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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

03
Set13

no labirinto alfarrabista 3

d'oliveira

 

 

Um general alemão

Ainda não convalesci desse vulcão chamado “Servidões” de Herberto Hélder. Nem espero convalescer, convenhamos. Ando com o livro debaixo do braço e só leio um texto por dia. Às vezes nem isso. Como uma criança com um bolo, esforço-me por fazer render o peixe. Bem sei que, em acabando, posso sempre recomeçar. Mas não será nunca a mesma coisa. À uma porque a leitura de HH é sempre diferente. Desde o momento solar em que li “Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra e arbusto de sangue. Com ela encantarei a noite...” (muitas graças se deem a António Carlos Manso Pinheiro, meu amigo, meu irmão nestas coisas, meu colega desde o 1º ano do liceu, levado por um cancro ignóbil que poupa os velhacos e nos rouba os melhores e que num dia alucinante me leu estas linhas – há de ter sido em 61 ou 62- o mundo nunca mais foi o mesmo)já senti essas palavras mudarem de cor, de volume, de sentido, mil vezes.

Não consigo imaginar HH, que conheci e frequentei durante algum tempo (tempo de espanto e lume!) aos 80 anos a criar mais outro momento único da poesia portuguesa. Mas criou!

Por isso o vou lendo, respirando, mastigando com a gulosa lentidão do que sabe que a poesia é para quem dela precisa.

Sendo assim, e continuando uma tradição comum a tantos leitores, vou entremeando HH com outros autores. O último em data é Paul von Lettow-Vorbeck(Memórias da guerra na África Oriental, 1914-1918). Dito assim, é provável que ninguém saiba quem é.

Mas é alguém bem próximo de nós, portugueses, pelos  que estimam a História pregressa do seu país. Von Lettow foi o general alemão que nos derrotou sem apelo nem agravo, no Norte de Moçambique, durante a 1ª Grande Guerra.

Todavia, não nos derrotou apenas a nós. Com um exército que nunca teve mais de 300 a 500 branco e dois a quatro mil askaris (soldados negros de grande qualidade) Von Lettow derrotou sucessivamente exércitos ingleses muito superiores (chegaram a ter vinte vezes mais tropas do que as dele, invadiu a Rodésia do Norte (actual Zambia)) e numa das suas entradas em Moçambique, quase chegou às margens do Zambeze. Contra ele combateram sucessivamente 127 (cento e vinte sete) generais dos quais se deve destacar o sul africano Smuts.

Acresce que, em tempos tão difíceis como aqueles, a “força de protecção alemã da colónia do Tanganika” nem sempre teve o apoio dos políticos coloniais aí instalados. Em último lugar, se a guerra é sempre violenta e despiedada, valha a verdade que as tropas de von Lettow conseguiram ganhar a admiração dos adversários por não terem feito jus à má fama de gozavam os alemães. Os prisioneiros foram, regra geral, correctamente tratados e aos oficiais prisioneiros apenas se exigia a palavra de honra que, uma vez devolvidos à liberdade (às tropas alemãs em constante movimento não convinha manter prisioneiros quanto mais não fosse por nem sequer terem sempre os mantimentos necessários para se manterem em forma)não voltariam a pegar em armas contra os seus captores. Os soldados negros eram libertados rapidamente pelas mesmas razões (economia de meios)e porque, em muitos casos, o português é o mais evidente, tinham sido mobilizados à força e a sua fidelidade aos antigos chefes militares era, a existir, extremamente reduzida.

Acabada a guerra, declarado o armistício, foi o pequeno exército alemão, reduzido a cerca de trezentos europeus e menos de mil e quinhentos askaris, instado a cessar hostilidades sob a garantia de que isso não seria considerado uma rendição. Claro que, uma vez depostas as armas, a situação dos alemães pouco se diferenciou da rendição.

