Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

20
Dez11

farmácia de serviço 53

d'oliveira

E o Natal à porta

 

 

 

Já sei, caras leitoras e conspícuos cavalheiros, que se dão ao trabalho de me ler que falar de Natal nos escuros tempos em que estamos perdidos parece blasfémia. E, de certo modo, é-o. O pais está como está (por culpa do divino Espírito Santo, da Bruxa má, do azar, da estrela Sírius ou de qualquer outra coisa que nada tem a ver com o indigenato local ((está bem assim caro confrade JCP?)) e nós nação valente e imortal que choramos e gememos neste vale de lágrimas sem culpa mas com desculpa, e vem um abencerragem falar de Natal?

 

Eu explico-me: fui hoje arrastado para o Corte Inglês (ontem tinha estado num outro centro comercial) à procura ainda não percebi bem de quê, e dei (como ontem também) com multidões desvairadas carregadas de embrulhos, fazendo bichas tremendas nas caixas e nos terminais multibanco.

 

“Was ist das?”, inquiri, pensando estar em Colónia ou Dusseldorf.

 

Olha pró totó! Está parvo ou faz-se?

 

Regressado de modo tão brusco ao torrãozinho de açúcar, dei por mim a pensar que maugrado as previsões sombrias dos comerciantes, a coisa ainda permite uma que outra compra.

 

E vai daí, resolvi falar em três ou quatro bugigangas vagamente culturais para pôr no sapatinho dos conterrâneos. Por exemplo: livros.

 

Ora bem comecemos pelo novo, novíssimo livro do Manuel António Pina, de que já várias vezes aqui se disse todo o bem. Pina acaba de lançar “como se desenha uma casa” (Assírio & Alvim) poesia vertiginosa e belíssima. No caso de preferirem prosa anda por aí mas a sessentinhas um “Dicionário Camões” (Caminho), mil páginas de grande saber camoniano. Este dicionário aparece na sequencia de outros igualmente excelentes sobre Eça, Pessoa ou Camilo para só referiri os que tratam de escritores. Na História saiu também há pouco um livro a todos os títulos notável pela minúcia beneditina do seu autor, um jovem doutor (por extenso) Miguel Cardina: “Margem de certa maneira, o maoísmo em Portugal 1964-1974”. Bem documentado e cheio de surpresas para muitos leitores. Adivinhem quem era “mao” nos anos duros! Juntemos-lhe uma biografia explosiva: “Puta que os pariu (a biografia de Luís Pacheco)” de João Pedro George (Tinta da China, como o anterior livro citado). E mais um livro de História desta feita da 1ª República: “Primeira República: Como cai um regime” de António José Telo  é o segundo volume de uma história da República que começou a sair no ano passado e acaba por parecer ser uma reedição muito modificada de “Decadência e queda da República Portuguesa” (2 volumes também publicados pela saudosa “A Regra do Jogo” nos anos de 78 e 80 do século passado. Mesmo tendo estes últimos volumes ler os mais recentes é extremamente útil e entusiasmante. E sempre sai da beatitude hagiográfica de certas publicações recentemente vindas a lume sobre temas conexos.

 

Vi por aí uma nova edição de “V” de Thomas Pynchon, autor que muito prezo. Não sei mais nada porquanto o meu exemplar é de 1989 e, na altura, não me pareceu má tradução.

 

Leitores mais abonados poderão voar mais alto. Por exemplo o fabuloso catálogo “Casanova la passion pour la liberté” exposição organizada na Biblioteca Nacional de França sobre o cavalheiro em epígrafe celebrando a compra do manuscrito integral de “Histoire de ma vie” (49 eurinhos mais despesas de transporte). Também franciu e de alta voltagem, dois Stendhal fabulosos: “Promenades dans Rome” e “Rome Naples et Florence”, dois livros de viagens editados na “la petite collection” da editora Dianne de Selliers e profusamente ilustrados (mais de 300 obras nos dois volumes) por pintores do romantismo ou anteriores e que terão sido vistos e apreciados por Stendhal (60 e 50 euros). Mais baratinho: “baltiques (oeuvres completes 1954-2004)” do recentíssimo prémio Nobel de Literatura, Tomas Tranströmer (Gallimard col Poesie, €8,55).

 

Fechemos esta excursão com um dvd e alguns cds. O dvd é obviamente “Sentimento” de Visconti, um dos indiscutíveis dez melhores filmes de sempre, doa isto a quem doer que eu não arredo pé. Acaba de ser lançado numa versão cuidada e temo bem que se esgote. 

 

De música só coisas baratas. Só, é como quem diz. Não posso deixar de referir o lançamento de uma integral de Liszt (Brilliant Classics) que ronda os 180 euros. Também é verdade que são 99 discos! Pessoalmente vou aguardar pelos saldos.

 

E já que se fala de saldos, relembram-se os mais relapsos, que na FNAC aindda andam á venda os cinco volumes da monumental “The encyclopedia of jazz”, cinco caixotões (Classic jazz, swing time, big bands, bebop story e modern jazz) a cem discos cada! Cem discos! Ora acontece que por misteriosas razões cada um desses caixotes que se podem comprar separadamente começou por custar 150 euros e agora vendem-se a 19 virgula qualquer coisa. Cem discos por vinte euros? Nem mais, malta gulosa. Fica a vinte cêntimos o disco! A quarenta paus dos de antigamente!

 

E garanto que os discos são genericamente bons e óptimos para quem tem uma pequena ou muito pequena discoteca. O problema, se problema é, é ouvi-los que aquilo demora o seu tempo.

