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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

13
Abr17

o leitor (im)penitente 201

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livros, alfarrabistas & outras fantasias 7

A ilustre Ilustração Portuguesa

Como nome de Ilustração Portuguesa há, pelo menos, duas publicações distintas. A primeira (1884-1890) era antecedida por A (A ilustração portuguesa) e teve cerca de 200 números

A segunda, Ilustração sem artigo a antecedê-la teve uma 1ª série, 119 números (1903-1906 e uma 2ª série que foi de 1906 a 1924. Desta publicaram-se 848 números semanais e era propriedade do jornal “O século”.

A minha história com a revista começou quando descobri na cave de uma casa nossa, umas dezenas de exemplares da IP. Excelente papel, muita ilustração mormente fotográfica, enfim, uma história viva e popular dos anos de fogo do fim da Monarquia e praticamente de toda a República. Volta e meia, encontrava à venda, por preço modesto, mais fascículos e, pouco a pouco fui aumentando a colecção. Até hoje.

Cumpre dizer que a segunda série totaliza 848 fascículos semanais, (não se contando mais dez ou onze publicados anualmente para manter o título da revista e que terão durado até 1933). Ao todo, são 38 volumes, dois por ano. De longe a longe, aparece uma colecção completa à venda. O preço varia muito quer devido ao vendedor quer ainda ao estado da colecção. Obviamente uma segunda série completa com capas de editor e respectivos índices custa mais mas, mesmo assim, conseguem-se obter as duas séries por menos de 1000 euros. Quando dei por isso já a minha colecção tinha mais de 600 fascículos pelo que nunca acorri aos leilões e às vendas de edições completas. Claro que, agora, dez anos após a primeira aquisição, verifico que não só gastei muito mais mas sobretudo que, como de costume, o rabo é o mais difícil de esfolar. A tal ponto que ainda há pouco tempo comprei dois volumes completos mesmo se desses semestres apenas me faltassem dúzia e meia – em 52- exemplares. E foi barato dado o preço a que vejo actualmente os fascículos dispersos à venda.

Tudo isto para dizer que, dos 848 fascículos apenas me faltam 3 (!!!) todos do vol 31º (2º semestre de 1921) exactamente os nos 820, 822 e 823. Algum dos escassos e pacientes leitores sabe deles? Quer vendê-los? Ofereço o preço do inteiro volume. Aliás, em alternativa, compraria o volume inteiro se é que alguém o quer vender.

É verdade que, no mês passado, um alfarrabista me propôs um negócio. Ficava com a minha colecção, incompleta, e cedia-me uma que, não tendo capas de editor, estava bem encadernada e dispunha de todos os índices. (Convém mencionar que os índices são mais raros que as revistas uma vez que só se vendiam com as capas de editor) Na troca, pedia 450 euros!... Só!...

Gosto muito de livros e tenho particular simpatia pela Ilustração Portuguesa mas o que é demais, é demais. Declinei amavelmente a oferta e, em troca, o livreiro prometeu-me que tentaria arranjar-me o volume em falta porquanto argumentava, e lá terá a sua razão, que era mais fácil isso do que pescar os três fascículos que me faltam.

Decidi, portanto, continuar à espera. À espera e esperançado pois, como já disse, a IP é uma verdadeira “história popular, imediata, em bruto, excessiva e contraditória mas com o perfume do dia a dia bem vincado. Aliás, nesses quase mil números (as duas séries confundidas) há de tudo, incluindo anúncios espantosos a elixires, pomadas, aparelhos médicos e outros que só por si mereceriam um estudo atento. Falei na riquíssima iconografia da IL. São milhares de fotografias, provavelmente muito mais de dez mil, de acontecimentos, personagens, monumentos, paisagens numa compita desenfreada. Se tivesse de escolher alguma mais significativa apontaria uma série de fotografias de operosos cavalheiros que exerciam de bombistas (a famosa “artilharia civil”) naqueles dias e anos tumultuosos (não esquecer que só a “1ª República” se deu ao luxo de ter 51 governos em 16 anos!...muitos deles caídos por revoluções, golpes palacianos, votações surpresa, etc...). Trata-se, todavia de fotografias preparadas, de pose, mas não deixa de ser revelador o facto de a IP achar que as deve publicar para memória futura.

Dentre as reportagens, ficou-me uma extraordinária e que cito de memória. Um jovem oficial do Exército, acusado de ter participado numa intentona, foi julgado e absolvido. Passeando pelo Rossio, é reconhecido por alguém, possivelmente ligado à “formiga branca” (uma das milícias mais sinistras da época) e começou a ser perseguido por um grupo de pessoas que rapidamente aumentou. Prudente, refugiou-se na portaria de um hotel e abriu o casaco ou o capote para mostrar que estava armado. Foi imediatamente abatido por vários tiros vindos do grupo perseguidor. A mulher, ou noiva (Já não recordo) ao saber do assassínio suicidou-se, atirando-se de uma janela do prédio em que vivia(m). A fotografia da reportagem é aliás da desventurada jovem senhora.

Optei por estas escolhas por que são significativas dos tempos em que a IP se publicou e não para levar água a algum malicioso moinho anti República (o anterior regime retratado na 1ª série e nos quatro primeiros anos da 2ª não era melhor e os jornalistas e fotógrafos da revista retratavam os acontecimentos com grande equanimidade).

Esta crónica sobre A “Ilustação...” pretende, sobretudo, realçar o facto de, numa época de acentuado analfabetismo (é provável que naqueles anos houvesse 90%de analfabetos) e da disponibilidade financeira dos leitores ser infinitamente inferior à actual, haver um público capaz de sustentar um grande número de empresas jornalísticas (qualquer comparação com o presente entristece o mais optimista) com suplementos de “luxo” como é o caso da “IL”. Também não me parecer de escamotear que a própria época de intensa luta política e ideológica poder potenciar um aumento de leitores curiosos e interessados em informar-se. Ou, de como um regime caótico e absolutamente instável consegue ter este pequeno mas notável efeito cívico e cidadão.

