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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

07
Dez17

Diário político 218

d'oliveira

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Centeno no eurogrupo

d'Oliveira fecit 7-XII-17

Parece que devemos celebrar com farto aplauso a eleição de Centeno. Pelo menos é isso que transpira abundantemente de comentários e noticiários de vária ordem e de procedência nem sempre diversa.

Qualquer leitor(a) que soubesse ler teria visto, preto no branco, em quase todos os jornais as razões que inexoravelmente apontavam para esse alto feito da lusitaneidade invencível.

Em primeiro lugar (e praticamente isso bastaria) dois governos que se podem rotular de conservadores (França e Alemanha) apadrinhavam a candidatura. Simpatia pela comédia de esquerda actualmente em exibição em Lisboa? Francamente!...

Depois, esta comezinha verdade: na balança da UE, todos os restantes lugares importantes estavam na mão dos conservadores, coisa que, como é sabido, contraria a famosa tese dos equilíbrios políticos europeus. Este lugar, aliás informal, cabia por direito à família socialista como, aliás, todos os seus representantes se fartaram de apontar. E de exigir!

Finalmente, o único candidato socialista credível e apontado como favorito (o Ministro das Finanças italiano) não podia postular pela razão simples de a Itália já ter mais que preenchido a sua quota. Acresce que Mario Draghi, o poderoso Governador do Banco europeu é italiano.

Portanto, desculparão mas o milagre Centeno não o é. Tanto mais que um doutorado por Harvard não atemoriza sequer uma criancinha que começa a aprender a tabuada. Ainda por cima, o “esquerdismo” de Centeno é manifestamente exagerado. Dois anos de governação, outros tantos de impostos indirectos e cativações provavam exuberantemente que não havia que temer que Centeno criasse bigode e pera e desatasse a bolchevizar o país e a Europa. Mais, Centeno, por estar num governo dito de geringonça, é precioso. Corta cerce boa parte do argumentário de uma certa Esquerda (e por isso mesmo já vê como BE e PC analisam com profunda desconfiança, e maior reticência, a sua eleição).

Ou será que alguém pensa, sequer divaga, sobre a conversão de dezanove países europeus e desconfiados às maravilhas (e, sobretudo, às maravalhas) da Esquerda triunfante?

Dir-se-á que, a ser assim, não se percebe a necessidade de uma segunda volta na eleição. Note-se que, mesmo sendo segredo o número de votos alcançado por Centeno nesta 2ª volta, havia na primeira o pormenor picante de haver outro candidato da família socialista. Houve necessidade de o derrotar e de lhe explicar que ou desistia a favor do candidato oficial ou oferecia de bandeja à “Direita” o último posto interessante e necessário para a família socialista.

Nada disto pretende tirar a Centeno o que é de Centeno. Convém apenas desembandeirar em arco a festa nacional e a ronaldice dominante. E, já agora, inquirir se não andaria nesta faena a mãozinha longínqua mas influente do senhor Schaubel o tal que abençoou Centeno muito antes deste sonhar com o Eurogrupo. A bênção do cavalheiro em cadeira de rodas convenceu a senhora Merkel e esta não precisou de muito para convencer Macron.

E, agora, o futuro. Que papel está reservado a Centeno na reforma, seja ela qual for, da União? Sem querer apoucar o ministro português, penso que Centeno, de per si, não irá deixar um grande traço na política europeia. Mesmo inteligente, mesmo competente, mesmo doutorado por Harvard, Centeno não sai da zona cinzenta. E, mais ainda, não tem autonomia para evitar as duas locomotivas europeias (França e Alemanha) ou, sequer a Itália e a Espanha (os dois mais importantes países ditos do Sul). Entre estes quatro (com alguma contribuição do Benelux) decidir-se-ão os próximos anos e os próximos passos.

O Senhor Presidente da República que, de quando em quando parece ter visões (ou sofrer de alucinações...) entendeu celebrar esta eleição com um suelto pelo menos (e só) original: Diz S.ª Ex.ª que “os portugueses são os nórdicos do século XXI”. Isto, se não for uma bravata, é uma tolice. Nada nos assemelha a esse mítico Norte cujas fronteiras se desconhecem (Escandinávia? Escandinávia mais bálticos? Estes mais Alemanha e Finlândia? Tudo isso e a Holanda?)

Aliás, que S.ª Ex.ª me desculpe, porque raio havíamos de ser nórdicos? O Sul, o nosso Sul, esta região de mar por todos os lados, de sol a pique, de luz intensa, de vinho, azeite e cristianismo temperado por por uma arteira tendência para desculpar o pecado é bem mais interessante que os frios e nevoentos dias nórdicos, o rigorismo luterano, a solidão imensa.

Serão ricos, são cultos, trabalham que se desunham, levam a sério as suas obrigações de cidadania e...sempre que podem escapam-se para o Sul quente, aberto, azul e generoso.

Tive disso perfeita consciência enquanto vivi na Baviera, muito perto de Munique, a cidade que os alemães preferem. Dali para a Itália é um passo que ninguém de bom senso deixa de dar. Na pequeníssima cidade onde vivi um par de meses, os restaurantes italianos, mesmo os caros, nunca estavam vazios. E aqueles teutões sólidos e bebedores de “Weissbier” entravam pelo vinho brejeiro e barato que, como o vento fohen, sobe as montanhas, derrama-se sobre faldas alemãs e enlouquece os bávaros.

O Sul, nós, não tem de ser nórdico mas apenas de expulsar os seus antigos fantasmas, aperfeiçoar as suas instituições, combater a ignorância mãe da miséria e da desigualdade. Há que voltar à Grécia clássica, à Roma construtora de estradas e do Direito, A Sócrates, Platão e Homero. A Marco Aurélio e a Cícero. Temos uma imensa herança quase intacta que conviria explorar e modernizar.

 

Até o Sr. Presidente da República ganharia em conhecer a Eneida e aquele luminoso verso “tu Marcellus eris” (En.VI, 883). Para evitar adornar-se de penas de peru julgando que são de pavão.

 

04
Dez17

estes dias que passam 363

d'oliveira

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Também tu, mcr?

 mcr 2 e 4 de Dezembro

Também, leitoras e leitores amigos mesmo se escassos. A minha vontade, confesso-o já, era passar ao lado, assobiar uma modinha e fingir que estava distraído. Mas isso, convenhamos, é impossível. Há mortes que fazem um tal arruído (escrevi arruído, à moda de Fernão Lopes) que não há escapatória possível.

