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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

15
Mai17

O leitor (im)penitente 203

mcr

 

 

 

 

 

 

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 8

(“Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique”)

Os livros são uma aventura sem fim, uma viagem sem bússola, um desvanecer de dinheiro pior do que consumir cocaína. O leitor voraz, nunca está satisfeito. Pede sempre mais e mais, quer tudo e mais alguma coisa, o que faz lembrar aquele cavalheiro medievo, Pico della Mirandola que, diz-se, sabia tudo e mais alguma coisa. Morreu cedo de tanto ler, mas não de tresler, deixando uma obra copiosa salpicada, nalguns casos (13!, número aziago!) de heresia de que, contrafeito, teve de abjurar. Pico lia tudo, comprava tudo o que corresse escrito e discutia tudo. Hoje, poucos o conhecem e menos ainda o leem (é o meu caso...) mas o homem, segundo a biografia que lhe dedicou um sobrinho, era da raça dos génios.

 

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A que vem esta lengalenga mirandoliana se o que pretendo é falar de um certo Rufino, fotógrafo e africanista, autor de dez gordos volumes pejados de fotografias sobre a colónia de Moçambique em 1929?

Pois apenas isto, o senhor José dos Santos Rufino por razões que não enxergo, resolveu, naquela data, arriscar muito dinheiro na publicação dos “Álbuns...” Não vislumbro que, à época, lhe sobrasse freguesia suficiente na colónia (em 1929, Moçambique era, oficialmente, colónia, abandonada que fora a designação de província ultramarina dos tempos da monarquia). Também duvido que, na Metrópole, houvesse uma multidão de entusiastas coloniais que compensasse o esforço e os gastos da edição. É que se trata de algo luxuoso, caro, fotografias algumas vezes enormes, tratadas, reveladas e editadas na Alemanha pela renomada firma Broschek & Co. (Hamburgo). São dez volumes oblongos (22x29cm) que no conjunto hão-se contar mais de mil fotografias, algumas em página dupla. A obra encerra fotografias das localidades mais importantes (Lourenço Marques, Beira, Tete, Quelimane ou Moçambique -mas não Nampula, na época um lugarejo sem importância -), instalações portuárias, comerciais, agrícolas e industriais, fauna, flora, arquitectura e monumentos e, no 10º volume, uma extensa mostra das populações nativas.

A qualidade das fotografias foi sempre aclamada mesmo se Rufino não conste na lista nacional, africana ou mundial dos grandes fotógrafos reconhecidos. Mas. é-o, indubitavelmente.

Hoje, a colecção pertence ao ex Banco Nacional Ultramarino e raras vezes aparece completa no comércio alfarrabista. Quando tal acontece, os preços são consideráveis (entre 750 e 1000 euros nas consultas que fiz) o que muito me entusiasmou porquanto fui pacientemente reunindo os volumes entre Dezembro de 2007 e Setembro de 2009. Tinha fixado uma tabela máxima por volume (€ 50) e consegui terminar o lote um pouco abaixo do limite que me tinha imposto, sobretudo porque consegui que todos os tomos estivessem em “bom” ou “muito bom” estado de conservação.

Para além do interesse estético, o que me interessou sempre foi o valor documental e, sobretudo, a confirmação do que sempre defendi: Moçambique é um país construído por portugueses, sul-africanos, indianos, alguns chineses, gregos, italianos e alemães. Deveria referir os africanos, isto é os negros indígenas que alombaram com o trabalho mas penso que isso está implícito sempre que se fala de África.

Também me pareceria interessante fazer notar o esforço de muitos mestiços que nos anos da construção do “Império” eram importantes (por todos, em Moçambique, a família Albasini) estatuto que foram perdendo durante o apogeu da colónia-província ultramarina. Para isso, portugueses e indianos contribuíram fortemente mas não é desdenhável a contribuição bóer, a provar que durante muito tempo, a mestiçagem não só não era proibida mas tinha estatuto social e económico. Anda por aí muito aprendiz falhado de anti-racista que desconhece que o apartheid foi obra de anos posteriores. Não é que antes não houvesse diferenciação racial (com pesadas e vis consequências) mas esta tal qual se tornou política oficial da RAS tem origem nos finais da primeira metade do século XX.

E, mesmo que Moçambique não fosse um paraíso racial (longe disso), as diferenças entre o estatuto de brancos e não brancos era algo de infinitamente menos ignominioso do que em muitas outras zonas de África. Não desculpa nada mas não pode ser esquecido.

 

* nas fotografias que se juntam aparece a palavra “mufano” para significar criado jovem. É uma adaptação tola e masculinizada do termo ronga “mufana” que significa rapaz, jovem. O feminino, no mesmo vernáculo, é tombazana.

 

08
Mai17

estes dias que passam 348

mcr

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Uma vitória, duas derrotas

Eu sei que as eleições francesas já deram o que tinham a dar. Macron ganhou, diz-se (e é gloriosamente verdade) e basta. Não, não basta. Não basta por toda uma série de razões: Macron neste momento já vai nos 66, 1 contra 33,9 de Le Pen. Ou seja já está quase no dobro da adversária. É uma derrota pesada, pesadíssima para esta, digam lá o que disserem.

Mesmo com uma crescente abstençãoo, Macron ganha folgadamente, o que significa não apenas a rejeiçãoo da adversária mas também, que diabo!, a aceitaçãoo de algumas das suas propostas.

Os arautos da insubmissão (e amigos da Maduro, convém lembrar) não conseguiram impedir esta limpa vitória, sequer ensombrá-la. Das duas uma: ou os seus eleitores menos próximos desobedeceram às vergonhosas recomendações de voto branco (e estou em crer que foram bastantes) ou outros antigos abstencionistas perceberam que isto não era a feijões e que a tese ultra imbecil do “quanto pior melhor” tresandava.

Há uma certa ironia histórica nisto. Em tempos não demasiadamente recuados (Alemanha nos anos 30) o forte KPD (Partido Comunista Alemão, obedecendo ao Komintern, lançou a política “Klasse gegen Klasse” (classe contra classe) atacando com a máxima virulência o SPD (Partido Socialista) que foi considerado a “vanguarda da reacção”, um bando de social-fascistas e outros mimos do mesmo género.

Foram baldadas as tentativas de criar uma frente comum anti Hitler, e o resultado foi devastador. Uma vez no poleiro o “pintor de paredes” ilegalizou o PC e mandou os seus deputados e dirigentes para os campos de concentração entretanto inaugurados. O PS não demorou a seguir este destino mas por uma causa nobre: os socialistas negaram votar os “plenos poderes” a Hitler e foram, por sua vez, reduzidos à prisão e ao exílio.

