Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

09
Jun17

o leitor (im)penitente 205

d'oliveira

movements-kandinsky-composition4.jpg

 

 

 

 

 

 

 

Manuel Alegre

Um belo dia

Estou na esplanada do costume, frente às árvores e aos cães que correm num dia de sol, quente e macio. Já tomei o primeiro café da manhã, beberrico a água que a jovem e amável empregada me trouxe e leio no jornal a notícia: o Manel (Alegre) ganhou o Camões! Eu, nisto de prémios, só me lembro das boas notícias. Por exemplo o Nobel ao Cela que sempre li com gosto e divertido. No ano seguinte foi o Octávio Paz: nova alegria. Caseiramente vários bons e velhos amigos foram distinguidos. O Zé Mattoso e o Herberto Hélder, o Craveirinha e o Manuel António Pina, só para lembrar os que imediatamente me ocorrem. A alguns deles liga-me uma amizade de 30, 40 ou mais anos. Agora o Alegre que eu, caloiro na lúgubre Faculdade de Direito, conheci em 1960. Acho que foi ele que, protetor e amigável, me chamou o “caloiro que gosta de Rilke”. A partir desses dias partilhei com ele lutas e desencantos, perseguições e esperança, bons dias e outros maus. Recordo-lhe a voz forte e poderosa nas “Magnas” no pátio do velho convento dos Grilos, então sede da Associação Académica, os primeiros poemas publicados na “Via Latina”, uma memorável bebedeira na véspera da partida dele para Angola. O Manel, sempre dramático, envolvido na capa, cantava qualquer coisa como “capa negra, rosa negra, rosa sem roseira” tema depois musicado por um dos nossos companheiros dessa noite, o Adriano. Talvez também estivesse connosco o António Portugal, cunhado do Manel, guitarrista exímio e amigo certo que ainda hoje choro. Éramos jovens, vivíamos a esperança, apesar de tudo a nossa comum juventude era mais de vinho e rosas do que de chumbo e cólera. Mas a guerra espreitava. Espreitavam também o exílio dele, as nossas prisões, as nossas desilusões. Nos anos em que estava longe, por várias vezes tive ocasião de o lembrar. Quanto mais não fosse porque uma vez tive, jovem advogado, de ir amedrontar um editor, livreiro gatuno e oportunista, que publicara uma contrafação de um dos seus livros, enchendo-se de dinheiro. Foi a minha mais rápida e mais saborosa vitória: o energúmeno nem tugiu nem mugiu e passou-me para a mão umas dezenas de contos que fui pressurosamente entregar à minha editora (Centelha, Coimbra) que de seguida os entregou à mãe do poeta para lhos fazer chegar ao exílio.

Depois do 25 A, fomo-nos encontrando sobretudo em festejos de homenagem à AAC, ao CITAC, às nossas comuns e antigas lutas estudantis. Amigos queridos foram morrendo, já citei dois, e dos melhores, o António Portugal e o Adriano Correia de Oliveira, sem esquecer, claro, o Fernando Asis Pacheco, outro membro dessa inconsútil frátria nascida na velha Universidade, nas ruas da Alta, na praia da Figueira e no frenesi de mil conspirações (e aqui saúdam-se dois outros queridos amigos e poetas, também: Rui Namorado e António Lopes Dias, felizmente vivos e a escrever, eles também desses longínquos anos coimbrãos, dos “Poemas Livres”, da “Vértice”, das noites do “Mandarim” e da Praça da República -naqueles tempos ingénuos felizes havia quem dissesse “Kremlin e Praça Vermelha”.

Depois, já por este século, apoiei-o por duas vezes nas campanhas para a Presidência da República, mesmo se da segunda vez, como então lhe disse e ele agora reconhece, só a amizade de dezenas de anos me fizesse dar tal passo

Mas voltemos ao dia de hoje: o Manuel Alegre ganha o Camões. Ganha-o sem rivais, sem segundas voltas, sem hesitações. Ganha-o graças a um júri internacional (um beijo, Maria João Reynaud, amiga antiga da mesmíssima Coimbra, se bem que muito mais nova) que deixa constância da motivação do prémio: a intrínseca qualidade poética e a honrada e constante luta pela liberdade, pela dignidade humana, por Portugal e por África.

Este prémio não honra apenas o Manel. Honra (como já acontecera com o Manuel António Pina) uma geração de intelectuais e cidadãos que disseram presente a todas as lutas destes últimos cinquenta anos. É provável que nem sempre tivéssemos a razão pelo nosso lado, que por vezes olhássemos a realidade com óculos demasiado fumados e torpes, que pecássemos “por pensamentos, palavras e obras”. Todavia, num saldo quase final a que a idade e proximidade da morte nos obriga, tenho por certo que cumprimos o nosso dever, que defendemos honrosamente a liberdade e a esperança.

Tenho por mim que merecemos o verso (lembrança de Villon) de Brecht

Vós que haveis de surgir das

cheias

Em que nos afundámos

................

pensai em nós

com indulgência.

Um abraço, querido Manel. Mais abraços Rui e Didi e outros  não mencionados mas sempre presentes, vocês que resistiram às cheias e à praia hostil onde agora sobrevivemos. O dia é de festa!

Cave diem!

 

* na gravura: Kandinsky, movimentos 4

26
Mai17

o leitor (im)penitente 204

d'oliveira

images-1.jpeg

Livros, alfarrabistas & outras fantasias 9

 

Faz o que te aprouver (regra da Abadia de Thélème)

ou

o riso inteligente de Rabelais

 

Hoje em dia já ninguém lê francês”, queixava-se o livreiro que, entretanto me vendia (mais) uma edição da obra de Rabelais, “Rabelais et l’oeuvre” (Paris, E. Bernard & Cie Imprimeurs editeurs, 1897). Uma bela edição, parecia-me, imprevidente que sou e, no caso, apressado a tentar fugir de uma mais que anunciada chuva que ameaçava cair.

