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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

15
Mai17

O leitor (im)penitente 203

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 8

(“Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique”)

Os livros são uma aventura sem fim, uma viagem sem bússola, um desvanecer de dinheiro pior do que consumir cocaína. O leitor voraz, nunca está satisfeito. Pede sempre mais e mais, quer tudo e mais alguma coisa, o que faz lembrar aquele cavalheiro medievo, Pico della Mirandola que, diz-se, sabia tudo e mais alguma coisa. Morreu cedo de tanto ler, mas não de tresler, deixando uma obra copiosa salpicada, nalguns casos (13!, número aziago!) de heresia de que, contrafeito, teve de abjurar. Pico lia tudo, comprava tudo o que corresse escrito e discutia tudo. Hoje, poucos o conhecem e menos ainda o leem (é o meu caso...) mas o homem, segundo a biografia que lhe dedicou um sobrinho, era da raça dos génios.

 

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A que vem esta lengalenga mirandoliana se o que pretendo é falar de um certo Rufino, fotógrafo e africanista, autor de dez gordos volumes pejados de fotografias sobre a colónia de Moçambique em 1929?

Pois apenas isto, o senhor José dos Santos Rufino por razões que não enxergo, resolveu, naquela data, arriscar muito dinheiro na publicação dos “Álbuns...” Não vislumbro que, à época, lhe sobrasse freguesia suficiente na colónia (em 1929, Moçambique era, oficialmente, colónia, abandonada que fora a designação de província ultramarina dos tempos da monarquia). Também duvido que, na Metrópole, houvesse uma multidão de entusiastas coloniais que compensasse o esforço e os gastos da edição. É que se trata de algo luxuoso, caro, fotografias algumas vezes enormes, tratadas, reveladas e editadas na Alemanha pela renomada firma Broschek & Co. (Hamburgo). São dez volumes oblongos (22x29cm) que no conjunto hão-se contar mais de mil fotografias, algumas em página dupla. A obra encerra fotografias das localidades mais importantes (Lourenço Marques, Beira, Tete, Quelimane ou Moçambique -mas não Nampula, na época um lugarejo sem importância -), instalações portuárias, comerciais, agrícolas e industriais, fauna, flora, arquitectura e monumentos e, no 10º volume, uma extensa mostra das populações nativas.

A qualidade das fotografias foi sempre aclamada mesmo se Rufino não conste na lista nacional, africana ou mundial dos grandes fotógrafos reconhecidos. Mas. é-o, indubitavelmente.

Hoje, a colecção pertence ao ex Banco Nacional Ultramarino e raras vezes aparece completa no comércio alfarrabista. Quando tal acontece, os preços são consideráveis (entre 750 e 1000 euros nas consultas que fiz) o que muito me entusiasmou porquanto fui pacientemente reunindo os volumes entre Dezembro de 2007 e Setembro de 2009. Tinha fixado uma tabela máxima por volume (€ 50) e consegui terminar o lote um pouco abaixo do limite que me tinha imposto, sobretudo porque consegui que todos os tomos estivessem em “bom” ou “muito bom” estado de conservação.

Para além do interesse estético, o que me interessou sempre foi o valor documental e, sobretudo, a confirmação do que sempre defendi: Moçambique é um país construído por portugueses, sul-africanos, indianos, alguns chineses, gregos, italianos e alemães. Deveria referir os africanos, isto é os negros indígenas que alombaram com o trabalho mas penso que isso está implícito sempre que se fala de África.

Também me pareceria interessante fazer notar o esforço de muitos mestiços que nos anos da construção do “Império” eram importantes (por todos, em Moçambique, a família Albasini) estatuto que foram perdendo durante o apogeu da colónia-província ultramarina. Para isso, portugueses e indianos contribuíram fortemente mas não é desdenhável a contribuição bóer, a provar que durante muito tempo, a mestiçagem não só não era proibida mas tinha estatuto social e económico. Anda por aí muito aprendiz falhado de anti-racista que desconhece que o apartheid foi obra de anos posteriores. Não é que antes não houvesse diferenciação racial (com pesadas e vis consequências) mas esta tal qual se tornou política oficial da RAS tem origem nos finais da primeira metade do século XX.

E, mesmo que Moçambique não fosse um paraíso racial (longe disso), as diferenças entre o estatuto de brancos e não brancos era algo de infinitamente menos ignominioso do que em muitas outras zonas de África. Não desculpa nada mas não pode ser esquecido.

 

* nas fotografias que se juntam aparece a palavra “mufano” para significar criado jovem. É uma adaptação tola e masculinizada do termo ronga “mufana” que significa rapaz, jovem. O feminino, no mesmo vernáculo, é tombazana.

 

13
Mai17

Au bonheur des dames 424

d’Oliveira

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Oh que semana!...

O Papa! Os pastorinhos! O quarto pastorinho que exerce de Presidente da República e de modelo para selfies! Isto vai ser um regabofe de piedade ultramontana e peregrina. Mesmo estimando bastante Francisco I, um Papa vindo do outro lado do mar e, provavelmente, do outro lado da Igreja, educado na disciplina intelectual da Companhia de Jesus, herdeiro da tradição de uma Ordem que, mais do que qualquer outra, foi alvo contínuo de admiração intensa e de perseguição sem quartel, vou ouvir até à exaustão (até ficar surdo?...) o relato das suas 23 horas em Portugal, capital Cova da Iria. Os jornais e as televisões andam desde há dias numa sarabanda noticiosa onde tudo, mas tudo, é contado, recontado, requentado. Ele são as caminhadas dos peregrinos que juram a pés juntos que “o caminho” é uma experiência imorredoira (isto lembra-me as histórias do “caminho de Santiago”, bem descrita naquele admirável “codex calistinus” de que não se arranja facsimil decente e a preço honrado), as obras no santuário (raras vezes se conseguiu arquitectura tão trivial, tão desconsolada. Agora até há um terço gigante, cópia, julgo, de um outro existente na América do Sul...

A pátria está comovida e em estado de sítio, fronteiras semi-fechadas, milhares de polícias e similares de prevenção, um feriado na sexta (hoje mesmo se o Papa só chega lá para a tardinha) para que a lusitana gente possa consagrar-se desde matinas até vésperas à oração, ao cilício e ao jejum.

Vamos ter Fátima à fartazana. Isto só acabará com o “tetra” que sempre fugiu ao Benfica. Desta feita, os pastorinhos, finalmente santos, darão essa alegria à torcida encarnada.

 

Para trás, ficam os desastres do Porto, ou seja, a defenestração do PS. Nunca compreendi que um partido com a dimensão deste não concorresse à Câmara. A menos que, nas hostes do dr. Pizarro reinasse a convicção (nada absurda, por acaso) de que Rui Moreira tinha a eleição no papo. Mesmo assim, havia precedentes: o PS arrolou contra o imbatível Rui Rio Francisco de Assis e Elisa Ferreira que sabiam o desagradável destino que os aguardava (derrotas severas, claro).

