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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

18
Out17

Estes dias que passam 343

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Já devia ter ido há muito, desde sempre!

(mcr 18.Out.2017) 

A Sr.ª Ministra Da Administração Interna pediu finalmente a demissão. Na carta que os meios de comunicação reproduzem afirma que esta demissão fora pedida logo a seguir a Pedrogão. E que só não fora publicitada porquanto o Sr. Primeiro Ministro lhe pediu para permanecer.

Todavia, agora, depois do que aconteceu, depois dos acabrunhantes relatórios sobre os fogos onde pereceram mais de sessenta pessoas (que o Estado não protegeu e que, até à data não obtiveram deste qualquer pedido de desculpas...) , eis que a sr.ª Ministra renova terminantemente o seu pedido não deixando margem a qualquer outra solução.

Por acaso, só por um inefável acaso, morreram mais quarenta portugueses, dos mais pobres, dos mais desprotegidos, dos com menos possibilidades de se defenderem quer pela idade, quer pelo isolamento, quer pela violência da catástrofe. Por acaso, começaram a surgir por todo o lado críticas violentas à Sr.ª Ministra, manifestações, artigos condenatórios na Imprensa e um discurso do Sr. Presidente da República onde a Sr.ª Ministra é claramente um dos alvos.

Não por acaso, mas por canhestra insensibilidade, a mesma Sr.ª Ministra veio para as televisões dizer que para ela “o mais fácil seria pedir a demissão (coisa que nesse momento se recusava a fazer) e que nem férias tinha gozado. No meio destas deploráveis palavras, entendia ainda a Sr:ª Ministra que no repartir de culpas (não dela, claro) havia algumas a apontar às comunidades vítimas, eventualmente aos mortos e feridos, a necessidade de se tornarem mais resilientes às catástrofes. Que esta absurda demonstração de falta de sensatez e de absoluta falta de piedade, de desgosto, não foi obra do acaso prova-o o facto de um seu Secretário de Estado ter abundado no mesmo sentido clamando que tem de ser os povos perdidos nas serranias quem se deve defender sem esperar aviões ou bombeiros.

Isto, esta sintonia miserável e insultuosa entre dois altos responsáveis governamentais não pode ser mera coincidência. Há aqui uma sintonia planificada de declarações que, cumpre dizê-lo, foram passadas em silêncio (concordante?) pelo Sr. Primeiro Ministro.

Foi preciso que o Sr. Presidente da República viesse a terreiro, foi preciso uma ameaça de “moção de censura”, seguida de uma manifestação e precedida de um coro de críticas e de anúncios de mais manifestações, para que, subitamente, a Sr.ª Ministra se tentasse retratar com a carta de demissão e com a “narrativa” de uma outra e anterior atitude idêntica.

Mais uma vez, não se descortina uma palavra de conforto às vítimas (mal de que também enferma o Sr. Primeiro Ministro que, eventualmente, pensará que isso incumbe aos milhares de cidadãos que se solidarizaram enviando contributos pessoais, e ao Presidente da República que (honra Lhe seja) tem constantemente acorrido aos locais das desgraças com uma palavra, as invitáveis selfies e os beijinhos. Mesmo criticando, muitas vezes, a “pro-actividade” (raio de palavra!) presidencial, sou obrigado – e não me custa nada! – a reconhecer que foi o Doutor Rebelo de Sousa quem encarnou os deveres próprios e os do Governo. O que lhe dá o direito (e nunca as mãos lhe doam) de fazer o discurso que fez.

Eu não conheço a Sr.ª Dr.ª Urbano de Sousa. Nem tenho qualquer vontade pois o que dela adivinho é apenas uma absoluta falta de comiseração por quem sofre, por quem está em baixo, pelos cidadãos deste pobre país, por todos quantos a criticámos desde Pedrogão. E a este pecado primário e definitivo junta-se o da falta de ética republicana, queira isto dizer o que quiser. Esta senhora não deve, não pode fazer política. Não se pode depender dela para nada.

Vai fazer as merecidas férias a que tem direito. Que durem anos, décadas! E que leve com ela aquele Secretário de Estado tão repelentemente “pro-activo”. Num país que no dizer do “Jornal de Leiria” perdeu, com o incêndio do pinhal de Leiria, setecentos anos de história, podemos sem qualquer problema perder de vista duas criaturas incompetentes e arrogantes.

16
Out17

Au bonheur des dames 430

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Algumas perguntas inocentes

 

As leitoras e os leitores recordarão, espero-o bem, que nunca me pronunciei pela culpabilidade do sr. José sócrates. Apenas, e de raspão, referi que até ao fim do julgamento, qualquer acusado se presume inocente.

Claro que isto, esta pública posição, não me retira o direito de pensar dele o que muito bem entenda. Jurista de formação e democrata desde sempre ou, pelo menos há cerca de 60 anos (presumindo que, depois dos 15/16, já saberia o que queria (coisa que não era difícil nos ásperos tempos em que vivi a adolescência e os primeiros anos de adulto) e, sobretudo o que não queria.

Também recordarão que pouco, quase nada, me durou a ilusão de que o sr. José Sócrates era um estadista. Pareceu sê-lo quando o comparávamos com o dr. Santana Lopes (que agora, reciclado e com menos cabelo, regressa às lides amparado pela amnésia colectiva nacional – de que Sócrates também largamente beneficia.

Aqui mesmo, poucos meses, um ano talvez, após a sua tomada de posse, já eu começava a duvidar da razoabilidade da sua governação. Essa crescente dúvida transformou-se em inexorável certeza durante o segundo e medonho mandato da criatura. A arrogância, a incultura, o autoritarismo e, sobretudo, o autismo político ultrapassaram tudo o que se poderia esperar.

Todavia, mesmo depois de ter sido varrido do poder, mantive o mesmo propósito: não julgar senão politicamente um homem que já não estava (bem pelo contrário!) acima de qualquer suspeita. Os “casos” já eram mais que muitos desde o “Freeport” até aos exames ao domingo, à licenciatura, ao seu teor de vida. Depois foi Paris. Aí este cavalheiro pretendia tirar um qualquer curso e estudar imenso não se sabe bem o quê. Dessa passagem ficámos a conhecer – de fora – a casa onde vivia. No XVI bairro, se faz favor. Na zona mais cara de Paris, para quem não saiba. E os restaurantes onde iria. Restaurantes, digo, nada de bistrots, nada de baratezas. E por aí fora. Maravilhavam-se os portugueses com aquele trem de vida que, por baixo, bem por baixo, rondaria os 10.000 euros mês. É que se sabia, graças a declarações do próprio que ele “apenas” auferia uma pensão que não chegava a sequer um terço do que obrigatoriamente gastava só em alojamento e alimentação.

Depois soube-se, para ainda maior surpresa (os milagres nunca aparecem sós), que havia um amigo que lhe emprestara um forte soma, ao mesmo tempo, que lhe cedia gratuitamente o belíssimo apartamento onde vivia.

E que esse amigo havia de repetir o magnânimo gesto vezes sem conta, chegando mesmo a comprar imóveis à mãe dele. Mesmo assim, os maldosos incrédulos não acreditavam. Amigos destes, que entregam (como depois foi confirmado pelo próprio) somas muito importantes sempre em dinheiro, sem um papel (o sr. José Sócrates não sabe, como confirmou publicamente, quanto dinheiro ainda deve. As contas certas serão com o generoso Silva.