Devo dizer que, desde os tempos imemoriais em que mergulhei de cabeça numa edição para crianças de Gargantua e Pantagruel, fiquei irremediavelmente contagiado por Rabelais.

Já crescidinho fui encontrando, em francês, edições que começaram por ser em francês moderno mas a que, pouco a pouco, se juntaram outras mais difíceis no saborosíssimo francês rabelaisiano. Não contente, com isso, também fui apanhando edições ilustradas e só Deus sabe quantas há que Rabelais e os seus maravilhosos personagens entusiasmaram tudo o que conta no mundo da pintura e da ilustração. De caminho, li biografias de Rabelais, um génio absoluto que mais do que nenhum outro autor, marca indelevelmente a passagem da Idade Média para o Renascimento. A truculência medieval ainda está viva mas a sua desassombrada crítica da sociedade contemporânea (desde a Sorbonne ao Papado) o seu profundo respeito pelo bom senso, a defesa da Natureza e de uma Moral descomplexada, o riso contagioso mas humano, os profundos conhecimentos quer de Medicina quer religiosos de que dá provas, mostram um espírito livre e uma inteligência superior. “Gargantua...”, a par do Quixote, do teatro de Shakespeare, e do inolvidável Dante (e juntemos-lhe sem vergonha nem descaramento a maravilhosa “Peregrinação” lida a par com a “História Trágico-Marítima”, com que os nossos ancestros tanto contribuíram para uma outa, e melhor, maneira de entender um mundo em mudança) é um dos grandes momentos do que agora, indiferentes e ingratos, chamamos Europa. Deveria acrescentar Montaigne mas, culpa minha, minha máxima culpa, ainda não o li suficientemente bem, para me atrever a juntá-lo a esta constelação, mesmo se o ache extraordinário. Aqui fica, porém, a referência.

Há edições em português (não sei se integrais) e que devem andar por aí, porventura baratas, que as escolhas de críticos, livreiros e editores traduzem muitas (demasiadas) vezes um simplismo mais ignorante do que se deve.

Fique claro que não estou a afirmar que ler Rabelais é uma obrigação. Ler nunca é uma obrigação mas tão só um prazer, um sorriso, uma vaga dança à beira mar numa manhã macia de mar manso e brincalhão. Todavia, Rabelais é como Cervantes uma leitura empolgante, viciante a que, depois, se regressa muitas vezes como quem visita a família que vive longe na terra da nossa infância e juventude.

Logo no início, aí em cima, contava uma compra apressada que fiz. Com o entusiasmo, o receio da molha e uma irresistível vontade de mais um café, deixei para segundas núpcias o exame do livro. Em casa, horas depois, fui-me a ele. Lá estava o texto em francês moderno mas das cento e sessenta gravuras devidas a Jules Arséne Garnier que constavam no índice, nem uma restava! Alguém as terá subtraído e re-encadernado o livro para ocultar as provas da desfaçatez. É coisa que sucede amiúde com livros ilustrados ou com mapas. Há sempre um arganaz que retira estas partes para as vender vantajosamente por separado. E nisto há também livreiros de porta aberta a colaborar nesta piratagem. A desculpa é sempre a mesma: já compraram as gravuras ou os mapas isolados!... E se não fossem eles a comprar seria o colega do lado... E a vida custa a todos, etc., etc....

 

*Recomendação de leitura: para quem não conhece e tem receio do francês rabelaisiano eis a edição recomendada. “Les cinc livres des faits et des dits de Gargantua et Pantagruel” Gallimard, colecção “Quarto”, Paris, 2017

Na página da esquerda Rabelais ele próprio, na da direita o mesmo em francês moderno. Há um bom prefácio inteligente e compreensível.

*na gravura Rabelais

 

15
Mai17

O leitor (im)penitente 203

d'oliveira

 

 

 

 

 

 

Rufino_LM_Praia_Polana_1.jpg 

 

Livros, alfarrabistas & outras fantasias 8

(“Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique”)

Os livros são uma aventura sem fim, uma viagem sem bússola, um desvanecer de dinheiro pior do que consumir cocaína. O leitor voraz, nunca está satisfeito. Pede sempre mais e mais, quer tudo e mais alguma coisa, o que faz lembrar aquele cavalheiro medievo, Pico della Mirandola que, diz-se, sabia tudo e mais alguma coisa. Morreu cedo de tanto ler, mas não de tresler, deixando uma obra copiosa salpicada, nalguns casos (13!, número aziago!) de heresia de que, contrafeito, teve de abjurar. Pico lia tudo, comprava tudo o que corresse escrito e discutia tudo. Hoje, poucos o conhecem e menos ainda o leem (é o meu caso...) mas o homem, segundo a biografia que lhe dedicou um sobrinho, era da raça dos génios.

 

Rufino criados.jpg

 

A que vem esta lengalenga mirandoliana se o que pretendo é falar de um certo Rufino, fotógrafo e africanista, autor de dez gordos volumes pejados de fotografias sobre a colónia de Moçambique em 1929?