 

 

 

11
Abr17

o leitor (im)penitente 200

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Livros, alfarrabistas & otras fantasias 6

 

Outro canto e outras armas 

Em 1940, em plenas comemorações dos “Centenários”, um brioso militar, capitão de seu estado e Joaquim António Pereira, de seu nome, entendeu juntar a sua bélica voz ao clamor patriótico e artístico que varria o país. Vai daí, ajudado por musas parentes longínquas das Tágides camoneanas, deu ao prelo um livro que intitulou “Grandezas de Portugal” com o subtítulo “história, pátria, verso”.

Em 310 quadras, 23 oitavas, 1 sextilha e uma décima, ofereceu toda a história de Portugal desde Afonso Henriques (Em mil cento e trinta e nove,/foi fundado Portugal./Sendo dádiva de Jove,/criamos a capital)até ao Marechal Carmona (Temos general Carmona,/ é alma bondosa e pura./ É a vela bujarrona,/ desta nau da Ditadura.).

A primeira vez que ouvi o nome do poético guerreiro devo-a ao Rui Feijó e ao António Alçada Baptista que, pelos vistos pertenciam a um buliçoso grupo de rapazes universitários da década de quarenta que, tendo tido notícia deste extraordinário livro, prontamente o adoptaram, pelo menos nas quadras mais significativas, usando-as como jocosos gritos de guerra. Impressionado pela troca de galhardetes citações entre os dois cavalheiros acima citados prontamente comecei a procurar o livro. Foi o nunca assaz chorado Manuel Matos Fernandes quem me ofereceu a primeira versão em fotocópia integral. A partir desse momento, passei a oferecer a amigos uma antologia do capitão Pereira até que um outro Pereira (Manuel Sousa ), escultor, amador de livros e da gens feminina digitalizou duas cópias em excelente papel. Tais cópias mandei-as encadernar oferendo uma ao meu amigo e ficando com a outra. De facto, desistira de procurar o original tantas foram as negas que recebi de alfarrabistas de todo o país.

Todavia, num dia de escandalosa despesa em números da “Ilustração Portuguesa” (se alguém souber dos nos 820, 822, 823 e 889 que me avise. Compro-os por preço generoso. Também me ofereço para adquirir o vol 31º por inteiro pois queria completar a colecção) num alfarrabista portuense, mencionei o livro ao empregado mais antigo da loja. Este, ouviu-me atentamente e, num gesto descuidado, sem virar a cabeça, deitou o braço direito para trás, para a estante a que estava encostado e de lá, num passe de pura magia, ofereceu-me o livro que eu procurava há vinte anos.

Chorei de pura emoção e, desde esse dia primordial e bendito, guardo a edição em lugar especial. Quero crer que quem tem algum exemplar do livrinho o guarda a sete chaves pois nunca, por nunca, o vi no mercado.

Torna-se difícil, para não dizer impossível, explicar aos leitores a valia literária desta obra pelo menos para todos quantos têm da literatura uma visão optimista e recreativa. Na sua aparente banalidade há todo um retrato deste Portugal dos pequeninos em que desconsoladamente (sobre)vivemos. Junto meia dúzia de quadras que mostram – e de que maneira – como tantos para não dizer quase todos – sentem pulsar neles a pátria madrasta.

Está na moda não ensinar História ou então ensiná-la segundo métodos ditos materialistas e científicos. À ignorância de um lado junta-se o panfleto do outro. Em ambos o horror a nomes, datas, indivíduos, acontecimentos marcantes é explicado pela necessidade de poupar os instruendos, vítimas infelizes duma coisa chamada “eduquês” que, tal como uma mezinha salvadora, veio libertar a juventude do ensino do Estado Novo. Se este era o que sabemos o actual consegue ser igual ou ainda pior.

Felizmente a nossa juventude escolar mostra o que vale em terras do inimigo espanhol. Vê-se logo, como dizia uma mamã ufana que não foram lá para ler o Saramago. O Capitão Pereira teria orgulho neles.

 

antologia

 

descobertas

 

Diniz Dias, continúa,

p'la mesma costa africana.

Cabo Verde chama sua,

nêle descobre a banana.

 

 

  1. João II

 

De carácter reflectido,

perseverante e enérgico,                                                

tinha o hábito aferido,

e o seu proceder sinérgico.

 

****

 

Veio o Garcia da Horta,

incomparável botânico,

Até salva gente morta,

fugida d'horrível pânico.

Revolução Liberal

 

As idéias liberais,

dos conjurados do Porto,                                               

foram tantas, até tais,

que endireita, o que é torto,

 

 

D Pedro V

 

Curso de Letras criou.

Também telégrafo eléctrico.

O combóio caminhou,

e estradas em quilométrico.

 

Foram criadas escolas;

duas, médico-cirúrgicas.

Instruiu os rapasolas.

Tais criações, eram úrgicas.

 

       Mousinho

 

Por o capitão Mousinho,

ter vencido o Gungunhana,                                             

a tropa tira-o do ninho...

«Rataplana, rataplana...!»

 

 

 

Ditadura

 

O saneamento, começa.

Não escalda. Tem brandura.                                           

Pois, e então? Ora essa!

É benévola a Ditadura.

 

 

 

11
Abr17

au bonheur des dames 420

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Morte, onde está a tua vitória? 

Conheci a Professora Doutora Maria Helena Rocha Pereira no longínquo ano de 1961 quando me aventurei a entrar numa aula de História da Cultura Clássica.

Expliquemo-nos: eu era um pobre caloiro de Direito que já não aguentava a aridez das aulas nos Gerais. Por outro lado, a Faculdade de Letras era mesmo ali ao lado, passando (saindo) a Porta Férrea. 

Letras era o reino das raparigas, sexo raro, raríssimo em Direito. Depois havia um bar! Um bar! Um sítio onde se podia beber uma bica e mirar les jeunes filles en fleur. Le bonheur, quoi! 

Num dia, sentindo-me particularmente audacioso, segui uma bela rapariga de olhos grandes e prometedores (mais tarde, a verdade, a "áspera verdade" -Danton - destruiu-me as esperanças: Aqueles olhos que se cruzavam com os meus -admiradores e arrebatados - eram, afinal, quase cegos, enfim terrivelmente míopes pelo que a aceitação que lhes adivinhava era apenas uma total incapacidade de me ver! ) até ao grande anfiteatro onde a Doutora Rocha Pereira oficiava de grande pitonisa dos Estudos Clássicos. 

