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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

20
Jun17

Diário político 215

d’Oliveira

De tudo um pouco

Comecemos pelas eleições francesas bis. A segunda volta tira teimas entre os mais votados. Macron e aquela incipiente frente heterogénea que ameaça tornar-se partido voltaram a ganhar. Era esperado. Ganharam, porém, ligeiramente menos do que se previa após a primeira volta. Os Republicanos (LR) aguentaram o embate mesmo se registam um dos piores resultados de sempre: 113 deputados. A FN conseguiu meter oito deputados, o PCF mantém a sua fraca representação (10), Mélenchon consegue 17. O PS elege 29 e com aliados consegue 44. Uma hecatombe!

Os vencedores são, no entanto, vários. A FN entra no Parlamento, o Modem, outra bizarria oscilante dirigida por Bayrou aliado de Macron averba 42 mandatos, mesmo se pela história pregressa valha muito menos. A República em marcha junta 308, o que já lhe dá a maioria de que precisa.

Não vale a pena ir buscar os resultados da 1ª volta das presidenciais para artificialmente arguir de uma derrota de Mélenchon ou de Le Pen. Os resultados nacionais só valem para eleições nacionais e num sistema proporcional. Com quase 600 círculos uninominais e duas voltas a coisa sai bastante diferente. Sendo certo que os deputados franceses representam, prima facie, os seus eleitores não me parece que alguém se possa queixar. Os eleitores querem quem por eles fale, quem os defenda quem os represente. Os interesses dum eleitor de Bordéus não são de certeza os mesmos dum eleitor duma perdida circunscrição da Saboia. De resto ainda há uma Segunda Câmara, cujo corpo eleitoral, os grandes eleitores, escolhe os senadores dentro de um rigoroso sistema proporcional (Faço parte dos que em Portugal defendem não o só bicameralismo mas também o sistema uninominal para a 1ª câmara deixando para a 2ª a eleição proporcional, corrigindo-se assim as anomalias da 1ª).

A gritaria que se desatou contra a vitória folgada de Macron, a ideia de que isso prejudicava a democracia, apenas significava por parte dos grandes tenores derrotados (por todos Cambadelis, 1º Secretário do PS) um profundo desprezo pela vontade dos eleitores.

Por outro lado, agora, como na 1ª volta, toda a gente aponta para a abstenção (gigantesca e em aumento) como algo que deslegitima os eleitos. A abstenção não tira legitimidade a ninguém eleito e muito menos torna a massa dos que não votam numa força seja ela qual for. Pode sempre dizer-se que quem não quis votar está de acordo com os resultados apurados. Se alguém não gosta do que vê tem sempre a possibilidade de um voto de protesto (e em França desde a FN à França Insubmissa, para não falar em pequenos grupos que não obtiveram mandatos há candidatos para quase tudo).

 

Conviria, agora, referir, algumas anomalias condenáveis. Comecemos pela a agressão à derrotada deputada Nathalie Kosciusko-Morizer /LR) que é uma das principais vozes da Direita e foi até candidata à Câmara de Paris. O agressor, um certo Vincent Debraize, é maire de uma pequenina povoação normanda e patrocinou a candidatura de um certo Henry Guaino de quem se falará de seguida.

Este anormal entendeu ser sua missão agredir NKM que tinha batido Guaino na circunscrição parisiense em que ambos se apresentavam. NKM era a candidata oficial do LR e Guaino um vago e abstruso dissidente que obteve um resultado ridículo para quem há um par de anos se candidatara à presidência da UMP (antecessora de LR).

NKM distribuía panfletos na place Maubert e, à vista de todos, foi agredida, caiu ao chão desmaiada e teve de ser socorrida no hospital. O corajoso agressor fugiu do local mas a vídeo vigilância e vários telemóveis identificaram-no sem dificuldade. Ao saber-se descoberto, recorreu à esperteza de se apresentar no comissariado. Cobarde, palerma e agressor.

O senhor Le Guaino é um velho conhecido na Direita francesa e foi deputado uma única vez. Depois armou tais reboliços e confusões variados (incluindo ataques a um magistrado de que decorreu uma condenação posteriormente anulada com o fundamento de que ele não referia claramente o juiz difamado) que terminaram num ataque a Fillon. Não contente com esta agitada carreira, tentou candidatar-se à Presidência da República mas não obteve sequer 10% dos (500) apoios necessários para o efeito. Recusou dar indicações de voto e não obteve o patrocínio do seu partido quer na circunscrição que antes representara quer em Paris onde entendeu desafiar NKM. Como já vinha sendo habitual obteve escassos votos.

Tal resultado levou-o a qualificar os eleitores desse círculo parisiense como gente que (lhe) provocava vómitos, o que mostra a elegância da criatura e a imbecilidade manifesta de pedir votos a quem finalmente ele mostra tanto desprezo. Em França quando a um indivíduo lhe dá para a canalhice supera qualquer concorrente no resto do mundo. Parece que depois se gabou de uma proposta de Marine Le Pen mas tudo indica que nem isso ocorreu. Terá também afirmado que não conhecia o agressor de NKM embora este o tivesse apoiado!...

 

Este o quadro geral. Que irá acontecer? Tendo em conta os outros candidatos à Presidência, o descalabro dos partidos tradicionais, a recorrente tentação xenófoba e populista que se arrisca a tornar-se transversal nos agrupamentos políticos franceses, seja qual for a cor com que se apresentam, atrevo-me a pensar que o choque Macron e essa estranha coisa que se chama “A República em marcha”, poderão ser úteis ao país, à Europa, e - o que é diferente – aos cidadãos europeus entre os quais estamos nós, portugueses.

 

 

 

16
Jun17

diario político 214

d’Oliveira

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Ir por lã e voltar tosquiado

A Sr.a Teresa May, depois de suceder ao Sr. Cameron na chefia dos conservadores ingleses, entendeu (contra, aliás, anteriores declarações) aumentar significativamente a maioria absoluta que detinha nos Comuns. A razão, afirmava esta deprimente caricatura de Margaret Thatcher, seria poder abordar as negociações do Brexit com reforçada força.

A Sr.ª May era uma obscura política tory sem historial relevante mas a espantosa falta de argúcia de Cameron (que promoveu o referendo sobre o Brexit para continuar na Europa!...) catapultou-a para a primeira linha. Pelos vistos, Boris Johnson e outros do mesmo teor, reservavam-se para mais tarde pelo que abriram alas à passagem desta dama que ninguém de bom senso caracterizaria como “de ferro”.

A Srª May, além de outras bizarrias, acredita(va) profundamente nos ziguezagues da opinião pública e, com alguma razão, descria das escassas qualidades do chefe trabalhista Corbyn. De facto, esta criatura, também ela caricatura mas de Aneurin Beevan, é o representante no Reino Unido e na Europa, de um malogrado sebastianismo socialista e, sobretudo, de uma pertinaz miopia política e social que visa fazer regredir o programa trabalhista aos tempos de antes da guerra se é que não vai ainda mais longe.

Criticado dentro do Labour e, mais ainda, fora dele, enfraquecido pelo tombo eleitoral na Escócia que parecia passar-se de armas e bagagens para o independentismo, Corbyn aparentava ser uma vítima perfeita para um maior engrandecimento dos conservadores.

