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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

16
Dez15

leitor (im)penitente 194

d'oliveira

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Portugueses, europeus, cosmopolitas e inteligentes

Aproveitando o momento em que se conhece o laureado do Prémio Pessoa deste ano,Rui Chafes escultor reconhecido recordo o premiado do ano passado Henrique Leitão, físico e historiador da Ciência (e excelente comunicador, como tive oportunidade de comprovar via uma entrevista sua na televisão), seria bom lembrar que o nosso pequeno torrão teve (e tem) a sua interessante quota parte em muitos domínios do conhecimento científico mundial. 

Hoje limitar-me-ei a tratar de algo dramaticamente esquecido quer do público quer dos novos patriotas acirrados que em época eleitoral nos caem em cima.

Irei, pois, tratar de cartografia, ciência para a qual em muito contribuíram os nossos maiores.

Sem pretender ser exaustivo e tentando, apesar de tudo, ilustrar o folhetim com obras relativamente acessíveis, deixarei por aqui alguns apontamentos sobre uma prestigiosa contribuição portuguesa a esta ciência.

E começaria pelo mais simples e mais acessível: a colecção de separatas (249 ao todo) publicadas a partir de 1960 pelo Centro de Estudos de História de Cartografia Antiga. Tais publicações ainda hoje se encontram quer em alfarrabistas quer, sobretudo, no notável Instituto de Investigação Científica e Tropical. Demoremo-nos um pouco nesta instituição prestigiosa e prestigiada, herdeira, se não erro, da Junta de Investigações do Ultramar, anteriormente das Colónias. Vale a pena visitar o palácio onde está localizada, quanto mais não seja por ser a continuação natural do belíssimo Jardim Tropical, um jardim botânico especializado ali para os lados de Belém.

E vale muito a pena pesquisar o catálogo de publicações para venda onde qualquer leitor encontrará muito por onde escolher, mesmo se não quiser focar-se apenas nas separatas.

Trata-se de uma colecção notabilíssima a que se associaram os melhores nomes (nacionais e estrangeiros). Cito apenas três já desaparecidos para não cair em falta com os ainda vivos: Teixeira da Mota, Armando Cortesão e Luís de Albuquerque, pessoas que deixaram, para além da sua colaboração no CEHCA, uma vastíssima bibliografia de superior qualidade. Aliás, e já lá iremos, são também eles quem contribuirá em graus diversos para a monumental “Portugaliae Monumenta Cartographica” ou para o curioso e belíssimo “Tabularum Geographicarum Lusitanorum” e até para o mais recente “Portugaliae Monumenta Africana”.

Reza a lenda que Salazar terá sondado o Professor Armando Cortesão para dirigir os “PMC” por razões de patriotismo, sabendo como sabia, que Cortesão era oposicionista. E que Cortesão terá aceitado por isso mesmo vincando, todavia, a sua posição de repúdio do Estado Novo. Se non è vero...

Seja como for, essa primeira e grandiosa compilação (e estudo) da nossa cartografia constitui, ainda hoje, passado meio século, um extraordinário projecto editorial que delicia estudiosos, bibliófilos e curiosos. Mesmo se, e isso ocorre com outra publicações similares, as dimensões dos volumes (6) e, sobretudo, do “álbum” sejam um forte óbice para quem pretende adquirir a obra. O preço também não ajuda (a INCM cota a coisa perto dos 500 euros). No mercado alfarrabista e no de 2ª mão os preços podem descer até cerca de metade. A questão é ter paciência e procurar muito.

O segundo texto que gostaria de referir é o extraordinário Atlas do Visconde de Santarém, nas duas sucessivas edições da segunda metade do século XX. Ambas são fac-similadas da 1ª gloriosa edição custeada pelo Visconde e que deu na europa civilizada da época. O Atlas é acompanhado de um grosso tomo da lavra de Santarém sobre a prioridade dos descobrimentos portugueses na costa ocidental de África.