Não vou dizer que foi amor à primeira mas quase. A voz suave, o sorriso, a elegância,  a clareza da explicação de um passo da Odisseia, aquele em que Ulisses chega à Ilha dos Feácios e vê - e fala - com Nausicaa, criaram em mim uma tal impressão que, numa correria, Quebra Costas abaixo fui dali à livraria Atlantida comprar, endividando-me, a "Hélade" que li num rompante. A partir daí, sempre que podia, evadia-me dos Gerais e caía certeiro  nas aulas de Cultura Clássica. Às tantas, com a coragem dos conversos de fresca data, no fim da aula, fui falar com a Professora, explicando-lhe quem era, o que fazia nas suas aulas e pedindo licença para assistir. Divertida, a Doutora Rocha Pereira observou-me que eu já invadira duradouramente as suas aulas e gabou-me o gosto pela Grécia. De passo, autorizou-me a frequentar as suas lições.

Em troca de tal gentileza, falei-lhe de um conto de uma velha escrava da minha avó Aldina onde um audaz viajeiro enganava um gigante com um só olho no meio da testa e que por isso se chamava Olharapo". Ou seja numa perdida cidade do Sul de Angola, a Chibia, alguém adulterara e pintara de escuro um personagem da Odisseia e, de par, o astucioso Ulisses. A Professora ficou encantada e repetiu-me o convite para assistir às suas aulas.  

Os anos, tantos anos, passaram mas a minha admiração persistiu e cresceu. Li muito sobre gregos e sempre me surpreendeu verificar que por maiores que fossem os autores que frequentei e que possuo, em todos eles, ou nos melhores, descobria afinidades com Rocha Pereira. Ela estava (está) entre os maiores, entre os melhores. Ler os seus escritos sobre a Grecia ou sobre Roma é não um exercício mas um prazer, um passeio por um tempo que continua tão presente entre nós.

Conheci, em Coimbra, alguns grandes Professores (Ferrer Correia, Mota Pinto, Teixeira Ribeiro em Direito, Luís de Albuquerque nas Ciências, Paulo Quintela, Fernandes Martins, ou Rocha Pereira em Letras. Com todos privei de perto, escutei-os com atenção (e adiração) aprendi o que pude que foi muito menos do que eles quiseram ensinar-me. Devo-lhes muito do que sou e a todos recordo com saudade e respeito. Agora chegou a vez da "Velha Senhora" dos Estudos Clássicos. Alguém nos jornais admirava-se de ela nunca ter ganho o Prémio Pessoa. Acho que foi o prémio que perdeu, foi o seu júri que não percebeu que estava ali uma estátua viva, uma sábia do tempo dos sete sábios míticos, alguém que escutava a melodia dos deuses e entendia todas as subtilezas dos velhos coros teatrais. Não deram conta? Esqueceram-se? Bom proveito lhes faça! Mas passaram ao lado de uma oportunidade única de premiarem o melhor que havia em Portugal, algo que só entre raros helenistas alemães, franceses e ingleses tinha par.

Agora é tarde, Inês é morta. Helena, Maria Helena da Rocha Pereira está viva e quem não for demasiado distraído deverá correr às livrarias à procura das suas obras.    

01
Abr17

estes dias que passam 347

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Calma, malta, calma

(ou Calma no Brasil que Portugal ainda é nosso!)

 

Um cavalheiro holandês de seu nome Jeroen Dijsselbloem (leia-se, aproximativamente “daisselbleme” coisa que nunca devia prestar-se a patetices alegadamente jocosas ) entendeu explicar a sua política quanto a auxilio ou solidariedade económica entre Norte (dador) e Sul (receptor).

Diz a criatura que não se pode emprestar dinheiro a quem o gasta em “mulheres e copos”. Tem toda a razão. Eu também não emprestaria o meu escasso cacau a quem o fosse malbaratar.

O problema é que Dijsselbloem falava enquanto líder do Eurogrupo e referia a realidade Norte - Sul da Europa. A sensatez ou apenas a prudência aconselhariam usar uma imagem menos popularucha mas aquela cabecinha pensadora foi mais feita para usar brilhantina do que para usar bom senso.

A reacção não se fez esperar, pelo menos por cá onde as famílias se endividam alegremente para um carro novo ou tão só para ir passar umas férias numa praia das Caraíbas.

A indignação (verdadeira ou fingida) subiu ao Parlamento, inundou as televisões e juntou uma multidão ofendida pronta para ver o holandês queimado numa pira no Rossio. Há mesmo um grupo de cidadãos ultrajados que lançou uma petição para correr com o holandês. Trabalho escusado visto que a criatura, estando de saída do governo holandês, perde praticamente a hipótese de continuar no governo da Europa. De todo o modo, os peticionários deveriam arranjar um argumento melhor para defenestrar o batavo: por exemplo provar que no exercício das suas funções era incompetente.

Pessoalmente, Djisselbloem não me consegue ofender. Primeiro sou um moderadíssimo bebedor, depois não pago a mulheres. Sei que vivo num país onde há prostituição mas nunca a vi em montras no centro da cidade como em Amsterdão. Também nunca vi espectáculos de borracheira colectiva como na Alemanha, na Holanda para não falar de outros países do Norte onde o fim de semana é um triste desastre de coma alcoólico quase colectivo. De certo modo, por cá bebe-se com alguma regularidade mas com bastante contenção (não refiro as tristíssimas festas da Queima das Fitas onde os cortejos são um desfile de criaturas propositadamente embriagadas. De qualquer maneira, isso sucede uma vez por ano o que se não é desculpa também não deve ser levado demasiado a sério).

O senhor Djisselbloem poderia ter feito as suas críticas, os seus avisos com a educação, o tacto, a diplomacia que se exige de tão alto cargo. Ninguém, honestamente, pode pôr em dúvida, que os chamados países do Sul nem sempre mostraram bom senso, cautela e muito menos rigor no tratamento das suas desastradas finanças públicas. Eu, se fosse um anónimo cidadão do Norte também desconfiaria da ajuda aos do Sul mesmo se, depois, temperasse as minhas suspeitas com uns pós de solidariedade.