Ainda hoje está por perceber se May acreditava numa segunda volta do “Brexit” engrandecendo os tories, ou se pretendia tão só afirmar internamente a sua autoridade. De todo o modo, atirou-se de cabeça para umas eleições falhas de objectivo, ou com objectivo limitado à negociata do “Brexit”. Como se isto fosse pouco, May esquecia anteriores posturas de não recorrer a eleições gerais. Por outro lado, cereja em cima do bolo, afrontava o seu eleitorado mais fiel (a população mais idosa) com uma delirante taxa sobre pensões.

A Corbyn bastou esperar, fazer poucas ondas e a reafirmar contidamente os temas menos controversos do seu programa. O homem pode ser reaccionário (e é-o...) mas de parvo não tem nada. Deixou a adversária esticar a corda esperando, com razão, vê-la enforcar-se.

O terceiro comparsa nesta campanha é a dirigente da Escócia. Opositora de May e tendo esmagado os trabalhistas que, durante décadas, tiveram na região um dos seus maiores e mais aguerridos feudos, a Sr.ª Nicola Sturgeon, pôs em lume brando a causa independentista por razões várias, a mais importante das quais é o facto da Europa tratar com pinças a questão (a Catalunha, o País Basco, a Córsega, para não ir mais longe, por exemplo à Flandres já são dores de cabeça suficientes e violentas para Bruxelas). Todavia, Sturgeon estava convencida que a Escócia, depois do tsunami nacionalista, era “trigo limpo, farinha Amparo”, como em tempos se dizia. De facto, nesta guerra de trincheiras, os escoceses estavam numa posição delicada para não dizer incómoda. Não queriam sair da Europa ou, saindo, gostariam de um acordo tão sensato quanto possível. May prometia tudo, até isso, o que esvaziava a posição de Sturgeon.

Foi neste vago labirinto que a campanha se processou. Os eleitores, porém, não descortinavam a razão das eleições ou, quando pensavam ter percebido, enfureciam-se. Os citadinos e os jovens anti-brexistas, abominavam os conservadores e May a sua falsa profeta. Os idosos sentiam-se ameaçados, os trabalhistas rosnavam vingança, escoceses e irlandeses sentiam-se órfãos.

Foi assim que numa noite de prodígios e assombros, May se viu apeada da sua maioria, Corbyn, graças a ela, seu involuntário cabo eleitoral, saiu confortado com o resultado inesperado da desconfiança que a inábil May provocou no seu eleitorado. E Sturgeon? Pois Sturgeon também se viu a saltar da frigideira para o lume. Perdeu quase metade dos seus deputados. Pior: uma parte deles foi directamente para os conservadores desmentindo, por uma segunda vez, que aquilo era território trabalhista momentaneamente obnubilado pela visão de uma Escócia fugida à Rainha.

Na Irlanda, dez deputados todos vindos da minoria protestante, ultra-reaccionária, poderão ser os garantes da sobrevivência de May. A que preço?

May, agora, pede desculpa ao partido. Este finge aceitar enquanto se vai preparando para contar as espingardas. A Europa espera pacientemente pelas negociações mesmo que estas não sejam seguramente fáceis que o velho leão mesmo ferido ainda impõe algum respeito. De todo o modo, o interlocutor britânico parte com menos vantagens.

Se a isso se acrescentar o resultado das eleições francesas e a previsível vitória de Merkel (confortada por três triunfos regionais consecutivos e convincentes) a vida da Srª May não vai ser fácil.

Ainda bem!      

 

13
Mai17

Au bonheur des dames 424

d’Oliveira

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Oh que semana!...

O Papa! Os pastorinhos! O quarto pastorinho que exerce de Presidente da República e de modelo para selfies! Isto vai ser um regabofe de piedade ultramontana e peregrina. Mesmo estimando bastante Francisco I, um Papa vindo do outro lado do mar e, provavelmente, do outro lado da Igreja, educado na disciplina intelectual da Companhia de Jesus, herdeiro da tradição de uma Ordem que, mais do que qualquer outra, foi alvo contínuo de admiração intensa e de perseguição sem quartel, vou ouvir até à exaustão (até ficar surdo?...) o relato das suas 23 horas em Portugal, capital Cova da Iria. Os jornais e as televisões andam desde há dias numa sarabanda noticiosa onde tudo, mas tudo, é contado, recontado, requentado. Ele são as caminhadas dos peregrinos que juram a pés juntos que “o caminho” é uma experiência imorredoira (isto lembra-me as histórias do “caminho de Santiago”, bem descrita naquele admirável “codex calistinus” de que não se arranja facsimil decente e a preço honrado), as obras no santuário (raras vezes se conseguiu arquitectura tão trivial, tão desconsolada. Agora até há um terço gigante, cópia, julgo, de um outro existente na América do Sul...

A pátria está comovida e em estado de sítio, fronteiras semi-fechadas, milhares de polícias e similares de prevenção, um feriado na sexta (hoje mesmo se o Papa só chega lá para a tardinha) para que a lusitana gente possa consagrar-se desde matinas até vésperas à oração, ao cilício e ao jejum.

Vamos ter Fátima à fartazana. Isto só acabará com o “tetra” que sempre fugiu ao Benfica. Desta feita, os pastorinhos, finalmente santos, darão essa alegria à torcida encarnada.

 

Para trás, ficam os desastres do Porto, ou seja, a defenestração do PS. Nunca compreendi que um partido com a dimensão deste não concorresse à Câmara. A menos que, nas hostes do dr. Pizarro reinasse a convicção (nada absurda, por acaso) de que Rui Moreira tinha a eleição no papo. Mesmo assim, havia precedentes: o PS arrolou contra o imbatível Rui Rio Francisco de Assis e Elisa Ferreira que sabiam o desagradável destino que os aguardava (derrotas severas, claro).

A futura disputa eleitoral vai ser curiosa: Moreira elogia Pizarro (beijo da morte?), este responde no mesmo tom. Que plataforma eleitoral irá o PS apresentar que o distinga claramente da “situação” camarária em que durante quatro anos se empenhou? A Moreira basta prometer mais do mesmo, mas para o PS parece necessária uma violenta epifania coisa que provavelmente estará na cabeça do dr. Costa que, também, peregrinará com a conhecida unção a Fátima. (a drª Ana Catarina Mendes talvez vá mas terá de fazer o percurso de joelhos para ver se aprende que à política também se aplica a expressão “muita cautela e caldos de galinha”. Que lhe aproveite! ).

Dos restantes candidatos pouco há a dizer. O PSD apresenta um desconhecido enquanto BE e PC recorrem a duas figuras já conhecidas e, aliás, um tanto ou quanto usadas. Vê-se que a imaginação e a renovação começam a rarear nesta banda. Nada de novo a leste.

 

O terceiro mistério gozoso deste rosário (Fátima oblige) é a reconciliação Porto Sporting. Não há nada como perder campeonatos para juntar os derrotados numa aliança sem futuro. Haverá alguma coisa comum a estas duas instituições (tirante o facto de jogarem à bola)? O Sporting é mais um clube de Lisboa (onde também coexistem o Benfica, o Atlético, o Oriental e até o Belenenses. O Porto é o arauto da cidade mesmo se, provavelmente terá nela menos adeptos do que nas imediatas cercanias. O Boavista nunca lhe disputou o lugar mesmo no tempo fantasioso dos Loureiros, pai & filho. Porventura, nos anos 40, o Porto teria no Sporting dos cinco violinos o verdadeiro adversário lisboeta e “centralista”. Mas isso foi há gerações e, de facto, o seu único adversário, aquele que conta, aquele que coloca as claques fanatizadas em pé de guerra, é o Benfica. O Sporting, para o Porto e para a opinião pública é um clube com vocaçãoo de terceiro lugar, ou seja, não existe. Fazerem as pazes ou zangarem-se, restabelecerem relações institucionais é, para o universo dos adeptos e da paisanagem que, como eu, nada tem a ver com eastes cavalheiros, zero, menos do que zero. Mesmo para este sofrido e infiel adepto da Naval 1º de Maio, isto é uma não-notícia cuja duvidosa utilidade é só esta: entrar na crónica de hoje e fazer-nos rir.