A futura disputa eleitoral vai ser curiosa: Moreira elogia Pizarro (beijo da morte?), este responde no mesmo tom. Que plataforma eleitoral irá o PS apresentar que o distinga claramente da “situação” camarária em que durante quatro anos se empenhou? A Moreira basta prometer mais do mesmo, mas para o PS parece necessária uma violenta epifania coisa que provavelmente estará na cabeça do dr. Costa que, também, peregrinará com a conhecida unção a Fátima. (a drª Ana Catarina Mendes talvez vá mas terá de fazer o percurso de joelhos para ver se aprende que à política também se aplica a expressão “muita cautela e caldos de galinha”. Que lhe aproveite! ).

Dos restantes candidatos pouco há a dizer. O PSD apresenta um desconhecido enquanto BE e PC recorrem a duas figuras já conhecidas e, aliás, um tanto ou quanto usadas. Vê-se que a imaginação e a renovação começam a rarear nesta banda. Nada de novo a leste.

 

O terceiro mistério gozoso deste rosário (Fátima oblige) é a reconciliação Porto Sporting. Não há nada como perder campeonatos para juntar os derrotados numa aliança sem futuro. Haverá alguma coisa comum a estas duas instituições (tirante o facto de jogarem à bola)? O Sporting é mais um clube de Lisboa (onde também coexistem o Benfica, o Atlético, o Oriental e até o Belenenses. O Porto é o arauto da cidade mesmo se, provavelmente terá nela menos adeptos do que nas imediatas cercanias. O Boavista nunca lhe disputou o lugar mesmo no tempo fantasioso dos Loureiros, pai & filho. Porventura, nos anos 40, o Porto teria no Sporting dos cinco violinos o verdadeiro adversário lisboeta e “centralista”. Mas isso foi há gerações e, de facto, o seu único adversário, aquele que conta, aquele que coloca as claques fanatizadas em pé de guerra, é o Benfica. O Sporting, para o Porto e para a opinião pública é um clube com vocaçãoo de terceiro lugar, ou seja, não existe. Fazerem as pazes ou zangarem-se, restabelecerem relações institucionais é, para o universo dos adeptos e da paisanagem que, como eu, nada tem a ver com eastes cavalheiros, zero, menos do que zero. Mesmo para este sofrido e infiel adepto da Naval 1º de Maio, isto é uma não-notícia cuja duvidosa utilidade é só esta: entrar na crónica de hoje e fazer-nos rir.

Acabemos a litania com Costa. De quando em quando, o homem tem boas saídas. João Miguel Tavares, cronista do Público tinha criticado a “tolerância de ponto” que lhe punha os filhos (quatro!, que coragem!) em casa quando ele e a mulher tinham imperiosamente afazeres profissionais. Na crónica, propunha Tavares, que Costa lhe tomasse conta dos miúdos já que lhe (JMT) parecia difícil obter um emprego de curta duração na função pública. E não é que Costa aceitou cuidar das crianças! Tavares, ele mesmo, informou o jornal e até terá publicado uma fotografia dos meninos em S Bento. De vez em quando assistimos a estas trocas civilizadas e pensamos que isto é outro país. Bem jogado, dr. Costa (e bem jogado também, JMT.)

Era para acabar mas afinal ainda há mais: em França, os primeiros candidatos de Macron são classificados assim, dois terços à esquerda e os dois sextos restantes igualmente divididos por direita e centro. convém notar que são apenas os primeiros e que ainda falta muita gente. Um segundo ponto: o movimento “en marche” não apresentará candidato contra Manuel Valls, situação que se repete em relação a alguns candidatos do grupo de Jupée. Mas não aceitaram Valls, o imprudente, nas suas listas, o que também diz bastante.

O terceiro ponto desta investida além Pirinéus, é a verificação de uma vergonhosa campanha contra Brigitte Macron, mulher do Presidente. Parece que o facto de ser 24 anos mais velha que o marido, de ser inteligente e, ao que se diz, apaixonada pelo marido – e ele por ela- assenta mal nos pergaminhos de uma República em que os presidentes traem as respectivas, andam escondidos em aventuras amorosas ou como o imortal Félix Faure, morto no “campo da honra” ou seja nos braços da amante em pleno Eliseu.

Finalmente, prosseguindo na sua cruzada contra a reacção, o capitalismo, o imperialismo, o cosmopolitismo, etc., etc.., o senhor Mélenchon entendeu viajar até Marselha para se candidatar a deputado. Em Marselha, no círculo em que o admirador de Maduro concorre, há um deputado eleito do Partido Socialista que agora vê a sua candidatura mais ameaçada. Já agora, recordemos que, na passada eleição legislativa, Mélenchon foi fragorosamente derrotado no Pas de Calais por Marine Le Pen e pelo candidato do PS. Agora, à cautela, tenta Marselha no extremo oposto da França... Assim vai o mundo...

Finis, laus Deo.

* Na gravura: António Costa recebe os filhos de JM Tavares em S Bento. Chapeau!

 

08
Mai17

estes dias que passam 348

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Uma vitória, duas derrotas

Eu sei que as eleições francesas já deram o que tinham a dar. Macron ganhou, diz-se (e é gloriosamente verdade) e basta. Não, não basta. Não basta por toda uma série de razões: Macron neste momento já vai nos 66, 1 contra 33,9 de Le Pen. Ou seja já está quase no dobro da adversária. É uma derrota pesada, pesadíssima para esta, digam lá o que disserem.

Mesmo com uma crescente abstençãoo, Macron ganha folgadamente, o que significa não apenas a rejeiçãoo da adversária mas também, que diabo!, a aceitaçãoo de algumas das suas propostas.

Os arautos da insubmissão (e amigos da Maduro, convém lembrar) não conseguiram impedir esta limpa vitória, sequer ensombrá-la. Das duas uma: ou os seus eleitores menos próximos desobedeceram às vergonhosas recomendações de voto branco (e estou em crer que foram bastantes) ou outros antigos abstencionistas perceberam que isto não era a feijões e que a tese ultra imbecil do “quanto pior melhor” tresandava.

Há uma certa ironia histórica nisto. Em tempos não demasiadamente recuados (Alemanha nos anos 30) o forte KPD (Partido Comunista Alemão, obedecendo ao Komintern, lançou a política “Klasse gegen Klasse” (classe contra classe) atacando com a máxima virulência o SPD (Partido Socialista) que foi considerado a “vanguarda da reacção”, um bando de social-fascistas e outros mimos do mesmo género.

