Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

11
Abr17

au bonheur des dames 420

mcr

images.jpeg

Morte, onde está a tua vitória? 

Conheci a Professora Doutora Maria Helena Rocha Pereira no longínquo ano de 1961 quando me aventurei a entrar numa aula de História da Cultura Clássica.

Expliquemo-nos: eu era um pobre caloiro de Direito que já não aguentava a aridez das aulas nos Gerais. Por outro lado, a Faculdade de Letras era mesmo ali ao lado, passando (saindo) a Porta Férrea. 

Letras era o reino das raparigas, sexo raro, raríssimo em Direito. Depois havia um bar! Um bar! Um sítio onde se podia beber uma bica e mirar les jeunes filles en fleur. Le bonheur, quoi! 

Num dia, sentindo-me particularmente audacioso, segui uma bela rapariga de olhos grandes e prometedores (mais tarde, a verdade, a "áspera verdade" -Danton - destruiu-me as esperanças: Aqueles olhos que se cruzavam com os meus -admiradores e arrebatados - eram, afinal, quase cegos, enfim terrivelmente míopes pelo que a aceitação que lhes adivinhava era apenas uma total incapacidade de me ver! ) até ao grande anfiteatro onde a Doutora Rocha Pereira oficiava de grande pitonisa dos Estudos Clássicos. 

Não vou dizer que foi amor à primeira mas quase. A voz suave, o sorriso, a elegância,  a clareza da explicação de um passo da Odisseia, aquele em que Ulisses chega à Ilha dos Feácios e vê - e fala - com Nausicaa, criaram em mim uma tal impressão que, numa correria, Quebra Costas abaixo fui dali à livraria Atlantida comprar, endividando-me, a "Hélade" que li num rompante. A partir daí, sempre que podia, evadia-me dos Gerais e caía certeiro  nas aulas de Cultura Clássica. Às tantas, com a coragem dos conversos de fresca data, no fim da aula, fui falar com a Professora, explicando-lhe quem era, o que fazia nas suas aulas e pedindo licença para assistir. Divertida, a Doutora Rocha Pereira observou-me que eu já invadira duradouramente as suas aulas e gabou-me o gosto pela Grécia. De passo, autorizou-me a frequentar as suas lições.

Em troca de tal gentileza, falei-lhe de um conto de uma velha escrava da minha avó Aldina onde um audaz viajeiro enganava um gigante com um só olho no meio da testa e que por isso se chamava Olharapo". Ou seja numa perdida cidade do Sul de Angola, a Chibia, alguém adulterara e pintara de escuro um personagem da Odisseia e, de par, o astucioso Ulisses. A Professora ficou encantada e repetiu-me o convite para assistir às suas aulas.  

Os anos, tantos anos, passaram mas a minha admiração persistiu e cresceu. Li muito sobre gregos e sempre me surpreendeu verificar que por maiores que fossem os autores que frequentei e que possuo, em todos eles, ou nos melhores, descobria afinidades com Rocha Pereira. Ela estava (está) entre os maiores, entre os melhores. Ler os seus escritos sobre a Grecia ou sobre Roma é não um exercício mas um prazer, um passeio por um tempo que continua tão presente entre nós.

Conheci, em Coimbra, alguns grandes Professores (Ferrer Correia, Mota Pinto, Teixeira Ribeiro em Direito, Luís de Albuquerque nas Ciências, Paulo Quintela, Fernandes Martins, ou Rocha Pereira em Letras. Com todos privei de perto, escutei-os com atenção (e adiração) aprendi o que pude que foi muito menos do que eles quiseram ensinar-me. Devo-lhes muito do que sou e a todos recordo com saudade e respeito. Agora chegou a vez da "Velha Senhora" dos Estudos Clássicos. Alguém nos jornais admirava-se de ela nunca ter ganho o Prémio Pessoa. Acho que foi o prémio que perdeu, foi o seu júri que não percebeu que estava ali uma estátua viva, uma sábia do tempo dos sete sábios míticos, alguém que escutava a melodia dos deuses e entendia todas as subtilezas dos velhos coros teatrais. Não deram conta? Esqueceram-se? Bom proveito lhes faça! Mas passaram ao lado de uma oportunidade única de premiarem o melhor que havia em Portugal, algo que só entre raros helenistas alemães, franceses e ingleses tinha par.

Agora é tarde, Inês é morta. Helena, Maria Helena da Rocha Pereira está viva e quem não for demasiado distraído deverá correr às livrarias à procura das suas obras.    

01
Abr17

estes dias que passam 347

mcr

IMG_0067.jpg

 

 

Calma, malta, calma

(ou Calma no Brasil que Portugal ainda é nosso!)

 

Um cavalheiro holandês de seu nome Jeroen Dijsselbloem (leia-se, aproximativamente “daisselbleme” coisa que nunca devia prestar-se a patetices alegadamente jocosas ) entendeu explicar a sua política quanto a auxilio ou solidariedade económica entre Norte (dador) e Sul (receptor).

Diz a criatura que não se pode emprestar dinheiro a quem o gasta em “mulheres e copos”. Tem toda a razão. Eu também não emprestaria o meu escasso cacau a quem o fosse malbaratar.

O problema é que Dijsselbloem falava enquanto líder do Eurogrupo e referia a realidade Norte - Sul da Europa. A sensatez ou apenas a prudência aconselhariam usar uma imagem menos popularucha mas aquela cabecinha pensadora foi mais feita para usar brilhantina do que para usar bom senso.

A reacção não se fez esperar, pelo menos por cá onde as famílias se endividam alegremente para um carro novo ou tão só para ir passar umas férias numa praia das Caraíbas.

A indignação (verdadeira ou fingida) subiu ao Parlamento, inundou as televisões e juntou uma multidão ofendida pronta para ver o holandês queimado numa pira no Rossio. Há mesmo um grupo de cidadãos ultrajados que lançou uma petição para correr com o holandês. Trabalho escusado visto que a criatura, estando de saída do governo holandês, perde praticamente a hipótese de continuar no governo da Europa. De todo o modo, os peticionários deveriam arranjar um argumento melhor para defenestrar o batavo: por exemplo provar que no exercício das suas funções era incompetente.