Acabemos a litania com Costa. De quando em quando, o homem tem boas saídas. João Miguel Tavares, cronista do Público tinha criticado a “tolerância de ponto” que lhe punha os filhos (quatro!, que coragem!) em casa quando ele e a mulher tinham imperiosamente afazeres profissionais. Na crónica, propunha Tavares, que Costa lhe tomasse conta dos miúdos já que lhe (JMT) parecia difícil obter um emprego de curta duração na função pública. E não é que Costa aceitou cuidar das crianças! Tavares, ele mesmo, informou o jornal e até terá publicado uma fotografia dos meninos em S Bento. De vez em quando assistimos a estas trocas civilizadas e pensamos que isto é outro país. Bem jogado, dr. Costa (e bem jogado também, JMT.)

Era para acabar mas afinal ainda há mais: em França, os primeiros candidatos de Macron são classificados assim, dois terços à esquerda e os dois sextos restantes igualmente divididos por direita e centro. convém notar que são apenas os primeiros e que ainda falta muita gente. Um segundo ponto: o movimento “en marche” não apresentará candidato contra Manuel Valls, situação que se repete em relação a alguns candidatos do grupo de Jupée. Mas não aceitaram Valls, o imprudente, nas suas listas, o que também diz bastante.

O terceiro ponto desta investida além Pirinéus, é a verificação de uma vergonhosa campanha contra Brigitte Macron, mulher do Presidente. Parece que o facto de ser 24 anos mais velha que o marido, de ser inteligente e, ao que se diz, apaixonada pelo marido – e ele por ela- assenta mal nos pergaminhos de uma República em que os presidentes traem as respectivas, andam escondidos em aventuras amorosas ou como o imortal Félix Faure, morto no “campo da honra” ou seja nos braços da amante em pleno Eliseu.

Finalmente, prosseguindo na sua cruzada contra a reacção, o capitalismo, o imperialismo, o cosmopolitismo, etc., etc.., o senhor Mélenchon entendeu viajar até Marselha para se candidatar a deputado. Em Marselha, no círculo em que o admirador de Maduro concorre, há um deputado eleito do Partido Socialista que agora vê a sua candidatura mais ameaçada. Já agora, recordemos que, na passada eleição legislativa, Mélenchon foi fragorosamente derrotado no Pas de Calais por Marine Le Pen e pelo candidato do PS. Agora, à cautela, tenta Marselha no extremo oposto da França... Assim vai o mundo...

Finis, laus Deo.

* Na gravura: António Costa recebe os filhos de JM Tavares em S Bento. Chapeau!

 

13
Abr17

Diario político 213

d’Oliveira

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Na esplanada entre sol e sombra

 

Hoje, os frequentadores da esplanada estavam assanhados. Falavam pelos cotovelos, sempre civilizadamente mas divergindo resolutamente.

A primeira conversa centrou-se no artigo de opinião de João Miguel Tavares (Público, ultima página) onde este questiona os patrocínios de uma biografia (2º volume) de Jorge Sampaio. Tavares reconhece que estão bem explícitas as menções aos patrocinadores (BPI, Fundação Oriente, Fundação Luso-Americana, grupo Visabeira, IPRI (Un Nova) Telecom e Mota-Engil!!!)

Tavares não questiona a procura e obtenção dos patrocínios, aliás bem explícitos na contracapa e na introdução da obra. Até elogia o esforço e a tenacidade de quem os procurou e conseguiu. Elogia também o facto de haver quanto a esta obra “mecenato cultural”. Todavia, depois dos elogios, surdem duas colunas que questionam quatro dos mecenas por estes não revelarem a um jornal o valor dos subsídios. E, cereja no bolo, Tavares também “acha estranho” que a FLAD. O IPRI e a FO se tenham “juntado” para criar uma bolsa destinada a apoiar a feitura de biografias de que, para já, apenas consta esta obra.

Tavares, comentarista que, aliás aprecio, acha esquisito que quer as fundações quer as empresas se fechem em copas sobre os montantes concedidos (Tavares chama a isto falta de transparência como se para alem dos relatórios e contas onde estes valores seguramente figurarão as empresas e as restantes instituições devessem andar a informar o excelentíssimo público sobre a largueza das suas benesses. Tavares,tão (e certamente bem) defensor do privado, do liberalismo, acha que toda a gente tem de saber e que todo o empresário deve prestar contas a estranhos. É que aqui não se trata de dinheiro dos cidadãos, mesmo se os patrocínios com mecenato possam, em diminuta proporção aliviar os impostos.

Tavares vem com o argumento de que Sampaio foi Presidente da República e que só isso, que ocorreu há uns bons dez anos é suficiente para indagar de como a sua biografia está a ser escrita. Arre! E que no meio das personalidades envolvidas pelo menos no que toca à bolsa há um antigo assessor de Sampaio (antigo de há mais de uma década...) Tavares, que escreve bem, muito bem, até, deixa no ar a ideia de que aqui há gato escondido. Que esta bolsa seria apenas um artifício para favorecer um idoso ex-presidente da República que agora exerce, alem fronteiras um trabalho internacional. E que isso, está nas entrelinhas, o compromete ou pode comprometer.

Eu, com a devida vénia, amigo de Sampaio desde os anos 60 (convém esclarecer para que não pairem dúvidas) tenho sobre esta obra de Castanheira um bem diferente parecer. É um tijolo! Um tijolaço. Uma tremenda chatice. Estas duas mil páginas, para o leitor comum poderiam ser trezentas ou quatrocentas desde que bem centradas no que realmente foi importante. E Sampaio foi importante, antes (sobretudo) e durante a Presidência. Com inteligência e rigor e um estilo menos pesado teríamos uma bela obra. Em Portugal, a biografia é terreno baldio e mal cuidado. Nesse capítulo que diferença com a Inglaterra, a França ou a Alemanha! Claro que não peço a Castanheira a verve, o espírito e a intelig~encia narrativa dum Stefan Zweig que tantas biografias deixou. A Zweig o que é de Zweig e a Castanheira o que entenderem.

Somos um país que desconfia de biografias ou de “memórias” (neste capitulo estou a lembrar-me já que se anda em comemorações de Raul Brandão das suas “Memórias” -que, por exemplo, com as José Relvas e o Diário” de João Chagas são fulcrais para se perceber os anos 10 a 30-). A última biografia que li com proveito foi a de Salazar por Filipe Ribeiro de Meneses que evita a maçadoria de ler os tijolos hagiográficos de Franco Nogueira. Ora aí está como com um terço do volume se faz bem melhor obra do que com as cerca de 2500 páginas de FN por muito meticulosas e esclarecedoras que estas sejam.

*** No mesmo local e pouco depois

Desta feita a conversa girou à volta das eleições para A Câmara do Porto. Ninguém conseguia perceber a razão que leva o PS a não se candidatar. Ou melhor, todos estavam de acordo que o primeiro motivo era evitar uma derrota igual ou maior do que a anterior.

