Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

04
Dez17

estes dias que passam 363

d'oliveira

images.jpeg

 

Também tu, mcr?

 mcr 2 e 4 de Dezembro

Também, leitoras e leitores amigos mesmo se escassos. A minha vontade, confesso-o já, era passar ao lado, assobiar uma modinha e fingir que estava distraído. Mas isso, convenhamos, é impossível. Há mortes que fazem um tal arruído (escrevi arruído, à moda de Fernão Lopes) que não há escapatória possível.

No meu caso, por várias razões sendo que a principal é o facto de ser leitor do “Público”. Leitor desde o primeiro dia com a mesma devoção que me liga a “Le Monde” e a “L’Express”, publicações que compro e leio desde os inícios dos anos 60. Os tempos eram outros, é verdade, mas foi com esses órgãos de imprensa que me formei. Em plena guerra da Argélia, é bom recordar. Numa altura em que era difícil discordar do governo da França e apontar o dedo contra a persistência de mitos como o da pátria indivisível. Hoje qualquer deles mostra cicatrizes e diferenças. Como o Público, claro. Todavia, o caminho do jornalismo livre e independente é mesmo assim. Mudam os tempos, mudam as causas mas não o espírito “frondeur” que, provavelmente amortecido, ainda mantemos mesmo com o passar dos anos, a experiência, as ilusões desfeitas, a “áspera verdade” (Danton) e o inevitável balanço que qualquer um de nós tem (deve) de fazer sob pena de ignorando-o se transformar no papagaio de Long John Silver.

Deixemos, porém, a “Ilha do Tesouro” e passemos à morte do moderno fazedor de tesouros que hoje irá a enterrar: Belmiro de Azevedo, o homem da Sonae, da Optimus, do Público. Morre carregado de um coro de elogios vindos das mais diversas personalidades muitas das quais ele, com algum humor, outro tanto de sarcasmo e muita malícia, foi alfinetando. Bastaria o exemplo de Marcelo Rebelo de Sousa de quem BA disse o que Mafoma não se atreveu a dizer sobre o toucinho. O mais interessante da farpa “belmiriana” é ela acertar em muitos dos pontos fracos de MRS que do comentário do empresário sai muito mal ferido, as mais das vezes com inteira justiça.

Eu nunca falei com a personagem que, de resto, não me fascinava especialmente. Não que não lhe admirasse a habilidade e o gosto pelo risco ou o facto de, ao contrário da grande maioria dos seus colegas, ter criado na Sonae e nos restantes universos empresariais que criou uma verdadeira “cultura de empresa” que, desde cedo, foi claramente visível. Desafiou os poderes do Estado e nem o PREC o conseguiu dobrar. Foi, nessa altura, defendido pelos seus empregados e colaboradores que, como ontem alguém referia, chegaram a fazer uma “greve ao contrário” contra os apetites perigosos de um “Estado” inimigo da iniciativa privada e ignorante do que uma empresa moderna era. As batalhas que perdeu, e o caso da PT é exemplar, perdeu-as na secretaria por batota governamental. A história é o que é mas apetece pensar no que a PT seria gerida por Belmiro. Pior não estaria e é mesmo altamente provável que estivesse muito, mas muito melhor.

Já escrevi que nunca o conheci (nem fiz por isso, aliás). Limitei-me a avistá-lo muitas manhãs de sábado ou domingo a caminhar pelo Molhe metido num vulgar (aliás feio) fato de treino. O homem que passava não parecia rico nem pretendia parece-lo. De certo modo, até essa simplicidade sabe a virtude.

De todo o modo, devo-lhe o “Público”, um jornal que leio desde o primeiro dia e que é uma excepção no panorama jornalístico nacional. Zango-me com o jornal duas ou três vezes por mês mas sei que isso só melhora a relação leitor-jornal. É são discordar. É são irritar-me com certas opiniões ou editoriais. Mas esse é o preço que gostosamente pago diariamente para ter uma informação decente, equilibrada.

Belmiro de Azevedo nunca terá ganho dinheiro com o “Público”. Consta mesmo, que até o perdeu. Aliás, tenho uma prova viva disso. Fui, há largos anos, convidado para colaborar regularmente com uma coluna semanal (ou quinzenal já não recordo). O convite foi aliás repetido durante uns tempos mas tempos de austeridade posteriores deixaram-no sem efeito. Graças a isso, juntei um quarteirão de crónicas que mais tarde com mais alguns acrescentos publiquei em livro. Sem o convite do Público nunca as teria escrito e, provavelmente, nunca teria tido a oportunidade de corresponder ao convite para vir a integrar a equipa deste blog onde escrevo de forma regular há mais de dez anos. Foi bom, foi mau? Só os meus leitores e leitoras poderão responder. A mim dá-me gozo e Belmiro de Azevedo com o seu gesto de criar um jornal (ou de o pagar incondicionalmente) deu-me a coragem para estar aqui a crocitar constantemente contra o estado a que isto chegou.

Para terminar: fala-se muito na coragem de Belmiro em criticar sem receio o poder político. Convenhamos: o homem tinha poder suficiente para o fazer sem temer retaliação. Em vez de coragem, prefiro pensar que ele era profundamente independente dos pequenos potentados que por aí pululam. Mas a independência também tem os seus custos e a PT ou o BPA são disso inequívocos sinais. E isso não é pouco, bem pelo contrário.

R.I.P.

PS: morreu Zé Pedro, guitarrista do Xutos e Pontapés. Não era a minha música, pouco o ouvi mas que ele marcou, e muito, a música ligeira portuguesa, não há dúvidas. E pelo que vi na TV de entrevistas dele, havia ali, um lado luminoso e digno de estar na música e na vida. Só isso já faz uma personalidade.

R.I.P.

 

* razões de pura preguiça atrazaram este post escrito no quente dos acontecimentos. Estive para não o publicar mas o que lá digo diz-se em qualquer momento. Sai hoje sem modificar uma única letra. Preguiça e teimosia e, provavelmente, muita pretensão, são as minhas coordenadas e um pouco o meu compromisso.

23
Nov17

Au bonheur des dames 437

d'oliveira

Unknown.jpeg

 

Santana, regressa que estás perdoado...

mcr em 22.11.17

 

Quando o inestimável dr. Santana era Secretário de Estado da Cultura teve, entre muitas, uma ideia brilhante: deslocalizar a sede da Delegação Regional do Norte da Secretaria de Estado da Cultura. Do Porto onde estava instalada num belo palacete e onde está inserida a Casa das Artes, exilou-a para um cave em Vila Real, cidade como se sabe muito central para quem viva em Chaves. E, a partir daí, foi o que se viu. Da DRN nem novas nem mandados. Dos funcionários, cerca de 20, alguns mudaram-se para outros organismos e os restantes foram para casa onde todos os meses e ao longo de muitos e muitos anos chegava o ordenado.

Pela parte que me toca (relembro que era, na altura, Delegado Regional) demiti-me e fui procurar ser útil na Segurança Social, onde já estivera. E aí permaneci até à reforma. Tentei, baldadamente, convencer os governos socialistas (a partir de Guterres) da necessidade e da utilidade de “reverter” a tola medida de Santana. Nada! Foi preciso aparecer o governo Passos Coelho para o Delegado (agora Director) Regional aparecer definitivamente no Porto. Desconheço se na cave de Vila Real ainda vegeta algum serviço descentrado ou se, de uma vez por todas, se acabou com aquela fantasia imbecil.

Elos vistos, o dr. Costa entendeu agora refazer o percurso errático de Santana e transferir sem dizer “água vai” o INFARMED para o Porto.

Nem funcionários (quase quatrocentos!) nem a direcção sabiam da empreitada. A Câmara do Porto, ao que consta, ficou surpreendida pela benesse governamental. Num primeiro momento, Rui Moreira, um homem reconhecidamente inteligente, engasgou-se e falou de “ressabiamentos”. Não sei se se referia a trezentos funcionários e centenas de familiares que, de súbito, viam a sua vida ameaçada. Sei que apenas vinte funcionários aceitavam ir para o Porto. Os outros trezentos e tal devem ser os “ressabiados”...

Desconheço as “razões” do bodo que Costa quer oferecer ao Porto e, sobretudo, julgo que não poderá transferir ninguém contra vontade visto que a distância mais que decuplica aquela que se considera aceitável para forçar uma mudança de local de trabalho.