Pois apenas isto, o senhor José dos Santos Rufino por razões que não enxergo, resolveu, naquela data, arriscar muito dinheiro na publicação dos “Álbuns...” Não vislumbro que, à época, lhe sobrasse freguesia suficiente na colónia (em 1929, Moçambique era, oficialmente, colónia, abandonada que fora a designação de província ultramarina dos tempos da monarquia). Também duvido que, na Metrópole, houvesse uma multidão de entusiastas coloniais que compensasse o esforço e os gastos da edição. É que se trata de algo luxuoso, caro, fotografias algumas vezes enormes, tratadas, reveladas e editadas na Alemanha pela renomada firma Broschek & Co. (Hamburgo). São dez volumes oblongos (22x29cm) que no conjunto hão-se contar mais de mil fotografias, algumas em página dupla. A obra encerra fotografias das localidades mais importantes (Lourenço Marques, Beira, Tete, Quelimane ou Moçambique -mas não Nampula, na época um lugarejo sem importância -), instalações portuárias, comerciais, agrícolas e industriais, fauna, flora, arquitectura e monumentos e, no 10º volume, uma extensa mostra das populações nativas.

A qualidade das fotografias foi sempre aclamada mesmo se Rufino não conste na lista nacional, africana ou mundial dos grandes fotógrafos reconhecidos. Mas. é-o, indubitavelmente.

Hoje, a colecção pertence ao ex Banco Nacional Ultramarino e raras vezes aparece completa no comércio alfarrabista. Quando tal acontece, os preços são consideráveis (entre 750 e 1000 euros nas consultas que fiz) o que muito me entusiasmou porquanto fui pacientemente reunindo os volumes entre Dezembro de 2007 e Setembro de 2009. Tinha fixado uma tabela máxima por volume (€ 50) e consegui terminar o lote um pouco abaixo do limite que me tinha imposto, sobretudo porque consegui que todos os tomos estivessem em “bom” ou “muito bom” estado de conservação.

Para além do interesse estético, o que me interessou sempre foi o valor documental e, sobretudo, a confirmação do que sempre defendi: Moçambique é um país construído por portugueses, sul-africanos, indianos, alguns chineses, gregos, italianos e alemães. Deveria referir os africanos, isto é os negros indígenas que alombaram com o trabalho mas penso que isso está implícito sempre que se fala de África.

Também me pareceria interessante fazer notar o esforço de muitos mestiços que nos anos da construção do “Império” eram importantes (por todos, em Moçambique, a família Albasini) estatuto que foram perdendo durante o apogeu da colónia-província ultramarina. Para isso, portugueses e indianos contribuíram fortemente mas não é desdenhável a contribuição bóer, a provar que durante muito tempo, a mestiçagem não só não era proibida mas tinha estatuto social e económico. Anda por aí muito aprendiz falhado de anti-racista que desconhece que o apartheid foi obra de anos posteriores. Não é que antes não houvesse diferenciação racial (com pesadas e vis consequências) mas esta tal qual se tornou política oficial da RAS tem origem nos finais da primeira metade do século XX.

E, mesmo que Moçambique não fosse um paraíso racial (longe disso), as diferenças entre o estatuto de brancos e não brancos era algo de infinitamente menos ignominioso do que em muitas outras zonas de África. Não desculpa nada mas não pode ser esquecido.

 

* nas fotografias que se juntam aparece a palavra “mufano” para significar criado jovem. É uma adaptação tola e masculinizada do termo ronga “mufana” que significa rapaz, jovem. O feminino, no mesmo vernáculo, é tombazana.

 

09
Mar17

O leitor (im)penitente 198

d'oliveira

Unknown.jpeg

 

Livros, alfarrabistas & outras fantasias 4

 

O preço segundo a cara do freguês

 

Os atlas geográficos ocupam um lugar apreciado na lista dos livros em venda por alfarrabistas, nacionais ou estrangeiros. E os preços, ah, os preços!!!, são mais voláteis do que os gazes preciosos e raros.

De certo modo esta situação é compreensível. Os grandes atlas, os famosos, os nascidos com os séculos XVI e XVII são hoje mais do que raros, são raríssimos e os que existem, salvo pequenas excepções estão aferrolhados a sete chaves nas grandes bibliotecas ou em algumas universidade. Ao interessado (e eu sou apenas um interessado e não um bibliófilo) resta geralmente o recurso a algumas excelentes edições facsimiladas que, por um lado reproduzem exactamente o atlas desejado, por outro têm a vantagem de geralmente ser de preço acessível.

(este adjectivo acessível deverá ser entendido cum granu salis. No mundo dos livros a palavra estica-se bastante...)

Desde pequeno que a Geografia (com a História e com a História Natural) me fascinou. Nos anos de rebeldia liceal fui sempre bom aluno nessas cadeiras que despertavam a minha insaciável curiosidade a tal ponto que logo em Outubro já tinha lido, relido e voltado a ler os manuais. A paixão continuou vida fora e agora, adiantado em anos, continuo a apreciar tudo o que diga respeito a estes três grandes domínios.

Todavia, hoje, vou ser impertinente com a honrada classe dos alfarrabistas que, quando apanham um livro com ilustrações de qualidade ou com mapas entram numa espécie de festiva dança de S Vito e pensam ter ganho o céu ou, pelo menos, o totoloto.

Para tal bastam três historietas.

A primeira tem como personagem um atlas vulgar mas interessante, de 1903, que se editou em dois volumes sob o título “Atlas Ibero Americano de Geografia”. Para o efeito interessa-nos o volume dedicado a Portugal e Colónias. Estado razoável, pequenas escoriações na capa a pedir intervenção de encadernador, nada de muito grave mas longe de se poder considerar um exemplar claramente bom.   Dezoito mapas dupla folha (encarcelada: isto é a folha inteira assenta sobre uma outra muito estreita cozida ao volume. Deste modo o mapa lê-se na sua totalidade sem partes escondidas no miolo), mais 457 páginas de texto e ainda a cópia em 26 novas páginas do Censo de 1900 por freguesias. Para um abelhudo como eu esta é a parte mais interessante pelo que descreve de um Portugal de há mais de cem anos.

