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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

19
Jun17

Estes dias que passam 355

d'oliveira

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“A morte neste jardim”

(enterrar os mortos e cuidar dos vivos)

As imagens (muitas vezes sensacionalistas) que gulosamente as televisões repetem vezes sem conta, deviam fazer-nos reflectir. Como é que, num país onde Verão após Verão, se sucedem as chamas, as mortes, a ruína dos mais pobres, dos mais velhos e dos mais distantes, ninguém atenta nesta horrenda verdade: gastamos em combate aos incêndios mais (muito mais, várias vezes mais) do que Espanha, França, Itália ou Grécia.

Todavia basta reparar nas imagens: mato por todo o lado, floresta desorganizada, estradas e caminhos, bem como as casas, paredes meia com as árvores. Basta uma chama e vai tudo. Sabemos disto desde há décadas. O interior perde gente, antigas terras agricultadas ficam baldias e selvagens, quem resta investe em eucaliptos e pinheiros, numa desordem que agora cobra um alto preço. Sessenta e um mortos! Para já. Mas é infelizmente previsível que esta macabra contagem continue a registar progressos. Há desaparecidos, as frentes de fogo continuam activas, o calor não baixa, o vento continua a soprar com força, a humidade atmosférica está em níveis baixíssimos.

E o Verão ainda nem começou...

De quem é a culpa? Vai, mais uma vez, morrer solteira? Desta feita não há incendiários, desculpa muitas vezes fácil e esfarrapada que oculta as falhas políticas de todos, Governo, autarquias, pequenos proprietários rurais, proprietários absenteístas ou emigrantes. Não há prevenção que se veja. Ou seja, quando, desde há muito, era imperioso ordenar a floresta, criar leis que o permitissem, punir quem não limpa os seus pinhais e florestas, tornar as estradas nacionais seguras sem barreiras de sombra e de árvores (nunca esquecer que boa parte das vítimas morreu na estrada em fuga, em pânico, perdidas pessoas e bens). Quem ficou teve melhor sorte: até ao momento, pese a angustia, o medo, a desolação, ainda está vivo.

Quem viaja por esse interior intensamente florestado, repara na falta de “estradões” corta fogo. Basta ir a Espanha para ver como se faz. Quem passa pelas matas ordenadas pertença das grandes papeleiras, vê que aí tudo ou muito, ou alguma coisa, se fez para prevenir o incêndio. Prevenir é melhor, é mais barato, é mais futurante do que remediar.

Cada vez se gasta mais em aviões, em helicópteros, em equipamento pesado de bombeiros, em formação. Desgraçadamente, graças a um conjunto dramático de coincidências, tudo isso se mostrou inoperante.

Parece que não há guardas florestais! Parece que nada ou pouco regulamenta as plantações ou simplesmente o que lá está. Grande parte da floresta nacional portuguesa desapareceu sendo substituída pelas plantações rápidas desde o pinheiro ao eucalipto. Que ardem com facilidade, como se vê. De resto, a floresta arde, sempre ardeu, especialmente a mediterrânica. Temos de viver com isso, aliás vivemos com isso há centenas ou milhares de anos. Mas, pelos vistos, não aprendemos nada. Durante séculos a floresta era protegida pelos rebanhos, pelas pessoas que iam por mato para camas dos animais, para aquecimento. Agora não há pessoas, o aquecimento faz-se a gás e os rebanhos são escassos. A erva cresce, seca, torna-se combustível sem mais. E arde.

Agora, o tempo é de choro e de apelos à solidariedade (de todos) e à coragem dos que perderam tudo, para não falar dessa outra quase certeza: daqueles que, durante os próximos três meses irão perder terras, casas, gados, bens, parentes e amigos.

Lamentavelmente, se acaso a selecção se safa, este desastre passará para um plano mais opaco. Se, ao menos, estes primeiros dias de apelos se traduzirem numa ajuda razoável às vítimas sobrevivas, já teremos um milagre mesmo se o verdadeiro auxílio seja a inflexão das políticas da floresta, milagre dos milagres, quase impossibilidade teórica e prática.

Senão... as árvores voltarão a crescer (sobretudo os eucaliptos que convivem com o fogo) a desordem continuará viva e alegremente irresponsável, os estradões ficarão no papel, os guardas florestais brilharão pela ausência, os bombeiros voltarão a receber mais equipamento e as mortes seguramente repetir-se-ão. Como a frágil comoção pública e o dedo apontado aos incendiários (parece que alguém teria pensado numa espécie de prisão preventiva domiciliária dos eventuais ateadores de fogos!!!)