Quando a classe contra classe morreu já era tarde. Todavia, logo que a guerra eclodiu, os partidos comunistas, mais uma vez em obediência cega às directivas da 3ª Internacional, condenaram as potências democráticas e declararam-se neutrais. Em França, levaram o atrevimento impudente a solicitar das entidades ocupantes, licença para voltar a publicar”L’Humanité”. Os alemães recusaram.

Foi preciso que a Alemanha invadisse a URSS para, então, os comunistas ocidentais se proclamarem anti-fascistas e combatentes!...

Felizmente, anda restava em França alguma memória destes tempos miseráveis em que os comunistas silenciavam as atrocidades do ocupante e o servilismo de Vichy. (para memória: logo que a ocupação alemã se tornou efectiva, Paul Nizan, destacado intelectual comunista, recusou a directiva da Internacional. Foi acusado pelo servil Thorez, dirigente do PCF, como traidor e polícia!...Assim se vê de que lado estava a inteligência e em que fossa nadava o colaboracionismo dos pseudo-revolucionários vermelhos. )

Voltando às eleições francesas, depois desta digressão infelizmente necessária dada a ocultação da história recente: A vitória de Macron é também a vitória de quem vê o mundo actual tal como ele é e está, contra os saudosos do passado. Queira-se ou não, 2017 não é 1917, 1870 ou 1789. O mundo em vogam inocentemente os Mélenchons e os seus amiguinhos e amiguinhas portugueses, não existe, não volta. Se importa mudá-lo convém, para já, compreendê-lo, explica-lo.

E para tal, é necessário rearmar a ideia de Europa, desta comum Europa que, pela primeira vez na História está em paz há mais de setenta anos. Em França ou cá, onde também, quatro tristes agoureiros (ou agoureiras) pretendem convencer-nos contra a mais plácida e visível evidência de que o euro, a Europa, o cosmopolitismo, são a doença e não a cura. Há que melhorar as coisas? Claro! Há que democratizar as instituições comunitárias? Sem dúvida! Há que repensar a política internacional e interna? Absolutamente (e aqui vai uma dica: conviria pensar num parlamento nacional eleito mais democraticamente sem se elegerem deputados à molhada. Seria bom podermos chamar à pedra o fulano (ou fulana) que elegemos para ver se não se escondem na multidão que vota sem ligar nenhum aos eleitores).

A vitória de Macron é, sem qualquer dúvida, uma vitória sobre a direita, nacionalista, autoritária e xenófoba mas também sobre uma esquerda identicamente autoritária, igualmente nacionalista e, graças à sua diabolização da mundialização e do espaço europeu, recorrentemente xenófoba também. Digam eles o que disserem. Para caricaturas de Maduro, já chega o “Podemos”, não precisamos do pobre Mélenchon.

Paz à sua alma. Amén!

* na gravura duas bandeiras: a francesa e a europeia. É assim que se pode fazer a História. Assim seja. 

02
Mai17

Au bonheur des dames 423

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Nuno Brederode, secreto e discreto

 

A notícia chegou-me tarde pelo “Público” através de uma pequena nota necrológica e de um texto de Seixas da Costa. O Nuno morrera no dia anterior (30 de Abril) de “doença prolongada”.

Conheci o Nuno no dia em que, em Coimbra, se celebrou o 1º (e único) “Encontro Nacional de Estudantes”. Pelas minhas contas terá sido em 61, ou seja há 56 anos! Uma vida...

Não sei se é possível afirmar que ficámos amigos a partir desse dia. Isto nunca é assim tão simples, mas a verdade é que nos voltámos a encontrar no “Dia doe Estudante”, em Março do ano seguinte e muitas vezes durante os meses que se seguiram. Depois, o Nuno arribou a Coimbra, expulso da Universidade de Lisboa e calhou sermos colegas de curso e até, termos vagamente estudado juntos algumas vezes. Foi nessa altura que me apercebi que estava frente a uma das pessoas mais inteligentes com me vim a cruzar.

Inteligente, culto, excelente conversador, de uma ironia a toda a prova e já, naquela altura, um fanático da discreção. Por qualquer razão que nunca perguntei, o Nuno mostrava-se avesso à luz crua dos holofotes e preferia ,ou isso é a minha percepção, a conversa, o debate, a discussão “en petit comité”.

Vivendo em cidades diferentes só nos encontrávamos de longe em longe, situação que se modificou após os 25 de Abril. Durante quase um ano fomos camaradas dentro do MES, comungando da mesma visão sobre a política nacional e a partidária. O Nuno bateu com a porta antes de mim, engrossando o grupo “sampaísta”, enquanto eu, baldadamente, aguardava acto idêntico do meu grupo de amigos com o qual tinha aderido. Ao fim de pouco tempo, enchi uma dúzia de folhas de papel, enderecei-as À Comissão Política do Porto e desandei em paz com a minha consciência, lamentando o tempo perdido e prevendo um fraco futuro par aquela pequena organização que acabara por se definir comunista, marxista-leninista e, sobretudo, aberrantemente tola e presunçosa.

Por razões profissionais comecei a ter de ir a Lisboa várias vezes ao mês. Aproveitei para começar a frequentar assiduamente o snack-bar do Hotel Florida que era a cantina dos meus amigos sampaístas (o Jorge e a Maria José, o César Oliveira meu antigo colega de Coimbra, o Nuno, o Joaquim Mestre, outro cavalheiro partidário da discreção, o Luís Nunes de Almeida, o Nuno Portas, o Francisco Soares, o João Bénard da Costa e, não tenho a certeza, o Zé Manuel Galvão Telles) que em breve formariam o G.I.S. (Grupo de Intervenção Socialista) de que fui “compagnon de route” (não valia a pena ser mais visto viver longe e não ter hipóteses de participar nas discussões e elaboração de programa). Aliás, pouco depois, este grupo entrou no PS coisa que adiei por bastante tempo. E pouco depois de entrar fui-me distanciando sem apelo nem agravo até readquirir a qualidade de independente. E foi já nessa qualidade que participei na campanha guterrista e no Conselho Coordenador dos Estados Gerais onde o voltei a encontrar.

A partir da eleição de Jorge Sampaio para Presidente da República, apenas sabia que (como convinha ao seu feitio) era Conselheiro do Presidente mas, com grande pesar meu (e maior preguiça) já não o encontrei mais.

Ou melhor:  volta que não volta encontrava-o nas páginas de um livrinho magnífico (“Rumor Civil” Relógio de Água, ed., 1990?).  Sempre que o encontro nalgum alfarrabista, prontamente compro para oferecer aos meus melhores amigos. Trata-se, sem exagero nem qualquer dúvida, de um dos melhores livros de crónicas aparecidos nos últimos trinta ou quarenta anos. Um escrita deliciosa, irónica, expressiva, inteligente e cuidada. Alguns, muitos, quase todos ,dos seus textos são francamente antológicos e retratam Portugal com verdade, verve, sensibilidade, humor e amor.