Quando regressaram à Alemanha, foram recebidos como heróis o que não é de estranhar num país acabrunhado pela derrota. Von Lettow passou pouco tempo depois à reserva mas, mesmo se nacionalista, recusou altivamente apoiar Hitler fosse de que forma fosse. Junker, prussiano, conservador mas demasiado apegado a valores que exluiam totalmente qualquer adesão ao Reich de 1000 anos e à infâmia do NSDAP. A edição portuguesa que encontrei depois de anos de procura (e depois de ainda há pouquíssimo tempo ter encontrado uma italiana) é ilustrada por desenhos e mapas de operações e está sublinhada a lápis pelo anterior leitor e proprietário que não se coíbe de comentar. Um “must”!

 

17
Jul13

No labirinto alfarrabista 2

d'oliveira

Coincidências

 

(no labirinto alfarrabista 2)

 

 

 

Na sua edição de 16 de Julho, o  “Público” traz uma interessante notícia (uma inteira página!) sobre a realização de um documentário sobre a “viagem filosófica” do Doutor Júlio Henriques à Ilha de S. Tomé, entre 1873 e 1918.

 

Por viagem filosófica entendia-se, na época, um longo trabalho de exploração in situ tendo como alvo as espécies vegetais (mas não só) nativas do lugar, sua descrição e análise, estudo e conservação de exemplares para se aumentarem os herbários da instituição que financiava a viagem.

 

Ora, esta viagem repete no essencial, outras quatro que, um século antes, foram ordenadas por D Maria I e realizadas sob as instruções de um grande professor da Universidade de Coimbra, o Doutor Vandelli, cientista contratado na Itália e chegado à UC cujo plano de estudos fora grandemente modificado pela legislação pombalina. Relembremos que esta Reforma teve uma extraordinária importância e modificou exemplarmente o ensino ali ministrado. Novos cursos (entre eles a Filosofia Natural), novos equipamentos iguais aos melhores que havia na Europa, novos professores e, fundamentalmente, um novo espírito.

 

Abreviando: depois de uma intensa preparação, quatro licenciados pela Universidade, foram enviados para os quatro cantos do Império português: Alexandre Rodrigues Ferreira rumou ao Brasil, onde permaneceu dez anos extraordinários, recolhendo uma gigantesca soma de informações, sobre terras, gentes, fauna e flora que felizmente começam (lá fora!!!) a ser reunidos em livro.

 

João da Silva Feijó foi destacado para Cabo Verde (e mais tarde irá ainda ao Brasil) e deixou também extensa informação publicada em várias publicações especializadas da Academia das Ciências. Para Angola seguiu José Joaquim da Silva que fez o percurso Benguela Luanda  deixando também espólio notável. Finalmente para Moçambique seguiu Manuel Galvão da Silva, que já explorara parte dos territórios de Goa mas que morreu em plena expedição.

 

Destes notáveis cientistas e exploradores não há por aí notícia alguma. Nem uma rua a lembrar-lhes a alta qualidade dos seus serviços, o mérito das suas importantes descbertas, o zelo em reunir colecções de altíssima qualidade, os escritos e as tremendas dificuldades que passaram naqueles sertões bravios e ignotos. Nada! 

 

Todavia, perguntará algum leitor mais corajoso que até aqui chegou, porque razão estou para aqui a dar notícia de algo que o país e boa parte das suas elites esqueceram se é que alguma vez souberam.

 

Por um acaso, estava em Lisboa quando o excelente livreiro alfarrabista Bernardo Trindade entendeu fazer uma venda de livros sobre o Brasil. Claro que caí lá que nem um tiro e, subitamente, encontrei, entre outras coisas extraordinárias, uma obra em dois volumes, com o título de “Viagem filosófica”. Era uma edição absolutamente notável do Alexandre Rodrigues Ferreira que em dois pesadíssimos volumes, trazia plantas de terras, desenhos, gravuras de animais e plantas, alem de uma extensa série de retratos de gentes daquelas lonjuras. O preço era para a obra -e num critério internacional-  completamente ridículo (60€). Claro que o comprei. Porém, prosseguindo a exploração encontrei uma outra versão muito mais maneirinha  só com as gravuras e, por mera questão de peso, abandonei a primeira compra e juntei-lhe mais três livros. Quando regressei ao Porto, um só revirar de páginas da “Viagem ao Brasil” fez-me pensar que a obra abandonada deveria ser excepcional. Dado que comprara o livro num Sábado, regressara no domingo, tive a louca esperança de a poder ainda obter. Aquilo pesava um bom arrátel dos antigos coisa que deveria fazer desistir muitos amadores. Com uma sorte danada o Bernardo confirmou que ainda a tinha e daqui a dias irei buscá-la. Nem que tenha de levar um carrinho de mão!