No meu caso, por várias razões sendo que a principal é o facto de ser leitor do “Público”. Leitor desde o primeiro dia com a mesma devoção que me liga a “Le Monde” e a “L’Express”, publicações que compro e leio desde os inícios dos anos 60. Os tempos eram outros, é verdade, mas foi com esses órgãos de imprensa que me formei. Em plena guerra da Argélia, é bom recordar. Numa altura em que era difícil discordar do governo da França e apontar o dedo contra a persistência de mitos como o da pátria indivisível. Hoje qualquer deles mostra cicatrizes e diferenças. Como o Público, claro. Todavia, o caminho do jornalismo livre e independente é mesmo assim. Mudam os tempos, mudam as causas mas não o espírito “frondeur” que, provavelmente amortecido, ainda mantemos mesmo com o passar dos anos, a experiência, as ilusões desfeitas, a “áspera verdade” (Danton) e o inevitável balanço que qualquer um de nós tem (deve) de fazer sob pena de ignorando-o se transformar no papagaio de Long John Silver.

Deixemos, porém, a “Ilha do Tesouro” e passemos à morte do moderno fazedor de tesouros que hoje irá a enterrar: Belmiro de Azevedo, o homem da Sonae, da Optimus, do Público. Morre carregado de um coro de elogios vindos das mais diversas personalidades muitas das quais ele, com algum humor, outro tanto de sarcasmo e muita malícia, foi alfinetando. Bastaria o exemplo de Marcelo Rebelo de Sousa de quem BA disse o que Mafoma não se atreveu a dizer sobre o toucinho. O mais interessante da farpa “belmiriana” é ela acertar em muitos dos pontos fracos de MRS que do comentário do empresário sai muito mal ferido, as mais das vezes com inteira justiça.

Eu nunca falei com a personagem que, de resto, não me fascinava especialmente. Não que não lhe admirasse a habilidade e o gosto pelo risco ou o facto de, ao contrário da grande maioria dos seus colegas, ter criado na Sonae e nos restantes universos empresariais que criou uma verdadeira “cultura de empresa” que, desde cedo, foi claramente visível. Desafiou os poderes do Estado e nem o PREC o conseguiu dobrar. Foi, nessa altura, defendido pelos seus empregados e colaboradores que, como ontem alguém referia, chegaram a fazer uma “greve ao contrário” contra os apetites perigosos de um “Estado” inimigo da iniciativa privada e ignorante do que uma empresa moderna era. As batalhas que perdeu, e o caso da PT é exemplar, perdeu-as na secretaria por batota governamental. A história é o que é mas apetece pensar no que a PT seria gerida por Belmiro. Pior não estaria e é mesmo altamente provável que estivesse muito, mas muito melhor.

Já escrevi que nunca o conheci (nem fiz por isso, aliás). Limitei-me a avistá-lo muitas manhãs de sábado ou domingo a caminhar pelo Molhe metido num vulgar (aliás feio) fato de treino. O homem que passava não parecia rico nem pretendia parece-lo. De certo modo, até essa simplicidade sabe a virtude.

De todo o modo, devo-lhe o “Público”, um jornal que leio desde o primeiro dia e que é uma excepção no panorama jornalístico nacional. Zango-me com o jornal duas ou três vezes por mês mas sei que isso só melhora a relação leitor-jornal. É são discordar. É são irritar-me com certas opiniões ou editoriais. Mas esse é o preço que gostosamente pago diariamente para ter uma informação decente, equilibrada.

Belmiro de Azevedo nunca terá ganho dinheiro com o “Público”. Consta mesmo, que até o perdeu. Aliás, tenho uma prova viva disso. Fui, há largos anos, convidado para colaborar regularmente com uma coluna semanal (ou quinzenal já não recordo). O convite foi aliás repetido durante uns tempos mas tempos de austeridade posteriores deixaram-no sem efeito. Graças a isso, juntei um quarteirão de crónicas que mais tarde com mais alguns acrescentos publiquei em livro. Sem o convite do Público nunca as teria escrito e, provavelmente, nunca teria tido a oportunidade de corresponder ao convite para vir a integrar a equipa deste blog onde escrevo de forma regular há mais de dez anos. Foi bom, foi mau? Só os meus leitores e leitoras poderão responder. A mim dá-me gozo e Belmiro de Azevedo com o seu gesto de criar um jornal (ou de o pagar incondicionalmente) deu-me a coragem para estar aqui a crocitar constantemente contra o estado a que isto chegou.

Para terminar: fala-se muito na coragem de Belmiro em criticar sem receio o poder político. Convenhamos: o homem tinha poder suficiente para o fazer sem temer retaliação. Em vez de coragem, prefiro pensar que ele era profundamente independente dos pequenos potentados que por aí pululam. Mas a independência também tem os seus custos e a PT ou o BPA são disso inequívocos sinais. E isso não é pouco, bem pelo contrário.

R.I.P.

PS: morreu Zé Pedro, guitarrista do Xutos e Pontapés. Não era a minha música, pouco o ouvi mas que ele marcou, e muito, a música ligeira portuguesa, não há dúvidas. E pelo que vi na TV de entrevistas dele, havia ali, um lado luminoso e digno de estar na música e na vida. Só isso já faz uma personalidade.

R.I.P.

 

* razões de pura preguiça atrazaram este post escrito no quente dos acontecimentos. Estive para não o publicar mas o que lá digo diz-se em qualquer momento. Sai hoje sem modificar uma única letra. Preguiça e teimosia e, provavelmente, muita pretensão, são as minhas coordenadas e um pouco o meu compromisso.

24
Nov17

O leitor (im)penitente 206

d'oliveira

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 8

(nem tudo o que luz é ouro; nem todos os alfarrabistas são baratos)

 

mcr 24.11.17

 

Há mais de um ano, um alfarrabista portuense telefonou-me com um curioso pedido: tinha adquirido uma obra e, nada sabendo sobre ela, pedia-me uma opinião. De facto, ando, há já tantos anos, a comprar (e a ler, e a estudar) literatura sobre a expansão portuguesa que a pergunta fazia sentido. Aliás, esse mesmo livreiro já me tinha vendido diversos livros sobre o tema.

No caso em apreço, ele queria informar-se sobre uma obra em dez volumes mas apenas cinco partes intitulada “Primeiro congresso de história da expansão portuguesa no mundo” .

Lá o informei que, efectivamente, no seguimento dos trabalhos desse primeiro (e suponho que único) congresso, se tinham reunido em volumes todos os trabalhos apresentados mesmo se também circulasse um copioso número de separatas sobre diferentes teses apresentadas.

Que a obra, melhor dizendo a edição, estava datada de 1938 e que conhecia e possuía oito dos dez volumes, comprados aqui e ali, a preços relativamente moderados (entre 15 e 25 euros), provavelmente por se tratar de volumes isolados.

Disse-lhe também que estava interessado nos dois volumes que me faltavam.

Dias depois, caiu a resposta: o livreiro só vendia a obra na totalidade e fixava um preço: 500 euros.