Como de costume, com o Nuno, este livro foi surpreendentemente “filho único” quando seria de esperar que da mesma pena saísse mais uma boa e entusiasmante dúzia de obras. Mas aquele sacana era mesmo assim: parco e discreto, demasiadamente discreto, quase secreto. Fica na memória dos amigos como um segredo bem guardado. Que desperdício...

Que saudade...Que remorsos por o não ter procurado mais vezes.

*A fotografia do NBS que se junta é bem antiga, foi pilhada na internet e mostra um Nuno jovem tal qual o conheci

 

 

28
Abr17

Au bonheur des dames 422

mcr

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 mistérios gozosos

 

Não lembrava ao malacueco esta de o Governo dar uma folga no dia 13 de Maio. que diabo, o país é laico, este Governo afirma-se pujantemente herdeiro da 1ª República, da do Sr. Dr. Afonso Costa, renega (como Mafoma do chouriço) do beatério que, segundo alguns dos seus maiores entusiastas, inquinava o Estado Novo. Que eu me lembre, nunca Fátima, "altar do mundo", mereceu semelhante feriado.

Poder-se-ia pensar que o Governo pretende dar aos funcionários públicos uma oportunidade de ir ver o Papa ou de ir recolher-se na Cova de Iria para celebrar a entrada dos três pastorinhos na lista longa, longuíssima, de santos e beatos que povoam o orbe celestial.

Ou, de outro modo, e mais certamente, esta borla vai dirigida ao 4º Pastorinho, o Sr.   Professor Marcelo (Rebelo de Sousa), católico assumido e anunciado peregrino a Fátima. Sª Exª fica assim livre para faltar por um dia a Belém se é que ao Augusto Magistrado também se aplica o regime da tolerância de ponto. 

Nada tenho, bem pelo contrário, contra Fátima (exceptuado o mau gosto das construções religiosas e civis lá semeadas a esmo), muito menos contra o mais que maioritário povo católico (em que incréus como seu são uma imensa minoria) ou contra a visita de um Papa com que simpatizo fortemente. 

Todavia, esta medida extemporânea, esta excessiva generosidade em conceder feriados (num período que começou a 25 pp, continuará a 1 de Maio p.f., e se alongará brevemente com os santos populares, 10 de junho, Corpo de Deus etc...etc...) parece-me atoleimada, oportunista e fora de qualquer razoabilidade.

A César o que é de César, e a Deus o de Deus. Receba-se Francisco com a pompa e o respeito que merece não apenas por ser Papa mas também por ser quem é (e é muito).  Que o Presidente da República lá vá, plenamente de acordo. É o Chefe do Estado a receber outro Chefe de Estado. Ao fim e ao cabo, Portugal nasceu pela força das armas de Afonso Henriques e pelo reconhecimento papal , mesmo, se depois, foram vários os nossos reis que o Vaticano escomungou, pelo menos temporariamente. 

Não se faça, porém,  disto, desta visita, dos pastorinhos mais do que aquilo é. Sobretudo num país que impavidamente assistiu à defenestração de Santo António, o maior santo português, um dos grandes santos da Igreja,um intelectual de envergadura e um santo imensamente popular, cuja rua no Porto, chamada de Santo António desde sempre, foi rebaptizada para 31 de Janeiro, uma data pouco gloriosa, uma derrota  vexatória, uma jornada em que segundo conspícuos historiadores da época, andavavam por alí "uns dinheirinhos da polícia". Há no Porto imensas ruas que poderiam ter outro nome. A dois passos da do 31 de Sto António há a de Entreparedes que já nada significa para ninguém. Mas não, tinha de ser na rua onde uns escassos centos de amotinados republicanos foram varridos pelo tiroteio da polícia municipal deixando pelo caminho farta dose de chapéus e bonés. Santo António, mesmo tendo várias patentes militares e uma cidade a ele dedicada, foi varrido da toponímia municipal pelo mesmo republicanismo vesgo que apeou D João III, o grande protetor da Universidade de Coimbra, quiça, o mais importante na sua história para dar ao liceu com o seu nome o de um praticamente descnhecido e esquecido político da República. 

"É assim que se faz a história" e também, do mesmo modo atabalhoado, se fazem feriados. 

26
Abr17

au bonheur des dames 421

mcr

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À atenção de alguns comentadores “distraídos”, muito distraídos.

 

Comecemos pelo óbvio. O senhor Macron ganhou a 1ª volta das presidenciais francesas. Teve 24, 1% contra 21,3 da senhora Le Pen.

Até aqui pouca novidade. Tratava-se de uma vitória anunciada. Além de tudo o mais, Macron já levava na bagagem importantes apoios de conservadores e de socialistas. A senhora Le Pen vê a sua margem crescer de 17, 9% há cinco anos para os actuais quase 21,3%. Conviria verificar se no meio deste crescimento não vão alguns votos fugidos ao senhor Fillon, candidato “gaulista”. De todo o modo, é uma meia vitória com sabor amargo

O Dr Pacheco Pereira, num artigo demasiado apressado, publicado no dia 24, fala em “pesada derrota” dos gaulistas e dos socialistas. Não se percebe como é que mete no mesmo saco dois resultados tão abissalmente diferentes. Fillon, apesar de ter esbanjado a sua candidatura por via dos empregos fictícios da mulher e filhos, ainda conseguiu mais de 20%. Se compararmos a sua votação com a de Sarkozy na última eleição (27%) temos que vê fugirem-lhe cerca de 7% do total de eleitores. Já o surpreendente candidato socialista dá um trambolhão de 28,6 (Hollande em 2012) para pouco mais de 6%. É obra. Aqui, sim, há uma pesadíssima derrota. Mesmo que se saiba que muitos dos votos socialistas fugiram, por raiva, desespero ou o que quer que seja para o senhor Melenchon de que já se falará.

A derrota (importante) de Fillon) não compromete demasiadamente “Os Republicanos” enquanto que no Partido Socialista está tudo para reconstruir. E está porque a escolha de Hamon foi, ela própria, um desastre de todo o tamanho. Hamon nunca passou de uma figura apagada, desconhecida do grande público na melhor hipóteses e antipática para os que o viram combater (não vou dizer trair) Hollande depois de ter aceitado ser ministro...

Hamon nunca foi dado como candidato com hipóteses mas o fiasco é estrondoso. Deixou de existir politicamente. No PS e na França.