Desde o malogrado regresso do dr Fernando Gomes que foi justiceira e friamente chacinado por Rui Rio, que o PS não sabe o que fazer no Porto. Não deixa de ser verdade que na cidade a Federação Socialista é uma espécie de clube de lutas de galos com a agravante de tal actividade ser ilegal, ilegítima e desacreditada. Com a gens socialista passa-se o mesmo. A rua não os conhece, as elites não os respeitam, os poucos socialistas que aparecem escafedem-se pelas esquinas. Não há uma ideia do PS para a cidade a menos que a governação de Rui Moreira a personifique. Os últimos candidatos socialistas à CML ou não ocuparam os seus lugares na vereação ou fizeram-no com tal discrição que deles não há memória. Nem boa nem má. Não existiram, ponto, parágrafo. Todavia, isso, essa arrastada e triste existência não pode servir de pretexto para desistir de aparecer. Por muito desgastada (e com razão) que seja a imagem do PS ela ainda consegue superar as dos dois outros parceiros da geringonça que também não atinam com a cidade. É verdade que, nas páginas mais folclóricas de um jornal citadino ainda se cobrem as declarações estertorosas dos vereadores da oposição mas, na generalidade a ideia que perpassa da irrisória actividade deles é que anda tudo na clandestinidade. Parafraseando: “assim se vê a força de não sei quê”.

Estas criaturas não riscam, não arriscam e muito menos beliscam os tradicionais poderes municipais. Ou então emigraram todos para outras paragens mais propícias e deixaram isto entregue a quem quiser fechar a luz e a porta.

Nem assim o PS se acha obrigado a ir à luta. Ou seja, assim nem valia a pena gastar dinheiro com o processo eleitoral. Ou então, pensam que sem oposição Rui Moreira não mobilizará a mesma multidão que o elegeu há quatro anos!...

E a conversa morreu mansamente, à dúbia luz coada pelas nuvens que anunciam uma eventual Páscoa molhada.

 

17
Fev17

o leitor (im)penitente 197

d’Oliveira

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 3

 

Passage d’un livre (cinquenta anos de desencontros)

O título desta crónica brinca com o verdadeiro título de um livro que, nas minhas mãos, tem tido uma(s) vida(s) singular(es). Refiro-me a “Passage de l’homme” de Marius Grout, prémio Goncourt de 1943.

E que vidas são essas que o trazem ao encontro de um par de leitoras mais distraídas que passam por este blog à falta de melhor ocupação?

Eu conto: nos primeiros anos de 60 (Ui! Há quanto tempo!...) o António Manso Pinheiro que viria a ser o grande editor da “Estampa” e eu próprio gastávamos as noites das férias em longos passeios por uma Figueira adormecida. E discutíamos tudo, o mundo, a poesia, nós, as raparigas por quem nos íamos apaixonando e claro, a nossa última e grande descoberta, o surrealismo. Não sei por que razão, entendi levar o António à casa da tia Néné e do tio Marcos (Viana), professor e forte conhecedor de literatura francesa. Nessa tarde, ao saber-nos interessados pelo surrealismo, o tio Marcos arregaçou as mangas e falou duas horas sobre o assunto. Nós espantados, esmagados, encolhidos por aquela torrente de entusiasmo, de saber, de gosto literário apurado e o Tio Marcos a cem à hora, tu cá tu lá com o Breton, o Desnos, o Eluard, o Aragon e sei lá com quem mais, uma multidão.

À saída, aturdidos, o António só me dizia: “porra, pá, porra. O gajo sabe tudo, leu tudo e nós a armar-nos em carapaus de corrida!!!”

E lá seguimos exaltados e entusiasmados jurando ir ler tudo o que o tio Marcos nos contara e propusera. Entre as obras de que falara, ressaltava uma afirmação original: que havia um cavalheiro de seu nome Marius Grout (e o tio soletrava G,R,O,U,T) que escrevera aquilo que ele, MV, considerava o “único grande romance surrealista” e que obtivera o prémio Goncourt. O livro em causa chamava-se “Passage de l’homme” e fora obviamente editado pela Gallimard.

O António e eu naqueles nossos buliçosos e inquietos vinte anos não tínhamos hipóteses de ir em busca do livro provavelmente desaparecido depois de vinte anos de edição.

Todavia, já nos finais de 68 um dia em Paris com o Jorge Delgado (meu então sogro e companheiro de deambulação pelas livrarias da margem esquerda) e eram tantas, tantas, que desaparecidas conto eu ainda agora mais de vinte, dei de caras com o abençoado “Passage...” O livreiro quando lhe apresentei a relíquia para pagamento disse-me que o livro tivera o “goncourt” ao que retorqui que já sabia, coisa que o espantou a ele, por eu ser um portuga e ao meu sogro que, mesmo sabendo da minha paixão, achou estranho tal conhecimento. Lá lhe falei do Tio Marcos que seria, afirmei, o primeiro leitor. Por razões que desconheço, o livro extraviou-se logo que cheguei à pátria madrasta.

Anos depois, talvez em 1973, fui a Paris visitar o eu irmão exilado e fugido à guerra. Numa livraria da rue Galande dei de novo com o livro, notoriamente em segunda ou terceira mão. Trouxe-o e, uma vez no Porto, contei a história daquela segunda descoberta a um amigo que me implorou que o deixasse ler logo ali. Deixar, deixei mas esse meu amigo era a criatura mais desordenada que conheci. Deixou o livro num canto da casa e a empregada ao encontrá-lo em cima de uma cadeira fez o que costumava. Meteu-o no primeiro buraco da estante mais próxima. Este meu grande amigo, morreu em 95 e ainda hoje a mulher vai encontrando livros meus de mistura com os dele e vai-mos trazendo. O azar é que este 2º Grout ainda nem assinado estava. Resultado: missing in action, desaparecido naquele vórtice livreiro do Pedro.

Quando me acostumei à internet, deu-me para, sem grandes esperanças, procurar novamente o livro. Já não seria possível empresta-lo ao tio Marcos, entretanto desaparecido mas havia ainda o António Manso Pinheiro presumível leitor interessado. Para minha surpresa depois de uma busca breve, apareceu um vendedor e o livro voltou à minha mão e foi convenientemente registado no ficheiro da minha biblioteca com o número 13422, o que o atira para os primeiros dias de Dezembro de 2000. Por qualquer razão, o livro foi para o lote dos “a ler” e lá permaneceu imerso tanto tempo  que daí transitou (?) para lugar incerto. Lugar de tal modo incerto que, hoje, quando fui por ele, não o encontrei. Procurei-o na estante dos livros franceses, numa outra de franceses mas em poche, nas estantes do surrealismo mas nada. Eu, prevenido que estou contra o meu anarquismo vitalista, sou extremamente cuidadoso com a livralhada. Se me perguntarem por um livro posso seguramente indicar a sala (são cinco) a parede e mesmo a estante onde o livrinho mora. Ainda por cima estão classificados por géneros e, no caso da ficção e da poesia, a organização ainda contempla a língua usada. Evidentemente, que é sempre possível meter um livro de uma secção noutra totalmente diversa mas isso é coisa que nunca me aconteceu. Portanto tudo aponta para que a “passage” IIIª tenha tido o destino das duas antecessoras. Ele há livros assim, irrequietos, sujeitos a bruxedos ou a milagres, ávidos de mundo e de aventura, descontentes com o seu possuidor, livros a quem dá doida e se emancipam sem saber que saindo de mãos seguras e amigas se arriscam a acabar os seus dias como papel para embrulhar peixe, como bem conta Lawrence Durrell em “as ilhas gregas”, livrinho que se deve ler a par e passo com “reflexões sobre uma vénus marinha” do mesmíssimo Durrell, um nobelisável esquecido (como Graham Greene, de resto).