 

Nas reportagens que fui vendo, dois destaques: as televisões repetiam continuamente as mesmas imagens e as mesmas entrevistas numa ânsia de gastar tempo e ganhar audiências.

Vários populares afectados pelos incêndios entenderam queixar-se dos bombeiros (nove ou dez deles já feridos e hospitalizados) que não os ajudavam a salvar os parcos bens, a casa, o terreno. Nem sequer percebiam que os bombeiros tinham uma missão bem mais dura, mais perigosa e mais urgente: salvar todos, circunscrevendo o avanço do fogo. As televisões adoraram estes queixosos, deram-lhes a palavra sem perceber a verdadeira missão de quem informa sobre um desastre medonho e que é não ceder ao fácil, à demagogia e ao egoísmo. Mas isso seria pedir demais aos repórteres no “terreno”, não acham?

 

* O título do folhetim pertence a Luís Buñuel que para este filme (1956) requereu Simone Signoret e Charles Vanel.

O subtítulo pertence ao Marquês de Pombal. Era um déspota, um ambicioso, um parvenu mas também soube ser eficaz. Por vezes, demasiado “eficaz”...

 

 

16
Jun17

Au bonheur des dames 410

d'oliveira

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Estamos bem melhor e há muitos anos

 

No “Público” há hoje uma reportagem sobre os efeitos benéficos do Erasmus. Não tenho quaisquer dúvidas sobre isso, basta-me ver o que se passa com uma série de familiares jovens que, ao contrário da minha geração, puderam conhecer mundo sem perder os contactos académicos e por preço acessível.

Sou de um tempo em que viajar ficava caro, caríssimo e estava absolutamente fora do alcance de quem era jovem. Nesses tempos longínquos nem sequer era ainda concebível a primeira revolução ni turismo jovem, o “inter-rail”.

Todavia, apesar disso, dessa dificuldade quase absoluta de viajar, para já não falar dos custos e da possibilidade de ter passaporte (coisa que nos anos de guerra 1961-1974 era quase milagrosa), tive a enorme sorte de poder viajar. E nesse viajar incluo a ida para Moçambique quando tinha 13 anos. Tirando a língua, tudo era diferente, maior, menos convencional, menos (muito menos, pelo menos para os “europeus”) pobre. Até o liceu que frequentei tinha uma característica inédita nos anos 50. Era misto. Melhor dizendo, era misto no 3º ciclo, mas a zona das raparigas só se separava da dos rapazes por um largo pátio central.

Quando regressei à pátria madrasta (à “metrópole”) para acabar o liceu e fazer a universidade pude dar-me conta do fosso que três anos em África representavam. Numa palavra era bem mais cosmopolita do que os meus colegas. Com o passar dos anos, além de ter voltado para férias em Moçambique, comecei a poder viajar pela Europa. A Espanha, a França, a Bélgica e depois a Itália, a Alemanha a Holanda e por aí fora. Claro que, seguindo uma palavra de ordem de Jorge Delgado, um sogro que foi um pai, um amigo, um mentor e um camarada, dispus-me a ir a todo o lado desde que pudesse passar por Paris. Mais tarde, estendi a ideia a Berlin, Roma e Amsterdão. Quando conheci Nova Iorque, foi como se regressasse a casa. Só em Paris, graças ao Lagardére (Paul Féval), ao Vitor Hugo, aos Mosqueteiro (saravah, querido Alexandre Dumas, homem livre e combatente pela liberdade) e a um punhado de franceses mais, tive idêntica sensação. Calcorreava as ruas desde o 1ª ao 7º bairros e tudo me falava a velhas aventuras, lidas desde que me lembro de ler. Que emoção andar pela re Tournon e saber que ali vivia d’Artagnan e, mesmo ao lado, Athos ou Porthos. Acho que, ainda hoje, conheço melhor Paris que Lisboa ou o Porto. Em Veneza, discuti cinema, o velho cinema dos anos 40/5o com um punhado de locais que não acreditavam que existisse um portuga capaz de se recordar (e citar) “Não há paz entre as oliveiras” ou “Arroz amargo”, filmes do enorme Giuseppe de Santis que hoje está tão (mal) esquecido. Em Pescara, ofereci a uma florentina, linda como os amores e ourives, “Portogallo mio remorso” de Alexandre O’Neil numa tradução belíssima de Joyce Lussu que, depois descobri ser mulher de Emilio Lussu, grande dirigente de “Giustizia e Libertá”, várias vezes preso, exilado (inclusive em Portugal) e autor de um livrinho (Teoria da Insurreição”) que nos anos sessenta me impressionou fortemente. Andei 30 anos à procura do livro e quando desesperava (já nem era citado no catálogo da editora Einaudi) consegui-o num alfarrabista italiano encontrado na internet.

