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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

16
Fev18

Au bonheur des dames 446

d'oliveira

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 Pagar dívidas antigas 

 

 mcr 16.2.18

Fui aluno do antigo Liceu D João III (Coimbra) por duas vezes mesmo se por pouco tempo: no 3º e no 6º anos.

Nesse tempo, tratava-se de um liceu “Normal”, isto é de um liceu onde os jovens professores, sob a orientação de exigentes professores “metodólogos”, faziam o “estágio”.

Uma vez aprovados poderiam ir ensinar em qualquer outro estabelecimento similar, integrados na função pública.

As aulas nem sempre eram pacíficas sobretudo se dadas por um metodólogo e respectivos estagiários: estilos de ensino diferentes podiam perturbar a rapaziada. Todavia, é justo realçar a alta qualidade do ensino e a exigência.

Naquele tempo, as instalações eram boas mesmo se, por exemplo, a piscina nunca funcionasse!...

Hoje, diz o jornal, aquele excelente edifício está num estado desolador. Esperam-se (e desespera-se) obras de enorme importância e correspondente custo. A desvairada gestão da ministra Rodrigues e a loucura gastadora da empresa Parque Escolar não deram para restituir a actual “escola José Falcão” (é o seu nome, hoje) à devida dignidade que uma escola, o seu corpo docente e os seus alunos merecem.

Todavia, não é do estado calamitoso do prédio que pretendo tratar.

É do seu nome actual. O “D João III” passou a José Falcão com os ventos de Abril. Ou as ventosidades como já se explicará.

José Falcão foi licenciado e depois doutorado em Matemática e lente da Universidade de Coimbra. Porém, a escassa fama que obteve em vida advém-lhe sobretudo, e apenas, do facto de ter sido propagandista e militante republicano, mesmo que de segunda linha. Aliás, morreu cedo pelo que não se podem, sem eventual injustiça, verificar-se os seus méritos políticos e propagandísticos. Escreveu uma “cartilha do Povo” que se não é uma inutilidade absoluta também não merece destaque na escrita política da época. Escassa novidade e estilo pobre.

D João III foi, provavelmente, o soberano português que mais fez pelo ensino e pela Universidade que dotou de meios e de professores de altíssima qualidade. A actual Rª da Sofia em Coimbra está pejada de “Colégios Universitários” mandados fazer por ele e pagos pela Coroa. Em qualquer país civilizado isto poria o último grande rei da dinastia de Avis na História. Se é verdade que outros soberanos e príncipes dotaram a Universidade (D Dinis, Infante D Henrique, Filipe II e D José a conselho do inteligente e maléfico Marquês) deve considerar-se a intervenção de D João III como a mais completa.

Da sua memória resta hoje uma feia estátua no pátio da Universidade e durante algumas décadas do sec. XX o nome do liceu (que começara por se denominar Liceu de Cimbra e Liceu Central de Coimbra até ao tempo da 1ª República que o crismou José Falcão).

Aliás, e para maior rigor o D João III nasceu da fusão dos liceus José Falcão e Júlio Henriques (licenciado em Direito e catedrático de Filosofia mais tarde consagrado como um dos grandes botânicos portugueses, ao lado de Brotero que ele muito admirava. Fundador do Instituto Botânico, dirigiu o Jardim Botânico durante décadas podendo dizer-se sem mentir que a sua obra à frente desta instituição é comparável à de Vandeli ou Luís Carriço).

Ignoro se há em Coimbra, além da Brotero e D Maria, mais escolas secundárias. Se sim, aí estaria para os saudosos da propaganda republicana uma hipótese de homenagear J Falcão.

Agora, que eventualmente se farão obras, seria de toda a justiça restituir à velha escola o nome do rei que mereceria mais, muito mais, da cidade.

A latere: os velhos colégios da Rª da Sofia estão em mau estado e sobretudo afectados a usos desinteressantes. Suponho que estarão incluídos no domínio do Património da Humanidade que contempla Coimbra. Valia a pena começar a pensar-se em restituí-los à sua primitiva e gloriosa função universitária (residências de estudantes, centros de estudos, etc). Para o efeito bastaria voltar a consultar o valioso número XXV da Revista Monumentos onde se pode perceber toda a importância arquitectónica, urbanística destes edifícios. Antes isso que andar a construir “barracos” feios, maus e caros como é timbre do Ministério da Educação.

 

Por mcr, nº 23/3º/A e nº 38/6º/ A  (anos 50)

14
Fev18

Estes dias que passam 365

d'oliveira

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Deutschland bleiches mutter

 

 mcr 8/2/18 e 14/2/18

 

O cartaz que acima se reproduz vem (ahimé!) dos anos 6o, melhor deizendo dos finais dessa época contraditória e, para mim, luminosa e indecisa. Vi-o pela primeira vez em Berlin, num Studentenheim em Wedding onde me albergava enquanto estudante do "Goethe Institut. Abafei-o à má fila e regressei à pátria madrasta com ele. Se a memória me não falha esteve pendurado n parede lá de casa até a PIDE ir fazer uma visitinha. Eu acabara de ser preso e aquela boa gente queria por força saber que leituras eu faria. Acabaram por levar dois quarteirões de livros, um poster do Ho Chi Minh e este cartaz. Talvez também tenha ido um poster comemorativo do cinquentenária da Revolução de Outubro e alusivo ao cruzador Aurora. 

Berlin, nesses anos de vinho e rosas, de certezas e angústia, era uma inolvidável experiência. Para um estrangeiro que podia (mesmo que dificultosamente, bem dificultosamente) passar o muro o mundo explicava-se com grande rapidez. do lado de cá, o protesto, Rudi Dutschke, os Kindergarten, a prosperidade gritante e uma imprensa variada mesmo que assombrada pelo império Springler. Comunas de todo o género, anarquistas, comunistas, contestatérios sem agenda especial mostravam uma cidade cercada e vibrante. Do outor, o cinzentismo da Karl Marx Allee, os cafés tristonhos e pobres, as lojas quase vazias, as livrarias reduzidas aos clássicos marxistas, aos aitores do realismo socialista e a alguns, não todos, escritores alemães de séculos passados. Aquilo não era apenas pobreza intelectual. Era censura pura e dura, coisa que, pelo que depois fui lendo, não parecia visível aos raros estudantes portugueses que tinham bolsas de estudo para a chamada República Democrática Alemã.

