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Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

14
Fev06

O namoro em 1815, no Porto

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Em 1815 podia-se namorar honestamente de uma janela para a outra, na Rua das Flores, sem que uma patrulha insolente parasse debaixo para testemunhar a vida íntima dos que lhe pagam. Podia cochichar delícias a donzela recatada da trapadeira para a rua, sem que o amador extático ao som maviosíssimo daquela voz, receasse o retire-se! Brutal do janizaro. Podia, finalmente, segurar-se o gancho de uma escada de corda no terceiro andar, subir impávidamente, conversar duas horas sobre vários assuntos honestos, e descer, sem o receio de encontrar cortada a retaguarda por um selvagem armado à nossa custa, que nos conduz ao corpo da guarda a digerir a substância da deliciosa entrevista.
Bem-aventurados, pois, os que namoravam em 1815

Camilo Castelo Branco
13
Fev06

Um testemunho oportuno

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“(…) a passagem pela Indonésia ensinou-me algumas coisas. Antes de mais, a não tomar por islâmico tudo o que se apresenta como tal e, sobretudo, a não provocar incidentes por desdém religioso. Fez-me ainda entender como se pode desencadear uma espiral de violência insultando sentimentos religiosos dos muçulmanos (ofender-lhes o Profeta é gratuitamente desrespeitoso - e muito diferente de contestar violações de direitos humanos decorrentes de certas interpretações da Sharia). Sobretudo no contexto actual em que milhões de muçulmanos vivem na pobreza e oprimidos, tendo boas razões para se queixar dos dois pesos e duas medidas das democracias ocidentais que, em boa parte, sustentam no poder os seus opressores. (…)Não era - não é, no meu entender - a liberdade de expressão na Europa que estava em causa (liberdade pela qual muita gente nos países muçulmanos luta, com o meu apoio activo). O que estava em causa era o incitamento à perseguição religiosa e racista visada pelos «cartoons» num contexto de crescente estigmatização contra os muçulmanos, instigada pela extrema-direita na Europa e no mundo.”

Ana Gomes, in: Causa nossa
12
Fev06

Uma posição de DIREITO

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O reitor da Grande Mesquita de Paris, Dalil Boubakeur, processou os jornais franceses que publicaram as polémicas caricaturas do profeta Maomé. Admitiu, se os tribunais franceses não lhe derem razão, recorrer às instâncias europeias. Confessou-se indignado com o facto de «se considerar as religiões como algo desprezível» e na Europa existir uma legislação que, em muitos casos, despreza os direitos das minorias.

Referiu, ainda, que não é apologista de uma lei específica para defender o Islão, mas sim favorável a uma jurisprudência que assegure a impossibilidade de «insultar as religiões». E condenou o comportamento de alguns grupos de radicais muçulmanos que atacaram os interesses ocidentais nos seus países.
12
Fev06

Lembrando Agostinho da Silva (13-02-1906)

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"Creio, primeiro, que o mundo em nada nos melhora, que nascemos estrelas de ímpar brilho, o que quer dizer, por um lado, que nada na vida vale o homem que somos, por outro lado que homem algum pode substituir a outro homem. Penso, portanto, que a natureza é bela na medida em que reflecte a nossa beleza, que o amor que temos pelos outros é o amor que temos pelo que neles de nós se reflecte, como o ódio que lhes sintamos é o desagrado por nossas próprias deficiências, e que afinal Deus é grande na medida em que somos grandes nós mesmos: o tempo que vivemos, se for mesquinho, amesquinha o eterno".

Agostinho da Silva
In: “Educação de Portugal”
12
Fev06

Mais uma acha para a ocidentalofobia dos árabes

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Segundo o DD, “O Ministério da Defesa britânico está a investigar um vídeo em que alegadamente se podem ver soldados do Reino Unido a espancar civis iraquianos. As imagens foram publicadas no tablóide News of The World, segundo o qual, num dado minuto, foram contados 42 golpes de bastão. (…) Quatro adolescentes terão sido levados para uma base do Exército, onde foram espancados. Um pede clemência, enquanto um cabo, que estaria a gravar as cenas, encorajava os restantes militares com comentários e gargalhadas.
10
Fev06

Uma reflexão, a propósito de VALORES

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Sabemos que os valores integram-se em padrões ou modelos culturais da sociedade a que pertencemos e, de certa forma, correspondem a uma medida para avaliar as acções ou formular juízos.