Como de costume, neste género de publicações, o grande óbice à sua aquisição (maior mesmo que o preço!) é a dimensão do volume (cerca de 75x50 centímetros!). Encontram-se à venda   no mercado alfarrabista exemplares raros da edição portuguesa. No mercado internacional é possível também encontrar uma edição recente, fac-similada, editada em Amsterdão a preço muito mais baixo. O primeiro óbice é que se trata de folhas soltas (mesmo se por um pouco mais de dinheiro se consiga um estojo -cerca de 190€-). Depois os mapas são todos a preto e branco. Finalmente, em vez do texto de Santarém, há um curto mas bom estudo de dois autores ingleses.

Em quarto lugar outro atlas fascinante: É o de Fernão Vaz Dourado, um cartógrafo que nunca terá saído de Goa onde milagrosamente concebeu e produziu esta obra prima. Dimensões um pouco menores (60x30), existe em duas versões. A melhor e mais rara deve-se a outro visconde, desta feita, o notável Visconde da Lagoa, autor emérito de vários excelentes estudos sobre a Expansão Portuguesa. Trata-se de uma edição dos anos quarenta que, posteriormente foi reproduzida pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (neste caso a edição é mais pequena e manuseável e consegue-se, na Torre do Tombo por menos de 100 euros). Há igualmente uma reprodução ultra luxuosa do mesmo atlas, em pergaminho, com acabamentos excepcionais que correspondem a um preço excepcional (quase 5.000 euros!). É a chamada edição de Manuel Moleiro um editor espanhol conhecido pela alta qualidade dos produtos de que é responsável.

A quinta maravilha cartográfica é o Atlas de Lázaro Luís (1536), na edição de Luís de Albuquerque e Catarina Madeira Santos (1990). O meu exemplar vem dentro de uma estojo em pele, e foi adquirido a preço mais que razoável porquanto na internet só vejo referido uma outra edição espanhola com preços à volta dos 1500 euros e acabamentos luxuosos que, todavia, não justificam tal disparate. No pequeno mundo da edição deste tipo de publicações optou-se em muitos casos por fazer quase objectos de colecção com tiragens limitadas e recurso a materiais caríssimos.

Finalmente, refira-se o Atlas do Rey Planeta, da autoria de Pedro Teixeira Albernaz, um dos muitos portugueses que permaneceram em Madrid mesmo depois de 1640. Pedro Teixeira Albernaz e seu irmão João terão sido alunos de João Baptista Lavanha e trabalhado durante muito tempo junto da corte de Filipe IV (III de Portugal). Foi este rei quem encarregou Pedro de uma obra ciclópica: um atlas dos seus reinos peninsulares com a descrição das costas e das mais importantes cidades. A obra levou anos a concluir, fornece deliciosos panoramas de costas e desapareceu durante séculos até ser acidentalmente encontrada em Viena em 2000. Foi publicada poucos anos depois é relativamente fácil encontra-la em Espanha, através da Casa del Libro (cerca de 75 euros). Este cartógrafo é também autor de “Descripicion del reyno de Portugal y de los reynos de Castilla...” de que não consta qualquer publicação, excepção feita ao que dele se reproduz nos Portugaliae Monumenta Cartographica”. Convém salientar que a edição do Atlas em causa não deve seguir as dimensões da obra original, não traz os mapas encarcelados de modo a serem totalmente visíveis e, por isso mesmo, sendo um razoável objecto de estudo não reproduz rigorosamente o original (exactamente como no caso da edição do Atlas FV Dourado feita pela Comissão dos Descobrimentos) e isso repercute-se na facilidade de compreensão das cartas geográficas e da toponímia.

Correm por aí, provenientes do excelente – e caro!!!- editor Manuel Moleiro outros atlas atribuídos a cartógrafos portugueses (atlas Miller) ou seguramente feitos por portugueses (o de Diogo Homem).

Quereria citar, por último, o interessantíssimo “Glossário toponímico da antiga historiografia ultramarina portuguesa”, da autoria do Visconde da Lagoa. Este erudito a quem os estudos sobre a Expansão Portuguesa muito devem, deixou com o título acima indicado , uma obra em três fortes volumes e uma adenda também gordinha, um índice de nomes perdidos ou esquecidos de terras por onde os nossos maiores andaram. A obra curiosamente nuca se completou pois o que está editado corresponde apenas à Parte Iª (Ásia e Oceânia). Ficaram por publicar (ou até por redigir) as partes África e América.