Vi o atlas em questão num alfarrabista que frequento sem grande periodicidade e perguntei o preço. “Quinhentos euros mas a si faço 350! E olhe que traz um mapa final em tela que eu poderia vender por cem euros

Eu, que já tenho o dito cujo mais pelado do que um macaco, quando vejo tais ofertas desconfio. Respondi que o preço era ainda assim excessivo e retirei em boa ordem. Semanas depois, nova visita e insistência do vendedor. Que se eu quisesse substituía o mapa em tela por uma boa fotocópia – e agora há-as excelentes- e retirava mais umas dezenas de euros ao preço. “Já te estou a ver o sim senhor”, pensei com os meus botões e voltei a dizer que a coisa requeria mais e ulterior estudo.

Entretanto, uma epifania súbita fez-me ir dar uma volta pela Internet. Em três penadas dei com o mesmo exemplar publicitado como em “estado muito bom”, enriquecido por uma folha extra que dava conta de uma menção honrosa atribuída pela Sociedade de Geografia de Lisboa e oferecido (já com portes ultra-rápidos para Portugal) por um total de 128 euros. Dois dias depois aterrava triunfante cá em casa o Atlas que, de facto parecia saído do armazém do editor.

A segunda história tem a ver com uma versão primorosa do famoso Atlas de Abraham Ortelius, o primeiro atlas na moderna acepção do termo (o termo atlas pertencerá a Mercator mas é a Ortelius que se deve a primeira versão). Trata-se do Theatrum Orbis Terrarum, nado nos finais do sec. XVI. Ortelius contratou umas dezenas de cartógrafos, impôs-lhes as medidas – todas iguais- (1ª vez!) e publicou o belíssimo volume ilustrado e a cores. Em 1954 uma editora suíça (Sequoia) editou um sumptuoso fac-simile que teve cópia autorizada americana pela American Elseviere Pub. Comp, anos depois.

A excelente livraria Nova Eclética pela mão de um dos rebentos Gonçalves pôs um exemplar em leilão por um preço que até eu considerei baixo. Licitei pelo dobro mas não tive sorte. Alguém possuído pelas Fúrias ou outras criaturas de igual talante, atirou-se ao leilão e numa absurda corrida contra outro provável inconsciente acabou por adquirir o livro por pouco mais de seiscentos euros o que representava três vezes a minha oferta.

Desolado, recorri à Internet e, mais uma vez, um livreiro americano de Long Beach oferecia o meu actual exemplar em perfeitas condições por cerca de 180 euros transportes incluídos. A gloriosa alfandega de Lisboa ainda achou que sobre este preço total e não sobre o preço do livro (€127) havia de cobrar umas alcavalas que ultrapassaram ligeiramente a barreira dos 200 € que eu oferecera no leilão.

Curiosamente, na habitual feira dos alfarrabistas (sábados, Rª Anchieta) acabei por conhecer o comprador que vencera o leilão. Quando eu lhe disse, a pedido dele, que comprara o meu exemplar pelos duzentos e poucos euros, teve o descaramento de dizer que fora isso o que lhe custara o dele!... os ouvintes, todos alfarrabistas que conheciam a história, riam dissimuladamente para o lado.

Terceira e última: Há um “Atlas encyclopedique contenant la geographie ancienne et quelques cartes geographiques sur le moyen age, la geographie moderne et les cartes reltives a la geographie physique para M Bonne, Ingénieur Hydrographe de la Marine et para M. Desmarest de l’Academie des Sciences pour les cartes de geographie physique”, publicado em Paris, Hotel de Thou, rue des Poitevins em 1788” que não tendo a importância dos dois já citados é uma excelente peça e, no caso, a raríssima 1ª edição.

Vi-o, cobicei-o mas perante o preço (preço bem gordo, gordíssimo, a gordura em pessoa) entendi explicar ao livreiro, pessoa aliás amável e educada, que aquilo estava muito acima do que eu poderia pensar oferecer. O senhor afirmou-me que podia esperar por melhor reflexão mas eu afirmei-lhe que não perdesse a venda caso aparecesse quem estivesse disposto a abrir os cordões à bolsa. Pouco mais de uma semana depois, recebo um telefonema com uma redução de 30% do preço. Voltei a agradecer mas reiterei que ainda era muita areia para a minha camioneta. Mais uma semana e a coisa já ia nos 50%. Lá apareci e, à Lagardere, dei a minha estocada final: ofereci 40% do preço primeiramente pedido. Foi aceite! Ainda hoje me pergunto o que sucederia se tivesse oferecido, por exemplo, 30%... De todo o modo, fiz uma compra por um preço mais ou menos idêntico ao do único exemplar encontrado na Internet que, aliás era, apenas, um preço indicativo de início de leilão on line.

Estas três historietas servem tão só para demonstrar que nem sempre os preços que correm em alfarrabistas merecem crédito. De quando em quando é necessário “marralhar” como quando se vai por um quarteirão de sardinhas à peixeira da esquina.

Aliás, os livros por muita nobreza que se lhes atribua também estão sujeitos às leis do mercado e a famosa regra do preço fixo não funciona de todo em todo. Os grandes grupos (FNAC, Bertrand ou Wook) torpedeiam o preço oferecendo no mínimo um desconto de 10%. No caso da Wook ainda há a oferta dos portes de correio e por vezes mais uns truques.