Depois de regressar e ser preso, o sr. José Sócrates vendeu um caríssimo apartamento onde vivia em Lisboa e com esse dinheiro terá pago parte da dívida ao tal Silva. E alugou outro apartamento, desta feita no Parque das Nações, cuja renda não será (ou será pouco) inferior à sua pensão.

Como é que sobrevive ´um mistério. Será que como as tribos de Israel, o Senhor Deus dos Exércitos, lhe manda diariamente o maná dos céus. E passes para os transportes? E um anjo para guarda de corpo? Terá sido a Senhora dos Aflitos quem comprou os milhares de exemplares do livrinho que se lhe atribui e que ele, a bomba y a platillo, diz duas larachas vagamente sarapintadas de filosofia política?

Eu, oficialmente, não sei nada da corrupção das três dezenas de crimes de que o acusam, das dezenas de milhões que lhe terão caído no bolso distraído, das traficâncias com duas dezenas de criaturas que constam do mesmo processo. Nada. O Tribunal há-de decidir mesmo se, como prevejo, com algum desapontado realismo, eu já não assista ao desenlace. Tal processo durará presumivelmente uma boa dezena de anos e mesmo gozando eu de razoável saúde a coisa atira-me para lá dos oitenta e cinco anos.

Portanto, mesmo sem julgar a criatura, tenho sobre ele esta tremenda primeira opinião: donde lhe vêm os meios, o cacau, o pilim, a massaroca, para viver como vive?

Não sei onde é que há fogo, mas o fumo, ai o fumo, é intenso. Espesso, contínuo, intoxicante.  

Quando um jornalista (TV1) lhe perguntou qualquer coisa relacionada com isto, o sr. José Sócrates explodiu. enfim, enfureceu-se, zangou-se, amuou. Que não admitia aquele género de jornalismo! que aquilo parecia encomendado pelo “correio da manhã” (coisa que não pude comprovar porque, como aliás faço com o mesureiro “diário de notícias”, não frequento o dito jornal.

Lembremos que aquilo era uma entrevista, não uma missa de casamento, um te deum à glória do ex-primeiro ministro. Ele não era obrigado a ir.

Se queria aplausos, guardava-se para o lançamento do seu segundo best-seller que ocorreu no Porto, numa sala cheia de amigos do peito (reconheci entre divertido e espantado, alguns daqueles que daqui a dias, meses, anos irão antecipar-se ao terceiro canto do galo) e de uma berrata que uivava qualquer coisa como Sócrates amigo o povo está contigo.

Daqui, desta esplanada onde escrevo, há um quarteirão de criaturas que, pelo que ouço, ou não são povo ou não estão com ele. Noutros lugares (sempre detestáveis e maldosos) por onde tenho passado repete-se este mesmo feio cenário: Povo ausente, público maledicente. Decididamente há dois Portugais...  

11
Out17

Au bonheur des dames 429

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uma farsa ou

um passo em frente, dois atrás

 

(lembrando e abraçando Montse, Margarita, Ferran, Eugeni e Xavier, amigos inolvidáveis)

 

Nunca dei nada pelo senhor Carles Puigdemont. Se fosse vendedor de automóveis nem uma trotineta lhe compraria. fosse por que preço fosse!

O homenzinho tem o ar, a postura e o discurso de alguém profundamente perturbado. E só um perturbado (a menos que seja um imbecil) é que proclama a independência e logo, de seguida, a suspende.  Suspende o quê? A proclamação? A independência? No primeiro caso escusava de vir ao Parlamente. No segundo, inventou uma nova ideia de independência, uma coisa que hoje há e que amanhã não ou vice versa e assim sucessivamente.

Saberá este pobre diabo o que é que significa independência? Saberão os que o ouviram e bateram palminhas? Anda toda esta gente a jogar ao chinquilho, à macaca ou aos quatro cantinhos?

Mas há mais e mais surpreendente. Tomando, uma vez sem exemplo, a sério a declaração e sabendo-se o que toda a gente sabe, que valor se pode dar à ideia de tentar um diálogo através da suspensão (se é que tal coisa tem significado, valor jurídico, efeitos políticos)?

O pateta (e estou a medir as minhas palavras por consideração pelos meus velhos amigos catalães) pensa que convence alguém? Sobretudo, que convence o Governo espanhol, sequer os membros menos estouvados do Parlament, os cidadãos catalães (incluindo os independentistas) ?

Não se dá conta da tontaria, melhor, da estupidez, da improbabilidade da sua proposta?

Então, depois de duas leis contrárias à Constituição, votadas por uma unha negra (o bloco constitucional tem praticamente os mesmos deputados mesmo se, como se sabe tenha tido mais votos -52 contra 48%) vem agora com este artifício de pé quebrado, esta tentativa de fuga à responsabilidade, tentar encurralar um Governo que já tinha obtido várias vitórias (apoio da Europa, apoio de uma fortíssima – e provavelmente maioritária- opinião pública catalã, apoio de bancos e empresas que rapidamente se transferiram para locais menos perigosos do que a Catalunha (o mesmo sucedendo a clientes que, aos milhares, abrem contas fora do território. em menos de uma semana, a Catalunha pode já contabilizar uma forte descida nos impostos a cobrar, uma perda clara de riqueza que tornará a vida mais difícil para os catalães e para quem os governar seja uma restaurada Generalitat da autonomia, seja um governo republicano.

A única explicação (que ultrapasse o diagnóstico de idiotia profunda e incurável) estará, como já se vai dizendo, na procura de confrontos violentos, de mártires para a causa, de mortos, até. Todavia, a propalada violência policial traduziu-se em quatro feridos ligeiros e nem todos oriundos da causa independentista.

Estamos perante uma farsa que só não é absolutamente ridícula porque poderá ter algumas consequências trágicas. A população “constitucional” que andava calada e cozida às paredes no temor de represálias (e as ameaças tinham sido constantes nos últimos tempos) resolveu sair para a rua. Encheu-a tanto quanto os partidários de Puigdemont, percebeu, ela também, a sua força e é duvidoso que doravante se cale.

Os independentistas desejavam o confronto com “Madrid”, agora parece que terão de enfrentar outra Barcelona, outra Catalunha, para não falar no resto de Espanha. Os independentistas (radicais, anarquistas. direita xenófoba, bem pensantes e outros inocentes úteis) apostavam na estratégia da tensão (coisa que de resto não é nova na Europa e que já deu maus resultados noutros países e noutras alturas), não perceberam que, mesmo em Euzkadi, onde a ETA e os seus satélites tinham colonizado a sociedade (colonizado no sentido mais duro e abrangente do termo) tinham reduzido ao silêncio os seus adversários que se viram obrigados a fugir para não morrerem com a famosa bala na nuca (e foram muitos como se lembrarão os mais interessados), tal estratégia tinha falhado redondamente, Demorou trinta e muitos anos, quase mil mortos, outros tantos presos, milhares de emigrados (por todos Fernando Savater) até chegar ao ponto actual. Não é por acaso que os independentistas bascos não se mexeram ou mexeram-se tão pouco que vem a dar no mesmo.

A Europa, com tudo o que tem de imperfeito, é o melhor que se fez depois da guerra. A Europa de cá, a que se foi pacientemente construindo desde a Comunidade do Carvão e do Aço até hoje. É essa Europa um dos alvos da CUP e de várias organizações satélites que, todavia pretendem os seus benefícios sem as suas condições. Sabem, demasiadamente o sabem, que fora disso, é a pobreza que espreita. Seriam as indústrias que desertariam, o desemprego que cresceria exponencialmente, falto de investimento. Até o turismo (e mesmo aí Barcelona não dá grandes sinais de perceber o fenómeno) sofreria e não pouco. Quem é que vai passear-se para zonas de incerteza?