Foram baldadas as tentativas de criar uma frente comum anti Hitler, e o resultado foi devastador. Uma vez no poleiro o “pintor de paredes” ilegalizou o PC e mandou os seus deputados e dirigentes para os campos de concentração entretanto inaugurados. O PS não demorou a seguir este destino mas por uma causa nobre: os socialistas negaram votar os “plenos poderes” a Hitler e foram, por sua vez, reduzidos à prisão e ao exílio.

Quando a classe contra classe morreu já era tarde. Todavia, logo que a guerra eclodiu, os partidos comunistas, mais uma vez em obediência cega às directivas da 3ª Internacional, condenaram as potências democráticas e declararam-se neutrais. Em França, levaram o atrevimento impudente a solicitar das entidades ocupantes, licença para voltar a publicar”L’Humanité”. Os alemães recusaram.

Foi preciso que a Alemanha invadisse a URSS para, então, os comunistas ocidentais se proclamarem anti-fascistas e combatentes!...

Felizmente, anda restava em França alguma memória destes tempos miseráveis em que os comunistas silenciavam as atrocidades do ocupante e o servilismo de Vichy. (para memória: logo que a ocupação alemã se tornou efectiva, Paul Nizan, destacado intelectual comunista, recusou a directiva da Internacional. Foi acusado pelo servil Thorez, dirigente do PCF, como traidor e polícia!...Assim se vê de que lado estava a inteligência e em que fossa nadava o colaboracionismo dos pseudo-revolucionários vermelhos. )

Voltando às eleições francesas, depois desta digressão infelizmente necessária dada a ocultação da história recente: A vitória de Macron é também a vitória de quem vê o mundo actual tal como ele é e está, contra os saudosos do passado. Queira-se ou não, 2017 não é 1917, 1870 ou 1789. O mundo em vogam inocentemente os Mélenchons e os seus amiguinhos e amiguinhas portugueses, não existe, não volta. Se importa mudá-lo convém, para já, compreendê-lo, explica-lo.

E para tal, é necessário rearmar a ideia de Europa, desta comum Europa que, pela primeira vez na História está em paz há mais de setenta anos. Em França ou cá, onde também, quatro tristes agoureiros (ou agoureiras) pretendem convencer-nos contra a mais plácida e visível evidência de que o euro, a Europa, o cosmopolitismo, são a doença e não a cura. Há que melhorar as coisas? Claro! Há que democratizar as instituições comunitárias? Sem dúvida! Há que repensar a política internacional e interna? Absolutamente (e aqui vai uma dica: conviria pensar num parlamento nacional eleito mais democraticamente sem se elegerem deputados à molhada. Seria bom podermos chamar à pedra o fulano (ou fulana) que elegemos para ver se não se escondem na multidão que vota sem ligar nenhum aos eleitores).

A vitória de Macron é, sem qualquer dúvida, uma vitória sobre a direita, nacionalista, autoritária e xenófoba mas também sobre uma esquerda identicamente autoritária, igualmente nacionalista e, graças à sua diabolização da mundialização e do espaço europeu, recorrentemente xenófoba também. Digam eles o que disserem. Para caricaturas de Maduro, já chega o “Podemos”, não precisamos do pobre Mélenchon.

Paz à sua alma. Amén!

* na gravura duas bandeiras: a francesa e a europeia. É assim que se pode fazer a História. Assim seja. 

02
Mai17

Au bonheur des dames 423

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Nuno Brederode, secreto e discreto

 

A notícia chegou-me tarde pelo “Público” através de uma pequena nota necrológica e de um texto de Seixas da Costa. O Nuno morrera no dia anterior (30 de Abril) de “doença prolongada”.

Conheci o Nuno no dia em que, em Coimbra, se celebrou o 1º (e único) “Encontro Nacional de Estudantes”. Pelas minhas contas terá sido em 61, ou seja há 56 anos! Uma vida...

Não sei se é possível afirmar que ficámos amigos a partir desse dia. Isto nunca é assim tão simples, mas a verdade é que nos voltámos a encontrar no “Dia doe Estudante”, em Março do ano seguinte e muitas vezes durante os meses que se seguiram. Depois, o Nuno arribou a Coimbra, expulso da Universidade de Lisboa e calhou sermos colegas de curso e até, termos vagamente estudado juntos algumas vezes. Foi nessa altura que me apercebi que estava frente a uma das pessoas mais inteligentes com me vim a cruzar.

Inteligente, culto, excelente conversador, de uma ironia a toda a prova e já, naquela altura, um fanático da discreção. Por qualquer razão que nunca perguntei, o Nuno mostrava-se avesso à luz crua dos holofotes e preferia ,ou isso é a minha percepção, a conversa, o debate, a discussão “en petit comité”.

Vivendo em cidades diferentes só nos encontrávamos de longe em longe, situação que se modificou após os 25 de Abril. Durante quase um ano fomos camaradas dentro do MES, comungando da mesma visão sobre a política nacional e a partidária. O Nuno bateu com a porta antes de mim, engrossando o grupo “sampaísta”, enquanto eu, baldadamente, aguardava acto idêntico do meu grupo de amigos com o qual tinha aderido. Ao fim de pouco tempo, enchi uma dúzia de folhas de papel, enderecei-as À Comissão Política do Porto e desandei em paz com a minha consciência, lamentando o tempo perdido e prevendo um fraco futuro par aquela pequena organização que acabara por se definir comunista, marxista-leninista e, sobretudo, aberrantemente tola e presunçosa.

Por razões profissionais comecei a ter de ir a Lisboa várias vezes ao mês. Aproveitei para começar a frequentar assiduamente o snack-bar do Hotel Florida que era a cantina dos meus amigos sampaístas (o Jorge e a Maria José, o César Oliveira meu antigo colega de Coimbra, o Nuno, o Joaquim Mestre, outro cavalheiro partidário da discreção, o Luís Nunes de Almeida, o Nuno Portas, o Francisco Soares, o João Bénard da Costa e, não tenho a certeza, o Zé Manuel Galvão Telles) que em breve formariam o G.I.S. (Grupo de Intervenção Socialista) de que fui “compagnon de route” (não valia a pena ser mais visto viver longe e não ter hipóteses de participar nas discussões e elaboração de programa). Aliás, pouco depois, este grupo entrou no PS coisa que adiei por bastante tempo. E pouco depois de entrar fui-me distanciando sem apelo nem agravo até readquirir a qualidade de independente. E foi já nessa qualidade que participei na campanha guterrista e no Conselho Coordenador dos Estados Gerais onde o voltei a encontrar.

A partir da eleição de Jorge Sampaio para Presidente da República, apenas sabia que (como convinha ao seu feitio) era Conselheiro do Presidente mas, com grande pesar meu (e maior preguiça) já não o encontrei mais.