Assim sendo, temos que o Governo parece querer aumentar em mais de três centenas o número de funcionários públicos ou num regime semelhante e de efeitos semelhantes. De facto, não vindo os trabalhadores actuais do Infarmed para o Porto, haverá que recrutar outros in loco. E prepará-los, ensiná-los e garantir que serão, no mínimo tão eficazes quanto os que ficaram em Lisboa.

Claro que os “ressabiados” poderão ser alvo de chantagens várias, coisa que também não é de todo desconhecida na função pública. Sugestão aqui, ameaça acolá e a barca vai andando aos bordos sempre perto do naufrágio.

Uma das coisa que mais me espanta (ou nem isso, que eu já conheço as linhas com que um cidadão precavido se cose) é a falta de declarações sindicais ou de partidos ditos “amigos dos trabalhadores”. Nada! (pelo menos até hoje quinta feira).

E, já agora, tentemos perceber o que é que se passa na cabeça dos governantes. Quererão, bondosamente, compensar o Porto pela “perda” da Agência Europeia do Medicamento? Mas será que alguma vez alguma dessas fosforescentes criaturas governamentais sequer sonhou em ganhar a AEM? Desconheceriam (tudo é possível sobretudo para as risíveis mediocridades que trataram do dossier e informavam –intoxicavam – os media nacionais) que só por milagre da Rainha Santa, dos pastorinhos e do beato Nuno (todos juntos mais a “santinha da Ladeira” e a Senhora de Fátima) é que seria possível escolher o Porto?

Num país desvairado pelos fogos, pelo turismo que foge a sete pés do Mediterrâneo perigoso (e de Barcelona que registou este mês menos quarenta (40%) por cento de entradas de turistas e pela obra “intangível” (cfr. Cunha Leal) da geringonça, tudo é possível mas isto (a vinda da AEM) roçava as raias do delírio. O Porto pode ser muito giro para dois dias de trânsito turístico mas só por dois dias. É verdade que tem o dobro dos dias de sol de Amsterdão, metade do custo de vida de Milão e infinitamente menos racismo do que Bratislava. E que há mar menos poluído do que o Báltico ou o mar do Norte, um clima mais ameno do que noutras cidades concorrentes. Todavia, em termos europeus, é, definitivamente, uma cidade periférica. Tanto ou mais que uma romena ou finlandesa Que justamente também não abicharam nada.

Aliás, os funcionários da AEM já tinham manifestado a sua má vontade em vir para Portugal. Tanto ou mais quanto em relação a Bratislava.

O Porto ficou num “honroso” sétimo lugar, ao que sei. Eu, nestas coisas, sou muito pão, pão, queijo, queijo. Só um lugar interessa: o primeiro. O resto é lirismo nacionalista para entreter ingénuos.

Aliás, suponho, que no Porto ninguém acreditava neste milagre das rosas moderno. Por junto, as pessoas, usavam o mesmo raciocínio de quem aposta no euro-milhões: sem nos habilitarmos é que não vem prémio algum. E no dia seguinte, no quiosque do costume, compra-se o jornal e volta-se a preencher o papelinho. Não ficamos mais pobres mas, contra milhões de probabilidades, podemos ficar mais ricos. E durante dois dias gozamos que nem cabindas a pensar no que faríamos aquela dinheirama toda.

Voltando, porém, à vaca fria, quem por estes momentos andará por aí preocupado, angustiado, aflito ou indignado é o lote de funcionários do Infarmed que, como prenda no sapatinho, se vê estúpida e desnecessariamente (e ilegalmente) ameaçado pelo Governo.

O dr. Santana Lopes deve estar a babar-se: afinal as suas tolas mudanças de sede de organismos da ex-SEC estão justificadas. Convirá preveni-lo que uma burrice não apaga outra burrice. Apenas aumenta a primeira. Ouviu, dr. Costa?

 

*A Ilustração não pretende chamar seja o que for aos senhores Santana e Costa. Quanto mais não seja porque, os burros não são, como se poderia pensar, estúpidos. Bem pelo contrário são animais bem mais interessantes do que muitos humanos que por cá peroram e se mexem. 

13
Nov17

Estes dias que passam 346

mcr

images.jpeg

 

O “jornalismo” de referência de vez em quando descarrila

 

Sou um empedernido leitor de jornais. Sempre fui, parece-me. Mantenho com elas uma relação de fidelidade quase canina. Com “Le Monde” a relação tem 55 anos. O mesmo com “L’Express” mesmo se, ao longo destes anos, a revista tenha mudado muito, demasiadamente. Durante muitos anos fui um fiel leitor do “Diário de Lisboa”, um vespertino de que me saparei algum tempo depois do 25 A.

Quando o “Público” apareceu (vai para quase trinta anos) despedi-me sem saudades do JN e nunca mais comprei outro jornal diário (português). Volta e meia, irrito-me mas, genericamente (como no caso do “Le Monde”, “El País”, “La Republica”), não desisto.

Todavia, há dias em que me zango. E hoje é um deles. Desde há muito que no “Público” há uma secção chamada “espaço público” que normalmente acompanha o editorial. A coisa funciona assim. Alguém, os redactores, suponho, dão setas verdes ou vermelhas a pequenas notícias. Algo semelhante aos “altos e baixos” do Expresso. Hoje, segunda feira, havia duas notíciasa verde uma nem sim nem sopas e uma a vermelho. É sobre esta que quero escrever: o sr Rajoy foi à Catalunha apoiar o PP local e num comício pediu o voto da maioria silenciosa para “recuperar a região do caos do separatismo”.

O redactor notador achou isto péssimo, mesmo se não saibamos se é a frase em si (dentro de comas), a recuperação (perfeitamente alcançável dado o que sabemos) ou a referencia ao caos do separatismo.

Vejamos

A frase é perfeitamente plausível num político conservador ou até num político qualquer desde que não seja a favor do separatismo.

Que Rajoy apele a essa maioria (que raramente vota e que, segundo consta, é contra a independência) é absolutamente normal e se seta vermelha houvesse seria devido a não pedir esse voto.

Que a Catalunha enfrenta grandes dificuldades futuras ninguém duvida. Fugiram, até sábado passado, 2700 empresas. Pelo menos metade (aliás um pouco mais) dos votantes nas últimas legislativas é anti independentista e já se tem manifestado com uma força semelhante às manifestações independentistas. Que uma “república catalã” ficaria absolutamente isolada na Europa (ou na Europa da UE) é, até à data, uma clara certeza. Que os cidadãos catalães ficariam fora do euro, de Schengen, idem. Que o principal mercado catalão (a Espanha) pode fugir, boicotar, diminuir é outra verdade de La Palisse. Que isso criará dificuldades enormes e protestos identicamente fortes é uma evidência. Que o primeiro ministro de Espanha não queira uma situação deste género nem merece discussão.

Portanto, pergunta-se à criatura que assina RS onde é que ela vê razão para uma seta vermelha.

Claro que RS pode não gostar de Rajoy. Pode detestar o PP e os conservadores onde quer que seja. Pode ter um profundo amor pela “causa catalã”, pelo senhor Puigdemont, pela senhora Forcadell, pela CUP. Pode detestar medonhamente a Espanha, a União Europeia, o euro e sei lá o que mais.

Todavia, para isso, só tem de pegar na caneta e escrever um artigo de opinião. Se a tem. Se é capaz de falar do assunto com um mínimo de conhecimento e, já agora, de qualidade. Não pode, ou não deve, fingir que a sua seta tem razão de ser numa notícia de dez escassas linhas. A menos que ache que Rajoy é um fascista encapotado que, de faca nos dentes, está a invadir a Catalunha para sufocar pela força das armas o que alguma lei (qual) direitos ofendidos e legítimos.

Já por aqui falei dos padeirinhos de Aljubarrota espécie indígena que traz nos meigos coraçõezinhos a lembrança imperecível dos batalhadores da época joanina, dos restauradores de 40 e a cólera pelo roubo de Olivença. Não suporta “castelhanos”? Pois que não vá ao “El corte Inglês”, que não compre na “Maximo Dutti”, na “Zara” que não tenha conta no Santander Totta ou no Millenium (hoje de “La Caixa”, empresa que logo no primeiro dia abandonou a Catalunha). Que indague cuidadosamente se as laranjas ou as cenouras ou as cebolas que compra no supermercado vêm ou não do odiado país. E cuidado com o peixe que vem de Espanha às toneladas. E com os camarões congelados, os carabineiros sem falar do bacalhau (há três ou quatro grandes marcas espanholas a impingir-nos o bacalhau deles. O mesmo se passa com o atum. O melho seria mesmo fazer uma campanha contra os milhões de turistas espanhóis que invadem o país nas datas festivas (brevemente cairão por cá durante o feriado da proclamação da Constituição). Coño, RS, a por ellos!