Pessoalmente, Djisselbloem não me consegue ofender. Primeiro sou um moderadíssimo bebedor, depois não pago a mulheres. Sei que vivo num país onde há prostituição mas nunca a vi em montras no centro da cidade como em Amsterdão. Também nunca vi espectáculos de borracheira colectiva como na Alemanha, na Holanda para não falar de outros países do Norte onde o fim de semana é um triste desastre de coma alcoólico quase colectivo. De certo modo, por cá bebe-se com alguma regularidade mas com bastante contenção (não refiro as tristíssimas festas da Queima das Fitas onde os cortejos são um desfile de criaturas propositadamente embriagadas. De qualquer maneira, isso sucede uma vez por ano o que se não é desculpa também não deve ser levado demasiado a sério).

O senhor Djisselbloem poderia ter feito as suas críticas, os seus avisos com a educação, o tacto, a diplomacia que se exige de tão alto cargo. Ninguém, honestamente, pode pôr em dúvida, que os chamados países do Sul nem sempre mostraram bom senso, cautela e muito menos rigor no tratamento das suas desastradas finanças públicas. Eu, se fosse um anónimo cidadão do Norte também desconfiaria da ajuda aos do Sul mesmo se, depois, temperasse as minhas suspeitas com uns pós de solidariedade.

Nestas coisas lembro-me sempre da senhora Merkel que, ainda há poucos anos, foi, por cá, alvo duma enxurrada de insultos e agora prova que, em questões de solidariedade, está bem acima de quaisquer outros. O que cidadãos portugueses acima de toda a suspeita bolsaram sobre a senhora é algo de inenarrável e envergonha duradouramente quem apenas leu o que eles vomitaram por escrito ou nas televisões e rádios.

Há num certo Sul, quente, amável, solar e descontraído, algum facilitismo quanto a números e contas (ainda hoje li que só em Portugal há 134.000 (cento e trinta e quatro mil!!!) famílias que se atrasaram nas prestações da casa comprada. Supondo, com excesso, que haverá um milhão - !!!- de compradores de casa a pagar em prestações mensais, temos no mínimo 13,4% de maus pagadores. É muito. É terrível!)

Há no Norte, frio, austero e escuro, muito dinheiro (produto de muito trabalho e de muito rigor) bem como alguma modéstia no trem de vida, fruto, acaso, da educação protestante. Há também uma noção de pecado que nenhuma confissão apaga ou escamoteia. Genéricamente, no Norte, luterano ou calvinista, os compromissos são para cumprir dê lá por onde der. Cá é o que se sabe.

A indignação fácil não torna a dissipação menos desagradável e a pobreza que daí advém mais ligeira. Nestes poucos dias, ouvi chamar tudo ao holandeses sendo o termo pirata um dos mais usados. Parece, para estes historiadores de praia, que as frotas dos Países Baixos (suponho que na altura se usava “Províncias Unidas”) só se criaram para roubar os desgraçados portugueses que iam para os trópicos, para o Malabar e para o Brasil fazer bem aos indígenas. Ora bem: basta compulsar uma qualquer História portuguesa decente para saber como é que nos comportámos em toda a parte, o terror que inspirávamos, os ódios que suscitámos, o saque que levamos a cabo.

Um cavalheiro, de que nem quero lembrar o nome, entendeu escrever que, no Brasil, Maurício de Nassau nem sequer merece que se diga que levou uma autentica academia cultural para explorar as terras conquistadas. Os brasileiros tem publicados na Editorial Kapa, sob o título genérico de “O Brasil holandês”, sete conjuntos de obras, num total de quase vinte volumes, primorosamente ilustrados que dão conta da obra notável dos holandeses. Em contrapartida apenas podemos oferecer (e ninguém conhece estes extraordinários portugueses cultos e informados!...) o Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, autor de uma extraordinária documentação sobre a Amazónia, e Frei Cristóvão de Lisboa que deixou um belíssimo tratado sobre as plantas e os animais do Maranhão.

A criatura que, para defender as cores nacionais, disse tais coisas é ignorante, mal intencionada e mais estúpida do que convém.

Combater a Holanda, país surgido da lama, da arrebentação do mar do Norte, da extrema pobreza, é uma inigualável tolice que nenhum Jeroen Djisselbloem desculpa. Este cavalheiro combate-se provando as nossas inegáveis qualidades, renegando a nossa tradicional estúrdia (e temos dezenas de milhares de migrantes na Holanda que mostram claramente que os portugueses sabem trabalhar e ser responsáveis).

Eça de Queirós, sempre ele, a propósito de um verrinoso ataque à sua famosa condenação da colonização portuguesa na Índia, inventou a palavra patrioteiro ou patrioteiraço. Parece que, cento e cinquenta anos depois, essa tonta raça persiste. E com que vigor!

Arre que é demais!

 

* na estampa:posters que se encontravam por toda a Holanda significando solidariedade com outros povos (no caso: Portugal eVietnam) trazidos de Amsterdão em 1973.

 

09
Mar17

O leitor (im)penitente 198

mcr

Unknown.jpeg

 

Livros, alfarrabistas & outras fantasias 4

 

O preço segundo a cara do freguês

 

Os atlas geográficos ocupam um lugar apreciado na lista dos livros em venda por alfarrabistas, nacionais ou estrangeiros. E os preços, ah, os preços!!!, são mais voláteis do que os gazes preciosos e raros.

De certo modo esta situação é compreensível. Os grandes atlas, os famosos, os nascidos com os séculos XVI e XVII são hoje mais do que raros, são raríssimos e os que existem, salvo pequenas excepções estão aferrolhados a sete chaves nas grandes bibliotecas ou em algumas universidade. Ao interessado (e eu sou apenas um interessado e não um bibliófilo) resta geralmente o recurso a algumas excelentes edições facsimiladas que, por um lado reproduzem exactamente o atlas desejado, por outro têm a vantagem de geralmente ser de preço acessível.

