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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

09
Mar17

O leitor (im)penitente 198

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 4

 

O preço segundo a cara do freguês

 

Os atlas geográficos ocupam um lugar apreciado na lista dos livros em venda por alfarrabistas, nacionais ou estrangeiros. E os preços, ah, os preços!!!, são mais voláteis do que os gazes preciosos e raros.

De certo modo esta situação é compreensível. Os grandes atlas, os famosos, os nascidos com os séculos XVI e XVII são hoje mais do que raros, são raríssimos e os que existem, salvo pequenas excepções estão aferrolhados a sete chaves nas grandes bibliotecas ou em algumas universidade. Ao interessado (e eu sou apenas um interessado e não um bibliófilo) resta geralmente o recurso a algumas excelentes edições facsimiladas que, por um lado reproduzem exactamente o atlas desejado, por outro têm a vantagem de geralmente ser de preço acessível.

(este adjectivo acessível deverá ser entendido cum granu salis. No mundo dos livros a palavra estica-se bastante...)

Desde pequeno que a Geografia (com a História e com a História Natural) me fascinou. Nos anos de rebeldia liceal fui sempre bom aluno nessas cadeiras que despertavam a minha insaciável curiosidade a tal ponto que logo em Outubro já tinha lido, relido e voltado a ler os manuais. A paixão continuou vida fora e agora, adiantado em anos, continuo a apreciar tudo o que diga respeito a estes três grandes domínios.

Todavia, hoje, vou ser impertinente com a honrada classe dos alfarrabistas que, quando apanham um livro com ilustrações de qualidade ou com mapas entram numa espécie de festiva dança de S Vito e pensam ter ganho o céu ou, pelo menos, o totoloto.

Para tal bastam três historietas.

A primeira tem como personagem um atlas vulgar mas interessante, de 1903, que se editou em dois volumes sob o título “Atlas Ibero Americano de Geografia”. Para o efeito interessa-nos o volume dedicado a Portugal e Colónias. Estado razoável, pequenas escoriações na capa a pedir intervenção de encadernador, nada de muito grave mas longe de se poder considerar um exemplar claramente bom.   Dezoito mapas dupla folha (encarcelada: isto é a folha inteira assenta sobre uma outra muito estreita cozida ao volume. Deste modo o mapa lê-se na sua totalidade sem partes escondidas no miolo), mais 457 páginas de texto e ainda a cópia em 26 novas páginas do Censo de 1900 por freguesias. Para um abelhudo como eu esta é a parte mais interessante pelo que descreve de um Portugal de há mais de cem anos.

Vi o atlas em questão num alfarrabista que frequento sem grande periodicidade e perguntei o preço. “Quinhentos euros mas a si faço 350! E olhe que traz um mapa final em tela que eu poderia vender por cem euros

Eu, que já tenho o dito cujo mais pelado do que um macaco, quando vejo tais ofertas desconfio. Respondi que o preço era ainda assim excessivo e retirei em boa ordem. Semanas depois, nova visita e insistência do vendedor. Que se eu quisesse substituía o mapa em tela por uma boa fotocópia – e agora há-as excelentes- e retirava mais umas dezenas de euros ao preço. “Já te estou a ver o sim senhor”, pensei com os meus botões e voltei a dizer que a coisa requeria mais e ulterior estudo.

Entretanto, uma epifania súbita fez-me ir dar uma volta pela Internet. Em três penadas dei com o mesmo exemplar publicitado como em “estado muito bom”, enriquecido por uma folha extra que dava conta de uma menção honrosa atribuída pela Sociedade de Geografia de Lisboa e oferecido (já com portes ultra-rápidos para Portugal) por um total de 128 euros. Dois dias depois aterrava triunfante cá em casa o Atlas que, de facto parecia saído do armazém do editor.

A segunda história tem a ver com uma versão primorosa do famoso Atlas de Abraham Ortelius, o primeiro atlas na moderna acepção do termo (o termo atlas pertencerá a Mercator mas é a Ortelius que se deve a primeira versão). Trata-se do Theatrum Orbis Terrarum, nado nos finais do sec. XVI. Ortelius contratou umas dezenas de cartógrafos, impôs-lhes as medidas – todas iguais- (1ª vez!) e publicou o belíssimo volume ilustrado e a cores. Em 1954 uma editora suíça (Sequoia) editou um sumptuoso fac-simile que teve cópia autorizada americana pela American Elseviere Pub. Comp, anos depois.

A excelente livraria Nova Eclética pela mão de um dos rebentos Gonçalves pôs um exemplar em leilão por um preço que até eu considerei baixo. Licitei pelo dobro mas não tive sorte. Alguém possuído pelas Fúrias ou outras criaturas de igual talante, atirou-se ao leilão e numa absurda corrida contra outro provável inconsciente acabou por adquirir o livro por pouco mais de seiscentos euros o que representava três vezes a minha oferta.

Desolado, recorri à Internet e, mais uma vez, um livreiro americano de Long Beach oferecia o meu actual exemplar em perfeitas condições por cerca de 180 euros transportes incluídos. A gloriosa alfandega de Lisboa ainda achou que sobre este preço total e não sobre o preço do livro (€127) havia de cobrar umas alcavalas que ultrapassaram ligeiramente a barreira dos 200 € que eu oferecera no leilão.

Curiosamente, na habitual feira dos alfarrabistas (sábados, Rª Anchieta) acabei por conhecer o comprador que vencera o leilão. Quando eu lhe disse, a pedido dele, que comprara o meu exemplar pelos duzentos e poucos euros, teve o descaramento de dizer que fora isso o que lhe custara o dele!... os ouvintes, todos alfarrabistas que conheciam a história, riam dissimuladamente para o lado.