Destas viagens trouxe quilos, quintais, toneladas de livros que me habituaram a ler no original centenas de autores. Isso, a curiosidade, a vontade de perceber, fizeram-me ainda mais europeu mesmo se a minha costela da praia de Buarcos, nunca me permitisse esquecer este amaldiçoado rincão tão maltratado pelos seus indígenas, tão descuidado pelos seus políticos e tão sofrido pelos menos afortunados que buscam sob sois menos clementes ou menos brilhantes o pão nosso de todos os dias.

Cosmopolita, pois, mesmo se a tal condenado pelos anos de chumbo. A liberdade vinha de fora, o conhecimento também. Hoje, e era a isso que eu vinha, os vinte anos do programa Erasmus estão em vias de criar uma elite universitária, mais livre, mais disposta conhecer o outro, a reconhecer-se nele, a ver o estrangeiro como um vizinho.

Durante os meus tempos de estudante de “Direito Comparado”, conheci umas     centenas de colegas vindos de toda a Europa (só não havia, et pour cause, russos ou chineses!)e, em menor grau, de outras partes do mundo. Foi nessa amável e gloriosa época que, um alemão me confidenciou que nunca poderia fazer a guerra contra outros povos. Porque os conhecia, através de nós, colegas e amigos, aprendizes bem dispostos de um par de regras de convivência jurídica internacional.

O medo, a estranheza pelo estrangeiro vencem-se pelo convívio, pela tentativa por vezes torpe de falar outra língua, de entender o que nos tentam dizer. Na primeira vez que pisei a Grécia, soltei as duas únicas palavras que sabia, kalimera e/ou kalinicta (– não garanto a grafia.) isso para dizer bom dia ou boa noite, palavras ensinadas por um chef de mesa de um restaurante chinês (!), aqui do Porto.

Foi uma alegria: uma inteira família, que digo?, um clã de gregos guinchou de prazer, cobriram-me de palavras e antes que eu conseguisse dizer que era português já circulavam numa improvisada mesa vinho, azeitonas, pão, queijo e uns tomates comoventes de saborosos. Aquele improvisado ágape (palavra grega) durou horas de conversas impossíveis, risos, cantigas, muita gesticulação. Adoptaram-me, claro, e vi alguma Grécia pelos olhos e companhia deles, orgulhosos de se mostrarem e mostrar uma terra que, ao fim e ao cabo é de nós todos, europeus. Nem a uma missa escapei e a dois baptizados. Descobri que o pope do lugar comia como um abade lusitano dos velhos tempos. E bebia como dois cónegos dos nossos, dos de antigamente. Em boa verdade nem àágua dizia não. Também é verdade que a misturava com um vinho escuro, espesso, oleoso que a mim me soube a papel de música. Ou então já estava também bem servido e melhor bebido.

O Erasmus é o modo mais rápido, mais barato e mais inteligente de criar cidadãos portugueses europeus. Cai na idade de todos os espantos, da aventura possível, da novidade e dos amores de Verão (ou de qualquer outra estação, convenha-se, que a “juventude é”, como afirmava, certeiro, Ruben Dario, outro cosmopolita, “um divino tesouro”).

12
Jun17

estes dias que passam 354

d'oliveira

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Crónica de um naufrágio sem glória

 

Agora que os resultados da 1ª volta são conhecidos é fácil “fazer prognósticos” como, ironicamente se diz no futebol. Todavia, esta hecatombe sofrida pelo PS anunciava-se há muito. O PS francês vivia em respiração assistida muito antes de Hollande chegar à Presidência. Ouvir os tenores do partido nas televisões era já um exercício penoso. As pessoas perguntavam-se como é que numa capoeira com mais galos que galinhas havia uma espécie de paz. Não havia, claro mas o ruído dos duelos era “feutré” e a opinião pública distraía-se com os faits divers dos humores e amores do Presidente, coma escandaleira suscitada pelas acusações de uso indevido de dinheiros (públicos e privados) pelos sarkozistas e, sobretudo pela indefinição das alas mais radicais dos partidos de poder.