 

Outros amigos meus, desta feita galegos, caracterizavam Rajoy: é como muitos galegos um tipo que mesmo dentro de um elevador não diz se está a subir ou a descer.

Porém, neste conflito, mesmo que se possa apontar-lhe erros (e não foram poucos, sobretudo os derivados de uma total intransigência que, entretanto, também era de antemão conhecida e esperada) como é que Puigdemont o vem desafiar (independência e república) e acto contínuo exigir um diálogo? Com prazo e tudo (poucas semanas)!

Eu estaria para aqui a rir-me que nem um cabinda não fosse gostar da Catalunha, dos seus poetas, dos seus artistas (mas não de Gaudi!...), ter lá amigos, uma antiga namorada, das praias (ai as praias...) da comida e, vejam lá, da língua que compreendo bem (até já traduzi dois livros do catalão) que falo patrioticamente muito mal mas que tem sons belíssimos e me fazem pensar no que deveria ser o provençal, idioma de trovadores (e de heréticos...).

Mas isto, esta palhaçada, esta vergonha parece-me demais. Quando, por cá, um político se demitiu irrevogavelmente, saindo por uma porta para entrar pela janela, eu, que nada tenho a ver com ele, com o partido dele, com o governo dele, senti vergonha. Por Portugal. Bem sei que temos cá de tudo mas mesmo assim não me conformo com as aberrações. Neste momento, peninsular, ibérico, europeu, que sou volto a estar envergonhado. A Europa, alguma Europa nortista e altaneira lá estará a dizer baixinho e escarninhamente: Estão a ver como aquela gente é? São do Sul, está tudo dito. Bebem vinho, consomem azeite, gostam de peixe, são maioritariamente católicos, igualmente pecadores (ai o jeito que a Confissão dá...), gozam a vida e à falta de disciplina são, pelo menos inventivos”.

Envergonho-me pela vergonha dos meus amigos acima citados. E dói-me esta triste maneira de dar razão a um famoso prócere da Direita espanhola, assassinado pela polícia da República nas vésperas da Guerra Civil, Calvo Sotelo que afirmava: España antes roja que rota.

E não me conformo.

* na gravura: uma composição de Jordi Cuixart 

10
Out17

Estes dias que passam 342

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As/Os padeirinhas/os de S Bento

 

Na curiosa “Assembleia da República” portuguesa passa-se um pouco de tudo. Desta feita, apareceu um voto de condenação da actuação policial no dia do “referendo” (ilegal, seja de que que ponto de vista for) na Catalunha.

Parece que a polícia não foi meiga (e não o foi, é evidente) contra os manifestantes que insistiam em votar. que insistiam, relembre-se, numa actuação ilegal considere-se o “Estatut”, a Constituição de Espanha, a lei geral ou, sequer, o parecer do Tribunal Constitucional.

Convirá recordar que neste género de situações a polícia é sempre violenta. Nem que se trate de simples empurrões aos cidadãos. Por um lado há sempre uma desproporção de forças: de um lado um grupo de polícias, doutro uma multidão. Se é verdade que uns estarão armados (seja de pistolas ou de bastões) não menos verdade é que do outro lado há sempre um número muito maior de pessoas que, e também isso se viu (ou só não foi visto pelas criaturas bloquistas) começando por normais protestos, rapidamente se excitam e começam também elas a mostrar não só violência verbal (e essa a polícia ainda aguenta) mas cara disposiçãoo de romper os cordões policiais à força o que obviamente não se faz com meiguice.

Quem sai para a rua para se manifestar, sabe para o que vai. Ou, pelo menos, no meu tempo (e que tempo: anos cinquenta finais, todos os sessenta e os setenta que se lhe sucederam e não apenas os antes do 25A) sabíamos. Tenho dessa época uma memorável experiência nacional e internacional. De facto, não só não perdi uma única oportunidade de sair e apanhar chanfalhada nos juvenis lombos, mas em terras alheias comi pela medida grande. em França nos anos 68 e seguintes, em Itália durante uma “estate violenta”(1972), em Espanha na época do fim do franquismo et j’en passe. Manifestei-me pelas causas mais diversas (e nem sempre as mais justas: cheguei a ir para rua pela Cinemateca Francesa, contra a construção da “tour de Montparnasse”, entre outras miudezas surpreendentes.)

De todo o modo, eu sabia o que arriscava. E, já agora, percebia o que os meus adversários defendiam e o modo como pensavam defender-se.

Há, além do mais, uma segunda observação a fazer. E ela é a seguinte. Nenhum poder, fáctivo ou legítimo quer afirmar-se pela violência. todos os poderes visam consolidar-se com o sufrágio dos cidadãos. Ou, pelo menos, com a indiferença destes. O dr Salazar usava a terna expressão “safanões dados a tempo”. “Safanões”, vejam bem!

Isto justifica a “violência” venha ela de onde vier? De modo algum. A violência é sempre injustificada. Os fins nunca justificam os meios. E estejam nesses fins a sociedade ideal ou o poder de meia dúzia. Aliás, nisto de sociedades ideais há sempre o poder de um escasso número de iluminados que se sentem os arautos e os salvadores da imensa maioria.

Mas voltemos ao nosso parlamento. Umas padeirinhas e respectivos émulos masculinos (não os esqueçamos) tomaram dores pelos lombos de catalães independentistas como antes já tinham tomado pelos do venezuelanos maduristas. Curiosamente, nem uns nem os outros cheiram, de perto ou de longe, a esquerda, pelo menos a esquerda clássica. Aquilo a que assistimos é populismo histérico, nacionalismo feroz e xenofobia. Desde a Esquerra (e já aqui o notamos) até à CUP aí os temos impantes. E depreciativos para com o resto da comunidade espanhola. Como se a palavra Espanha fosse um insulto. Recordemos que Espanha é o nome, desde os primórdios da construção do império romano, que a península teve. A actual Catalunha estava na chamada “Tarraconense” (de Tarragona) enquanto por aqui a norte estávamos na Galécia e os de Castela na Lusitânia...

(“Arriba, arriba gajeiro, arriba ao mastro real, vê se avistas terras de Espanha, areias de Portugal”) Espanha impôs-se interna e externamente mesmo antes de ser um país unido e unificado com a notável excepção portuguesa, fruto muito do acaso tanto quanto da História e do jogo de interesses europeus (justamente uma das mais tremendas derrotas catalãs tem a ver connosco que com eles e com outros –os que de facto eram influentes- interviemos na guerra da sucessão de Espanha, tendo um exército português ocupado Madrid por um breve período de tempo).

Portugal construiu-se primeiro contra Leão (Afonso Henriques tentou baldadamente apoderar-se de vários territórios galegos, o que nunca conseguiu) depois, e sempre, contra Castela. A monarquia dual filipina foi um mero intervalo, tanto mais que, do ponto de vista legal e político o reino de Portugal continuava a existir. Todavia, esta situação não perdurou muito por culpa de grandes validos espanhóis, da incapacidade de Filipe IV (III de Portugal), dos desastres da guerra entre Espanha e Inglaterra e Holanda. Portugal viu ocupados o Brasil e Angola (ou seja Luanda e cercanias), perdido o Ceilão e outras possessões asiáticas e arruinado boa parte do comércio. Entretida com as guerras e com a manutenção da Catalunha, a Espanha já não teve exércitos suficientes para vencer D João IV. De todo o modo, a guerra da Restauração durou praticamente 30 anos e teve o resultado que teve graças a oportunas alianças com a Inglaterra.