Ou melhor:  volta que não volta encontrava-o nas páginas de um livrinho magnífico (“Rumor Civil” Relógio de Água, ed., 1990?).  Sempre que o encontro nalgum alfarrabista, prontamente compro para oferecer aos meus melhores amigos. Trata-se, sem exagero nem qualquer dúvida, de um dos melhores livros de crónicas aparecidos nos últimos trinta ou quarenta anos. Um escrita deliciosa, irónica, expressiva, inteligente e cuidada. Alguns, muitos, quase todos ,dos seus textos são francamente antológicos e retratam Portugal com verdade, verve, sensibilidade, humor e amor.

Como de costume, com o Nuno, este livro foi surpreendentemente “filho único” quando seria de esperar que da mesma pena saísse mais uma boa e entusiasmante dúzia de obras. Mas aquele sacana era mesmo assim: parco e discreto, demasiadamente discreto, quase secreto. Fica na memória dos amigos como um segredo bem guardado. Que desperdício...

Que saudade...Que remorsos por o não ter procurado mais vezes.

*A fotografia do NBS que se junta é bem antiga, foi pilhada na internet e mostra um Nuno jovem tal qual o conheci

 

 

28
Abr17

Au bonheur des dames 422

mcr

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 mistérios gozosos

 

Não lembrava ao malacueco esta de o Governo dar uma folga no dia 13 de Maio. que diabo, o país é laico, este Governo afirma-se pujantemente herdeiro da 1ª República, da do Sr. Dr. Afonso Costa, renega (como Mafoma do chouriço) do beatério que, segundo alguns dos seus maiores entusiastas, inquinava o Estado Novo. Que eu me lembre, nunca Fátima, "altar do mundo", mereceu semelhante feriado.

Poder-se-ia pensar que o Governo pretende dar aos funcionários públicos uma oportunidade de ir ver o Papa ou de ir recolher-se na Cova de Iria para celebrar a entrada dos três pastorinhos na lista longa, longuíssima, de santos e beatos que povoam o orbe celestial.

Ou, de outro modo, e mais certamente, esta borla vai dirigida ao 4º Pastorinho, o Sr.   Professor Marcelo (Rebelo de Sousa), católico assumido e anunciado peregrino a Fátima. Sª Exª fica assim livre para faltar por um dia a Belém se é que ao Augusto Magistrado também se aplica o regime da tolerância de ponto. 

Nada tenho, bem pelo contrário, contra Fátima (exceptuado o mau gosto das construções religiosas e civis lá semeadas a esmo), muito menos contra o mais que maioritário povo católico (em que incréus como seu são uma imensa minoria) ou contra a visita de um Papa com que simpatizo fortemente. 

Todavia, esta medida extemporânea, esta excessiva generosidade em conceder feriados (num período que começou a 25 pp, continuará a 1 de Maio p.f., e se alongará brevemente com os santos populares, 10 de junho, Corpo de Deus etc...etc...) parece-me atoleimada, oportunista e fora de qualquer razoabilidade.

A César o que é de César, e a Deus o de Deus. Receba-se Francisco com a pompa e o respeito que merece não apenas por ser Papa mas também por ser quem é (e é muito).  Que o Presidente da República lá vá, plenamente de acordo. É o Chefe do Estado a receber outro Chefe de Estado. Ao fim e ao cabo, Portugal nasceu pela força das armas de Afonso Henriques e pelo reconhecimento papal , mesmo, se depois, foram vários os nossos reis que o Vaticano escomungou, pelo menos temporariamente. 

Não se faça, porém,  disto, desta visita, dos pastorinhos mais do que aquilo é. Sobretudo num país que impavidamente assistiu à defenestração de Santo António, o maior santo português, um dos grandes santos da Igreja,um intelectual de envergadura e um santo imensamente popular, cuja rua no Porto, chamada de Santo António desde sempre, foi rebaptizada para 31 de Janeiro, uma data pouco gloriosa, uma derrota  vexatória, uma jornada em que segundo conspícuos historiadores da época, andavavam por alí "uns dinheirinhos da polícia". Há no Porto imensas ruas que poderiam ter outro nome. A dois passos da do 31 de Sto António há a de Entreparedes que já nada significa para ninguém. Mas não, tinha de ser na rua onde uns escassos centos de amotinados republicanos foram varridos pelo tiroteio da polícia municipal deixando pelo caminho farta dose de chapéus e bonés. Santo António, mesmo tendo várias patentes militares e uma cidade a ele dedicada, foi varrido da toponímia municipal pelo mesmo republicanismo vesgo que apeou D João III, o grande protetor da Universidade de Coimbra, quiça, o mais importante na sua história para dar ao liceu com o seu nome o de um praticamente descnhecido e esquecido político da República. 

"É assim que se faz a história" e também, do mesmo modo atabalhoado, se fazem feriados. 

26
Abr17

au bonheur des dames 421

mcr

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À atenção de alguns comentadores “distraídos”, muito distraídos.

 

Comecemos pelo óbvio. O senhor Macron ganhou a 1ª volta das presidenciais francesas. Teve 24, 1% contra 21,3 da senhora Le Pen.

Até aqui pouca novidade. Tratava-se de uma vitória anunciada. Além de tudo o mais, Macron já levava na bagagem importantes apoios de conservadores e de socialistas. A senhora Le Pen vê a sua margem crescer de 17, 9% há cinco anos para os actuais quase 21,3%. Conviria verificar se no meio deste crescimento não vão alguns votos fugidos ao senhor Fillon, candidato “gaulista”. De todo o modo, é uma meia vitória com sabor amargo

O Dr Pacheco Pereira, num artigo demasiado apressado, publicado no dia 24, fala em “pesada derrota” dos gaulistas e dos socialistas. Não se percebe como é que mete no mesmo saco dois resultados tão abissalmente diferentes. Fillon, apesar de ter esbanjado a sua candidatura por via dos empregos fictícios da mulher e filhos, ainda conseguiu mais de 20%. Se compararmos a sua votação com a de Sarkozy na última eleição (27%) temos que vê fugirem-lhe cerca de 7% do total de eleitores. Já o surpreendente candidato socialista dá um trambolhão de 28,6 (Hollande em 2012) para pouco mais de 6%. É obra. Aqui, sim, há uma pesadíssima derrota. Mesmo que se saiba que muitos dos votos socialistas fugiram, por raiva, desespero ou o que quer que seja para o senhor Melenchon de que já se falará.

A derrota (importante) de Fillon) não compromete demasiadamente “Os Republicanos” enquanto que no Partido Socialista está tudo para reconstruir. E está porque a escolha de Hamon foi, ela própria, um desastre de todo o tamanho. Hamon nunca passou de uma figura apagada, desconhecida do grande público na melhor hipóteses e antipática para os que o viram combater (não vou dizer trair) Hollande depois de ter aceitado ser ministro...

Hamon nunca foi dado como candidato com hipóteses mas o fiasco é estrondoso. Deixou de existir politicamente. No PS e na França.