Vejamos o caso Melenchon, um tonitruante ex-socialista, criatura arrebatada que desde há muito vive de slogans grandiloquentes e de um cachecol vermelho que deve ser a única coisa eventualmente revolucionaria com que se adorna. Teve o dobro dos votos da eleição presidencial anterior. Como suspeito, muitos, quase todos, virão de eleitores socialistas que, muito justamente, não se reviam na inconsistente figura de Hamon. De todo o modo, Melenchon é, no conturbado panorama político francês, um exemplo de tudo o que é antiquado, falso, desvairado, na esquerda francesa. O homenzinho apresenta-se, actualmente, como alguém que se inspira nos populistas latino-americanos nomeadamente Chavez (e o seu discípulo dilecto Maduro) e Correia. Chavez, ex-golpista inventou uma coisa chamada bolivarianismo que é uma espécie de cocktail demagógico do pior da tradição sul americana. Conseguiu colocar a Venezuela ao bordo do precipício donde o seu alucinado sucessor se prepara para o grande salto para baixo.

A Venezuela é hoje um país absolutamente falido, onde a maioria popular votou um parlamento anti Maduro, onde um submisso Supremo Tribunal nomeado pelo Presidente tentou desqualificar a representação popular, onde um exército visceralmente dependente do poder mata com a ajuda de milícias civis os manifestantes desarmados. Não se passa dia sem mortos por bandos de motoqueiros mascarados, sem pessoas gaseadas pela polícia do regime, sem condenações à perda de direitos políticos, sem continuada e persistente prisão de opositores, sem pão nas padarias, sem medicamentos nas farmácias. Onde tudo falta já só sobra a raiva.

É deste desacreditado regime que Cuba cada vez mais tenta afastar-se que Melenchon se reclama. As suas hostes intitulam-se les insoumis, la France insoumise, enfim uma patetada que nada significa e que, sobretudo, de insubmisso nada ou pouco tem. Trata-se como no campo de Le Pen, de um aglomerado de criaturas órfãs do velho PCF, de uma pequena burguesia citadina e rabugenta que odeia a Europa, a mundialização, que não percebe o seu declínio enquanto classe e enquanto federação de privilégios ameaçados. A única diferença que há entre estes “insoumis”e as gentes lepenistas é que aqui subsistem os restos de um velho proletariado francês e comunista que viu as suas regiões industriais morrerem. É apenas ir consultar os velhos mapas eleitorais relativos aos anos 60, 70 e 80 do último século. Algo, todavia as aproxima: Le Pen é abertamente xenófoba enquanto Melenchon o é disfarçadamente. A sua recusa da Europa e da mundializaçãoo é isso mesmo: la France d’abord. Mesmo se essa França “gloriosa” (algo que enche a boquinha mimosa de boa parte da inteligentsia melenchonista) seja tão só saudades de um passado morto e enterrado

Quanto a caceteiros são iguais. Ainda em pleno dia eleitoral, em Paris, pequenas mas bem organizadas hordas “insubmissas” começaram a manifestar-se violentamente logo que os primeiros resultados apontavam para o 4º lugar do seu caudilho.

Pouco depois, nos diferentes debates televisivos transmitidos pelas televisões francesas, viu-se a componente política dos jovens energúmenos. Interrogados sobre quem apoiariam na 2ª Volta, os porta-vozes de Mélenchon rematavam para canto, harangavam sobre a subida do seu candidato, acusavam Macron (muito mais que Le Pen sobre quem quase nada diziam). Nessa altura já Fillon e Hamon apelavam ao voto em Macron.

Para esta duvidosa caricatura do “maduro-bolivarianismo” avec sauce française, além dela tudo é igual e mau. A velha e gloriosa “Internationalle” conta nos seus versos este: “du passé faisons table rase”. Na langue de bois dos melenchonistas já não se trata do passado mas sim do presente. Como quem diz: morra Sansão e quantos aqui estão. No caso em apreço, parece que esta gente prefere um quinquénio Marine Le Pen que, depois, milagrosamente, provocaria um sobressalto cívico e “revolucionário” (!!!) que inauguraria finalmente “os amanhãs que cantam” sob o consulado de Melenchon que, à falta de barrete frígio, sempre tem um cachecol vermelho.

Por cá, vê-se, com parca ou nula surpresa, a mesma atitude. BE e PCP, jurando sempre pelo mais exaltado anti-fascismo, já enterraram Macron debaixo de toda uma série de acusações, as mais das vezes pouco credíveis. O que os arrelia é a atitude pro-Europa do candidato francês. Comunistas e bloquistas são visceralmente contra o “cosmopolitismo”. Os primeiros sempre foram, convém salientar. Nos bons tempos do stalinismo puro e duro a acusação de “cosmopolitismo” era das mais graves. Na URSS e satélites levava ao gulag ou a destinos definitivos e piores. Nos partidos comunistas do Ocidente era quanto bastava para excluir militantes.

Para estas criaturas o “internacionalismo” (que já nem é “proletário”...) traz um perfume perigoso de livre troca de ideias, de liberdade de apreciação e de comparação que é, como se sabe, um preventivo para as ideias feitas e para o autismo político. Uma França activamente pro-europeia estraga os vagos projectos desta esquerda desacreditada ideológica e socialmente. No caso do PC nem sequer a memória desse velho bolchevique que se chamou Álvaro Cunhal parece ser apreciada. Todavia, foi ele, que no confronto Soares Freitas do Amaral (que na altura era acusado de tudo) mandou (repito: mandou) votar no primeiro mesmo que isso significasse engolir um elefante. Quanto ao BE, é o costume: um ligeiro toque de “radicalismo pequeno burguês” (variante benigna da “doença infantil” denunciada por Lenin) e um tom de ambiguidade que servirá para, oportunamente (ou oportunisticamente) salvar a face e deixar cair a senhora Le Pen, aliada táctica e estratégica.

 

* A ilustração reproduz a capa de um famoso texto do senhor Marquês de Sade, escritor que seguramente não diz nada aos cavalheiros leitores do PC e do BE. Ainda bem!...

13
Abr17

o leitor (im)penitente 201

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livros, alfarrabistas & outras fantasias 7

A ilustre Ilustração Portuguesa

Como nome de Ilustração Portuguesa há, pelo menos, duas publicações distintas. A primeira (1884-1890) era antecedida por A (A ilustração portuguesa) e teve cerca de 200 números

A segunda, Ilustração sem artigo a antecedê-la teve uma 1ª série, 119 números (1903-1906 e uma 2ª série que foi de 1906 a 1924. Desta publicaram-se 848 números semanais e era propriedade do jornal “O século”.