Terceira e última: Há um “Atlas encyclopedique contenant la geographie ancienne et quelques cartes geographiques sur le moyen age, la geographie moderne et les cartes reltives a la geographie physique para M Bonne, Ingénieur Hydrographe de la Marine et para M. Desmarest de l’Academie des Sciences pour les cartes de geographie physique”, publicado em Paris, Hotel de Thou, rue des Poitevins em 1788” que não tendo a importância dos dois já citados é uma excelente peça e, no caso, a raríssima 1ª edição.

Vi-o, cobicei-o mas perante o preço (preço bem gordo, gordíssimo, a gordura em pessoa) entendi explicar ao livreiro, pessoa aliás amável e educada, que aquilo estava muito acima do que eu poderia pensar oferecer. O senhor afirmou-me que podia esperar por melhor reflexão mas eu afirmei-lhe que não perdesse a venda caso aparecesse quem estivesse disposto a abrir os cordões à bolsa. Pouco mais de uma semana depois, recebo um telefonema com uma redução de 30% do preço. Voltei a agradecer mas reiterei que ainda era muita areia para a minha camioneta. Mais uma semana e a coisa já ia nos 50%. Lá apareci e, à Lagardere, dei a minha estocada final: ofereci 40% do preço primeiramente pedido. Foi aceite! Ainda hoje me pergunto o que sucederia se tivesse oferecido, por exemplo, 30%... De todo o modo, fiz uma compra por um preço mais ou menos idêntico ao do único exemplar encontrado na Internet que, aliás era, apenas, um preço indicativo de início de leilão on line.

Estas três historietas servem tão só para demonstrar que nem sempre os preços que correm em alfarrabistas merecem crédito. De quando em quando é necessário “marralhar” como quando se vai por um quarteirão de sardinhas à peixeira da esquina.

Aliás, os livros por muita nobreza que se lhes atribua também estão sujeitos às leis do mercado e a famosa regra do preço fixo não funciona de todo em todo. Os grandes grupos (FNAC, Bertrand ou Wook) torpedeiam o preço oferecendo no mínimo um desconto de 10%. No caso da Wook ainda há a oferta dos portes de correio e por vezes mais uns truques.

 

*na gravura: frontespício do Atlas de Mercator

 

 

15
Fev17

0 leitor (im)penitente 197

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 2

(para Nuno Canavez, intrépido livreiro da “Académica”

Os leitores impenitentes são de uma raça persistente, pacífica mas imparável. Perseguem os livros com afinco, paciência, paixão e a melhor imagem que me vem à cabeça seria aquela que mostra Camões a nadar no meio do mar com um braço fora de água segurando um punhado de folhas.

Tenho oficial e oficiosamente 60 anos redondos de comprador de livros. Usando o meu dinheiro, no caso nicial a parca mesada. Uma das primeiras livrarias onde entrei foi a “Académica”, no Porto, um alfarrabista que me ficava em caminho entre o Colégio e o Mundo (a 2ª etapa era a “Divulgação”, posteriormente “Leitura” onde deixei uma bela fortuna.)

Voltemos, porém à Académica que hoje é propriedade de Nuno Canavez. Em boa verdade, o Sr. Canavez já lá trabalhava quando eu passava pela livraria. Ali se fez o grande livreiro que hoje é, um homem que sabe tudo de livros e que não tem papas na língua. Graças ao seu saber e à sua generosidade, Mirandela dispõe de um acervo sobre a terra e sobre Trás-os-Montes sem igual em parte alguma. Canavez pesquisou, juntou, pagou e depois enviou para a terra natal mais de três mil volumes!

Todavia, não é disso que quero hoje falar mas, tão só de uma das melhores compras que alguma vez fiz na “Académica”.

Os leitores talvez desconheçam mas nos alfarrabistas há ainda o civilizado costume de entrar apenas para uma vista de olhos e, se possível, uma bela conversa sobre livros. Há sempre dois ou três contertúlios prontos a conversar sobre qualquer assunto, mormente livros.

Num dia, logo de manhã tive de ir ao centro da cidade e, despachando-me, cedo passei pela Académica. Depois de trocar duas palavras com o Sr. Canavez caíram-me os olhos em dois belos volumes, ricamente encadernados (encadernação de editor) folhas a ouro, estado impecável, edição in folio, 39x29, 1500 (mil e quinhentas!!!) gravuras, datada de 1852 se não erro. Uma beleza!

A medo, perguntei o preço. –“100 euros. Para o sr. dr. 90!” – “É para já”, respondi e saí a correr para o multibanco mais próximo para levantar o cacau.

Despedi-me, rapidamente e, ajoujado, ao peso dos dois grandes volumes, marchei para o meu quartel general das manhãs, ou seja esta esplanada de onde escrevo. E comecei a explorar a compra. Era ainda melhor do que me parecera.

Resolvi ir pesquisar o título à Internet “Tableau de Paris” de R Texier. Espantei-me ao ver os preços a que a edição corria nos mercados francês e italiano. De um mínimo de 450 até uns tremendos 900!

A manhã de sol levou-me a pensar que o livreiro, mesmo amigo, mesmo conhecedor, estaria equivocado. Aquilo, a noventinhas, era ao preço da uva mijona. Desassossegado voltei, dias depois, à livraria e prudentemente lá fui sussurrando que, se calhar, o livro fora demasiado barato, que talvez houvesse engano, enfim que talvez eu, comprador, estivesse a explorar o vendedor.