 

Caros leitores

Eu não quero estar aqui a dar-vos cabo da paciência com um monte de livros velhos mas apenas pretendo recordar (ou avisar) que nem só de desgraças está tecido o nosso passado. No capítulo cartografia e conhecimento do mundo cabe-nos uma parte honrosíssima (terão reparado que não falei de conquistas ou “descobertas” mas apenas de ciência ligada às nossas viagens longínquas) no panorama da ciência europeia e mundial (não esquecer os grandes viajantes árabes, chineses e até indianos).

Esta parte da nossa bela herança merecia tratamento digno e condigno. Ora aqui está algo de que um “Ministério da Cultura” poderia ocupar-se. Ainda por cima poderá contar com o apoio generoso e desinteressado de várias instituições (por exemplo a Sociedade de Geografia de Lisboa, casa centenária, editora esforçada com um conhecimento robusto da nossa história colonial). E poderia, talvez, evitar o estilhaçamento do Instituto de Investigação Científica e Tropical e de órgãos anexos (Arquivo Histórico Ultramarino) que ainda por cima não pesam no orçamento e vendem os seus produtos.

Seria bom existir uma espécie de “Biblioteca de Estudos Portugueses” que agrupasse este tipo de edições que, pessoalmente, confiaria a uma editora tipo “Gradiva” para evitar que as publicações morressem (como morrem as da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos) sem ver um freguês interessado. Isto é defesa do nosso património, é barato e prestigiante.

Se deixo esta hipótese é porque a dr.ª Clara Ferreira Alves, numa carta aberta ao dr. João Soares o desafiava para reeditar uma série de clássicos literários recentes (que, na maior parte dos casos ainda se encontram nas livrarias) que ela julga em perigo de esquecimento. Ora se a poesia e a ficção merecem tal desvelo porque não estas velhas e continuadas glórias da nossa cultura?

20
Mar11

o leitor (im)penitente 63

d'oliveira

 

Imagens do mundo flutuante e transitório

(ou livros para ler durante a crise)


Dois títulos muito a propósito da época:  “Hiroshige” álbum coordenado por Adele Schlombs (Taschen, menos de dez euros) e “Traição a Salazar”  de José António Barreiros (Correio da Manhã e Cofina, 5 euros).

Ora vejamos.

Hiroshige é um dos mais famosos pintores/gravadores japoneses do século XIX. As suas gravuras, de que este livro dá abundante testemunho, ainda hoje se vendem a muito bom preço por esse mundo fora. Com Hokusai, terá sido um dos fundadores da escola (e técnica) ukyio-e (que se pode traduzir pelo título da crónica.

Trata-se da técnica  importada da Europa (via holandeses?) da xilogravura. Seja como for, os autores nipónicos deram-lhe uma outra graça, um outro esplendor e uma raríssima qualidade.

O livro em causa é, alem de uma boa introdução a Hiroshige, um excelente estudo. Sério e simples, como a Taschen costuma exigir. E num momento em que nos afligimos com o Japão, vale a pena apontar este livro barato e bom.

 

De José António Barreiros já aqui, várias vezes, se disse  bem. O diabo do homem persiste e agora com uma excelente crónica de uma das mais desconhecidas formas de resistência a Salazar, nos anos da guerra. Nada mais nada menos do que a história circunstanciada e desenfadada da “rede Shell”. Tive a sorte de ter um par de amigos mais velhos e já desaparecidos (Rui Feijó e José Queiroz, aliás cunhados) que fizeram parte da rede. E numa história saborosa contada pelo Rui, há mesmo a intervenção de dois outros conhecidos. Na verdade, quando começou a saber-se que a policia conhecia tudo, ou bastante pelo menos, sobre a rede. Estes dois com a cumplicidade de um Luís (Seiça?) (filho do proprietário da casa onde eu vivi dez anos em Buarcos e de quem se confidenciava à boca pequena a oposição ao regime e uma prisão pela PIDE) e de um António Abrunhosa, de Castelo Branco, pai de um primo por casamento, o António, terão em conjunto agarrado em vários bidões de gasolina da rede e regado um campo, propriedade do último “que nunca mais deu nada que prestasse”. Quando a policia chegou já não apanhou nada. É uma historieta, hoje, mas na altura representou muita coragem e muito trabalho.