Ao longe, ou bem mais perto, a FN ia ganhando terreno nos antigos feudos proletários e aparecia como uma grande triunfadora nas eleições europeias, coisa que, para muito comentador estrangeiro, terá passado quase despercebida. As pessoas ainda acreditavam na política de cordão sanitário usada nas eleições internas (municipais, regionais, legislativas e presidenciais) para atirar para debaixo do tapete a incómoda realidade da Extrema- Direita. Nisto, a França, certa França, sempre deu lições a começar pela cambalhota no final da 2ª Guerra Mundial que transformou um país vencido (e, em muitos casos, convencido) na pátria da Resistência.

Começou aí o mito de uma nação de esquerda, indomável, em que um partido calado (quando não vagamente colaborante) até À invasão da União Soviética se pode apresentar como o campeão da revolta, da insubmissão (onde é que já ouvi isto?), o partido dos mártires (confundindo neste termo os mortos militantes e todos os que, sem partido, sem causa, sem acção ou reacção, eram massacrados pelos ocupantes alemães em guisa de resposta aos atentados).

Então, entre nós, a coisa foi excessiva: francófonos e francófilos desde sempre (e neste “sempre” incluo os anos das dramáticas ocupações francesas logo no início do século XIX) a bitola política foi sempre aferida pelo modelo francês. Até o dr Soares falava no seu “amigo Miterrand”, provavelmente por ser o francês a única língua europeia que(tant bien que mal) dominava.

Boa parte da inteligentsia indígena viveu o exílio em Paris, moldou-se nesse cadinho, importou todas as modas intelectuais gaulesas, desprezando ao mesmo tempo tudo (ou quase) o que se passava no resto do mundo. Suponho que terão ficado muito tristes com os resultados do tsunami deste domingo.

Todavia, que esperavam? Será que não viam o cansaço dos eleitores, a ineficácia das medidas económicas, o retrocesso da economia francesa, ao imobilismo social decorrente da incapacidade de vencer uma espécie perversa de direitos adquiridos por todo o género de corporações, muitas delas justamente sustentáculos dos partidos de poder?

Ontem, na televisão francesa, o actual Primeiro Secretário do PSF , Jean Christophe Cambadelis , advertia contra os perigos de uma excessiva maioria de Macron. Ou seja, fazendo jus, às suas origens trotskistas, Cambadelis entendia que o povo tinha votado mal. Tinha dado o seu sim a uma espécie de coartamento das liberdades democráticas. Uma maioria tão forte, quanto a que é possível imaginar, transformaria o exercício da Presidência num passeio ao campo, e esmagaria o diálogo e o confronto são de ideias. Felizmente, está fora da Assembleia. Perdeu como perderam todos os grandes dirigentes, Hamon incluído. A votação popular não lhes deu qualquer hipótese. Como se os eleitores quisessem dizer “entre estes os próximos de que se desconhece tudo ,antes os segundos. A seu tempo poderão ser corridos.”

O desastre da Esquerda estende-se implacavelmente aos seguidores de Mélenchon e, menos, ao PC que já era quase irrelevante. Com o picante de, em muitos casos, ser a “França Insubmissa” a passar o atestado de óbito aos candidatos do PS.

E a Direita?

OS Republicanos (LR) são também fortemente derrotados mas, apesar de tudo, salvam a mobília. Aparecem já como o segundo maior bloco na Assembleia. Com a vantagem suplementar (e não é assim tão pouca)de serem um partido estruturado, experimentado face a uma coligação onde pouco está definido estrategicamente ( e mesmo tacticamente...) Se alguma fragilidade há em La Republique en Marche esta é a mais evidente. É um bloco protestário, inconformado com o pântano político, mobilizado por u político capaz mas ainda sem a hierarquia necessária, mesmo se mínima, que permita, além do não rotundo à situação actual, um claro sim a medidas mobilizadoras e restauradoras de uma certa grandeur française a que indiscutivelmente Macron aspira.

E a Extrema Direita de Madame Le Pen, Philipot (para já salvo in extremis)? Apanha um grande balde de água fria, aliás um resultado mais consentâneo com a sua real influência na sociedade. O sistema de duas voltas pode ditar-lhe uma sorte negra. Para tal basta que funcione, ou volte a funcionar, o “cordão sanitário”. Neste capítulo, e diferentemente do que sucedeu na 2ª volta das presidenciais, Mélenchon já se pronunciou contra a FN, apelando a votar no candidato que a enfrenta, circunscrição a circunscrição. Claro que, neste caso, Mélenchom persegue um outro objectivo: ter mais deputados do que Marianne Le Pen. Nisto o ego da criatura, émula de Maduro, também conta!