Achei excessivo o preço tanto mais que, além da minha informação ele não conseguira nenhuma referência quanto a preços. Perante a sua recusa em negociar, desisti e ao longo dos meses que se seguiram fui alertando outros alfarrabistas. Há pouco tempo, o senhor Gonçalves da “Nova Eclética” (Lisboa) avisou-me que tinha algo para mim, pedindo-me que o visitasse. O pedido era desnecessário pois aquela livraria faz parte obrigatória do meu percurso mensal dos alfarrabistas lisboetas.

Ontem, fui visitá-lo e descobri que o livreiro me guardara (sem compromisso!) o obra em causa, magnificamente encadernada e num surpreendente bom estado. Como sabia que eu tinha vários volumes, propunha-me a troca por um preço global que andava na média dos praticados. (Aliás, da “Nova Eclética” eu levara um ou dois volumes soltos). Mesmo contando com o que entretanto gastara, a peça ficou-me mais barata do que a que me era proposta no Porto. Com a enorme vantagem da encadernação. É que encadernar dez volumes em “meia francesa”, cantos e lombada em pele, fica no mercado pelo triplo do que paguei.

Esta pequena aventura ilustra, também, uma outra verdade: em Lisboa, porventura por ser um mercado maior, quer em clientes quer em vendedores, os preços são notoriamente mais baixos do que no Porto (com a excepção da “Livraria Académica” que tem um enorme “fundo”). E, nesta última cidade, há mesmo dois ou três casos de preços quase escandalosos. Como exemplo, basta este: publicou-se entre o final dos anos 30 e 1986 um “boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais” (ao todo 131 números mais cinco edições não numeradas). Comprei a quase totalidade dos meus exemplares em Lisboa ao preço médio de 10 euros. Os que faltavam vieram, com excepção de um, do Algarve e com portes de correio ficaram entre 15 e 20 euros. O único exemplar comprado no Porto custou-me €35 !!!

 

 

23
Nov17

Au bonheur des dames 437

d'oliveira

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Santana, regressa que estás perdoado...

mcr em 22.11.17

 

Quando o inestimável dr. Santana era Secretário de Estado da Cultura teve, entre muitas, uma ideia brilhante: deslocalizar a sede da Delegação Regional do Norte da Secretaria de Estado da Cultura. Do Porto onde estava instalada num belo palacete e onde está inserida a Casa das Artes, exilou-a para um cave em Vila Real, cidade como se sabe muito central para quem viva em Chaves. E, a partir daí, foi o que se viu. Da DRN nem novas nem mandados. Dos funcionários, cerca de 20, alguns mudaram-se para outros organismos e os restantes foram para casa onde todos os meses e ao longo de muitos e muitos anos chegava o ordenado.

Pela parte que me toca (relembro que era, na altura, Delegado Regional) demiti-me e fui procurar ser útil na Segurança Social, onde já estivera. E aí permaneci até à reforma. Tentei, baldadamente, convencer os governos socialistas (a partir de Guterres) da necessidade e da utilidade de “reverter” a tola medida de Santana. Nada! Foi preciso aparecer o governo Passos Coelho para o Delegado (agora Director) Regional aparecer definitivamente no Porto. Desconheço se na cave de Vila Real ainda vegeta algum serviço descentrado ou se, de uma vez por todas, se acabou com aquela fantasia imbecil.

Elos vistos, o dr. Costa entendeu agora refazer o percurso errático de Santana e transferir sem dizer “água vai” o INFARMED para o Porto.

Nem funcionários (quase quatrocentos!) nem a direcção sabiam da empreitada. A Câmara do Porto, ao que consta, ficou surpreendida pela benesse governamental. Num primeiro momento, Rui Moreira, um homem reconhecidamente inteligente, engasgou-se e falou de “ressabiamentos”. Não sei se se referia a trezentos funcionários e centenas de familiares que, de súbito, viam a sua vida ameaçada. Sei que apenas vinte funcionários aceitavam ir para o Porto. Os outros trezentos e tal devem ser os “ressabiados”...

Desconheço as “razões” do bodo que Costa quer oferecer ao Porto e, sobretudo, julgo que não poderá transferir ninguém contra vontade visto que a distância mais que decuplica aquela que se considera aceitável para forçar uma mudança de local de trabalho.

Assim sendo, temos que o Governo parece querer aumentar em mais de três centenas o número de funcionários públicos ou num regime semelhante e de efeitos semelhantes. De facto, não vindo os trabalhadores actuais do Infarmed para o Porto, haverá que recrutar outros in loco. E prepará-los, ensiná-los e garantir que serão, no mínimo tão eficazes quanto os que ficaram em Lisboa.

Claro que os “ressabiados” poderão ser alvo de chantagens várias, coisa que também não é de todo desconhecida na função pública. Sugestão aqui, ameaça acolá e a barca vai andando aos bordos sempre perto do naufrágio.

Uma das coisa que mais me espanta (ou nem isso, que eu já conheço as linhas com que um cidadão precavido se cose) é a falta de declarações sindicais ou de partidos ditos “amigos dos trabalhadores”. Nada! (pelo menos até hoje quinta feira).

E, já agora, tentemos perceber o que é que se passa na cabeça dos governantes. Quererão, bondosamente, compensar o Porto pela “perda” da Agência Europeia do Medicamento? Mas será que alguma vez alguma dessas fosforescentes criaturas governamentais sequer sonhou em ganhar a AEM? Desconheceriam (tudo é possível sobretudo para as risíveis mediocridades que trataram do dossier e informavam –intoxicavam – os media nacionais) que só por milagre da Rainha Santa, dos pastorinhos e do beato Nuno (todos juntos mais a “santinha da Ladeira” e a Senhora de Fátima) é que seria possível escolher o Porto?

Num país desvairado pelos fogos, pelo turismo que foge a sete pés do Mediterrâneo perigoso (e de Barcelona que registou este mês menos quarenta (40%) por cento de entradas de turistas e pela obra “intangível” (cfr. Cunha Leal) da geringonça, tudo é possível mas isto (a vinda da AEM) roçava as raias do delírio. O Porto pode ser muito giro para dois dias de trânsito turístico mas só por dois dias. É verdade que tem o dobro dos dias de sol de Amsterdão, metade do custo de vida de Milão e infinitamente menos racismo do que Bratislava. E que há mar menos poluído do que o Báltico ou o mar do Norte, um clima mais ameno do que noutras cidades concorrentes. Todavia, em termos europeus, é, definitivamente, uma cidade periférica. Tanto ou mais que uma romena ou finlandesa Que justamente também não abicharam nada.

Aliás, os funcionários da AEM já tinham manifestado a sua má vontade em vir para Portugal. Tanto ou mais quanto em relação a Bratislava.

O Porto ficou num “honroso” sétimo lugar, ao que sei. Eu, nestas coisas, sou muito pão, pão, queijo, queijo. Só um lugar interessa: o primeiro. O resto é lirismo nacionalista para entreter ingénuos.