E "visca Catalunya liura"...

09
Nov17

Au bonheur des dames 436

mcr

images.jpeg

 

O menino Jesus chegou antes do Natal e chama-se Nuno Maria

 

É como se fora do meu sangue. A minha enteada Ana (com a ajuda do marido Nuno) presenteou-nos a mim e à CG com um menino são como um pêro que dorme a sono solto.

A CG flutua a uns bons vinte centímetros do chão e continua a tricotar furiosamente roupinhas para o bébé que não vai conseguir usar todo o enxoval que já tem. É o costume, claro.

Ontem, dia do nascimento, logo de manhã já me pediam notícias do viajante pois sabia-se que a coisa estava a rebentar.

Os pais do infante comunicaram à babada futura avó que o internamento seria ontem, que se seguiriam análises e exames e que, depois, o médico diria quando é que o parto teria lugar.

Era uma piedosa mentira destinada aos familiares (quatro avós maternos e uma avó paterna), bisavós e demais antepassados variados, amigos e colegas.

Pessoalmente, eu tinha uma vaga desconfiança de que as coisas se passariam mais depressa: Já por alturas da licenciatura, a Ana nada dissera e deu-me o prazer (e a honra) de ser o primeiro a saber logo que o último exame terminou. Na altura, explicou-me que queria evitar a choradeira da mãe, o nervosismo do pai. Por isso, eu estava em alerta mínimo e tranquilo. Quando a CG me deu a notícia, ouvia-a impávido.

Depois começou o bailinho da Madeira: a CG a alertar (a amotinar) amigas, parentes e demais povo. Os alertados respondiam com salvas de perguntas, guinchavam metaforicamente pelos novos meios de comunicaçãoo. O meu sábio irmão, médico de profissão, pai e avó endurecido, ligou-me a perguntar se já havia novidades. A cunhada dele, ao lado perguntou se o menino era bonito.

“Ó Maria Manuel, então isso pergunta-se?”

Respondi-lhe que estava em frente do alucinado pai (que andava com dores de parta há umas boas semanas) e que medindo quase dois metros, calçando 48 biqueira larga, me poderia agredir no caso de eu dizer qualquer coisa menos simples do que afirmar que a criaturinha era maravilhosa.

Com este subterfúgio escapei ao nariz de cera habitual e cortei cerce qualquer pedido para dizer com quem a criança era parecida.

Os bébés, à nascença, parecem-se com outros bébés, ponto, parágrafo.

A minha excelente Mãe já se tinha adiantado com um cheque simpático para o menino começar a ter conta no banco. Em troca exigiu uma fotografia verdadeira, em papel como deve ser, nada dessas mariquices no telefone. A Old Lady tem cataratas e quer ver com olhos (os dela) de ver. Pede pouco mas bom. Uma fotografia que o caixilho há-de me encarregar de comprar. Como de costume.

“E coisa boa, nada dessas quinquilharias tão na moda!” É para já Senhora, minha Mãe: vou num pé e venho noutro!  

Os filhos e netos, nossos ou dos nossos parentes e amigos,  são,  sempre, um milagre.

Por junto, hoje, mandei um mail à Zé Albarran explicando que o menino se parece com a avó porque dormia com a boca aberta. Enquanto estive no quarto da parturiente não se dignou abrir o olho e dormiu regaladamente. Isto de nascer cansa, está visto.

Que cresça bem, rodeado de amor e carinho e que o mundo a que chega seja melhor do que aquele a que cheguei num longínquo Novembro de 41.

Agora, cá o espero para o ensinar a jogar bilhar, ouvir muito jazz e alguma ópera, provar uns patés decentes e passear com este imprestável avô até ao café ao pé do jardim. E para o que mais for preciso.

09
Nov17

Au bonheur des dames 435

mcr

images.jpeg

 

Da Galiza para Portugal

(em memória de Luís Seoane e para Xesus Alonso Monteiro com profunda admiração)

 

A Galiza tem uma área que é cerca de um terço da de Portugal. Essencialmente é uma região montanhosa com profundas rias por vezes rodeadas de vales não demasiadamente extensos. Com excepção da Guardia e da Corunha as principais cidades estão relativamente afastadas do mar mesmo se este é a origem da maior riqueza galega: o peixe e os mariscos. Além da vinha, a floresta é outra das riquezas da região. Foi esta floresta que sofreu em Outubro passado incêndios violentíssimos que devastaram 50.000 hectares, mataram quatro pessoas e fizeram 2400 desalojados.

Uma semana depois da calamidade, a Junta da Galiza começou a tomar medidas. Assim foram logo fixadas as indemnizações para quem perdeu casa (quer a primeira habitação quer a segunda respectivamente de cem mil e quarenta mil euros. Num conjunto de 30 pontos rapidamente aprovados (passa agora um mês sobre os fogos) foram decretadas e começaram a ser executadas medidas contra a ocorrência de novos fogos, indemnizações aos empresários, reconstrução de estruturas agrícolas (currais, redis, armazéns, silos). Estipularam-se novos perímetros de defesa contra fogos, de limpeza da floresta, de posse administrativa de terras sem proprietário conhecido, de fiscalização florestal, de novos meios de combate a incêndios.

E começaram já os cortes de árvores ardidas!

Também já estão a ser pagas as indemnizações por morte de pessoas (75.000 euros).

A Galiza é “apenas” uma região autónoma espanhola sem ter sequer poderes tão latos quanto outras. Não é rica senão de gente abnegada, generosa, risonha apesar da “morriña”, que fala o velho galego dos “labregos e marinheiros” e se entende às mil maravilhas com os trezentos mil portugueses que a invadem no Verão e com os restantes espanhóis que lhe procuram as praias e a belíssima gastronomia. Nunca vi (e eu sou um habitué da Galiza, das suas livrarias, dos seus pequenos restaurantes, de Vigo, de Pontevedra, de Santiago) um local deixar sem resposta outro espanhol que não sabe galego. Nunca!

Entre o período visigótico e a ascensão do reino de Leão, a Galiza constituiu um breve reino que pouco durou. Ou melhor: o reino centrou-se em Leão e as terras galegas (como as do norte de Portugal) eram feudatárias dessa entidade política. Depois, o reino desapareceu. Afonso Henriques, já livre do suserano leonês, tentou por duas ou três vezes conquistar territórios galegos com incursões entre Tui, A Guarda e Vigo mas foram apenas pequenos triunfos sem consequências. O Minho impôs-se como fronteira até hoje.

Durante a curta República (a 2ª) a Galiza dotou-se de certa autonomia, como o País Basco e a Catalunha (que entretanto não se podiam gabar dos mesmos antecedentes históricos...) mas a “cruzada” franquista rapidamente liquidou as aspirações galegas. Durante a guerra civil, e mesmo depois, ainda havia pequenos focos de guerrilha no “monte” havendo mesmo na raia muitos portugueses que acolheram os prófugos galegos. Em 1950, nada restava desse pequeno grupo. Nos finais do franquismo, apareceu a UPG e houve pequenas acções armadas de escassa importância. Com a democracia, a UPG constituiu um bloco independentista mas a tendência, depois de um apogeu no fim dos anos oitenta, decresceu significativamente enquanto o Partido Popular ia aumentando significativamente a sua influência. Até hoje. O governo Feijoo tem maioria absoluta na região e tudo indica que assim continuará.

Do ponto de vista cultural, a Televisão Galega é seguida (até em Portugal), há algumas editoras de livros em galego (curiosamente, muitas delas dedicadas à produção literária galaico –portuguesa com belíssimas antologias indispensáveis para quem queira saber da nossa comum origem literária). Editam-se, com tiragens decentes, alguns escritores galegos desde a eterna Rosalia deCastro até Manuel Rivas passando pelos incontornáveis Castelao, Cunqueiro, Celso Emílio Ferreiro e, pasme-se!, Rodrigues Lapa, insigne filólogo português respeitadíssimo no Além-Minho.

Curiosamente, alguns dos grandes escritores galegos do sec XIX ou do XX, escreveram sempre em espanhol e em alguns casos recusaram a tradução das suas obras para o galego. Tinham, de resto, uma excelente razão: parte do encanto da língua que usaram tinha galeguismos em profusão e isso dá(va) um encanto especial à narração (falo de Camilo José Cela, Torrente Ballester e do extraordinário Ramón del Valle Inclan, autores que não me canso de reler.)

