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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

12
Out17

Santana Lopes e Rui Rio

José Carlos Pereira

Pedro Santana Lopes anunciou na terça-feira a sua candidatura à liderança do PSD e Rui Rio promoveu ontem a sua apresentação pública ao mesmo cargo. Os militantes do PSD vão ter cerca de dois meses para escolher o líder, as suas propostas e equipas.

Uma escolha que também se fará entre a genuinidade, a empatia e a humildade de Santana Lopes e o calculismo, a frieza e o perfil autoritário de Rui Rio. Ver-se-á quem vale mais votos no seio do PSD. O que é certo é que o país necessita de uma oposição forte e actuante.

12
Out17

A acusação, finalmente

José Carlos Pereira

Ontem foi um dia triste para a democracia portuguesa com a acusação formal ao antigo primeiro-ministro José Sócrates. Uma acusação que não podia deixar de ser esperada por todos os que foram acompanhando as notícias ao longo dos últimos quase três anos.

A acusação do Ministério Público tardou em demasia, mas agora que aí está permite aos acusados encetarem a respectiva defesa. Quem votou em José Sócrates, como eu, tem ainda mais razões para lamentar todo este processo. E para esperar, como ontem ouvi a um destacado parlamentar, que no final a verdade tenha uma demonstração plena.

06
Out17

Acertos de contas no PSD e no PS

José Carlos Pereira

Embora em diferentes escalas, as eleições autárquicas começam a produzir efeitos nos dois principais partidos. O anúncio de Pedro Passos Coelho de que não se recandidataria ao cargo de presidente do PSD abriu um processo que vai ser curioso de acompanhar. Rui Rio tem dado todos os sinais de que vai avançar e o caminho que percorreu até aqui não lhe permitia outra saída. Ou era agora ou nunca mais seria. Contudo, Rio não terá uma passadeira vermelha à sua espera, como alguns alvitrariam. Não faltam nomes lançados para um combate que se antecipa muito duro. Paulo Rangel e Pedro Santana Lopes já verificam apoios e, após Luís Montenegro ter renunciado à corrida, resguardando-se para mais tarde, ainda poderá surgir algum candidato mais alinhado com a herança de Passos Coelho.

Antes da escolha de nomes para a liderança, porém, o PSD precisa de reflectir seriamente sobre o caminho que pretende seguir. Passos Coelho encostou o partido demasiado à direita com as políticas económicas liberais que adoptou no governo e defendeu na oposição e, a meu ver, o PSD deve procurar crescer para o centro, que tem deixado à mercê do PS. O PSD ocupou todo o espaço do centro-direita quando conseguiu anular  o CDS, mas neste momento o CDS está fortalecido e pode afirmar que o voto útil à direita deixou de fazer sentido. Depois do processo que conduziu à actual solução governativa, tornou-se claro que o centro-direita só voltará ao poder com uma coligação abrangente e isso permite ao CDS bater-se pelas suas ideias e pela afirmação do seu espaço político.

O perfil autoritário de Rui Rio, a sua difícil relação com certa imprensa e a sua intolerância à crítica, como se viu no período em que foi presidente da Câmara do Porto, não creio que façam dele o nome providencial para a recuperação eleitoral do PSD. Além disso, a permanente defesa da regeneração do sistema político, fazendo lembrar o discurso de Alberto João Jardim em outros tempos, não me é particularmente cara. Nos próximos dois meses as hostes social-democratas vão estar animadas e não faltarão motivos de interesse para acompanhar a vida do PSD.

O PS, vitorioso em quase toda a linha nas autárquicas, tem mais uma vez no Porto um foco de tensão. Manuel Pizarro, líder da distrital socialista, sobreviveu ao desastrado processo eleitoral na cidade do Porto, mas não falta quem lhe atribua culpas pela forma como se deixou seduzir pelo poder de Rui Moreira, para depois ser descartado e ter de inventar uma candidatura do PS em cima da hora, derrotada de forma clara. Com o PS fora do executivo, serão mais uns lugares que o aparelho perde e isso tem sempre reflexos na hora da avaliação dos resultados. Creio, no entanto, que as conquistas alcançadas pelo PS em Matosinhos, Paredes, Marco de Canaveses e Felgueiras, neste caso em coligação, serão suficientes para segurar a sua liderança distrital, apesar das derrotas no Porto e em Vila do Conde, município onde as culpas recaem quase em exclusivo sobre a estrutura concelhia liderada pelo ex-presidente da Câmara Mário Almeida.