Aliás, suponho, que no Porto ninguém acreditava neste milagre das rosas moderno. Por junto, as pessoas, usavam o mesmo raciocínio de quem aposta no euro-milhões: sem nos habilitarmos é que não vem prémio algum. E no dia seguinte, no quiosque do costume, compra-se o jornal e volta-se a preencher o papelinho. Não ficamos mais pobres mas, contra milhões de probabilidades, podemos ficar mais ricos. E durante dois dias gozamos que nem cabindas a pensar no que faríamos aquela dinheirama toda.

Voltando, porém, à vaca fria, quem por estes momentos andará por aí preocupado, angustiado, aflito ou indignado é o lote de funcionários do Infarmed que, como prenda no sapatinho, se vê estúpida e desnecessariamente (e ilegalmente) ameaçado pelo Governo.

O dr. Santana Lopes deve estar a babar-se: afinal as suas tolas mudanças de sede de organismos da ex-SEC estão justificadas. Convirá preveni-lo que uma burrice não apaga outra burrice. Apenas aumenta a primeira. Ouviu, dr. Costa?

 

*A Ilustração não pretende chamar seja o que for aos senhores Santana e Costa. Quanto mais não seja porque, os burros não são, como se poderia pensar, estúpidos. Bem pelo contrário são animais bem mais interessantes do que muitos humanos que por cá peroram e se mexem. 

22
Set17

Estes dias que passam 362

d'oliveira

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Lá sair saímos. Para onde?

 

(mcr 22.9.17)

 

“…O jovem Alexandre conquistou a Índia.

Sozinho?


César bateu os gauleses.


Não levava sequer um cozinheiro?”

(Brecht Perguntas de um operário leitor)

 

Se é verdade que a culpa morre solteira, não menos verdadeira é a afirmação de que a vitória é de todos.

Nem tanto ao mar, nem tanto ao mar... De vez em quando lá se descobrem (e se punem) uns culpados como nem sempre a vitória é colectiva.

Vem isto a propósito da saída de Portugal do lixo recentemente aprovada pela Stanley & Poor’s. As parangonas foram gigantescas, o júbilo da imprensa e de alguns políticos alcançou o nível 5 mas talvez convenha alinhar algumas verdades sobre esta missa cantada. Sair do lixo, mesmo que seja para um grau muito abaixo do desejável (e da média da Europa) é para qualquer português uma boa notícia.

Atribuir os louros desta declaração de uma (entre três) agências de rating a um só protagonista é que me parece uma tolice quando não uma vigarice.

Quem me foi lendo ao longo dos anos, sabe a fraca opinião que sempre tive do governo anterior. Houve mesmo leitores que se zangaram: que eu era injusto, que tinha uma agenda própria contra o centro-direita, que fazia propaganda pela esquerda, sei lá que mais. Liam-me vesgamente e já não se lembravam do que eu escrevera sobre Sócrates. Ou sobre Durão Barroso e o great portuguese disaster que no século se chamou Santana Lopes.

Convenhamos, desde a desilusão Guterres que não me sinto especialmente comovido, muito menos entusiasmado, com os sucessivos primeiros ministros e respectivas equipas que nos atropelam. Na melhor das hipóteses roçaram o sofrível mas depressa, muito depressa, caíram no fosso da mediocridade.

Portugal, os portugueses, aguentou estoicamente, como de costume. Gente habituada a uma terra sáfara entre a praia e a montanha pobre, fez das tripas coração e desandou por esse mundo fora. Onde menos se espera, encontramos um português desde aquele Gastão, amigo de Sandokan e casado com uma “rani” indiana até ao senhor Oliveira da Figueira com que Tintin se cruza em “OS charutos do faraó”.

Isto, esta presença modesta mas múltipla de portugueses por esse mundo de Deus serve para vir dizer que esta saída do lixo se deve a muita gente, desde, obviamente, os actuais governantes, ao inditoso Passos Coelho e, muito, a todos os paisanos que aguentaram os anos duros.

Num texto anterior às últimas eleições legislativas, eu dava conta de alguns sinais ténues mas dignos de nota de uma clara melhoria da situação e da sua percepção pelos portugueses. Aliás, baseado nisso mesmo, eu prevenia Costa que as eleições poderiam não ser, como não foram, um triunfo para o PS (obviamente não previa –nem ninguém que eu saiba- a constituição da “geringonça”, tanto mais que, naqueles ásperos dias, PC e BE rivalizavam em duras acusações ao PS).

Centeno e Costa teriam metido um formidável golo ao PSD e ao CDS se, com naturalidade e verdade, os tivessem associado –ainda que minimamente – à saída do “lixo”. Tanto mais que ainda faltam duas agências, a dívida pública é o que é e o nosso progresso é acompanhado (e até superado) pelos nossos parceiros europeus.

Há, entre certos comentadores e, sobretudo, em certos dirigentes partidários, uma ideia de que as agências de rating são uns monstros que, ainda por cima, não proveem de uma votação democrática (!). Isto é uma chapada parvoíce porquanto esta boa gente parece ignorar tudo sobre as ditas agências. Ninguém, nenhum país, está obrigado a consultá-las, a ouvi-las a segui-las. Sobretudo quando se sabe que pagam generosamente os serviços de rating! Todavia, os investidores (grandes e pequenos e mesmo pequeníssimos), à falta de melhor indicador (que não há) apostam os seus dinheiros no parecer destas instituições que, como milhares de outras estabelecem paradigmas, limites e vias para o investimento. Só a bronquidão dos fanáticos é que vê nisto mais fantasmas do que os que não existem.

A segunda (conveniente) consequência de associar os partidos da oposição (mesmo em porção meticulosamente côngrua) a esta nova situação é que assim, também, porventura indirectamente, se “amarravam” estes a parte das políticas e dos desígnios prosseguidos pelo Governo e (eventualmente) se salvaguardava alguma distância para com o PC e o BE. Que, aliás, contribuíram, e não pouco, e a contragosto, para o clima de paz social que influenciou a decisão da Stanley & Poor’s.

Finalmente, é bom não esquecer que, como acima se diz, esta saída é ainda muito pequenina. Estamos muito longe do AAA e bastante longe da média dos nossos parceiros na UE. Digamos: estamos melhor do que a Grécia mas isso não é sequer uma pequena alegria. 

15
Set17

Au bonheur des dames 420

d'oliveira

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Escrever à Sr.ª Aung San Suu Kyi

 

(mcr  15.09.17)

 

Se valesse a pena, escreveria a esta Senhora por cuja liberdade, tantos e tantos de nós se bateram. Durante anos a fio, fomo-la recordando, ao mesmo tempo que condenávamos a Junta de generais birmaneses que a reduzia à prisão em casa.

Valeu a pena? Claro que valeu. A liberdade mesmo de uma só pessoa é sempre melhor do que a privação dela.

Esperávamos algo em troca? Pela parte que me toca, bastava-me a ideia de que, uma vez livre, Suu Kyi conseguisse trazer a democracia ao seu povo. E a democracia significa, desde logo, liberdade, igualdade de oportunidades, respeito pelos direitos humanos, pelas crenças legítimas de todos.