 

Depois desta cabazada apenas vou referir “Peggy Lee. Greatest hits” um duplo a rastos de barato como os seguintes. A loira Peggy cantava bem, muito bem, mesmo se sofreu do preconceito racial. Era branca e alguns puristas burros e duros de ouvido achavam que o jazz só tinha uma cor, a preta. Abençoada estupidez! Oiçam a Lee e depois digam-me. E já que estamos com a mão na massa: uma negra. Retinta. Pianista e cantora de mão cheia: “Nina Simone: my baby just cares for me (que junta little girl blues e amazing NS” imparável. Por acaso este disco vai para um leitor e amigo a quem redesejo um bom natal. A prendinha cá está à sua espera.  “John Coltrane: Blue Train”(reunião de dois clássicos, o que dá título à edição e “traneing in” Com uma equipa de luxo: Lee Morgan trompete, Curtis Fuller trombone, Paul Chambers no contrabaixo Kenny Drew no piano e Philly Joe Jones na bateria. Um banquete! “Blind man blues. Blues from within” outro duplo que junta um conjunto de grandes bluesmen cegos para tudo menos para o esplendor da grande música. E para finalizar um disco para tornar o João Vasconcelos Costa verde de inveja “Pete Seeger, american industrial ballads” outro duplo que junta ao disco que dá o título um outro (american favorite ballads). Os velhadas do nosso tempo, João, adorarão estas 42 canções. E o resto da malta também, aventuro eu.

 

Como de costume, a escolha foi feita partindo de coisas lidas e ouvidas. Aqui não se engana ninguém, não se faz publicidade nem se anda ao ritmo da moda. E é por isso que, mesmo a fechar, se propõe ainda uma visita a Serralves à exposição “outra vez não Eduardo Batarda” e a reedição de por este rio acima do Fausto. Boa pintura e boa música. E de portugueses. De cá. Resistentes. Competentes. Inteligentes. Sempre dá para variar da mediocridade política actual e passada.

 

Bom natal, se puderem.  

*(alguns leitores anotarão que não disse mal de nenhum político presente ou passado, pelo menos nomeando-o)

**a gravura pertence a uma maravilhosa Mariana que não conheço e que pilhei por aí. Beijinhos, Marianinha,  bom Natal e bom ano para ti e para os teus pais e restante família. quem desenha assim merece ir ver o Batarda.

 

 

 

19
Jan11

farmácia de serviço 54

d'oliveira

Pequenos prazeres

 

Nos longínquos tempos de Coimbra, um grupo de estúrdios lembrou-se de constituir uma sociedade que celebrasse e vivesse os “pequenos prazeres”, os prazeres quotidianos, simples, amáveis, de baixo preço. Claro que a ideia teve rapidamente adeptos de tal forma que até um hino se compôs. E um exemplo escatológico, como não podia deixar de ser: um pequeno prazer: mijar quando se está “apertado”. E por aí fora.

A sociedade viveu o tempo que vivem estas pequenas aventuras juvenis mas, para meu espanto, quarenta anos depois, o Hélder Costa, numa celebração dos cinquenta anos do CITAC, subiu ao palco e mobilizou os antigos societários que, tão prazenteiros quão barrigudos e encanecidos se prestaram a um remake do hino que, pouco ou nada dizia à nova geração que educadamente os ouviu e passou adiante.

Porém, o que não passou foi esta ideia de que coisas simples podem encher-nos de gozo e, como se diz agora, melhorar o nosso “astral”. Em tempos de pouco entusiasmo e menor conforto, vale a pena atentarnum par de novidades que fazem esquecer a chuva, o negregado “órrivel” crime, a campanha tristonha e as tristezas dos sportinguistas.

Está ainda aberta uma feira de livros (Porto, Fundação Cupertino de Miranda) recentes a preços de saldo, saldíssimo. Os interessados poderão entre outras pérolas comprar por um, dois, maxime três euros, uma boa dúzia de livros editados pela “Cavalo de Ferro”, pequena editora inteligente que cabouca nos domínios das literaturas centro-europeias e nórdicas (com destaque para a Islândia). Fora dos caminhos habituais, está-se perante revelações que valem bem mais do que a dessorada produção de best-sellers que atraganta muita da edição recente.

Nesta onda de leituras, atenção, muita atenção, Mimi!, a frenesilivros.blogspot.com, um blog de um livreiro alfarrabista como quase já não há. Paulo da Costa Domingos, poeta e editor, vende livros a preços honrados e não contente com isso estabelece verbetes (que ele modesta mas gratamente dedica a Fernando Assis Pacheco e ao seu inolvidável “bookcionário”) que são, no mínimo, excelentes. Boa informação, boa escrita e carinho, muito carinho, pela obra e pelo autor. Todos os domingos, pela tardinha eis que o frenesi (também nome da editora) se apresenta aos curiosos. Que boa leitura!

Por falar em leitura boa e blogs eis que João Vasconcelos Costa, cientista reputado, professor universitário, bon vivant e gastrónomo com provas dadas (e livro publicado) voltou ás lides. JVC tinha abandonado os blogs jurando que já não tinha pachorra para a internet mas o bichinho, o vírus, a bactéria horrenda, estavam lá e tanto o desassossegaram que ele não resistiu: no-moleskine.blogspot.com, um blog que, já agora, poderá ser lido a par do politeiablogsoptcom.blogspot.com (tal e qual está escrito) da autoria do Zé Correia Pinto, outro velho, velhíssimo amigo, fino observador da cena política e profundo conhecedor dos meandros políticos de cá e de outros sítios. Passem por lá e digam-me se não foi bom conselho.

Hemingway morreu há cinquenta anos. Morreu o homem mas não o mito, e muito menos o escritor. Seria bom saber que está disponível em português toda a obra mas não é verdade. De todo o modo há meia dúzia de títulos que andam por aí desde “Os contos de Nick Addams” até “O Velho e o mar” sem esquecer alguns dos grandes títulos mais repolhudos. Hemingway merece bem ser revisitado mesmo se por vezes roçou o cabotinismo.

Dashiel Hammet, o grande, tem agora, em França, claro, uma edição total de todas as suas novelas: “coups de feu dans la nuit” (Omnibus, cerca de 25 €). Convém esclarecer que, também os romances têm uma edição integral (col “Quarto” Gallimard, cerca de 25-30€).

E já que se fala de Gallimard, convirá lembrar que esta fabulosa editora fez cem anos! Não há editora que se lhe assemelhe, nem na America nem na   Europa. Falar da Gallimard é falar da Plêiade, das colecções sóbrias de romance e novela, da “folio”, da “decouvertes”. E da “serie noire”. E de uns fabulosos “guides Gallimard” de que se publicaram cerca de cinquenta títulos todos melhores uns que os outros... Na história dela está o fiasco Proust que um Gide negligente ignorou ainda que por pouco tempo. Está a obsessão dos alemães em a “ocuparem”, estão alguns colaboracionistas infames mas está também Camus o luminoso, morto, aliás, num acidente de automóvel que era conduzido por uma das esperanças da família Gallimard. Há muitos anos, o Eduardo Prado Coelho (esquecido do Le Monde)  achava que o nec plus ultra francês era ser director do “Nouvel Observateur”. Retorqui-lhe que preferiria a direcção da Gallimard e ainda hoje estou convencido que tinha razão... quanto mais não seja pelos livros da editora que o Eduardo mandava vir.