Nestas coisas lembro-me sempre da senhora Merkel que, ainda há poucos anos, foi, por cá, alvo duma enxurrada de insultos e agora prova que, em questões de solidariedade, está bem acima de quaisquer outros. O que cidadãos portugueses acima de toda a suspeita bolsaram sobre a senhora é algo de inenarrável e envergonha duradouramente quem apenas leu o que eles vomitaram por escrito ou nas televisões e rádios.

Há num certo Sul, quente, amável, solar e descontraído, algum facilitismo quanto a números e contas (ainda hoje li que só em Portugal há 134.000 (cento e trinta e quatro mil!!!) famílias que se atrasaram nas prestações da casa comprada. Supondo, com excesso, que haverá um milhão - !!!- de compradores de casa a pagar em prestações mensais, temos no mínimo 13,4% de maus pagadores. É muito. É terrível!)

Há no Norte, frio, austero e escuro, muito dinheiro (produto de muito trabalho e de muito rigor) bem como alguma modéstia no trem de vida, fruto, acaso, da educação protestante. Há também uma noção de pecado que nenhuma confissão apaga ou escamoteia. Genéricamente, no Norte, luterano ou calvinista, os compromissos são para cumprir dê lá por onde der. Cá é o que se sabe.

A indignação fácil não torna a dissipação menos desagradável e a pobreza que daí advém mais ligeira. Nestes poucos dias, ouvi chamar tudo ao holandeses sendo o termo pirata um dos mais usados. Parece, para estes historiadores de praia, que as frotas dos Países Baixos (suponho que na altura se usava “Províncias Unidas”) só se criaram para roubar os desgraçados portugueses que iam para os trópicos, para o Malabar e para o Brasil fazer bem aos indígenas. Ora bem: basta compulsar uma qualquer História portuguesa decente para saber como é que nos comportámos em toda a parte, o terror que inspirávamos, os ódios que suscitámos, o saque que levamos a cabo.

Um cavalheiro, de que nem quero lembrar o nome, entendeu escrever que, no Brasil, Maurício de Nassau nem sequer merece que se diga que levou uma autentica academia cultural para explorar as terras conquistadas. Os brasileiros tem publicados na Editorial Kapa, sob o título genérico de “O Brasil holandês”, sete conjuntos de obras, num total de quase vinte volumes, primorosamente ilustrados que dão conta da obra notável dos holandeses. Em contrapartida apenas podemos oferecer (e ninguém conhece estes extraordinários portugueses cultos e informados!...) o Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, autor de uma extraordinária documentação sobre a Amazónia, e Frei Cristóvão de Lisboa que deixou um belíssimo tratado sobre as plantas e os animais do Maranhão.

A criatura que, para defender as cores nacionais, disse tais coisas é ignorante, mal intencionada e mais estúpida do que convém.

Combater a Holanda, país surgido da lama, da arrebentação do mar do Norte, da extrema pobreza, é uma inigualável tolice que nenhum Jeroen Djisselbloem desculpa. Este cavalheiro combate-se provando as nossas inegáveis qualidades, renegando a nossa tradicional estúrdia (e temos dezenas de milhares de migrantes na Holanda que mostram claramente que os portugueses sabem trabalhar e ser responsáveis).

Eça de Queirós, sempre ele, a propósito de um verrinoso ataque à sua famosa condenação da colonização portuguesa na Índia, inventou a palavra patrioteiro ou patrioteiraço. Parece que, cento e cinquenta anos depois, essa tonta raça persiste. E com que vigor!

Arre que é demais!

 

* na estampa:posters que se encontravam por toda a Holanda significando solidariedade com outros povos (no caso: Portugal eVietnam) trazidos de Amsterdão em 1973.

 

10
Mar17

o leitor (im)penitente 199

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 5

História breve de como tudo começou

 

Desta feita falar-se-á de uma obra ao alcance de todos. Ou melhor dizendo, atentos os tempos que correm, ao alcance de quem leia francês. E ponho esta ressalva porquanto verifico que, actualmente, o francês está em forte declínio entre nós. Razões há muitas mas a principal é sem dúvida a facilidade do inglês que, via música, se tornou para os de menos de quarenta ou cinquenta anos, uma língua franca.

De todo o modo, vou falar de uma obra mais ou menos feita em três partes (mesmo se cada uma delas é independente) que genericamente se chama “les aventuriers de l’art moderne”. Em grosso, trata da história da cultura europeia desde 1900 até 1949 e, neste campo, incide quase só na revolução cultural operada a partir da eclosão da arte moderna em Paris – e sobretudo das artes plásticas- entre Montmartre e Montparnasse. Em pano de fundo, a aventura surrealista, o dadaísmo, o cubismo, o futurismo. Num primeiro volume assiste-se ao absoluto milagre da concentração em Paris, ainda antes da primeira guerra mundial, de artistas vindos de todo o lado, sem eira nem beira, animados tão só pelo desejo de liberdade, pela ideia de que algo de novo estava na forja, e que rompem com todas as regras estabelecidas, com o salon, e proclamam o fim do século XIX que politicamente só ocorrerá bem mais tarde com a guerra. Local, Paris. Pintores e escritores em encontros e desencontros lançam as bases do modernismo, do futurismo, do surrealismo, da abstracção, do cubismo, quase ao mesmo tempo, num cenário dominado por Picasso, Matisse, Bracque, Gris, Chagal, Modigliani a que se juntam Appolinaire, Breton, Tzara, Aragon ou Éluard, Duchamp, Man Ray, Fujita, Hemingway e toda a lost generation, mais a madrinha deles (a monstruosa Gertrude Stein), duas livreiras de excepção   Adrienne Monier e Silvia Beach, alguns galeristas (depois grandes) e a imperecível “nouvelle revue française, mãe das edições Gallimard.

Disse Paris mas não posso excluir outros grandes centros (Berlin ou Munique, terra de promissão dos expressionistas) Turim, Milão e Roma ou Londres e, sobretudo Nova York que alimentou e se alimentou da transumância transatlântica de artistas e escritores americanos e europeus. É porém Paris que se assume como o centro da verdadeira “grande revolução cultural”, mesmo se este nome depois fosse traduzido num calão sórdido e venenoso por obra de um tormentoso vento de leste para citar um vago verso do “grande timoneiro”.