Uma palavra final para o senhor Manuel Valls, ex-primeiro ministro socialista, ex-derrotado nas primárias do PS, ex sabe-se lá mais o quê: passa à 2ª volta graças a não ter tido pela frente (Favor de Macron) candidato LREM. Cabe-lhe derrotar uma senhora melenchonista. Se eu fosse eleitor dessa circunscrição poderia contar com o meu voto. Mal por mal antes um europeísta do que uma caricatura pro-venezuelana.            

09
Jun17

o leitor (im)penitente 205

d'oliveira

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Manuel Alegre

Um belo dia

Estou na esplanada do costume, frente às árvores e aos cães que correm num dia de sol, quente e macio. Já tomei o primeiro café da manhã, beberrico a água que a jovem e amável empregada me trouxe e leio no jornal a notícia: o Manel (Alegre) ganhou o Camões! Eu, nisto de prémios, só me lembro das boas notícias. Por exemplo o Nobel ao Cela que sempre li com gosto e divertido. No ano seguinte foi o Octávio Paz: nova alegria. Caseiramente vários bons e velhos amigos foram distinguidos. O Zé Mattoso e o Herberto Hélder, o Craveirinha e o Manuel António Pina, só para lembrar os que imediatamente me ocorrem. A alguns deles liga-me uma amizade de 30, 40 ou mais anos. Agora o Alegre que eu, caloiro na lúgubre Faculdade de Direito, conheci em 1960. Acho que foi ele que, protetor e amigável, me chamou o “caloiro que gosta de Rilke”. A partir desses dias partilhei com ele lutas e desencantos, perseguições e esperança, bons dias e outros maus. Recordo-lhe a voz forte e poderosa nas “Magnas” no pátio do velho convento dos Grilos, então sede da Associação Académica, os primeiros poemas publicados na “Via Latina”, uma memorável bebedeira na véspera da partida dele para Angola. O Manel, sempre dramático, envolvido na capa, cantava qualquer coisa como “capa negra, rosa negra, rosa sem roseira” tema depois musicado por um dos nossos companheiros dessa noite, o Adriano. Talvez também estivesse connosco o António Portugal, cunhado do Manel, guitarrista exímio e amigo certo que ainda hoje choro. Éramos jovens, vivíamos a esperança, apesar de tudo a nossa comum juventude era mais de vinho e rosas do que de chumbo e cólera. Mas a guerra espreitava. Espreitavam também o exílio dele, as nossas prisões, as nossas desilusões. Nos anos em que estava longe, por várias vezes tive ocasião de o lembrar. Quanto mais não fosse porque uma vez tive, jovem advogado, de ir amedrontar um editor, livreiro gatuno e oportunista, que publicara uma contrafação de um dos seus livros, enchendo-se de dinheiro. Foi a minha mais rápida e mais saborosa vitória: o energúmeno nem tugiu nem mugiu e passou-me para a mão umas dezenas de contos que fui pressurosamente entregar à minha editora (Centelha, Coimbra) que de seguida os entregou à mãe do poeta para lhos fazer chegar ao exílio.

Depois do 25 A, fomo-nos encontrando sobretudo em festejos de homenagem à AAC, ao CITAC, às nossas comuns e antigas lutas estudantis. Amigos queridos foram morrendo, já citei dois, e dos melhores, o António Portugal e o Adriano Correia de Oliveira, sem esquecer, claro, o Fernando Asis Pacheco, outro membro dessa inconsútil frátria nascida na velha Universidade, nas ruas da Alta, na praia da Figueira e no frenesi de mil conspirações (e aqui saúdam-se dois outros queridos amigos e poetas, também: Rui Namorado e António Lopes Dias, felizmente vivos e a escrever, eles também desses longínquos anos coimbrãos, dos “Poemas Livres”, da “Vértice”, das noites do “Mandarim” e da Praça da República -naqueles tempos ingénuos felizes havia quem dissesse “Kremlin e Praça Vermelha”.

Depois, já por este século, apoiei-o por duas vezes nas campanhas para a Presidência da República, mesmo se da segunda vez, como então lhe disse e ele agora reconhece, só a amizade de dezenas de anos me fizesse dar tal passo

Mas voltemos ao dia de hoje: o Manuel Alegre ganha o Camões. Ganha-o sem rivais, sem segundas voltas, sem hesitações. Ganha-o graças a um júri internacional (um beijo, Maria João Reynaud, amiga antiga da mesmíssima Coimbra, se bem que muito mais nova) que deixa constância da motivação do prémio: a intrínseca qualidade poética e a honrada e constante luta pela liberdade, pela dignidade humana, por Portugal e por África.