No meio disto tudo, as Juventudes do SPD exerciam uma rigorosa crítica a tudo o que o Governo Alemão fazia ou queria. E faziam o excelente Willy Brandt passar maus bocados. Achavam-no "burguês", "reformista", inseguro frente à CDU e ao Ocidente. Ao mesmo tempo, iam acertando o passo à deslavada mas ditatorial república vizinha refugiada atrás do Muro e alvejando os seus cidadãos quando algum deles tentava fugir do paraíso socialista para o império do capital e do mal. 

Tudo isto, agora que o império da STASI está enterrado, me vem à memória ao ler as notícias do eventual acordo de governo para a Alemanha. Pelos vistos, Schultz ainda vai submeter a votos o acordo. Os militantes (mais de 400.000) responderão por postal à pergunta se concordam ou não com o alcançado. Parece que Juventude partidária é contra. E que, desde há meses, tem andado  numa intensa campanha de recrutamento para obter mais vozes contra. Vejam bem: estes novos, novíssimos, militantes (já são quase 25.000!), sem passado político, sem garantias de futuro no SPD, vão poder dizer "sim" ou ""não" a um acordo para cuja discussão não contribuiram. Entretanto, o partido vai perdendo continuamente popularidade. Se a coisa continua arrisca-se a ser suplantado pelos neo "fascistas" da Alternativa pela Alemanha. 

Convenhamos. O antigo slogan (tradução livre: todos andam por aí a dizer ninharias, nós não) era eventualmente ousado e a destempo naquela época de guerra fria. No entanto não propunha que "morresse Sansão e todos os que aqui estão", como infelizmente agora parece ser o caso. Este acordo, pelo que tenho lido (e ouvido na televisão alemã) merece ser aproveitado. Na Alemanha porque marca um forte progresso de políticas mais justas, mais igualitárias  e mais geradoras de emprego. Na Europa porque dá ainda mais força à actual tentativa de melhorar o dificultoso estado da União.

A juventude, comentou alguma vez algum cínico demaiadamente realista, é uma doença que passa com o tempo. Como a acne  que, todavia, pode deixar borbulhas maxime um rosto desfigurado.

...............

Repego neste texto perdido há quase oito dias. Não dava com ele, e ele, quieto e manso na caixa do blog!...

entretanto Martin Schulz desiste de ser (um bom) ministro dos Negócios Estrangeiros e, já se demitiu de todas as suas funções no SPD. Má notícia para o partido e má notícia para a coligação em perspectiva. Pior notícia para a europa e, especialmente, para os países do Sul.

Os ventos foram semeados. Vejamos se por aí vem alguma tempestade.

06
Fev18

Au bonheur des dames 4445

d'oliveira

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Segundo texto para Maria Assis sobre os tempos que correm

Dois Secretários de Estado que gostam de ler.

 

Faço parte dessa ínfima minoria de criaturas que tem o hábito de ler. O solitário vício de ler. Livros, revistas, jornais, literatura inclusa e indigesta das embalagens dos medicamentos, folhetos, grafittis, seja o que for. Com uma única excepção: nunca (NUNCA) li a chamada imprensa cor de rosa. Defeito meu, certamente ou então será porque não consigo ter qualquer espécie de curiosidade pelas vidas do jet set ou dos que gostam de o ser. Melhor dizendo, leio as letras gordas das capas que se metem pelos olhos dentro de quem vai por um jornal ou uma revista no quiosque.

Assim sendo, só louvo a propensão leitora de dois políticos socialistas que, durante os seus mandatos governamentais, alimentavam a cabecinha pensadora lendo imprensa vária (num dos casos) e livros não especificados no outro. Desconheço se, nesses tempos de glória, eram, no Governo, os únicos a parar para ler ou se mais alguém da mesma banda os acompanhava nesse dever de saber como ia o mundo. Todavia, o MP vem agora acusar as duas criaturas de terem comprado tais publicações com um cartão de crédito atribuído a governantes. Mais tais publicações (que num dos casos, o mais grave, ascende a mais de 13.000 euros e tinha por alvo, revistas, romances e livros técnicos) não foram encontradas uma vez terminado os mandatos dos cavalheiros em questão. No caso menos importante, José Magalhães, a quantia em causa –pouco mais de 400 euros – refere apenas revistas. Para o tempo de mandato convenhamos que foi pouco. Provavelmente sabia tudo e só comprava, de longe em longe, informação de que necessitava. Ou então era apenas um fraco leitor.

No segundo caso, Conde Rodrigues parece ser um leitor omnívoro. Em cinco anos gastou mais de 2500 euros anualmente. É bem verdade que terá comprado “livros técnicos” (os livreiros, quando se lhes pede, passam uma factura com este termo sem que isso seja necessariamente verdade) e romances para além das publicações periódicas. De nenhum destes produtos resta traço nos gabinetes ministeriais. E é aí que as coisas se complicam. Por muito leitor que se seja, o dinheiro com que se comparam os livrinhos ou é nosso ou de outrem. No caso em apreço, do Estado (obliquamente nosso, dos contribuintes ou seja de um terço das criaturas que habitam este torrãozinho de açúcar e que passam por ricas ou remediadas).

Não consigo (por grave defeito meu) lembrar-me do senhor Conde Rodrigues mas rendo-lhe um pequeno preito de homenagem: num país de semi-analfabetos dá sinais de curiosidade intelectual e literária mesmo se, eventualmente, os “romances” em causa sejam de amor ou (perversidade que gostosamente partilho com ele) eróticos. Quem nunca leu Sade, Crebillon fils, Laclos, Montesquieu ou Diderot não sabe o que perde. Nisto de romances cabe tudo desde a senhora Corin Tellado o senhor Marcel Proust. Tivesse ele tido o cuidado de deixar os livrinhos na biblioteca do Ministério e não seria este arrebatado leitor quem lhe atiraria a primeira pedra. Mesmo se o seu gosto literário não coincidisse com o meu. Mas não deixou!...

Alguém menos dado a perdoar extravagâncias literárias poderia pensar que Sª Ex.ª se abarbatou com 729 publicações (é esse o número que o MP revela. Ai quanto gostaria eu de saber os títulos, os autores, pelo menos os géneros, da livralhada comprada...) pertencentes ao Erário Público.

O senhor José Magalhães foi, como se disse, modestíssimo. Contas feitas, só em jornais, gasto três vezes mais por ano. Bem vistas as coisas só o “Público” chega e sobra para atingir a escassa verba de Magalhães. E é isso que me espanta. Então o raio da criatura lia assim tão pouco? Ou foi apenas distraído? 400 euros são de facto uma soma mais que exígua para o que se espera da curiosidade intelectual da personagem. Magalhães, desde os seus tempos de Vichinsky lusitano e censor moral ao serviço da bancada do PCP, dava a ideia ler um pouco mais do que o “Avante” ou aquela “verdade a que temos direito” e que se intitulava “O Diário”, publicação que se finou mansamente alguns anos depois do PREC.