JAS, um apaixonado pela “guerra secreta” e um bom conhecedor dos seus meandros, além de cronista, contista e romancista de mérito (e de advogado com provas dadas, mais que dadas!...) agarra na história, desvenda-a, numa linguagem simples que, todavia, não cede à facilidade.

A ler no intervalo da excelente “História da vida privada em Portugal” (José Mattoso coordenador) de que o Círculo de leitores acaba de publicar o 3º volume.

Na gravura: “O remoinho Awa” da série “vistas famosas de sessenta e tal províncias” 1855.

 

 

14
Set10

leitor (im)penitente 62

d'oliveira

De autores, de livros e outras pergrinações

 

Às vezes, ocorrem pequenas alegrias. Por exemplo: ler a longa e interessante entrevista que José Mattoso deu à “Ler”, revista do “Círculo de Leitores”. Simplicidade, desenfado, inteligência e modéstia, nas boas e devidas proporções, tudo servido numa linguagem simples mas rigorosa, com uma pitada de humor e outro tanto de ironia.

Mattoso, professor emérito, continua a produzir, a intervir, como se a “reforma” fosse apenas um pretexto para se dedicar ao mesmo prazer de sempre, à mesma paixão, só que agora livre de horários e burocracias. Acaba de sair o 1º volume de “Património Português no Mundo”  (anunciam-se os dois seguintes para muito breve) e já está a rodar uma “História da vida privada” com a chancela do Círculo. No meio saiu uma nova (?) versão de “Portugal o sabor da terra”

Eu, que sou seu leitor de há muito (e amigo de já há um par de anos) sempre me surpreendo nos raros mas felizes encontros que mantemos a propósito de um almocinho de sardinhas, raia ou um honrado ciclóstomo (que a Zé e ele acompanham a champagne!...) com a sua inesgotável curiosidade sobre mil e uma coisas.  Ora aqui está aquilo a que se pode ainda chamar um intelectual a tempo inteiro e pronto a ler.

 

Durante um par de dias andei por Lisboa, de alfarrabista em alfarrabista. Num, encontrei por € 2 o primeiro tomo dos “Trabalhos do primeiro congresso nacional de antropologia colonial”, realizado por ocasião da Exposição Colonial do Porto em 1934. Por tão baixo preço arrisquei a compra apesar de me parecer duvidoso encontrar o segundo e último volume. Pois não! No sábado, na tradicional e excelente feira dos alfarrabistas (na Rª Anchieta), lá estava à minha espera o voluminho segundo mesmo se ligeiramente mais caro.

Durante esses dias, descobri na rua do Alecrim, para minha grande surpresa, as “Memórias de d’Artagnan” em edição portuguesa dos anos quarenta, três volumes pelo voluptuoso preço de € 6. Fizeram-me um desconto e só paguei € 5!!! Como se sabe, o verdadeiro D’Artagnan morreu em Maastricht, feito marechal de França depois de uma longa vida de militar. Serviu dedicadamente o Rei e o Cardeal Richelieu, mesmo se Dumas, o magnífico, o tenha posto no campo contrário. E a propósito de Dumas, lá me chegou de França um “Dictionnaire Dumas” que ando a ler com um prazer multiplicado. É que, ao mesmo tempo, veio das mesmas paragens, um outro dicionário desta feita de Jules Verne, outro autor que encheu de felicidade a juventude.

E sempre nesta estação francesa, eis que a sumptuosa Dianne de Selliers (editora refinada e cara) publica na “petite collection” o “Rome, Naples et Florence” de Stendahl (outra paixão absoluta) ilustrado com uma gigantesca panóplia de reproduções da pintura romântica. Vi o livro na versão “grande” (enorme, aliás) e fiquei com os dentes como ossos. Agora que aparece a versão mais andadeira (mesmo assim de belo tamanho 26x19, 300 pp 150 ill.) a €50, vou arriscar. Sempre é mais barato e muito melhor apresentada do que uma proposta estarrecedora que o “Público” faz: a “Guerra e Paz” de Tolstoi em dez tomos por quase €90!!! Traz umas gravuras de Pomar mas quand même...