Todavia, o facto de Manuel Pizarro ter eventualmente condições para continuar à presidir à Federação Distrital não quer dizer que essa solução esteja isenta de críticas, pois são muitos os militantes e eleitores socialistas que não se revêem na forma como conduziu vários dos processos eleitorais, a começar pelo Porto, que tantas vezes critiquei aqui, e que defendem uma maior projecção da liderança socialista local na defesa de políticas de desenvolvimento para o distrito e a região metropolitana.

03
Out17

Autárquicas 2017

José Carlos Pereira

As eleições autárquicas de domingo proporcionaram uma grande vitória ao PS, fortalecendo a sua posição em termos nacionais. O PSD teve um resultado decepcionante que abre a porta aos adversários de Passos Coelho, o PCP perdeu autarquias importantes, o CDS rejubila com o resultado alcançado em Lisboa mas continua com expressão autárquica reduzida e o BE elegeu um vereador em Lisboa mas não conquistou qualquer Câmara Municipal.

Acompanhei como habitualmente de muito perto as eleições em Marco de Canaveses, desta feita como comentador no jornal "A Verdade" e na emissão da noite eleitoral da Rádio Marcoense. Uma experiência nova e gratificante num concelho que também contribuiu para a festa socialista, pois o PS conquistou pela primeira vez a presidência da Câmara e passou a contar com maioria absoluta no executivo e na Assembleia Municipal.

14
Set17

O "adeus" de Francisco Assis

José Carlos Pereira

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Na passada semana, Francisco Assis interveio na última sessão da Assembleia Municipal do Porto, tendo referido que terminava ali a sua experiência autárquica e não voltaria a ser candidato a nenhuma autarquia. Referiu ainda que, “muito provavelmente”, encerrará a sua vida política em 2019, no final do mandato que exerce no Parlamento Europeu.

Francisco Assis é ainda muito novo, mas a verdade é que já anda na vida pública há quase 30 anos, compreendendo-se que algum desgaste e o actual afastamento das opções seguidas pelo PS estejam na base deste pré-anunciado adeus à vida política. Assis foi eleito presidente da Câmara de Amarante com 24 anos, foi deputado e por duas vezes líder parlamentar, exerce o segundo mandato interpolado no Parlamento Europeu, foi candidato a presidente da Câmara do Porto em 2005 (obtendo o melhor resultado absoluto desde que o PS está na oposição), disputou a liderança do PS com António José Seguro em 2011 e foi candidato a presidente da Assembleia Municipal do Porto em 2013 (suplantando a votação de Manuel Pizarro para a Câmara). Em 2001 fora candidato a presidente da Assembleia Municipal de Marco de Canaveses, terra a que está ligado por laços familiares.

Como se vê, Francisco Assis nunca se resguardou das circunstâncias mais desfavoráveis. A disponibilidade para ir a todos os combates terá prejudicado o seu desempenho em vários dos cargos que exerceu, somando faltas aqui e acolá, pois não era fácil conciliar os mandatos de deputado europeu com o de vereador da oposição ou de deputado municipal no Porto, como não foi fácil arranjar tempo para estar na Assembleia Municipal de Marco de Canaveses, onde quase perdeu o mandato por faltas, quando era líder parlamentar.

Uns dirão que Assis deveria ter gerido melhor o seu envolvimento político, outros verão nesta disponibilidade de Francisco Assis a generosidade de quem gosta de ir à luta em momentos difíceis. Seja como for, Francisco Assis, com cujas opiniões não tenho estado de acordo, nomeadamente quando apoiou António José Seguro para a liderança do PS e, sobretudo, quando depois insistiu na aproximação entre PS e PSD num período, pós-troika, em que isso era materialmente impossível, tem muito ainda a dar ao país e à sua área política, seja no exercício de cargos públicos ou na reflexão e no debate de ideias, pois não abundam os agentes políticos com a sua capacidade e espessura.

Conheci Francisco Assis quando ambos fomos eleitos para a Assembleia Municipal de Marco de Canaveses e nessa altura valorizei mais a sua disponibilidade para enfrentar o poder absoluto de Avelino Ferreira Torres e apoiar aqueles que há muito estavam envolvidos nessa luta do que propriamente a sua reduzida participação como deputado municipal. Depois, em 2005, quando era líder distrital do PS e candidato à Câmara do Porto, interveio na apresentação da minha candidatura à Assembleia Municipal local. Em 2014, não hesitei em aceitar ser o mandatário concelhio da lista que liderou ao Parlamento Europeu.

Francisco Assis é um político que não faz unanimidades, com certeza que não, mas a sua voz, ainda que divergente das maiorias de ocasião, faz falta ao espaço do socialismo democrático.