Isto parece quase tão ridículo quanto a historieta de mendigar um bilhete para ver a bola no camarote do senhor Vieira. É mais uma burrice, uma esperteza saloia, do que um crime.

Joaquim Namorado, um excelente amigo, tinha um projecto de Código Civil que continha apenas um artigo e um parágrafo único que passo a citar

Artº I É proibido ser estúpido

  • º único Fica revogada toda a legislação em contrário

Vê-se que Magalhães, apesar de ideologicamente próximo de Namorado não leu ou se o leu não percebeu. Que desperdício!

Voltando, contudo, à vaca fria: que diabo de revistas compraria a criatura? Teria alguma graça se fosse a tradução brasileira da “Playboy”, ou a relançada e francesa “Lui”. Todavia não o creio: O apostrofante Magalhães dos heroicos tempos do PREC não cabe na pele de um leitor de Hugh Heffner, eterno woomanizer de pijama de seda que vagueava pela “mansão” rodeado de coelhinhas pouco dadas aos extremos do #metoo.

Seria alguma revista de automóveis dessas com muito brilho e retratos de modelos que nunca estarão ao meu alcance ou, sequer, dos meus leitores?

Poderia, dado que já passaram anos, ainda ser a espanhola “Interviu”, iniciadora do “destape”, logo “progressista” em terras vizinhas e actualmente apenas uma saudade nocada vez mais rarefeito panorama das revistas europeias. Ou o “Nouvel Observateur” (agora só “obs” ou “nouvel obs” ou qualquer outa burrice a la mode e do mesmo desnatado género e teor. Oh que de labirintos intelectuais, de caminhos que se bifurcam incessantemente mas que acabam todos no mainstream das paradas águas de um vago socialismo à portuguesa, agora apimentado pelo fantasma recorrente do sr. José Sócrates e da geringonça.

Ai Portugal se ao menos fosses só sul sol e sal...

* na ilustração uma (exageradamente) famosa revista dos tempos áureos do “verdadeiro” socialismo tal qual se entendi nas franças e araganças de outros, apesar de tudo, saudosos tempos...

02
Fev18

Au bonheur des dames 444

d'oliveira

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tempos confusos, práticas estranhas

(para Maria Assis, uma testemunha de outro tempo de batalhas duvidosas a que não se fugia)

 

O senho Centeno é uma criatura singular. Apareceu nas vésperas da última eleição legislativa com uma proposta económico-financeira que o PS, sempre preguiçoso e pouco imaginativo, aceitou de braços abertos. Depois, mesmo depois desta perdida, o PS governou. Com Centeno ao leme das Finanças. Quando se esperava que aquele programa fosse aplicado, saiu outro completamente diferente. Com isso Centeno, evadido do limbo do Banco de Portugal, ganhou a simpatia de Herr Schauble que o crismou de Ronaldo. Schauble mesmo alemão e de cadeira de rodas gosta de ironizar...

A recuperação geral na Europa e na UE, o silêncio das ruas portuguesas sem marchas, sem indignados sem manifs, o turismo fugido de um Mediterrâneo perigoso, e o comportamento das exportações fizeram o resto. Foi aquilo e não especialmente Centeno que mudou, episódica e levemente, a pátria imortal dos nossos egrégios avós. O resto, a dívida pública – e a privada, ai a privada!...-, o novo “consumo” interno desenfreado (até o BP o quer limitar) pintaram a cara de um país que ficou negro no Verão.

Centeno marchou para o seu lugar europeu e pelos vistos gosta de estar na mesa dos adultos. Ainda bem, mesmo se lá, como cá, pouco ou nada poderá influir na Europa que se redesenha.

Entretanto, uma palermice ia entornando o caldo. Centeno, arguindo de uma qualquer ideia de segurança pediu, solicitou, implorou um lugarzinho no “camarote presidencial”. Tais lugares não têm preço (ou tendo-o esse é de tal modo elevado que o melhor é não comentar) e o desejo de Sª Ex.ª foi prontamente atendido. Ele e o abencerragem sentaram-se naquele olimpo de papelão e ouropel e provavelmente tiraram uma selfie comemorativa.

Caiu o Carmo e Trindade. Que o camarote tinha um custo a pagar agora ou nas calendas!

O ministro e os seus defensores aproveitaram a burrice da crítica para se defenderem. Os críticos, em vez de dizerem que um ministro não deve pedir este género de favores insignificantes pelo que isso tem de eticamente absurdo e tolo, vieram falar de corrupção. Que diabo, esta corrupção é tão visível que corre o risco de não passar de um tiro de pólvora seca.

Centeno ou foi ingénuo ou tonto. Ou ambas as coisas, ao mesmo tempo. Deveria saber, mesmo inexperiente politicamente, que o que pediu, segurança pessoal ou não como molho, é indefensável eticamente. Gosta de futebol? Basta vê-lo comodamente na televisão, se receia que um energúmeno na bancada lhe venha pedir contas. Os ministros são, ou deveriam ser como a mulher de César mesmo se a Centeno falte cultura clássica.

O Sr. Primeiro Ministro defendeu o seu Ministro arguindo que aquilo, o bilhetinho de borla eram trocos miúdos. De acordo, tem toda a razão. Até aqui!

Mas perde toda a razão, toda, repito, quando afirma, pomposo e desafiante, que nunca o demitirá, suceda o que suceder, seja arguido ou não. Isto é um desafio esparvoado e perigoso à Justiça e um convite a todos quantos cá por baixo andamos, a mandar a Justiça às malvas para não dizer à merda. Demitir Centeno por conta de uma bagatela que releva da sua patetice seria uma tolice em cima de outra. Dizer que, em caso algum (em caso algum!) tomaria providências é um exercício de arrogância presunçosa que nem sequer defende bem Centeno.

Nota à margem: o PE teve uma conversa preliminar sobre esta caso, o que prova que os eurodeputados andam com falta de trabalho. Os deputados portugueses (todos mesmo os “conservadores”) opuseram-se a qualquer inquérito. Se foi por o assunto ser de lana caprina, muito bem. Se foi por solidariedade patriótica, muito mal. Tudo isto cheira a Carnaval mas não é o de Veneza, o de New Orleans nem o do Rio. É um desses pobretes mas alegretes, típicos da nossa província mais provinciana de onde espiritualmente surdiram Centeno e Costa.