Os leitores que me desculpem. Eu ia só falar da rapidez, da eficácia, da generosa solidariedade dos governantes galegos e comparar a atitude deles com o que por cá se passa.

Uma catástrofe obriga a medidas extraordinárias. E a medidas rápidas. Há demasiado sofrimento, demasiadas vítimas e nenhum tempo a perder. Os galegos, bem mais pobres do que nós, mais emigrantes do que nós (a maior cidade galega é Buenos Aires...) deram, neste capítulo, uma lição às nossas elites governantes. Aliás, já tinham, ao contrário de nós, tirado a devida lição dos grandes fogos (o último a que assisti foi em 2006), criando um comando único de ataque ao fogo (prevenção e combate), profissionalizando os corpos de bombeiros retirando grande parte das competências aos chamados “voluntários” que podem ser generosos e heroicos, mas não são suficientemente profissionais e eficazes.

(um jornal de hoje relata em página inteira como o ex-Secretário de Estado Jorge Gomes recusou o recrutamento de 40 novos bombeiros para a Força Especial de Bombeiros com o argumento de que ainda não estava concluída a regulamentação do Estatuto da FEB. A proposta vinha do presidente da ANPC, Joaquim Leitão e pretendia colmatar falhas ainda durante a futura “fase Bravo”. Não irei ao ponto de dizer que a falta destes quarenta homens em Pedrógão levou à morte de dezenas de pessoas. A história não se inventa nem se reescreve. Todavia, a falta deles não só não ajudou como seguramente prejudicou o combate aos fogos.

Este país adora perder-seem burocracias enquanto a barca do Estado mete água e vai lentamente soçobrando em evitáveis naufrágios.

Por uma vez, imitem os galegos. Ou vão até lá aprender. É perto e há bom marisco, vinho albariño e uma gentileza fraternal. E entendem-nos e não nos pedem para falar galego!

 

 

02
Nov17

Estes dias que passam 345

mcr

1467842950800_villapisani.jpg

O regresso do presidente

ou o não regresso

ou...

 

Parece que o senhor Puigdemont volta à “pátria” desalmada, depois de não ver Bruxelas em festa com a sua fulgurante presença (e nem refiro os seus consellers igualmente em trânsito pela capital belga). A conferência de imprensa, não obstante ser dada em três línguas (não me pareceu ouvir catalão, provavelmente porque ninguém perceberia) foi de uma pobreza dramática. Eu não sei se o sr. Puigdemont se apercebeu do ridículo da sua posição, da inabilidade da sua fuga precipitada, da impossibilidade (legal, teórica, política e ética) de alguém lhe conceder asilo político.

Também não consigo entender como é que alguém se lembra de desandar para paisagens mais amenas e deixar para trás cinco companheiros de Govern, para não falar em milhares de cidadãos desamparados, desesperados e (eventualmente) envergonhados com a deserção do chefe.

A menos que.... a menos que o pobre Carles quisesse fazer um frete a Rajov. Este, se bem conheço o galego, deve ter esfregado as mãos de contente. Um “sedicioso” em fuga confessa todos os crimes mesmo os que não ocorreram.

.................................

Estava eu entretido com outras coisas, sem terminar o texto que acima se lê, quando afinal verifico que o fugaz fugitivo não voltava à “terra liura” porque tanto suspirava. À terá onde, em conferência de imprensa, jurou voltar. Em duas ou três horas mudou mais uma vez, e como é seu costume, de opinião. Puigdemont não só erra a cada momento como é errático. Com esta (sei lá se derradeira) posição complica a vida dos seus companheiros. Dos que ficaram e dos três que, tendo-o acompanhado, entenderam vir defender-se em Madrid. Dar a cara. Ter a coragem das suas opiniões e convicções, mesmo se delas se discorde. Carles, o insubmisso inconstante, ficou no quentinho de Bruxelas, amparado por um advogado flamengo que já se distinguira por defender os pistoleiros da ETA. Está, pois, em boa companhia mesmo se qualquer pessoa dotada de senso duvide que ele, Puigdemont seja capaz de brandir uma pistola mesmo contra um adversário desarmado. Carles é tímido, para não dizer que é um cobardolas até dizer basta.

Afirma ele, pelo advogado dos mafiosos, que não confia na Justiça espanhola que, porém, inspira todos os restantes -e são uma boa dúzia- de dirigentes independentistas. A menos que os anime uma fé de mártires (sempre convenientes para uma causa nada e criada na boa burguesia catalã), eles esperam poder enfrentar a juíza que os vai ouvir hoje sem grande sobressalto. Todavia, e é aí que bate o ponto, a fuga de Puigdemont e de três ou quatro ex-consellers, basta, segundo juristas de várias tendências (incluindo no lote catalães), para se ordenar a prisão preventiva por receio de fuga. Aqui temos um belo exemplo da solidariedade do ex-President e do desnorte que campeia no bando nacionalista. Isto, esta caótica e insensata retirada do campo (incruento) de batalha, permite ver mais claro como a campanha independentista foi, como se alimentou de mentiras (Junqueras garantia mesmo depois da saída da “Caixa” que aquilo era mero folclore e que tudo regressaria à normalidade depois da declaração de independência), de obsessivos erros continuados (uma Catalunha independente da Espanha não teria nunca lugar na União Europeia, não exportaria os seus produtos com a actual liberdade, não conseguiria para os seus cidadãos a livre circulação na União, perderia seguramente grande parte do seu mercado exportador (que é, lembremos, intra-espanhol) não conseguiria para os seus habitantes um mirífico estatuto de dupla nacionalidade (como se anunciava) para não falar nos entraves que uma Espanha ferida poderia criar-lhe na fronteira (que é duas vezes maior do que a francesa). É duvidoso que conseguisse voos que sobrevoassem o espaço aéreo espanhol para o seu aeroporto e arriscava que as empresas estrangeiras até agora sedeadas em território catalão continuassem lá, sobretudo as que exportam (industria automóvel por exemplo). A propaganda independentista baseava toda a sua propaganda na aceitação cordial, simpática, construtiva do negregado “Estado espanhol”, sobretudo deste Estado ora governado pelo Partido Popular.

À margem: leiam o programa do partido de Puifdemont ou da Esquerra Republicana e tentem vislumbrar na sua filosofia intrínseca e nos princípios para que apelam, diferenças substanciais com o programa do PP.

Ainda mais à margem: uma gloriosa mas escassíssima minoria de entusiastas portugueses (os padeirinhos de Aljubarrota) sentiram-se profundamente irmanados com o agrupamento CUP que, numa região eminentemente burguesa e intrinsecamente capitalista por convicção e tradição, propõem sair da Europa, do euro e mergulhar nas delícias de uma espécie de via albanesa ou coreana( do norte, entenda-se).

Eu bem sei que estes lusitaninhos ardentes estão a dois passos de passar a colaboradores, ou aliados íntimos, do PS, de eventualmente, nele se integrarem. Vontade não lhes falta e muito menos descaramento mas que a coisa vem aí, ai vem, vem. Podem estar certos. O poder cheira deliciosamente a quem está à frente dele e não lhe toca. Ou como alguém já disse: o poder corrompe. Muito ou pouco, mas corrompe, desvaria, enlouquece.

31
Out17

Au bonheur des dames 434

mcr

images.jpeg

 

Carta a um aspirante a padeira de Aljubarrota

 

Ex.ª Senhora

Entendamo-nos: longe de mim tentar apouca-la, retirando-lhe algum eventual título universitário que possua. Mesmo que padeira seja uma profissão eminentemente útil, eventualmente mais útil e mais, muito mais, necessária que um quarteirão de licenciaturas ornamentais que as nossas universidades prodigam. De pão precisamos todos, se possível fresco, bem feito, bem tostado e com pouco sal.

Isto de padeira é apenas para lembrar a lendária Brites, padeira nos arredores da Aljubarrota que terá mandado ad patres sete castelhanos fugidos da curta mas definitiva batalha que garantiu o trono a João, Mestre de Avis contra João I, rei de Castela e marido de Beatriz, herdeira legítima de seu pai Fernando, o Formoso, ou melhor de Fernando o rei da lei das sesmarias, o reconstrutor da muralha do Porto e muitas outras fortalezas do Reino, enfim o marido apaixonado e cego de amor de uma intrigante mulher, inteligente e ambiciosa que conseguiu mal dispor o povo, os mercadores de Lisboa e alguma aristocracia.