No entanto, a sombra espanhola persistiu sobre Portugal e mais ainda sobre o nosso imaginário pelo que o chamado complexo de Aljubarrota persistiu. Ainda hoje, são evidentes e repetidos, certos traços de anti-espanholismo entre elites portuguesas. O iberismo foi sempre excepcional e a duvidosa aliança entre Salazar e Franco (que aliás chegou a ter um plano para invadir Portugal depois de por este ter sido – e de que maneira! – ajudado durante a “Cruzada” anti República).

Daí um entranhado entusiasmo por bascos (que durante muito tempo por cá andaram sem grandes cautelas), por galegos (A UPG chegou a ter bases em Portugal) ou pelos distantes catalães cuja língua, história e cultura são olimpicamente desconhecidas dos nossos padeirinhos e padeirinhas.

Daí que no Parlamento tivesse aparecido um voto tonto e pueril contra a violência da polícia. Eu até admitiria que tivesse havido alguma discussão, que se tivessem pesado argumentos, que os inocentes deputados tivessem podido esclarecer-se sobre o problema catalão. Mas nada disso sucedeu. como, de resto, se previa.

O voto é tolo, provavelmente uma imbecilidade, não contribui para ajudar uns ou outros ou melhor, ajuda os inflamados que nestes últimos dias terão visto (mesmo se a miopia política seja de regra) que na Catalunha há tantos ou mais anti-independentistas que nacionalistas.

Assistimos a uma fuga para a frente de Puigdemont e companheiros. Sabem que se declararem a independência correm o risco de serem presos o que só lhes convém. Faça Rajov, de resto galego, o que fizer está sempre em dificuldades. Políticas, obviamente, porque na frente económica as coisas correm-lhe de feição. As grandes empresas, os bancos, a indústria estão em debandada da Catalunha. só isso constitui um rombo nas finanças regionais. As pessoas começam a transferir contas para bancos que estejam protegidos pelo BCE. A enorme minoria emigrante na Catalunha inquieta-se. A Europa avisa. Toda a propaganda independentista baseou-se num argumento falso: a permanência na União Europeia. Nem a Espanha, nem a União podem consenti-lo sob pena de despedaçarem a já frágil estrutura de nações nomeadamente no caso da Bélgica, da Itália onde há tentações identitárias de certas regiões, sempre as mais ricas, claro e, identicamente, as mais conservadoras o que também não espanta especialmente.

Claro que o BE, o PC e alguns irridentes do PS não só não se entusiasmam com a ideia europeia como até sonham com uma espécie de fim apocalíptico da História em nome de um cada vez mis longínquo proletariado que a riqueza gerada pela Europa afastou do sonho revolucionário.

Até ao momento, e basta ver como se comportam os países anteriormente “socialistas”, o resultado é claramente de sinal contrário. Os “órfãos do comunismo e da finada e pouco chorada URSS, aproximam-se velozmente da Direita autoritária e xenófoba. como se a frase “morra Sansão e quantos aqui estão” fosse preferível a esta morna mas real prosperidade (que também, e já se viu, estraga os cálculos e vida da Esquerda dita (com algum exagero e inverdade) extrema.

27
Set17

au bonheur des dames 427

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Palminhas para o 4º pastorinho e silêncio para Portugal

 

mcr 27.09.17

 

A cerimónia de posse do novo Presidente de Angola ocorreu ontem. Curiosamente

a posse verifica-se mesmo antes de publicados oficialmente os resultados eleitorais. Parece que tal publicação será apenas um pormenor mesmo se tal situação dê azo às maiores dúvidas, para não falar de suspeitas.

É como se a eleição não passasse de uma mera formalidade inócua dado conhecer-se antecipadamente o vencedor. Como, aliás, se conhecia...

O Sr. Presidente da República Portuguesa esteve presente e ao que se sabe tomou banhos de mar na Ilha de Luanda, beijou criancinhas e foi muito aplaudido.

Curiosamente, a par com estas manifestações de higiene, desporto e carinho, Portugal foi olimpicamente ignorado no discurso do Sr. general Lourenço actual inquilino do Futungo de Belas (se é que será aí a sede da Presidência). A dúvida é legítima visto saber-se que o anterior presidente continua assustadoramente presente na nebulosa de poder angolano. Melhor dizendo: a criatura saiu mas não saiu. Agora, é “presidente emérito”, dotado de amplos poderes, maiores privilégios, intocável e com a família aos comandos da economia angolana.

Deixemos, porém, essa surpreendente situação e voltemos ao discurso do novo Presidente. Não vale a pena recordar que ele referiu a corrupção “que grassa no aparelho de Estado”, mandou muitos recados à juventude, como é costume, aludiu brandamente às insuficiências da liberdade de imprensa e da comunicação social (o mesmo é dizer que piedosamente fingiu assobiar para o lado) e citou trinta países importantes para Angola.

O Sr. Doutor Rebelo de Sousa não ouviu o nome do seu país referido pelo seu homónimo angolano. E não ouviu porque obviamente o poder angolano não gosta de Portugal mesmo se este é o seu maior parceiro comercial e o país que tem a maior colónia estrangeira em Angola. Também é o país onde a elite angolana vem fazer compras, tratar da saúde, evadir os capitais e entrar no capital de grandes empresas, bancos incluídos.

Num discurso escrito isto não foi um acaso muito menos uma distração. Foi algo propositado, lançado à cara do convidado Rebelo de Sousa e, por interposta televisão, a Portugal.

Os cavalheiros angolanos têm uma pedra no sapato contra a antiga metrópole. E curiosamente é o MPLA quem mais carrega nas tintas. O mesmo MPLA que foi levado ao colo pelas autoridades portuguesas no difícil período da transição. Sem o empenho de governantes e militares portugueses, o MPLA dificilmente teria sobrevivido tanto mais que a providencial e salvadora (absolutamente salvadora) ajuda cubana ainda não tinha chegado. O MPLA está onde está graças às autoridades portuguesas no território depois do 25 de Abril que tudo fizeram para o fortalecer e defender da FNLA e da UNITA.

Mesmo assim, é o que se vê. Trinta países 2importantes”, “amigos”, parceiros. E um ausente mesmo se lá estava a fazer não sei bem que papel o Sr. Presidente Rebelo de Sousa. Provavelmente estaria a fazer as vezes de comissário das bandeiras azuis provando com o seu crawl impecável que a praia de Luanda merece tal distinção. Ou para fingir que joga basquetebol como, desastradamente, provou num raro momento desportivo do noticiário.

Outro que nanja eu, diria que Rebelo de Sousa foi a Angola apanhar bonés. Não digo tanto por respeito. Foi aumentar a sua colecção de selfies e de beijinhos às criancinhas luandenses. Enquanto Lourenço falava da juventude, Marcelo amparava a infância.

Um jornal afirma que o Presidente português foi alvo de uma grande ovação (eventualmente a maior!...). Modestamente, o Doutor Rebelo de Sousa recusou ser o alvo das palminhas dizendo que a ovação foi para Portugal. Acredita mesmo nisso ou estamos, como de costume, perante mais um caso de visão celestial do 4º Pastorinho?  

22
Set17

Estes dias que passam 362

d'oliveira

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Lá sair saímos. Para onde?

 

(mcr 22.9.17)

 

“…O jovem Alexandre conquistou a Índia.

Sozinho?


César bateu os gauleses.


Não levava sequer um cozinheiro?”