Já, no tempo obscuro em que Suu Kyi estava prisioneira em sua própria casa, se falava de uma minoria muçulmana, distante e perdida nos limites do país, os Rohingya. Eram também os mais afastados do progresso que eventualmente poderia cair sobre os habitantes, os mais mal servidos em conforto, assistência, habitação se é que na Birmânia/Myamar se pode falar disso.

Não se esperava de budistas piedosos uma tão grande aversão e um tal desprezo por compatriotas que não ameaçavam nada nem ninguém e que, por junto, estavam unidos pela religião muçulmana, situação absolutamente espectável numa região que está paredes meias com o Bangladesh, também ele muçulmano. E miserável, acrescente-se.

Desde a libertação de Suu Kyi e da vitória eleitoral do seu partido, do acordo celebrado entre os seus adeptos e os militares, não só os Rohingya não viram melhorada a sua situação mas, pelo contrário, viram a repressão abater-se sobre as suas paupérrimas e longínquas aldeias.

Foi essa a origem duma incipiente e frágil revolta de gente inerme e praticamente desarmada. Gente que, ainda por cima, estava longe de tudo e, pelos vistos, até de Deus seja ele qual for.

Não é caso único. Há cinquenta ou sessenta anos que se fala do Darfur, do Sul do Sudão, das profundezas do Congo ex-belga. Ou da minoria berbere. Ou de curdos perseguidos e dizimados pela Turquia, pelo Irão, pelo Iraque e pela Síria. Ou das minorias muçulmanas nos confins da China. E por aí fora.

Tem todos em comum a miséria, o facto de serem minorias étnicas, linguísticas ou religiosas e, sempre, pobres e isolados. E sem voz. E sem representação nos governos dos países onde mal sobrevivem. Os do costume. Os verdadeiros “condenados da terra”, que Fanon me perdoe.

Sei bem, mais que bem, que um blog é só um blog. Que não influencia ninguém ou, na melhor das hipóteses um punhado de leitores, tão inermes quanto quem estas linhas vai traçando. Todavia, o silêncio é ainda pior. Pior até que a indiferença porquanto quem silencia sabe o que se passa quando a maior parte das vezes o indiferente ou não sabe, ou não percebe.

Receio, porém, que não valha a pena escrever à Sr.ª Suu Kyi. Alguns dos seus súbitos defensores afirmam que o silêncio dela tem um motivo: defender a frágil convivência semi-democrática que se vive em Rangun. Navegar entre o escolho dos militares e a multidão budista que sofreu anos de opressão.

Todavia, isto, mesmo se fosse assim, tem um preço. E esse é a morte, a expulsão dos Rohingya e a repressão que sobre eles se exerce impiedosa e brutal. É uma falsa e má contabilidade. E uma desculpa, que me perdoem os defensores de Suu Kyi (que, à cautela, não irá à Assembleia Geral da ONU) que nada resolve, tudo agrava e destrói uma biografia.  

 

 

04
Set17

au bonheur des dames 419

d'oliveira

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a história como "eles" a contam

 

(mcr 4-09.17)

 

A “tv memória” (ou algo com um nome semelhante) tem ocupado o Verão a transmitir uma versão “aligeirada” (demasiado aligeirada, mesmo) da história recente em que avulta uma espécie de hagiografia da 1ª República. Aquilo, mesmo descontando o tom enternecido com que se olha para aquele período histórico, é fraquinho cientificamente para não falar na pobreza franciscana da realização.

Desta feita, voltou à baila a Dr.ª Carolina Beatriz Ângelo, uma das primeiras médicas formadas em Portugal no que viria a ser a futura Faculdade de Medicina de Lisboa.

Beatriz Ângelo foi uma ardente e respeitada sufragista, republicana e admiradora de Afonso Costa de quem ela dizia ser “uma das poucas pessoas de valia no PRP”. Tendo enviuvado cedo, tornou-se chefe de família e foi nessa qualidade que tentou e conseguiu votar nas primeiras eleições realizadas pelo novo regime (1911, se não estou em erro). Conviria reparar que em tais eleições não só não estava reconhecido o direito de voto das mulheres, 1ª causa das republicanas portuguesas, como também se assistiu a uma gigantesca contração do corpo eleitoral, truque usado para permitir que o republicanismo vitorioso nas ruas de Lisboa não fosse derrotado pelos eleitores da “província” “reféns”, como se arguia, do clericalismo e dos cacique monárquicos. Com um segundo pormenor anedótico: onde só houvesse uma lista (a republicana) nem havia a maçada de ir a votos.

Para votar, a dr.ª Beatriz Ângelo teve de recorrer de uma primeira recusa e, mesmo em plena sala de voto, ainda se lhe levantaram dificuldades. Convém relembrar a famosa e inovadora sentença do juiz João Baptista de Castro que contundentemente declarava a exclusão das mulheres como ilegal e absolutamente injusta, mandando em consequência que se inscreve nos cadernos eleitorais o nome de Beatriz.

Teria sido bonito (e justo) relembrar este digníssimo juiz cuja sentença correu meia Europa pelo que tinha de inteligente e de progressivo. Mas não: os tolos, para alevantar Beatriz, ocultaram João Baptista!

Posteriormente, não só o seu voto foi anulado pelo Congresso da República mas saiu legislação a proibir expressamente o voto das mulheres. Parece que a elite republicana temia que a Igreja influenciasse estas e derrotasse a “justa causa” da liberdade e da fraternidade.

Seria apenas com o negregado dr. Salazar que as mulheres alcançariam o estatuto de eleitoras e elegíveis para a Assembleia Nacional. A coisa terá ocorrido nos anos trinta, vinte e tal anos depois do gesto de Beatriz.

Salazar, pressentia que o género feminino escolheria a opção conservadora, a “ordem”, a tradição e a respeitabilidade.

(aliás, recordo, sem emoção, que, ainda nos meus tempos de estudante em Coimbra, se atribuía às “raparigas” nossas colegas um facataz pela Direita que, na verdade, nunca se verificou, pelo menos de forma especialmente ameaçadora. No fundo, a ideia que primava era a de que as mulheres tinham uma fraca sensibilidade política e, sobretudo, eram profundamente influenciáveis por pais, maridos, familiares, padres e sei lá quem mais. E eram mulheres...

Voltando às nossas devoções: evocar Beatriz Ângelo e o seu voto sem, depois, contar o resto da história que é bem mais importante do que o gesto inicial é na melhor das hipóteses uma grave omissão e na pior uma clara falsificação da História. Inclino-me para este segundo caso dado o tom geral dos documentários produzidos in illo tempore sobre a !ª República de que, aliás, são um pobre e triste exemplo as séries dedicadas aos primeiros presidentes da República também eles apresentados em perfil angélico e, sobretudo, baço no que toca a questões essenciais. Não se chega a perceber o que é que distinguiu Arriaga, Teófilo Braga ou Bernardino Machado dos seus amigos e adversários. Alguém me dizia: não te preocupes, aquilo são filmes para consumo das massas e só passam à hora das novelas, ou seja, acabam por ser invisíveis e de pouca mossa.