Canavez imperturbável replicou-me: Primeiro o livro era um calhamaço e já ninguém estava disposto a ter de arranjar sítio para o arrumar; depois o livro era em francês e, agora, toda a gente ignorava a bela língua e só jurava pelo inglês comercial; finalmente perguntava se os preços que eu vira eram de livros vendidos ou para venda. Tendo eu respondido que eram para venda, olhou-me triunfante e disse-me: “Viu? Ainda não os venderam pois não? Aposto que daqui a seis meses, um ano ou mais ainda por lá andam sem comprador.”.

Quatro anos depois tenho que lhe dar razão. Não garanto que seja nos mesmos exactos sites mas a verdade é que este maravilhoso “Tableau de Paris” continua à venda em vários livreiros d’além Pirenéus.

 

*não quero confundir algum leitor mais atento. De facto, existe um outro e mais famoso, “Tableau de Paris”, o de Mercier, obra notável que, porém, padece, na comparação, ao não ter uma única gravura.

15
Fev17

o leitor (im)penitente 196

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Livros, alfarrabistas & outras bizarrias 1

 

“Tenho cinco minutos para contar uma história” é o mais recente e ressuscitado livro de Fernando Assis Pacheco que faria por estes dias oitenta anos. Faria, disse e repito- Quis a malina que nem aos sessenta chegasse. O Assis morreu cedo e mal. Tinha à sua frente uma bela carreira poética a adivinhar pelo que “A musa irregular” revelava. Acompanhei-lhe os versos desde 1960 na “Via Latina”, nos “Poemas livres”, nas pequenas edições só para amigos, fui mesmo editor dele (fui eu e mais quarenta que a “Centelha” era uma multidão de malucos que gostavam de livros) e, a certa altura, uma criatura manhosa convenceu-me a desembolsar cinquenta contos dos antigos para reeditar um desses livrinhos. Depois nem livro nem volta da massa: anos depois, o Assis contava-me em carta as maçadas e desgosto que tivera com o importuno e abusivo editor.

Faria, dizia, oitenta anos mas o coração, maior do que o mundo, traiu-o vilmente à porta de uma livraria. Mulher, filhas e filho e um monte de amigos persiste em lembrá-lo para o que contamos com a honrada colaboração de vários jornais e de antigos colegas. “A musa irregular” primeiramente editada pela Hiena Editora do excelente e culto Rui Martiniano é um dos bons (dos muito bons) livros de poesia da quarta parte do século XX. Parece que ainda se conseguem exemplares da última edição (3ª?, 4ª?): leitoras e leitores aproveitem. Se alguém não gostar que me devolva o livro que eu pago-o.

Este livrinho (cinco minutos...), ora editado (Tinta da China ed) é um apanhado de crónicas lidas ao microfone duma rádio. Instantes de vida, lembranças, achados, conversa boa, tudo para despachar em cinco minutos o que é obra!

Só tenho um reparo: o Assis escreveu muitas outras crónicas que ainda andam por aí esparsas em jornais. Há uns anos a família (ou talvez apenas a Rosarinho) mandou-me umas folhinhas do “sempre fixe” ou do “diário de Lisboa”, dessas que servem para manter um título jornalístico onde se apanhavam mais outros textos. Está por fazer a reedição completa e integral destas prosas de destino incerto e qualidade certa. Tivesse eu tempo e idade e atirava-me à tarefa de as recolher mas estou já avançado em anos para vencer a preguiça e a trabalheira. Ainda por cima a pesquisa teria de se centrar sobretudo em Lisboa e nos jornais onde Assis trabalhou e eu, provincial e provinciano que sou, estou longe.

À falta de melhor, deem-lhe ao dente nestes “... cinco minutos...” e acompanhem cada garfada com um copo de um bom tinto que o Assis, fino gourmet, merece a vossa boa companhia.

17
Nov16

o leitor (im)penitente 195

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Dylan, Bob Dylan

(ou: uma centelha pode incendiar toda a pradaria)

 

Conheço Dylan (pelas canções, evidentemente) há mais de cinquenta anos. É o que dá ser velho (e não sénior ou idoso como agora o politicamente correcto propõe); ser velho e gostar de música e de poesia.

De facto é de poesia que venho falar. Parece que foi um escândalo o Nobel. A um cantor? A um ícone da cultura pop? A um insubmergível poeta que desde fins dos cinquenta não para de nos espantar?

Li, entre divertido e irritado, um par de opiniões de umas criaturas que tem publicado os seus ignorados livrinhos por aí. Tirante a absurda arrogância das pobres gentes que se dão à tarefa de poetar para a gaveta e para o esquecimento, o que me admira é a argumentação de que a poesia de Dylan é para ser cantada e que só vive do acompanhamento musical, o que nem sequer é verdade. Dylan lê-se com extrema facilidade e alegria. E prazer. E proveito!

Se me perguntassem se Dylan era o meu favorito para o Nobel, diria que não. Estava à espera da consagração de Adonis, um poeta sírio extraordinário de quem acaba de sair uma tradução em português. Ou do eterno Roth, um romancista de mão cheia que há mais de dez anos é dado como nobelizável.

Todavia, Dylan é uma excelente escolha e uma prova de vida estimável para a Academia Sueca que nunca conseguiu libertar-se do labéu de conservadora e de míope.

Porém, tudo isto vem a propósito da publicação de Dylan em português. Agora, como é sabido, há dois sólidos volumes das “Canções” (Relógio d’Água, ed) numa cuidadosa edição bilingue, lançada este ano.