Este prémio não honra apenas o Manel. Honra (como já acontecera com o Manuel António Pina) uma geração de intelectuais e cidadãos que disseram presente a todas as lutas destes últimos cinquenta anos. É provável que nem sempre tivéssemos a razão pelo nosso lado, que por vezes olhássemos a realidade com óculos demasiado fumados e torpes, que pecássemos “por pensamentos, palavras e obras”. Todavia, num saldo quase final a que a idade e proximidade da morte nos obriga, tenho por certo que cumprimos o nosso dever, que defendemos honrosamente a liberdade e a esperança.

Tenho por mim que merecemos o verso (lembrança de Villon) de Brecht

Vós que haveis de surgir das

cheias

Em que nos afundámos

................

pensai em nós

com indulgência.

Um abraço, querido Manel. Mais abraços Rui e Didi e outros  não mencionados mas sempre presentes, vocês que resistiram às cheias e à praia hostil onde agora sobrevivemos. O dia é de festa!

Cave diem!

 

* na gravura: Kandinsky, movimentos 4

06
Jun17

Estes dias que passam 353

d'oliveira

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Espera lá!...

(ou Mexia mexe com quem?)

(nota: não conheço nem nunca vi o sr. dr António Mexia, não conheço (que eu saiba) amigos dele e pouco me importam a sua saúde, o seu salário, o seu nome e a sua reputação).

Parece que o principal dirigente da EDP está arguido num processo de corrupção. Pelo (pouco, pouquíssimo) que os jornais dizem, a criatura terá conseguido para a empresa que dirige uns excelentes proventos, “rendas”, considerados excessivos pela troika (afinal a tal troika não era assim tão nossa inimiga?) pelo Ministério anterior e, já agora por vários partidos e actores políticos.

Ora, se é que ainda consigo raciocinar, se Mexia está arguido ou é corruptor ou corrompido. No segundo caso, nem se percebe como é que os chineses o aturam e lhe pagam (principescamente).

Enquanto corruptor, isto é alguém que untou as mãos (e provavelmente o antebraço, o braço, o ombro e o resto da anatomia) de quem em nome do Estado lhe concedeu as referidas e excessivas rendas, conviria saber como se construiu a tramoia, quem saiu beneficiado, por quanto, há quanto tempo etc., etc.

Se a informação é boa, essas rendas foram negociada com o governo do irrepreensível e, vagamente, engenheiro sr. Sócrates. Mais, o ministro que deu a cara teria sido um certo cavalheiro de seu nome Manuel Pinho, ou algo do mesmo teor, que depois de sair pela porta baixa da arena onde fazia corninhos a uma qualquer criatura, apareceu travestido em visiting professor da reputada Universidade de Colúmbia em Nova Iorque.

Eventualmente, por acaso, mero acaso, curioso acaso, a dita instituição recebera uma vultuosa soma da EDP para, também eventualmente criar uma cátedra sobre economia da energia ou outra treta qualquer.

Dizer que o sr Pinho (o dos corninhos) fora pago desta maneira pela EDP pelo serviço de negociar brandamente as rendas é passo que não dou, deus me livre, Jesus, Maria, José!...

Pinho, como Sócrates, apesar da cornamenta feita com os dedinhos, é, até prova em contrário, criatura impoluta. Por junto poderei considera-lo grosseirote, esparvoado que isto de fazer figas tão imbecis no Parlamento não lembra nem a um idiota chapado.

Todavia, subsiste esse pequeno pormenor das rendas excessivas que puseram os cabelos em pé até ao careca da troika. Então o Estado, na pessoa do seu Governo dá de mão beijada um porradão de maravedis a uma empresa glutona? E logo um governo do povo, de Esquerda (ou tido como tal...) que mais tarde até foi desautorizado por outro governo, esse de Direita (que como se sabe e o PCP ensina, é sempre reaccionário, favorável aos monopólios, ao patronato, aos ricos e sei lá quem mais) que diminuiu as rendas para o actual nível. E neste ano e meio de governo revertedor, socialista e gerigoncista, ninguém foi às mãos papudas de Mexia e da EDP e lhes ferrou o par de reguadas fiscais da ordem?

E ninguém buscou um corrupto (ou meia dúzia...) já que, segundo os agora clarividentes jornais, toda a gente andava intrigada com as benesses concedidas à EDP? É que, se há corrupção, tem de haver corruptor e corrompido, ou não é assim?