A minha história com a revista começou quando descobri na cave de uma casa nossa, umas dezenas de exemplares da IP. Excelente papel, muita ilustração mormente fotográfica, enfim, uma história viva e popular dos anos de fogo do fim da Monarquia e praticamente de toda a República. Volta e meia, encontrava à venda, por preço modesto, mais fascículos e, pouco a pouco fui aumentando a colecção. Até hoje.

Cumpre dizer que a segunda série totaliza 848 fascículos semanais, (não se contando mais dez ou onze publicados anualmente para manter o título da revista e que terão durado até 1933). Ao todo, são 38 volumes, dois por ano. De longe a longe, aparece uma colecção completa à venda. O preço varia muito quer devido ao vendedor quer ainda ao estado da colecção. Obviamente uma segunda série completa com capas de editor e respectivos índices custa mais mas, mesmo assim, conseguem-se obter as duas séries por menos de 1000 euros. Quando dei por isso já a minha colecção tinha mais de 600 fascículos pelo que nunca acorri aos leilões e às vendas de edições completas. Claro que, agora, dez anos após a primeira aquisição, verifico que não só gastei muito mais mas sobretudo que, como de costume, o rabo é o mais difícil de esfolar. A tal ponto que ainda há pouco tempo comprei dois volumes completos mesmo se desses semestres apenas me faltassem dúzia e meia – em 52- exemplares. E foi barato dado o preço a que vejo actualmente os fascículos dispersos à venda.

Tudo isto para dizer que, dos 848 fascículos apenas me faltam 3 (!!!) todos do vol 31º (2º semestre de 1921) exactamente os nos 820, 822 e 823. Algum dos escassos e pacientes leitores sabe deles? Quer vendê-los? Ofereço o preço do inteiro volume. Aliás, em alternativa, compraria o volume inteiro se é que alguém o quer vender.

É verdade que, no mês passado, um alfarrabista me propôs um negócio. Ficava com a minha colecção, incompleta, e cedia-me uma que, não tendo capas de editor, estava bem encadernada e dispunha de todos os índices. (Convém mencionar que os índices são mais raros que as revistas uma vez que só se vendiam com as capas de editor) Na troca, pedia 450 euros!... Só!...

Gosto muito de livros e tenho particular simpatia pela Ilustração Portuguesa mas o que é demais, é demais. Declinei amavelmente a oferta e, em troca, o livreiro prometeu-me que tentaria arranjar-me o volume em falta porquanto argumentava, e lá terá a sua razão, que era mais fácil isso do que pescar os três fascículos que me faltam.

Decidi, portanto, continuar à espera. À espera e esperançado pois, como já disse, a IP é uma verdadeira “história popular, imediata, em bruto, excessiva e contraditória mas com o perfume do dia a dia bem vincado. Aliás, nesses quase mil números (as duas séries confundidas) há de tudo, incluindo anúncios espantosos a elixires, pomadas, aparelhos médicos e outros que só por si mereceriam um estudo atento. Falei na riquíssima iconografia da IL. São milhares de fotografias, provavelmente muito mais de dez mil, de acontecimentos, personagens, monumentos, paisagens numa compita desenfreada. Se tivesse de escolher alguma mais significativa apontaria uma série de fotografias de operosos cavalheiros que exerciam de bombistas (a famosa “artilharia civil”) naqueles dias e anos tumultuosos (não esquecer que só a “1ª República” se deu ao luxo de ter 51 governos em 16 anos!...muitos deles caídos por revoluções, golpes palacianos, votações surpresa, etc...). Trata-se, todavia de fotografias preparadas, de pose, mas não deixa de ser revelador o facto de a IP achar que as deve publicar para memória futura.

Dentre as reportagens, ficou-me uma extraordinária e que cito de memória. Um jovem oficial do Exército, acusado de ter participado numa intentona, foi julgado e absolvido. Passeando pelo Rossio, é reconhecido por alguém, possivelmente ligado à “formiga branca” (uma das milícias mais sinistras da época) e começou a ser perseguido por um grupo de pessoas que rapidamente aumentou. Prudente, refugiou-se na portaria de um hotel e abriu o casaco ou o capote para mostrar que estava armado. Foi imediatamente abatido por vários tiros vindos do grupo perseguidor. A mulher, ou noiva (Já não recordo) ao saber do assassínio suicidou-se, atirando-se de uma janela do prédio em que vivia(m). A fotografia da reportagem é aliás da desventurada jovem senhora.

Optei por estas escolhas por que são significativas dos tempos em que a IP se publicou e não para levar água a algum malicioso moinho anti República (o anterior regime retratado na 1ª série e nos quatro primeiros anos da 2ª não era melhor e os jornalistas e fotógrafos da revista retratavam os acontecimentos com grande equanimidade).

Esta crónica sobre A “Ilustação...” pretende, sobretudo, realçar o facto de, numa época de acentuado analfabetismo (é provável que naqueles anos houvesse 90%de analfabetos) e da disponibilidade financeira dos leitores ser infinitamente inferior à actual, haver um público capaz de sustentar um grande número de empresas jornalísticas (qualquer comparação com o presente entristece o mais optimista) com suplementos de “luxo” como é o caso da “IL”. Também não me parecer de escamotear que a própria época de intensa luta política e ideológica poder potenciar um aumento de leitores curiosos e interessados em informar-se. Ou, de como um regime caótico e absolutamente instável consegue ter este pequeno mas notável efeito cívico e cidadão.

 

 

 

11
Abr17

o leitor (im)penitente 200

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Livros, alfarrabistas & otras fantasias 6

 

Outro canto e outras armas 

Em 1940, em plenas comemorações dos “Centenários”, um brioso militar, capitão de seu estado e Joaquim António Pereira, de seu nome, entendeu juntar a sua bélica voz ao clamor patriótico e artístico que varria o país. Vai daí, ajudado por musas parentes longínquas das Tágides camoneanas, deu ao prelo um livro que intitulou “Grandezas de Portugal” com o subtítulo “história, pátria, verso”.

Em 310 quadras, 23 oitavas, 1 sextilha e uma décima, ofereceu toda a história de Portugal desde Afonso Henriques (Em mil cento e trinta e nove,/foi fundado Portugal./Sendo dádiva de Jove,/criamos a capital)até ao Marechal Carmona (Temos general Carmona,/ é alma bondosa e pura./ É a vela bujarrona,/ desta nau da Ditadura.).