21
Jul17

"Carrinhas, listas e cacicagem. Todos os detalhes da guerra pelo poder no PSD/Lisboa"

José Carlos Pereira

documento publicado pelo "Observador" merece ser lido por quem milita nos partidos, por quem por lá andou e por quem desconhece por completo essa realidade. E o que se vive no PSD/Lisboa, infelizmente, não é muito diferente do que se passa em muitas secções e concelhias por esse país fora, sobretudo nos dois principais partidos. Uma lástima.

03
Jul17

"Porto turbulento"

José Carlos Pereira

Na sequência de um novo convite de um dos blogues mais lidos no país, publico hoje no Delito de Opinião o seguinte texto sobre as autárquicas no município do Porto:

 

"Rui Moreira apresentou no sábado a sua recandidatura à Câmara Municipal do Porto. É um mero formalismo, pois o autarca portuense há muito que assumiu esse propósito.

Rui Moreira foi eleito em 2013 por um movimento que teve a sua base na burguesia liberal da cidade, nos homens de negócios endinheirados da Foz e de Nevogilde, o meio de onde é oriundo o próprio autarca. A isso juntou o apoio mais ou menos discreto de Rui Rio, seu antecessor, tendo beneficiado, ainda, do facto de grande parte da cidade se ter mobilizado para travar a candidatura populista de Luís Filipe Menezes (PSD), que tinha deixado em Gaia um rasto de despesismo, endividamento e alguma leviandade.

A vitória de Rui Moreira, contudo, não foi suficiente para governar em maioria, pelo que o novel presidente teve de procurar quem lhe desse a mão. Manuel Pizarro (PS), que ficara em segundo lugar nas eleições, decidiu viabilizar essa aliança, contra muitas vozes no interior do seu partido, que já então se interrogavam sobre a situação em que ficaria o PS nas eleições de 2017. A aliança entre o PS e o movimento de Rui Moreira encontrou pontos de vista comuns e os socialistas acabaram a assumir dois pelouros determinantes para a cidade, habitação social e urbanismo, nas mãos de Manuel Pizarro e do prestigiado Arq. Correia Fernandes.

Tudo parecia um mar de rosas na relação entre Pizarro e Moreira, de tal modo que o PS, talvez inebriado pelo exercício do poder, precipitou-se no apoio à recandidatura de Rui Moreira, sem qualquer negociação prévia de políticas e de lugares na vereação. Estava visto que as coisas só poderiam acabar mal, como por várias vezes antecipei.

Rui Moreira, aliás, está longe de ser inquestionável e unânime – o processo Selminho, que envolve uma empresa imobiliária do presidente e da sua família, aí está a fazer o seu caminho, os tiques persecutórios em relação à imprensa fazem lembrar os piores tempos de Rui Rio, a obra pública teima em ver a luz do dia, a proliferação de jobs for the boys é evidente na Câmara e nas empresas municipais (com lugares de destaque entregues a pessoas que vão do número dois e putativo sucessor de Valentim Loureiro em Gondomar até quadros com elevadas responsabilidades na gestão de Menezes em Gaia…) – pelo que nunca compreendi o cheque em branco que o PS passava a Rui Moreira. Só para garantir alguns lugares à mesa da vereação?

Depois de declarado o apoio, de cada vez que o PS se referia à recandidatura de Moreira ou algum responsável do partido reivindicava uma participação forte nas listas, como seria natural face aos resultados de 2013, logo surgia uma personagem secundária do movimento presidencialista a dizer “alto e pára o baile”. Como escrevi em determinada altura, o PS parecia "estar prisioneiro do caminho que seguiu e completamente nas mãos de Rui Moreira e dos seus primeiros apoiantes, que olham de soslaio para tudo o que seja socialista".

Na verdade, Rui Moreira e o seu movimento inorgânico deitaram mão de argumentos serôdios para romper a aliança com o PS. No fundo, creio eu, foi o que sempre pretenderam, depois de manietarem Manuel Pizarro e de diminuírem as possibilidades de êxito do PS.

O vereador socialista e presidente da Federação Distrital do PS deslumbrou-se e foi ingénuo na forma como deixou que o PS fosse capturado pelos interesses de Rui Moreira. A sua posição como candidato é agora demasiado frágil para poder almejar a vitória. Resta saber como reagirá, no futuro, no caso de Rui Moreira voltar a ganhar sem maioria, como prevejo.

E o PSD? Perante a dificuldade de encontrar um candidato forte para disputar umas eleições consideradas perdidas à partida, avança com Álvaro Almeida, um universitário desconhecido do grande público e antigo responsável pela Entidade Reguladora da Saúde, que se limitará a procurar reunir os votos do eleitorado mais fiel ao partido. O apoio público que Rui Rio lhe concedeu vale pouco se traduzido em votos.