(Brecht Perguntas de um operário leitor)

 

Se é verdade que a culpa morre solteira, não menos verdadeira é a afirmação de que a vitória é de todos.

Nem tanto ao mar, nem tanto ao mar... De vez em quando lá se descobrem (e se punem) uns culpados como nem sempre a vitória é colectiva.

Vem isto a propósito da saída de Portugal do lixo recentemente aprovada pela Stanley & Poor’s. As parangonas foram gigantescas, o júbilo da imprensa e de alguns políticos alcançou o nível 5 mas talvez convenha alinhar algumas verdades sobre esta missa cantada. Sair do lixo, mesmo que seja para um grau muito abaixo do desejável (e da média da Europa) é para qualquer português uma boa notícia.

Atribuir os louros desta declaração de uma (entre três) agências de rating a um só protagonista é que me parece uma tolice quando não uma vigarice.

Quem me foi lendo ao longo dos anos, sabe a fraca opinião que sempre tive do governo anterior. Houve mesmo leitores que se zangaram: que eu era injusto, que tinha uma agenda própria contra o centro-direita, que fazia propaganda pela esquerda, sei lá que mais. Liam-me vesgamente e já não se lembravam do que eu escrevera sobre Sócrates. Ou sobre Durão Barroso e o great portuguese disaster que no século se chamou Santana Lopes.

Convenhamos, desde a desilusão Guterres que não me sinto especialmente comovido, muito menos entusiasmado, com os sucessivos primeiros ministros e respectivas equipas que nos atropelam. Na melhor das hipóteses roçaram o sofrível mas depressa, muito depressa, caíram no fosso da mediocridade.

Portugal, os portugueses, aguentou estoicamente, como de costume. Gente habituada a uma terra sáfara entre a praia e a montanha pobre, fez das tripas coração e desandou por esse mundo fora. Onde menos se espera, encontramos um português desde aquele Gastão, amigo de Sandokan e casado com uma “rani” indiana até ao senhor Oliveira da Figueira com que Tintin se cruza em “OS charutos do faraó”.

Isto, esta presença modesta mas múltipla de portugueses por esse mundo de Deus serve para vir dizer que esta saída do lixo se deve a muita gente, desde, obviamente, os actuais governantes, ao inditoso Passos Coelho e, muito, a todos os paisanos que aguentaram os anos duros.

Num texto anterior às últimas eleições legislativas, eu dava conta de alguns sinais ténues mas dignos de nota de uma clara melhoria da situação e da sua percepção pelos portugueses. Aliás, baseado nisso mesmo, eu prevenia Costa que as eleições poderiam não ser, como não foram, um triunfo para o PS (obviamente não previa –nem ninguém que eu saiba- a constituição da “geringonça”, tanto mais que, naqueles ásperos dias, PC e BE rivalizavam em duras acusações ao PS).

Centeno e Costa teriam metido um formidável golo ao PSD e ao CDS se, com naturalidade e verdade, os tivessem associado –ainda que minimamente – à saída do “lixo”. Tanto mais que ainda faltam duas agências, a dívida pública é o que é e o nosso progresso é acompanhado (e até superado) pelos nossos parceiros europeus.

Há, entre certos comentadores e, sobretudo, em certos dirigentes partidários, uma ideia de que as agências de rating são uns monstros que, ainda por cima, não proveem de uma votação democrática (!). Isto é uma chapada parvoíce porquanto esta boa gente parece ignorar tudo sobre as ditas agências. Ninguém, nenhum país, está obrigado a consultá-las, a ouvi-las a segui-las. Sobretudo quando se sabe que pagam generosamente os serviços de rating! Todavia, os investidores (grandes e pequenos e mesmo pequeníssimos), à falta de melhor indicador (que não há) apostam os seus dinheiros no parecer destas instituições que, como milhares de outras estabelecem paradigmas, limites e vias para o investimento. Só a bronquidão dos fanáticos é que vê nisto mais fantasmas do que os que não existem.

A segunda (conveniente) consequência de associar os partidos da oposição (mesmo em porção meticulosamente côngrua) a esta nova situação é que assim, também, porventura indirectamente, se “amarravam” estes a parte das políticas e dos desígnios prosseguidos pelo Governo e (eventualmente) se salvaguardava alguma distância para com o PC e o BE. Que, aliás, contribuíram, e não pouco, e a contragosto, para o clima de paz social que influenciou a decisão da Stanley & Poor’s.

Finalmente, é bom não esquecer que, como acima se diz, esta saída é ainda muito pequenina. Estamos muito longe do AAA e bastante longe da média dos nossos parceiros na UE. Digamos: estamos melhor do que a Grécia mas isso não é sequer uma pequena alegria. 

15
Set17

Au bonheur des dames 420

d'oliveira

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Escrever à Sr.ª Aung San Suu Kyi

 

(mcr  15.09.17)

 

Se valesse a pena, escreveria a esta Senhora por cuja liberdade, tantos e tantos de nós se bateram. Durante anos a fio, fomo-la recordando, ao mesmo tempo que condenávamos a Junta de generais birmaneses que a reduzia à prisão em casa.

Valeu a pena? Claro que valeu. A liberdade mesmo de uma só pessoa é sempre melhor do que a privação dela.

Esperávamos algo em troca? Pela parte que me toca, bastava-me a ideia de que, uma vez livre, Suu Kyi conseguisse trazer a democracia ao seu povo. E a democracia significa, desde logo, liberdade, igualdade de oportunidades, respeito pelos direitos humanos, pelas crenças legítimas de todos.

Já, no tempo obscuro em que Suu Kyi estava prisioneira em sua própria casa, se falava de uma minoria muçulmana, distante e perdida nos limites do país, os Rohingya. Eram também os mais afastados do progresso que eventualmente poderia cair sobre os habitantes, os mais mal servidos em conforto, assistência, habitação se é que na Birmânia/Myamar se pode falar disso.

Não se esperava de budistas piedosos uma tão grande aversão e um tal desprezo por compatriotas que não ameaçavam nada nem ninguém e que, por junto, estavam unidos pela religião muçulmana, situação absolutamente espectável numa região que está paredes meias com o Bangladesh, também ele muçulmano. E miserável, acrescente-se.

Desde a libertação de Suu Kyi e da vitória eleitoral do seu partido, do acordo celebrado entre os seus adeptos e os militares, não só os Rohingya não viram melhorada a sua situação mas, pelo contrário, viram a repressão abater-se sobre as suas paupérrimas e longínquas aldeias.

Foi essa a origem duma incipiente e frágil revolta de gente inerme e praticamente desarmada. Gente que, ainda por cima, estava longe de tudo e, pelos vistos, até de Deus seja ele qual for.

Não é caso único. Há cinquenta ou sessenta anos que se fala do Darfur, do Sul do Sudão, das profundezas do Congo ex-belga. Ou da minoria berbere. Ou de curdos perseguidos e dizimados pela Turquia, pelo Irão, pelo Iraque e pela Síria. Ou das minorias muçulmanas nos confins da China. E por aí fora.

Tem todos em comum a miséria, o facto de serem minorias étnicas, linguísticas ou religiosas e, sempre, pobres e isolados. E sem voz. E sem representação nos governos dos países onde mal sobrevivem. Os do costume. Os verdadeiros “condenados da terra”, que Fanon me perdoe.

Sei bem, mais que bem, que um blog é só um blog. Que não influencia ninguém ou, na melhor das hipóteses um punhado de leitores, tão inermes quanto quem estas linhas vai traçando. Todavia, o silêncio é ainda pior. Pior até que a indiferença porquanto quem silencia sabe o que se passa quando a maior parte das vezes o indiferente ou não sabe, ou não percebe.