Terminemos esta procissão de graças por uma nota meio triste. Beatriz Berrini, queiroziana de alto gabarito e estudiosa destas coisas literárias descobriu uma boa centena de cartas de Camilo ao visconde de Ouguela. Trata-se, pelo que pude ver no último JL, de algo de grandioso: está tudo pronto para editar o que, conhecendo o cuidado e a qualidade de Berrini quer dizer que temos um grande estudo á nossa frente. Falta apenas um editor! Estão a ver? Falta um editor para uma larga centena de cartas de Camilo! Em que país vivemos?

 

*na gravura: três belos exemplos da literatura Gallimard (a escolha não foi fortuita, claro...)

08
Dez10

farmácia de serviço 53

d'oliveira

 

Esquecer a crise

Começar pelo óbvio: recomendar o último Vargas Llosa (que há-de aparecer sob a chancela da Quetzal (grupo Porto Editora, actualmente), ou o Roth (Philip) ou mesmo “El asedio” de Arturo Perez Reverte, parece-me um tanto ou quanto desnecessário. Só os cito porque são realmente bons, valem a pena ser lidos.

Chamaria, antes, a atenção para um outro Roth, o Joseph, escritor austríaco de entre duas guerras, cuja memorável “A Marcha Radetzky” é apenas um dos grandes livros do século XX. Já andou por aí mas parece que está esgotado. Como aliás o “Hotel Savoy”... As leitoras e leitores mais avisados e conhecedores de línguas estrangeiras podem ir por ele em francês ou espanhol (não me atrevo a propor o alemão), línguas próximas. E, se acharem conveniente, atirem-se a “Esquerda e direita” e a “Crónicas de Berlin”. Há em espanhol: O primeiro (Izquierda y derecha) é um excelente texto sobre a atribulada vida de Weimar. O segundo, “Crónicas Berlinesas” é do melhor jornalismo que tenho lido. Imperdível!

Mesmo que me irrite o pomposo, e aqui é pomposo até dizer basta, eis que se reeditou o extraordinário romance de Ítalo Svevo, “A consciência de Zeno” (D Quixote). Parece que o editor entendeu pôr na capa esta tola advertência “biblioteca A. Lobo Antunes”. Convenhamos que é risível. Svevo é um imenso gigante, como aliás ocorre com Dickens, autor dos “Papeis póstumos de Pickwick” (espero que seja este o título) que, no caso, fazem parte da Biblioteca Ricardo Araújo Pereira! Não tenho nada contra estes dois senhores, mesmo se quase desconheça o segundo. Todavia, Dickens e Svevo não precisam do viático destas duas distintas personalidades locais. Mesmo que seja para vender livros, há limites. E se a D Quixote (grupo Leya) entende que ALA valoriza esse desconhecido Dickens (!!!) a “Tinta da China”, editora pequena e criteriosa poderia muito bem dispensar essa propaganda que nada adianta a Dickens e parece ridícula em relação a RAP. Ou, pelo menos, que não escarrapachassem nas capas estas vulgaridades de péssimo gosto...

Continuando na livralhada: de vez em quando, na sofreguidão de editar, as empresas recorrem a re-edições. É o caso do excelente William Somerset Maugham, que andava, com Stefan Zweig e John dos Passos, no amaríssimo purgatório da literatura. Volta e meia, autores bons caem nesse buraco sem razão específica. Ou com uma: têm êxito e leitores e isso leva algum critico de maus fígados a sentenciar que o autor é “fácil”, “ligeiro”, desinteressante ou simplesmente reaccionário. Zweig saiu desse poço há já alguns anos mas confesso que não vi se, além de “O mundo de ontem” teve cá reedições.

De Dos Passos, já por aí anda a extraordinária trilogia “USA”  (“1919”; “o grande capital” e “paralelo 42”). É imperdível e o leitor curioso descobrirá como este grande autor, dramaticamente injustiçado nos anos 50, influenciou muito mais gente do que se pensa.

Maugham, que, para variar, foi um espião dos nossos, é outro que tal. O êxito chamou os maus demónios, Ftono,  a da inveja provavelmente, e foi sumariamente executado como escritor menor. Só quem não leu a novela “Chuva”, infelizmente indisponível, é que pode sufragar a burrice crítica. De todo o modo, para alegria dos que gostam de ler, estão por aí, duas obras imprescindíveis: “O fio da navalha” e “Servidão humana”.

Quem opta por história terá obrigatoriamente uma obra a comprar: “História da vida privada em Portugal”, mais uma aventura de José Mattoso que coordena um conjunto de colaboradores de luxo. E não se esqueçam de Património Português no Mundo (os vol. 2º e 3º -último – saem daqui a dias. Basta que sejam como o primeiro para se poder afirmar que José Mattoso, antigo frade, deveria ser nomeado abade de Théleme, se a menção rabelaiseana o não engasgar. (homem duma cana! E ainda por cima diz que está reformado!) Outro José, irmão leigo da mesma abadia: José Quitério, e o entusiasmante Escritores à mesa (e outros artistas) na Assírio e Alvim

Um penúltimo livro, desta vez em francês: “Romans et Reportages” de Joseph Kessel, col. “quarto” Gallimard. Kessel, que já teve uma tradução portuguesa do celebérrimo “L’equipage” é um escritor formidável e um jornalista inesquecível. Tão bom ou tão mau que “L’equipage” foi levado ao cinema por quatro vezes. Há mais sete ou oito filmes tirados de obras suas. Para francês nada mal.

Não resisto a recomendar um Stendhal. Imaginem uma edição de “Rome, Naples et Florence” com duzentas e tal reproduçôes dos quadros que Stendhal  viu nessa peregrinação. Ora aqui está, uma vez sem exemplo, um grande clássico que melhora graças às ilustrações (ed Dianne de Seghers, 50€).

