa de ter dono. Deixando de ter dono, não necessita de Cadastro, operação demorada, custosa e dificílima. Poderá pois ser nacionalizada  até se atingir os rácios europeus (40%) deixando a restante para outros usos: campos de golf, quintas para estrangeiros amadores da doçura dos nossos costumes e clima, libertação de terrenos para plantação de carvalhos, castanheiros e outras espécies nobres que o pinheiro e eucalipto afugentaram, pastos para  bisontes (boa carne e boa pele) importados da Polónia ou dos Estados Unidos, consoante o preço, criação de reservas de caça tropical (importando espécies cinegéticas de África, mormente lusófona sem exceptuar a Guiné Equatorial (neste caso poder-se-ia mesmo alugar a esse curioso país algumas extensões de terreno para que as suas autoridades pudessem construir campos de detenção provisoriamente definitivos para oposicionistas políticos, permitindo assim à nova e lusófona nação substituir a pena de morte local por humaníssimas prisões perpétuas).

Dir-me-ão que nem todo o interior é igualmente defeituoso e que forçoso será criar “corredores” mais ou menos largos para poupar terras boas e ligações a Espanha e ao mundo. Que, portanto, esta evidência potenciaria a criação de um arquipélago de enclaves no meio da waste land (se permitem que cite Elliott). Ora a nossa (lusitana e imperial) experiência em enclaves está indelevelmente manchada pela história do fim do meio século XX, quando se perderam Dadrá e Nagar-Aveli (territórios respectivamente comprado pelo Estado Português e recebido como indemnização por ter sido afundado um navio português). A União Indiana invadiu ou mandou invadir essas duas inúteis e isoladas regiões começando assim o fim do Império do Oriente.

Não creio que com as zonas libertadas de população se corra idêntico risco. A Espanha já tem com que se entreter com os seus distritos fronteiriços mesmo se aquilo já não é como “Las Hurdes” do genial Buñuel. De tierra sin pan eis que estão convertidas em reserva natural visitável por turistas esquecidos da ancestral miséria. Aqui está um bom indicador para o que proponho. Ou seja, admito que, depois de um período de desertificação, possa haver outro com povoamento controlado a exemplo do que se faz com a reintrodução do lince ibérico.

Há sempre alguém, mal intencionado e ignorante que virá a terreiro com o argumento de que assim se perde população. Perde-se gente mas ganha-se em rendimento per capita. Perde-se gente que gasta o dinheiro que não produz e ainda o dinheiro dos que labutam no litoral. Diminui-se a despesa sem tocar na receita. Do mesmo modo que se acabaram muitos impostos directos (sempre alvo de recriminações desagradáveis por parte da CGTP – quando isso lhe é permitido!- ) vantajosamente substituídos por indirectos que, aliás, são mais democráticos: atingem todos, pobres e ricos mesmo se as consequências em cada um destes estractos possam ser diferentes.

 

* Vai este folhetim para Maria L.A, amiga inesquecível numa Coimbra vestida com a cor da nossa “juventud divino tesoro”. Nesses tempos de vinho e rosas (e de chumbo e de caminhos cortados) teremos visto no cineclube de Coimbra “Las Hurdes” . Foi também o tempo da descoberta de Swift, Elliott ou Ruben Dario, igualmente citados.

 

05
Jul17

Estes dias que passam 356

mcr

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 Rescaldo (I) 

(* Pedro Correia, do blog "Delito de Opinião", fez-me um honroso convite: publicar um texto meu no seu excelente blog. O resultado é o que se vai ler mais em baixo. 

Publica-se aqui, passado qie foi o "período de nojo" necessário para (mesmo tendo em conta a fragilidade dos meus escritos) salvaguardar a leitura em cada um dos espaços.

Mais uma vez, agradeço a Pedro Correia a hospitalidade oferecida. Quando ele quiser, acolhê-lo-ei no meu espaço com prazer e alegria.)