 

11
Jan18

Au bonheur des dames 443

d'oliveira

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#me too, o movimento e as francesas

 

mcr 11-1.18

 

este texto vai para  Irene MR, Mª José C e Maria de L A

 

(nota prévia: Quem, com santa e resignada paciência, me lê terá reparado que são mais de uma dúzia os textos em que me refiro à violência de género e à inominável cobardia (para já não falar no crime miserável) de muitos homens. Eles agridem, eles denunciam, eles maltratam, eles matam as ex-companheiras por dá cá aquela palha. Que os abandonaram, que se fartaram de apanhar pancada, de ouvir insultos, de serem menos do que as antigas criadas de servir, de serem violadas –sim também existe violação dentro do casamento- enfim por um ror de razões que seria fastidioso enumerar. Portanto, caras e caros leitores, recordem isso antes de me atirarem a primeira pedra (curiosamente o castigo para as adúlteras quer na Bíblia –A.T.- quer na medonha “charia” muçulmana)).

 

Apareceu nos EUA, mais propriamente em Hollywood, uma campanha (#me too) de denúncia de agravos feitos por homens ligados à indústria cinematográfica a mulheres, mormente actrizes. Nas queixas há de tudo: apalpões, convites para a cama, chantagem, palavrões, violação. Há também conversas ou palavras “impróprias”, que a América é o paraíso da correcção política!

Alguns (com a entusiástica ajuda dos media, fartos já de arrear – merecidamente, acrescente-se - em Trump) mostraram-se espantados, escandalizados, horrorizados(!), com estas revelações.

Este escriba persigna-se três vezes e pergunta-se se estas boas alminhas alguma vez pararam para pensar na história pregressa de Hollywood. É que, desde meados dos anos 50, que anda por aí um livro de Kenneth Anger (“Hollywood Babylone”, Jean Jacques Pauvert ed, Paris)que só apareceria nos EUA (em versão inglesa e original) em meados de 60. Rapidamente proibido lá, só voltou às livrarias dez anos depois.

Entretanto, dezenas de publicações (destaque-se a “Playboy”) foram ao longo de todos esses anos denunciando “Sodoma e Gomorra na Meca do cinema”. Recordo-me de ter visto na televisão (há quantos anos já!) um documentário sobre actrizes e modelos onde algumas delas confessavam, sem excessivas recriminações, que tinham passado voluntária ou obrigatoriamente pela cama de realizadores, produtores, fotógrafos, agentes, sei lá que mais.

O actual arruído foi desencadeado pelas acusações a um poderoso produtor, Harvey Weinstein, por um grupo de actrizes. Estupro, violação seriam o pão de cada dia na vida de um homem que chegou a ser homenageado pelo seu apoio à causa judaica e atacado por alguns filmes seus serem anti-cristãos e anti-americanos. Um “must”! Por acaso, também foi responsável por alguns (muitos) sucessos artísticos e comerciais. Uma autêntica “american live story”...

Abatido Weinstein, começou (Não há país como “a terra dos bravos e dos livres”, para estas coisas) a caça à macharia mal intencionada. Em pleno desenrolar dos “Globos de ouro”, um dos premiados foi acusado por uma actriz que afirmou que ele a fizera actuar nua depois de lhe ter imposto um contrato onde isso estaria previsto. Ou seja, o anjinho ofendido primeiro contratou, fez o filme, recebeu o cacauzinho e, depois, muito depois, lembrou-se de protestar. É obra!

Numa entrevista no “Late night show”, animado pelo prodigioso Stephen Colbert, um entrevistado confessou que ao abraçar uma mulher lhe “tocara nos seios”. E estava muito arrependido... Pergunto-me como é que ao abraçar se toca nas mamas da criatura abraçada.

A campanha corre, infrene e imparável, pela América. Todos os dias se noticiam casos de há dez, vinte, trinta anos. A diligente justiça americana renova a perseguição a Roman Polansky, ameaça Woody Allen e instala no meio libertino e sofisticado de Hollywood um clima de denúncia onde vale tudo. Pelos vistos qualquer “inapropriate behaviour” é tremendo crime. Um olhar mais demorado pode ter efeitos tão dramáticos quanto um apalpão que, por sua vez está ao nível do assédio puro e duro, quiçá da violação. Al Capone e a KKK espreitam, com Manson e os bombistas de Ocklahoma, as vestais do cinema americano, para o efeito vestidas de negro severo mas generoso em decotes.

Um grupo de cem artistas, académicas e escritoras francesas publicou em “Le Monde” uma carta aberta onde pedem moderação, bom senso e calma e, horribili dictu!, defendem que aos homens deve ser permitida uma suave intencionalidade sexual no que dizem, pensam ou fazem perante as mulheres. Jesus! Caiu o Carmo e a Trindade. Ou melhor, a torre Eiffel e o Arco do Triunfo. A primeira como vero símbolo fálico e o segundo como uma vagina desmesuradamente acessível à peonagem que o atravessa a pretexto de ver a chama do soldado desconhecido. Aliás, o Arco, tributo às campanhas napoleónicas é, desde há muito um símbolo a proscrever por nacionalista, imperialista, militarista etc.

No dia seguinte trinta senhoras da melhor sociedade feminista responderam às anteriores cem. Estão em minoria mas isso não espanta num país onde um antigo presidente da república (Felix Faure) morreu literalmente na boca de uma amante posteriormente conhecida como “pompe funébre”. Onde outro, Mitterand, era conhecido por ter “casa civil e casa militar”(na amável interpretação de Jorge Amado) ou outro ainda mais recente se disfarçava de motociclista para se escapar do Eliseu para se ir aconchegar nos braços de ma actriz que (Vergonha!) nunca se queixou de assédio. Há quem se lembre de uma (a única) Primeira Ministra da França, Edith Cresson que afirmou sem pestanejar que uns bons 25% dos ingleses eram homossexuais e por isso desprezavam as mulheres. A senhora Cresson, além de inteligente, culta e belle femme, foi, et pourquoi pas?, amante de Mitterrand mesmo se esse fait divers não deva ter influído na sua nomeação.

Não admira num país que viu nascer Sade, Laclos, Bussy-Rabutin, Crébillon fils, Brantôme (e não esqueçamos osenormes Montesquieu e Diderot que escreveram belos textos eróticos) ou já no nosso tempo, Roger Vailland, esta desatada fúria americana cause uma divertida perplexidade. Alguém, não consigo recordar agora, citou Mae West essa deliciosa e inteligentíssima desbocada. Que diria ela, perguntava-se esse desconhecido, se visse e ouvisse o que se passa?