De certo modo, o meu interlocutor tinha razão: só um velho chato e rezingão, eu, é que se dá ao trabalho de se indignar com esta história alegre e simplificada de Portugal.

 

* em tempo: Carolina Beatriz Ângelo começou a sua carreira de médica em 1903 e a política em 1907 vindo a morrer em 1913. É pouco tempo para se falar de uma carreira política, mesmo se ela fez parte do primeiro grupo de mulheres republicanas. A ideia que fica, sem desprimor para a sua coragem e determinação, é a de um exemplo que não teve tempo para frutificar e deixar obra.

 

27
Ago17

Estes dias que passam 361

d'oliveira

Revisões da matéria dada (variante terceira)

mcr 26.Ago.17

 

Há dez anos, porventura onze, publiquei aqui o texto que abaixo se reproduz.

Tratava-se do "estes dias..." nº 74

 Razões de mera arrumação da minha escrita pregressa fizeram-me dar com ele e verificar a sua terrível actualidade. Republico-o agora sem lhe alterar nada, ou tão somente alguma gralha ou virgula defeituosa. 

 

 

A imaginação nunca ultrapassa a realidade

 

De quando em quando, escrevo aqui umas balivérnias que leitoras condescendentes interpretam como frutos da minha imaginação. E, de facto, sob um fundo pesado de realidade lá vou vaporizando as minhas peças de alguma imaginação.

Hoje, todavia, renuncio de todo em todo à cavalgada imaginadora das minhas “pequenas células cinzentas”, como diria o inestimável Hercule Poirot. E se falo no belga filho da imaginação da senhora Christie é porque o tema de hoje lembra um mistério desses difíceis com que a velha dama nos divertia. É, na verdade, um mistério a boa imprensa de que gozam, entre nós, alguns países, ou melhor os governos de alguns países espalhados por essas vastas geografias de medo e infâmia.

Comecemos pela Venezuela, hoje dirigida por um antigo putchista da direita mais militarona e reaccionária. De facto o senhor Chavez, o arauto de uma rocambolesca revolução bolivariana, começou a sua discutível carreira de estadista, tentando levar a cabo um desditoso golpe nos anos 90 contra o presidente legal Carlos Andrés Pérez. A jogada deu para o torto, ele terá feito quase dois anos de prisão suave e, para espanto dos que ainda se espantam, conseguiu ganhar as eleições presidenciais em 98. Depois, tem sido reeleito. E com margens importantes, há que dizê-lo. O dinheiro do petróleo (cujos preços estão desde há muito em alta) redistribuído em parte pelos mais pobres, pelos militares (ai não!) tem disfarçado a ausência de política e de clareza no discurso populista de Chavez. A América do Sul tem visto outros aprendizes de ditador, tem assistido ao corte crescente das liberdades, ao cantonamento das oposições (cuja inteligência política é inversamente proporcional ao amor ao poder e aos seus mais evidentes frutos) e à lenta edificação de um estado policial. Cá pelo burgo, parece que alguém terá achado que Chavez é o Messias da esquerda. A idade não perdoa, é o que é. Genericamente, os europeus vão dialogando com Chavez tanto mais que o seu petróleo é menos incerto que o da península arábica. Depois, quando acordarem, será tarde.

Não abandonemos este desamparado continente sem referir uma vez mais a infâmia que se representa nas florestas colombianas onde um partido “revolucionário” detém umas centenas de reféns. Desta vez há notícia da morte de uma série de políticos colombianos, que alegadamente terão sido vítimas das tropas governamentais. Digamos para já que, a ser verdade a autoria da tropa governamental, sempre haverá uma certeza: os reféns serviram de escudos humanos. Todavia, não é difícil imaginar que estas mortes se reduzem a meros assassínios de futuros opositores das FARC se e quando estas forem um partido político legal.

Um passeio agora por África, mais precisamente por um país que, custa dizê-lo registava ainda há uns dez, doze anos, alguns índices de prosperidade: o Zimbabwe. Convirá esclarecer algum leitor desatento que, desta banda, nunca se louvou o senhor Ian Smith um dos aliados racistas de um Portugal antigo que não para de renascer. O senhor Smith conseguira, todavia, criar um país com uma sólida economia agro-industrial, nas mãos dos brancos evidentemente. Os negros faziam de paisagem, de boys, de trabalhadores agrícolas como é costume. A estrutura económica que passou intacta para as mãos rapaces de Mugabe pospunha a manutenção das grandes fazendas, mesmo se nacionalizadas. A sua divisão arruinou os trabalhadores agrícolas das antigas fazendas, destruiu a exportação, substituindo-lhe uma economia de subsistência que nem isso chega a ser. O Zimbabwe tem fome. Fome como nunca teve num passado recente e infame. E tem uma ditadura que deve fazer empalidecer de inveja o velho Ian Smith hoje exilado no Cabo. Mugabe vai liquidando metodicamente os opositores políticos, negros desta vez, enquanto o pais soçobra no caos. A Europa torce-lhe o nariz mas os africanos recusam-se a condená-lo. E convenhamos que os ingleses também não o molestam demasiadamente. Ao que parece os mortos actuais já não comovem as consciências democráticas como há anos. A diferença deve ser esta: agora são os negros que matam os outros negros. Logo está tudo bem. Não há colonialismo.

Daqui até à Líbia vai um salto. Por cima do Darfur e do seu imenso desastre. Curiosamente, o meu primeiro sogro, Jorge Delgado ofereceu-me ainda nos anos 60 uma brochura sobre o Darfur, comprada na “Joie de Lire” do François Maspero. Um escândalo que dura vai para cinquenta anos já o não é. O que me admira é que ainda aí haja gente para morrer. Os pretos têm a pele dura, dizia-me um amigo também negro, angolano, assassinado pelos nitistas, em Angola. Teve sorte: provavelmente o MPLA também lhe trataria da saúde, mais tarde.

E a Líbia? Pois a Líbia é o que sempre foi: Kadafi um iluminado sentado em cima do petróleo (que tanta falta faz) continua a sua “revolução verde” (esta gentinha adora falar de revolução!) e faz-se rogar pelos ocidentais. Desta feita, é um processo kafkiano que me traz este personagem à caneta. Meia dúzia de enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano acusados de inocularem vírus mortais a umas centenas de crianças líbias, viram confirmadas pelo Supremo Tribunal as penas de morte. Agora, dizem os nossos jornais, resta apelar a Kadafi. O que vai ser feito, obviamente. Ou seja a campanha de branqueamento do cavalheiro entra numa fase superior, como se dizia nos velhos tempos de “análise concreta da situação concreta”. Vai uma apostinha em como ainda veremos Kadafi ser recebido como benfeitor da humanidade em Bruxelas?