Não há provas da valentia da gentil padeira nem da mortandade infligida aos invasores e ainda menos da história dos infelizes soldados terem sido atirados para o forno. Porém, a lenda ficou. Ficou como o milagre de Ourique (que um meu antepassado terá testemunhado) ou a bela, verdadeira e pungente história de Duarte de Almeida, o Decepado.

(Verifico neste momento que estou para aqui a gastar o meu latim com uma jovem (enfim uma senhora com metade da minha idade) que provavelmente teve nos seus anos de secundário uma passagem breve e descuidada pela História pátria. )

Já aqui, neste blog malicioso e inconveniente se referiu a padeira de Aljubarrota nomeando alguns entusiastas recentes da Catalunha liure (escrevi liure, que é catalão, língua em que me aguento) que, ao arrepio da história recente ou pregressa, amam desmesuradamente aquela terra, Gaudi e a “botifarra” enquanto abominam medonhamente Castela e a sua natural extensão a Espanha. É o nacionalismo português em toda a sua empáfia, o nacionalismo “brigadeiro” citado por Eça (Eça, Ex.ª Senhora é um escritor do século XIX), a afirmação bem lusitana da nossa pertinaz liberdade republicana.

Note que, V.ª Ex.ª não é única: no ridente torrão de açúcar não faltam os inimigos de Castela que ainda não perceberam que, depois dos Reis Católicos (trata-se de um casal já antigo de que poderei fornecer biografia caso queira) deixou de existir tal reino e apareceram a Espanha, o Império etc... Normalmente, é gente conotada com os conservadores quem usa Castela mesmo sabendo (e eles sabem História) que o termo é redutor e inadequado. De todo o modo, há entre a lusa e fera gente um sólido horror ao vizinho, maior, mais próspero, mais conhecido, mais rico. Perpassa neste estremecimento de patriotismo desvelado a lembrança dos reis Filipes (I,II e III ou II,III e IV de Espanha) que depois da morte do aventureiro Sebastião, foram reis de Portugal (ou seja Portugal nunca foi anexado a Espanha mas permaneceu como reino independente mesmo se a sua sorte estivesse ligada à de Espanha e à mercê das guerras que esta travava com ingleses, holandeses, franceses). Terá sido, justamente a última guerra de independência (1640-1668) dita da Restauração, que desatou, por cá, um estremecido amor pela Catalunha. Corre por lá um pio convencimento de que os combates na Catalunha salvaram Portugal. Conviria lembrar que o teatro de guerra espanhol era bem maior do que a Catalunha e com adversários bem mais formidáveis. A Catalunha, de per si, nunca impediria uma intervenção militar em Portugal que, aliás, ocorreu e com alguns insucessos para as nossas armas até ulteriores vitórias, nossas e dos nossos aliados, e um tratado de paz celebrado em 1668.

Não fomos salvos pela Catalunha nem, aliás, esta região autonómica desempenhou em relação a Portugal qualquer papel de relevo. Aqui para nós, o que existe é um enorme desconhecimento que vai desde o não haver cem portugueses que consigam ler catalão até uma gigantesca massa de compatriotas que sabem tudo sobre o Barcelona FC, menos todavia do que os que sabem tudo sobre o Real Madrid onde pontifica o “melhor jogador do mundo”.

Passa-se, entre alguma esquerda portuguesa, quanto à Catalunha o mesmo que antes se passara quanto à Grécia. A mesma ignorância espessa e o mesmo arroubo que morre ao primeiro choque com a realidade. Tsipras já só é um fantasma, Varufakis uma ilusão e os dirigentes catalães agora em parte incerta (Molenbeeck, Bruxelas?) um par de heróis falidos e falhados de uma causa inexistente.

A “república catalã” durou, nesta fase, o tempo de um suspiro para não referir uma outra e menos agradável exalação corporal. Aquilo foi fogo de vista, uma acendalha claramente de Direita soprada por uma CUP dita de extrema Esquerda, baseada numa história de mentirolas repetidas até à exaustão e que condenavam cinco milhões de pessoas a uma existência pária numa Europa que os não recebe, os não aceita, os não compreende. A Catalunha que V., num artigo de opinião, exaltava nunca existiu historicamente, viveu sempre confortavelmente dentro de uma Espanha plural e, como diz uma expressão muito em uso nos meios catalães mais nédios mas a la mode, foi sempre uma “metrópole que queria libertar-se das suas colónias”. A resposta aos devaneios de um tonto Puigdmont ,de uma senhora Forcadell, de um cínico Junqueras, foi dada nas ruas e não serão os fascistóides flamengos da Bélgica quem amparará os escafedidos consellers ora em fuga.

Os dirigentes “independentistas” pensaram que, nas ruas, o povo se insurgiria, que a repressão criaria vítimas e emblemas sangrentos que, a posteriori, justificariam aquelas discursatas vãs, aquele caminho aventureiro percorrido nos últimos meses. A economia, realidade cruel, encarregou-se do primeiro aviso. Duas mil empresas transferiram as sedes para territórios mais seguros, destinatários dos seus produtos. Nem os bascos fizeram mais do que uma piscadela de olhos. Rajov não é, queiram eles ou não, um discípulo de Franco. De resto, vem da mesma família ideológica de Puigdemont, da Esquerra Republicana que de esquerra nada e de republicana só o nome (a última vez que se ouviu falar dessa gente foi para se ficar a saber que não gostavam de árabes, mormente emigrantes). Metade da Catalunha é constituída por 1ª ou 2ª geração de emigrantes galegos, estremenhos, andaluzes e outros espanhóis. Estes, trabalhadores modestos, na maior parte não estão interessados numa independência e numa república que não só os afasta das suas origens mas sobretudo ameaça os seus empregos . Por outro lado, outros catalães de pura cepa também não se reveem num país que se “enroca” e nada propõe que não seja um hino semi selvagem (Els segadors”), uma bandeira que deu as cores à de Espanha e um par de dirigentes que foge do eventual perigo mais depressa do que uma lebre assustadiça. E que deixa os seus cidadãos sós e desamparados, provando, assim, que apenas os considera como carne para canhão. O fugidio Puigdemont esperava que Rajov mandasse os tanques e que os independentistas que povoaram as ruas no sábado, embrulhados na senyera estellada se portassem como os checos diante do exército vermelho em Praga. E que alguém, se possível um jovem, se imolasse pelo fogo (foc). Azar! nem tanques nem gente nas ruas. Ou melhor umas centenas de milhares de cidadãos defendendo a unidade nacional, jurando que também eles são Catalunha e Espanha.

De há um par de dias, os enganados independentistas vagueiam pelas ruas azabumbados. O céu caiu-lhes em cima mas eles não são o chefe gaulês de Asterix. Quanto aos do Govern, os corajosos passeiam-se na Grand Place sob a proteção de um flamengo fascistóide para mostrarem à Europa quão europeu é o problema catalão.

Ex.ª Sr.ª, eu sei que o meigo coração de Vexa se arrebata por qualquer longínquo clarão no horizonte. Onde esvoaçou um bandeira vermelha e amarela com um estrela no canto, V terá visto, claramente visto, o lume vivo do heroico proletariado de Barcelona. E lembrou-se dos dias gloriosos da semana sangrenta quando o exército reprimiu duramente a revolta dos populares que se recusavam a ir para a guerra. Ou recordou os outros mais próximos da reacção popular e anarquista durante os inícios da guerra civil. Provavelmente, esqueceu que foi justamente em Barcelona, e um pouco por toda a Catalunha, que o “verdadeiro partido do operariado” esmagou na rua e depois nas “checas” o que restava de anarquistas e, sobretudo, os militantes do POUM. Perante a indiferença, aliás, da população que, à semelhança da burguesia quinta-colunista, aguardava a chegada das tropas franquistas que entraram na cidade sob aplausos e flores bem ao contrário da Madrid malvada que aguentou sozinha um cerco de anos. Mas isto é História antiga e V não se ocupa dessas peripécias. V ama ternamente Puigdemont, Junqueras e Forcadell e as bravatas soltadas num Parlament desertado pelas forças políticas constitucionalistas.

E, acaso, esperava, sonhava com uma Comuna de Paris traduzida em catalão. Enganou-se, Ex.ª Sr.ª a História só se traduz em calão e quando se repete a coisa torna-se uma farsa.

Está, pois, V.ª Ex.ª órfã, outra vez. Órfã política, órfã de causas, entenda-se. Terá de esperar pela próxima. A Escócia é pouco provável, na Itália, a Lombardia e o Veneto apenas querem maior autonomia, resta a Flandres que não anda nem desanda. No resto do mundo, há sempre a causa da Venezuela ou a da Coreia do Norte que a China já se declarou marxista-leninista-maoísta-capitalista e agora só aceita o pensamento inefável do seu actual presidente.