E a música?

Oh, quantas perdições. Comecemos por algumas integrais (sempre no selo Brilliant Classics) Vivaldi total em 40 cd por € 40! E Corelli por ainda menos: 20,99€!!!

E uma integral de piano de Schubert por Mili Balakirev a menos de 25€? E Beethoven (100 cd a 49€), Brahms (60 cd a 24,99)?

No jazz, a FNAC anda a vender uns caixotões (5 no total) com 100 cd por 49€ cada. Há dias ofereciam um deles a quem levasse os restantes quatro! Não querem? Acham que aquilo deve ter muita coisa fraca? Então atirem-se à selecção premiada da revista Down Beat que edita cerca de quarenta músicos (todos muito, muito, bons) que tiveram discos distinguidos pelos leitores da revista. São 20€ cada três discos e os que encontrei (bastantes, meu Jesus dos gastadores!) são do melhor que se editou: estão lá todos deste o grande Prez até Miles, Mingus e Monk (santíssima trindade) para não falar na Lady Day ou no Brubeck, passando pelo Sonny Rollins e pelo Coltrane... Uma volúpia! E os discos trazem boa informação e reprodução das capas de origem!

No capítulo dos dvd também há boas novas. A Fox terá feito 75 anos (e que viva outros tantos!) e atirou para a rua uma série de clássicos (Moby Dick de Houston, O Bom o mau e o vilão de Leone, Eva de Mankiewicz, Vinhas da Ira de Ford). Tudo a 9,99. Juntemos-lhe o sublime Aurora de Murnau, o Johnny Guitar do Nicholas Ray (14€) o duelo na poeira de Peckimpah ou Esplendor na Relva de Kazan (9,99) e temos para tardes e noites de embevecimento

No capítulo series estão editados cinco volumes de Bóston Legal (19,90 cada volume), a coisa mais inteligente, bem humorada e politicamente incorrecta que anda pelos ecrãs das televisões nacionais. Eu, fanático absoluto de Allan Shore e Denny Crane, digo-vos que já vi alguns dos episódios três vezes.

Quem quiser ir por outra admirável série nunca estreada em Portugal (por burrice catatónica de quem manda nas televisões públicas, privadas ou assim, assim) mandará vir de Espanha, da FNAC de lá “El comissário Montalbano” 18 episódios de cerca de uma hora cada produzidos pela RAI a partir dos livros de Andrea Camilleri, um grande entre os maiores. Não recomendo o editor italiano porque aquilo é uma selva e nunca se encontram todos os volumes! E o italiano (delicioso mas com alguns sicilianismos) talvez não seja muito fácil de entender.

E já que estamos numa de Itália, os doidos varridos que me aturam poderáo candidatar-se à leitura pública e comentada da “Divina Comedia” por Roberto Benigni. Fabuloso e comovedor: ver multidões enormes, caladas, em transe a ouvir os sublimes versos de Dante, ver como aquela gente sente a obra de Dante como visceralmente sua, ver como, com uma empolgante simplicidade Benigni explica e comenta, faz destes dvd (para aí uns 10 ou 12, não os tenho aqui comigo, na esplanada donde vos escrevo) um presente de natal único. Atrevam-se, porra!

Relevo final para duas séries de guerra “Irmãos de Armas” e “The Pacific” recentemente passados na nossa televisão. E para a correspondente e portuguesa “guerra colonial” de Joaquim Furtado: o nosso passado honradamente contado, este passado que persegue tantos (e alguns dos melhores) de nós, esta cicatriz que reabre a cada momento, esta dívida que temos connosco próprios e que não resgatamos.

Sei bem que me excedi em propostas natalícias, que o tempo é de crise, que deixei o dobro de propostas interessantes na gaveta da minha incomensurável ignorância e vergonhosa distracção, mas que querem? Escrevo sobre o que vi, li, ouvi e gostei e por isso não há aqui (à semelhança de tantos que propõem às cegas...) favores seja a quem for ou jactância. E lembrem-se: o natal dadivoso também vos deve englobar. Dêem uma prenda a vós mesmos, que diabo!, e ... não se esqueçam que provavelmente lá por casa há livros, discos, filmes que podem ir para instituições que apoiem gente menos favorecida. E que, mesmo que isto pareça caridadezinha própria da época, há pessoas que agradecerão qualquer espécie de ajuda que possam fornecer. O que não falta são ongs e similares que de certo agradecerão a vossa -nossa colaboração.

Nestes tempos de merda e de festa não basta afirmarmo-nos contra este estado de coisas. Enquanto se não faz a revolução (se é que a palavra – e a ideia – não está totalmente pervertida) faça-se o pequeno, humano e solitário gesto. Antes isso que assobiar para o lado ou atirar com slogans à cara brutal e infame da miséria.

 

*todas as  sugestões feitas são-no por conhecimento real das peças recomendadas. Gostaria de  poder dizer que recebi estes livros, discos e filmes como oferta. Infelizmente, salvo o 1º volume do J Mattoso e o do outro José, comprei-os todos. E mesmo os ofertados tiveram já uma ulterior compra. quando me oferecem livros e gostei deles compro outro exemplar para oferecer.