Tradicionalmente, há dois modos de entender esta medida:

a)- uma medida fixa, definitiva e fechada.
Corresponde à posição dogmática e tradicionalista. O que está de harmonia com essa medida é correcto, o que não está de harmonia com essa medida é incorrecto. Aplica-se “mecanicamente” regras e valores previamente definidos, sem ter em conta as situações, outros pontos de vista, o contexto no qual se deve determinar a acção.

b)- uma medida flexível (o que não significa relativista).
Corresponde a posições abertas e progressistas. O valor não orienta a acção independentemente de uma avaliação consciente que o sujeito moral faz das consequências que derivam da escolha desse valor. Tem em conta outros pontos de vista e o contexto da aplicação do valor.

A posição do dogmatismo moral levanta duas questões:

1ª.- A moral implica responsabilidade. E perguntamos: quem é mais responsável, aquele que aplica mecanicamente um valor ou quem tem em conta as consequências da aplicação desse valor no contexto de outros valores?

2ª.- Desde os antigos, a prudência foi sempre a virtude que orientou a moral. Por natureza, a moral é prudente e uma moral cega é a imprudência tomada por moral. Agarremos um exemplo dado, hoje, por Saramago: “Imaginemos que um caricaturista dinamarquês, em vez de fazer um desenho a ridicularizar Maomé, faz um desenho em que sugere que o director do jornal é um imbecil.”Usou o direito de expressão, mas no outro dia teria sido despedido.

A posição da flexibilidade dos valores salienta o seguinte:

Só o homem valora e, por isso, não se pode separar os valores de uma estrutura de convicções, organizada em costumes ou numa religião ou, de uma forma mais geral, numa cultura. De facto, os valores não têm uma estrutura própria, independente das situações que os geraram ou a que se aplicam. O homem, ao longo da sua história e conforme as culturas, foi modificando a sua maneira de ver o mundo e nele actuar; e, por isso, de valorar. Os valores mudam, porque é o homem que os cria.

Mas será que não há valores que transcendem o homem?!...

Na verdade, para além das diferentes culturas, o homem tem uma dignidade, donde deriva um mínimo conjunto de valores aceites universalmente. São aquisições culturais opu civilizacionais que transcendem o homem individual e constituem princípios universais que fundamentam o respeito de um homem por outro homem. O valor fundamental é a dignidade humana: é sempre o homem o fim último de todos os valores, como diria Kant.

Há, então, uma hierarquia dos valores.

Há valores que em determinado contexto são preferíveis a outros valores. Por isso, há situações, nomeadamente as situações dilemáticas, que só podem ser resolvidas com competência ética.

A competência ética traduz-se no saber responder á seguinte questão: «que devo fazer para que seja um homem justo?». Por exemplo: será mais justo servir a pátria como voluntário das forças armadas ou ficar em casa a olhar pela sua mãe?!...

Retiro duas conclusões:

Os valores foram criados para servir o homem e, por isso, a doutrina que mais alto coloca os valores – porque os converte em absolutos – nem sempre é capaz de distinguir uma acção justa (acção realizada de acordo com os modelos ou normas dominantes numa determinada cultura) do homem justo (o que age de harmonia com a avaliação que na sua consciência faz das consequências dos valores que adopta para a sua conduta).

Mais importante que defender acções justas é tornar o homem justo, capaz de desenvolver uma competência ética que lhe permita escolher os valores que mais se harmonizam com a dignidade e o respeito por outros homens.
10
Fev06

O Representante

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Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras, acusado pelo Ministério Público dos crimes de branqueamento de capitais, abuso de poder e fraude fiscal qualificada, foi indicado pela Associação Nacional de Municípios Portugueses para o Conselho de Acompanhamento dos Julgados de Paz, noticia o DN.

Por certo, a escolha da ANMP teve presente a necessidade de escolher uma personalidade que representasse bem os autarcas portugueses
08
Fev06

Carta ao "Público"

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Umbiguismo...