(este adjectivo acessível deverá ser entendido cum granu salis. No mundo dos livros a palavra estica-se bastante...)

Desde pequeno que a Geografia (com a História e com a História Natural) me fascinou. Nos anos de rebeldia liceal fui sempre bom aluno nessas cadeiras que despertavam a minha insaciável curiosidade a tal ponto que logo em Outubro já tinha lido, relido e voltado a ler os manuais. A paixão continuou vida fora e agora, adiantado em anos, continuo a apreciar tudo o que diga respeito a estes três grandes domínios.

Todavia, hoje, vou ser impertinente com a honrada classe dos alfarrabistas que, quando apanham um livro com ilustrações de qualidade ou com mapas entram numa espécie de festiva dança de S Vito e pensam ter ganho o céu ou, pelo menos, o totoloto.

Para tal bastam três historietas.

A primeira tem como personagem um atlas vulgar mas interessante, de 1903, que se editou em dois volumes sob o título “Atlas Ibero Americano de Geografia”. Para o efeito interessa-nos o volume dedicado a Portugal e Colónias. Estado razoável, pequenas escoriações na capa a pedir intervenção de encadernador, nada de muito grave mas longe de se poder considerar um exemplar claramente bom.   Dezoito mapas dupla folha (encarcelada: isto é a folha inteira assenta sobre uma outra muito estreita cozida ao volume. Deste modo o mapa lê-se na sua totalidade sem partes escondidas no miolo), mais 457 páginas de texto e ainda a cópia em 26 novas páginas do Censo de 1900 por freguesias. Para um abelhudo como eu esta é a parte mais interessante pelo que descreve de um Portugal de há mais de cem anos.

Vi o atlas em questão num alfarrabista que frequento sem grande periodicidade e perguntei o preço. “Quinhentos euros mas a si faço 350! E olhe que traz um mapa final em tela que eu poderia vender por cem euros

Eu, que já tenho o dito cujo mais pelado do que um macaco, quando vejo tais ofertas desconfio. Respondi que o preço era ainda assim excessivo e retirei em boa ordem. Semanas depois, nova visita e insistência do vendedor. Que se eu quisesse substituía o mapa em tela por uma boa fotocópia – e agora há-as excelentes- e retirava mais umas dezenas de euros ao preço. “Já te estou a ver o sim senhor”, pensei com os meus botões e voltei a dizer que a coisa requeria mais e ulterior estudo.

Entretanto, uma epifania súbita fez-me ir dar uma volta pela Internet. Em três penadas dei com o mesmo exemplar publicitado como em “estado muito bom”, enriquecido por uma folha extra que dava conta de uma menção honrosa atribuída pela Sociedade de Geografia de Lisboa e oferecido (já com portes ultra-rápidos para Portugal) por um total de 128 euros. Dois dias depois aterrava triunfante cá em casa o Atlas que, de facto parecia saído do armazém do editor.

A segunda história tem a ver com uma versão primorosa do famoso Atlas de Abraham Ortelius, o primeiro atlas na moderna acepção do termo (o termo atlas pertencerá a Mercator mas é a Ortelius que se deve a primeira versão). Trata-se do Theatrum Orbis Terrarum, nado nos finais do sec. XVI. Ortelius contratou umas dezenas de cartógrafos, impôs-lhes as medidas – todas iguais- (1ª vez!) e publicou o belíssimo volume ilustrado e a cores. Em 1954 uma editora suíça (Sequoia) editou um sumptuoso fac-simile que teve cópia autorizada americana pela American Elseviere Pub. Comp, anos depois.

A excelente livraria Nova Eclética pela mão de um dos rebentos Gonçalves pôs um exemplar em leilão por um preço que até eu considerei baixo. Licitei pelo dobro mas não tive sorte. Alguém possuído pelas Fúrias ou outras criaturas de igual talante, atirou-se ao leilão e numa absurda corrida contra outro provável inconsciente acabou por adquirir o livro por pouco mais de seiscentos euros o que representava três vezes a minha oferta.

Desolado, recorri à Internet e, mais uma vez, um livreiro americano de Long Beach oferecia o meu actual exemplar em perfeitas condições por cerca de 180 euros transportes incluídos. A gloriosa alfandega de Lisboa ainda achou que sobre este preço total e não sobre o preço do livro (€127) havia de cobrar umas alcavalas que ultrapassaram ligeiramente a barreira dos 200 € que eu oferecera no leilão.

Curiosamente, na habitual feira dos alfarrabistas (sábados, Rª Anchieta) acabei por conhecer o comprador que vencera o leilão. Quando eu lhe disse, a pedido dele, que comprara o meu exemplar pelos duzentos e poucos euros, teve o descaramento de dizer que fora isso o que lhe custara o dele!... os ouvintes, todos alfarrabistas que conheciam a história, riam dissimuladamente para o lado.

Terceira e última: Há um “Atlas encyclopedique contenant la geographie ancienne et quelques cartes geographiques sur le moyen age, la geographie moderne et les cartes reltives a la geographie physique para M Bonne, Ingénieur Hydrographe de la Marine et para M. Desmarest de l’Academie des Sciences pour les cartes de geographie physique”, publicado em Paris, Hotel de Thou, rue des Poitevins em 1788” que não tendo a importância dos dois já citados é uma excelente peça e, no caso, a raríssima 1ª edição.