 

O rescaldo

 

Enterraram-se os mortos e, agora, há que cuidar dos vivos como mandava o temível mas eficaz marquês de Pombal. E cuidar dos vivos não significa, mais outra vez, umas vagas ajudas, duas palmadinhas nas costas, boas palavras e uma selfie com o Senhor Presidente (mesmo se os seus encorajamentos tenham sido oportunos, pelo menos desta vez).

Cuidar dos vivos significa apurar as necessidades, prevenir o futuro e tratar de saber a quem cabe a responsabilidade.

Comecemos por esta última tarefa que, não sendo a mais preocupante, convém não esquecer.

À primeira vista, todos somos responsáveis, por acção, por omissão, pelo silêncio, pelos votos naqueles que não fizeram o trabalho de casa. Todavia, de nada nos valerá – como já li algures – vir disparar sobre o defunto dr. Salazar por ter sido ele quem, primeiro, mandou reflorestar o país. Mandou e mandou bem mesmo se, com os meios da altura (e aí se inclui a incapacidade de os povos se rebelarem), bem se poderia ter pensado em que espécies arbóreas se devia apostar. Apostou-se no pinheiro bravo (e depois no eucalipto) por duas razões crescem em toda a parte, produzem lucros ao fim de poucos anos e quase não exigem cuidados.

Porém, aumentam a vulnerabilidade da floresta mediterrânica por serem facilmente presa do fogo.

Voltando aos responsáveis, toda a gente está de acordo que o abandono das terras agricultáveis, o despovoamento daí resultante, o crescimento descontrolado de “mato”, conjugam-se para tornar extensas zonas em alvo fácil das chamas. Junte-se-lhe o abandono de caminhos rurais e teremos uma situação mais complicada.

No entanto, o abandono do interior foi potenciado por múltiplos factores dos quais o menor não é seguramente o facto de em grande parte do interior a parca agricultura que existia ser de mera subsistência, permitindo que a miséria rondasse cada lar e, desde há séculos(!) empurrasse multidões de camponeses para a emigração. Assim se fez o Brasil, alguma (pouca) África colonial e quase toda a industrialização do país. As cidades, sobretudo as do litoral, cresceram e crescem com transmontanos, beirões e alentejanos. E mesmo as cidades do interior concentraram, também elas, muita gente das aldeias em redor.

Isso terá tido como consequência a perda ou a não actualização do cadastro florestal. Heranças que se foram dividindo e subdividindo, terras abandonadas, perda dos marcos etc., tornaram a selva do interior mais misteriosa do que a Amazónia.

Também não é menos verdade que, hoje em dia, ninguém vai “roçar” mato para arranjar lenha para as lareiras, cama para os gados ou material para produzir adubo. O mesmo e já falado despovoamento fez desaparecer os rebanhos, mormente de cabras que limpavam eficientemente o terreno mais maninho. (Também é verdade, mas ninguém se lembra – ou se quer lembrar...- que muitos fogos ocorriam devido à incúria de pastores que tentavam queimar mato para obter pasto para o gado).

Um velho, querido e saudoso amigo que já lá vai dizia que a terra é um bem finito e que, por isso, todos a queriam e ninguém vendia. É verdade e essa ideia antiquíssima que funda na propriedade da terra a ideia da dignidade do camponês foi durante séculos, e hoje ainda, uma ideia força que venceu todos os ideólogos da “reforma agrária ou da nacionalização forçada da terra. Mesmo nas situações mais violentas (desde a Rússia bolchevique à China) a apropriação estadual da terra foi progressivamente forçada a conviver com os talhões individuais, com a propensão à propriedade privada e, finalmente, com o derrube do chamado “socialismo real” de que ainda cá subsistem uns vagos defensores. (E lembremos que no centro e no norte do país, nunca os estatizantes defenderam sem mais o esbulho dos proprietários aliás quase sempre pequenos e pequeníssimos.)

Isto, por muito que não seja politicamente correcto, significa que os fogos também se devem a muitos dos lesados, mesmo se seja verdade que na maioria das vezes se trata de gente idosa, analfabeta, empobrecida que não pode custear a desmatação, a limpeza dos seus parcos terrenos.