Eu sou um leitor furioso. Leio tudo até a informação, farmacêutica dos medicamentos que tenho de tomar, não vá pílula fazer mais mal que bem. Porém, nisto de pílulas, há sempre um copo de água para acompanhar. Ora aos actuais arguidos (Mexia & alia)falta o copo de água para os engolir. Falta a gente que encheu o bolso em troca da sua generosidade. Falta a gente que permitiu (se é que também não se encheu) ao(s) primeiro(s) corrompido(s) aumentarem a sua fortuna pessoal.

Enquanto este pequeno mistério não se aclarar (contratem o Poirot, que diabo!, ou o Moita Flores ou quem quer que seja) estou de pé atrás. Atrás e fazer figas. A vontade era seguir o exemplo pouco brilhante do sr Pinho mas a mim basta-me entrelaçar os dedos atrás das costas.

 

Nota: o sr Jerónimo de Sousa resolveu dizer que este eventual escândalo nunca ocorreria se a EDP não tivesse sido privatizada. Ou é ingénuo ou não conhece o Estado e a sua engrenagem interna. Aliás, quem senão o Estado ou os seus representantes poderia decidir das rendas a pagar?

Seria de recomendar ao sr Sousa um breve estudo sobre como na anquilosada URSS a burocracia se governava (e desgovernava a sorte dos desgraçados súbditos) e como alguns dos próceres dessa altura se têm mantido à tona sem prestar quaisquer contas aos cidadãos de segunda em que mandam despudoradamente. Mas isso é outro conversar...

  

 

02
Jun17

estes dias que passam 352

d'oliveira

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Boas notícias? Não!

Péssimas notícias!...

 

A inda não tinha secado a metafórica tinta do meu último texto e, Zás!, Catrapáz!, lá foi tudo borda fora.

A Dívida Pública (com letra grande e tudo) voltou a aumentar. Neste momento vai em 247 mil milhões e se o mês correr como o anterior chegarem ao verão com 250 mil milhões!!!

E há todas as razões para crer que a coisa vai ser assim pois verifica-se de há vários meses para cá a tendência suicidaria de subida.

Isto para não falar da dívida privada que, todos os indicadores o confirmam, está outra vez a adejar pelas alturas. Bem podem os optimistas de serviço (Costa ou o 4ª Pastorinho) felicitar-se com outros resultados ao mesmo tempo que, e não por acaso, esquecem este que é esmagador. Em Portugal à melancolia do costume sucede-se a euforia dos tolos e dos ignorantes logo que um raio de sol pálido e fortuito espreita por entre as nuvens. A taxa de aforro privado é a mais baixa de sempre (e isto num país que, durante décadas sempre poupava uns trocados) o que torna ainda mais frágil a posição dos que teimam em dar um passo mais comprido do que a perna. Que o diga o disparo do consumo de bens quase todos importados (com relevância para o automóvel), para a previsão de férias mais caras e mais longe, o arranque do preço da habitação para venda que sobe aceleradamente em todos os lados , sobretudo, em Lisboa e no Porto. Por outro lado não há dos lados da banca (e já nem falo dessa coisa chamada CGD que foge do interior a sete pés e mima o litoral com mais oferta) qualquer sinal de encorajamento da poupança. Quem tem meia dúzia de tostões bem pode gastar a cabeça à procura de alguém que lhe cuide do dinheiro poupado.

Mais: a Banca, toda ela, aumentou todos os preços dos seus serviços que, graças à informática, tem baixado sucessivamente. A deputadagem na AR e a gentinha das finanças andam mais preocupadas em afrontar os escassos organismos independentes de controlo do que em evitar que quem pode mande os dinheiros para fora. Agora, sem que se perceba muito bem, Jersey, a ilha de Man e o Uruguai já saíram da lista de off-shores suspeitos. Consta que quem devia dar parecer sobre o assunto não foi ouvido.

A discussão (ou a pré-discussão ) sobre o futuro Orçamento está prenhe de sound-bites despesistas. O senhor Mário Nogueira, eterno dirigente da Fenprof, depois de um silêncio obediente de quase dois anos, volta a alanzoar reivindicações. A funçanata pública agita-se e promete greves tremendas que, como de costume atingem apenas uns desgraçados inocentes. Sempre os mais pobres e os mais desprotegidos, nunca os poderosos. Na disputa sobre quem exige mais, o excelso BE na voz de um tal Jorge Costa, deputado, quer ainda mais. “Desobedecer à Europa”, sintetiza o jornal. Esta criatura finge que não sabe de onde nos veio durante décadas o dinheiro, todo o dinheiro, de onde ele ainda vem, dos baixos ou nulos juros, enfim para ele, e amigos, a Europa é um ogre e nós somos o carneirinho tenro onde a malvada criatura ferra o dente fétido e mortífero.