É em Paris que se desenrola uma aventura contada em três volumes por Dan Frank, autor dos “aventuriers...” (1. Le temps des bohemiens; 2, Libertad; 3 Minuit). Não conhecia o escritor e só por mero acaso vi um longo documentário (suponho que em 3 ou 4 episódios) sob o título acima enunciado. Terá sido na RTP2 ou, mais provavelmente, num dos canais generalistas franceses que ainda cá chegam (ARTE? TV5?). De todo o modo, trata-se de um pequeno milagre televisivo: linguagem simples, explicações claras, história q.b., um par de anedotas suculentas tudo conduzido por um fio narrativo preciso e eficaz.

Entusiasmei-me, claro e fui pelos meus dedos: internet, amazon fr., e dei com o filme e com os livros. Ainda por cima havia (há) uma edição de poche de todos os volumes o que significa uma boa economia. Naquelas mil e tantas páginas perpassam as noites loucas de Montparnasse (e as suas deusas: Kiki, Youqui, Peggy Gugenheim, Elsa Triolet, Gala Dali, Nush Éluard, a horrenda Gertrud Stein ou Clara Malraux. ) Assistimos à trágica história de amor de Modigliani e Jeanne Hébuterne, ao imparável crescimento de Picasso, à aventura surrealista bem como ao percurso extraordinário de Gide ou Malraux, gente que deu sentido e honra ao “engagement” político. Da grande Guerra onde se ilustram alguns estrangeiros que pegam em armas pela França que os acolhera (Apollinaire ou Cendrars) à guerra de Espanha palco de loucas mas heroicas aventuras de Malraux, até aos dias sombrios da Ocupação e à Resistência de poucos, ao silêncio de muitos e à escabrosa traição de artistas, actores, cantores e escritores que não hesitaram em aproveitar os convites de Berlin e as facilidades garantidas pelos ocupantes.

Vale bem a pena ler (coisa que, como diz o Manel Sousa Pereira a quem ofereci um volume, se lê sem conseguir parar) esta bela obra que não ficará nos anais da grande literatura mas que, sobretudo nos tempos de ignorância que correm, a ilumina, explica, divulga e glorifica.

Leitores, deem-lhe com força: à barca, à barca que temos gentil maré...

 

* na gravura Raparigas na paisagem de Jules Pascin (o Príncipe de Montparnasse) nascido Julius Mordecai Pincas, Bulgaria 1885 e morto (suicídio) em Paris 1930. Era conhecido, admirado e amado por toda a gente a tal ponto que, no dia do seu enterro, todas as galerias de arte de arte fecharam as suas portas. Sobre ele, Hemingway escreveu belas páginas ( in Paris era uma festa).

 

09
Mar17

O leitor (im)penitente 198

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 4

 

O preço segundo a cara do freguês

 

Os atlas geográficos ocupam um lugar apreciado na lista dos livros em venda por alfarrabistas, nacionais ou estrangeiros. E os preços, ah, os preços!!!, são mais voláteis do que os gazes preciosos e raros.

De certo modo esta situação é compreensível. Os grandes atlas, os famosos, os nascidos com os séculos XVI e XVII são hoje mais do que raros, são raríssimos e os que existem, salvo pequenas excepções estão aferrolhados a sete chaves nas grandes bibliotecas ou em algumas universidade. Ao interessado (e eu sou apenas um interessado e não um bibliófilo) resta geralmente o recurso a algumas excelentes edições facsimiladas que, por um lado reproduzem exactamente o atlas desejado, por outro têm a vantagem de geralmente ser de preço acessível.

(este adjectivo acessível deverá ser entendido cum granu salis. No mundo dos livros a palavra estica-se bastante...)

Desde pequeno que a Geografia (com a História e com a História Natural) me fascinou. Nos anos de rebeldia liceal fui sempre bom aluno nessas cadeiras que despertavam a minha insaciável curiosidade a tal ponto que logo em Outubro já tinha lido, relido e voltado a ler os manuais. A paixão continuou vida fora e agora, adiantado em anos, continuo a apreciar tudo o que diga respeito a estes três grandes domínios.

Todavia, hoje, vou ser impertinente com a honrada classe dos alfarrabistas que, quando apanham um livro com ilustrações de qualidade ou com mapas entram numa espécie de festiva dança de S Vito e pensam ter ganho o céu ou, pelo menos, o totoloto.

Para tal bastam três historietas.

A primeira tem como personagem um atlas vulgar mas interessante, de 1903, que se editou em dois volumes sob o título “Atlas Ibero Americano de Geografia”. Para o efeito interessa-nos o volume dedicado a Portugal e Colónias. Estado razoável, pequenas escoriações na capa a pedir intervenção de encadernador, nada de muito grave mas longe de se poder considerar um exemplar claramente bom.   Dezoito mapas dupla folha (encarcelada: isto é a folha inteira assenta sobre uma outra muito estreita cozida ao volume. Deste modo o mapa lê-se na sua totalidade sem partes escondidas no miolo), mais 457 páginas de texto e ainda a cópia em 26 novas páginas do Censo de 1900 por freguesias. Para um abelhudo como eu esta é a parte mais interessante pelo que descreve de um Portugal de há mais de cem anos.

Vi o atlas em questão num alfarrabista que frequento sem grande periodicidade e perguntei o preço. “Quinhentos euros mas a si faço 350! E olhe que traz um mapa final em tela que eu poderia vender por cem euros

Eu, que já tenho o dito cujo mais pelado do que um macaco, quando vejo tais ofertas desconfio. Respondi que o preço era ainda assim excessivo e retirei em boa ordem. Semanas depois, nova visita e insistência do vendedor. Que se eu quisesse substituía o mapa em tela por uma boa fotocópia – e agora há-as excelentes- e retirava mais umas dezenas de euros ao preço. “Já te estou a ver o sim senhor”, pensei com os meus botões e voltei a dizer que a coisa requeria mais e ulterior estudo.