Receio, porém, que não valha a pena escrever à Sr.ª Suu Kyi. Alguns dos seus súbitos defensores afirmam que o silêncio dela tem um motivo: defender a frágil convivência semi-democrática que se vive em Rangun. Navegar entre o escolho dos militares e a multidão budista que sofreu anos de opressão.

Todavia, isto, mesmo se fosse assim, tem um preço. E esse é a morte, a expulsão dos Rohingya e a repressão que sobre eles se exerce impiedosa e brutal. É uma falsa e má contabilidade. E uma desculpa, que me perdoem os defensores de Suu Kyi (que, à cautela, não irá à Assembleia Geral da ONU) que nada resolve, tudo agrava e destrói uma biografia.  

 

 

04
Set17

au bonheur des dames 419

d'oliveira

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a história como "eles" a contam

 

(mcr 4-09.17)

 

A “tv memória” (ou algo com um nome semelhante) tem ocupado o Verão a transmitir uma versão “aligeirada” (demasiado aligeirada, mesmo) da história recente em que avulta uma espécie de hagiografia da 1ª República. Aquilo, mesmo descontando o tom enternecido com que se olha para aquele período histórico, é fraquinho cientificamente para não falar na pobreza franciscana da realização.

Desta feita, voltou à baila a Dr.ª Carolina Beatriz Ângelo, uma das primeiras médicas formadas em Portugal no que viria a ser a futura Faculdade de Medicina de Lisboa.

Beatriz Ângelo foi uma ardente e respeitada sufragista, republicana e admiradora de Afonso Costa de quem ela dizia ser “uma das poucas pessoas de valia no PRP”. Tendo enviuvado cedo, tornou-se chefe de família e foi nessa qualidade que tentou e conseguiu votar nas primeiras eleições realizadas pelo novo regime (1911, se não estou em erro). Conviria reparar que em tais eleições não só não estava reconhecido o direito de voto das mulheres, 1ª causa das republicanas portuguesas, como também se assistiu a uma gigantesca contração do corpo eleitoral, truque usado para permitir que o republicanismo vitorioso nas ruas de Lisboa não fosse derrotado pelos eleitores da “província” “reféns”, como se arguia, do clericalismo e dos cacique monárquicos. Com um segundo pormenor anedótico: onde só houvesse uma lista (a republicana) nem havia a maçada de ir a votos.

Para votar, a dr.ª Beatriz Ângelo teve de recorrer de uma primeira recusa e, mesmo em plena sala de voto, ainda se lhe levantaram dificuldades. Convém relembrar a famosa e inovadora sentença do juiz João Baptista de Castro que contundentemente declarava a exclusão das mulheres como ilegal e absolutamente injusta, mandando em consequência que se inscreve nos cadernos eleitorais o nome de Beatriz.

Teria sido bonito (e justo) relembrar este digníssimo juiz cuja sentença correu meia Europa pelo que tinha de inteligente e de progressivo. Mas não: os tolos, para alevantar Beatriz, ocultaram João Baptista!

Posteriormente, não só o seu voto foi anulado pelo Congresso da República mas saiu legislação a proibir expressamente o voto das mulheres. Parece que a elite republicana temia que a Igreja influenciasse estas e derrotasse a “justa causa” da liberdade e da fraternidade.

Seria apenas com o negregado dr. Salazar que as mulheres alcançariam o estatuto de eleitoras e elegíveis para a Assembleia Nacional. A coisa terá ocorrido nos anos trinta, vinte e tal anos depois do gesto de Beatriz.

Salazar, pressentia que o género feminino escolheria a opção conservadora, a “ordem”, a tradição e a respeitabilidade.

(aliás, recordo, sem emoção, que, ainda nos meus tempos de estudante em Coimbra, se atribuía às “raparigas” nossas colegas um facataz pela Direita que, na verdade, nunca se verificou, pelo menos de forma especialmente ameaçadora. No fundo, a ideia que primava era a de que as mulheres tinham uma fraca sensibilidade política e, sobretudo, eram profundamente influenciáveis por pais, maridos, familiares, padres e sei lá quem mais. E eram mulheres...

Voltando às nossas devoções: evocar Beatriz Ângelo e o seu voto sem, depois, contar o resto da história que é bem mais importante do que o gesto inicial é na melhor das hipóteses uma grave omissão e na pior uma clara falsificação da História. Inclino-me para este segundo caso dado o tom geral dos documentários produzidos in illo tempore sobre a !ª República de que, aliás, são um pobre e triste exemplo as séries dedicadas aos primeiros presidentes da República também eles apresentados em perfil angélico e, sobretudo, baço no que toca a questões essenciais. Não se chega a perceber o que é que distinguiu Arriaga, Teófilo Braga ou Bernardino Machado dos seus amigos e adversários. Alguém me dizia: não te preocupes, aquilo são filmes para consumo das massas e só passam à hora das novelas, ou seja, acabam por ser invisíveis e de pouca mossa.

De certo modo, o meu interlocutor tinha razão: só um velho chato e rezingão, eu, é que se dá ao trabalho de se indignar com esta história alegre e simplificada de Portugal.

 

* em tempo: Carolina Beatriz Ângelo começou a sua carreira de médica em 1903 e a política em 1907 vindo a morrer em 1913. É pouco tempo para se falar de uma carreira política, mesmo se ela fez parte do primeiro grupo de mulheres republicanas. A ideia que fica, sem desprimor para a sua coragem e determinação, é a de um exemplo que não teve tempo para frutificar e deixar obra.

 

27
Ago17

Estes dias que passam 361

d'oliveira

Revisões da matéria dada (variante terceira)

mcr 26.Ago.17

 

Há dez anos, porventura onze, publiquei aqui o texto que abaixo se reproduz.

Tratava-se do "estes dias..." nº 74

 Razões de mera arrumação da minha escrita pregressa fizeram-me dar com ele e verificar a sua terrível actualidade. Republico-o agora sem lhe alterar nada, ou tão somente alguma gralha ou virgula defeituosa. 

 

 

A imaginação nunca ultrapassa a realidade

 

De quando em quando, escrevo aqui umas balivérnias que leitoras condescendentes interpretam como frutos da minha imaginação. E, de facto, sob um fundo pesado de realidade lá vou vaporizando as minhas peças de alguma imaginação.

Hoje, todavia, renuncio de todo em todo à cavalgada imaginadora das minhas “pequenas células cinzentas”, como diria o inestimável Hercule Poirot. E se falo no belga filho da imaginação da senhora Christie é porque o tema de hoje lembra um mistério desses difíceis com que a velha dama nos divertia. É, na verdade, um mistério a boa imprensa de que gozam, entre nós, alguns países, ou melhor os governos de alguns países espalhados por essas vastas geografias de medo e infâmia.

Comecemos pela Venezuela, hoje dirigida por um antigo putchista da direita mais militarona e reaccionária. De facto o senhor Chavez, o arauto de uma rocambolesca revolução bolivariana, começou a sua discutível carreira de estadista, tentando levar a cabo um desditoso golpe nos anos 90 contra o presidente legal Carlos Andrés Pérez. A jogada deu para o torto, ele terá feito quase dois anos de prisão suave e, para espanto dos que ainda se espantam, conseguiu ganhar as eleições presidenciais em 98. Depois, tem sido reeleito. E com margens importantes, há que dizê-lo. O dinheiro do petróleo (cujos preços estão desde há muito em alta) redistribuído em parte pelos mais pobres, pelos militares (ai não!) tem disfarçado a ausência de política e de clareza no discurso populista de Chavez. A América do Sul tem visto outros aprendizes de ditador, tem assistido ao corte crescente das liberdades, ao cantonamento das oposições (cuja inteligência política é inversamente proporcional ao amor ao poder e aos seus mais evidentes frutos) e à lenta edificação de um estado policial. Cá pelo burgo, parece que alguém terá achado que Chavez é o Messias da esquerda. A idade não perdoa, é o que é. Genericamente, os europeus vão dialogando com Chavez tanto mais que o seu petróleo é menos incerto que o da península arábica. Depois, quando acordarem, será tarde.