Esta utilização estranha de u livro lembra uma outra história ocorrida com Sartre. Parece que, algum tempo depois de publicar a “Critica da razão dialética” ou “ o Ser e o Nada” começou a haver uma surpreendente forte procura do livro que até ali se vendia à razão de um dois por mês. Vai-se a ver e afinal o pesado tomo sartriano era comprado aos pares para perfazer um quilo exacto, pois faltavam pesos em todos os mercados e mercearias de França nesses tempos de post guerra e míngua.

Voltando à vaca fria: hoje mesmo fiz nova encomenda de “passage de l’homme” via amazon fr. Primeira edição, claro, mesmo se depois tive notícia que em 1999 se fizera uma nova edição do celebrado livro de Grout. Acho vou colar na primeira folha de guarda um anúncio: “dão-se alvíssaras a quem entregar este livro a mcr seu desastrado proprietário. Assunto sério.” E junto-lhe o telefone e o mail para mais facilidade.

 

Vai esta crónica para Manuel Abrunhosa, meu primo segundo, criaturinha mais curiosa do que um gato e neto mais novo do meu querido tio Marcos Viana. Às vezes ao ouvir este primo digo para mom próprio que ele tem a quem sair seja pela mãe, seja pelo pai, tudo gente - mais o tio Marcos e o Avô Manuel - que valeu a pena conhecer e que me é grato recordar com respeito, saudade e ternura. Saravah!

* na gravura Marius Grout

16
Fev17

Diário Político 211

d’Oliveira

Umade política outra de bom senso (variações)

Os leitores (e as leitoras) lembrar-se-ão de que nem sempre apreciei Francisco Assis. Todavia, igualmente recordarão, que sempre lhe celebrei a coragem (física e intelectual) e o facto de tentar perceber o mundo usando a sua cabeça.

Agora, está na moda atacá-lo por “mijar” fora da púcara da actual frente popularucha. Curiosamente, o que seria surpreendente era que ele, Assis, muito franciscanamente entendesse uivar com os lobos, mesmo se os considerasse irmãos. O que Assis vem dizendo nos jornais é exactamente o que ele disse há meses e há anos quando se dispôs a dirigir o PS.

Eu percebo, olá se percebo, que algumas medíocres e jovens luminárias do PS (a começar pela criatura que queria pôr os alemães a tremer perante o arreganhar de dentes do pobre e sacrificial cordeiro português) queiram fazer curriculum com ataques a um adversário supostamente minoritário. Isto de ser cães pisteiros do circunstancial chefe está no sangue, e na alma, de muitos. Sobretudo quando estes já nem sequer disfarçam a falta de ideologia e de convicções políticas profundas mostrando apenas a sua sede de poder e de poleiro.

Nem sequer me perturba, dali já nada me perturba, a súbita declaração de guerra do senhor Louçã, último abencerragem de Lev Bronstein, o carniceiro de Kronstadt, político irascível que tarde de mais percebeu que Stalin o amarrara de pés e mãos antes de o mandar assassinar ( que excesso!) numa perdida terra mexicana.

Louçã é consequente quando detecta em Assis o seu principal adversário dentro de um PS ideologicamente exangue e perigosamente manobrista. Louçã joga num outro tabuleiro em que a miopia pantanosa do PS permite o “entrismo” de elementos radicais que ponham, enfim, o BE (ele próprio ou um renovado) na órbita do poder. Qualquer leitor da história do(s) trotskismo(s) (e aí é exemplar o exemplo francês) sabe como isto se faz e em que isto descamba.

Todavia, vá lá saber-se por que bulas, Louçã aparece agora travestido de guru político, liberto de cadeias partidárias, uma espécie de senador (como se já não bastassem Marques Mendes, Freitas do Amaral, Ferreira Leite & similares que inundam mesas redondas onde peroram sobre a marcha dos negócios públicos)”independente” e fiável por isso mesmo.

“Est modus in rebus”: Louçã terá saído da direcção fáctica do BE, terá preferido deixar lugar a quem conseguisse ser mais flexível e, por isso mesmo, mais próximo da área do poder, mas nem por isso renegou da sua profunda crença na radicalidade trotskista por muito que esta nada mais seja do que o encanecido fantasma de uma revolução que se perdeu a si própria nos “hiers que jamais ont chanté” (se me permitem o trocadilho). O trotskismo é como a “causa monárquica” um suspiro bafiento do passado (como o “maoísmo”, aliás), uma seita de irredutíveis conservadores para quem o mundo ainda é o que se anunciava nos alvores dos anos 20/30 do século passado.

Dir-se-á que não estão sozinhos num mundo que vê Trump chegar ao poder, animado, ele também, de uma nostalgia de um passado em que a América era grande e isolacionista, branca, protestante e anglo-saxónica.

Não que eu compare o amarelado americano, velho mas desbocado, ao austero Louçã, politicamente correcto por fora e intransigente desde sempre por dentro. Um foi à luta, anunciou a cor e ganhou contra todos os prognósticos. Soube captar o “ar do tempo” e mobilizar os que, por fas ou por nefas, estavam excluídos do sonho americano ou, pelo menos, assim se sentiam. O outro dispara cartuxos de ideologia já rançosa sobre quem tenta perceber os novos tempos. Em ambos todavia, um desprezo absoluto sobre quem discorda deles. E uma radical condenação dos adversários às gemónias, claro.

Parece que quem ataca Assis ataca uma hipótese de líder em formação. Há mesmo os que o acusam de “ambição” como se para ser dirigente seja do que for não fosse necessária uma boa dose de ambição! Outros veem em Assis a sombra maldita do “renegado” Kautsky ou Bernstein (o terrível “revisionista”)pais do SPD alemão e, de certo modo, de toda a social democracia europeia. E, já agora, vencedores da dura luta que os opôs quer a Lenine quer à dupla Luxemburg-Liebknecht. Assis terá bebido muito nestas fontes que, aliás, são as mesmas do partido socialista português. Isto no caso de neste partido ter havido algum esforço ideológico para além da tralha de um “programa comum” grosseiramente (e mal) traduzido do francês. E, de certo modo, é isto, esta bagagem teórica, que incomoda os jovens turcos (e nunca uma imagem foi tão significante, hoje) do actual PS. Há nestes escorregadios políticos um desejo informe de “unidade a todo o custo”, redutora da diversidade que anima a democracia e, sobretudo a social democracia. Aliás, é bom ter “inimigos” (e não adversários...) Os inimigos, verdadeiros ou presumidos,permitem a formação em quadrado, a chamada às armas, a obediência incontestada ao chefe e o expurgo dos mal pensantes. Para um partido à deriva é sempre bom haver um alvo a abater.

12
Jan17

Diário Político 212

d’Oliveira

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É assim que eles fazem a História

(o dr Luís Marques Mendes ocupa na televisão um lugar semelhante ao que ocupou o dr Rebelo de Sousa. Há quem ache LMM um Marcelo b. Não é, de todo. Mendes será um pálido Marcelo h ou i se tanto. E bastou a sua intervenção sobre Soares para se perceber isso mesmo. Primeiro um engano menor ao falar das 11 ou 12 prisões de Soares, Mendes falou em 12 anos de prisão. Depois o exagero: Soares teria sido o político mais importante do século passado.)