Há um mês ou dois, descobri num catálogo de um alfarrabista um par de dicionários de vernáculos africanos (makua, cinyanja e provavelmente ronga). Fui por eles num alvoroço. Nada. Tinham ido e há já muito tempo. Fiquei descoroçoado. Mas Deus, ou pelo menos o pequeno deus dos leitores ávidos, não dorme. Afinal os mesmos dicionários que eu pensava esgotados jaziam numa estante de uma livraria por preços idênticos ou menores aos do catálogo.*

Finalmente, o desgosto. Na excelente e amável Barateira encontrei uma quinzena de exemplares da “flora moçambicana”. São separatas que a livraria vendia entre €0,25 e 0,75. Barata feira! Minutos depois, num outro alfarrabista, os preços começavam nos €2,50...

P.S.: ia eu encomendar um dicionário de makua*  e eis que antes do telefonema fatídico o encontro no catálogo da “Bizantina” a preço ainda mais mimoso. Ele há dias de sorte....

Na gravura: ilustração constante do Rome Naples et Florence

17
Ago10

leitor (im)penitente 62

d'oliveira

Sobre um documentário dedicado a Jorge de Sena

 

Tenho por aqui todos os livros de poesia de Jorge de Sena, e pelo menos dois de ficção, para não falar de vários volumes de ensaios. Julgo, pois, poder incluir-me entre os apreciadores do poeta e, por isso mesmo, poder julgar se Sena foi ou não injustiçado pelo seu pais e, mais importante, porque mais sério e sentido, pelos portugueses que lêem.

Acontece que há por aí uma ideia peregrina que transforma Sena num perseguido, num incompreendido, num injustiçado, numa vítima de poderes ocultos, de máfias literárias e/ou intelectuais que lhe não perdoariam a grandeza, o à vontade e a independência.

Cita-se sempre o facto de, apesar de ter sido professor catedrático no Brasil e depois numa universidade californiana, a universidade portuguesa não o ter querido aceitar no seu seio. Ao que sei, apenas a Faculdade de Letras de Lisboa terá rejeitado a sua inclusão. Num documentário televisivo de há dias, asseverava-se que fora o Professor Jacinto do Prado Coelho (que não está cá para se defender) que recusara Sena por este “não ser um perseguido político”. Convenhamos que a historieta é pitoresca. Sena não terá sido um activista político ferrenho mas consta que esteve ligado à conspiração da Sé e é notório que escreveu, no Brasil, várias verrinas contra o governo português. Há, como é sabido, um processo dele na PIDE e era voz corrente e geral que se reconhecia (e era reconhecido) no universo oposicionista. Não creio que JPC ignorasse isso, que tivesse o desplante de o negar e que o seu parecer, nos anos confusos do PREC, tivesse vencimento quanto a isso.

Por outro lado, a Universidade Nova convidou-o e, se a memória não me falha, o mesmo ocorreu com a Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde Óscar Lopes, seu cunhado foi convidado para professor.

A verdade, quanto a isto, deverá estar no  facto de Sena não poder aceitar um lugar em Portugal por o ordenado oferecido ser, como é sabido, uma miséria. Um homem com aquele desproporcionado número de filhos ver-se-ia aflito para chegar ao fim do mês. De resto, mesmo que em filigrana, isso perpassa no mesmo referido documentário.

A segunda questão que um honesto leitor de Sena deve referir é a sistemática (e não provada) acusação de Sena ser uma espécie de proscrito face aos “aparelhos” culturais do Portugal do Estado Novo. Cita-se a propósito o pequeno e dessorado universo situacionista e a chamada “esquerda”, “dominada” pelo PCP. Conviria lembrar que Sena era cunhado (e amigo, ao que sei) de Óscar Lopes, um dos mais importantes intelectuais comunistas que seguramente o defenderia de alguma conspiração estalinista; que se dava e correspondia com um impressionante número de intelectuais de esquerda; que colaborou activamente em revistas e publicações de esquerda; que traduziu muitos livros para editoras conotadas com a “oposição”. Contra isto parece risível e tonta a acusação de ser um maldito para a esquerda. Quanto à gente do regime, esclareça-se que o facto de não ter ali aceitação explícita não era coisa que afugentasse leitores interessados. E mesmo no reduzido número de escritores conservadores havia quem  o considerasse. Sena participou nalgumas aventuras editoriais de gente não comunista ou sequer progressista (Cadernos de Poesia, por exemplo).