Esta campanha acaba por abafar outras bem mais urgentes quais sejam pagamento igual por trabalho igual (e não só no cinema, que diabo, mas nas fábricas, nas grandes cadeias de distribuição, na Banca ou noutros domínios), a luta pelo ambiente, a eventual proibição do porte de arma ou a necessária limitação da intervenção de seitas e grupos religiosos na condução dos negócios públicos. Neste momento tudo isso está na sombra. O que está a dar, graças a uma centena de famosas, é o assédio sexual seja ele qual for, revista ele a modalidade mais inócua. Foram causas idênticas, ou um estado de espírito idêntico, que levaram à imbecilidade da lei seca, que mantiveram no índex as obras de Miller e um bom cento de argumentos ou de filmes “unamerican”

Às vezes, por muito jazz de que eu goste, por muito poeta e escritor americano que aprecie, por muito John Ford que veja e reveja, sinto que tive a sorte de nascer em Portugal. Arre, que isto até me faz parecer nacionalista! Credo, Deus me livre...  

 

* na imagem Kirk Douglas, 101 anos e mais de 80 de cinema, veio de preto, sabe-se lá por que razão. A acompanhante também.

**o título leva o #me too a negro. É uma mostra de solidariedade, juro.

10
Jan18

Au bonheur des dames 442

d'oliveira

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Não percebeu, não percebe e (provavelmente) nunca perceberá.

(mcr 10-1-18)

 

A Sr.ª Dr.ª Constança Urbano de Sousa, patética e inverosímil ex-Ministra da Administração Interna, entendeu dar por findo o período de nojo pela sua remoção de tão difícil cargo com uma entrevista ribombante mas paupérrima.

Como única nota de interesse, remeteu as críticas que a sua deslavada acção mereceu para o factor sexismo.

Tudo o que se lhe apontou de ineficácia, incoerência, inabilidade e autismo, deveu-se, segundo ela, ao facto de ser mulher.

Com uma excepção: reconhece, a contrapelo e a contragosto, que a sua disparata referência à falta de gozo de férias não terá sido uma expressão feliz. Ora aqui está um exercício de autocrítica digno dos melhores momentos do falecido Komintern (entidade que CUS não conhecerá bem mas isso não é seu exclusivo. Basta ler um artigo de opinião da também Dr.ª Mortágua, exalada bloquista, para se perceber que aquelas matérias, mesmo com o centenário da “Revolução de Outubro”, gozam de um conhecimento fugaz entre a nossa “inteligentsia” progressista).

De facto, a ex-ministra enfrentou (ou antes: assistiu) a uma situação de extremo dramatismo. Não foi apenas a terrível morte de mais de uma centena de cidadãos portugueses (dos mais indefesos, desprotegidos e pobres e isolados!) mas a perda de culturas, pomares, olivais, vinhedos, floresta, hortas, reses, abelhas, animais selvagens e de companhia, gado doméstico, empresas e casas, emprego e qualidade de vida. Foi muito e foi mais do que isso. Foi a verificação de um país paralisado, dividido, enfraquecido, esquecido pelas luzes do turismo de massas e pela pequena “sociedade afluente” que povoa parte do litoral. Deveria ser também o momento do fim da inocência de alguns (muito poucos) e a tomada de consciência de que assim corremos inexoravelmente para o fim de um Estado em que Nação e Povo e História pareciam confundir-se desde há séculos, dentro da mesma fronteira, da mesma língua, dos mesmos mitos fundadores.

E igualmente o do despertar de uma consciência nacional, social, ética e solidária, reclamada por muitos e defendida por poucos. A ver vamos, como dizia o cego...

A Dr.ª Constança andou durante o Verão e o Outono do passado ano como uma abelha enlouquecida e desnorteada. Do que dizia, do que fazia, do que pensava chegavam-nos ecos assustadores. A pobre senhora esbracejava como os moinhos de Consuegra contra os quais o “engenhoso fidalgo” esgrimia uma pobre espada.

Agora, porventura entusiasmada com a campanha #me too, eis que levanta um dedo acusador a todos quantos se indignaram com a sua actuação e o fizeram saber.

Alega a criatura que todos os dias recebe na rua, ou em qualquer outro local público, mostras de simpatia e conforto. Provavelmente até de agradecimento!

Eu não quereria desmentir a senhora mas, que diabo!, a coisa, assim dita, parece-me forte. Fortíssima! A rondar a paranoia... Que é que qualquer cidadã ou cidadão (escrevo as duas formas para me defender de machismo, assédio sexual ou qualquer outra maleita do século) lhe poderá agradecer? E louvar?

A paralisia? A falta de tacto (ou de férias...)? O discurso enrolado, a nomeação de gente da protecção civil manifestamente incapaz e alvo, agora, de acusação criminal?

A dita senhora escreveu numa carta patética e choramingas que por várias vezes pusera o cargo à disposição ou oferecera numa bandeja a demissão. Desculpar-me-ão pôr em dúvida tal afirmação.

Quem se quer demitir, demite-se. Se, do outro lado, há quem arraste os pés, eleva-se a voz, faz-se barulho, uiva-se se for o caso, mas não se permite que uma situação nos esmague, engula. Em síntese: tudo, menos o pântano! Vai nisso a honra das pessoas, o sentido ético, a salvaguarda política de uma missão nobre (e a governação é seguramente uma delas).

A ideia de que a opinião crítica apouca as mulheres é falsa, é estúpida e é deletéria. Poderei não concordar com a geringonça mas tenho de reconhecer a alta qualidade da dr.ª Mª Manuel Leitão Marques, a verticalidade da dr.ª Joana Marques Vidal, a combatividade de um largo punhado de deputadas desde Catarina Martins a Assunção Cristas sem esquecer a porta voz dos Verdes ou Ana Catarina Mendes. Ou a derrotada candidata do PSD à CML.

Tenho por certo que alguma da melhor literatura portuguesa do passado século se deve a um extraordinário punhado de mulheres de que só cito Irene Lisboa, Maria Judite de Carvalho, Fernanda Botelho, Agustina Bessa Luís, Sofia de Melo Breyner, Fiama HP Brandão, Luísa Neto Jorge, Maria Velho da Costa, Isabel Barreno, Isabel da Nóbrega (e lamento deixar de lado outras tantas e sobretudo um punhado de revelações já deste século). Duvido que conseguisse citar, do mesmo modo e de jacto, tantos homens escritores que de facto tenham deixado uma marca profunda, tão profunda quanto a delas. Poderia identicamente falar de artistas plásticas, de intérpretes musicais ou de cientistas. A nossa história cultural está pejada delas, não existe (ou existe mal) sem elas.