A primeira vez que ouvi o nome do poético guerreiro devo-a ao Rui Feijó e ao António Alçada Baptista que, pelos vistos pertenciam a um buliçoso grupo de rapazes universitários da década de quarenta que, tendo tido notícia deste extraordinário livro, prontamente o adoptaram, pelo menos nas quadras mais significativas, usando-as como jocosos gritos de guerra. Impressionado pela troca de galhardetes citações entre os dois cavalheiros acima citados prontamente comecei a procurar o livro. Foi o nunca assaz chorado Manuel Matos Fernandes quem me ofereceu a primeira versão em fotocópia integral. A partir desse momento, passei a oferecer a amigos uma antologia do capitão Pereira até que um outro Pereira (Manuel Sousa ), escultor, amador de livros e da gens feminina digitalizou duas cópias em excelente papel. Tais cópias mandei-as encadernar oferendo uma ao meu amigo e ficando com a outra. De facto, desistira de procurar o original tantas foram as negas que recebi de alfarrabistas de todo o país.

Todavia, num dia de escandalosa despesa em números da “Ilustração Portuguesa” (se alguém souber dos nos 820, 822, 823 e 889 que me avise. Compro-os por preço generoso. Também me ofereço para adquirir o vol 31º por inteiro pois queria completar a colecção) num alfarrabista portuense, mencionei o livro ao empregado mais antigo da loja. Este, ouviu-me atentamente e, num gesto descuidado, sem virar a cabeça, deitou o braço direito para trás, para a estante a que estava encostado e de lá, num passe de pura magia, ofereceu-me o livro que eu procurava há vinte anos.

Chorei de pura emoção e, desde esse dia primordial e bendito, guardo a edição em lugar especial. Quero crer que quem tem algum exemplar do livrinho o guarda a sete chaves pois nunca, por nunca, o vi no mercado.

Torna-se difícil, para não dizer impossível, explicar aos leitores a valia literária desta obra pelo menos para todos quantos têm da literatura uma visão optimista e recreativa. Na sua aparente banalidade há todo um retrato deste Portugal dos pequeninos em que desconsoladamente (sobre)vivemos. Junto meia dúzia de quadras que mostram – e de que maneira – como tantos para não dizer quase todos – sentem pulsar neles a pátria madrasta.

Está na moda não ensinar História ou então ensiná-la segundo métodos ditos materialistas e científicos. À ignorância de um lado junta-se o panfleto do outro. Em ambos o horror a nomes, datas, indivíduos, acontecimentos marcantes é explicado pela necessidade de poupar os instruendos, vítimas infelizes duma coisa chamada “eduquês” que, tal como uma mezinha salvadora, veio libertar a juventude do ensino do Estado Novo. Se este era o que sabemos o actual consegue ser igual ou ainda pior.

Felizmente a nossa juventude escolar mostra o que vale em terras do inimigo espanhol. Vê-se logo, como dizia uma mamã ufana que não foram lá para ler o Saramago. O Capitão Pereira teria orgulho neles.

 

antologia

 

descobertas

 

Diniz Dias, continúa,

p'la mesma costa africana.

Cabo Verde chama sua,

nêle descobre a banana.

 

 

  1. João II

 

De carácter reflectido,

perseverante e enérgico,                                                

tinha o hábito aferido,

e o seu proceder sinérgico.

 

****

 

Veio o Garcia da Horta,

incomparável botânico,

Até salva gente morta,

fugida d'horrível pânico.

Revolução Liberal

 

As idéias liberais,

dos conjurados do Porto,                                               

foram tantas, até tais,

que endireita, o que é torto,

 

 

D Pedro V

 

Curso de Letras criou.

Também telégrafo eléctrico.

O combóio caminhou,

e estradas em quilométrico.

 

Foram criadas escolas;

duas, médico-cirúrgicas.

Instruiu os rapasolas.

Tais criações, eram úrgicas.

 

       Mousinho

 

Por o capitão Mousinho,

ter vencido o Gungunhana,                                             

a tropa tira-o do ninho...

«Rataplana, rataplana...!»

 

 

 

Ditadura

 

O saneamento, começa.

Não escalda. Tem brandura.                                           

Pois, e então? Ora essa!

É benévola a Ditadura.

 

 

 

11
Abr17

au bonheur des dames 420

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Morte, onde está a tua vitória? 

Conheci a Professora Doutora Maria Helena Rocha Pereira no longínquo ano de 1961 quando me aventurei a entrar numa aula de História da Cultura Clássica.

Expliquemo-nos: eu era um pobre caloiro de Direito que já não aguentava a aridez das aulas nos Gerais. Por outro lado, a Faculdade de Letras era mesmo ali ao lado, passando (saindo) a Porta Férrea. 

Letras era o reino das raparigas, sexo raro, raríssimo em Direito. Depois havia um bar! Um bar! Um sítio onde se podia beber uma bica e mirar les jeunes filles en fleur. Le bonheur, quoi! 

Num dia, sentindo-me particularmente audacioso, segui uma bela rapariga de olhos grandes e prometedores (mais tarde, a verdade, a "áspera verdade" -Danton - destruiu-me as esperanças: Aqueles olhos que se cruzavam com os meus -admiradores e arrebatados - eram, afinal, quase cegos, enfim terrivelmente míopes pelo que a aceitação que lhes adivinhava era apenas uma total incapacidade de me ver! ) até ao grande anfiteatro onde a Doutora Rocha Pereira oficiava de grande pitonisa dos Estudos Clássicos. 

Não vou dizer que foi amor à primeira mas quase. A voz suave, o sorriso, a elegância,  a clareza da explicação de um passo da Odisseia, aquele em que Ulisses chega à Ilha dos Feácios e vê - e fala - com Nausicaa, criaram em mim uma tal impressão que, numa correria, Quebra Costas abaixo fui dali à livraria Atlantida comprar, endividando-me, a "Hélade" que li num rompante. A partir daí, sempre que podia, evadia-me dos Gerais e caía certeiro  nas aulas de Cultura Clássica. Às tantas, com a coragem dos conversos de fresca data, no fim da aula, fui falar com a Professora, explicando-lhe quem era, o que fazia nas suas aulas e pedindo licença para assistir. Divertida, a Doutora Rocha Pereira observou-me que eu já invadira duradouramente as suas aulas e gabou-me o gosto pela Grécia. De passo, autorizou-me a frequentar as suas lições.

Em troca de tal gentileza, falei-lhe de um conto de uma velha escrava da minha avó Aldina onde um audaz viajeiro enganava um gigante com um só olho no meio da testa e que por isso se chamava Olharapo". Ou seja numa perdida cidade do Sul de Angola, a Chibia, alguém adulterara e pintara de escuro um personagem da Odisseia e, de par, o astucioso Ulisses. A Professora ficou encantada e repetiu-me o convite para assistir às suas aulas.  

Os anos, tantos anos, passaram mas a minha admiração persistiu e cresceu. Li muito sobre gregos e sempre me surpreendeu verificar que por maiores que fossem os autores que frequentei e que possuo, em todos eles, ou nos melhores, descobria afinidades com Rocha Pereira. Ela estava (está) entre os maiores, entre os melhores. Ler os seus escritos sobre a Grecia ou sobre Roma é não um exercício mas um prazer, um passeio por um tempo que continua tão presente entre nós.