 

*na gravura: frontespício do Atlas de Mercator

 

 

15
Fev17

0 leitor (im)penitente 197

d'oliveira

images.jpeg

 

Livros, alfarrabistas & outras fantasias 2

(para Nuno Canavez, intrépido livreiro da “Académica”

Os leitores impenitentes são de uma raça persistente, pacífica mas imparável. Perseguem os livros com afinco, paciência, paixão e a melhor imagem que me vem à cabeça seria aquela que mostra Camões a nadar no meio do mar com um braço fora de água segurando um punhado de folhas.

Tenho oficial e oficiosamente 60 anos redondos de comprador de livros. Usando o meu dinheiro, no caso nicial a parca mesada. Uma das primeiras livrarias onde entrei foi a “Académica”, no Porto, um alfarrabista que me ficava em caminho entre o Colégio e o Mundo (a 2ª etapa era a “Divulgação”, posteriormente “Leitura” onde deixei uma bela fortuna.)

Voltemos, porém à Académica que hoje é propriedade de Nuno Canavez. Em boa verdade, o Sr. Canavez já lá trabalhava quando eu passava pela livraria. Ali se fez o grande livreiro que hoje é, um homem que sabe tudo de livros e que não tem papas na língua. Graças ao seu saber e à sua generosidade, Mirandela dispõe de um acervo sobre a terra e sobre Trás-os-Montes sem igual em parte alguma. Canavez pesquisou, juntou, pagou e depois enviou para a terra natal mais de três mil volumes!

Todavia, não é disso que quero hoje falar mas, tão só de uma das melhores compras que alguma vez fiz na “Académica”.

Os leitores talvez desconheçam mas nos alfarrabistas há ainda o civilizado costume de entrar apenas para uma vista de olhos e, se possível, uma bela conversa sobre livros. Há sempre dois ou três contertúlios prontos a conversar sobre qualquer assunto, mormente livros.

Num dia, logo de manhã tive de ir ao centro da cidade e, despachando-me, cedo passei pela Académica. Depois de trocar duas palavras com o Sr. Canavez caíram-me os olhos em dois belos volumes, ricamente encadernados (encadernação de editor) folhas a ouro, estado impecável, edição in folio, 39x29, 1500 (mil e quinhentas!!!) gravuras, datada de 1852 se não erro. Uma beleza!

A medo, perguntei o preço. –“100 euros. Para o sr. dr. 90!” – “É para já”, respondi e saí a correr para o multibanco mais próximo para levantar o cacau.

Despedi-me, rapidamente e, ajoujado, ao peso dos dois grandes volumes, marchei para o meu quartel general das manhãs, ou seja esta esplanada de onde escrevo. E comecei a explorar a compra. Era ainda melhor do que me parecera.

Resolvi ir pesquisar o título à Internet “Tableau de Paris” de R Texier. Espantei-me ao ver os preços a que a edição corria nos mercados francês e italiano. De um mínimo de 450 até uns tremendos 900!

A manhã de sol levou-me a pensar que o livreiro, mesmo amigo, mesmo conhecedor, estaria equivocado. Aquilo, a noventinhas, era ao preço da uva mijona. Desassossegado voltei, dias depois, à livraria e prudentemente lá fui sussurrando que, se calhar, o livro fora demasiado barato, que talvez houvesse engano, enfim que talvez eu, comprador, estivesse a explorar o vendedor.

Canavez imperturbável replicou-me: Primeiro o livro era um calhamaço e já ninguém estava disposto a ter de arranjar sítio para o arrumar; depois o livro era em francês e, agora, toda a gente ignorava a bela língua e só jurava pelo inglês comercial; finalmente perguntava se os preços que eu vira eram de livros vendidos ou para venda. Tendo eu respondido que eram para venda, olhou-me triunfante e disse-me: “Viu? Ainda não os venderam pois não? Aposto que daqui a seis meses, um ano ou mais ainda por lá andam sem comprador.”.

Quatro anos depois tenho que lhe dar razão. Não garanto que seja nos mesmos exactos sites mas a verdade é que este maravilhoso “Tableau de Paris” continua à venda em vários livreiros d’além Pirenéus.

 

*não quero confundir algum leitor mais atento. De facto, existe um outro e mais famoso, “Tableau de Paris”, o de Mercier, obra notável que, porém, padece, na comparação, ao não ter uma única gravura.

15
Fev17

o leitor (im)penitente 196

d'oliveira

Unknown.jpeg

 

Livros, alfarrabistas & outras bizarrias 1

 

“Tenho cinco minutos para contar uma história” é o mais recente e ressuscitado livro de Fernando Assis Pacheco que faria por estes dias oitenta anos. Faria, disse e repito- Quis a malina que nem aos sessenta chegasse. O Assis morreu cedo e mal. Tinha à sua frente uma bela carreira poética a adivinhar pelo que “A musa irregular” revelava. Acompanhei-lhe os versos desde 1960 na “Via Latina”, nos “Poemas livres”, nas pequenas edições só para amigos, fui mesmo editor dele (fui eu e mais quarenta que a “Centelha” era uma multidão de malucos que gostavam de livros) e, a certa altura, uma criatura manhosa convenceu-me a desembolsar cinquenta contos dos antigos para reeditar um desses livrinhos. Depois nem livro nem volta da massa: anos depois, o Assis contava-me em carta as maçadas e desgosto que tivera com o importuno e abusivo editor.