Ou em Varsóvia, já agora e para terminar. Eu confesso que nada tenho contra os polacos, bem pelo contrario, adoro Chopin e fui principescamente recebido pelos meus amigos de Varsóvia quando, in illo tempore, fui visitar uns colegas do Direito Comparado. Detestei a atmosfera política, o medo, a pobreza, o desespero dos meus amigos, tanto quanto apreciei a gentileza deles, a cultura, a amizade demonstrada e a dignidade de um povo que não se submetia.

Que esse povo seja agora governado por uma parelha de gémeos abaixo de qualquer classificação é coisa que me consegue ainda espantar. É que a coligação que governa a Polónia e que ostenta aquelas duas criaturas à frente do Estado e do Governo não é sequer conservadora, mas retintamente reaccionária. Eu nem falo da homofobia, coisa que ainda conseguiria vagamente perceber dada a profunda religiosidade polaca que além do mais é um factor de unidade nacional e lhes permitiu sobreviver ao período soviético. Isto não significa que não condene as perseguições de rua e legais à minoria sexual, claro. Não consigo entender as leis sobre as provas de cidadania reiteradas à caça de antigos polícias, de colaboradores do antigo regime, de gente que se calou ou que não se manifestou (como se isso fosse possível!...). Actualmente o ambiente tem piorado: os gémeos não só se recusam a aplicar fartas doses de legislação comunitária como entendem chantagear a Europa, desenvolver uma campanha inaudita contra a Alemanha e tentar obter para o seu país (que entretanto assinou com uma mão distraída os tratados que agora alegremente pretende modificar a seu favor) condições de privilégio que nada fundamenta. Os manos Kakzinsky conseguiram o impossível: nomearam uma senhora mediadora para os direitos da infância cuja primeira missão foi despistar “a publicidade subliminal da homossexualidade nuns bonecos infantis – os teletubbies – porque um usava um saco vagamente feminino...

Uma Europa onde esta gente tem entrada não é só triste. É ridícula.

Espero que ao escrever isto num blog não esteja a infringir uma regra de ouro inventada por uma senhora Secretária de Estado que entende que o humor (aqui dolorosamente em falta, mas enfim...) sobre personalidades fica bem em casa, eventualmente numa rua escusa, na praia (se deserta) ou num campo de concentração. Esperemos que os blogs hoje tão na mira dos zelotas e dos filisteus entrem nessas categorias de inocência confirmada.    

27
Ago17

Estes dias que passam 361

d'oliveira

Revisões da matéria dada (variante terceira)

mcr 26.Ago.17

 

Há dez anos, porventura onze, publiquei aqui o texto que abaixo se reproduz.

Tratava-se do "estes dias..." nº 74

 Razões de mera arrumação da minha escrita pregressa fizeram-me dar com ele e verificar a sua terrível actualidade. Republico-o agora sem lhe alterar nada, ou tão somente alguma gralha ou virgula defeituosa. 

 

 

A imaginação nunca ultrapassa a realidade

 

De quando em quando, escrevo aqui umas balivérnias que leitoras condescendentes interpretam como frutos da minha imaginação. E, de facto, sob um fundo pesado de realidade lá vou vaporizando as minhas peças de alguma imaginação.

Hoje, todavia, renuncio de todo em todo à cavalgada imaginadora das minhas “pequenas células cinzentas”, como diria o inestimável Hercule Poirot. E se falo no belga filho da imaginação da senhora Christie é porque o tema de hoje lembra um mistério desses difíceis com que a velha dama nos divertia. É, na verdade, um mistério a boa imprensa de que gozam, entre nós, alguns países, ou melhor os governos de alguns países espalhados por essas vastas geografias de medo e infâmia.

Comecemos pela Venezuela, hoje dirigida por um antigo putchista da direita mais militarona e reaccionária. De facto o senhor Chavez, o arauto de uma rocambolesca revolução bolivariana, começou a sua discutível carreira de estadista, tentando levar a cabo um desditoso golpe nos anos 90 contra o presidente legal Carlos Andrés Pérez. A jogada deu para o torto, ele terá feito quase dois anos de prisão suave e, para espanto dos que ainda se espantam, conseguiu ganhar as eleições presidenciais em 98. Depois, tem sido reeleito. E com margens importantes, há que dizê-lo. O dinheiro do petróleo (cujos preços estão desde há muito em alta) redistribuído em parte pelos mais pobres, pelos militares (ai não!) tem disfarçado a ausência de política e de clareza no discurso populista de Chavez. A América do Sul tem visto outros aprendizes de ditador, tem assistido ao corte crescente das liberdades, ao cantonamento das oposições (cuja inteligência política é inversamente proporcional ao amor ao poder e aos seus mais evidentes frutos) e à lenta edificação de um estado policial. Cá pelo burgo, parece que alguém terá achado que Chavez é o Messias da esquerda. A idade não perdoa, é o que é. Genericamente, os europeus vão dialogando com Chavez tanto mais que o seu petróleo é menos incerto que o da península arábica. Depois, quando acordarem, será tarde.

Não abandonemos este desamparado continente sem referir uma vez mais a infâmia que se representa nas florestas colombianas onde um partido “revolucionário” detém umas centenas de reféns. Desta vez há notícia da morte de uma série de políticos colombianos, que alegadamente terão sido vítimas das tropas governamentais. Digamos para já que, a ser verdade a autoria da tropa governamental, sempre haverá uma certeza: os reféns serviram de escudos humanos. Todavia, não é difícil imaginar que estas mortes se reduzem a meros assassínios de futuros opositores das FARC se e quando estas forem um partido político legal.

Um passeio agora por África, mais precisamente por um país que, custa dizê-lo registava ainda há uns dez, doze anos, alguns índices de prosperidade: o Zimbabwe. Convirá esclarecer algum leitor desatento que, desta banda, nunca se louvou o senhor Ian Smith um dos aliados racistas de um Portugal antigo que não para de renascer. O senhor Smith conseguira, todavia, criar um país com uma sólida economia agro-industrial, nas mãos dos brancos evidentemente. Os negros faziam de paisagem, de boys, de trabalhadores agrícolas como é costume. A estrutura económica que passou intacta para as mãos rapaces de Mugabe pospunha a manutenção das grandes fazendas, mesmo se nacionalizadas. A sua divisão arruinou os trabalhadores agrícolas das antigas fazendas, destruiu a exportação, substituindo-lhe uma economia de subsistência que nem isso chega a ser. O Zimbabwe tem fome. Fome como nunca teve num passado recente e infame. E tem uma ditadura que deve fazer empalidecer de inveja o velho Ian Smith hoje exilado no Cabo. Mugabe vai liquidando metodicamente os opositores políticos, negros desta vez, enquanto o pais soçobra no caos. A Europa torce-lhe o nariz mas os africanos recusam-se a condená-lo. E convenhamos que os ingleses também não o molestam demasiadamente. Ao que parece os mortos actuais já não comovem as consciências democráticas como há anos. A diferença deve ser esta: agora são os negros que matam os outros negros. Logo está tudo bem. Não há colonialismo.