Conheci, em Coimbra, alguns grandes Professores (Ferrer Correia, Mota Pinto, Teixeira Ribeiro em Direito, Luís de Albuquerque nas Ciências, Paulo Quintela, Fernandes Martins, ou Rocha Pereira em Letras. Com todos privei de perto, escutei-os com atenção (e adiração) aprendi o que pude que foi muito menos do que eles quiseram ensinar-me. Devo-lhes muito do que sou e a todos recordo com saudade e respeito. Agora chegou a vez da "Velha Senhora" dos Estudos Clássicos. Alguém nos jornais admirava-se de ela nunca ter ganho o Prémio Pessoa. Acho que foi o prémio que perdeu, foi o seu júri que não percebeu que estava ali uma estátua viva, uma sábia do tempo dos sete sábios míticos, alguém que escutava a melodia dos deuses e entendia todas as subtilezas dos velhos coros teatrais. Não deram conta? Esqueceram-se? Bom proveito lhes faça! Mas passaram ao lado de uma oportunidade única de premiarem o melhor que havia em Portugal, algo que só entre raros helenistas alemães, franceses e ingleses tinha par.

Agora é tarde, Inês é morta. Helena, Maria Helena da Rocha Pereira está viva e quem não for demasiado distraído deverá correr às livrarias à procura das suas obras.    

01
Abr17

estes dias que passam 347

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Calma, malta, calma

(ou Calma no Brasil que Portugal ainda é nosso!)

 

Um cavalheiro holandês de seu nome Jeroen Dijsselbloem (leia-se, aproximativamente “daisselbleme” coisa que nunca devia prestar-se a patetices alegadamente jocosas ) entendeu explicar a sua política quanto a auxilio ou solidariedade económica entre Norte (dador) e Sul (receptor).

Diz a criatura que não se pode emprestar dinheiro a quem o gasta em “mulheres e copos”. Tem toda a razão. Eu também não emprestaria o meu escasso cacau a quem o fosse malbaratar.

O problema é que Dijsselbloem falava enquanto líder do Eurogrupo e referia a realidade Norte - Sul da Europa. A sensatez ou apenas a prudência aconselhariam usar uma imagem menos popularucha mas aquela cabecinha pensadora foi mais feita para usar brilhantina do que para usar bom senso.

A reacção não se fez esperar, pelo menos por cá onde as famílias se endividam alegremente para um carro novo ou tão só para ir passar umas férias numa praia das Caraíbas.

A indignação (verdadeira ou fingida) subiu ao Parlamento, inundou as televisões e juntou uma multidão ofendida pronta para ver o holandês queimado numa pira no Rossio. Há mesmo um grupo de cidadãos ultrajados que lançou uma petição para correr com o holandês. Trabalho escusado visto que a criatura, estando de saída do governo holandês, perde praticamente a hipótese de continuar no governo da Europa. De todo o modo, os peticionários deveriam arranjar um argumento melhor para defenestrar o batavo: por exemplo provar que no exercício das suas funções era incompetente.

Pessoalmente, Djisselbloem não me consegue ofender. Primeiro sou um moderadíssimo bebedor, depois não pago a mulheres. Sei que vivo num país onde há prostituição mas nunca a vi em montras no centro da cidade como em Amsterdão. Também nunca vi espectáculos de borracheira colectiva como na Alemanha, na Holanda para não falar de outros países do Norte onde o fim de semana é um triste desastre de coma alcoólico quase colectivo. De certo modo, por cá bebe-se com alguma regularidade mas com bastante contenção (não refiro as tristíssimas festas da Queima das Fitas onde os cortejos são um desfile de criaturas propositadamente embriagadas. De qualquer maneira, isso sucede uma vez por ano o que se não é desculpa também não deve ser levado demasiado a sério).

O senhor Djisselbloem poderia ter feito as suas críticas, os seus avisos com a educação, o tacto, a diplomacia que se exige de tão alto cargo. Ninguém, honestamente, pode pôr em dúvida, que os chamados países do Sul nem sempre mostraram bom senso, cautela e muito menos rigor no tratamento das suas desastradas finanças públicas. Eu, se fosse um anónimo cidadão do Norte também desconfiaria da ajuda aos do Sul mesmo se, depois, temperasse as minhas suspeitas com uns pós de solidariedade.

Nestas coisas lembro-me sempre da senhora Merkel que, ainda há poucos anos, foi, por cá, alvo duma enxurrada de insultos e agora prova que, em questões de solidariedade, está bem acima de quaisquer outros. O que cidadãos portugueses acima de toda a suspeita bolsaram sobre a senhora é algo de inenarrável e envergonha duradouramente quem apenas leu o que eles vomitaram por escrito ou nas televisões e rádios.

Há num certo Sul, quente, amável, solar e descontraído, algum facilitismo quanto a números e contas (ainda hoje li que só em Portugal há 134.000 (cento e trinta e quatro mil!!!) famílias que se atrasaram nas prestações da casa comprada. Supondo, com excesso, que haverá um milhão - !!!- de compradores de casa a pagar em prestações mensais, temos no mínimo 13,4% de maus pagadores. É muito. É terrível!)

Há no Norte, frio, austero e escuro, muito dinheiro (produto de muito trabalho e de muito rigor) bem como alguma modéstia no trem de vida, fruto, acaso, da educação protestante. Há também uma noção de pecado que nenhuma confissão apaga ou escamoteia. Genéricamente, no Norte, luterano ou calvinista, os compromissos são para cumprir dê lá por onde der. Cá é o que se sabe.

A indignação fácil não torna a dissipação menos desagradável e a pobreza que daí advém mais ligeira. Nestes poucos dias, ouvi chamar tudo ao holandeses sendo o termo pirata um dos mais usados. Parece, para estes historiadores de praia, que as frotas dos Países Baixos (suponho que na altura se usava “Províncias Unidas”) só se criaram para roubar os desgraçados portugueses que iam para os trópicos, para o Malabar e para o Brasil fazer bem aos indígenas. Ora bem: basta compulsar uma qualquer História portuguesa decente para saber como é que nos comportámos em toda a parte, o terror que inspirávamos, os ódios que suscitámos, o saque que levamos a cabo.