Não abandonemos este desamparado continente sem referir uma vez mais a infâmia que se representa nas florestas colombianas onde um partido “revolucionário” detém umas centenas de reféns. Desta vez há notícia da morte de uma série de políticos colombianos, que alegadamente terão sido vítimas das tropas governamentais. Digamos para já que, a ser verdade a autoria da tropa governamental, sempre haverá uma certeza: os reféns serviram de escudos humanos. Todavia, não é difícil imaginar que estas mortes se reduzem a meros assassínios de futuros opositores das FARC se e quando estas forem um partido político legal.

Um passeio agora por África, mais precisamente por um país que, custa dizê-lo registava ainda há uns dez, doze anos, alguns índices de prosperidade: o Zimbabwe. Convirá esclarecer algum leitor desatento que, desta banda, nunca se louvou o senhor Ian Smith um dos aliados racistas de um Portugal antigo que não para de renascer. O senhor Smith conseguira, todavia, criar um país com uma sólida economia agro-industrial, nas mãos dos brancos evidentemente. Os negros faziam de paisagem, de boys, de trabalhadores agrícolas como é costume. A estrutura económica que passou intacta para as mãos rapaces de Mugabe pospunha a manutenção das grandes fazendas, mesmo se nacionalizadas. A sua divisão arruinou os trabalhadores agrícolas das antigas fazendas, destruiu a exportação, substituindo-lhe uma economia de subsistência que nem isso chega a ser. O Zimbabwe tem fome. Fome como nunca teve num passado recente e infame. E tem uma ditadura que deve fazer empalidecer de inveja o velho Ian Smith hoje exilado no Cabo. Mugabe vai liquidando metodicamente os opositores políticos, negros desta vez, enquanto o pais soçobra no caos. A Europa torce-lhe o nariz mas os africanos recusam-se a condená-lo. E convenhamos que os ingleses também não o molestam demasiadamente. Ao que parece os mortos actuais já não comovem as consciências democráticas como há anos. A diferença deve ser esta: agora são os negros que matam os outros negros. Logo está tudo bem. Não há colonialismo.

Daqui até à Líbia vai um salto. Por cima do Darfur e do seu imenso desastre. Curiosamente, o meu primeiro sogro, Jorge Delgado ofereceu-me ainda nos anos 60 uma brochura sobre o Darfur, comprada na “Joie de Lire” do François Maspero. Um escândalo que dura vai para cinquenta anos já o não é. O que me admira é que ainda aí haja gente para morrer. Os pretos têm a pele dura, dizia-me um amigo também negro, angolano, assassinado pelos nitistas, em Angola. Teve sorte: provavelmente o MPLA também lhe trataria da saúde, mais tarde.

E a Líbia? Pois a Líbia é o que sempre foi: Kadafi um iluminado sentado em cima do petróleo (que tanta falta faz) continua a sua “revolução verde” (esta gentinha adora falar de revolução!) e faz-se rogar pelos ocidentais. Desta feita, é um processo kafkiano que me traz este personagem à caneta. Meia dúzia de enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano acusados de inocularem vírus mortais a umas centenas de crianças líbias, viram confirmadas pelo Supremo Tribunal as penas de morte. Agora, dizem os nossos jornais, resta apelar a Kadafi. O que vai ser feito, obviamente. Ou seja a campanha de branqueamento do cavalheiro entra numa fase superior, como se dizia nos velhos tempos de “análise concreta da situação concreta”. Vai uma apostinha em como ainda veremos Kadafi ser recebido como benfeitor da humanidade em Bruxelas?

Ou em Varsóvia, já agora e para terminar. Eu confesso que nada tenho contra os polacos, bem pelo contrario, adoro Chopin e fui principescamente recebido pelos meus amigos de Varsóvia quando, in illo tempore, fui visitar uns colegas do Direito Comparado. Detestei a atmosfera política, o medo, a pobreza, o desespero dos meus amigos, tanto quanto apreciei a gentileza deles, a cultura, a amizade demonstrada e a dignidade de um povo que não se submetia.

Que esse povo seja agora governado por uma parelha de gémeos abaixo de qualquer classificação é coisa que me consegue ainda espantar. É que a coligação que governa a Polónia e que ostenta aquelas duas criaturas à frente do Estado e do Governo não é sequer conservadora, mas retintamente reaccionária. Eu nem falo da homofobia, coisa que ainda conseguiria vagamente perceber dada a profunda religiosidade polaca que além do mais é um factor de unidade nacional e lhes permitiu sobreviver ao período soviético. Isto não significa que não condene as perseguições de rua e legais à minoria sexual, claro. Não consigo entender as leis sobre as provas de cidadania reiteradas à caça de antigos polícias, de colaboradores do antigo regime, de gente que se calou ou que não se manifestou (como se isso fosse possível!...). Actualmente o ambiente tem piorado: os gémeos não só se recusam a aplicar fartas doses de legislação comunitária como entendem chantagear a Europa, desenvolver uma campanha inaudita contra a Alemanha e tentar obter para o seu país (que entretanto assinou com uma mão distraída os tratados que agora alegremente pretende modificar a seu favor) condições de privilégio que nada fundamenta. Os manos Kakzinsky conseguiram o impossível: nomearam uma senhora mediadora para os direitos da infância cuja primeira missão foi despistar “a publicidade subliminal da homossexualidade nuns bonecos infantis – os teletubbies – porque um usava um saco vagamente feminino...

Uma Europa onde esta gente tem entrada não é só triste. É ridícula.

Espero que ao escrever isto num blog não esteja a infringir uma regra de ouro inventada por uma senhora Secretária de Estado que entende que o humor (aqui dolorosamente em falta, mas enfim...) sobre personalidades fica bem em casa, eventualmente numa rua escusa, na praia (se deserta) ou num campo de concentração. Esperemos que os blogs hoje tão na mira dos zelotas e dos filisteus entrem nessas categorias de inocência confirmada.    

27
Ago17

Estes dias que passam 361

d'oliveira

Revisões da matéria dada (variante terceira)

mcr 26.Ago.17

 

Há dez anos, porventura onze, publiquei aqui o texto que abaixo se reproduz.

Tratava-se do "estes dias..." nº 74

 Razões de mera arrumação da minha escrita pregressa fizeram-me dar com ele e verificar a sua terrível actualidade. Republico-o agora sem lhe alterar nada, ou tão somente alguma gralha ou virgula defeituosa. 

 

 

A imaginação nunca ultrapassa a realidade

 

De quando em quando, escrevo aqui umas balivérnias que leitoras condescendentes interpretam como frutos da minha imaginação. E, de facto, sob um fundo pesado de realidade lá vou vaporizando as minhas peças de alguma imaginação.