20
Jul10

Farmácia de serviço 52

d'oliveira

Morreu o Basil Davidson. A notícia tem pouco de inesperado. O homem andava pelos noventa e muitos, era uma das últimas testemunhas do século passado e um grande jornalista. Isso: um grande jornalista. Não era um politólogo especializado em África, sequer um historiador mas um jornalista de mão cheia. Deixa uma dúzia de obras de qualidade variável em que avultam os livros de divulgação sobre África. Cá por casa andam (e por ordem de chegada) Les voies africaines, Maspero, 1965, Revelando a velha África, Prelo, 1968, Révolution en Afrique, Seuil, 1969 (com prefácio de Amílcar Cabral, sobre a Guiné ex-portuguesa) Os camponeses africanos e a revolução, Sá da Costa, 1975, À descoberta do passado de África, Sá Costa,1981. Clareza, empenhamento e uma sólida documentação. Não se pode pedir mais ao jornalista. Agora que toda a gente fala tanto de Kapucinsky, talvez valesse a pena lembrar esta geração anterior de grandes viajantes e repórteres. Lembrar o magnífico Kessel, que volta em grande estilo ás livrarias francesas com pelo menos três  enormes antologias (Reportages romans; Le temps de l’espérance; les jours de l’aventure). Não esquecer Jack Woodis (África as raízes da revolta, Zahar ed. RJ, Brasil, 1961), o apaixonante Pierre van Passen (Estes dias tumultuosos, Globo, Brasil, 1941) e (ai Jesus aí vem porrada!) o imperdível
Curzio Malaparte (Kapput, livros do Brasil): Num outro registo mas igualmente legíveis mesmo se relativamente hagiográficos recordemos Wilfred Burchett (Vietnam, 2ª resistência, que a pide me levou...) ou Edgar Snow e os seus dois clássicos sobre a China: La Chine en marche, Stock, 1962 Étoile rouge sur la Chine, idem, 1964. (Snow e depois todos os pró-chineses dos anos 60 devem ser lidos acompanhados do Simon Leys, bem como o definitivo e inultrapassável “La derniére révolution de Mao” de Roderick Macfarquhar e Michael Schoenhals (Gallimard, 2009).

Esta longa lista, citada a propósito de Basil Davidson poderia ser acrescida de muitos e excelentes autores mas tem apenas por fito convidar alguma eventual e curiosa leitora a percorrer os velhos alfarrabistas onde poderá encontrar alguns dos livros citados, que já por mais de uma vez os vi. É uma boa sugestão para férias, tempo que deve ser gozado com alguma despreocupação mas sem cair no lagartar estúpido ao sol.  Andam por aí alguns belos romances a pedir leitura urgente. Por exemplo: Obra Completa de Juan Rulfo: absolutamente imperdivel. Esqueçam tudo o que ouviram sobre o boom e atirem-se ao Rulfo. Ele é, simplesmente, um dos maiores. Depois: Flanery O’ Connor: de repente os escaparates das livrarias apresentam três ou quatro títulos. Um milagre. Outro milagre é a reedição do John dos Passos. A trilogia U.S.A. é mais do que um clássico.  Os nus e os Mortos de Norman Mailer é outra reedição a saudar. Efusivamente. Vejam como ele usa processos narrativos parecidos com Dos Passos. Um espanol: “El asedio” de Arturo Pérez Reverte (em clima de guerra de independência, um romance com alguma intriga policial passado em Cadiz a magnifica, a que resistiu ao exército napoleónico, curiosamente comandado por um certo Dumas, pai de Alexandre e avô dos Três Mosqueteiros. E um moçambicano: Luis Carlos Patraquim entra na ficção pela porta grande: “A canção de Zefanias Sforza” (Porto Editora): uma novela de grande qualidade ambientada num Maputo que se espera já passado.

Dois dvd: Eva de Losey um filme notabilíssimo com uma Jeanne Moreau demoníaca e magnífica. Medeia de Pasolini com a sublime Callas.

Um álbum caro (50€) e maravilhoso: “ Fleuve Congo Arts d’Afrique Centrale”, edição do Musée du quai de Branly. Só para quem ama a África e quer perceber (anti-colonialistas de cartilha, é favor absterem-se).

José Mattoso e uma equipa de grande qualidade apresentam “Património Português no Mundo”. O 1º volume dedicado à América já cá canta. Sumptuoso mas pesado e difícil de ler deitadinho num sofá. A edição é da Gulbenkian (70€!)

Uma colectânea de 10 discos a rastos de barato: “folk songs” (estão lá todos ou quase: Seeger, Guthrie, The Weavers, Peter Paul & Mary, o grande Paul Robeson e o Harry Beafonte) anda pelas FNAC.

Como vêem, a Farmácia de Serviço, volta que não volta, reaparece.

a gravura: relicário Mahonge (Gabão) que beleza!

 

 

18
Dez09

farmácia de Serviço 51

d'oliveira

 Prendas no sapatinho

Ai leitorinhas, a época é de crise, o frio instalou-se mesmo se, aqui na esplanada protegida, eu consiga escrever estas breves linhas iluminado por um sol tímido e indiferente. Sopra lá fora uma levíssima brisa que levanta as folhas secas e põe os cães malucos de tanto correr atrás delas. Um gato cinzento, que agora é o rei do jardim, consegue dormir num canteiro mais elevado. Só tem um ano, um pouco mais, talvez. Mas ganhou estatuto, fornecedores de comida e já mostrou á canzoada mais miúda quem é quem neste canto do meu pequeno mundo.

Mas deixemos estas minúcias e passemos ao que nos traz. O Natal e as eternas prendas a que não escapamos. Juntei aqui meia dúzia de sugestões só para lembrar que isto não é só bacalhau com todos, rabanadas (muitas), jingle bells, jingle bells e choraminguices variadas.

E aí vai disto, ó Evaristo:

Livralhada para gostos variados:

Dispersos”, José Cardoso Pires, D Quixote, textos de diferentes proveniências pela primeira vez reunidos em livro. Com a vantagem de podermos confrontar diferentes épocas do JCP. 

 African Masks” (the Barbier Mueller colection), Prestel : um álbum belíssimo sobre uma das grandes colecções, com textos excelentes e explicações eficazes. Não se fica a saber tudo mas quase.

Le musée imaginaire de Marcel Proust”, Eric Karpeles, Thames & Hudson (também há edição inglesa, claro) Proust fartou-se de ver boa pintura e falou dela longamente. Relembremos o comentário sobre o “petit pan de mur jaune” com que ele celebra, via Bergotte, o grande Vermeer. Todos os quadros com o respectivo texto ao lado.

“El hombre vigilado”, Vesko Branev, Galáxia Gutemberg/circulo de lectores (ed espanhola), ou de como o simples facto de ter vivido em Berlin ocidental, antes do muro dá direito a 15 anos de inferno na Bulgária.

Mi siglo”, Aleksander Wat, el Acantilado (ed espanhola): a biografia de um dos grandes intelectuais centro-europeus. Da militância comunista à desilusão mas nunca à renúncia. 

Dictionaire Albert Camus”, Bouquins, Laffont ed. Um fabuloso dicionário sobre a vida e a obra de Camus, numa edição cuidada e a excelente preço para o tamanho.