Vi-o, cobicei-o mas perante o preço (preço bem gordo, gordíssimo, a gordura em pessoa) entendi explicar ao livreiro, pessoa aliás amável e educada, que aquilo estava muito acima do que eu poderia pensar oferecer. O senhor afirmou-me que podia esperar por melhor reflexão mas eu afirmei-lhe que não perdesse a venda caso aparecesse quem estivesse disposto a abrir os cordões à bolsa. Pouco mais de uma semana depois, recebo um telefonema com uma redução de 30% do preço. Voltei a agradecer mas reiterei que ainda era muita areia para a minha camioneta. Mais uma semana e a coisa já ia nos 50%. Lá apareci e, à Lagardere, dei a minha estocada final: ofereci 40% do preço primeiramente pedido. Foi aceite! Ainda hoje me pergunto o que sucederia se tivesse oferecido, por exemplo, 30%... De todo o modo, fiz uma compra por um preço mais ou menos idêntico ao do único exemplar encontrado na Internet que, aliás era, apenas, um preço indicativo de início de leilão on line.

Estas três historietas servem tão só para demonstrar que nem sempre os preços que correm em alfarrabistas merecem crédito. De quando em quando é necessário “marralhar” como quando se vai por um quarteirão de sardinhas à peixeira da esquina.

Aliás, os livros por muita nobreza que se lhes atribua também estão sujeitos às leis do mercado e a famosa regra do preço fixo não funciona de todo em todo. Os grandes grupos (FNAC, Bertrand ou Wook) torpedeiam o preço oferecendo no mínimo um desconto de 10%. No caso da Wook ainda há a oferta dos portes de correio e por vezes mais uns truques.

 

*na gravura: frontespício do Atlas de Mercator

 

 

09
Mar17

Estes dias que passam 346

mcr

Adenda ao post das ratazanas

 

Afinal os estudantes reunidos em Assembleia Geral (ou RGA) que protestaram contra a conferência de nogueira Pinto eram 24! Vinte e quatro criaturas descerebradas que se creem portaoras da verdade revolucionária dos novos tempos. Se aquilo é uma assembleia digna de crédito eu sou um usbeque. 

Pior do que as duas dúzias de criancinhas tresmalhadas é o papel do director da faculdade uma criatura de nome Francisco Caramelo. Conhecem-no? Eu também não. Felizmente!...

Eu não sei para que serve um Director destes numa faculdade dita de Ciências Sociais e Humanas. Algo aqui está a mais, seja a Faculdade, seja a Ciência seja o Social seja o Humano. Ou então é só o presumido "director" a quem um jornalista hoje acusava de cobardia intelectual (O intelectual está a mais: aquilo é apenas cobardia pura e chã).

O Reitor da Universdiade lá tentou emendar a coisa afirmando que a conferência não fora cancelada mas apenas "adiada para momento mais oportuno" depois de um "debate alargado".Isto vindo de um Reitor apenas prova que o analfabetismo dos estudantinhos já chegou ao mais alto escalão da instituição.  

Primeiro um cancelamento não é um aiamento

Segundo, se para uma mera conferência é preciso uma data oportuna (por exemplo 30 de Fevereiro de 2045) e um debate alargado então porue chamar conferência a uma coisa que ira pelo menos ter a espessura azeda de um "seminário", quiçá de um "congresso"?

O dr Rendas, inestimável Reitor da Nova poderia ter dito. Desculpem lá qualquer coisinha. O que aconteceu foi uma burrice de 24 tolinhos e uma parvoejada de um director. Eu, enquanto Reitor, entendo que a conferência se deve fazer, e já para cortar pela raíz qualquer comentário malicioso (p.ex de um certo mcr que nos odeia). 

A posição do dr Rendas, mesmo se mais burilada do que a do Director, sofre da mesma absurda e vergonhosa doença: medo, pavor, obediência ao vozear de duas dúzias de rapazolas que mostram à saciedade não saber nada e muito menos ter a noçaõ de que "compactuar" (palavra muito em voga entre ignorantes e pretensiosos e usada na proposta da assembleia geral) substitui mal o portuguesíssimo verbo pactuar. Mas isso é gramática disciplina que provavelmente não tem curso naquela faculdade dita de ciencias sociais e humanas.

 

07
Mar17

Estes dias que passam 344

mcr

Debaixo de fogo

 

Tenho tentado alhear-me (aqui, só aqui!) da discussão política em curso no jardim à beira mar plantado. 

Não nego que depois do sufoco anterior sabe bem respirar um pouco mais à vontade.

Sabe ou saberia?

A dúvida que se põe tem alguma base. Mudaram os nossos hábitos de indisciplina económica e financeira? Alguém já tentou saber a que se deve a euforia gastadora dos últimos tempos? Será que o aumento do consumo interno apenas abrangeu produtos nacionais ou, pelo contrário, como tudo aliás indica (cfr as compras de automóveis para não ir mais longe), tal se deve à comprar de produtos importados que fundamentalmente só enriquecem alguns importadores e os países exportadores? Será que o milagre do deficit se deve a uma sábia governação ou apenas e fundamentalmente ao PERES e aos maiores cortes de sempre no investimento público? Será que, para este ano, também vão existir economias do mesmo teor ou já as esgotámos? E se sim, qual vai ser o défice (sobretudo no caso de se voltar a um investimento público já não digo idêntico ao  do plano Centeno - quem ainda se lembra dele?- mas pelo menos semelhante? Os gastos das famílias aumentaram com a consequência de uma grave diminuição do aforro privado e -paralelamente -de um aumento da dívida privada. A dívida pública cresceu. O total dos impostos cobrados não cobre a despesa efectiva. Vão ser necessários mais empréstimos para pcobrir esse diferencial. A que juros? Os bancos parecem apostados em emprestar para despesas pouco ou nada produtivas. E se é verdade que alguns parecem apostados no equilíbrio provisório das suas contas ainda ninguém exclareceu como é que a Caixa, a nossa querida, pesada, vetusta, política Caixa se distraiu em 5,5 mil milhões. Isto para já que ainda há muita conta para se fazer. 