Hoje, todavia, renuncio de todo em todo à cavalgada imaginadora das minhas “pequenas células cinzentas”, como diria o inestimável Hercule Poirot. E se falo no belga filho da imaginação da senhora Christie é porque o tema de hoje lembra um mistério desses difíceis com que a velha dama nos divertia. É, na verdade, um mistério a boa imprensa de que gozam, entre nós, alguns países, ou melhor os governos de alguns países espalhados por essas vastas geografias de medo e infâmia.

Comecemos pela Venezuela, hoje dirigida por um antigo putchista da direita mais militarona e reaccionária. De facto o senhor Chavez, o arauto de uma rocambolesca revolução bolivariana, começou a sua discutível carreira de estadista, tentando levar a cabo um desditoso golpe nos anos 90 contra o presidente legal Carlos Andrés Pérez. A jogada deu para o torto, ele terá feito quase dois anos de prisão suave e, para espanto dos que ainda se espantam, conseguiu ganhar as eleições presidenciais em 98. Depois, tem sido reeleito. E com margens importantes, há que dizê-lo. O dinheiro do petróleo (cujos preços estão desde há muito em alta) redistribuído em parte pelos mais pobres, pelos militares (ai não!) tem disfarçado a ausência de política e de clareza no discurso populista de Chavez. A América do Sul tem visto outros aprendizes de ditador, tem assistido ao corte crescente das liberdades, ao cantonamento das oposições (cuja inteligência política é inversamente proporcional ao amor ao poder e aos seus mais evidentes frutos) e à lenta edificação de um estado policial. Cá pelo burgo, parece que alguém terá achado que Chavez é o Messias da esquerda. A idade não perdoa, é o que é. Genericamente, os europeus vão dialogando com Chavez tanto mais que o seu petróleo é menos incerto que o da península arábica. Depois, quando acordarem, será tarde.

Não abandonemos este desamparado continente sem referir uma vez mais a infâmia que se representa nas florestas colombianas onde um partido “revolucionário” detém umas centenas de reféns. Desta vez há notícia da morte de uma série de políticos colombianos, que alegadamente terão sido vítimas das tropas governamentais. Digamos para já que, a ser verdade a autoria da tropa governamental, sempre haverá uma certeza: os reféns serviram de escudos humanos. Todavia, não é difícil imaginar que estas mortes se reduzem a meros assassínios de futuros opositores das FARC se e quando estas forem um partido político legal.

Um passeio agora por África, mais precisamente por um país que, custa dizê-lo registava ainda há uns dez, doze anos, alguns índices de prosperidade: o Zimbabwe. Convirá esclarecer algum leitor desatento que, desta banda, nunca se louvou o senhor Ian Smith um dos aliados racistas de um Portugal antigo que não para de renascer. O senhor Smith conseguira, todavia, criar um país com uma sólida economia agro-industrial, nas mãos dos brancos evidentemente. Os negros faziam de paisagem, de boys, de trabalhadores agrícolas como é costume. A estrutura económica que passou intacta para as mãos rapaces de Mugabe pospunha a manutenção das grandes fazendas, mesmo se nacionalizadas. A sua divisão arruinou os trabalhadores agrícolas das antigas fazendas, destruiu a exportação, substituindo-lhe uma economia de subsistência que nem isso chega a ser. O Zimbabwe tem fome. Fome como nunca teve num passado recente e infame. E tem uma ditadura que deve fazer empalidecer de inveja o velho Ian Smith hoje exilado no Cabo. Mugabe vai liquidando metodicamente os opositores políticos, negros desta vez, enquanto o pais soçobra no caos. A Europa torce-lhe o nariz mas os africanos recusam-se a condená-lo. E convenhamos que os ingleses também não o molestam demasiadamente. Ao que parece os mortos actuais já não comovem as consciências democráticas como há anos. A diferença deve ser esta: agora são os negros que matam os outros negros. Logo está tudo bem. Não há colonialismo.

Daqui até à Líbia vai um salto. Por cima do Darfur e do seu imenso desastre. Curiosamente, o meu primeiro sogro, Jorge Delgado ofereceu-me ainda nos anos 60 uma brochura sobre o Darfur, comprada na “Joie de Lire” do François Maspero. Um escândalo que dura vai para cinquenta anos já o não é. O que me admira é que ainda aí haja gente para morrer. Os pretos têm a pele dura, dizia-me um amigo também negro, angolano, assassinado pelos nitistas, em Angola. Teve sorte: provavelmente o MPLA também lhe trataria da saúde, mais tarde.

E a Líbia? Pois a Líbia é o que sempre foi: Kadafi um iluminado sentado em cima do petróleo (que tanta falta faz) continua a sua “revolução verde” (esta gentinha adora falar de revolução!) e faz-se rogar pelos ocidentais. Desta feita, é um processo kafkiano que me traz este personagem à caneta. Meia dúzia de enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano acusados de inocularem vírus mortais a umas centenas de crianças líbias, viram confirmadas pelo Supremo Tribunal as penas de morte. Agora, dizem os nossos jornais, resta apelar a Kadafi. O que vai ser feito, obviamente. Ou seja a campanha de branqueamento do cavalheiro entra numa fase superior, como se dizia nos velhos tempos de “análise concreta da situação concreta”. Vai uma apostinha em como ainda veremos Kadafi ser recebido como benfeitor da humanidade em Bruxelas?

Ou em Varsóvia, já agora e para terminar. Eu confesso que nada tenho contra os polacos, bem pelo contrario, adoro Chopin e fui principescamente recebido pelos meus amigos de Varsóvia quando, in illo tempore, fui visitar uns colegas do Direito Comparado. Detestei a atmosfera política, o medo, a pobreza, o desespero dos meus amigos, tanto quanto apreciei a gentileza deles, a cultura, a amizade demonstrada e a dignidade de um povo que não se submetia.

Que esse povo seja agora governado por uma parelha de gémeos abaixo de qualquer classificação é coisa que me consegue ainda espantar. É que a coligação que governa a Polónia e que ostenta aquelas duas criaturas à frente do Estado e do Governo não é sequer conservadora, mas retintamente reaccionária. Eu nem falo da homofobia, coisa que ainda conseguiria vagamente perceber dada a profunda religiosidade polaca que além do mais é um factor de unidade nacional e lhes permitiu sobreviver ao período soviético. Isto não significa que não condene as perseguições de rua e legais à minoria sexual, claro. Não consigo entender as leis sobre as provas de cidadania reiteradas à caça de antigos polícias, de colaboradores do antigo regime, de gente que se calou ou que não se manifestou (como se isso fosse possível!...). Actualmente o ambiente tem piorado: os gémeos não só se recusam a aplicar fartas doses de legislação comunitária como entendem chantagear a Europa, desenvolver uma campanha inaudita contra a Alemanha e tentar obter para o seu país (que entretanto assinou com uma mão distraída os tratados que agora alegremente pretende modificar a seu favor) condições de privilégio que nada fundamenta. Os manos Kakzinsky conseguiram o impossível: nomearam uma senhora mediadora para os direitos da infância cuja primeira missão foi despistar “a publicidade subliminal da homossexualidade nuns bonecos infantis – os teletubbies – porque um usava um saco vagamente feminino...

Uma Europa onde esta gente tem entrada não é só triste. É ridícula.

Espero que ao escrever isto num blog não esteja a infringir uma regra de ouro inventada por uma senhora Secretária de Estado que entende que o humor (aqui dolorosamente em falta, mas enfim...) sobre personalidades fica bem em casa, eventualmente numa rua escusa, na praia (se deserta) ou num campo de concentração. Esperemos que os blogs hoje tão na mira dos zelotas e dos filisteus entrem nessas categorias de inocência confirmada.