Há uns tempos, escrevi aqui que Mário Soares nunca teria sido o que foi sem Maria Barroso. E, mais: que ela voluntariamente se apagou para que ele e a comum ideia política que partilhavam fosse mais evidente. Ou indo mais longe no tempo. Snu partilhou com Francisco Sá Carneiro tudo, inspirou-o, aconselhou-o e acompanhou-o (inclusivamente na morte).

Tudo isto faz com que leia, entre espantado e desdenhoso, as declarações da dr.ª Constança. Ela equivoca-se ou tenta equivocar-nos. Ou não percebe, como escrevo no título deste folhetim...      

 

02
Jan18

Estes dias que passam 364

d'oliveira

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Roupa Velha

mcr 2.1.18

 

Há tantas receitas de roupa velha quantos os praticantes e amadores deste excelente aproveitamento. A mais habitual é de bacalhau e usa-se muito no Norte depois no almoço de Natal e no dia de Ano Bom. Os restos do bacalhau bem desfiado juntamente com a couve, ou grelos, cebola cozida um pouco de alho e um traço de vinagre e azeite compõem uma boa entrada para o peru recheado, o cabrito o capão e outras maravilhas que se podem comer nesse ia de fartura, de família e de mesa enorme e generosa.

Em minha casa, quando era pequeno, a roupa velha significava passar por ovo quaisquer estos, mormente de carne e o meu irmão e eu disputávamos sem grande escrúpulo e alguma pouca animosidade cada garfada.

Dito isto vamos à roupa velha com o que nos sobra do ano que lá vai. Prescindindo de outras ”cavalhadas” fiquemo-nos pela lei de financiamento dos partidos adoptada pelas formações parlamentares do PS, PSD, BE e PC. E dos Verdes, ia-me esquecendo. Como é possível olvidar essa formidável organização que só vê o dia na AR por obra e graça de uma alegada “coligação” e que nada mais é do que um pseudónimo proto-ecologista do PC?

Não vale a pena esmiuçar os aspectos mais contestáveis (e são bastantes e surpreendentes) da lei pois isso fez parte dos noticiários, dos comentários e de uma série de artigos publicados durante a semana que passou.

Pessoalmente, nem me estranha o tom confidencial que alegadamente presidiu à confecção da lei. Parece que um distinto constitucionalista veio a terreiro defendendo a pureza dos trbalhos preparatórios e negando o óbvio: os paisanos, isto é, nós todos, devíamos andar em viagem por outra nebulosa porquanto ninguém parecia saber do que se cozinhava nos cafundós do parlamento.

Neste momento, aguarda-se que o Presidente da República mande a lei para “o ventre da mãe terra pelo esófago da latrina” (Camilo Castelo Branco, sempre esse homem das Arábias).

Entretanto, os partidos votantes da lei num raro ataque de quase unanimidade (salvaram-se do escândalo o CDS e o PAN permitindo-me usar o meu defunto latinório: aparente rari nantes in gurgite vasto, Eneida, I, 118) vieram à estacada em ordem dispersa. Enquanto o PS e o PSD tentavam defender o indefensável, o que, de certo modo, os dignifica, os dois comparsas da “Esquerda” “borregaram” vergonhosamente. Numa penada, o BE veio dizer que não concordava com a lei mas que o seu voto favorável representava o seu esforço para melhorar aquela mistela mesmo se o resultado era péssimo. O PC acrescenta a esta graçola de mau gosto a ideia de que a lei votada é inconstitucional não se percebendo a razão do seu voto.

Dito isto, e convidando os leitores que até penaram a procurar na internet os textos completos das absurdas (senão abjectas) declarações destas formações que tentam fugir com o dito cujo à seringa e provocar a confusão nos cidadãos que acabam por não entender qual foi de facto a real motivação dos seus votos a favor (e nada permite sabe-la) podemos ver a que grau zero da responsabilidade política nos tentam condenar. Aquela triste mistela, aquele miserável aproveitamento dos dinheiros públicos, afinal nunca existiu. Há, tão só, dois pulcros partidos, verdadeiros “cavaleiros da Imaculada” (Esta coisa existiu, juro-o mas era, apesar de tudo bem mais inocente) que, perante uma miserável conspirata do “centrão”, tudo fizeram para dignificar a lei e a assembleia que a pariu. E sempre, com a mira num melhoramento futuro, claro mesmo se ele fosse atirado para as calendas gregas.

Esta roupa velha é tóxica e aumenta prodigiosamente o perigo de indigestão post festividades. O mal que esta procissão de lúgubres tontos ou de gente que nos tenta enganar não pode, não deve, ser esquecida depois do foguetório de fim de ano, dos fogachos de artifício, das boas intenções proclamadas para o novo ano.

E não vale a pena tentar vir afirmar que a culpa é dos deputados votantes. A culpa, caros leitores, é das direcções políticas. A deputadagem vota o que lhe mandam, depende absolutamente dos aparelhos partidários, levanta ou senta o calejado cu como lhe mandam os que realmente mandam.

O resto é paisagem.

26
Dez17

Au bonheur des dames 441

d'oliveira

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Febeapá que assola Portugal 2

(em memória de Stanislaw Ponte Preta)

2º exemplo o Sr. Carlos, e a Autoeuropa

mcr (Dez 2017)

 

O Sr. Arménio Carlos mandante do sindicato que anda a pôr em risco novos empregos na Autoeuropa (se é que não põe em risco a permanência desta cá...) produziu um artigo no “Público” onde, para além das consabidas tomadas de posição sobre o conflito que opõe a empresa e os trabalhadores (ou a CT e os trabalhadores, ou alguns trabalhadores) e que se não referem por serem mais que conhecidas as razões que levam as correias de transmissão do PC a entrar em guerra com a herança de uma CT que foi durante anos um feudo do BE. (Ou seja, o PCP violentamente derrotado nas últimas autárquicas tenta a todo o vapor mostrar que ainda morde no campo sindical e, ao mesmo tempo “descolar” do Governo actual de que foi um dos mais esforçados obreiros depois da derrota do PS frente à Direita. Agora que paira a ameaça de uma eventual maioria absoluta, eis que as tropas de choque do PC saem para a rua entrincheiradas nos habituais bastiões).