No entanto, não é esta a primeira edição em livro de poemas de BD. De facto, em 1985, uma pequena, mas corajosa, editora lançou um “Poemas 1” (a indicar continuação o que nunca sucedeu) de Dylan numa colecção de poesia que juntou mais de cinquenta autores sendo de destacar vários cantores mormente americanos. Essa editora chamada “Centelha” foi fundada em Coimbra no início dos anos 70 e a sua causa directa prende-se com a grande crise académica de 1969. Umas dezenas de activistas de que só refiro dois mortos (Alfredo Soveral Martins e João Bilhau) entenderam ser não só útil mas também necessário constituir uma biblioteca fundamental para o movimento saído da crise e para alguns milhares de estudantes que nela tinham ganho as suas esporas de militantes da liberdade e da democracia.

Tenho toda a simpatia pela “Relógio d’Água” que é provavelmente a mais interessante editora nacional. Porém, o seu a seu dono. Foi a Centelha quem, há mais de 30 anos, editou o Dylan em Português. Era apenas um punhado de poemas mas era o princípio. Depois, distribuidores em falta e falidos, a morte do Alfredo e demasiados incobráveis, ditaram a morte da Centelha. Morreu de botas calçadas no meio de muita indiferença, incluindo, valha a verdade, a de muitos dos seus sócios.

......................

Morreu o Leonard Cohen! Deixa uma herança generosa e uma glória indesmentível. O Nobel poderia ter-lhe sido atribuído com as mesmíssimas razões apontadas pela Academia para coroar Dylan. Bonito e original poderia ter sido um Nobel ex-aequo mas provavelmente isso não está nos estatutos e nem sequer lembrou aos suecos. Vivemos num mundo pouco disposto a inovar e, muito menos, a ousar o escândalo. Como se o acto poético fosse conservador!

Mais uma vez, o dedinho editorial da Centelha esteve presente: Cohen foi editado (“59 canções de amor e ódio”) com a colaboração da “Fenda”, uma revista libertária, situacionista, corajosa, exemplar. Nascida em Coimbra, apareceu também com o nome “Pravda” e durou uma dúzia de maravilhosos números. Como editora produziu talvez um quarteirão de livros, alguns dos quais belíssimos.

Agora, os raros exemplares que aparecem nos alfarrabistas cotam-se a forte preço.

Morte, onde está a tua vitória?

 

 

 *Vai esta em memória do João Bilhau e do Alfredo Soveral Martins, dois que estiveram em todas, de 62 a 69, por Coimbra a dos lavados ares. E com um abraço ao Rui Namorado, outro fundador da Centelha, representando todos os outros companheiros daquela aventura editorial, política e ética.

 

15
Nov16

o leitor (im)penitente 194

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de um leitor (im)penitente para outro leitor (im)penitente

 

Morreu o Miguel Veiga. 

Não vou dizer que não o esperava. Há pouco mais de um mês, ou nem isso, estivemos os dois no lançamento de um livro do Alvaro Laborinho Lúcio. Lado a lado. O Miguel na cadeira de rodas, o sorriso esmorecido, o olhar inquieto de sempre, pouco ou nada disse. 

Logo ele, um falador contumaz! 

A morte preparava o cerco e o homem que ali estava e que eu conhecia desde os anos setenta, com quem varara intermináveis, inúmeras, noites, a falar de tudo, a discutir tudo, a rir de tudo ou quase, era já uma recordação. 

E o Laborinho, sempre atento, sempre amigo, reconheceu-o. Dedicou-lhe algumas palavras, saudando no Miguel todos os leitores e amigos que ali estávamos. 

Recordo o Miguel no 21, um bar amável onde, no ano da 1ª eleição de Mário Soares, tínhamos uma mesa repleta, a mesa do MASP, como o João, jovem barman na altura (e hoje já avô e sempre barman) a apelidou. E até cometeu o irreparável: reservava-a para nós até à chegado do primeiro contertúlio. Desse grupo já lá vão vários desde o Pedro Sá Carneiro, do Zé Valente até ao Zé Portocarrero. Começo a sentir-me um sobrevivente e, sobretudo, alguém cada vez mais só, rodeado de sombras, importunado pelas memórias (que no caso do Miguel são sempre de alegria), sem remorsos por estar vivo mas aflito pela falta de companheiros de conversa. 

E foi uma longa conversa a que mantivemos, desde os tempos em que eramos vizinhos na Foz, na avenida do Brasil, até um jantar que organizei só de vinhos e queijos (e pão) onde descobri que o Veiga, que inspeccionou demoradamente as minhas estantes, que tínhamos um enorme grupo de autores, franceses e portugueses, em comum. A coisa entrou pela noite alta, pela madrugada baixa e por pouco que não se transformou numa directa. 

Leio no Público, um par de testemunhos sobre o Miguel. Sobre o mimo, a ousadia, alguma desfaçatez, a cultura, o riso, a ironia e o profisionalismo do advogado que ele sempre foi. Patilho tudo, estou de acordo com tudo, incluindo a frase do Octávio Cunha, outro meu amigo de sempre (que lhe chama o principe da cidade). 

O Miguel era vaidoso, quase insolente,  tinha defeitos, olá se tinha, mas compensava-os com a generosidade, com a lealdade e com um sentido de fidelidade raro.

Dizem que nunca aceitou ser ministro ou deputado.É verdade mas isso não se devia especialmente ao Porto mas sim a uma irredutível liberdade. Levantar e sentar o cu no Parlamento, aceitar o "sentido de Estado" de um Ministro, eram coisas que ele sentia como insuportáveis. A Manel Alegre disse uma vez que o Miguel tinha sido o primeiro social democrata que tinha conhecido. Retorqui-lhe que o que o Veiga era , era um anarquista, um advogado do diabo, alguém que propunha sempre uma pausa no entusiasmo (logo ele que se entusiasmava demasiado) e uma análise fria dos factos. 

Sobre ser "um Senhor", que o era, o Miguel era um intelectual e um cidadão.

Exemplar em ambos os casos.