Faria, dizia, oitenta anos mas o coração, maior do que o mundo, traiu-o vilmente à porta de uma livraria. Mulher, filhas e filho e um monte de amigos persiste em lembrá-lo para o que contamos com a honrada colaboração de vários jornais e de antigos colegas. “A musa irregular” primeiramente editada pela Hiena Editora do excelente e culto Rui Martiniano é um dos bons (dos muito bons) livros de poesia da quarta parte do século XX. Parece que ainda se conseguem exemplares da última edição (3ª?, 4ª?): leitoras e leitores aproveitem. Se alguém não gostar que me devolva o livro que eu pago-o.

Este livrinho (cinco minutos...), ora editado (Tinta da China ed) é um apanhado de crónicas lidas ao microfone duma rádio. Instantes de vida, lembranças, achados, conversa boa, tudo para despachar em cinco minutos o que é obra!

Só tenho um reparo: o Assis escreveu muitas outras crónicas que ainda andam por aí esparsas em jornais. Há uns anos a família (ou talvez apenas a Rosarinho) mandou-me umas folhinhas do “sempre fixe” ou do “diário de Lisboa”, dessas que servem para manter um título jornalístico onde se apanhavam mais outros textos. Está por fazer a reedição completa e integral destas prosas de destino incerto e qualidade certa. Tivesse eu tempo e idade e atirava-me à tarefa de as recolher mas estou já avançado em anos para vencer a preguiça e a trabalheira. Ainda por cima a pesquisa teria de se centrar sobretudo em Lisboa e nos jornais onde Assis trabalhou e eu, provincial e provinciano que sou, estou longe.

À falta de melhor, deem-lhe ao dente nestes “... cinco minutos...” e acompanhem cada garfada com um copo de um bom tinto que o Assis, fino gourmet, merece a vossa boa companhia.

17
Nov16

o leitor (im)penitente 195

d'oliveira

25e32bf853e1405bf0ece7403d04aa36.jpg

 

Dylan, Bob Dylan

(ou: uma centelha pode incendiar toda a pradaria)

 

Conheço Dylan (pelas canções, evidentemente) há mais de cinquenta anos. É o que dá ser velho (e não sénior ou idoso como agora o politicamente correcto propõe); ser velho e gostar de música e de poesia.

De facto é de poesia que venho falar. Parece que foi um escândalo o Nobel. A um cantor? A um ícone da cultura pop? A um insubmergível poeta que desde fins dos cinquenta não para de nos espantar?

Li, entre divertido e irritado, um par de opiniões de umas criaturas que tem publicado os seus ignorados livrinhos por aí. Tirante a absurda arrogância das pobres gentes que se dão à tarefa de poetar para a gaveta e para o esquecimento, o que me admira é a argumentação de que a poesia de Dylan é para ser cantada e que só vive do acompanhamento musical, o que nem sequer é verdade. Dylan lê-se com extrema facilidade e alegria. E prazer. E proveito!

Se me perguntassem se Dylan era o meu favorito para o Nobel, diria que não. Estava à espera da consagração de Adonis, um poeta sírio extraordinário de quem acaba de sair uma tradução em português. Ou do eterno Roth, um romancista de mão cheia que há mais de dez anos é dado como nobelizável.

Todavia, Dylan é uma excelente escolha e uma prova de vida estimável para a Academia Sueca que nunca conseguiu libertar-se do labéu de conservadora e de míope.

Porém, tudo isto vem a propósito da publicação de Dylan em português. Agora, como é sabido, há dois sólidos volumes das “Canções” (Relógio d’Água, ed) numa cuidadosa edição bilingue, lançada este ano.

No entanto, não é esta a primeira edição em livro de poemas de BD. De facto, em 1985, uma pequena, mas corajosa, editora lançou um “Poemas 1” (a indicar continuação o que nunca sucedeu) de Dylan numa colecção de poesia que juntou mais de cinquenta autores sendo de destacar vários cantores mormente americanos. Essa editora chamada “Centelha” foi fundada em Coimbra no início dos anos 70 e a sua causa directa prende-se com a grande crise académica de 1969. Umas dezenas de activistas de que só refiro dois mortos (Alfredo Soveral Martins e João Bilhau) entenderam ser não só útil mas também necessário constituir uma biblioteca fundamental para o movimento saído da crise e para alguns milhares de estudantes que nela tinham ganho as suas esporas de militantes da liberdade e da democracia.

Tenho toda a simpatia pela “Relógio d’Água” que é provavelmente a mais interessante editora nacional. Porém, o seu a seu dono. Foi a Centelha quem, há mais de 30 anos, editou o Dylan em Português. Era apenas um punhado de poemas mas era o princípio. Depois, distribuidores em falta e falidos, a morte do Alfredo e demasiados incobráveis, ditaram a morte da Centelha. Morreu de botas calçadas no meio de muita indiferença, incluindo, valha a verdade, a de muitos dos seus sócios.

......................

Morreu o Leonard Cohen! Deixa uma herança generosa e uma glória indesmentível. O Nobel poderia ter-lhe sido atribuído com as mesmíssimas razões apontadas pela Academia para coroar Dylan. Bonito e original poderia ter sido um Nobel ex-aequo mas provavelmente isso não está nos estatutos e nem sequer lembrou aos suecos. Vivemos num mundo pouco disposto a inovar e, muito menos, a ousar o escândalo. Como se o acto poético fosse conservador!

Mais uma vez, o dedinho editorial da Centelha esteve presente: Cohen foi editado (“59 canções de amor e ódio”) com a colaboração da “Fenda”, uma revista libertária, situacionista, corajosa, exemplar. Nascida em Coimbra, apareceu também com o nome “Pravda” e durou uma dúzia de maravilhosos números. Como editora produziu talvez um quarteirão de livros, alguns dos quais belíssimos.