Daqui até à Líbia vai um salto. Por cima do Darfur e do seu imenso desastre. Curiosamente, o meu primeiro sogro, Jorge Delgado ofereceu-me ainda nos anos 60 uma brochura sobre o Darfur, comprada na “Joie de Lire” do François Maspero. Um escândalo que dura vai para cinquenta anos já o não é. O que me admira é que ainda aí haja gente para morrer. Os pretos têm a pele dura, dizia-me um amigo também negro, angolano, assassinado pelos nitistas, em Angola. Teve sorte: provavelmente o MPLA também lhe trataria da saúde, mais tarde.

E a Líbia? Pois a Líbia é o que sempre foi: Kadafi um iluminado sentado em cima do petróleo (que tanta falta faz) continua a sua “revolução verde” (esta gentinha adora falar de revolução!) e faz-se rogar pelos ocidentais. Desta feita, é um processo kafkiano que me traz este personagem à caneta. Meia dúzia de enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano acusados de inocularem vírus mortais a umas centenas de crianças líbias, viram confirmadas pelo Supremo Tribunal as penas de morte. Agora, dizem os nossos jornais, resta apelar a Kadafi. O que vai ser feito, obviamente. Ou seja a campanha de branqueamento do cavalheiro entra numa fase superior, como se dizia nos velhos tempos de “análise concreta da situação concreta”. Vai uma apostinha em como ainda veremos Kadafi ser recebido como benfeitor da humanidade em Bruxelas?

Ou em Varsóvia, já agora e para terminar. Eu confesso que nada tenho contra os polacos, bem pelo contrario, adoro Chopin e fui principescamente recebido pelos meus amigos de Varsóvia quando, in illo tempore, fui visitar uns colegas do Direito Comparado. Detestei a atmosfera política, o medo, a pobreza, o desespero dos meus amigos, tanto quanto apreciei a gentileza deles, a cultura, a amizade demonstrada e a dignidade de um povo que não se submetia.

Que esse povo seja agora governado por uma parelha de gémeos abaixo de qualquer classificação é coisa que me consegue ainda espantar. É que a coligação que governa a Polónia e que ostenta aquelas duas criaturas à frente do Estado e do Governo não é sequer conservadora, mas retintamente reaccionária. Eu nem falo da homofobia, coisa que ainda conseguiria vagamente perceber dada a profunda religiosidade polaca que além do mais é um factor de unidade nacional e lhes permitiu sobreviver ao período soviético. Isto não significa que não condene as perseguições de rua e legais à minoria sexual, claro. Não consigo entender as leis sobre as provas de cidadania reiteradas à caça de antigos polícias, de colaboradores do antigo regime, de gente que se calou ou que não se manifestou (como se isso fosse possível!...). Actualmente o ambiente tem piorado: os gémeos não só se recusam a aplicar fartas doses de legislação comunitária como entendem chantagear a Europa, desenvolver uma campanha inaudita contra a Alemanha e tentar obter para o seu país (que entretanto assinou com uma mão distraída os tratados que agora alegremente pretende modificar a seu favor) condições de privilégio que nada fundamenta. Os manos Kakzinsky conseguiram o impossível: nomearam uma senhora mediadora para os direitos da infância cuja primeira missão foi despistar “a publicidade subliminal da homossexualidade nuns bonecos infantis – os teletubbies – porque um usava um saco vagamente feminino...

Uma Europa onde esta gente tem entrada não é só triste. É ridícula.

Espero que ao escrever isto num blog não esteja a infringir uma regra de ouro inventada por uma senhora Secretária de Estado que entende que o humor (aqui dolorosamente em falta, mas enfim...) sobre personalidades fica bem em casa, eventualmente numa rua escusa, na praia (se deserta) ou num campo de concentração. Esperemos que os blogs hoje tão na mira dos zelotas e dos filisteus entrem nessas categorias de inocência confirmada.    

24
Ago17

au bonheur des dames 418

d'oliveira

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De Espanha, bom vento

(mcr 24 Ago.17)

 

Leio no jornal que de Espanha vieram para Portugal mais de 500 militares e cerca de vinte aeronaves para combater os fogos.

E que esses militares, altamente treinados, andam por cá há dois meses. Que, logo que chegam aos locais onde são necessários se colocam às ordens dos bombeiros locais ou de quem superintende no combate às chamas.

Com eles terão vindo 128 veículos de combate a fogos

E que os meios aéreos (vinte) já fizeram mais de 1800 (mil e oitocentas) descargas no imenso braseiro em que o país está convertido.

Finalmente, que o tempo de voo destes aviões e helicópteros já ultrapassa as 525 horas.

No meio disto tudo, que é muito, que é extremamente generoso e solidário, que é profundamente europeu, há uns parlamentares (ou para lamentar(es)?) que manifestaram surpresa(!!!) e que terão declarado que há militares portugueses desagradados.

Uma pessoa lê e não acredita. Então há gente, e não pouca, competente que vem ajudar e aparecem uns imbecis que se queixam? Que se indignam? Que estão desagradados?

Os senhores militares portugueses que ainda há bem pouco provaram que nem sequer sabem guardar os seus paióis, queixam-se da vinda de uma unidade especialmente treinada para o efeito (coisa inexistente num país que, apesar de décadas de fogo, não tem vergonhosamente um corpo militar com as mesmas competências). É obra!!!

Em que raio de terra vivemos? Que raio de gente manda aqui? Como é possível alguém ficar surpreendido com uma presença tão expressiva (e tão útil) de quem nos vem ajudar? Que diabo de Ministério da Administração Interna temos que não informa (ao menos isso, já que no resto aquilo é um poço sem fundo)da chegada dos requisitados ajudantes?

Que nacionalismo bacoco e pacóvio assola essa gentinha surpreendida, indignada, desagradada que, pelos vistos prefere ver tudo reduzido a cinzas do que salvo por mão estrangeira? E mesmo o termo estrangeiro é discutível. Estamos na União Europeia e, por mero acaso, convém recordar que só temos um vizinho, a Espanha. A menos que se conte com o senhor Neptuno e o seu cortejo de sereias, tritões e, já agora, sardinhas, mesmo se em perigo de extinção.

Traduzindo isto em poucas palavras: andam por aqui muitos parvos e mal agradecidos. E –que chatice!- são incombustíveis!

 

*o título deste folhetim reporta ao velho brocardo: de Espanha nem bom vento, nem bom casamento.

Nem sempre a sabedoria popular está adequada ao momento que se vive.