É chato.

“se corres sempre endins

de la nit del teu odi

............

el fuet i l’espasa

t’han de governar”

 

Deixo-a com uns versos de Espriu que seguramente saberá entender. Ou não. Se calhar não. Definitivamente, não!

*a ilustração:  Joan Miró

26
Out17

Au bonheur des dames 433

mcr

A remoção da moção

 

Por mais que uma pessoa não queira espantar-se, as circunstâncias não a deixam em paz. Desta vez, temos a moção de censura do CDS.

Ora atente-se: esta moção como duas dúzias de outras anteriores no actual regime, estava condenada ao fracasso. Politicamente, este fenómeno não passava de um anunciado nado-morto.

Não havendo maioria para a votar, a moção ia morrer de morte macaca. O CDS sabia disso perfeitamente e, supõe-se que a geringonça não o ignorava.

Isto dito, pergunta-se: então, supondo que a professora doutora Cristas não é tonta (e pelo que se sabe e vê, não o é) que efeito pretendia o CDS?

A princípio, tinha um conjunto de propostas sobre o modo de combater os fogos, a situação decorrente dos mesmos e o reordenamento de todo o interior. É facto que boa parte das propostas do CDS estavam, ou iriam estar, abrangidas pelas medidas propostas pela Comissão Independente. Sobravam algumas que ou não foram ainda acolhidas ou poderão ser desnecessárias para já. De todo o modo, na altura do anúncio da moção ainda não se sabia com segurança que medidas exactas iria o Governo tomar num Conselho de Ministros extraordinário. Claro que o bom senso parecia apontar no sentido de serem acolhidas todas as propostas da CI mas uma coisa é o bom senso e outra a política quotidiana.

Uma vez anunciada a moção, começou a berrata. Que aquilo era uma vileza, uma canalhice, que o país estava de luto, que havia aproveitamento político...

Lembremos que quando se apresenta uma moção de censura é porque, para além da sua eventual justeza, alguém quer tirar dividendos políticos. Por isso mesmo, houve já um quarteirão de moções perdidas. A maior parte delas, aliás, vinha da Esquerda que, agora, se disfarçava de virgem pura e incapaz de querer dividendos políticos de uma acção normal em qualquer Parlamento democrático.

Se quisermos verificar a cronologia, decerto notaremos que entre a decisão de um Conselho de Ministros (ao sábado) e a discussão da moção (uma terça imediatamente a seguir) pouco espaço resta para eventualmente modificar a agenda da Assembleia.

Mas há mais: o CDS nunca terá sequer sonhado com uma vitória. Aquela gente terá defeitos mas ainda deve conhecer a aritmética.

Resta, pois, tentar perceber o que é que o partido “centrista” (convenhamos conservador com uns laivos de Democracia Cristã) queria. Será que apenas (e já não é nada pouco) queriam mostrar ao país alarmado e em estado de choque, quem estava com um Governo que, não há volta a dar-lhe, falhou clamorosamente (uma Ministra incompetente, uma Direcção da Protecção Civil sem preparação, sem qualidade, nomeada as mais das vezes com base em critérios políticos, uma tibieza generalizada por parte dos poderes públicos, um Primeiro Ministro incapaz de mostrar uma réstea de comoção) e mortes, muitas mortes. ).

O CDS pretendeu, e conseguiu, mostrar aos portugueses, ou a alguns portugueses que BE e PCP, falam muito, exigem muito mas que, quando a coisa é a sério, não tiram da sua vozearia as consequências que poderiam parecer impor-se. Que o PS, claramente fragilizado, como aliás afirmou um dos novos ministros, só se aguentava graças à muleta da geringonça.

Poder-se-á retorquir que isso é coisa por demais sabida. Desde o dia em que um Costa, derrotado nas urnas, ressuscita da tumba eleitoral, para formar um governo que não tem paralelo na UE e que só durará enquanto este instável equilíbrio se mantiver. Até há meses, futurava-se que Costa, mal se apanhasse com as costas quentes e a popularidade em alta, tentaria novas eleições e a maioria absoluta. E, por isso mesmo, durante, longo tempo, PC e BE nem se mexiam. Não havia greves, manifestações, protestos públicos, mas tão só umas mansas admoestações, uma espécie de pedidos a medo, ora deem lá qualquer coisinha para isto e para aquilo.

Com os fogos, esta idílica paz estoirou. Primeiro, porque o que se passou foi medonho. Depois, porque os muletas do PS fugiam a sete pés de qualquer responsabilidade na actual situação, finalmente porque o próprio PS ficou atordoado e incapaz de se mobilizar a tempo e horas. Tudo isto, notem, depois de uma eleições autárquicas que confortaram o PS, nada deram ao BE e mostraram um cartão vermelho vivo ao PC que perdeu de uma assentada dez municípios. Entretanto, o PPD afundava-se e o CDS registava um score a todos os títulos notável. Claro que as perdas do PSD são eventualmente reversíveis e a vitória do CDS é, tão só a vitória de um pequeno partido. Não faz mossa a ninguém. É bom para o ego de Cristas mas ainda não foi desta que se fez História com H grande.

A discussão da moção foi um espectáculo pungente. Primeiro, a moção estava esvaziada pela assumpção das medidas propostas pela Comissão Independente. Depois, porque já tudo fora dito antes, quer pelos adversários, sobretudo, mas também pelos defensores da moção. Finalmente, porque daquele delirante gargarejo de tenores áfonos pouco ou nada saiu de novo.

É bom lembrar que, entre nós, apenas uma moção de censura teve um imerecido êxito. Aquela suscitada por um partido nascido do nada e a ele, feliz e rapidamente, regressado, contra um governo minoritário de Cavaco Silva. Com uma confrangedora miopia política, o PS apoiou o PRD (um ajuntamento sebastianista, eanista e populista) e, apesar dos avisos de Mário Soares (na altura Presidente da República), Cavaco tombou para depois se levantar com duas esmagadoras maiorias absolutas.

Só que, enquanto o PS pouco tinha a perder e o PRD corria o risco de quase desaparecer, Cavaco tinha tudo a ganhar. E o PC, por seu lado, olhava para aquilo e sentia que, fosse qual fosse o resultado, alguma migalha lhe cairia no regaço.

Desta vez, Cristas nada tinha a perder. Queria, e conseguiu, colar o PS ao BE e ao PC (não vale a pena falar nos inexistentes verdes e no PAN. Uns, porque são um pseudónimo pouco original do PC e outros porque nunca conseguiram explicar ao que vinham, como, porquê e para quê. Além do mais são um puro produto urbano, uma espécie de escoteiros laicos e pouco imaginativos. Eventualmente, devem o seu solitário deputado ao voto de protesto mas nem isso merecem.

Não vou referir o PSD. Cumpriram a sua parte mas estão metidos numa eleição interna que, até à data apresenta dois candidatos piores um que o outro, envelhecidos e sem imaginação. De todo o modo, quem ganhar vai ter de atravessar o deserto da oposição e pode mesmo acontecer que, se as coisas melhorarem, apareçam outros candidatos mais credíveis, mais novos e menos cansados.

Em último lugar: a derrota da moção fortalece ou fragiliza o Governo. Costa tentou dizer que a derrota da moção fortalecia o Governo. Não é verdade a menos que o seu resultado fosse imprevisível. Não o era. Sabia-se, sem dúvida alguma, que a hipótese da moção vencer era inimaginável. E tê-lo-á fragilizado? Também não parece garantido. O Governo vive do apoio do BE e do PC mas isso já não é um mistério para ninguém. De todo o modo, PC e BE tiveram algum trabalho par explicar o seu apoio. Foi por isso, e só por isso, que repartiram a resposta em dois planos. Criticaram, sem especial convicção, o PS e atiraram-se que nem gatos a bofe ao CDS. Mas se a primeira acção não resultou convincente, a segunda por estridência demasiada também não teve especial êxito.

E se bem repararem ninguém discutiu efectivamente a essência da moção. Uns tentaram fazer um processo de intenções e o acusado tentou defender-se. Nada mais.  