Surrealismo, eros y politica 1938-1968”, Alice Mahon, Alianza (ed espanhola) BBB (bom, bonito e barato!!!) a aventura surrealista nas suas 2ª e 3ª fases.

La noche” é o número 247 e o último em data da belíssima revista “Litoral”. Um prazer. (18€)

Luis Pacheco, catálogo da notável exposição patente na Biblioteca Nacional. Org. apaixonada e criteriosa de Luís Gomes, BNP e Publicações D Quixote. Em vias de ficar esgotado. Uma introdução completíssima ao Pacheco escritor e ao Pacheco editor. 

Música:

La vie parisienne”, Offenbach, (DVD) Ópera de Lyon, 2007. (dir: Pelly) vi há dias esta interpretação no Mezzo e fiquei deslumbrado.

Il Barbiere di Seviglia” (DVD) dir de Dário Fo. O barbeiro é sempre bom e a encenação de Fo é divertidíssima e inteligente.

Estava este post pronto para ir ao forno quando li as propostas de Vasco Pulido Valente (no Público de hoje). Apenas conheço um dos livros e verifico que VPV continua de olho mais que certeiro. “Só em Berlin” de Hans Fallada é um grande livro de que conheço a edição francesa (Poche) “Seul dans Berlin”. Admirável! 

 

Todos os livros indicados (exceptuando o de Cardoso Pires, claramente mais barato) têm preços entre os 25 e os 35 euros. Os leitores repararão que comecei por falar em prendas, coisas para adoçar a boca, pelo que achei que uma vez sem exemplo se pode abrir os cordões á bolsa. Aliás, a leitora mais gulosa pode mesmo fazer uma lista para colmatar a falta de imaginação que nesta época costuma atacar os familiares dadivosos.

Esforcei-me por propor obras menos conhecidas ou em vias de rápida desaparição do mercado. Não fora isso e teria proposto a novíssima “história de Portugal” (esfera dos livros) dirigida por Rui Ramos de que toda a critica fala entusiasmada. 

24
Mai09

farmácia de Serviço 50

d'oliveira

        Viva Pancho!

 

Pancho Miranda Guedes. Arquitecto. De Moçambique, onde exerceu muitos e muitos anos,  e de mais um par de terras. Talento que transborda.

Já aquí tinha chamado a atenção para ele (cfr “Expediente 10”) mostrando até um painel de obras, pois, na altura, havia em Basileia uma exposição ue lhe era dedicada. Não foi a única exposição internacional sobre um arquitecto que, em Portugal, poucos citam. É pena mas é mesmo assim. As modas culturais nacionais são o que são e o Pancho vem de outras iconografias, de outras liturgias ainda por cima com o ferrete de ter trabalhado nas colónias. Poderia dizer que também o António Quadros, o pintor, claro ou vários excelentes poetas que morreram na diáspora post-colonial.

Ainda por cima o Pancho foi o descobridor e o mecenas (e o primeiro cliente) do Malangatana! Nem isso o salvou deste glorioso esquecimento. Como se tivéssemos assim tantos arquitectos fugidos ao molde, às modas conjunturais, e à bem-pensância nacional…

Agora, abre-se uma janela. Luminosa. No Centro Cultural de Belém apresenta-se a mesma exposição já referida. Tem um título entusiástico e, creiam-me, merecido: “Pancho Guedes – Vitruvius Mozambicanus”.

Está patente até Agosto, Não a percam, pelas alminhas.

E, se tiverem tempo ou oportunidade, aliás as duas coisas, leiam o texto da Alexandra Prado Coelho publicado no “ipsilon”, suplemento do Público, no dia 22 de Maio. Às vezes este suplemento sensaborão e descuidado que mistura tudo, mau ou bom, sobretudo medíocre, tem momentos de fulgor.

03
Mai09

Farmácia de Serviço 49

d'oliveira

Assim se faz a história

 Primeira nota de leitura de “Tribunais Políticos” coordenado por F Rosas (Irene Pimentel, João Madeira, Luis Farinha e Maria Inácia Rezzola). Temas e Debates, aprox. € 20

 

Pode ser que este livro venha a ser reavaliado mas, até ao momento, lidas que estão as partes mais substanciais parece-me poder afirmar que se trata de algo muito atabalhoado.

Já nem me refiro ao pobre aspecto gráfico mas apenas ao facto de os “casos exemplares” serem escassos, de a análise jurídica ser frágil, de o enquadramento histórico ser precário.

A capa ostenta em destaque um círculo que declara pomposamente que aqui se contem a lista completa de réus políticos.  Tentei comprovar essa afirmação mas, a menos que esteja a tresler, verifiquei a falta de vários réus julgados e condenados.

Devo dizer que essa alegada lista se divide em dois extensos quadros que ocupam 397 páginas (em 693). O primeiro quadro contém a lista dos presos processados pelo Tribunal Militar Especial e organiza-se por anos e, dentro destes, por ordem alfabética. Não se contesta o método que por isso mesmo deveria ser seguido quanto à lista dos réus julgados em Tribunais Plenários (1945-1974). Todavia nada disso acontece. Durante 26 páginas há ordem alfabética de réus mas não de anos de prisão, de processo ou de libertação. A partir da página 585 e até á página 663 é ao calhas! Não se consegue perceber a que vem uma lista que saltita de, p.ex., JJ Gaia preso em 1947 (sem data de julgamento nem de libertação) para M.S.  Gonçalves,  preso em 1959 e julgado em 1960; a este segurese  J. Inácio  preso em 1965 e julgado no ano seguinte e Carlos  A O M B preso em 1971 julgado e libertado no mesmo ano.