 

* na gravura: parte dos livros que o Miguel , atento e divertido, examinou lá em casa.

30
Mai16

O leitor (im)penitente

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Raduan Nassar, uma noticia extraordinária

Entre finais de Novembro de 1999 e a Páscoa de 2001, comprei e li de rajada, três livrinhos de um absoluto desconhecido (para mim) autor brasileiro: Raduan Nassar.

Disse livrinhos e repito. Aquilo tudo junto dava um livro normal no que toca a número de páginas. Lavoura Arcaica (187 páginas e em letra gorda), Um copo de cólera (55 páginas, idem) e Menina a caminho (70, idem) é tudo o que Nassar escreveu. Parece, que depois, resolveu criar coelhos.

Estes livros foram editados cá. Os dois primeiros têm a chancela da “Relógio de Água” e o último da “Cotovia”, duas editoras excelentes, corajosas que deem ter vendido pouco ou quase nada. Vi, mais tarde, todos estes livros em feiras de livro ocasionais e a preços mais do que baratos. Alertei amigos e conhecidos para o facto e, que me lembre, só o Manuel Sousa Pereira, bom leitor e bom escultor me deu ouvidos. E como não me recriminou depois, há de ter lido os livros com algum prazer. Caiu-me agora a noticia de Raduan Nassar ser o justíssimo vencedor do prémio Camões deste ano. Depois da nomeação de Manuel António Pina é a primeira vez que não torço o nariz.

Amigos e leitores: Depressa à “feira do livro” e aos alfarrabistas por estes títulos se é que ainda andam por aí.

Trata-se de um literatura simples, rápida, sem artifícios que não causa problemas seja a quem for desde que goste de ler. Aquilo corre, límpido e sereno, e deixa depois um “arriére gout” de maravilhamento. Quase como se disséssemos: era isto o que eu gostaria de escrever”

 

Aproveito a boleia de RN para anunciar que (uma vez não são vezes!) o Círculo de Leitores vai publicar duas excelentes obras de Aquilino Ribeiro: “É a guerra” e “Alemanha ensanguentada”. Depois da reedição de “A retirada dos 10.000” (uma tradução saborosa do clássico de Xenofonte e um dos melhores documentos, repleto de aventuras que a Grécia imortal nos legou) eis que um Aquilino sensível e observador nos bate à porta. Força, leitores!

09
Nov15

O leitor (im)penitente 193

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Os livros procuram quem os ame

Una furtiva lacrima

Negli occhi suoi spuntò

.......................

Cielo, si pu`morir.

Di più non chiedo.

 

“O elixir do amor” Donizetti, libreto de Felix Romani

 

(a frase não é minha, fique já claro. Ouvia-a na livraria do Bernardo Trindade proferida pelo Daniel Silva, bibliómano, bibliófilo e leitor voraz que tem uma grandiosa biblioteca sobre o terceiro mundo. Só no tema escravatura arrecada ele cerca de vinte mil títulos! Algumas grandes instituições rondam-no com propostas aliciantes de compra post-mortem mas DS ainda não decidiu o que fazer de tão extraordinário espólio. Parece que de Portugal só recebeu silêncio. O costume...)

Não recordo já quando mas um dia reparei que um velho amigo meu que raramente vejo andava à procura de um livrinho de João Apolinário (“Morse de sangue”). Dado que sou um inveterado frequentador de alfarrabistas, prometi-lhe procurar a obra que, com muito prazer, lhe ofereceria.

Na altura não me lembrei que a tinha, de par com mais duas ou três peças do mesmo autor. Apolinário, senhor de uma verve poética torrencial, faz parte de um passado longínquo, em Coimbra, inícios de sessenta. Acho que foi na cadeia de Caxias que ouvi pela primeira vez versos dele. Terá sido o Allah a recitá-los ou então foi o Chico Delgado, outro poeta mais da minha geração, morto há um par de anos deixando a todos nós uma profunda saudade e três ou quatro livros de poemas. Está antologiado nos “Poemas Livres” (nas três séries e em mais uma ou outra antologia universitária. Exilou-se, raras vezes voltava ao país e isso, juntamente com a sua timidez, tornou-o em mais um autor desconhecido. Nem o dr Sampaio da Nóvoa o cita, o que é, seguramente uma bênção para Delgado.

Um recente encontro com R (companheiro de Caxias e de várias, muitas, aventuras políticas e estéticas –não esquecendo neste domínio uma comum admiração pelos westerns- ) relembrou a promessa antes feita pois era ele o eventual futuro beneficiário do improvável achamento de “morse de sangue”. Tudo, aliás, concorria para esta dificultosa empresa: o livrinho (é mesmo um livrinho com escassas trinta ou quarenta páginas) fora editado em poucos exemplares ainda nos anos cinquenta e, entre perdas, lixo, confiscos pela PIDE e desinteresse dos proprietários, tudo concorria para a sua raridade.

Fartei-me de encontrar outros títulos da exígua produção de Apolinário, mas este, o seu livro bandeira, o seu manifesto não aparecia nem à lei da bala.

Com o remorso da promessa por cumprir, resolvi oferecer o meu exemplar e, para o efeito fazer uma vistoria pelas minhas estantes de poesia. Até isso foi difícil. Dadas as limitações de espaço que um contínuo acumular de livros provoca há sempre uma, duas ou dez excepções à natural ordem alfabética a começar pela altura do livro. Depois de uma pesquisa a vol de oiseau convenci-me que o livro como, ahimé, tantos outros, andaria por casas alheias. E resolvi, desta feita, surfar pela internet em busca do fugidio voluminho. Para minha surpresa, havia livreiros estrangeiros que o tinham a preços escandalosos. Todavia, no meio daquela inesperada e injustificada inflação, apareceu o alfarrabista Luís Gomes (que amiúde visito) com uma proposta decente que foi imediatamente arrematada.