O senhor Presidente da República anda imparável no comentário político a pontos de se poder pensar que ele presidia mais ao país quando comentava aos domingos do que agora quando nada mais faz do que andar aos beijinhos, posar para selfies e transpirar felicidade, alegria e progresso na pátria amada. Ninguém pede uma criatura carrancuda no palácio presidencial mas conviria, de quando em vez, alguma contenção, algum bom senso, alguma cautela. Isto é dito sem saudades do anterior mas sem parvamente se pensar que o país precisa de um novo Candide sem a qualidade de Voltaire mas com o pretensiosismo de Cascais. 

Finalmente duas palavras sobre Carlos Costa e Teodora Cardoso. O primeiro, convém lembrar foi nomeado em tempos do senhor José Sócrates. Passos Coelho apenas o manteve. Esta pequena lembrança vai para o distraído senhor Louça, essa espécie de catecúmeno que faz de economista nas horas vagas e que até, quem acreditaria?, o levou a "conselheiro" do Banco de Portugal (tal se deverá claro à sua experiência!) 

A segunda, que ninguém se atreve a considerar de Direita ou sequer conservadora, está sob fogo real por ter explicado que os milagres (sejam os de Fátima nos quais piamente acredita Marcelo, o quarto pastorinho, sejam os da mera economia real) têm sempre uma razão clara e evidente como já aima se disse. 

Para Costa, as "forças do progresso" (boa piada!) pedem a defenestração (coisa que nunca fizeram ao anterior titular do cargo que não viu, ouviu ou pressetiu o BPN) enquanto que para Teodora advogam o fim o do Conselho de Finanças Públicas. 

Chama-se a isto varrer para debaixo do tapete ou, pior, enterrar a cabecinha sonhadora na areia. 

15
Fev17

0 leitor (im)penitente 197

mcr

images.jpeg

 

Livros, alfarrabistas & outras fantasias 2

(para Nuno Canavez, intrépido livreiro da “Académica”

Os leitores impenitentes são de uma raça persistente, pacífica mas imparável. Perseguem os livros com afinco, paciência, paixão e a melhor imagem que me vem à cabeça seria aquela que mostra Camões a nadar no meio do mar com um braço fora de água segurando um punhado de folhas.

Tenho oficial e oficiosamente 60 anos redondos de comprador de livros. Usando o meu dinheiro, no caso nicial a parca mesada. Uma das primeiras livrarias onde entrei foi a “Académica”, no Porto, um alfarrabista que me ficava em caminho entre o Colégio e o Mundo (a 2ª etapa era a “Divulgação”, posteriormente “Leitura” onde deixei uma bela fortuna.)

Voltemos, porém à Académica que hoje é propriedade de Nuno Canavez. Em boa verdade, o Sr. Canavez já lá trabalhava quando eu passava pela livraria. Ali se fez o grande livreiro que hoje é, um homem que sabe tudo de livros e que não tem papas na língua. Graças ao seu saber e à sua generosidade, Mirandela dispõe de um acervo sobre a terra e sobre Trás-os-Montes sem igual em parte alguma. Canavez pesquisou, juntou, pagou e depois enviou para a terra natal mais de três mil volumes!

Todavia, não é disso que quero hoje falar mas, tão só de uma das melhores compras que alguma vez fiz na “Académica”.

Os leitores talvez desconheçam mas nos alfarrabistas há ainda o civilizado costume de entrar apenas para uma vista de olhos e, se possível, uma bela conversa sobre livros. Há sempre dois ou três contertúlios prontos a conversar sobre qualquer assunto, mormente livros.

Num dia, logo de manhã tive de ir ao centro da cidade e, despachando-me, cedo passei pela Académica. Depois de trocar duas palavras com o Sr. Canavez caíram-me os olhos em dois belos volumes, ricamente encadernados (encadernação de editor) folhas a ouro, estado impecável, edição in folio, 39x29, 1500 (mil e quinhentas!!!) gravuras, datada de 1852 se não erro. Uma beleza!

A medo, perguntei o preço. –“100 euros. Para o sr. dr. 90!” – “É para já”, respondi e saí a correr para o multibanco mais próximo para levantar o cacau.

Despedi-me, rapidamente e, ajoujado, ao peso dos dois grandes volumes, marchei para o meu quartel general das manhãs, ou seja esta esplanada de onde escrevo. E comecei a explorar a compra. Era ainda melhor do que me parecera.

Resolvi ir pesquisar o título à Internet “Tableau de Paris” de R Texier. Espantei-me ao ver os preços a que a edição corria nos mercados francês e italiano. De um mínimo de 450 até uns tremendos 900!

A manhã de sol levou-me a pensar que o livreiro, mesmo amigo, mesmo conhecedor, estaria equivocado. Aquilo, a noventinhas, era ao preço da uva mijona. Desassossegado voltei, dias depois, à livraria e prudentemente lá fui sussurrando que, se calhar, o livro fora demasiado barato, que talvez houvesse engano, enfim que talvez eu, comprador, estivesse a explorar o vendedor.

Canavez imperturbável replicou-me: Primeiro o livro era um calhamaço e já ninguém estava disposto a ter de arranjar sítio para o arrumar; depois o livro era em francês e, agora, toda a gente ignorava a bela língua e só jurava pelo inglês comercial; finalmente perguntava se os preços que eu vira eram de livros vendidos ou para venda. Tendo eu respondido que eram para venda, olhou-me triunfante e disse-me: “Viu? Ainda não os venderam pois não? Aposto que daqui a seis meses, um ano ou mais ainda por lá andam sem comprador.”.

Quatro anos depois tenho que lhe dar razão. Não garanto que seja nos mesmos exactos sites mas a verdade é que este maravilhoso “Tableau de Paris” continua à venda em vários livreiros d’além Pirenéus.

 

*não quero confundir algum leitor mais atento. De facto, existe um outro e mais famoso, “Tableau de Paris”, o de Mercier, obra notável que, porém, padece, na comparação, ao não ter uma única gravura.