Não foi nem teve hipóteses de o ser: Soares nunca teve o poder de Salazar e governou muito menos tempo. Ainda por cima em democracia sob o escrutínio de forças políticas hostis ou adversárias (é esse o peso da liberdade) e de outros poderes (PR, Parlamento) que obviamente limitaram muito alguns dos seus projectos. Soares foi, indiscutivelmente um grande político, um grande homem e um intelectual de craveira. Foi, admito sem reserva, o principal pai da Democracia em Portugal mas, como diz Brecht teve pelo menos um cozinheiro, um babeiro, um secretário alguns amigos e camaradas, enfim uma enorme equipa que o ajudou e que também merece ser destacada. Para mim foi, sobretudo pelos seus defeitos, um príncipe e alguém que recordarei sempre com comoção, respeito e amizade. Soares, além de fixe, era humano, não se armava em importante, possuía uma notável coragem física, uma alegria de viver impressionante. E um instinto político digno de menção, sobretudo neste país bisonho onde só se vai à luta quando se acredita ganhar. Soares tinha sido abençoado pelo amor à liberdade, pelo desejo de liberdade, viveu sempre livre e esperançado num futuro breve e melhor.

Todavia, o nosso século XX tem mais alguns nomes impreteríveis. Dividamos o século em duas partes: uma primeira que vai do ano 1901 até 25/26. Quatro homens podem e devem ser recordados mais pelos fracassos do que pelos êxitos: D Carlos e João Franco durante a agonizante monarquia e Afonso Costa e Sidónio Pais. Todos falharam, dois form assassinados, um morreu na sombra e outro no exílio. Depois de Sidónio o sistema entrou em deliquescência pura, no desastre e no caos (lembremos os assassínios de Carlos da Maia e Machado dos Santos os grandes heróis do 5 e Outubro e o de António Granjo que chegou a Presidente do Ministério: uma infâmia absoluta que só a cobardia de muitos e a cumplicidade de outros tantos impediu de esclarecer globalmente) e permitiu o aparecimento e ascensão de Salazar. Salazar governou sem real oposição que se visse até meados dos anos 60 e a sua última batalha (a defesa do Império) teve o apoio de muitos oposicionistas e foi tratada com luvas de veludo pelos poucos que advogavam a independência das colónias. (Vi com estes meus olhos e ouvi com estes meus ouvidos, em 1969 um ilustre político agora muito homenageado dirigir-se aos escassos eleitores num comício da CDE coimbrã, fora de portas, apresentar-se como “ex-combatente do Ultramar”!!!)

Com o 25 de Abril, Soares emergiu como um paladino da Liberdade, causa que era a sua desde os tempos do MUD (finais dos anos 40) onde militou ainda sob a bandeira do PCP. Com ele, vindo de um outro nevoeiro bem mais espesso e consistente, regressou Cunhal. Como Soares, aliás antes dele, porque mais velho, Cunhal era uma figura mítica da Oposição portuguesa. E isso desde finais dos anos 30 quando o jovem Cunhal começa a desempenhar cargos de enorme importância no partido comunista e, mais tarde depois da sua última, longa, dolorosa e heroica prisão, no movimento comunista internacional. Cunhal chega aureolado pela história da resistência comunista e comparado com os seus pares do sul da Europa, não tem rival, Berlinguer ressalvado. Não cede ao euro-comunismo, é o o fiel dos fieis da URSS deliquescente e mantem o partido dentro da mais estrita observância do modelo soviético (e isso vê-se ainda hoje: já ninguém fala ou sequer reconhece os partidos irmãos europeus desaparecidos, sepultados pela História enquanto em Portugal, tal qual a aldeia de Asterix, o PCP se mantém quase com o mesmo número de militantes, simpatizantes, câmaras e deputados de sempre. Cunhal não modificou Portugal como Soares mas deixou uma marca indelével na Constituição e no Regime, mesmo agora. O PCP controla a CGTP, mantém Câmaras mormente no Alentejo e na cintura de Lisboa e mobiliza a rua.

Estes três homens (Salazar, Soares e Cunhal) foram absolutamente determinantes nos segundo, terceiro e quarto quartéis do século vinte. Por mais que se queira, Sá Carneiro não passou de um meteoro, vá lá de um cometa, na vida pública portuguesa. O desastre que o vitimou levou também a melhor esperança do CDS (Amaro da Costa) e o único herdeiro claramente social-democrata dele (Mota Pinto) morreu repentinamente sem herdeiros políticos dignos de menção.

E também aqui, os comentadores e os “parvenus” do comentário político não souberam nem quiseram fazer pedagogia, história ou pelo menos crónica do século. Afundaram-se em narizes de cera, em vulgaridades e na incapacidade de transmitir, ao menos uma vez, um pequeno retrato de Portugal menos baço, menos peremptório, mais abrangente e, provavelmente, mais real. Mas isso são contas de outro rosário ou de outra cidadania.

Como Mendes, outros ajudaram à missa mesmo se o beatificado fosse, laico e republicano (e socialista). Felizmente, o homem, o político e o intelectual é irredutível a simplismos e deve ter-se divertido à grande e à francesa (logo ele que usava um francês desenvolto, demasiado desenvolto e aportuguesado sem vergonha de nenhuma espécie) com todo o teatro que se seguiu à sua morte.

(e quase ninguém referiu essa grande dama do socialismo, da cidadania e da coragem que se chamou Maria de Jesus Barroso. Ao lado – mas não atrás – de um grande homem há sempre uma grande mulher!

D’Oliveira fecit, 9-11 de Janeiro 2017

 

 

10
Set16

Au bonheur des dames 415

d’Oliveira

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 Zé  Rodrigues  

(páginas de um catálogo)

 

1

Há séculos que a filha de Herodíade dança. Não por ela, muito menos por nós, mas tão somente para obter por prémio a cabeça daquele que a si próprio se chamou a voz que clama no deserto.

 

 

Véu a véu sela-se, fatal, a sorte do Baptista que fustiga pecados, anuncia a vinda de um outro a quem, é ele que o afirma, nem sequer merece apertar a correia da sandália.

 

Verão os seus olhos "como carbúnculos" a sorte funesta que a dança de Salomé lhe promete? Não é João, como dizem todos, do Tiberíades até ao Jordão, um profeta? Ou, por saber do futuro dos outros está-lhe negado conhecer o seu?

 

2

 

Poetas, músicos e pintores repetem, desde há séculos, esta história; encenam a morte de João, a cabeça decepada, a nudez perversa de Salomé, a cobardia do Tetrarca e a vingativa determinação da adúltera Herodiade.

 

Dir-se-ia que, graças à mestria deles, João ressuscita constantemente apenas par outra e outra vez, perder a cabeça e a vida.

 

A dança da virgem e a morte de João confundem-se a tal ponto que já não sabemos se esta não é mais do que a neccessária consequência da outra, como se a História apenas fosse um capricho de um Deus sarcástico e indiferente.

 

3

 

Da mão do Zé Rodrigues solta-se uma outra estória, porventura menos trágica mas singularmente mais próxima:

 

O olhar do Baptista continua penetrante mas, agora, há nele também o eco de um desejo, a misericórdia do perdão.

 

Salomé é apenas uma adolescente cuja sensualidade ingénua é temperada pela graça de um corpo humanamente imperfeito e a dança não pede a morte mas a vida, pede o corpo todo do visionário, oferece ao profeta, não o amor que ela ainda não conhece mas um momento de descanso, de refrigério para quem se consumiu em todos os desertos da Galileia.