 

Entretanto, já no Porto, passo por outro dos meus alfarrabistas conhecidos e dou de caras com umas publicações  que pareciam semelhantes às já citadas. Tratava-se de três grupos de livros, contidos em caixas de cartão de muito boa apresentação e naturalmente dedicadas ao Brasil. A editora era a mesma e os preços, uma vez sem exemplo, simpáticos. Adquiri, assim, o “Theatrum rerum naturalium Brasiliae”, quatrocentas páginas, em 2 volumes, das estampas organizadas em 1600 por Christian Mentzel  e oferecidas a uma alta personagem holandesa; três volumes de cartas sobre a ocupação holandesa ddo Brasil; outros tantos volumes contendo os desenhos de Frans Post guardados actualmente no British museum, a colecção Niedenthal (animais e insectos do Brasil) e o “diario de uma estada no Brasil" de Cuthbert Pussey . Ao todo, são três das sete colecções de documentos publicadas no Brasil entre 1998 e os dias de hoje, sob o título genérico de “O Brasil Holandês”.

 

São edições sumptuosas, bem apresentadas por tudo quanto há de melhor entre os estudiosos brasileiros e só porque alguém se quis desfazer em vida destes livros as consegui comprar. Ao todo nem cem euros me custaram.

 

Como nota curiosa um dos dois volumes de Alexandre Rodrigues Ferreira é uma espécie de catálogo completo dos tesouros que se guardam no Museu Bocage de Lisboa. Relembremos, de passagem, que essa óptima colecção é apenas uma pequena partte do que já lá houve, pois, durante as invasões francesas, foi levada uma grande parte da colecção (suponho que será a que está exposta em Paris sob o nome “Cabinet de Lisbonne”) e outra parte foi consumida pelas chamas durante o incêndio da Escola Politécnica/faculdade de Ciências.

 

Os leitores ávidos e empedernidos como eu sabem que no espaço de duas semanas conseguirem-se tantos livros, a preços de saldo, e aparecer uma notícia sobre uma outra viagem, são coincidências dignas de um verdadeiro milagre de Fátima, bem melhor dos que a esposa do Chefe de Estado vê por aí.

 

Ou seja, nós laicos, também somos criaturas amparadas pelos poderes do Altíssimo.

 

Para o caso de algum dos leitores se interessar por esta bela arte da história natural eis aqui os dados referentes a Ferreira: “Viagem ao Brasil”, Kapa editorial, 2 vols de 320 e 160 p., 2002, org: Cristina Ferrão e J P Monteiro Soares, contendo “Desenhos De Gentios, Animais Quadrúpedes, Aves, Amphibios, Peixes e Insectos Da Expedição Philosophica ao Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuyabá”.

 

(relembremos, por curiosidade, que, em Portugal se editou, cerca de 1880, uma História Natural em seis volumes (cerca de 3000 p. e quase duas centenas de gravuras tintadas a cores). Foi seu autor o doutor Júlio de Mattos (esse mesmo!) e a edição coube à Livraria Universal, do Largo dos Lóios, no Porto. Esta obra é muito estimada pelos coleccionadores e atinge preços elevados no mercado. Nunca menos de 500 €!  Lê-se com agrado mesmo se, como seria de esperar, reflicta apenas os conhecimentos da altura. De todo o modo é de saudar este intenso labor de divulgação que animou o doutor Júlio de Mattos que nem sequer era do ramo.)

 

 

*gravuras tiradas do "theatrum..." 

 

 

 

 

 

 

 

                                                    

06
Mai13

No labirinto alfarrabista 1

d'oliveira

 

 

 

Brilhante século XIX

 

Em Portugal, lê-se pouco e lê-se mal. Convenhamos que a culpa não é toda dos leitores mas alguma, também, dos editores, para não falar das livrarias que agora abrem portas.