Há réus de que apenas consta o nome (por exemplo Jorge Delgado de Oliveira, citado no livro de João Madeira e, se bem me lembro, também em Irene Pimentel. Foi preso, julgado, condenado, cumpriu pena. Nada disso transparece.  Percebem? Eu também não.  Estas cento e tal páginas estão assim como se alguém à pressa tivesse lançado nomes sem curar de os juntar logicamente por ordem alfabética, por processo, por ano de prisão enfim por qualquer coisa nem que fosse a cor dos olhos.  Tentei, por amostragem, relacionar um determinado número de nomes de réus presos, processados  e condenados ou libertados com esta extensa lista. Escolhi dois ou três anos, de 65 a 68 e réus relacionados com a mouvance m-l.   Não encontrei nenhum. Voltei a verificar mas, a menos que me tenha cegado não vi rastos da Diana, do Fronhe, do João M de Almeida, do Sérgio, do Monteiro Matias, do Saul,, do Octávio Correia Ribeiro ou do Vítor Catanho. Honradamente admito que por lá andem perdidos mas (e esta é uma primeira leitura) não os lobriguei. Confesso que me surpreendi. Conheço de leitura quer o coordenador quer os autores. Já aqui referi com louvor Irene Pimentel, João Madeira e Maria Inácia Rezzola. Aproveito para citar Luís Farinha, autor de um estimável livro sobre “O Reviralho”, estampa editora. De todos estes, como do coordenador Fernando Rosas, li e possuo vários livros, e sempre que sei de um livro novo de qualquer deles vou por ele, sinal que os aprecio.

Mas isto, este tijolo apressado, parco em análise parece-me um serviço feito a correr descoordenado e, finalmente, medíocre.

E é pena. As vítimas e a verdade histórica mereciam mais.

 

*o nome da crónica é inspirado num título de Eduardo Guerra Carneiro, um poeta de mérito que não resistiu à vidinha videirinha.  

 

 

16
Fev09

Farmácia de Serviço 48

d'oliveira

É cada vez mais irregular o horário de abertura da “farmácia”. O boticário está velho, esquecido e, aqui para nós, duvida bastante da eficácia das suas receitas. Todavia, e antes de fechar de vez o estaminé, lembrou-se de deixar três apontamentos. Como de costume, só fala do que sabe, só recomenda o que já viu, leu, ouviu. Em muito contados casos, e é o caso da exposição, louva-se em notícias e criticas várias todas concordantes.
E comecemos pela música: setenta discos (70!!!) da inolvidável Callas a menos de € 0,50 cada diz-voa alguma coisa? Não vos desperta a vontade de, por um único e irrepetível momento, mandar a crise dar uma volta ao bilhar grande de mão dada com o senhor inginheiro, e “despilfarrar” uns morabitinos? Que diabo são setenta cd dessa enorme diva. A cerca de 30 euros por junto!
The complete studio recordings of Maria Callas (1949-1969)", EMI. Com o aval do Teatro alla Scala de Milão, ainda por cima. Peçam-nos via amazon.fr. que foi de onde os mandei vir. E depois digam qualquer coisinha...

Escuso de vos recomendar “Ofício Cantante” do Herberto Helder. Ou melhor, recordo-vos que é uma reedição da obra completa, versão 2009. E digo isto porque a aquele mafarrico reelabora constantemente os seus textos pelo que poderão estar certos que muitos dos mais conhecidos poemas aparecem em nova versão. A edição é da Assírio & Alvim e anda pelos quarenta e tal euros. Vale-os absolutamente, claro, tanto mais que o livro vem com encadernação de editor o que o protege mais. Quem quiser encomenda-o ao “Pátio das letras” em Faro. A almirante fluvial Kamikaze terá todo o prazer em vo-lo enviar.

E agora uma novidade, novinha, acabadinha de sair do forno: “la ninfa inconstante” de Guillermo Cabrera Infante, esse cubano prodigioso, desaparecido há cerca de três anos e que nos deu “Tres tristes tigres” e “La Habana para un infante difunto” (acabo de escrever isto e vejo que o mesmo se escreve na contracapa. Raios!, já não se pode ser original). A “ninfa...” é uma obra póstuma. Nem sempre são recomendáveis estas cavadelas no espólio de um escritor desaparecido mas aqui estamos em presença de algo que vos encantará. A edição, bem bonita, corre a cargo da Galáxia Gutenberg/Círculo de Lectores. Anda pelos 20 euros. O Corte Inglês encomenda-a.

Não é uma novidade mas é uma raridade. Ou melhor, é uma reedição facsimilada de uma raridade: “Proverbe”. Proverbe foi uma revista dadaísta dirigida por Éluard que publicou seis números entre Fevereiro de 1920 e Julho de 1921. Os originais, escassos, escassíssimos tem preços estratosféricos, claro. Como tudo o que toca o surrealismo e o dadaísmo. Para mais informação consultem www.editions-dilecta.com ou a velha amazon.fr. não é barato, não senhor: cerca de 23 euros por uns fascículos magrinhos mas excelentes.

E agora um para os soixante-huitards assanhados. Para os que ainda não depuseram as armas. Para os que se divertiram. “Harakiri 1960-1985, les belles images" (Hoebeke). Para quem não saiba, Harakiri (journal bête et méchant) foi uma das melhores e mais agressivas revistas desse tempo prodigioso. Cavanna, Wollinsky, Cabu, Reiser, Delfeil de Ton entre outros colaboraram neste panfleto monumental. A bem-pensância horrorizada criticava-lhe o mau gosto, a ferocidade, a intransigência sei lá que mais. Imperdível. Imperdível sobretudo porque o poder proibia vezes sem conta a revista até que a forçou a mudar de nome. Trata-se de uma sólida edição ilustradíssima de 320 páginas formato grande. Pour lecteurs avertis, como se diz para os filmes ousados... 28 euros!

Quem pode vai a Paris ver o Chirico (Chirico et la fabrique des rêves) ao Musée d’Art Moderne. Impressionante, ao que leio. E Paris é sempre uma festa. E pode aproveitar para ver a exposição Paris capital de la photographie no Jeu de Paume. Ao fim e ao cabo voltamos um pouco ao tempo da publicação de Proverbe. E da invenção do século XX.