Vejamos o caso Melenchon, um tonitruante ex-socialista, criatura arrebatada que desde há muito vive de slogans grandiloquentes e de um cachecol vermelho que deve ser a única coisa eventualmente revolucionaria com que se adorna. Teve o dobro dos votos da eleição presidencial anterior. Como suspeito, muitos, quase todos, virão de eleitores socialistas que, muito justamente, não se reviam na inconsistente figura de Hamon. De todo o modo, Melenchon é, no conturbado panorama político francês, um exemplo de tudo o que é antiquado, falso, desvairado, na esquerda francesa. O homenzinho apresenta-se, actualmente, como alguém que se inspira nos populistas latino-americanos nomeadamente Chavez (e o seu discípulo dilecto Maduro) e Correia. Chavez, ex-golpista inventou uma coisa chamada bolivarianismo que é uma espécie de cocktail demagógico do pior da tradição sul americana. Conseguiu colocar a Venezuela ao bordo do precipício donde o seu alucinado sucessor se prepara para o grande salto para baixo.

A Venezuela é hoje um país absolutamente falido, onde a maioria popular votou um parlamento anti Maduro, onde um submisso Supremo Tribunal nomeado pelo Presidente tentou desqualificar a representação popular, onde um exército visceralmente dependente do poder mata com a ajuda de milícias civis os manifestantes desarmados. Não se passa dia sem mortos por bandos de motoqueiros mascarados, sem pessoas gaseadas pela polícia do regime, sem condenações à perda de direitos políticos, sem continuada e persistente prisão de opositores, sem pão nas padarias, sem medicamentos nas farmácias. Onde tudo falta já só sobra a raiva.

É deste desacreditado regime que Cuba cada vez mais tenta afastar-se que Melenchon se reclama. As suas hostes intitulam-se les insoumis, la France insoumise, enfim uma patetada que nada significa e que, sobretudo, de insubmisso nada ou pouco tem. Trata-se como no campo de Le Pen, de um aglomerado de criaturas órfãs do velho PCF, de uma pequena burguesia citadina e rabugenta que odeia a Europa, a mundialização, que não percebe o seu declínio enquanto classe e enquanto federação de privilégios ameaçados. A única diferença que há entre estes “insoumis”e as gentes lepenistas é que aqui subsistem os restos de um velho proletariado francês e comunista que viu as suas regiões industriais morrerem. É apenas ir consultar os velhos mapas eleitorais relativos aos anos 60, 70 e 80 do último século. Algo, todavia as aproxima: Le Pen é abertamente xenófoba enquanto Melenchon o é disfarçadamente. A sua recusa da Europa e da mundializaçãoo é isso mesmo: la France d’abord. Mesmo se essa França “gloriosa” (algo que enche a boquinha mimosa de boa parte da inteligentsia melenchonista) seja tão só saudades de um passado morto e enterrado

Quanto a caceteiros são iguais. Ainda em pleno dia eleitoral, em Paris, pequenas mas bem organizadas hordas “insubmissas” começaram a manifestar-se violentamente logo que os primeiros resultados apontavam para o 4º lugar do seu caudilho.

Pouco depois, nos diferentes debates televisivos transmitidos pelas televisões francesas, viu-se a componente política dos jovens energúmenos. Interrogados sobre quem apoiariam na 2ª Volta, os porta-vozes de Mélenchon rematavam para canto, harangavam sobre a subida do seu candidato, acusavam Macron (muito mais que Le Pen sobre quem quase nada diziam). Nessa altura já Fillon e Hamon apelavam ao voto em Macron.

Para esta duvidosa caricatura do “maduro-bolivarianismo” avec sauce française, além dela tudo é igual e mau. A velha e gloriosa “Internationalle” conta nos seus versos este: “du passé faisons table rase”. Na langue de bois dos melenchonistas já não se trata do passado mas sim do presente. Como quem diz: morra Sansão e quantos aqui estão. No caso em apreço, parece que esta gente prefere um quinquénio Marine Le Pen que, depois, milagrosamente, provocaria um sobressalto cívico e “revolucionário” (!!!) que inauguraria finalmente “os amanhãs que cantam” sob o consulado de Melenchon que, à falta de barrete frígio, sempre tem um cachecol vermelho.

Por cá, vê-se, com parca ou nula surpresa, a mesma atitude. BE e PCP, jurando sempre pelo mais exaltado anti-fascismo, já enterraram Macron debaixo de toda uma série de acusações, as mais das vezes pouco credíveis. O que os arrelia é a atitude pro-Europa do candidato francês. Comunistas e bloquistas são visceralmente contra o “cosmopolitismo”. Os primeiros sempre foram, convém salientar. Nos bons tempos do stalinismo puro e duro a acusação de “cosmopolitismo” era das mais graves. Na URSS e satélites levava ao gulag ou a destinos definitivos e piores. Nos partidos comunistas do Ocidente era quanto bastava para excluir militantes.

Para estas criaturas o “internacionalismo” (que já nem é “proletário”...) traz um perfume perigoso de livre troca de ideias, de liberdade de apreciação e de comparação que é, como se sabe, um preventivo para as ideias feitas e para o autismo político. Uma França activamente pro-europeia estraga os vagos projectos desta esquerda desacreditada ideológica e socialmente. No caso do PC nem sequer a memória desse velho bolchevique que se chamou Álvaro Cunhal parece ser apreciada. Todavia, foi ele, que no confronto Soares Freitas do Amaral (que na altura era acusado de tudo) mandou (repito: mandou) votar no primeiro mesmo que isso significasse engolir um elefante. Quanto ao BE, é o costume: um ligeiro toque de “radicalismo pequeno burguês” (variante benigna da “doença infantil” denunciada por Lenin) e um tom de ambiguidade que servirá para, oportunamente (ou oportunisticamente) salvar a face e deixar cair a senhora Le Pen, aliada táctica e estratégica.

 

* A ilustração reproduz a capa de um famoso texto do senhor Marquês de Sade, escritor que seguramente não diz nada aos cavalheiros leitores do PC e do BE. Ainda bem!...

11
Abr17

au bonheur des dames 420

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Morte, onde está a tua vitória? 

Conheci a Professora Doutora Maria Helena Rocha Pereira no longínquo ano de 1961 quando me aventurei a entrar numa aula de História da Cultura Clássica.

Expliquemo-nos: eu era um pobre caloiro de Direito que já não aguentava a aridez das aulas nos Gerais. Por outro lado, a Faculdade de Letras era mesmo ali ao lado, passando (saindo) a Porta Férrea. 

Letras era o reino das raparigas, sexo raro, raríssimo em Direito. Depois havia um bar! Um bar! Um sítio onde se podia beber uma bica e mirar les jeunes filles en fleur. Le bonheur, quoi! 