24
Out17

Estes dias que passam 344

mcr

images.jpeg

jurista não praticante

 

Formei-me em Direito na Universidade de Coimbra no fim dos anos 60. Frequentei, até ser preso, o então chamado 6º ano, ou seja o Curso de Ciências Jurídicas, privilégio apenas acessível a quem tivesse uma média de 14 valores. A coisa seria, na época, uma antecipação do actual Mestrado, talvez um pouco mais, não sei dizê-lo ao certo. Nos anos que se seguiram, já advogado (a função pública estava-me vedada por razões políticas) frequentei e concluí o “Cours Superieur de Droit Comparé”, bem como duas outras variantes do mesmo dedicadas respectivamente ao Direito de Trabalho Comparado e ao Direito das Instituições Europeias. Depois da severa brutalidade das aulas conimbricenses era fácil obter notas bastante agradáveis nesses cursos e, por isso, obter bolsas de estudo que permitiam frequentar as universidades europeias onde esses estudos tinham lugar.

Entretanto, veio o 25 de Abril e alguns amáveis cavalheiros da “oposicrática” entenderam que eu poderia utilmente salvar a pátria dos egrégios avós, servindo a causa pública, primeiro na Segurança Social e depois na Cultura. Acabou-se o exercício do Direito e a eventual abastança que, na altura, ele prometia.

Confesso que a desistência da perseguição da riqueza não me causou especial engulho. A função pública, mesmo se levada a sério e rigorosamente, permite ao funcionário consciencioso fazer o que tem a fazer bem e dentro, muito dentro do horário convencionado. Ficavam-me, pois, livres os fins de tarde, as noites e os fins de semana. E as férias todas, tudo coisas impossíveis para um advogado que não tenha padrinhos. aproveitei conscienciosamente esse tempo imenso para ler, ver exposições, viajar, ir a festivais de cinema, de teatro e de jazz bem como a jogar bridge uma paixão que herdei de meu pai.

O mundo solene do Direito foi-se afastando de mim e eu dele sem remorso, saudade ou desgosto. Apenas um par de velhos amigos e colegas me ia dando notícia dos tribunais. E assim sobrevivi sem grande abalo até hoje.

Todavia, hoje, este meu adormecido mundo antigo, digno e austero, devotado à causa das pessoas e dos seus direitos começou a cambalear.

De facto a notícia de uma sentença que, além de insensível e insensata, cheira a beatério jihadista e a preconceito rançoso e canalha, sobressalta mesmo quem, desde há muito, anda longe dos subterrâneos da Justiça.

Ora vejamos: uma mulher casada teve uma relação adúltera com outro caalheiro. Resolveu, porém, terminar tal relação. Inconformado o amante preterido doravante chamado “corneador” solicitou ao marido “ultrajado” (doravante referido como “cornudo”, “chifrudo” ou “pirilau mole”) ajuda para a difícil tarefa de pôr a relapsa na renovada via do adultério.

Este, sempre prestável (resta saber se não terá ele mesmo empurrado a amantíssima esposa para os braços do galã repudiado) muniu-se de uma moca convenientemente reforçada por pregos e, juntamente com o outro (ou, pelo menos, às suas ordens), espancou fortemente a grevista aos actos de cama.

A criatura espancada pediu justiça, o que não é para menos. Afinal, como parece verificar-se, recusara as solicitações amorosas do seu antigo amante pelo que, força-la a reactivá-las sob ameaça de agressão a dois e com moca configura, para o senso comum, uma tentativa de violação.

O cornudo que, pelos vistos, usa uma moca com pregos para substituir um pénis inerme e inerte ajudou claramente o corneador na sua tarefa de obrigar uma mulher a deitar-se com ele. Provavelmente, o “pirilau mole” teria direito a deleitar-se com o espectáculo da legítima sob o resfolegar acintoso do corneador.

O caso foi julgado e da decisão de primeira instância (eventual condenação do(s) agressor(es) houve recurso para a Relação.

Ora. é aqui que entra em cena um Senhor Desembargador (e uma Senhora Desembargadora, já agora) que numa sentença de que entre espantado, envergonhado e enojado li na íntegra.

Já os jornais, várias associações e, mesmo que de forma pouco clara, para não dizer absolutamente obscura, o Conselho Superior de Magistratura, tiveram oportunidade de questionar as extraordinárias e aviltantes considerações do juiz desembargador sobre a medonha situação das mulheres adúlteras.

Até a Bíblia é chamada à colação! E mal chamada, ou viciosamente chamada, porquanto o meritíssimo Desembargador e a não menos excelentíssima Desembargadora, não recordam -ou ocultam a resposta de Cristo quando observa que à mulher adúltera só podem atirar pedras os ue não pecaram anteriormente.

Portanto, os dois desembargadores deveriam reflectir (e bastante) antes de citar o que não conhecem, ou conhecem mal, muito mal.

Seguidamente, e aqui que o meu ponto assume alguma relevância, é que foram dois homens conluiados e armados que exerceram uma indescritível violência contra uma mulher (normalmente mais fraca, mais frágil e com menos capacidade para se defender) . Um deles, o amante preterido chamou como ficou provado o marido de quem a mulher estava separada havia meses- Depois, não colhe o miserável argumento da indignação do marido quando também ficou provado que havia meses que sabia da “infidelidade” da mulher que dele se separara chegando ao ponto de a acusar de puta e de não se deixar sodomizar por ele quando, no dizer do triste cornúpeto o fazia com “todos os homens” (sic).

A simples ideia de que uma relação conhecida há meses, seguida de separação, é capaz de suscitar uma depressão é uma barbaridade para não dizer algo mais forte e provavelmente mais verdadeiro acerca do bom senso e inteligência de quem aceita esta esfarrapada desculpa.

A cobardia manifesta ainda não é alvo de censura jurídica. Mas os actos violentos que ela genera já o são. O adultério pode ter sido considerado uma coisa horrenda durante séculos. Ainda é punido com a lapidação em países bárbaros como alguns do Médio Oriente. No Ocidente, o adultério, há muito, praticamente sempre, foi desculpado ao homem. No que toca à mulher a coisa fiou mais fino mas, mesmo assim, no século XIX era mais um argumento de grandes romances (Madame Bovary ou Ana Karenina, ou mesmo “O amante de Lady Chaterley)) do que um crime tão grave como a insuportável adjectivação utilizada pelo distinto magistrado.

Entre nós, há muito que a coisa perdeu boa parte do significado que alguma vez teve.

“ O tempora, o mores”: que de crimes se cometem em nome da modernidade. Felizmente alguém vela. Pelo menos, um homem e uma mulher no Relação do Porto. Com ele as desavergonhadas, as desonestas, as traidoras do lar estão sob cuidada e piedosa suspeita. Pena já não haver o depósito da mulher (extinto em 1967) e, pelos vistos não citado pelos abnegados servidores da justiça que, porém, não se coíbem de citar um Código Penal há muito revogado.

Já não bastavam os fogos, o BES, a corrupção de vários uitos próceres da Pátria Imortal e eis que agora, insidiosamente, uma sentença dada em pleno século XXI nos faça regredir enquanto, nação, país, povo para as brumas da memória.

E mesmo aí, há que reflectir: um bastardo de D Pedro I , o Cru, João de seu nome, apunhalou a sua mulher (D Maria Teles, irmã da Rainha) sob o falso pretexto de que ela o traía. De facto, pretendia casar com a sobrinha Beatriz, herdeira do trono. Teve de se homiziar para escapar ao castigo, acabou como renegado ao serviço de Castela, invadiu Portugal sem glória nem proveito e acabou prisioneiro do rei castelhano, morrendo na prisão e na infâmia.

Ou seja, nem sempre o castigo da adúltera foi passado sob silêncio ou compreensão. E à medida que os costumes se humanizavam, mais e mais, diminuiu a condenação da sociedade, equiparando cada vez mais o adultério feminino ao masculino.

Conviria dar conhecimento disto aos senhores desembargadoras, ora em causa. Mesmo se não se esperem grandes resultados. A intolerância entranha-se e é coo uma nódoa de azeite: expande-se e não desaparece sequer com lavagens sucessivas.

*os leitores verificarão que não se nomeiam as personagens desta novela de faca e alguidar. É por mero decoro, por imerecida piedade e por sentido de vergonha.

 

**na gravura lapidação de adúltera (pilhado na internet)  

 

 

23
Out17

Au bonheur des dames 432

mcr

images.jpeg

img_797x448$2017_10_16_11_05_38_260250.jpg

Ay flores do verde pino

(mcr 23.Out. 2017)

 

Saberão as leitoras (e os leitores, espero) que andam por aí (ou pelo menos em países mais civilizados e mais amigos da floresta) um par de livros que asseguram que a floresta, enquanto tal, age como um ser vivo ou seja as plantas (no caso as árvores) tem estratégias de desenvolvimento, de crescimento e de defesa comuns. Há, pelos vistos, uma actuação solidária perante as ameaças sejam elas um fungo, malévolo ou até a acção de animais. Fiquei fascinado com esta tese e encomendei já o livro mais recente sobre o tema que mereceu, de resto, artigos nas mais sérias revistas científicas do mundo.