Entretanto, uma epifania súbita fez-me ir dar uma volta pela Internet. Em três penadas dei com o mesmo exemplar publicitado como em “estado muito bom”, enriquecido por uma folha extra que dava conta de uma menção honrosa atribuída pela Sociedade de Geografia de Lisboa e oferecido (já com portes ultra-rápidos para Portugal) por um total de 128 euros. Dois dias depois aterrava triunfante cá em casa o Atlas que, de facto parecia saído do armazém do editor.

A segunda história tem a ver com uma versão primorosa do famoso Atlas de Abraham Ortelius, o primeiro atlas na moderna acepção do termo (o termo atlas pertencerá a Mercator mas é a Ortelius que se deve a primeira versão). Trata-se do Theatrum Orbis Terrarum, nado nos finais do sec. XVI. Ortelius contratou umas dezenas de cartógrafos, impôs-lhes as medidas – todas iguais- (1ª vez!) e publicou o belíssimo volume ilustrado e a cores. Em 1954 uma editora suíça (Sequoia) editou um sumptuoso fac-simile que teve cópia autorizada americana pela American Elseviere Pub. Comp, anos depois.

A excelente livraria Nova Eclética pela mão de um dos rebentos Gonçalves pôs um exemplar em leilão por um preço que até eu considerei baixo. Licitei pelo dobro mas não tive sorte. Alguém possuído pelas Fúrias ou outras criaturas de igual talante, atirou-se ao leilão e numa absurda corrida contra outro provável inconsciente acabou por adquirir o livro por pouco mais de seiscentos euros o que representava três vezes a minha oferta.

Desolado, recorri à Internet e, mais uma vez, um livreiro americano de Long Beach oferecia o meu actual exemplar em perfeitas condições por cerca de 180 euros transportes incluídos. A gloriosa alfandega de Lisboa ainda achou que sobre este preço total e não sobre o preço do livro (€127) havia de cobrar umas alcavalas que ultrapassaram ligeiramente a barreira dos 200 € que eu oferecera no leilão.

Curiosamente, na habitual feira dos alfarrabistas (sábados, Rª Anchieta) acabei por conhecer o comprador que vencera o leilão. Quando eu lhe disse, a pedido dele, que comprara o meu exemplar pelos duzentos e poucos euros, teve o descaramento de dizer que fora isso o que lhe custara o dele!... os ouvintes, todos alfarrabistas que conheciam a história, riam dissimuladamente para o lado.

Terceira e última: Há um “Atlas encyclopedique contenant la geographie ancienne et quelques cartes geographiques sur le moyen age, la geographie moderne et les cartes reltives a la geographie physique para M Bonne, Ingénieur Hydrographe de la Marine et para M. Desmarest de l’Academie des Sciences pour les cartes de geographie physique”, publicado em Paris, Hotel de Thou, rue des Poitevins em 1788” que não tendo a importância dos dois já citados é uma excelente peça e, no caso, a raríssima 1ª edição.

Vi-o, cobicei-o mas perante o preço (preço bem gordo, gordíssimo, a gordura em pessoa) entendi explicar ao livreiro, pessoa aliás amável e educada, que aquilo estava muito acima do que eu poderia pensar oferecer. O senhor afirmou-me que podia esperar por melhor reflexão mas eu afirmei-lhe que não perdesse a venda caso aparecesse quem estivesse disposto a abrir os cordões à bolsa. Pouco mais de uma semana depois, recebo um telefonema com uma redução de 30% do preço. Voltei a agradecer mas reiterei que ainda era muita areia para a minha camioneta. Mais uma semana e a coisa já ia nos 50%. Lá apareci e, à Lagardere, dei a minha estocada final: ofereci 40% do preço primeiramente pedido. Foi aceite! Ainda hoje me pergunto o que sucederia se tivesse oferecido, por exemplo, 30%... De todo o modo, fiz uma compra por um preço mais ou menos idêntico ao do único exemplar encontrado na Internet que, aliás era, apenas, um preço indicativo de início de leilão on line.

Estas três historietas servem tão só para demonstrar que nem sempre os preços que correm em alfarrabistas merecem crédito. De quando em quando é necessário “marralhar” como quando se vai por um quarteirão de sardinhas à peixeira da esquina.

Aliás, os livros por muita nobreza que se lhes atribua também estão sujeitos às leis do mercado e a famosa regra do preço fixo não funciona de todo em todo. Os grandes grupos (FNAC, Bertrand ou Wook) torpedeiam o preço oferecendo no mínimo um desconto de 10%. No caso da Wook ainda há a oferta dos portes de correio e por vezes mais uns truques.

 

*na gravura: frontespício do Atlas de Mercator

 

 

09
Mar17

Estes dias que passam 346

mcr

Adenda ao post das ratazanas

 

Afinal os estudantes reunidos em Assembleia Geral (ou RGA) que protestaram contra a conferência de nogueira Pinto eram 24! Vinte e quatro criaturas descerebradas que se creem portaoras da verdade revolucionária dos novos tempos. Se aquilo é uma assembleia digna de crédito eu sou um usbeque. 

Pior do que as duas dúzias de criancinhas tresmalhadas é o papel do director da faculdade uma criatura de nome Francisco Caramelo. Conhecem-no? Eu também não. Felizmente!...

Eu não sei para que serve um Director destes numa faculdade dita de Ciências Sociais e Humanas. Algo aqui está a mais, seja a Faculdade, seja a Ciência seja o Social seja o Humano. Ou então é só o presumido "director" a quem um jornalista hoje acusava de cobardia intelectual (O intelectual está a mais: aquilo é apenas cobardia pura e chã).

O Reitor da Universdiade lá tentou emendar a coisa afirmando que a conferência não fora cancelada mas apenas "adiada para momento mais oportuno" depois de um "debate alargado".Isto vindo de um Reitor apenas prova que o analfabetismo dos estudantinhos já chegou ao mais alto escalão da instituição.  

Primeiro um cancelamento não é um aiamento

Segundo, se para uma mera conferência é preciso uma data oportuna (por exemplo 30 de Fevereiro de 2045) e um debate alargado então porue chamar conferência a uma coisa que ira pelo menos ter a espessura azeda de um "seminário", quiçá de um "congresso"?