O livro seguiu viajem até ao seu destinatário final que rapidamente me agradeceu, confessando que se comovera e exaltara com a leitura de alguns poemas que na nossa extravagante e ousada juventude usávamos como panfletos incendiários.

Voltei às estantes e, depois de uma pertinaz busca, lá encontrei o meu exemplar e fui pelos versos ouvidos há mais de cinquenta anos. Não é, obviamente, a poesia que mais estimo, sequer aquela que me faz reler um autor mas, por momentos, embalado pela cálida recordação dos nossos anos de lume, vinho e rosas (e chumbo!...) revi um monte de velhos amigos, outro tanto de fantasmas delidos pelo tempo e pela morte, comovi-me e, sem vergonha, confesso que una furtiva lacrima me sulcou a face.

 

Vai esta para um grupo (ou o que dele resta) que em 1962 ousou desobedecer às autoridades académicas, às políticas, às polícias e, muitas vezes, às famílias. Por isso bateram com os ossos em Caxias, nas mal afamadas casamatas onde penaram o tempo necessário para reentrar naeazão. Não reentraram mas ficaram amigos para sempre.

Em especial relembram-se: João Quintela, Luís Bagulho, Francisco Delgado, Alfredo Fernandes Martins, Alfredo Soveral Martins, José Orlando Bretão, José Monteiro ("o bagacinho"), .Viram todos o fim do Estado Novo mas, felizmente, não têm de ver a merda em que isto se vai afogando.

 

18
Out15

o leitor (im)penitente 193

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Les sanglots longs des violons d’automne…

(Verlaine chanson d’automne)

 

 

em boa verdade vivi em tempos escuros…

................

vós que haveis de surgir das cheias em que nos afundámos....

(Brecht aos que virão a nascer)

 

Uma leitura  feliz de “Os dias imensos” de Rui Namorado e lembrança comovida de Joaquim Namorado

 

(ponto de ordem:

sou amigo do Rui desde o longínquo ano de 1961; estivemos juntos em demasiadas batalhas (mas as necessárias) e até na cadeia de Caxias; partilhamos os dias exaltantes da greve de 69, continuámos esse longo combate por vários meios que incluíram a aventura editorial da “Centelha”, a conspiração permanente da continuação do “conge” (palavra inventada por ele), desmbarcámos no MES e desamparámos essa loja ao fim de ano e meio. Desiludidos mas não vencidos. E vamos continuando a dizer o que pensamos enquanto por cá andarmos. À sombra da recordação da utopia que alguma vez nos animou mesmo se temperada pela vida, pelo que ela faz de nós e pelo que nós fazemos dela. Desde esses anos de vinho e rosas, de chumbo e sonho, RN publicou escassamente seis livros de poemas: quase diria um por década de vida adulta. É pouco? É muito? É o que ele entendeu dever/poder dizer.

Por meu lado desde uma indefectível amizade há o grande gozo de o ler devagar e de me rever em muitos (não todos) poemas (é exactamente o que eu gostaria de dizer...)

Portanto isto não é uma crítica, sequer uma nota de leitura mas um par breve de observações para quem estiver disposto a continuar a frequentar os poetas)

 

Com o título “os dias imensos” (ed: lápis de memórias) publica Rui Namorado a sua sexta recolha de poemas. Em setenta e tal anos de vida não se pode dizer que seja um poeta regular frequentador dos escaparates das livrarias. Aliás, hoje, poetas em livrarias é mercadoria rara. A ganância dos editores poderosos, a difícil tarefa dos que ainda arriscam publicar poemas, a mediocridade do público que se sente mais atraído pelas estrelas da televisão e da política que enchem as sagetas da literatura de copiosos amontoados de palavra impressa, a cupidez de boa parte dos livreiros que só pensam em escoar o “material” fez com que a poesia, o teatro (pelo menos estes) fossem arredados das estantes por notória falta de rendimento. Saúde-se pois a coragem do editor lápis de memórias que assume o risco nada despiciendo de publicar um poemário.

 

Trata-se, numa primeira, breve e incompleta leitura, de uma percurso em três partes, vitais, diferentes mas conciliáveis, de uma aventura poética que prolonga sem exagero mas com lucidez, muito do que RN foi publicando desde as primeiras incursões em jornais e revistas estudantis, em antologias e manifestos (“poemas livres” ,“a poesia útil”) até ao primeiro título “Maio ausente”, (Vértice, Coimbra, 1970)

Namorado, que dedica este livro ao prodigioso Joaquim Namorado, seu tio e agitador perpétuo, alma da “vértice”, figura tutelar de uma série de tertúlias literárias e políticas coimbrãs, poeta inconvencional e crítico certeiro, homenageia o tio com um poema (rio Douro) que subtilmente refere outro do velho Senhor integrado no livro (A poesia útil, Coimbra, Vértice, 1966). Vale a pena ler estes dois poemas separados por quase cinquenta anos para poder perceber o que une e o que diferencia duas gerações que se reclamam do realismo poético.

“navegamos por dentro deste rio

no coração de Espanha e de outros mitos...”

 

O poeta António Manuel Lopes Dias (outro forçado cultor da escassez...) que apresentou no Porto o livro do seu amigo e companheiro de geração e de aventuras políticas e literárias centrou, muito bem e com rigor e inteligência, a sua intervenção na análise do dicionário poético de RN chamando a atenção para como o dito no poema acaba por se relacionar, contraditoriamente com o não dito ou melhor com o que as palavras revelam, no seu silêncio, na sua falta ou mais ainda na sua invocação.