Parece, pois, possível afastar a ideia de conspiração política contra o autor de “Peregrinatio ad loca infecta”. O “anti-senismo”, a ter existido, terá outras causas.

Entre elas, há quem cite, a “independência” de Sena, a sua “irreverência” perante  os estabelecidos na praça das letras. É possível mas não provável. Escritores reconhecidamente irreverentes e independentes houve-os sempre em Portugal e os anos 50, 60 e 70 não constituíram excepção. Aliás, passar uma certidão de “dependência” a uma boa parte dos escritores em actividade nesses anos é pura má fé que, também, não tem base de qualquer espécie. Cardoso Pires, Cesariny, O’Neil, Urbano. Abelaira, Redol, Hélder, Pacheco, Gomes Ferreira, eram acaso dependentes, reverentes e obrigados? Cochofel, Sofia, Cinatti, com quem Sena se correspondias, sê-lo-iam? Francamente...

Há em Portugal um hábito miserável: para levantar alguém tem de se dizer mal de outrem. Sena tem vindo a ser vítima disso. Foi, aliás, vítima disso ainda em vida e, eventualmente, ter-se-á sentido confortável nesse papel. Eventualmente, repito. Inconscientemente ?

No mesmo documentário, má obra, péssima obra, pelo menos para este leitor de Sena, fala-se de um atribulado processo de prémio em que Sena terá visto as suas “andanças do Demónio” ser preteridas pela “A gata e a fábula” de Fernanda Botelho.  A propósito disso, um Saramago, pouco inspirado, teceu considerações infelizes sobre os méritos relativos dos dois escritores. Ao que dizem, o júri terá preferido um romance a um conjunto de contos. A ser assim, cai a acusação. Mesmo se, em edições anteriores, o prémio tenha contemplado livros de contos. Mais uma vez, já cá não anda ninguém que se possa defender da acusação de, neste caso, perseguir Sena. É o mal deste género de documentos: à falta de contraditório, passa tudo: verdades, meias verdades e mentiras.

Que Sena era orgulhoso quase até à arrogância não merece dúvidas. Basta lê-lo em poemas e, sobretudo, na volumosa correspondência que tem saído a público. Que tinha uma alta ideia de si, também não. Em certo momento ajudei Rui Feijó a preparar uma edição da correspondência de Sena com Cochofel. Ambos nos admirámos do cuidado com que Sena guardava cópia dos mais pequenos postais que, a partir dos seus 17 ou 18 anos enviou a Cochofel. Como se tivesse já uma clara ideia da eventual importância desses documentos e os pensasse escritos para um futuro longínquo. Nada disto é pecado mas dá, penso, uma ideia, da representação que se de si próprio fazia. Nesse volume (que não saiu pela mão de Feijó por razões que não recordo) havia também, e muito posteriores, várias considerações sobre temas de literatura portuguesa constantes de artigos encomendados por Cochofel para um Dicionário de Literatura em parte editado. Nelas constam notas e criticas acerbas a adversários literatos que defendiam, mormente sobre Camões, opiniões muito distantes das de Sena. Convém dizer que, quanto a isto, Sena é polémico mas extremamente interessante. Mesmo que se não concorde com as suas teorias camonianas há que referir que, sem ele, os estudos camonianos actuais seriam muito menos exaltantes.

Do documentário (na escassa parte que vi) não me pareceu constar uma desagradável faceta do enorme poeta que Sena foi e é: refiro-me a um volume publicado postumamente (por expresso desejo do autor, ao que sei) e que, sob o nome descolorido e pouco amável de “Dedicácias” Sena trava um último combate contra adversários que já não poderão responder-lhe, ou cuja resposta ele já não lerá. Além de serem desinspirados são grosseiros e passavelmente injustos. Os leitores de Sena obviamente não lerão ou não levarão a sério estas verrinas póstumas que só diminuem quem as escreveu.

E os defensores à outrance de um Sena gigantesco e ultrajado pelos contemporâneos deveriam pensar nelas e talvez perceber a razão de algumas quezílias literárias, e não só, que poderão afectar o retrato justo a que o poeta tinha direito.