 

4

 

Contra a dança da morte, a mão do escultor criou o toque da vida. Não é por acaso que ele vive e trabalha neste Porto em que o profeta é festejado numa noite imortal como protector de amores, de namorados, de vida vivida ou, pelo menos, sonhada.

 

 

 

Marcelo Correia Ribeiro

(Porto 3 de Novembro de 1977)

 

 

Em 1997, o José Rodrigues aceitou o meu convite para se expor nas instalações do Centro Regional de Segurança Social do Porto, na sequência de outros eventos do mesmo teor em anos anteriores e para os quais também contribuí com textos para os respectivos catálogos.

É o caso desta prosa acima republicada

Foi uma prova de generosidade e de amizade que vinha na sequência de outras e que marcava uma bela amizade de muitos anos.

Agora morre-nos, assim, no fim do Verão mesmo se o seu estado não augurasse nada de bom nestes últimos tempos.

Noutro país menos ignorante, noutra cidade menos esquecida, o Zé teria feito uma carreira internacional e hoje a sua morte viria em todos os noticiários. Por cá nem a televisão se incomodou...

 

* vai este folhetim para Alfredo Vieira e Manuel Sousa Pereira, dois amigos leais, fieis do Zé que estiveram com ele sempre, até hoje. Um abraço para ambos.

08
Set16

Estes dias que passam 341

d’Oliveira

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“... fogo que arde sem se ver...”

 

O Verão é mau conselheiro e a prova mais evidente disso é o conjunto de trapalhadas em que o governo se meteu. Não vale a pena falar dos três briosos Secretários de Estado que aproveitaram a boleia da GALP para ir ver a bola. Parece que não se demitem e, espantoso!, ninguém os manda dar uma volta ao bilhar grande. Vão continuar por aí, diminuídos na sua tarefa, olhados pelo público como gente que se vende por pouco, incapacitados de meter o bedelho desavergonhado nos problemas da GALP (e não só...), vistos com desconfiança por boa parte dos agentes económicos e apontados a dedo pela Direita que, desta vez tem três bombos da festa à disposição.

Mas parece que eles não percebem, o que diz muito da inteligência das criaturas e, mais ainda, da ética delas.

A Caixa Geral dos Depósitos então, é um sufoco. Um escândalo, um sinal de parvoíce daquele pobre Ministro das Finanças que, dia a dia, mostra eloquentemente a verdade do famoso “princípio de Peter”. Aquele pobre diabo era um técnico razoável e tinha, com mais uma dúzia de luminares,, fabricado uma espécie de plano financeiro para o P.S.. Depois, com os acordos da “geringonça” o projecto tantas voltas sofreu que mais parecia a túnica de S Sebastião mártir.

O homenzinho aguentou a desfeita e, deslumbrado pelo poder, seguiu em frente com a barriga recheada de sapos.

Não percebeu, não aprendeu (duvida-se que sequer aprenderá), e aí anda ele com todas as previsões a saírem-lhe furadas. Agora esta aventura da direcção da Caixa é o que é: a opinião pública, o Presidente da República e os parceiros da frente popular dão-lhe com os mimosos pés. Desconheço o que farão as personalidades imprudentemente convidadas e recusadas pelo BCE. Algumas optarão por fazer o mesmo que Leonor Beleza (que não precisava disto e que se dispunha a exercer o cargo de borla) e já avisou que não dá nada mais para o peditório.

Depois, mesmo que haja naquele banco mastodôntico e cheio de fífias, culpas de anteeriores Governos, a opinião geral virar-se-á sempre contra o actual. A CGD não é uma entidade simpática e, sobretudo, foi sempre algo de lento, perro, burocrático e tristonho. Eu que, como dezenas de milhares de aposentados da função pública, aturo a inércia da Caixa por mera preguiça descubro estupefacto que são precisos mais de cinco mil milhões para por aquele naufrágio à tona. Para já!

Claro que somos nós todos, os do costume, os que pagam impostos, os que não conseguem fugir às investidas do fisco, quem pagará esta brutalidade. Sem garantias de que, desta vez, fique tudo bem! Sem garantias de que não haverá despedimentos! Claro que vai haver! Sem garantias de que permanecerão os mesmos balcões. Claro que muitos encerrarão!

Tudo em nome do “banco público” que nunca procedeu como tal. A CGD estava no terreno tal qual os bancos privados, gorda à custa de ser o banco pagador de centenas de milhar de funcionários, gerida por criaturas escolhidas a dedo pela sua competência (veja-se Vara!!!) que deram aval a operações que se traduziram em prejuízos gigantescos e a este buraco negro que só o BE e o PC pintam alegremente de vermelho.

Deixemos, entretanto, estas miudezas e passemos aos fogos.

E comecemos pela imbecilidade maior. Alguns cavalheiros e, mormente, a rapaziada do Governo, não perceberam que a teoria do fogo posto (que obviamente existe) não justifica a teoria de que somos vítimas de uma conspiração de incendiários medonhos. Sobretudo o argumento cretino que que muitos fogos “começaram de noite”. Se essas criaturas tivessem um mínimo de testa poderiam dizer isso mas temperando a afirmação com estoutra: tais incêndios foram detectados de noite o que é um pouco diferente. O mato poderia já estar a arder brandamente mas só com a escuridão, o vento e a força crescente das chamas é que verdadeiramente se deu pelo incêndio. Como diz a epígrafe (mesmo se aplicada a outra circunstância) ele há fogo que arde sem se ver. Pelo menos quando começa.

A segunda desculpa é a de que as medidas propostas há cerca de dez anos são caras. Claro que são. Mas para quem não quer o pais ainda mais “litoralizado” é pela prevenção, é a juzante que se tem de começar, aliás, falar de custos aqui é algo de ignóbil. Mesmo poucos, os cidadãos do interior não podem constar de um deve haver burocrático que os reduz a uma enxurrada de campónios velhos, fracos, doente e feios.

Não há um cadasto sequer medíocre, dos proprietários florestais mesmo que se saiba que dezenas de milhares ou mais de um centena de milhares são desconhecidos e, porventura, como é o caso de um amigo meu que se descobriu herdeiro de umas bouças perdidas no interior profundo, ignorantes da sua parca, exígua riqueza.

O meu amigo referido, mesmo que quizesse visitar os seus domínios florestais, teria de encontrar quem o guiasse, quem reconhecesse marcos perdidos e pudesse (mesmo pagando) mostrar-lhe três pinheiros e muito mato à solta.

O cavalheiro (um ministro) que disse duas pacoviadas sobre este assunto nem percebeu que há milhares de proprietários rurais que não limpam os terrenos por as despesas serem sempre superiores ao valor das árvores que lá estão.

Todavia, a questão central permanece: sem cadastro não há solução. Ou há: confisquem-se todas as terras ardidas de que se desconhece dono e/ou responsável por medidas de prevenção. Parece que há cavalheiros que propõem esta solução deveras drástica.

Outra questão: porque é que não ardem, ou ardem raramente, as florestas propriedade das grandes empresas de papel? Será porque, ao contrario dos pequenos e médios proprietários (e muitas vezes do Estado ou das autarquias) pagam e mantém batalhões de sapadores e vigiam a todo o tempo as suas matas?

Outro ponto: há alguma política que preveja, proteja, incentive a plantação de floresta tradicional portuguesa, ou afinal só se protege o eucalipto (árvore que até se dá bem com o fogo) e o pinheiro? Ao que sei, mas posso estar mal informado, os carvalhos, os castanheiros, as faias ou os teixos ardem menos. Claro que investir nestas (e noutras) espécies tradicionais é investir a longo prazo, não dá lucro fácil, demora muito a ver as plantações crescidas.