Umbiguismo - é o mínimo que se poderá dizer do editorial de hoje de Nuno Pacheco no "Público" e do ataque que faz às declarações do MNE português a propósito das reacções às caricaturas dinamarquesas. Freitas do Amaral esteve bem ao demarcar o Governo português e Portugal do conteúdo insultuoso e do propósito estigmatizante de todos os muçulmanos visado nas caricaturas. Fez o que o Governo de direita dinamarquês deveria ter feito inicialmente e não fez. Por incompetência, arrogância e por calculados interesses políticos internos - dependente, como é, do apoio da extrema-direita racista e xenófoba detrás do jornal que publicou as caricaturas. Incompetência e arrogância que levou o PM Andreas Rasmussen ao extremo de durante meses recusar receber os embaixadores de países muçulmanos - e logo ali podia ter acabado com o problema, distanciando-se dos propósitos ofensivos dos "cartoons" e também rejeitando, como é óbvio, qualquer ingerência ou sanção contra o jornal (o que eventualmente apenas caberia aos tribunais). Freitas do Amaral fez o que a Europa deveria ter feito mais cedo. Porque a primeira vez que a Europa (Solana e a Presidência) se referiu à questão foi no fim-de-semana passado e apenas para condenar a violência contra as embaixadas da Dinamarca (obviamente condenável). Mas nem uma referência ao conteúdo gravemente ofensivo das caricaturas. E à demarcação da Europa da tolerância, do respeito pelos direitos e liberdades fundamentais face à insensibilidade política e propósitos insultuosos e estigmatizantes das caricaturas.O que está em causa não é a liberdade de expressão. Esta não é, nem nunca foi a questão central - ninguém foi impedido de publicar o que quer que fosse. Mas a liberdade de imprensa deve ser exercida com responsabilidade e bom senso. E quem não se revê em publicações estigmatizantes e insultuosas deve demarcar-se. O que está em causa é o aproveitamento da liberdade de expressão por uma direita, xenófoba, defensora da Europa 'clube cristão', apostada em fomentar o ódio religioso. Uma Europa desmemoriada (ou, ominosamente, talvez não...) das caricaturas nazis que antecederam a perseguição dos judeus. Lembro a Nuno Pacheco as declarações do rabino-chefe da França que disse "partilhar a raiva dos muçulmanos em relação a esta publicação" e "compreender a hostilidade [em relação às caricaturas] no mundo árabe". O que estas caricaturas (e uma delas em particular) insinuam é que a maior parte dos muçulmanos são árabes e a maior parte dos árabes são potenciais bombistas-suicidas. Citando um artigo escrito por Bradley Burston no "Haaretz" (um dos mais respeitados diários israelitas) no passado dia 6 ('The new anti-semitism, cartoon division'),: "esta mensagem é obscena. É racista. Desrespeita as convicções fundamentais de um em cada seis seres humanos no planeta. Nesse sentido, o que estas caricaturas fazem é profanar o direito à liberdade de expressão, transformando-o no direito a promover o ódio."O que também está em causa é o aproveitamento deste incidente e dos sentimentos ofendidos de milhões de muçulmanos por parte de extremistas islâmicos, que querem a derrota da democracia, das liberdades e princípios e valores de direitos humanos. Quem não entende isto, não percebe que vivermos na era da globalização impõe especiais obrigações de tolerância e respeito pela sensibilidades dos outros. Penso-o eu, que sou ateia e que sempre defendi a universalidade dos direitos humanos e combati o relativismo cultural invocado para a contestar. Quando Nuno Pacheco considera as declarações do MNE "afectadas por uma cegueira que toca as raias do absurdo" e que "há quem dê mais importância a uns desenhos do que à vida humana", o jornalista está a ser demagógico, simplista, e acima de tudo, esquece-se das responsabilidades que advêm de se ser Ministro dos Negócios Estrangeiros de um país europeu. Na mesma linha, os PMs turco e espanhol, em carta publicada em conjunto no "International Herald Tribune" de 5 de Fevereiro, qualificaram as caricaturas de "profundamente ofensivas" e salientaram que "não existem direitos sem responsabilidades e respeito por sensibilidades diversas."Nuno Pacheco pergunta se "os povos muçulmanos pediram a Portugal qualquer coisa" e responde à pergunta, retórica, com um rotundo "não". Independentemente da reacção fora da Europa, independentemente e para além de embaixadas queimadas e muito antes sequer de reflectir sobre a reacção no mundo muçulmano às caricaturas, a Europa pode e deve condenar este tipo de manifestações de xenofobia, baseando-se pura e simplesmente na tolerância, no respeito pela diversidade e na experiência dolorosa de horrores passados. São esses os fundamentos da "raison d'être" da União Europeia.


(Carta enviada à direcção do "Público", em reacção ao editorial de hoje)
[Publicado por AG] 8.2.06

Obs: Transcrito, com a devida vénia, do "causa-nossa".