Rui Namorado invoca as palavras desde o primeiro poema

“sobre os teus lábios dormem as palavras

que o tempo se esqueceu de nos dizer...”

.... “um silêncio desliza por dentro das palavras...”

...”acende-se ...o coração negros dos poetas

num gume de gelo e palavras mortas...”

 

e nessa invocação convida o leitor (aquele que lê o verso e o modifica insensivelmente) a partilhar a viagem por um outono (dele, nosso, geracional que, não sendo um acto de desistência, é todavia o reconhecimento de alguma “áspera verdade” histórica, social e política.

Para quem vem dos tempos escuros não passa despercebida esta reacção ao status quo actual e à realidade que indignando-nos ou não, provocando-nos, atingindo-nos confessa a derrota (temporária) de um par de utopias que nos guardaram no tempo das cheias (em que nos afundamos) de cairmos na tentação do conformismo.

Rui Namorado testemunha essa longa passagem dos dias e da angústia na parte terceira da recolha fazendo regressar os dias da esperança - e os da indignação – numa série de homenagens (entre elas Brecht – ou como tudo afinal anda ligado- a descoberta de Brecht pela nossa geração como aliás a de Rilke deve muito a Paulo Quintela seu esforçado e dedicado tradutor) entre elas Joaquim Namorado que, “fora da cartilha”, propunha aos jovens, ávidos, ansiosos, leitores que nós éramos alguns poetas que o politicamente correcto considerava com alguma (justificada) desconfiança. Pela parte que me toca foi de Joaquim Namorado o conselho para ler Saba, Salvatore Quasimodo (emprestou-me o seu próprio exemplar e assim me mergulhou na leitura do italiano) Seferis e Elitis (dois gregos que obtiveram posteriormente o Nobel ) René Char ou Éluard.

 

Não tenho por hábito enrodilhar tanto os textos em que vou falando de livros mas este tempo, este outono que suportamos com algum sangue frio obriga a referir com mais urgência do que prudência recomenda o testemunho de um poeta que nunca esqueceu a cidadania.

Ou para terminar com Rilke que também escreveu sobre o outono:

“Senhor é tempo. O Verão foi muito longo.

Lança tua sombra sobre os relógios de sol

e solta os ventos sobre as campinas.

...........................

Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.

Quem agora está só, longo tempo o será,

fará vigílias, e lerá, escreverá longas cartas

e vagueará, de lá para cá, nas alamedas,

agitado, quando o vento arrasta as folhas

 

As citações de outros poetas são todas extraídas de traduções de Paulo Quintela.

A citação de Verlaine vai no original e diz muito à nossa geração que nasceu em épocas difíceis cujo fim foi anunciado pelos dois primeiros versos do poema que anunciavam a uma rede resistente francesa o início da invasão da Normandia.

Acrescente-se que a continuação do poema tem muito a ver com alguma da reflexão poética de Rui Namorado

(je me souviens

des jours anciens

et je pleure

et je m’en vais

au vent mauvais

qui m’emporte

de çà et de là

pareil a la feuille morte)

 

 

 

 

 

 

22
Set15

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Vítor Silva Tavares

 

Leio no jornal a notícia da morte deste (grande, enorme) editor, deste animador cultural no verdadeiro sentido da palavra, deste Senhor rebelde e inconformado que escrevia com uma elegância rara mesmo se a sua escrita estivesse marcada pela rareza e pela discrição.

Acabo de saber que algumas fulgurantes edições ainda dos anos 60 se devem à sua intervenção de director literário da Ulisseia: alguns surrealistas, o Luís Pacheco ou, mesmo se dramaticamente ultrapassado e datado, o Franz Fanon.

E recordo com uma intensa alegria, ainda que tintada pela nostalgia, a revista (ou jornal ou o que quer que seja) “& etc.” de que fui comprador e, logo de seguida, assinante desde o primeiro ao último número. Burramente, nunca me lembrei de comprar as capas “de editora” que me dizem ter existido. A (ou o) “& etc.” é um dos grandes monumentos literários dos anos 70 (mais propriamente de Janeiro de 73 a Outubro de 74). De certa maneira, a revista quinzenal anunciava a revolução (enfim o que se convencionou chamar revolução) e terá morrido um pouco atropelada por esta. Os tempos não estavam para este belíssimo quinzenário, as pessoas tinham outras e mais absorventes ocupações e, mesmo com leitores, a revista não sobreviveu.

Ou melhor: sobreviveu enquanto projecto editorial graças a VST que continuou o mítico título na sua casa. A editora continua a existir (e agora? Como será?) ao fim de quarenta anos brilhantes. Poucas, muito poucas, editoras terão conseguido um percurso tão extraordinário, tão rigoroso quanto a do Vítor. A “Hiena” do Rui Martiniano, meu amigo e meu alfarrabista que mensalmente me força a mão e me convence a comprar livros nos sábados da Rua Anchieta, acabou. Ainda se conseguem adquirir livros editados por ela na banca do Rui. A “frenesi” do também amigo e alfarrabista incontornável Paulo da Costa Domingos está temporariamente encerrada por via de um complicado processo. Outras pequenas casas ainda resistem, publicando livros que as “grandes editoras” não querem, não sabem ou não podem editar. Ao entrar numa livraria, cada vez mais me pergunto se aquelas montanhas de livros, com capas berrantes, publicidade enganosa, más traduções conseguem ainda enganar tanta gente. Devem conseguir pois, mês após mês, saem catadupas de livros inúteis, desinteressantes, num ramerrão tristonho e medíocre que alimenta a incultura indígena.