Agora, os raros exemplares que aparecem nos alfarrabistas cotam-se a forte preço.

Morte, onde está a tua vitória?

 

 

 *Vai esta em memória do João Bilhau e do Alfredo Soveral Martins, dois que estiveram em todas, de 62 a 69, por Coimbra a dos lavados ares. E com um abraço ao Rui Namorado, outro fundador da Centelha, representando todos os outros companheiros daquela aventura editorial, política e ética.

 

15
Nov16

o leitor (im)penitente 194

d'oliveira

p 1-cópia.jpg

 

de um leitor (im)penitente para outro leitor (im)penitente

 

Morreu o Miguel Veiga. 

Não vou dizer que não o esperava. Há pouco mais de um mês, ou nem isso, estivemos os dois no lançamento de um livro do Alvaro Laborinho Lúcio. Lado a lado. O Miguel na cadeira de rodas, o sorriso esmorecido, o olhar inquieto de sempre, pouco ou nada disse. 

Logo ele, um falador contumaz! 

A morte preparava o cerco e o homem que ali estava e que eu conhecia desde os anos setenta, com quem varara intermináveis, inúmeras, noites, a falar de tudo, a discutir tudo, a rir de tudo ou quase, era já uma recordação. 

E o Laborinho, sempre atento, sempre amigo, reconheceu-o. Dedicou-lhe algumas palavras, saudando no Miguel todos os leitores e amigos que ali estávamos. 

Recordo o Miguel no 21, um bar amável onde, no ano da 1ª eleição de Mário Soares, tínhamos uma mesa repleta, a mesa do MASP, como o João, jovem barman na altura (e hoje já avô e sempre barman) a apelidou. E até cometeu o irreparável: reservava-a para nós até à chegado do primeiro contertúlio. Desse grupo já lá vão vários desde o Pedro Sá Carneiro, do Zé Valente até ao Zé Portocarrero. Começo a sentir-me um sobrevivente e, sobretudo, alguém cada vez mais só, rodeado de sombras, importunado pelas memórias (que no caso do Miguel são sempre de alegria), sem remorsos por estar vivo mas aflito pela falta de companheiros de conversa. 

E foi uma longa conversa a que mantivemos, desde os tempos em que eramos vizinhos na Foz, na avenida do Brasil, até um jantar que organizei só de vinhos e queijos (e pão) onde descobri que o Veiga, que inspeccionou demoradamente as minhas estantes, que tínhamos um enorme grupo de autores, franceses e portugueses, em comum. A coisa entrou pela noite alta, pela madrugada baixa e por pouco que não se transformou numa directa. 

Leio no Público, um par de testemunhos sobre o Miguel. Sobre o mimo, a ousadia, alguma desfaçatez, a cultura, o riso, a ironia e o profisionalismo do advogado que ele sempre foi. Patilho tudo, estou de acordo com tudo, incluindo a frase do Octávio Cunha, outro meu amigo de sempre (que lhe chama o principe da cidade). 

O Miguel era vaidoso, quase insolente,  tinha defeitos, olá se tinha, mas compensava-os com a generosidade, com a lealdade e com um sentido de fidelidade raro.

Dizem que nunca aceitou ser ministro ou deputado.É verdade mas isso não se devia especialmente ao Porto mas sim a uma irredutível liberdade. Levantar e sentar o cu no Parlamento, aceitar o "sentido de Estado" de um Ministro, eram coisas que ele sentia como insuportáveis. A Manel Alegre disse uma vez que o Miguel tinha sido o primeiro social democrata que tinha conhecido. Retorqui-lhe que o que o Veiga era , era um anarquista, um advogado do diabo, alguém que propunha sempre uma pausa no entusiasmo (logo ele que se entusiasmava demasiado) e uma análise fria dos factos. 

Sobre ser "um Senhor", que o era, o Miguel era um intelectual e um cidadão.

Exemplar em ambos os casos.

 

* na gravura: parte dos livros que o Miguel , atento e divertido, examinou lá em casa.

30
Mai16

O leitor (im)penitente

d'oliveira

Raduan Nassar, uma noticia extraordinária

Entre finais de Novembro de 1999 e a Páscoa de 2001, comprei e li de rajada, três livrinhos de um absoluto desconhecido (para mim) autor brasileiro: Raduan Nassar.

Disse livrinhos e repito. Aquilo tudo junto dava um livro normal no que toca a número de páginas. Lavoura Arcaica (187 páginas e em letra gorda), Um copo de cólera (55 páginas, idem) e Menina a caminho (70, idem) é tudo o que Nassar escreveu. Parece, que depois, resolveu criar coelhos.

Estes livros foram editados cá. Os dois primeiros têm a chancela da “Relógio de Água” e o último da “Cotovia”, duas editoras excelentes, corajosas que deem ter vendido pouco ou quase nada. Vi, mais tarde, todos estes livros em feiras de livro ocasionais e a preços mais do que baratos. Alertei amigos e conhecidos para o facto e, que me lembre, só o Manuel Sousa Pereira, bom leitor e bom escultor me deu ouvidos. E como não me recriminou depois, há de ter lido os livros com algum prazer. Caiu-me agora a noticia de Raduan Nassar ser o justíssimo vencedor do prémio Camões deste ano. Depois da nomeação de Manuel António Pina é a primeira vez que não torço o nariz.

Amigos e leitores: Depressa à “feira do livro” e aos alfarrabistas por estes títulos se é que ainda andam por aí.