Um cavalheiro, de que nem quero lembrar o nome, entendeu escrever que, no Brasil, Maurício de Nassau nem sequer merece que se diga que levou uma autentica academia cultural para explorar as terras conquistadas. Os brasileiros tem publicados na Editorial Kapa, sob o título genérico de “O Brasil holandês”, sete conjuntos de obras, num total de quase vinte volumes, primorosamente ilustrados que dão conta da obra notável dos holandeses. Em contrapartida apenas podemos oferecer (e ninguém conhece estes extraordinários portugueses cultos e informados!...) o Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, autor de uma extraordinária documentação sobre a Amazónia, e Frei Cristóvão de Lisboa que deixou um belíssimo tratado sobre as plantas e os animais do Maranhão.

A criatura que, para defender as cores nacionais, disse tais coisas é ignorante, mal intencionada e mais estúpida do que convém.

Combater a Holanda, país surgido da lama, da arrebentação do mar do Norte, da extrema pobreza, é uma inigualável tolice que nenhum Jeroen Djisselbloem desculpa. Este cavalheiro combate-se provando as nossas inegáveis qualidades, renegando a nossa tradicional estúrdia (e temos dezenas de milhares de migrantes na Holanda que mostram claramente que os portugueses sabem trabalhar e ser responsáveis).

Eça de Queirós, sempre ele, a propósito de um verrinoso ataque à sua famosa condenação da colonização portuguesa na Índia, inventou a palavra patrioteiro ou patrioteiraço. Parece que, cento e cinquenta anos depois, essa tonta raça persiste. E com que vigor!

Arre que é demais!

 

* na estampa:posters que se encontravam por toda a Holanda significando solidariedade com outros povos (no caso: Portugal eVietnam) trazidos de Amsterdão em 1973.

 

10
Mar17

o leitor (im)penitente 199

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 5

História breve de como tudo começou

 

Desta feita falar-se-á de uma obra ao alcance de todos. Ou melhor dizendo, atentos os tempos que correm, ao alcance de quem leia francês. E ponho esta ressalva porquanto verifico que, actualmente, o francês está em forte declínio entre nós. Razões há muitas mas a principal é sem dúvida a facilidade do inglês que, via música, se tornou para os de menos de quarenta ou cinquenta anos, uma língua franca.

De todo o modo, vou falar de uma obra mais ou menos feita em três partes (mesmo se cada uma delas é independente) que genericamente se chama “les aventuriers de l’art moderne”. Em grosso, trata da história da cultura europeia desde 1900 até 1949 e, neste campo, incide quase só na revolução cultural operada a partir da eclosão da arte moderna em Paris – e sobretudo das artes plásticas- entre Montmartre e Montparnasse. Em pano de fundo, a aventura surrealista, o dadaísmo, o cubismo, o futurismo. Num primeiro volume assiste-se ao absoluto milagre da concentração em Paris, ainda antes da primeira guerra mundial, de artistas vindos de todo o lado, sem eira nem beira, animados tão só pelo desejo de liberdade, pela ideia de que algo de novo estava na forja, e que rompem com todas as regras estabelecidas, com o salon, e proclamam o fim do século XIX que politicamente só ocorrerá bem mais tarde com a guerra. Local, Paris. Pintores e escritores em encontros e desencontros lançam as bases do modernismo, do futurismo, do surrealismo, da abstracção, do cubismo, quase ao mesmo tempo, num cenário dominado por Picasso, Matisse, Bracque, Gris, Chagal, Modigliani a que se juntam Appolinaire, Breton, Tzara, Aragon ou Éluard, Duchamp, Man Ray, Fujita, Hemingway e toda a lost generation, mais a madrinha deles (a monstruosa Gertrude Stein), duas livreiras de excepção   Adrienne Monier e Silvia Beach, alguns galeristas (depois grandes) e a imperecível “nouvelle revue française, mãe das edições Gallimard.

Disse Paris mas não posso excluir outros grandes centros (Berlin ou Munique, terra de promissão dos expressionistas) Turim, Milão e Roma ou Londres e, sobretudo Nova York que alimentou e se alimentou da transumância transatlântica de artistas e escritores americanos e europeus. É porém Paris que se assume como o centro da verdadeira “grande revolução cultural”, mesmo se este nome depois fosse traduzido num calão sórdido e venenoso por obra de um tormentoso vento de leste para citar um vago verso do “grande timoneiro”.

É em Paris que se desenrola uma aventura contada em três volumes por Dan Frank, autor dos “aventuriers...” (1. Le temps des bohemiens; 2, Libertad; 3 Minuit). Não conhecia o escritor e só por mero acaso vi um longo documentário (suponho que em 3 ou 4 episódios) sob o título acima enunciado. Terá sido na RTP2 ou, mais provavelmente, num dos canais generalistas franceses que ainda cá chegam (ARTE? TV5?). De todo o modo, trata-se de um pequeno milagre televisivo: linguagem simples, explicações claras, história q.b., um par de anedotas suculentas tudo conduzido por um fio narrativo preciso e eficaz.

Entusiasmei-me, claro e fui pelos meus dedos: internet, amazon fr., e dei com o filme e com os livros. Ainda por cima havia (há) uma edição de poche de todos os volumes o que significa uma boa economia. Naquelas mil e tantas páginas perpassam as noites loucas de Montparnasse (e as suas deusas: Kiki, Youqui, Peggy Gugenheim, Elsa Triolet, Gala Dali, Nush Éluard, a horrenda Gertrud Stein ou Clara Malraux. ) Assistimos à trágica história de amor de Modigliani e Jeanne Hébuterne, ao imparável crescimento de Picasso, à aventura surrealista bem como ao percurso extraordinário de Gide ou Malraux, gente que deu sentido e honra ao “engagement” político. Da grande Guerra onde se ilustram alguns estrangeiros que pegam em armas pela França que os acolhera (Apollinaire ou Cendrars) à guerra de Espanha palco de loucas mas heroicas aventuras de Malraux, até aos dias sombrios da Ocupação e à Resistência de poucos, ao silêncio de muitos e à escabrosa traição de artistas, actores, cantores e escritores que não hesitaram em aproveitar os convites de Berlin e as facilidades garantidas pelos ocupantes.

Vale bem a pena ler (coisa que, como diz o Manel Sousa Pereira a quem ofereci um volume, se lê sem conseguir parar) esta bela obra que não ficará nos anais da grande literatura mas que, sobretudo nos tempos de ignorância que correm, a ilumina, explica, divulga e glorifica.

Leitores, deem-lhe com força: à barca, à barca que temos gentil maré...

 

* na gravura Raparigas na paisagem de Jules Pascin (o Príncipe de Montparnasse) nascido Julius Mordecai Pincas, Bulgaria 1885 e morto (suicídio) em Paris 1930. Era conhecido, admirado e amado por toda a gente a tal ponto que, no dia do seu enterro, todas as galerias de arte de arte fecharam as suas portas. Sobre ele, Hemingway escreveu belas páginas ( in Paris era uma festa).