A ser verdade, e tudo o indica, à floresta portuguesa calhou o mais temível ataque possível. O fogo. Não que as florestas (e em particular a floresta mediterrânica) não ardam. Ardem e há mesmo nesse fogo “normal” aspectos positivos. Existem mesmo árvores que necessitam do fogo para libertar as sementes.

Todavia, em Portugal, sempre em Portugal, a floresta é vítima de fogo a mais, de Governo a menos, de descuido, de descaso, de ignorância.

Desta feita, foi com o seu dramático cortejo de vítimas humanas e de milhares de animais domésticos ( gado, aves de capoeira, cães e gatos...) mais uma forte porção do pinhal interior que desapareceu. E, com ele desapareceram, casas, campos lavrados, apetrechos agrícolas, cabos eléctricos, condutas de água, fábricas e toda a sorte de veículos de trabalho, de transporte ou de recreio.

No meio dessa medonha devastação, perdeu-se oitenta por cento do Pinhal do Rei. Do pinhal dito de Leiria que em boa verdade chega até à minha terra (Figueira) e continua para lá do Cabo Mondego até Mira.

O pinhal do Rei tinha setecentos anos! Setecentos anos! Quase a idade deste desgraçado país, longe de Deus e perto, demasiado perto, de homens sem fé nem lei, de um Governo (aliás, de vários governos sucessivos) para quem o país é um longa praia de Setúbal até Viana, da rebentação até trinta, quarenta, vá lá cinquenta quilómetros para dentro. Um país onde cabem Braga, Guimarães, Aveiro, Coimbra, Leiria, eventualmente Santarém e, mais longe uma faixa costeira do Algarve onde o verde da vegetação se deve apenas aos campos de golf criados para os estrangeiros que eventualmente apreciam mais o nosso país do que os instalados no Terreiro do Paço. No próprio e nos que sobram em mais meia dúzia de cidades que do campo só sabem que é very tipical e que é de lá que vem o vinho, o presunto, as alheiras e o queijo da Serra. E as azeitonas, se para o ano houver que cheguem depois de milhares de oliveiras (que dura(va)m centenas de anos) terem ficado carbonizadas.

O pinhal de Leiria, as “matas nacionais”, o pinhal do Rei (e era assim que todos quantos nos importamos com a nossa herança, a nossa história, a nossa diferença, a nossa cultura) o chamavam, ardeu. Corre o risco de desaparecer. Era um monumento nacional vivo, “resiliente” como algum imbecil governamental diz, era tão nosso quanto a Batalha, os Jerónimos ou o castelo de Montemor. Respirava, era um imenso pulmão, uma defesa contra as areias, dava pinhas e acolhia centenas de animais. E dava, deu sempre, madeira para construção civil, soalhos, móveis, barcos sei lá que mais.

Este pinhal tinha menos guardas do que o museu dos coches (cuja nova sede custou milhões que faltarem dramaticamente nas terras abandonadas da “selva” interior). E dois solitários técnicos.

Não é por acaso que boa parte da mancha ardida elege um pequeníssimo número de deputados. O interior forneceu criadas, operários, emigrantes para a cidade, para os Brasis, para a Europa e para o mundo. Nada de importante, só gente que, com as pobres e honradas mãos, ainda tentava dar vida a um extenso território, a mais de 70% do território nacional. Só gente que combateu as chamas com ramos de árvore, com baldes de água, com mangueiras antigas e pouco eficazes. E, todavia, sabe-se de muitos casos de homens e mulheres que salvaram outros, muitos, homens e mulheres. E animais. Há a história de um morto a tentar salvar os cães. A outro, sucedeu-lhe o mesmo quando tentava libertar um par e vacas que nem dele eram. Mas pelos vistos, ou segundo aquela execrável criatura que passava por governante, não eram “resilientes”. Ou segundo uma outra, ainda mais cavilosa, só sabiam pedir ajuda, aviões e bombeiros. Note-se que toda esta gente paga impostos. Os mais idosos andaram numa guerra em terras desconhecidas para defender interesses duma burguesia nacional, o ventre que pariu boa parte das cliques dirigentes.

Vejo-os na televisão com o Presidente da República. Há lágrimas, como não? As lágrimas são próprias do homem. Ou de alguns, quase todos, mas não de um Primeiro Ministro a quem não se pedia choro mas tão só algum consolo, alguma piedade, uma palavra, uma simples palavra. que surgiu tarde, depois do discurso, do grande discurso, e eu não fui, não sou e não me parece que alguma vez seja, um fã de Marcelo Rebelo de Sousa. Critiquei-o aqui, várias vezes, antes e depois de ser Presidente, mas, neste momento tremendo, confesso a minha admiração pelo seu discurso e mais ainda, muito mais, pela sua incansável peregrinação pelas terras devastadas. Aqueles portugueses tiveram, provavelmente, pela primeira vez, uma imagem decente do Estado. Desta feita, ninguém lhes vem cobrar impostos, taxas, dar ordens, transmitir proibições, olhá-los como bichos. É caso para dizer: ainda bem que nenhum governante lá apareceu. Ao ver-lhes as caras de pau, a verborreia tecnocrática, política (baixa política), a confissão de impotência sobe-me uma raiva que só é compensada pela imensa dignidade das vítimas que nem na desgraça foram poupadas à absoluta imbecilidade das declarações que todos conhecemos.

E o pinhal do Rei... um pinhal que estava à responsabilidade do Estado! Onde, nos tempos do antigamente, havia mais de duzentos guardas florestais e trabalhadores diversos, sobravam dez e dois técnicos. Será o Estado “resiliente”?

Os investimentos que faziam falta há anos, ou mais prosaicamente há quatro meses, aparecem agora de supetão!

E o pinhal? Duvido que em minha vida, no que me resta viver, o volte a ver, vivo e sano (como o amigo no poema que dá título a este folhetim) A vê-lo como o via, quando todos os meses, à passagem pela A17 e A8 na minha ida mensal a Lisboa para visitar a minha Mãe. Apesar de tudo, a esperança (e eu sou um optimista) é teimosa. Há uns anos vi arder o parque da Serra da Boa Viajem, na Figueira. Um parque onde brinquei, namorei, vivi. Está de novo em pé, vivo, verde, pujante. E era também uma floresta do Rei (no caso, porque quem incansavelmente o criou, quase do nada, se chamava Rei).

Só por isso, sonho com voltar a ver o pinhal de Leiria, restituído à sua verde grandeza e ao nome que, durante séculos, os povos lhe davam. Tanto mais que aquilo de “matas nacionais” afinal nada significava. O Estado, neste caso, portou-se como o pior dos proprietários.

.......

Era por aqui que eu terminaria o meu texto. Porém, ao ouvir o dr Miguel Sousa Tavares e umas criaturinhas do BE, numa fúria apocalíptica e anti-eucaliptica, deu-me para perguntar a estas robustas mentes citadinas: o que é que um camponês do interior, dono de pequenas parcelas de floresta, pelas quais paga imposto, há-de ter para poder assegurar um pequeno, pequeníssimo rendimento? Pinheiros que demoram a crescer o dobro do tempo? Carvalhos ou castanheiros que demoram seis a oito vezes mais? De que vive nessas décadas de intervalo? A senhora Martins quererá propor a funcionalização dos habitantes do interior? Dar-lhes umas fardas verde-azeitona e pô-los todos na carreira administrativa da restante funçanata pública, que de resto logo em começo de carreira ganha o dobro de um agricultor do interior?

Será que o dr Tavares que, dizem-me, é proprietário de um monte alentejano, já por lá plantou alguma árvore que eventualmente nunca verá adulta? Ao menos um par de oliveiras, meia dúzia de sobreiros ou, vá lá uma azinheira das que acabam por não saber a idade?

Quanto à senhora Martins não peço tanto. Não me atrevo a perguntar-lhe nada sobre botânica. Apenas me temo que sobre isso não vá mais longe do que vai na política.

 

* as duas ilustrações são um antes e um depois do pinhal do Rei As imagens tem tamanhos diferentes porque eu sou um desastrado que não sabe fazer melhor. Mas acho que se percebe bem o que me vai na alma e,sobretudo, o que vai por lá.