DE tudo o que o Sr. Arménio Carlos diz, salva-se, pela originalidade, uma proposta feita mesmo no fim do texto e que é a seguinte, e cito: “é altura do Governo português assegurar as condições necessárias junto da multinacional para que a Autoeuropa seja parte integrante desta nova fase da estratégia produtiva da VW (“substituição de uma parte da produção dos carros com motor a combustão por viaturas com motor eléctrico”... sic).

Poder-se-ia questionar a oportunidade desta proposta conhecida que é a actual conflitualidade na empresa.

O Governo português anda atarantado com esta péssima guerra que estalou na pior altura dados os compromissos com o fabrico do T Roc. A empresa já avisou que o horário será o que indicou e tudo parece levar a crer que a Administração da Autoeuropa dificilmente mudará de opinião. Para já, está suspensa a contratação de 500 trabalhadores o que, aliás, prova que a CGTP apenas defende os trabalhadores empregados e não pensa nos que se amontoam à porta da empregabilidade, sejam desempregados sejam jovens à procura de primeiro emprego.

Não compete ao Governo andar a esmiuçar nesta questão da transição dos motores e, no caso em apreço, na política da VW. Para já, trata-se de salvar o que há e que está estupidamente ameaçado. O Sr. Carlos deveria passar pela Alemanha e falar com os seus colega alemães da VW e da poderosa central sindical a que pertencem. Claro que não o fará que aquela gente leva a sério os interesses da comunidade laboral no seu todo e, desde sempre renegou os princípios da IIIª Internacional, fonte de sofrimento e miséria para todos os trabalhadores e esteio da política “Klasse gegen Klasse” que protegeu o nazismo e, mais tarde, nos dois primeiros anos de guerra, levou a URSS (patética pátria dos trabalhadores) a ajudar fortemente o esforço de guerra de Hitler. Carlos e os seus amigos, sempre saudosos desses gloriosos tempos bem como dos que se lhes seguiram com o seu cortejo de gulags e privações, vem agora chutar para canto com uma proposta a destempo que, aliás, endossa para o Governo e não para os seus apaniguados na Autoeuropa. De facto, porque é que os sindicatos afectos a Carlos não fazem, eles próprios, essa proposta e a atiram para um governo que, actualmente, o PC (de Carlos e de outros) apoda de burguês, conservador e quase reaccionário?

 

* a expressão febeapá criada por Stanislaw Ponte Preta, aliás Sérgio Porto, significou, em tempos de violenta ditadura brasileira, “Festival de besteira que assola o país”. Esses textos imorredoiros estão publicados pela editora Civilização Brasileira e foram editados nos anos 60 e 70 no Brasil

 

26
Dez17

Au bonheur des dames 440

d'oliveira

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Febeapá que assola Portugal

(em memória de Stanislau Ponte Preta)

1º exemplo: A Fitch e a Esquerda

mcr Dez de 2017

 

Como se sabe (e quem não saberia tal foi o foguetório delirante que o Governo soltou?) a agência de rating Fitch subiu o nível de Portugal para BBB, salto de dois graus que põe a dívida portuguesa a esperar juros mais baixos e tira o país do lixo.

A notícia, goste-se ou não das agências de rating (e eu não as estimo dê lá por onde der), é um forte alento para a Geringonça ou, melhor dizendo, para o governo do PS. E tem o resultado de se poder emitir dívida a juros menores para, eventualmente, substituir dívida com juros mais elevados. E os efeitos sentiram-se imediatamente, mesmo se a política despesista que este Governo mantém para contentar os seus apoiantes à esquerda continua. Não é o princípio da via triunfal mas é já o começo do fim do caminho das pedras para citar forçadamente Churchill.

Toda a gente se congratulou ou, melhor, todos menos os do PC e do BE. As declarações da Sr.ª Catarina Martins e do Sr. Jerónimo de Sousa seriam pasmosas e aberrantes não fosse saber-se que não passam de reacções de pânico. De facto, um PS escorado em bons resultados, com um ministro na presidência do Eurogrupo, aureolado pelos lucros do turismo e pelo reforço das exportações, representa um perigo medonho para os seus parceiros menores. É que tem cada vez mais hipóteses de ganhar as legislativas que se aproximam com uma maioria absoluta. Ou pode preferir aliar-se a um renovado PPD, ou buscar apoio num CDS que lá vai fazendo o seu caminho amparado pela Sr.ª Cristas que cada vez consegue melhor imprensa e melhores opiniões.

Claro que muita água vai ainda passar debaixo da ponte mas um governo matreiro consegue nesta última etapa do seu percurso encostar os aliados às cordas tanto mais que tem sempre o argumento de ter cumprido escrupulosamente a sua parte nos acordos celebrados. E pode mesmo recordar aos portugueses que foram o PC e o BE que, numa ansia cega de derrotar a “reacção”, lhe estenderam o tapete vermelho e durante longos meses aquietaram a rua, os sindicatos, calaram os protestos sempre na mira de conseguir mais uma vitória.

É conhecida a frase “de vitória em vitória até à derrota final” e algum prenúncio dela ocorreu com as passadas autárquicas que só deu bónus ao PS e, em menor escala, ao CDS. O PC amargou dez Câmaras a menos e o BE não saiu da cepa torta. Foi, aliás, a partir daí que a “rua” se voltou a animar, com uma parada de greves e de ataques cada vez mais explícitos da banda da Esquerda.

Foi por isso que entenderam silenciar ou menosprezar a pequena (mas apesar de tudo simbólica) eleição de Centeno. Se, de facto, ela é sobretudo simpática, não menos verdade é que, para consumo interno, foi um enorme balão de oxigénio e isso mesmo foi entendido pela opinião pública, pelos media e pelo Sr. Presidente da República que hoje é uma espécie de oráculo. Mais: Centeno no Eurogrupo significa que a deriva despesista não ultrapassará os limites impostos pela Europa, entidade detestada quer pelo PC quer pelo BE como abundantemente já demonstraram.

Todavia, a questão da Fitch é mais grave para estes no-albaneses. Vir, como Jerónimo, afirmar que a Fitch não governa Portugal é uma burrice supina. Já se sabe que não governa. Nem quer. Nem é essa a sua missão. A Fitch apenas é um aconselhador de investimento internacional e se ela disser que Portugal (ou outro qualquer país) não presta, as condições de vida e a as finanças sofrem. Sofrem mesmo muito. Por muito que custe ao Sr. Sousa “as apreciações feitas pelas agências de notação” decidem muito em vez do nada que soltou na companhia do povo, claro, que nisto tudo apenas sofreu as consequências de notações más anteriores. Ninguém pretende que o dirigente do PC seja um génio financeiro (não o é de todo) mas ao menos que se aconselhe com quem sabe. No PC deve haver uma boa alma menos tola e com mais atenção ao real.