Num dia, sentindo-me particularmente audacioso, segui uma bela rapariga de olhos grandes e prometedores (mais tarde, a verdade, a "áspera verdade" -Danton - destruiu-me as esperanças: Aqueles olhos que se cruzavam com os meus -admiradores e arrebatados - eram, afinal, quase cegos, enfim terrivelmente míopes pelo que a aceitação que lhes adivinhava era apenas uma total incapacidade de me ver! ) até ao grande anfiteatro onde a Doutora Rocha Pereira oficiava de grande pitonisa dos Estudos Clássicos. 

Não vou dizer que foi amor à primeira mas quase. A voz suave, o sorriso, a elegância,  a clareza da explicação de um passo da Odisseia, aquele em que Ulisses chega à Ilha dos Feácios e vê - e fala - com Nausicaa, criaram em mim uma tal impressão que, numa correria, Quebra Costas abaixo fui dali à livraria Atlantida comprar, endividando-me, a "Hélade" que li num rompante. A partir daí, sempre que podia, evadia-me dos Gerais e caía certeiro  nas aulas de Cultura Clássica. Às tantas, com a coragem dos conversos de fresca data, no fim da aula, fui falar com a Professora, explicando-lhe quem era, o que fazia nas suas aulas e pedindo licença para assistir. Divertida, a Doutora Rocha Pereira observou-me que eu já invadira duradouramente as suas aulas e gabou-me o gosto pela Grécia. De passo, autorizou-me a frequentar as suas lições.

Em troca de tal gentileza, falei-lhe de um conto de uma velha escrava da minha avó Aldina onde um audaz viajeiro enganava um gigante com um só olho no meio da testa e que por isso se chamava Olharapo". Ou seja numa perdida cidade do Sul de Angola, a Chibia, alguém adulterara e pintara de escuro um personagem da Odisseia e, de par, o astucioso Ulisses. A Professora ficou encantada e repetiu-me o convite para assistir às suas aulas.  

Os anos, tantos anos, passaram mas a minha admiração persistiu e cresceu. Li muito sobre gregos e sempre me surpreendeu verificar que por maiores que fossem os autores que frequentei e que possuo, em todos eles, ou nos melhores, descobria afinidades com Rocha Pereira. Ela estava (está) entre os maiores, entre os melhores. Ler os seus escritos sobre a Grecia ou sobre Roma é não um exercício mas um prazer, um passeio por um tempo que continua tão presente entre nós.

Conheci, em Coimbra, alguns grandes Professores (Ferrer Correia, Mota Pinto, Teixeira Ribeiro em Direito, Luís de Albuquerque nas Ciências, Paulo Quintela, Fernandes Martins, ou Rocha Pereira em Letras. Com todos privei de perto, escutei-os com atenção (e adiração) aprendi o que pude que foi muito menos do que eles quiseram ensinar-me. Devo-lhes muito do que sou e a todos recordo com saudade e respeito. Agora chegou a vez da "Velha Senhora" dos Estudos Clássicos. Alguém nos jornais admirava-se de ela nunca ter ganho o Prémio Pessoa. Acho que foi o prémio que perdeu, foi o seu júri que não percebeu que estava ali uma estátua viva, uma sábia do tempo dos sete sábios míticos, alguém que escutava a melodia dos deuses e entendia todas as subtilezas dos velhos coros teatrais. Não deram conta? Esqueceram-se? Bom proveito lhes faça! Mas passaram ao lado de uma oportunidade única de premiarem o melhor que havia em Portugal, algo que só entre raros helenistas alemães, franceses e ingleses tinha par.

Agora é tarde, Inês é morta. Helena, Maria Helena da Rocha Pereira está viva e quem não for demasiado distraído deverá correr às livrarias à procura das suas obras.    

01
Abr17

estes dias que passam 347

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Calma, malta, calma

(ou Calma no Brasil que Portugal ainda é nosso!)

 

Um cavalheiro holandês de seu nome Jeroen Dijsselbloem (leia-se, aproximativamente “daisselbleme” coisa que nunca devia prestar-se a patetices alegadamente jocosas ) entendeu explicar a sua política quanto a auxilio ou solidariedade económica entre Norte (dador) e Sul (receptor).

Diz a criatura que não se pode emprestar dinheiro a quem o gasta em “mulheres e copos”. Tem toda a razão. Eu também não emprestaria o meu escasso cacau a quem o fosse malbaratar.

O problema é que Dijsselbloem falava enquanto líder do Eurogrupo e referia a realidade Norte - Sul da Europa. A sensatez ou apenas a prudência aconselhariam usar uma imagem menos popularucha mas aquela cabecinha pensadora foi mais feita para usar brilhantina do que para usar bom senso.

A reacção não se fez esperar, pelo menos por cá onde as famílias se endividam alegremente para um carro novo ou tão só para ir passar umas férias numa praia das Caraíbas.

A indignação (verdadeira ou fingida) subiu ao Parlamento, inundou as televisões e juntou uma multidão ofendida pronta para ver o holandês queimado numa pira no Rossio. Há mesmo um grupo de cidadãos ultrajados que lançou uma petição para correr com o holandês. Trabalho escusado visto que a criatura, estando de saída do governo holandês, perde praticamente a hipótese de continuar no governo da Europa. De todo o modo, os peticionários deveriam arranjar um argumento melhor para defenestrar o batavo: por exemplo provar que no exercício das suas funções era incompetente.

Pessoalmente, Djisselbloem não me consegue ofender. Primeiro sou um moderadíssimo bebedor, depois não pago a mulheres. Sei que vivo num país onde há prostituição mas nunca a vi em montras no centro da cidade como em Amsterdão. Também nunca vi espectáculos de borracheira colectiva como na Alemanha, na Holanda para não falar de outros países do Norte onde o fim de semana é um triste desastre de coma alcoólico quase colectivo. De certo modo, por cá bebe-se com alguma regularidade mas com bastante contenção (não refiro as tristíssimas festas da Queima das Fitas onde os cortejos são um desfile de criaturas propositadamente embriagadas. De qualquer maneira, isso sucede uma vez por ano o que se não é desculpa também não deve ser levado demasiado a sério).

O senhor Djisselbloem poderia ter feito as suas críticas, os seus avisos com a educação, o tacto, a diplomacia que se exige de tão alto cargo. Ninguém, honestamente, pode pôr em dúvida, que os chamados países do Sul nem sempre mostraram bom senso, cautela e muito menos rigor no tratamento das suas desastradas finanças públicas. Eu, se fosse um anónimo cidadão do Norte também desconfiaria da ajuda aos do Sul mesmo se, depois, temperasse as minhas suspeitas com uns pós de solidariedade.

Nestas coisas lembro-me sempre da senhora Merkel que, ainda há poucos anos, foi, por cá, alvo duma enxurrada de insultos e agora prova que, em questões de solidariedade, está bem acima de quaisquer outros. O que cidadãos portugueses acima de toda a suspeita bolsaram sobre a senhora é algo de inenarrável e envergonha duradouramente quem apenas leu o que eles vomitaram por escrito ou nas televisões e rádios.