Sabe-se, igualmente, que, em toda a Europa a que pertencemos, a média de floresta pertença do Estado ronda os 40% da superfície total. Em Portugal, a floresta pública atinge com dificuldade os 2%!...

Tudo isto, e é muito, é gigantesco, não pode, porém, fazer esquecer, perdoar, ignorar que há uma coisa chamada “responsabilidade política”. Quem é ministro deveria saber ao que se arrisca quando aceita o cargo (tanto mais que ninguém é obrigado). Há dúzia e meia de anos, caiu uma ponte em Entre-os-Rios. Era ministro do Equipamento Social um cavalheiro que perante a evidência de meia centena de mortes declarou (honra lhe seja) que a culpa não podia morrer solteira. E demitiu-se irrevogavelmente.

Actualmente, vagueia por aí, uma senhora, seguramente muito meritória, cheia de estudos, que neste momento faz de ministra. Antes disso, e isso é importante sublinhar, fora adjunta duas ou três vezes de ministros da Administração Interna. Ou seja, sabe, ou devia saber, como é que as coisas se passam. Vimo-la, com ar melancólico na zona dos incêndios, ouvimo-la, depois, dizer umas vacuidades simpáticas sobre a tragédia (felizmente, honradamente, não pôs no seu cenário um cadáver como certa jornalista da TVI).

Que um responsável político vá uma vez ao local da tragédia mesmo se nada pode fazer não me causa repugnância. Que ele assente arraiais no sítio sem ter competências específicas que o tornem útil no combate às chamas é que já me parece demais.

A senhora ministra deveria saber (ou pelo menos pensar) que não era ali que poderia ser mais útil. Era lá em Lisboa, a reunir com gente que a pudesse aconselhar. Com esses desafortunados especialistas que andam desde há anos (que digo?, desde há décadas...) a fazer o diagnóstico das sucessivas situações e a propor os meios de as evitar.

À Sr.ª Ministra pedem-se políticas mesmo se caia bem o seu natural ar compungido e merencório. A quem está no terreno pedem-se coisas tremendamente práticas. Apagar o fogo, salvar vidas e bens (árvores, casas, animais, ia a dizer memórias e afectos mas isso espero que esteja implícito).

Sª Excelência não é bombeira, não é médica, não é psicóloga, não é enfermeira, não parece ser escuteira ou pertencer a uma ONG, à Misericórdia ou ao Banco Alimentar. Também não é sacerdote, sacristã, coveira ou irmã da caridade.

É ministra, raios! Ministra! Tem de governar. Não precisa andar com um colete de bombeiro, sapatilhas e ar (sempre melancólico) grave e solidário. Que os ministros, os deputados, os autarcas e o resto das paisanos em me que incluo estão solidários é um mínimo, um sinal de civilização, de cidadania de honradez pessoal.

Para beijos, abraços e afectos já basta o Senhor Presidente que, cada vez mais, para o melhor e para o pior, se assume como o 4º Pastorinho. Mas o Senhor Presidente não governa, não tem de estar a todo o tempo a estudar o essencial que é tornar certo e evidente, hoje, o NUNCA MAIS. Nunca mais isto, esta infâmia, esta vergonha, este desespero, este modo tão português de impotência e irresponsabilidade.

É por isso, Exª Senhora Ministra, que com alguma tristeza mas com toda a convicção que me permito dizer-Lhe que, mesmo já fora de tempo, ficaria bem pôr o Seu lugar à disposição. Nem me atrevo a sugerir-Lhe uma demissão irrevogável (das irrevogáveis como a de Jorge Coelho e não das irrevogáveis passageiras que imortalizaram um político agora felizmente na reserva (e, vá lá, em relativo silêncio).

 

*na gravura: um carvalho. Dentro em pouco será algo quase desaparecido na nossa floresta. Se esta pertencesse em percentagem razoavel (europeia) ao Estado poderia haver alguém, inteligente e sensível que nesses terrenos públicos e desolados se lembrasse de plantar carvalhos. E teixos. E castanheiros. E faias. Etc., etc....