Vir, como o BE insinuou, afirmar “que não mudou absolutamente nada” e que deste género de agências “nunca vieram boas notícias” é puro autismo ou então endoidaram definitivamente.

Uma coisa é pensar que as agências de notação podem condicionar políticas e servir interesses de outrem. Não serei eu quem ponha as mãos no fogo por essa gente. Todavia, no estado actual das coisas, uma boa notação é sempre melhor que uma má. Dizer que uma gripe é igual a um cancro do pâncreas é sempre uma burrice que, sobretudo, não “pega” na opinião geral se é que sequer comove os adeptos mais fanáticos.

E seria tão fácil a Catarina e a Jerónimo desvalorizarem sem cair no ridículo a notação da Fitch. Quando a ideologia (e logo esta que deu abundantes provas ao longo do século XX) se substitui à razão e ao discernimento há que temer o pior. E recomendar uma camisa de forças para os que ignoram isto.  

*febeapá significa "festival de besteira que assola o país" e foi uma expressão cunhada por Sérgio Porto ("Stanislaw Ponte Preta" e deu título a alguns livros saídos no Brasil onde se atacavam os pofdres da ditadura brasileira e da sociedade em geral

24
Dez17

Au bonheur des dames 439

d'oliveira

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Caro Manuel, estás equivocado

mcr 2.12.17

 

Li com atenção o teu texto “Catalunha, uns séculos depois” onde, por estranho que pareça, defendes a surpreendente tese histórica de que o Conde Duque de Olivares foi derrotado pelos votos dos actuais catalães. Pelos vistos, entendes que a erroneamente apelidada “secessão catalã” era uma guerra idêntica à portuguesa (Restauração) e à holandesa (independência). Ora a verdade verdadeira é que a Catalunha não passava de um peão de brega da política de Richelieu toda focada no enfraquecimento dos Habsburgo. Tudo começou com a invasão do Rossilhão pelos franceses e, seguidamente, da própria Catalunha actual. As tropas espanholas enviadas para conter os franceses (e nelas se deveria incluir um exército português) entraram no território catalão com a mesma brutalidade dos franceses.

É verdade que Olivares defendia uma política centralizadora (tal como também Richelieu e depois Mazarin defenderam para a França...) que acabava com incongruências de todo o tipo dentro dos territórios da coroa espanhola. Nem todas as reformas do Conde Duque eram más e isso facilmente se comprova pela resistência com que se deparou principalmente por parte da Igreja e da grande nobreza, ciosas dos seus privilégios que eram muitos e debilitavam profundamente o país, envolvido em guerras contra quase todas as potências europeias.

Pelos vistos, não perdoas ao último grande valido do último rei filipino de Portugal o facto de este ter tentado defender o que era seguramente o interesse legítimo do seu soberano (Filipe IV de Espanha, III de Portugal).

Aliás, a tua obra sobre o Prior do Crato já indiciava que os “Filipes”, nomeadamente o I de Portugal não eram da tua simpatia. Todavia, convém lembrar que ele era o mais legítimo pretendente ao trono português depois do alucinado Sebastião, um tonto e um péssimo rei, se ter perdido nas areias de Alcácer Quibir, arrastando na sua estúpida morte o melhor da nação portuguesa.

O teu António, prior, poderá parecer (mas não é nem nunca poderia ser) um paladino da liberdade portuguesa, com muito ou pouco (e foi bem pouco) povo ao seu lado. Se é verdade que Filipe afirmou que conquistara e comprara o Reino também não e menos verdade que dizia que o herdara. E herdara-o depois de, em vão, ter tentado que o inconsciente primo não se metesse na aventura africana. Acresce que Portugal se manteve como reino numa monarquia dual e foi sempre governado por portugueses fieis ao Rei. E que Filipe tentou e, em certa medida, conseguiu desenvolver Portugal. Contra ele, apenas podemos apontar a funesta perda da nossa Esquadra destruída mais pela tempestade do que pelos ingleses.

A História é o que é e não poderemos imaginar como seria sob a coroa de Sebastião salvo de África, António ou algum descendente de qualquer deles. Teríamos evitado a perda Ceilão, a ocupação de parte do Brasil, a ocupação de Luanda, a permanente guerra de corso e de piratas fomentada por franceses, ingleses e holandeses em todas as nossas rotas comerciais?

Transpor rancores antigos para a Europa do sec. XXI, tentar ver a sombra medonha de Franco em Rajoy ou exaltar na Catalunha (partida ao meio mais pelo populismo do que pela Razão e pela causa do Progresso e da Liberdade) alguma insólita lembrança da “frente popular republicana” espanhola parece-me pelo menos insólito.

Ver na caótica frente independentista algo de futuro, quando tudo o que se disse a favor da separação tresandava a mentira (a pobre Catalunha “colónia” de Espanha; o apoio da Europa reduzido aos Vivas de um partido fascistóide flamengo, uma história que nunca existiu, um progressismo que a própria natureza política dos adeptos de Puigmont e da Esquerra desmente, para já não falar na contínua negação dos perigos de uma deslocação – que se verifica e poderá mesmo aumentar- das empresas para o resto do país) parece cegueira “anti-castelhana” sobretudo se soubermos que não são as autonomias do centro que mais atacam as reivindicações catalãs.

Citar Rubalcaba, defenestrado e episódico líder do PSOE, quando se sabe que os socialistas espanhóis são tão ou mais “constitucionalistas” que os “populares”, e omitir dezenas de outros dirigentes do mesmo partido que se têm continuamente pronunciado no mesmíssimo “El País”, não é de boa guerra.

Finalmente, parece que achas que o Governo (como todos os outros da UE) e o Presidente da República se “colaram” à Constituição espanhola, como se esta fosse a da Coreia do Norte, e a Rajoy é definitivamente um forte engano. Rajoy é um (episódico) Chefe do Governo actual mas legitimado nas urnas e por duas vezes. Toda a Europa – e muito bem – se pronunciou sobre esta questão. Negar a toda esta gente, ou só aos dirigentes portugueses, uma opção é negares a Ti próprio o direito de deles discordares.

Francamente, Manuel, francamente...

*o artigo de MA foi publicado na p.4 do “Público” na edição de 23 de Dezembro, p.p..

**na gravura "els segadors"