E agora, muito à puridade, uma dica: entrou na tipografia, ou no que quer que seja, “Máscaras da Utopia (história do teatro universitário em Portugal, 1938-1975)” de José Oliveira Barata, ex-professor catedrático em Coimbra. Será a Gulbenkian a editar. Já li as primeiras 200 páginas de um total de 370, e roí-me de inveja. Porque raio não fui eu a escrever este livro? O Zé B é um velho amigo e discutimos muito o livro á medida em que o ia escrevendo mas a surpresa da versão final é extraordinária. E a iconografia é simplesmente esplendorosa. Só a Gulbenkian é que poderia atrever-se a um lançamento destes. E o teatro universitário português merecia este belíssimo estudo. E os leitores, vocês, também!
10
Dez08

Farmácia de serviço 47

d'oliveira

100 anos!


há cem anos, dia por dia, nasceu Olivier Messiaen, um dos mais importantes, senão o mais importante, músicos francêses do seculo XX.
Diria, aliás, um dos mais importantes compositores do século XX. Mundiais! Pela novidade da sua obra, pela clareza dos seus propósitos, pela força das suas convicções musicais e outras.
O boticário que estas vai ajuntando não é um especialista em música contmporânea, não é, de resto especialista em nada, mas muito menos em nesta música. A orelhinha nasceu-lhe tarde e a más horas para a música contemporânea e tem certa dificuldade em ouvir e perceber obras posteriores aos primeiros anos do século passado. Todavia, consegue comover-se com a música deste grande "kantor devant Dieu", com o seu profetismo e a sua fé exarcebada.
E não podia, não podia de modo algum, não deixar constância do seu respeito e admiração pelo autor do "quatuor pour la fin du temps" concebido, escrito e dado em primeira audição num campo de concentração militar em 1940. Aí acima está o programa. Mas é mais do que um programa, ou melhor é um verdadeiro programa: uma aposta na vida contra a morte, na liberdade contra a opressão, na paz contra a guerra.
12
Nov08

Farmácia de Serviço 46

d'oliveira

O boticário anda relapso. E triste. Não passa um dia, vá lá uma semana, em que não lhe morra um amigo. Por exemplo o Tony Hillerman, autor de romances policiais delicadíssimos, belíssimos, todos ou quase passados nos territórios da tribo Navajo (Diné ou Dinah, como eles se apelidam) e os seus heróis são polícias tribais.
Cada um dos romances é parte de um tratado sobre a cosmogonia surpreendente deste povo, uma aventura, um despaísamento que valem a viagem. Quem quiser saber mais que vá pelos livrinhos que andam entre nós publicados pela Caminho. Com B Akunin ou Andrea Camilleri, Hillerman é uma nova e exaltante cara do novo romance policial.

E que dizer do passamento de Miriam Makeba, nome ocidentalizado de uma mulher sul africana que assinava em pelo menos dez linhas? Que com ela morre alguma da mais exaltante música que nos acompanha desde os anos sessenta? Que ela, e Hugh Masekela, com quem trabalhou, deram a conhecer a fascinante música sul-africana, a música de Spokes Mashiane, os kuela, o jazz sul-africano, os impressionantes coros da nação zulu enfim um mundo sonoro que agora anda subavaliado pela designação world music? Qual world qual quê? Música, grande música, ritmo e cor a dar por um pau, música para cantar, para dançar, para amar.
Miriam morreu no palco. Ou quase. O ataque fatal apanhou-a no camarim depois de uma actuação generosa e emocionada. E solidária! Cantava para apoiar um autor perseguido pela máfia, ou pela camorra. Ou pela n’dranghetta, vá-se lá saber. Cantava porque nessa terra ignota alguns pobres emigrantes africanos tinham sido alvo de violência. Cantava porque essa era a sua arma, a sua vida, a sua razão de ser.
Recomendam-se (meramente indicativos): “An Evening with Belafonte” (B000063RVN); “Her Essential recordings: The empress of África” B0000E1P334; “Miriam Makeba en concert” 2B00007BH7J.
(e não esqueçam o branco Johnny Clegg que também deu o litro quando isso significava risco, perigo).
Passam 20 anos sobre a morte de Jacques Brel. Tempo mais que oportuno para comprar “Les 100 plus belles chansons” uma caixa (de metal, se faz favor!!! de cinco discos por menos de 30 euros, enfim 29,98!
De Brel já se disse tudo. Eu acrescentarei que o “devo” (outra vez!) à Maria João Delgado e um pouco às manas Feijó que cometem este mês os respectivos aniversários. Como de costume esqueci-me mas elas já sabem do que a casa gasta. E são pacientes!
Hoje, aliás ontem, passaram 90 anos sobre o armistício que pôs fim (?) à 1ª Grande Guerra. Nunca mais!, dizia-se depois daquela sangueira. Nunca mais? Bastaram uns escassos vinte anos.
A Grande Guerra, esta, foi uma guerra miserável (como todas as guerras mas aqui mais) onde se fusilaram milhares e milhares de soldados “pour l’exemple”. Ainda hoje se reabilitam soldados e oficiais pelas infâmias que não cometeram mas que pagaram com a morte. Quem quiser saber mais vai já ao blog do João Tunes que aborda o assunto com a habitual honestidade e dignidade (agualisa6.blogs.sapo.pt) e onde já produzi um comentário.
Quem quer ir um pouco mais longr, compra o Figaro hors serie La Grande Guerre, 1918-2008) São oito euros, traz mapas, artigos e bibliografia e está nos quiosques.

Quem tiver uns cacausinhos para arejar vai para Paris ver uma bela exposição de Rouault (Pinacotheque) ou os desenhos de Durer e Leonardo (e muitos outros) na École des Beaux Arts, sob o título “figures du corps”.
Mais baratinho, Madrid no Thyssen: a guerra e as vanguardas: tudo sobre o futurismo e adjacências. Um regalo.
Os amadores de televisão e de policiais inteligentes têm na RAI 1 às segundas, pelas nove horas mais uma série de filmes da serie Montalbano: outro regalo. A Sicília, Camilleri, um punhado de bons actores e histórias bem contadas. Em italiano, previne-se já.
Ainda para conhecedores da bela língua: já saíram e estão à venda os 9 primeiros volumes de Tutto Dante, dito (magistralmente!) por Roberto Benigni. Calma aí, malta, que estes nove volumes são apenas os referentes ao Inferno. Benigni recita, explica, comove, entusiasma-se, gesticula, faz piruetas e restitui-nos um Dante tão próximo, tão familiar, tão nosso (tão de Buarcos, diria eu...) que a malta não despega.

A gravurinha do dia intitula-se Navajo constelations e é uma maneira simples de homenagear Tony Hillerman