15
Fev17

o leitor (im)penitente 196

mcr

Unknown.jpeg

 

Livros, alfarrabistas & outras bizarrias 1

 

“Tenho cinco minutos para contar uma história” é o mais recente e ressuscitado livro de Fernando Assis Pacheco que faria por estes dias oitenta anos. Faria, disse e repito- Quis a malina que nem aos sessenta chegasse. O Assis morreu cedo e mal. Tinha à sua frente uma bela carreira poética a adivinhar pelo que “A musa irregular” revelava. Acompanhei-lhe os versos desde 1960 na “Via Latina”, nos “Poemas livres”, nas pequenas edições só para amigos, fui mesmo editor dele (fui eu e mais quarenta que a “Centelha” era uma multidão de malucos que gostavam de livros) e, a certa altura, uma criatura manhosa convenceu-me a desembolsar cinquenta contos dos antigos para reeditar um desses livrinhos. Depois nem livro nem volta da massa: anos depois, o Assis contava-me em carta as maçadas e desgosto que tivera com o importuno e abusivo editor.

Faria, dizia, oitenta anos mas o coração, maior do que o mundo, traiu-o vilmente à porta de uma livraria. Mulher, filhas e filho e um monte de amigos persiste em lembrá-lo para o que contamos com a honrada colaboração de vários jornais e de antigos colegas. “A musa irregular” primeiramente editada pela Hiena Editora do excelente e culto Rui Martiniano é um dos bons (dos muito bons) livros de poesia da quarta parte do século XX. Parece que ainda se conseguem exemplares da última edição (3ª?, 4ª?): leitoras e leitores aproveitem. Se alguém não gostar que me devolva o livro que eu pago-o.

Este livrinho (cinco minutos...), ora editado (Tinta da China ed) é um apanhado de crónicas lidas ao microfone duma rádio. Instantes de vida, lembranças, achados, conversa boa, tudo para despachar em cinco minutos o que é obra!

Só tenho um reparo: o Assis escreveu muitas outras crónicas que ainda andam por aí esparsas em jornais. Há uns anos a família (ou talvez apenas a Rosarinho) mandou-me umas folhinhas do “sempre fixe” ou do “diário de Lisboa”, dessas que servem para manter um título jornalístico onde se apanhavam mais outros textos. Está por fazer a reedição completa e integral destas prosas de destino incerto e qualidade certa. Tivesse eu tempo e idade e atirava-me à tarefa de as recolher mas estou já avançado em anos para vencer a preguiça e a trabalheira. Ainda por cima a pesquisa teria de se centrar sobretudo em Lisboa e nos jornais onde Assis trabalhou e eu, provincial e provinciano que sou, estou longe.

À falta de melhor, deem-lhe ao dente nestes “... cinco minutos...” e acompanhem cada garfada com um copo de um bom tinto que o Assis, fino gourmet, merece a vossa boa companhia.

14
Fev17

Au bonheur des dames 419

mcr

maria-cabral-i_a181226.jpg

 

Maria Cabral

Eu não sei se foi antes ou depois de aparecer em “O cerco”, filme que a atirou para o primeiro lugar absoluto das actrizes portuguesas e, particularmente, do cinema novo. Todavia, há uma teimosa memória dela, anos antes. Vista ou mais precisamente entrevista nos anos de brasa sequentes à crise de 62, terei ficado fascinado pela sua beleza, pela graça que dela dimanava e que iluminava quem inocentemente a contemplasse.

Não, não era uma paixão (oh quem dera!) de jovem rapaz a desbravar a universidade, os livros novos, a política, o cinema e o jazz. Apaixonado andava já eu, e com fortes razões, por uma mulher de que, cinquenta anos depois, todos me falam com carinho e admiração. Chegava e sobrava para me tirar o sono, que o estado de enamoramento dá a volta à cabeça (e mais órgãos) de qualquer um. Não: a Maria Cabral era, na esconsa realidade portuguesa, no meio do beatério que se nos se impunha, uma aparição de liberdade, de outra eventual e possível realidade, de uma juventude alternativa que procurávamos (sem o conseguir, pelo menos plenamente) viver.

Nunca tive inveja de ninguém mas abro uma excepção para o Vasco Pulido Valente que escreve como um enciclopedista libertino e curioso e, ainda por cima, era ou fora casado com ela. Raios partam o homem a quem tudo sorriu, incluindo a fabulosa equipa da revista “almanaque” que o acolheu e reconheceu teria ele escassos dezasseis anos! Arre!

Leio nos jornais que Maria Cabral morreu longe, no país que escolheu e a que se acolheu. Diz quem sabe que vivia cercada de livros, de música numa paz budista entre montanhas e campos pacíficos.

Agora, morrem-me constantemente amigos e conhecidos. A idade vai-me reduzindo à crescente solidão, também no meio de livros, alguma pintura e muita música. A sobrevivência aprende-se mesmo se, por vezes, parece (e é) intolerável. Vejo-me envelhecer bem mais tolerante do que alguma vez imaginei, bem mais descrente do que alguma vez jurei ser, muito mais desiludido com as partidas que a História me vai pregando (agora o Trump, Jesus, Maria José!). Não me doem o cabelo branco, o andar mais devagar, as picadelas diárias para verificar a glicose, ou o frio que sinto com mais intensidade (e o calor do Verão, idem...). Aquilo a que me não resigno é a esta partida sucessiva de amigos e, sobretudo, à imparável entrada em cena do xico-espertismo político, do oportunismo berrante, da absoluta falta de ideologia naquilo que é ou foi o meu campo político. No meio desse pântano obscuro havia breves ilhas onde o Luís Monteiro ou a Maria Cabral resplandeciam e resistiam. Agora nem isso. Não desjo a morte mas confesso que já a não temo. Que quando vier seja rápida como fulgor de uma faca é tudo o que peço. E quem cá ficar que atire o meu imprestável corpo ao mar se isso (coisa muito mais fácil do que a eutanásia) ao mar, o meu horizonte inicial e a minha última sagrada verdade.

Amén!