Era, neste panorama desolador, nesta “terra sem vida”, que se distinguia o trabalho do Vítor Silva Tavares. Edições cuidadas, textos raros ou diferentes, capas feitas amorosamente, tudo indicava o homem que gostava de livros, de literatura e tinha bom gosto.

Foi ainda há pouco, muito pouco tempo, provavelmente a meados de Agosto, que o encontrei na “Letra Livre” (olhem aqui está uma livraria a sério e diferente: vão por ela. Fica na Calçada do Combro em Lisboa e podem comprar-se lá livros velhos (a preços sensatos) e novos. Nesse dia, VST estava imparável: Debitou um pacote de historietas, de anedotas literárias, sobre já não sei quantos temas à volta de um projecto que espero se concretize. O livreiro e eu, estávamos, como de costume com VST, rendidos àquela verve, àquela sedução, àquela “liberdade livre”. Mal sabia eu que era a última vez que o via.

Vítor Silva Tavares deixa um enorme vazio e um exemplo ainda maior. Do primeiro não há remédio. Quanto ao segundo, esperemos que haja quem o siga.

 

(PS: ao falar de editores rigorosos e que antepõem o livro ao mercado, não posso deixar de referir dois “reformados” da edição que continuam – e com que alegre liberdade! – a animar a ediçãoo. Refiro-me, obviamente a dois amigos: Carlos Veiga Ferreira (“Teodolito”) e Nelson de Matos (edições com o mesmo nome)

* As edições “& etc” (e outras do mesmo teor) têm no Porto um modesto abrigo na livraria “Utopia” (Rª da Regeneração). Em Coimbra apanham-se coisas destas e surrealismo q.b. na bela livraria do Miguel de Carvalho (Adro de Baixo). No primeiro andar até há umas poltronas para ler antes de comprar, para conversar, para usar o computador. E os preços não são escandalosos.

 

13
Abr15

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François Maspero

 

A CG dá-me a triste notícia e faz com que me engasgue com o chá. Morreu o Maspero. E o Günter Grass. E o Eduardo Galeano.

Para quem, como eu, já vai avançado de anos estas mortes são o pão nosso de todos os dias. As pessoas que admirei na minha longínqua e oisive jeunesse estão a cair como tordos. É a vida (ou melhor a morte, estúpido trocadilho) e não vale a pena chorar pelo leite derramado. Nós somos mortais, ponto final, parágrafo. Todavia, o François Mspero merece um par de linhas. Por ele, pelo seu percurso honrado e teimoso, pela “Joie de Lire”, pela revista “Partisans” (está aqui ao pé o primeiro número, junto com os que sobraram de roubos da pide, de falsos amigos, enfim de um par de mudanças de casa, de eventuais empréstimos, sei la de que mais. Com uma súbita e comovida curiosidade agarro-a para ver quando me chegou. Exactamente em Outubro de 1961, ou seja logo que saiu. Tento lembrar-me quanto é que valiam os 3,90 francos que indica. Provavelmente 15 ou 20 escudos, ou seja dois bilhetes de cinema, 14 ou 15 cafés, um banquete n “Mandarim”, café-restaurante recentíssimo na Coimbra em que acalentávamos, nós também, a vontade de ser “partisans” como se anuncia no texto de apresentação da revista, um belo editorial de Vercors.

No interior, textos de Nicolas Guillén, Danilo Dolci, Raul Castro e Gérard Chaliand, que já nessa altura escrevia sobre o “problema curdo”. E poesia sobre a classe operária grega...

Mais tarde, logo que consegui chegar a Paris, a “Joie de Lire” era um ponto imperdível. Com o Jorgr Delgado (outro grande frequentador e comprador das edições Maspero) assistimos boquiabertos a um roubo de livros. Um palerma esgazeado, metia ao bolso um livro que, se bem me lembro era um dos volumes das “obras escolhidas” de Lenin, das edições do progresso de Moscovo, um grosso tomo... Por mim, o meliante andava a completar a obra. Azar dele, ou nem isso: uma jovem livreira viu-o em acção e, com um “oh, la,la”, agarrou-o pelo braço e conduziu o espantado gatuno para a cave onde oficiava o livreiro editor Maspero.

Depois, vim a saber que este jamais chamava a policia e se limitava a requerer a devolução do livro e a explicar que o roubo prejudicava a livraria, a causa revolucionária e o “bom nome” dos que militavam na Esquerda.

Palavras inúteis. A “Joie...” acabou por fechar, tantos eram os roubos aliados às perseguições policiais e a proibição de venda de livros quando não ao confisco de obras que punham em causa o Estado francês. Não consigo passar pela rua de Saint Séverin, sem recordar aquela livraria que, no seu auge, até tinha uma segunda sala mesmo em frente da primeira sede.

Maspero foi um editor combativo e exigente, um excelente tradutor (traduzimos, cada um por seu lado, o belíssimo “ Cem garrafas numa parede” da genial Ena Lúcia Portela) e romancista de mérito. Alguns dos seus livros são eminentemente biográficos, pois pesa na sua infância e princípio de adolescência as mortes de um pai deportado, de um irmão resistente. No fim da guerra só a mãe regressou dos campos de concentração. E durante a vida, François Maspero, descendente de um prestigiosa família de grandes intelectuais de fama mundial, fez jus ao nome herdado numa contínua luta pela liberdade e contra o bezerro de ouro soviético publicando numerosos dissidentes, coisa revelada desde logo pelo acolhimento que Evtuchenko mereceu na “Partisans”

Consultar o catálogo das “éditions Maspero” é uma viagem ao que de mais intenso, mais interessante e mais subversivo se publicou nos anos 60 e 70 em França. Com todos os enganos, todas as ilusões, há nessas centenas de volumes um sopro de vida, de audácia e de dignidade indesmentíveis.