Trata-se de um literatura simples, rápida, sem artifícios que não causa problemas seja a quem for desde que goste de ler. Aquilo corre, límpido e sereno, e deixa depois um “arriére gout” de maravilhamento. Quase como se disséssemos: era isto o que eu gostaria de escrever”

 

Aproveito a boleia de RN para anunciar que (uma vez não são vezes!) o Círculo de Leitores vai publicar duas excelentes obras de Aquilino Ribeiro: “É a guerra” e “Alemanha ensanguentada”. Depois da reedição de “A retirada dos 10.000” (uma tradução saborosa do clássico de Xenofonte e um dos melhores documentos, repleto de aventuras que a Grécia imortal nos legou) eis que um Aquilino sensível e observador nos bate à porta. Força, leitores!

09
Nov15

O leitor (im)penitente 193

d'oliveira

Unknown.jpeg

Os livros procuram quem os ame

Una furtiva lacrima

Negli occhi suoi spuntò

.......................

Cielo, si pu`morir.

Di più non chiedo.

 

“O elixir do amor” Donizetti, libreto de Felix Romani

 

(a frase não é minha, fique já claro. Ouvia-a na livraria do Bernardo Trindade proferida pelo Daniel Silva, bibliómano, bibliófilo e leitor voraz que tem uma grandiosa biblioteca sobre o terceiro mundo. Só no tema escravatura arrecada ele cerca de vinte mil títulos! Algumas grandes instituições rondam-no com propostas aliciantes de compra post-mortem mas DS ainda não decidiu o que fazer de tão extraordinário espólio. Parece que de Portugal só recebeu silêncio. O costume...)

Não recordo já quando mas um dia reparei que um velho amigo meu que raramente vejo andava à procura de um livrinho de João Apolinário (“Morse de sangue”). Dado que sou um inveterado frequentador de alfarrabistas, prometi-lhe procurar a obra que, com muito prazer, lhe ofereceria.

Na altura não me lembrei que a tinha, de par com mais duas ou três peças do mesmo autor. Apolinário, senhor de uma verve poética torrencial, faz parte de um passado longínquo, em Coimbra, inícios de sessenta. Acho que foi na cadeia de Caxias que ouvi pela primeira vez versos dele. Terá sido o Allah a recitá-los ou então foi o Chico Delgado, outro poeta mais da minha geração, morto há um par de anos deixando a todos nós uma profunda saudade e três ou quatro livros de poemas. Está antologiado nos “Poemas Livres” (nas três séries e em mais uma ou outra antologia universitária. Exilou-se, raras vezes voltava ao país e isso, juntamente com a sua timidez, tornou-o em mais um autor desconhecido. Nem o dr Sampaio da Nóvoa o cita, o que é, seguramente uma bênção para Delgado.

Um recente encontro com R (companheiro de Caxias e de várias, muitas, aventuras políticas e estéticas –não esquecendo neste domínio uma comum admiração pelos westerns- ) relembrou a promessa antes feita pois era ele o eventual futuro beneficiário do improvável achamento de “morse de sangue”. Tudo, aliás, concorria para esta dificultosa empresa: o livrinho (é mesmo um livrinho com escassas trinta ou quarenta páginas) fora editado em poucos exemplares ainda nos anos cinquenta e, entre perdas, lixo, confiscos pela PIDE e desinteresse dos proprietários, tudo concorria para a sua raridade.

Fartei-me de encontrar outros títulos da exígua produção de Apolinário, mas este, o seu livro bandeira, o seu manifesto não aparecia nem à lei da bala.

Com o remorso da promessa por cumprir, resolvi oferecer o meu exemplar e, para o efeito fazer uma vistoria pelas minhas estantes de poesia. Até isso foi difícil. Dadas as limitações de espaço que um contínuo acumular de livros provoca há sempre uma, duas ou dez excepções à natural ordem alfabética a começar pela altura do livro. Depois de uma pesquisa a vol de oiseau convenci-me que o livro como, ahimé, tantos outros, andaria por casas alheias. E resolvi, desta feita, surfar pela internet em busca do fugidio voluminho. Para minha surpresa, havia livreiros estrangeiros que o tinham a preços escandalosos. Todavia, no meio daquela inesperada e injustificada inflação, apareceu o alfarrabista Luís Gomes (que amiúde visito) com uma proposta decente que foi imediatamente arrematada.

O livro seguiu viajem até ao seu destinatário final que rapidamente me agradeceu, confessando que se comovera e exaltara com a leitura de alguns poemas que na nossa extravagante e ousada juventude usávamos como panfletos incendiários.

Voltei às estantes e, depois de uma pertinaz busca, lá encontrei o meu exemplar e fui pelos versos ouvidos há mais de cinquenta anos. Não é, obviamente, a poesia que mais estimo, sequer aquela que me faz reler um autor mas, por momentos, embalado pela cálida recordação dos nossos anos de lume, vinho e rosas (e chumbo!...) revi um monte de velhos amigos, outro tanto de fantasmas delidos pelo tempo e pela morte, comovi-me e, sem vergonha, confesso que una furtiva lacrima me sulcou a face.

 

Vai esta para um grupo (ou o que dele resta) que em 1962 ousou desobedecer às autoridades académicas, às políticas, às polícias e, muitas vezes, às famílias. Por isso bateram com os ossos em Caxias, nas mal afamadas casamatas onde penaram o tempo necessário para reentrar naeazão. Não reentraram mas ficaram amigos para sempre.

Em especial relembram-se: João Quintela, Luís Bagulho, Francisco Delgado, Alfredo Fernandes Martins, Alfredo Soveral Martins, José Orlando Bretão, José Monteiro ("o bagacinho"), .Viram todos o fim do Estado Novo mas, felizmente, não têm de ver a merda em que isto se vai afogando.