 

*** 

Também, por estes miseráveis dias, morreu José Vicente, livreiro alfarrabista. Conhecia-o há anos e era cliente assíduo e amigo grato. José Vicentehonrva a profissão e era sem qualquer favor um dos grandes alfarrabistas portugueses. Comprei-lhe muito livro e fui um dos licitantes mais fieis e constantes dos seus excelentes leilões. aconselhou-me muitas vezes, informou-me muitas mais e recebia-me mensalmente (quase sempre numa das últimas quartas feiras do mês) com um sorriso e duas palavras amigas. Acompahei a sua luta para manter a "Olisipo" naquele belo sítio, festejámos a sua vitória e esperei sempre que seria ele a lamentar a minha futura ausencia, tanto mais que era mais nov. Não foi assim. Resta-me esperar que o seu filho e restante família consigam manter a livraria e o rigor que José Vicente sempre demonstrou. Vai fazer muita falta a clientes e amigos que aliás eram quase sempre os mesmos. 

19
Jan17

Au bonheur des dames 418

mcr

ng7988566.JPG

 

 

Soares, único, irrepetível e humano, definitivamente humano

 

Lidos e ouvidos centenas de testemunhos sobre Mário Soares, verifico com alguma perplexa surpresa que toda aquela boa gente era amiga, muito amiga, amicíssima, do ex- Presidente da República. O grande senhor há de ter passado a vida num sufoco de carinho, amizade, respeito extraordinários. Morreu em estado de santidade absoluta como o sr. padre Américo ou o “milagreiro” dr. Sousa Martins cuja estátua em Lisboa é mais florida que muitos altares de Igreja.

Também me apercebi que toda a gente com quem Soares trocara uma ou duas palavras se considerava arrebatadamente tocada pela Graça, pelo júbilo e sentira, a partir dessa epifania, nascer uma amizade imorredoura e partilhada com o velho socialista, laico e republicano.

Nada disso aconteceu comigo pese embora ter uma enorme consideração e respeito pelo dr. Soares. Mais ainda, conheci-o e encontrei-me com ele uma escassa dúzia de vezes, uma das quais na sua própria casa, um paraíso de livros e quadros que me fizeram padecer de um agudo ataque de inveja.

Porém, tudo isso não chega para clamar, urbi et orbe, essa transcendente e extensa amizade que transbordou em televisões, jornais e rádio por todos os lados. A amizade é, para mim, pelo menos, algo mais sólido do que o facto de o interlocutor nos conhecer o nome ou nos tratar com simpatia.

Todavia, visto que me cruzei com ele, atrevo-me a também vir dar o meu testemunho.

Creio que terá sido o Luís Filipe Madeira, ex-governante, ex-deputado europeu e bom amigo, que teve a ideia de reunir (em 1970) na velha república dos Kágados em Coimbra, um punhado de rapazes que tinham sido participantes ultra activos na crise académica de 1969 e o dr. Mário Soares. A única característica comum a essa dúzia e meia de militantes estudantis seria o facto de nenhum deles ser do PCP ou passar por tal. Soares (E o Luís Filipe Madeira, claro) estaria a ensaiar uma pescaria de futuros militantes ainda da ASP e mais tarde do PS. Para tal deslocou-se a Coimbra acompanhado de Catanho de Meneses, depois fundador do PS.

Foi com este último que primeiro conversei explicando um pouco o meu empenhamento político, a minha participação na crise e a prisão que se lhe seguira. Por alguma obscura razão, Catanho achou-me digno de ser recomendado ao dr. Soares que logo aí foi de uma extrema amabilidade a pontos de me garantir que “queria muito” falar comigo e me convidar a sentar-me a seu lado no espartano e republicano almoço que se seguiu.

Já não recordo com fiel exactidão o que se concluiu mas tenho a ideia que, para nós, rapazolas com sangue na guelra e devorados pela paixão radical, Soares foi pouco convincente. “É mais um “oposicrático”, teremos pensado, um reviralhista, enfim um “social democrata”.

Naquele tempo isto, não sendo uma condenação inapelável, não era recomendação alguma. Nós, ou eu pelo menos, alimentávamo-nos a Maio de 68, a Marcuse, a “Vietnam vencerá”, líamos todos os heterodoxos e ainda achávamos Lenine um génio, um fiel discípulo de Marx.

O PS fundou-se sem que daquele grupo tenha havido, que me lembre, alguma contribuição. No entanto, quando Soares se apresentou como candidato à Presidência de República, já me contava entre os raros e primeiros apoiantes.

De facto, ainda durante a “pré-campanha”, acompanhado pela mulher que eu conhecera no rescaldo de um memorável espectáculo em Coimbra, Soares veio ao Porto fazer uma apresentação da candidatura na sede da Ordem dos Médicos. A instâncias do Rui Feijó fui com ele e com a Dolly Cochofel, sua mulher, buscar Soares (e Maria Barroso) à estação de Campanhã. Não havia ninguém à espera deles pelo que a nossa chegada foi um pequeno consolo. Apinhados no meu carro, lá seguimos para a OM. No trajecto, verifiquei, com certa vaidade que o diabo do homem se lembrava do meu nome, dizendo ao Rui Feijó que me conhecia desde 70.

Durante a campanha, desdobrei-me em militâncias várias e escrevi não só no “Belém” (órgão da campanha) mas noutros jornais, nomeadamente no Jornal de Notícias do Porto a favor do candidato Soares.

Mais tarde, encontrei-o na livraria Académica de que ambos éramos clientes e, sobretudo, na sede portuense da Delegação Regional do Norte da Secretaria de Estado da Cultura, onde, quando exerci como Delegado Regional, tive o privilégio e a alegria de o receber. A sua amabilidade (e a excelente memória) constituem para mim uma recordação jubilosa e sempre me impressionou o facto de numa primeira palavra ele recordar um encontro anterior e a nossa comum inclinação pelos livros, sobretudo estes. Não era o reatar de uma conversa anterior e inacabada mas a verdade é que, uma única vez, tendo convidado o Rui Feijó para sua casa e sabendo que eu estava com ele tornou o convite extensivo a mim.