Refiro-me, no último caso, a certas formas de comércio livreiro que movidas por uma ideia muito próprio de lucro a todo o custo apenas se interessam pela novidade, pelo best-seller e pelos livros mais fáceis (falo da FNAC mas poderia acrescentar mais um par de livrarias normalmente cadeias de livrarias onde ir por um livro mais confidencial ou com mais de dois ou três anos é tarefa arriscada quando não inútil.

Decidi, não sei se com razão, muito menos se com algum eventual êxito, ir consignando neste espaço um par de visitas e/ou de recomendações sugeridas pelas minhas deambulações pelo comércio alfarrabista.

E só o faço porque em três ou quatro ocasiões recentes consegui levar amigos a esse tipo de livrarias e dar-lhes a possibilidade de encontrar livros que eles queriam desde há anos.

Hoje, para começar, venho dar-vos conta de uma obra a todos os títulos notável:

Dictionnaire. universel d’histoire naturelle servant decomplément aux ouevres de Buffon, de G de Cuvier, aux encyclopédies et aux ancients dictionnaires scientifiques.

Não se alarme o leitor com o título comprido muito na moda no século XIX . Nem com o número de volumes (13 mais 3 de gravuras a cores ,intitulado “Atlas”), sequer com o preço (250€).

Trata-se de uma obra de grande qualidade mesmo se o “estado da arte” seja radicalmente diferente do longínquo ano de 1949 data em que o editor Renard Martinet& Cie deu por concluída a edição.

Hoje em dia, o principal interesse da obra reside nos preciosos três volumes de belíssimas gravuras a cores mostrando mais ou menos quinhentos animais. Uma obra prima.

Aliás, os preços que compulsei na internet (entre 1900 e 5000 euros) mostram bem a diferença entre a edição só texto (300 a 500€) e a edição completa.

O que é curioso é que, neste momento, presumo, anda por aí, num alfarrabista lisboeta a mesmíssima obra completa por 250€!!!

Tive-a na mão e só a não comprei porque, aqui muito à puridade, envergonhava-me adquiri-la na totalidade para imediatamente passar os treze volumes de texto à clandestinidade dos arrumos.

Qualquer leitor entusiasta se depara com um problema: onde pôr os livros. Treze volumes andam pelos 75/80 centímetros (mínimo) e esse espaço faz uma falta dos diabos.

Como não faço parte do circuito bibliófilo, muito menos do dos colecionadores maníacos, achei melhor saciar a minha curiosidade numa edição recente do referido “atlas”, numa bonita e bem conseguida edição: cinco volumes encadernados num “coffret” de dimensão simpática, tudo por 38,5€ via “Amazon fr.”.

Confesso, todavia, que me ficaram os olhos presos naqueles três volumes encadernados (e cansados) da edição original. Mas eu sou apenas um leitor e a crise dissuade os melhores de gastar um balúrdio e, ainda por cima, degredar para a antecâmara da morte uma obra a todos os títulos exemplar.

Fica para quem a estimar ou, eventualmente, para algum especulador em livros (que os há...) que se motive com os preços mirabolantes da internet.

E já que se fala do senhor Orbigny, não deixa de ser interessante relembrar que, agora no Porto, um alfarrabista oferece, baldadamente, aos interessados uma monumental edição do grande Buffon, também ela em muitos volumes e carregada de ilustrações preciosas.

Claro que, oh volúpia possessória, também já consegui obter, desta feita num formato “XL” as gravuras de Buffon, recentemente reeditadas. Isso e um maravilhoso “alfabeto” da autoria do grande naturalista que andava esgotado há décadas.

Mesmo não sendo, não o sou seguramente, passadista, tenho de confessar que, hoje em dia, raros são os ilustradores que valem a pena.

Entre esses, e para que conste, relembro dois autores:

Manuela Bacelar

E o “Planeta Tangerina” que este ano conseguiu um grande prémio que só pecou por tardio.

E são portugueses!