O dr Rendas, inestimável Reitor da Nova poderia ter dito. Desculpem lá qualquer coisinha. O que aconteceu foi uma burrice de 24 tolinhos e uma parvoejada de um director. Eu, enquanto Reitor, entendo que a conferência se deve fazer, e já para cortar pela raíz qualquer comentário malicioso (p.ex de um certo mcr que nos odeia). 

A posição do dr Rendas, mesmo se mais burilada do que a do Director, sofre da mesma absurda e vergonhosa doença: medo, pavor, obediência ao vozear de duas dúzias de rapazolas que mostram à saciedade não saber nada e muito menos ter a noçaõ de que "compactuar" (palavra muito em voga entre ignorantes e pretensiosos e usada na proposta da assembleia geral) substitui mal o portuguesíssimo verbo pactuar. Mas isso é gramática disciplina que provavelmente não tem curso naquela faculdade dita de ciencias sociais e humanas.

 

08
Mar17

estes dias que passam 345

mcr

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Os aprendizes de ratazana e a necessária digna resposta

(ponto prévio:não conheço e não gosto do sr. dr. Jaime Nogueira Pinto que, nos meus longínquos tempos de estudante, representava a Direita radical na Universidade. Ficou-me desse tempo uma antipatia visceral pela personagem mesmo se admita que os tempos mudam muito quando não mudam tudo. Em teoria, estou disposto até a acreditar que JNP seja actualmente um pacífico conservador pronto a aceitar a Democracia em todos os seus aspectos).

A questão: parece que o dr Nogueira Pinto ia proferir uma conferencia na Universidade Nova sobre Democracia e Populismo. E que a dita conferencia seria apadrinhada por uma organização chamada “Nova Portugalidade”.

Pelos vistos, a Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas entende que a desconhecidíssima Nova portugalidade é “nacionalista e colonialista” pelo que a conferência de Nogueira Pinto mesmo se trata de questões absolutamente diferentes sê-lo-ia também!!!

Vai daí a AE avançou com um protesto que coenvolveria ameaças à boa ordem dos trabalhos. O diligente director da FCSH aproveitou a boleia para cancelar a alegadamente incómoda conferência receando eventualmente pela vida ou pela saúde do dr Nogueira Pinto ou de qualquer eventual espectador.

Nada de novo sob a roda do Sol. Por razões não muito diferentes (sempre a ordem pública) foram proibidas as Conferências do Casino patrocinadas pelos díscolos da Geração de Setenta (o melhor que Portugal teve no século XIX).

Um bando de rapazinhos patetas e provavelmente ignorantes faz um berreiro, grunhe um par de ameaças veladas e lá se vai o verniz democrático de uma Faculdade, dos seus dirigentes e dos seus estudantes que provavelmente desconheceriam o evento na sua esmagadora maioria.

Conheço, de raspão o senhor Coronel Vasco Lourenço e a Associação a que preside (A Associação 25 de Abril onde tenho comido uns magníficos cozidos à portuguesa, numa ambiente simpático e caloroso com amigos de sempre).

A Associação 25 de Abril é claramente – e com todo o direito – uma associação progressista, conotada com a Esquerda e que reúne boa parte dos chamados militares de Abril. Nada pois que permita associá-la a Jaime Nogueira Pinto, claramente um dos vencidos do 25A.

Todavia, nem o facto de JNP ser, eventualmente, um adversário político perturbou o claro pendor democrático e abrangente da Associação 25 de Abril que, ao saber do cancelamento canalha da conferência, imediatamente pôs os seus salões à disposição do conferencista. Chama-se a isto “espírito democrático”, nobreza democrática e amor à liberdade e à discussão livre.

A associação 25 de Abril não precisava de mais louros para se estabelecer como organismo digno e relevante na sociedade portuguesa. Porém, ao perceber ameaçada uma das liberdades que fizeram nascer o movimento que lhe deu corpo e razão de ser não hesitou em mostrar o caminho. O caminho da liberdade, da troca franca e leal de opiniões. Em breve, com os amigos do costume, lá irei para mais um almoço de cozido. Desta feita, entrarei mais contente, mais grato e mais consciente de que piso uma zona livre e digna.

 

*Ao senhor Coronel Vasco Lourenço (de quem por vezes discordo) à Direcção da A25A aos seus associados e frequentadores o abraço do cronista: o 25 A faz-se todos os dias mesmo que isso pese aos imbecis de alguma associação de estudantes e aos que com eles tergiversam, fogem, escondem-se ou calam.

07
Mar17

Estes dias que passam 344

mcr

Debaixo de fogo

 

Tenho tentado alhear-me (aqui, só aqui!) da discussão política em curso no jardim à beira mar plantado. 

Não nego que depois do sufoco anterior sabe bem respirar um pouco mais à vontade.

Sabe ou saberia?

A dúvida que se põe tem alguma base. Mudaram os nossos hábitos de indisciplina económica e financeira? Alguém já tentou saber a que se deve a euforia gastadora dos últimos tempos? Será que o aumento do consumo interno apenas abrangeu produtos nacionais ou, pelo contrário, como tudo aliás indica (cfr as compras de automóveis para não ir mais longe), tal se deve à comprar de produtos importados que fundamentalmente só enriquecem alguns importadores e os países exportadores? Será que o milagre do deficit se deve a uma sábia governação ou apenas e fundamentalmente ao PERES e aos maiores cortes de sempre no investimento público? Será que, para este ano, também vão existir economias do mesmo teor ou já as esgotámos? E se sim, qual vai ser o défice (sobretudo no caso de se voltar a um investimento público já não digo idêntico ao  do plano Centeno - quem ainda se lembra dele?- mas pelo menos semelhante? Os gastos das famílias aumentaram com a consequência de uma grave diminuição do aforro privado e -paralelamente -de um aumento da dívida privada. A dívida pública cresceu. O total dos impostos cobrados não cobre a despesa efectiva. Vão ser necessários mais empréstimos para pcobrir esse diferencial. A que juros? Os bancos parecem apostados em emprestar para despesas pouco ou nada produtivas. E se é verdade que alguns parecem apostados no equilíbrio provisório das suas contas ainda ninguém exclareceu como é que a Caixa, a nossa querida, pesada, vetusta, política Caixa se distraiu em 5,5 mil milhões. Isto para já que ainda há muita conta para se fazer. 