Há num certo Sul, quente, amável, solar e descontraído, algum facilitismo quanto a números e contas (ainda hoje li que só em Portugal há 134.000 (cento e trinta e quatro mil!!!) famílias que se atrasaram nas prestações da casa comprada. Supondo, com excesso, que haverá um milhão - !!!- de compradores de casa a pagar em prestações mensais, temos no mínimo 13,4% de maus pagadores. É muito. É terrível!)

Há no Norte, frio, austero e escuro, muito dinheiro (produto de muito trabalho e de muito rigor) bem como alguma modéstia no trem de vida, fruto, acaso, da educação protestante. Há também uma noção de pecado que nenhuma confissão apaga ou escamoteia. Genéricamente, no Norte, luterano ou calvinista, os compromissos são para cumprir dê lá por onde der. Cá é o que se sabe.

A indignação fácil não torna a dissipação menos desagradável e a pobreza que daí advém mais ligeira. Nestes poucos dias, ouvi chamar tudo ao holandeses sendo o termo pirata um dos mais usados. Parece, para estes historiadores de praia, que as frotas dos Países Baixos (suponho que na altura se usava “Províncias Unidas”) só se criaram para roubar os desgraçados portugueses que iam para os trópicos, para o Malabar e para o Brasil fazer bem aos indígenas. Ora bem: basta compulsar uma qualquer História portuguesa decente para saber como é que nos comportámos em toda a parte, o terror que inspirávamos, os ódios que suscitámos, o saque que levamos a cabo.

Um cavalheiro, de que nem quero lembrar o nome, entendeu escrever que, no Brasil, Maurício de Nassau nem sequer merece que se diga que levou uma autentica academia cultural para explorar as terras conquistadas. Os brasileiros tem publicados na Editorial Kapa, sob o título genérico de “O Brasil holandês”, sete conjuntos de obras, num total de quase vinte volumes, primorosamente ilustrados que dão conta da obra notável dos holandeses. Em contrapartida apenas podemos oferecer (e ninguém conhece estes extraordinários portugueses cultos e informados!...) o Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, autor de uma extraordinária documentação sobre a Amazónia, e Frei Cristóvão de Lisboa que deixou um belíssimo tratado sobre as plantas e os animais do Maranhão.

A criatura que, para defender as cores nacionais, disse tais coisas é ignorante, mal intencionada e mais estúpida do que convém.

Combater a Holanda, país surgido da lama, da arrebentação do mar do Norte, da extrema pobreza, é uma inigualável tolice que nenhum Jeroen Djisselbloem desculpa. Este cavalheiro combate-se provando as nossas inegáveis qualidades, renegando a nossa tradicional estúrdia (e temos dezenas de milhares de migrantes na Holanda que mostram claramente que os portugueses sabem trabalhar e ser responsáveis).

Eça de Queirós, sempre ele, a propósito de um verrinoso ataque à sua famosa condenação da colonização portuguesa na Índia, inventou a palavra patrioteiro ou patrioteiraço. Parece que, cento e cinquenta anos depois, essa tonta raça persiste. E com que vigor!

Arre que é demais!

 

* na estampa:posters que se encontravam por toda a Holanda significando solidariedade com outros povos (no caso: Portugal eVietnam) trazidos de Amsterdão em 1973.

 

09
Mar17

O leitor (im)penitente 198

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 4

 

O preço segundo a cara do freguês

 

Os atlas geográficos ocupam um lugar apreciado na lista dos livros em venda por alfarrabistas, nacionais ou estrangeiros. E os preços, ah, os preços!!!, são mais voláteis do que os gazes preciosos e raros.

De certo modo esta situação é compreensível. Os grandes atlas, os famosos, os nascidos com os séculos XVI e XVII são hoje mais do que raros, são raríssimos e os que existem, salvo pequenas excepções estão aferrolhados a sete chaves nas grandes bibliotecas ou em algumas universidade. Ao interessado (e eu sou apenas um interessado e não um bibliófilo) resta geralmente o recurso a algumas excelentes edições facsimiladas que, por um lado reproduzem exactamente o atlas desejado, por outro têm a vantagem de geralmente ser de preço acessível.

(este adjectivo acessível deverá ser entendido cum granu salis. No mundo dos livros a palavra estica-se bastante...)

Desde pequeno que a Geografia (com a História e com a História Natural) me fascinou. Nos anos de rebeldia liceal fui sempre bom aluno nessas cadeiras que despertavam a minha insaciável curiosidade a tal ponto que logo em Outubro já tinha lido, relido e voltado a ler os manuais. A paixão continuou vida fora e agora, adiantado em anos, continuo a apreciar tudo o que diga respeito a estes três grandes domínios.

Todavia, hoje, vou ser impertinente com a honrada classe dos alfarrabistas que, quando apanham um livro com ilustrações de qualidade ou com mapas entram numa espécie de festiva dança de S Vito e pensam ter ganho o céu ou, pelo menos, o totoloto.

Para tal bastam três historietas.

A primeira tem como personagem um atlas vulgar mas interessante, de 1903, que se editou em dois volumes sob o título “Atlas Ibero Americano de Geografia”. Para o efeito interessa-nos o volume dedicado a Portugal e Colónias. Estado razoável, pequenas escoriações na capa a pedir intervenção de encadernador, nada de muito grave mas longe de se poder considerar um exemplar claramente bom.   Dezoito mapas dupla folha (encarcelada: isto é a folha inteira assenta sobre uma outra muito estreita cozida ao volume. Deste modo o mapa lê-se na sua totalidade sem partes escondidas no miolo), mais 457 páginas de texto e ainda a cópia em 26 novas páginas do Censo de 1900 por freguesias. Para um abelhudo como eu esta é a parte mais interessante pelo que descreve de um Portugal de há mais de cem anos.

Vi o atlas em questão num alfarrabista que frequento sem grande periodicidade e perguntei o preço. “Quinhentos euros mas a si faço 350! E olhe que traz um mapa final em tela que eu poderia vender por cem euros

Eu, que já tenho o dito cujo mais pelado do que um macaco, quando vejo tais ofertas desconfio. Respondi que o preço era ainda assim excessivo e retirei em boa ordem. Semanas depois, nova visita e insistência do vendedor. Que se eu quisesse substituía o mapa em tela por uma boa fotocópia – e agora há-as excelentes- e retirava mais umas dezenas de euros ao preço. “Já te estou a ver o sim senhor”, pensei com os meus botões e voltei a dizer que a coisa requeria mais e ulterior estudo.

Entretanto, uma epifania súbita fez-me ir dar uma volta pela Internet. Em três penadas dei com o mesmo exemplar publicitado como em “estado muito bom”, enriquecido por uma folha extra que dava conta de uma menção honrosa atribuída pela Sociedade de Geografia de Lisboa e oferecido (já com portes ultra-rápidos para Portugal) por um total de 128 euros. Dois dias depois aterrava triunfante cá em casa o Atlas que, de facto parecia saído do armazém do editor.