Nos sectores mais à esquerda, a CDU apresenta a experiente Ilda Figueiredo, que não terá dificuldade em renovar um lugar no executivo municipal, e o Bloco de Esquerda viu-se obrigado, por razões de saúde, a trocar o ex-líder João Semedo pelo repetente João Teixeira Lopes. Com este triste desenlace, o Bloco viu-se privado de um candidato que estaria em condições privilegiadas para alcançar o primeiro mandato do Bloco na Câmara Municipal e os portuenses perderam a possibilidade de contar com um excelente vereador."

21
Jun17

Responsabilidade

José Carlos Pereira

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despacho do Governo que exigiu apuramento de responsabilidades efectivas à GNR, à Autoridade Nacional da Protecção Civil e ao Instituto Português do Mar e da Atmosfera é a reacção adequada perante a tragédia dos últimos dias. O que se exige é que tudo seja devidamente apurado e que as responsabilidades sejam assumidas por quem tiver de o fazer. Sem pressas, sem emoções, mas com total exigência.

05
Jun17

A falta de argumentos de Rui Moreira

José Carlos Pereira

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entrevista de Rui Moreira ao “Expresso” desta semana (disponível na íntegra apenas para assinantes) mostra como os argumentos para recusar o apoio do PS vão caindo com o tempo. Agora já não há qualquer incómodo com as declarações da secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, e afinal até seria normal que o PS festejasse também como sua a vitória prevista na noite eleitoral.

O novo argumento é que o PS nunca veio desmentir a “boca” do eurodeputado Manuel dos Santos, segundo a qual Rui Moreira teria um acordo para, mais tarde, sair para o Governo ou para o Parlamento Europeu, deixando o caminho livre para Manuel Pizarro assumir a presidência da autarquia. Como se uma liderança partidária tivesse de andar a desmentir todos os desabafos plasmados nas redes sociais…

Enfim, à falta de razão plausível para esconder a verdade – o núcleo mais próximo de Rui Moreira não se identificava com uma lista com forte presença socialista nem gostaria de se ver misturado com as bandeiras do PS na campanha – vão surgindo os argumentos uns atrás dos outros. Quem quiser que acredite num presidente que assume nesta entrevista que não diz a verdade toda.

08
Mai17

A cisão entre Rui Moreira e o PS

José Carlos Pereira

Há menos de um mês, escrevi aqui pela última vez sobre a forma como Rui Moreira tinha capturado os partidos e em particular o PS. Nunca compreendi a estratégia socialista e admitia nessa altura que o PS pudesse "estar prisioneiro do caminho que seguiu e completamente nas mãos de Rui Moreira e dos seus primeiros apoiantes, que olham de soslaio para tudo o que seja socialista".

No final da semana passada estalou o verniz e zangaram-se as comadres. Rui Moreira serviu-se do PS enquanto precisou dele para governar com maioria e lançou agora os socialistas porta fora. Foi um xeque-mate a um ingénuo e deslumbrado Manuel Pizarro. Só me surpreende a forma como António Costa se deixou envolver neste filme.

O PS cometeu o erro de decidir apoiar Rui Moreira sem negociar condições, sejam programáticas ou de lugares, o que sempre me pareceu inconcebível e ao arrepio do que é natural em política. O alegado descontentamento gerado pelas declarações da secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, não passou de um mero pretexto, pois a dirigente socialista não disse nada que não devesse. Então o PS, segundo partido mais votado em 2013, não teria de ter uma representação forte nas listas? E quando disse que uma vitória de Rui Moreira também seria uma vitória do PS, pelo facto de apoiar e integrar a candidatura, não disse nada de diferente do que Paulo Portas exprimiu em 2013.  Misturar a Foz com Campanhã, com tudo o que isso representa, exigia maleabilidade, flexibilidade e inteligência. Ana Catarina Mendes veio afirmar em público, porventura, aquilo que Manuel Pizarro queria dizer e não podia.

O PS e Manuel Pizarro saem diminuídos deste processo, naturalmente, mas depois de confirmada hoje a inevitável renúncia aos pelouros na vereação, os socialistas ganham espaço para fazer as críticas que até aqui tiveram de silenciar (caso Selminho, parcerias económico-institucionais que valem bons negócios, proliferação na Câmara e nas empresas municipais de boys do CDS e do PSD vindos de Gaia e de Gondomar e muitas opções discutíveis face a projectos, clubes e instituições da cidade, por exemplo). O PS fica numa posição débil por ter sido até agora cúmplice com o poder na Câmara Municipal, mas as novas circunstâncias exigem uma mudança clara de atitude política. O caminho não vai ser nada fácil para Manuel Pizarro...