A floresta, todos o sabem, arde. Cá ou na Califórnia, na Austrália ou na China. A floresta siberiana arde. Mas não arde com esta impetuosidade quase anual. Até há dias, metade da área ardida na União Europeia era portuguesa! Isto não espanta os tolinhos que tem responsabilidade no sector? Será que só cá é que há uma praga medonha de incendiários, a soldo sabe-se lá de quem, que tem por fito devastar o ridente campo português?

Fiquemo-nos por aqui neste descoroçoado rosário de queixas antigas. Ou melhor: faça-se uma referência à tragédia da Madeira. Ao que parece, apesar de tudo, e do Jardim, há um projecto para reflorestar as zonas invadidas por espécies exógenas e voltar à boa e vlha laurissilva e ao arvoredo indígena. Há, viu-se, uma actuação decidida e rápida para minorar a vida de quem perdeu tudo. Todavia, conviria recomendar ao senhor Presidente do Governo Regional mais cautela quando (esperemos que não se repita) houver outro incêndio. Sª Exª deverá ser menos, muito menos, assertivo. Bem sei que lhe cabia o ingrato papel de tranquilizador dos turistas que lá estam e dos que para lá irão. Foi porém imprudente quando anunciou ter a situação controlada. Foi impudente quando declarou que não precisava de auxílio exterior (parecia o seu antecessor). Precisou, obteve-o e vai precisar ainda de muita solidariedade nacional. Aos governantes não compete parlapiar tecnicamente. Isso é com quem sabe e Albuquerque não é metereologista nem bombeiro. É um político e apesar de tudo está a dissipar a imagem daquele Bokassa (cito o brilhante Jaime Gama que lapidarmente definiu o cidadão Alberto João) insular que o antecedeu.

Do mesmo modo, acho indecente, os ataques à Ministra da Administração Interna por não ter acorrido ao primeiro sinal. A ministra também não é bombeira e a sua presença no local só ia prejudicar a já dificl tarefa dos bombeiros. Dizer que a criatura foi para uma festa na hora em que estlou um incêndio é uma canalhada. À Senhora pede-se bom senso, direcção política e, já agora, que tenha a força suficinte para convencer o Governo a fazer o que há dez anos se propôs e foi esquecido. Se calhar está-se a pedir demais. Esperemos que no próximo ano de incêndios (e este inda vai no meio) alguma coisa esteja feita. Até, para quem é crente, só resta reza.

(este texto foi escrito ainda em Agosto mas o computador de Lisboa agora recusa-se a entrar no blog!  Manias de quem é velho e não vê quem o passe à reforma.)

 

 

 

 

 

06
Ago16

Diário político 211

d’Oliveira

Trapalhões, imprudentes e a tomarem-nos por parvos

 

A triste historieta dos Secretários de Estado que foram ver a bola à custa da Galp obriga-nos antes de tudo a questionar o bom senso das criaturas e, mais do que isso, a inteligência das mesmas. A justificação apresentada por Rocha de Andrade peca pela arrogância (foi tudo dentro da normalidade e da adequação social) e pela impudência (vou já pagar tudo) dando a perceber que não entendeu ainda que as sus duas declarações são contraditórias. Pior: esqueceu-se de comentar, como devia e podia, que fora demasiado ingénuo (na melhor das hipóteses) ou insensatamente cúpido ao aceitar uma prenda tão choruda de uma empresa com quem o Estado, através do Ministério onde está integrado tem um longo e caríssimo conflito.

Pior do que ele, só mesmo o senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros ao vir admitir que o Governo vai criar um “Código de Conduta” para desincentivar a prática de gestos do mesmo género. O senhor Ministro parece desconhecer a lei que já tutela amplamente situações deste teor. A menos que seja amante de pleonasmos políticos e éticos (sobretudo estes)...

Os restantes comparsas, mais dois Secretários de Estado, tiveram o cuidado de não serem tão falazões como Andrade mesmo se, igualmente, tenham caído na esparrela de garantir que vão pagar as despesas com desveladamente a Galp os mimou.

Imaginemos, por um breve momento, que X, funcionário público se lembrava de ir ver os jogos. Teria no mínimo que “meter” um ou dois dias de férias para ir e vir. Os senhores Secretários, ao que se sabe, foram estiveram e vieram sem que alguém lhes apontasse a faltinha ao trabalho ou que eles imputassem às merecidas férias o(s) dia(s) franceses.

Há neste jardim à beira mar plantado, uma falta de pudor que só não espanta o aborígene lusitano por há muito estar este habituado ao forrobodó dos importantes. Em se apanhando num posto público de responsabilidade, esquecem-se que o público os pode escrutinar.

Rocha Andrade teve há dias uma confusa missão: fazer passar as novas regras das “vistas” para carregar o IMI como coisa boa e sensata. Esqueceu-se o cavalheiro que qualquer regra sobretudo em matéria de impostos tem de escapar inteiramente à arbitrariedade de quem a impõe, ou seja tem de obedecer a critérios claros e indiscutíveis.

Vejamos este (meu) caso. Vivo numa excelente zona (Porto, “Foco”) que na altura em que se construiu tinha por vizinhança um conjunto grande de fábricas em plena laboração e uma auto-estrada com um movimento já evidente (agora é pletórico). As fábricas desapareceram e deram lugar a prédios para classe média a tender para alta. Nos terrenos disponíveis que havia construíram-se duas escolas. Mesmo assim, do meu andar avista-se o mar, há um jardim bastante razoável no meio dos prédios e espera-se que nos terrenos aedificandi remanescentes nasçam zonas de lazer e serviços que aumentarão positivamente a qualidade do edificado. Quem adquirir doravante algum dos excelentes andares que continuamente aparecem para venda (a 1ª geração de moradores foi envelhecendo, morrendo ou depois dos filhos criados, achou os apartamentos demasiado grandes para um casal solitário) irá pagar que IMI? Porquê?

A displicência (e de novo a arrogância) com que Andrade respondeu a estas questões dizem muito, quase tudo, do modo como encara as suas funções. Ele tem razão porque sim. Porque pode, quer e manda. O resto é a paisanagem a quem, de quatro em quatro anos, se permite votar (mesmo se o seu voto nem sempre se traduza numa clara preferência pelo Partido que alcandorou este Secretário de Estado ao mister que exerce.

O Governo pela voz de Santos Silva acha que pode pôr uma pedra no assunto. (“Dissipar” foi o verbo que Sª Exª usou para falar do problema. Conviria ao senhor Ministro ir ver todos os significados da palavra para perceber que nem sempre dissipar ou dissipado são termos que indiquem limpeza... )

Para o Ministro este “deslize” está resolvido com um tardio cheque que, se paga alguma despesa feita pela Galp, não paga o desgaste nem a desconfiança dos portugueses em quem os governa.

Mesmo que a PGR não conclua pela existência de “recebimento indevido de vantagem” fica sempre a leviandade e a inexistência de um pedido de desculpas público. É quanto basta para (como antigamente) se aconselhar estes senhores governantes (nem que seja para “português ver”) a porem os seus lugares à disposição. Ou voltarem à actividade privada, quem sabe ao serviço da Galp ou outra amável empresa do mesmo género.

Mesmo que o façam com a notória irrevogabilidade que Portas usou.