A segunda história tem a ver com uma versão primorosa do famoso Atlas de Abraham Ortelius, o primeiro atlas na moderna acepção do termo (o termo atlas pertencerá a Mercator mas é a Ortelius que se deve a primeira versão). Trata-se do Theatrum Orbis Terrarum, nado nos finais do sec. XVI. Ortelius contratou umas dezenas de cartógrafos, impôs-lhes as medidas – todas iguais- (1ª vez!) e publicou o belíssimo volume ilustrado e a cores. Em 1954 uma editora suíça (Sequoia) editou um sumptuoso fac-simile que teve cópia autorizada americana pela American Elseviere Pub. Comp, anos depois.

A excelente livraria Nova Eclética pela mão de um dos rebentos Gonçalves pôs um exemplar em leilão por um preço que até eu considerei baixo. Licitei pelo dobro mas não tive sorte. Alguém possuído pelas Fúrias ou outras criaturas de igual talante, atirou-se ao leilão e numa absurda corrida contra outro provável inconsciente acabou por adquirir o livro por pouco mais de seiscentos euros o que representava três vezes a minha oferta.

Desolado, recorri à Internet e, mais uma vez, um livreiro americano de Long Beach oferecia o meu actual exemplar em perfeitas condições por cerca de 180 euros transportes incluídos. A gloriosa alfandega de Lisboa ainda achou que sobre este preço total e não sobre o preço do livro (€127) havia de cobrar umas alcavalas que ultrapassaram ligeiramente a barreira dos 200 € que eu oferecera no leilão.

Curiosamente, na habitual feira dos alfarrabistas (sábados, Rª Anchieta) acabei por conhecer o comprador que vencera o leilão. Quando eu lhe disse, a pedido dele, que comprara o meu exemplar pelos duzentos e poucos euros, teve o descaramento de dizer que fora isso o que lhe custara o dele!... os ouvintes, todos alfarrabistas que conheciam a história, riam dissimuladamente para o lado.

Terceira e última: Há um “Atlas encyclopedique contenant la geographie ancienne et quelques cartes geographiques sur le moyen age, la geographie moderne et les cartes reltives a la geographie physique para M Bonne, Ingénieur Hydrographe de la Marine et para M. Desmarest de l’Academie des Sciences pour les cartes de geographie physique”, publicado em Paris, Hotel de Thou, rue des Poitevins em 1788” que não tendo a importância dos dois já citados é uma excelente peça e, no caso, a raríssima 1ª edição.

Vi-o, cobicei-o mas perante o preço (preço bem gordo, gordíssimo, a gordura em pessoa) entendi explicar ao livreiro, pessoa aliás amável e educada, que aquilo estava muito acima do que eu poderia pensar oferecer. O senhor afirmou-me que podia esperar por melhor reflexão mas eu afirmei-lhe que não perdesse a venda caso aparecesse quem estivesse disposto a abrir os cordões à bolsa. Pouco mais de uma semana depois, recebo um telefonema com uma redução de 30% do preço. Voltei a agradecer mas reiterei que ainda era muita areia para a minha camioneta. Mais uma semana e a coisa já ia nos 50%. Lá apareci e, à Lagardere, dei a minha estocada final: ofereci 40% do preço primeiramente pedido. Foi aceite! Ainda hoje me pergunto o que sucederia se tivesse oferecido, por exemplo, 30%... De todo o modo, fiz uma compra por um preço mais ou menos idêntico ao do único exemplar encontrado na Internet que, aliás era, apenas, um preço indicativo de início de leilão on line.

Estas três historietas servem tão só para demonstrar que nem sempre os preços que correm em alfarrabistas merecem crédito. De quando em quando é necessário “marralhar” como quando se vai por um quarteirão de sardinhas à peixeira da esquina.

Aliás, os livros por muita nobreza que se lhes atribua também estão sujeitos às leis do mercado e a famosa regra do preço fixo não funciona de todo em todo. Os grandes grupos (FNAC, Bertrand ou Wook) torpedeiam o preço oferecendo no mínimo um desconto de 10%. No caso da Wook ainda há a oferta dos portes de correio e por vezes mais uns truques.

 

*na gravura: frontespício do Atlas de Mercator

 

 

09
Mar17

Estes dias que passam 346

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Adenda ao post das ratazanas

 

Afinal os estudantes reunidos em Assembleia Geral (ou RGA) que protestaram contra a conferência de nogueira Pinto eram 24! Vinte e quatro criaturas descerebradas que se creem portaoras da verdade revolucionária dos novos tempos. Se aquilo é uma assembleia digna de crédito eu sou um usbeque. 

Pior do que as duas dúzias de criancinhas tresmalhadas é o papel do director da faculdade uma criatura de nome Francisco Caramelo. Conhecem-no? Eu também não. Felizmente!...

Eu não sei para que serve um Director destes numa faculdade dita de Ciências Sociais e Humanas. Algo aqui está a mais, seja a Faculdade, seja a Ciência seja o Social seja o Humano. Ou então é só o presumido "director" a quem um jornalista hoje acusava de cobardia intelectual (O intelectual está a mais: aquilo é apenas cobardia pura e chã).

O Reitor da Universdiade lá tentou emendar a coisa afirmando que a conferência não fora cancelada mas apenas "adiada para momento mais oportuno" depois de um "debate alargado".Isto vindo de um Reitor apenas prova que o analfabetismo dos estudantinhos já chegou ao mais alto escalão da instituição.  

Primeiro um cancelamento não é um aiamento

Segundo, se para uma mera conferência é preciso uma data oportuna (por exemplo 30 de Fevereiro de 2045) e um debate alargado então porue chamar conferência a uma coisa que ira pelo menos ter a espessura azeda de um "seminário", quiçá de um "congresso"?

O dr Rendas, inestimável Reitor da Nova poderia ter dito. Desculpem lá qualquer coisinha. O que aconteceu foi uma burrice de 24 tolinhos e uma parvoejada de um director. Eu, enquanto Reitor, entendo que a conferência se deve fazer, e já para cortar pela raíz qualquer comentário malicioso (p.ex de um certo mcr que nos odeia). 

A posição do dr Rendas, mesmo se mais burilada do que a do Director, sofre da mesma absurda e vergonhosa doença: medo, pavor, obediência ao vozear de duas dúzias de rapazolas que mostram à saciedade não saber nada e muito menos ter a noçaõ de que "compactuar" (palavra muito em voga entre ignorantes e pretensiosos e usada na proposta da assembleia geral) substitui mal o portuguesíssimo verbo pactuar. Mas isso é gramática disciplina que provavelmente não tem curso naquela faculdade dita de ciencias sociais e humanas.