Tudo isto é pouco para me arrogar como amigo, mas é suficiente para afirmar que nos encontros e desencontros políticos, ele sempre me apareceu como uma figura ímpar e central da política portuguesa.

Não fui da CEUD mas antes da CDE, não votei Eanes da primeira vez mas Otelo, votei Eanes quando ele se negou a fazê-lo, votei Alegre contra ele e nos últimos anos, houve um par de vezes em que, sendo profundamente contrário ao governo Passos Coelho, discordei da sua oposição a outrance e da cobertura que o seu imenso prestígio dava a uma espécie de vaga Frente Popular que, na verdade, e como se vai percebendo, guinava para um frentismo anti europeu e anti euro. Nem sequer refiro o seu apoio a Sócrates. De facto perceberia uma visita de solidariedade mas a repetição desta, e por duas ou três vezes mais, pareceu-me demais, para não dizer um claro enfrentamento com a Justiça ou, pelo menos, uma insinuação de que esta se movia por obscuros fins políticos.

Porém, sabendo–lhe dos defeitos (Soares quando se zangava com alguém era intratável) sempre lhe admirei a irredutível postura de defesa da liberdade, da liberdade pura e simples, a recusa de posterga-la fosse por que razão fosse e, sobretudo, em nome de um futuro radioso, e um inalcançável “temps des cerises”, ou de uma política de classe contra classe de que ele desconfiava como o diabo da cruz. Soares, licenciado em História e belíssimo leitor, conhecia demasiadamente bem a História recente (séculos XIX e XX) para cair na esparrela grosseira do “fim da História” veiculada por uma espécie singular de catecúmenos de um materialismo histórico descarnado e adulterado.

Soares, laico e agnóstico, desconfiava dessas promessas quase religiosas de amanhãs que cantam desde que os “hojes” sejam duros e chorosos. Venceu batalhas incertas apenas animado pela sua grande coragem (moral e física), pela cultura, pela vontade de ser livre e, sobretudo, pelo seu imoderado amor pela vida. Só isso bastaria para o pôr num lugar importante entre os raros (meia dúzia, se tanto) políticos que influenciaram o nosso século XX.

17
Jan17

au bonheur des dames 417

mcr

Bridge luis.jpg

bridge 4.4-cópia.jpg

No lugar do morto (definitivamente)

Adeus, Luís

 

Na fotografia veem-se quatro amigos a jogar bridge. Estão quase no fim de uma partida e aquele que tem cartas viradas para cima é o “morto”, ou seja o parceiro do declarante (aquele que marcou o naipe que serve de trunfo, bem como o número de vasas que pretende conseguir para “cumprir o contrato”). Neste caso é o Luís (Meneses Monteiro) que, sorridente, está “morto”, ou seja não intervém de modo algum no carteio que o parceiro leva a cabo.

Em frente, já lá iremos, está o Zé (Portocarrero) desaparecido há um ano, enquanto que nos campos laterais estão o Fernandinho Maia Pinto e eu próprio tentando impedir a vitória daqueles agora desaparecidos, queridos, saudosos amigos. Poderiam estar também a assistir o Zé Valente ou o Pedro Sá Carneiro Figueiredo, também eles uma ausência cruel.

Fiquemos, porém, no Luís, falecido há meia dúzia de dias, aliás nem tanto. Médico, doutorado, professor no ICBAS deixa um rasto de inteligência, saber e dedicação aos doentes, extraordinário. Havia, por aí, entre doentes e familiares, uma persistente simpatia pelo neurologista que curava, que resolvia, que explicava em palavras simples a doença e os meios de a ultrapassar. E que se dedicava aos seus doentes com a mesma paixão com que ia à caça, à pesca (comprara um barco onde enjoava prodigiosamente!!!...) ou ao bridge.

Há muitos, demasiados anos, que não curam a ausência, o meu pai sofreu um AVC vastíssimo. Corremos para o hospital com ele e lá, à nossa espera, já estavam, sei lá por que milagre, o Octávio Ribeiro da Cunha e o Luís. Meia hora depois, apareceu este último, agarrou-me com alguma violência pelo ombros e declarou: "o teu pai ou morre ou fica como uma couve! Reza pela primeira hipótese."

O meu pai morreu e, felizmente, não tive de o ver absolutamente diminuído numa cadeira de rodas ou numa cama. A última, ou a penúltima, imagem que dele guardo é a de um homem de sessenta e sete anos, risonho, a comer um cozido à portuguesa e a sorrir. Do Luís, também: nós à conversa e ele a rir às gargalhadas, riso farto, riso bom, generoso, vindo de quem dizia uma brutalidade ou uma gentileza porque só assim exprimia o que verdadeiramente sentia. Curiosamente, o meu pai foi o primeiro parceiro de brídge que perdi, logo ele que me, ensinara tudo ou quase. Depois foram indo os mais velhos, da geração dele, até que com o Zé Valente, começaram a sair da mesa os companheiros de uma alegre comandita que  se reunia ora na minha casa, ora na casa do Luís ou ainda na do Zé (como acontece com o momento da fotografia).

De todos, e são muitos, restamos o Fernando e eu. Já só jogo na internet. Não quero conhecer mais novos parceiros. Amedronta-me a ideia de ter me despedir de mais alguém, sobretudo agora, que se aparecer será, quase de certeza, mais novo. O lugar do morto, no bridge, dura o tempo de uma partida mas o dos meus amigos desaparecidos é para sempre e, mesmo se penso estar preparado para a minha morte, não consigo ter a mesma frieza perante a morte dos outros. Provavelmente é porque me sinto cada vez mais só, mais triste e com menos paciência mas isso, dizem, é uma característica de quem vê os anos correrem, a força diminuir e os achaques da idade aparecerem.

Resta-me a consolação, fraca, de saber que o Luís, como os outros, deixa saudades, uma vida ´que foi útil a muitos e uma memória feliz.

Que a mesma sorte me caiba quando ocupar finalmente o lugar do “morto”.