O senhor Presidente da República anda imparável no comentário político a pontos de se poder pensar que ele presidia mais ao país quando comentava aos domingos do que agora quando nada mais faz do que andar aos beijinhos, posar para selfies e transpirar felicidade, alegria e progresso na pátria amada. Ninguém pede uma criatura carrancuda no palácio presidencial mas conviria, de quando em vez, alguma contenção, algum bom senso, alguma cautela. Isto é dito sem saudades do anterior mas sem parvamente se pensar que o país precisa de um novo Candide sem a qualidade de Voltaire mas com o pretensiosismo de Cascais. 

Finalmente duas palavras sobre Carlos Costa e Teodora Cardoso. O primeiro, convém lembrar foi nomeado em tempos do senhor José Sócrates. Passos Coelho apenas o manteve. Esta pequena lembrança vai para o distraído senhor Louça, essa espécie de catecúmeno que faz de economista nas horas vagas e que até, quem acreditaria?, o levou a "conselheiro" do Banco de Portugal (tal se deverá claro à sua experiência!) 

A segunda, que ninguém se atreve a considerar de Direita ou sequer conservadora, está sob fogo real por ter explicado que os milagres (sejam os de Fátima nos quais piamente acredita Marcelo, o quarto pastorinho, sejam os da mera economia real) têm sempre uma razão clara e evidente como já aima se disse. 

Para Costa, as "forças do progresso" (boa piada!) pedem a defenestração (coisa que nunca fizeram ao anterior titular do cargo que não viu, ouviu ou pressetiu o BPN) enquanto que para Teodora advogam o fim o do Conselho de Finanças Públicas. 

Chama-se a isto varrer para debaixo do tapete ou, pior, enterrar a cabecinha sonhadora na areia. 

15
Fev17

0 leitor (im)penitente 197

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 2

(para Nuno Canavez, intrépido livreiro da “Académica”

Os leitores impenitentes são de uma raça persistente, pacífica mas imparável. Perseguem os livros com afinco, paciência, paixão e a melhor imagem que me vem à cabeça seria aquela que mostra Camões a nadar no meio do mar com um braço fora de água segurando um punhado de folhas.

Tenho oficial e oficiosamente 60 anos redondos de comprador de livros. Usando o meu dinheiro, no caso nicial a parca mesada. Uma das primeiras livrarias onde entrei foi a “Académica”, no Porto, um alfarrabista que me ficava em caminho entre o Colégio e o Mundo (a 2ª etapa era a “Divulgação”, posteriormente “Leitura” onde deixei uma bela fortuna.)

Voltemos, porém à Académica que hoje é propriedade de Nuno Canavez. Em boa verdade, o Sr. Canavez já lá trabalhava quando eu passava pela livraria. Ali se fez o grande livreiro que hoje é, um homem que sabe tudo de livros e que não tem papas na língua. Graças ao seu saber e à sua generosidade, Mirandela dispõe de um acervo sobre a terra e sobre Trás-os-Montes sem igual em parte alguma. Canavez pesquisou, juntou, pagou e depois enviou para a terra natal mais de três mil volumes!

Todavia, não é disso que quero hoje falar mas, tão só de uma das melhores compras que alguma vez fiz na “Académica”.

Os leitores talvez desconheçam mas nos alfarrabistas há ainda o civilizado costume de entrar apenas para uma vista de olhos e, se possível, uma bela conversa sobre livros. Há sempre dois ou três contertúlios prontos a conversar sobre qualquer assunto, mormente livros.

Num dia, logo de manhã tive de ir ao centro da cidade e, despachando-me, cedo passei pela Académica. Depois de trocar duas palavras com o Sr. Canavez caíram-me os olhos em dois belos volumes, ricamente encadernados (encadernação de editor) folhas a ouro, estado impecável, edição in folio, 39x29, 1500 (mil e quinhentas!!!) gravuras, datada de 1852 se não erro. Uma beleza!

A medo, perguntei o preço. –“100 euros. Para o sr. dr. 90!” – “É para já”, respondi e saí a correr para o multibanco mais próximo para levantar o cacau.

Despedi-me, rapidamente e, ajoujado, ao peso dos dois grandes volumes, marchei para o meu quartel general das manhãs, ou seja esta esplanada de onde escrevo. E comecei a explorar a compra. Era ainda melhor do que me parecera.

Resolvi ir pesquisar o título à Internet “Tableau de Paris” de R Texier. Espantei-me ao ver os preços a que a edição corria nos mercados francês e italiano. De um mínimo de 450 até uns tremendos 900!

A manhã de sol levou-me a pensar que o livreiro, mesmo amigo, mesmo conhecedor, estaria equivocado. Aquilo, a noventinhas, era ao preço da uva mijona. Desassossegado voltei, dias depois, à livraria e prudentemente lá fui sussurrando que, se calhar, o livro fora demasiado barato, que talvez houvesse engano, enfim que talvez eu, comprador, estivesse a explorar o vendedor.

Canavez imperturbável replicou-me: Primeiro o livro era um calhamaço e já ninguém estava disposto a ter de arranjar sítio para o arrumar; depois o livro era em francês e, agora, toda a gente ignorava a bela língua e só jurava pelo inglês comercial; finalmente perguntava se os preços que eu vira eram de livros vendidos ou para venda. Tendo eu respondido que eram para venda, olhou-me triunfante e disse-me: “Viu? Ainda não os venderam pois não? Aposto que daqui a seis meses, um ano ou mais ainda por lá andam sem comprador.”.

Quatro anos depois tenho que lhe dar razão. Não garanto que seja nos mesmos exactos sites mas a verdade é que este maravilhoso “Tableau de Paris” continua à venda em vários livreiros d’além Pirenéus.

 

*não quero confundir algum leitor mais atento. De facto, existe um outro e mais famoso, “Tableau de Paris”, o de Mercier, obra notável que, porém, padece, na comparação, ao não ter uma única gravura.