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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

15
Out15

Um jogo de equação difícil

José Carlos Pereira

Desde que aqui escrevi sobre o rescaldo das eleições legislativas, já lá vão dez dias, o país tem assistido a um período de grande agitação política, exacerbada pelo eco excitado de alguns políticos, como o vice-presidente do PSD Carlos Carreiras, jornais, tv’s, blogues e redes sociais.
O resultado saído das eleições de 4 de Outubro, com vitória para a coligação PSD/CDS, mas sem maioria absoluta, trouxe aquilo que muitos anteciparam durante a campanha eleitoral: se a coligação PàF vencesse sem maioria teria grande dificuldade em constituir uma plataforma para viabilizar um novo governo. As fortes clivagens pessoais e políticas que perduraram durante toda a legislatura anterior e o fosso entre as propostas apresentadas a eleições levaram, de resto, Passos Coelho a afastar, logo durante a pré-campanha, qualquer possibilidade de entendimento com o PS. E António Costa, valha a verdade, disse algo parecido. Querer que as duas forças – coligação e PS – se colocassem agora facilmente de acordo quanto às bases de suporte de um novo governo era (quase) pedir o impossível. Ou então desejar que uma das partes passasse a defender políticas opostas das que submeteu aos eleitores. Poderia ser possível caminhar para uma aproximação mais fácil entre ambas as partes com novos líderes, com nova química, mas não é esse o quadro que temos pela frente.
Apenas por uma vez o centro-direita ganhou eleições sem alcançar a maioria absoluta. Foi em 1985 e Cavaco Silva só constituiu um executivo minoritário, por cerca de dois anos, porque teve durante esse período o beneplácito do novel PRD (lançado por Ramalho Eanes a partir da presidência da República). Em todas as outras eleições que venceram, com coligação eleitoral ou acordo pós-eleitoral, PSD e CDS governaram em maioria. O que nem por isso foi garantia de maiorias estáveis de quatro anos...
Passos Coelho não compreendeu que, desta vez, cabia-lhe transmitir humildade e dar provas sinceras de que estava a disposto a ceder em matérias importantes para obter um entendimento com o PS. Parece que isso não vai com a sua forma de ser, dizem os seus biógrafos. O líder do PSD ficou preso no seu reduto, incapaz de construir consensos para além do PS e arrastou consigo Cavaco Silva. O presidente da República passou quase duas semanas sem saber muito bem o que fazer, à espera da demorada publicação dos resultados, embora se precipitasse logo no início quando apenas chamou Passos Coelho a Belém, já depois de saber que este, sozinho, nunca conseguiria construir uma maioria de governo.
Entretanto, António Costa surpreendeu tudo e todos, aproveitou a abertura evidenciada por PCP e BE e tratou, como lhe competia, de começar a trabalhar num cenário alternativo. Talvez por acreditar no seu íntimo que nunca seria possível um acordo com PSD/CDS, levou avante a iniciativa de derrubar barreiras à esquerda, procurando verificar as reais possibilidades de poder viabilizar um governo liderado pelo PS. Não será uma decisão fácil aquela que o PS vai ser chamado a tomar, mas António Costa tem prestado um grande serviço ao seu partido. Na realidade, se tivesse decidido demitir-se das funções de líder do PS, sem mais, na noite de 4 de Outubro, o partido não estava agora a ocupar o centro das decisões com vista à formação do futuro governo.
O que vai decidir o PS, possivelmente só após um referendo interno, como sucedeu em 1983 antes da coligação com o PSD, é cedo para saber. A sua posição de charneira, contudo, estará sempre no centro das análises e das críticas. Se estabelecer um acordo com a coligação, corre o risco de futuramente ver aumentar a sangria de eleitores para os partidos à sua esquerda. Se construir um acordo de governo com PCP e BE, é verdade que pode ver fugir uma franja importante do seu eleitorado receosa dessa aproximação à esquerda.
Sou insuspeito de amores com PCP e BE e não esqueço que ambos os partidos estiveram na primeira linha a derrubar o último governo socialista. Quem me conhece sabe que, na minha juventude, fui militante e dirigente da JSD e do PSD. Entreguei o cartão de militante aos 21 anos, depois de ter sido um defensor do governo do bloco central (PS/PSD) em 1983/85 e de ter apoiado a candidatura presidencial de Mário Soares, o que me valeu a frustrada instrução de um processo disciplinar. Ontem como hoje assumo-me como um social-democrata, da matriz originária em Bernstein, que se sente tão afastado da esquerda unitária e revolucionária como da direita retrógrada, ultraliberal e radical.
E é precisamente a radicalização da política seguida nos últimos quatro anos pela coligação PSD/CDS que torna muito difícil pensar em algum acordo com o PS. Porque, sejamos claros, se o PS, com a sua abstenção, viabilizar um executivo de centro-direita, ficará indelevelmente vinculado a essa solução governativa. O preço a pagar será muito alto. Desde logo nas convicções. Mesmo conhecendo isso, António Costa já afirmou que não será o PS a lançar o país no pântano, não deixando de viabilizar uma solução de governo caso não disponha de uma alternativa viável.
Se acredito nas virtualidades de um governo PS apoiado por PCP e BE? Não, não acredito. Mas por que razão não se há-de experimentar essa solução se PCP e BE, que representam cerca de um milhão de portugueses, se comprometerem, por escrito e perante o país, com princípios básicos relacionados com a observância de compromissos internacionais de Portugal (UE, moeda única, tratado orçamental, NATO, por exemplo) e das metas prioritárias da política e da economia nacional? Será isso possível? Em breve saberemos. A Europa aguarda com aparente normalidade.
Ninguém sabe como Cavaco Silva vai reagir ao que lhe transmitirem os partidos. Pode seguir o percurso habitual e indigitar Passos Coelho, como líder do partido mais votado, mesmo sabendo que este não é capaz de fazer aprovar o seu governo no parlamento. Também pode avançar já para a “segunda casa”. Ou deixar tudo em banho-maria para o seu sucessor, o que seria lamentável e traria graves prejuízos ao país, como lembra Vital Moreira. As próximas semanas prometem, mas todos já sabemos que, qualquer que venha a ser a solução a vingar, voltaremos às urnas bem antes de 2019.