Evidentemente, não comparo este despesista irresponsável e ignorante com os drs Costa e Centeno que, apesar de tudo, certos que já quase têm no papo uma sólida maioria, travam às quatro rodas. Mas a opinião pública excita-se mais com o esganiçamento reivindicativo do que a cautela do dia a dia.

E as notícias são as que os beijinhos e as selfies narram na televisão assim como os épicos sucessos do jardim à beira mar plantado, o “torrãozinho de açúcar” de que falava uma das personagens de Eça...

 

 

02
Jun17

estes dias que passam 351

d'oliveira

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Há boas notícias? Há.

E vão continuar?

 

1 Se ouvi bem a Sr.ª Secretária de Estado do Turismo, este sector em forte, fortíssima alta, teria criado 39.000 empregos. Se o que penso ter ouvido está certo, então a diminuição do desemprego (sempre benvinda, seja porque razão for e por quanto tempo puder ser) deve-se fundamentalmente, e quase só, a isso.

De todo o modo, dure o que durar, este fenómeno de atractividade nacional é bom. Todavia, eu sou de uma terra (Figueira da Foz) que durante setenta anos assentou boa parte da sua riqueza no turismo. Praticamente, desde o tempo de Ramalho Ortigão (o seu texto sobre a cidade em “As praias de Portugal” é do melhor que já lhe li.) até meados dos anos sessenta do século passado.

De repente, o Algarve emergiu com praias quase vazias, água mais quente, tempo sempre bom, pouco ou nenhum vento. Foi a debandada. Nunca mais a Figueira viveu verões de enchente como os da minha infância e adolescência. A cidade cresceu, tentou diversificar as suas actividades produtivas mas aquele maná de “banhistas” trazidos pelas linhas férreas (a da Beira Alta transportava espanhóis e a do Oeste as gentes da Estremadura enquanto o ramal de Alfarelos enchia a cidade de coimbrões. A Figueira era “Coimbra C” numa menção às duas estações coimbrãs, A e B. ) esmoreceu fortemente. Sic transit...

Os baixos preços portugueses já, nos anos sessenta, tinham trazido uma revoada de estrangeiros, franceses sobretudo. Mesmo hoje, são os baixos preços um dos nossos principais trunfos. Mas não o único. De facto, as zona leste e sul do Mediterrâneo entraram em convulsão. Muitos milhões de veraneantes abandonaram, temporária ou definitivamente, a Turquia, a Síria, o Líbano, o Egipto. A Tunísia está semi-deserta, a Líbia ainda mais, a Argélia no mesmo. Até Marrocos, o último país muçulmano ainda tranquilo, começa a ser olhado de viés.

Portugal foi uma alternativa exequível, pacífica, próxima, apenas um pouco mais cara, que beneficiou da expansão dos voos low cost. Novas zonas turísticas foram finalmente descobertas desde o Douro até ao magnífico Alentejo que já não é só praia.

O único problema do turismo é que, para muitos turistas, basta uma vez. Depois procuram outros locais, sobretudo no caso do turismo estival. Claro que, para compensar, estamos a assistir a um crescimento exponencial do turismo de terceira idade ao mesmo tempo que a combinação preços baixos de alojamento e alimentação com a descida dos custos de viajem (e o crescimento da riqueza individual em certa Europa e na Ásia - China ou Japão) garante, durante mais algum tempo, um fluxo igual ou crescente de visitantes. A descoberta de novos destinos internos também suscita curiosidade e interesse. Ainda há pouco tempo, turisticamente falando, o Porto era medíocre e agora é o que se vê (e, por vezes, se sofre...).

2 Um papagaio televisivo dominical e pouco original afirmava ontem que a eventual vinda de Madona e de mais uma dúzia de celebridades provava a inevitabilidade de uma enxurrada de novos residentes graças a um estatuto fiscal que tem feito despoletar a venda de habitação de luxo. Sem querer retirar o peso dessa procura (no Algarve é significativa) tal não chega para provar o que quer que seja. Não é a habitação de luxo que nos tira da miséria mesmo que engorde alguns construtores civis.

3 O país progredirá se criar mais riqueza, se atrair mais investimento significativo e reprodutivo, se elevar o ratio de exportações às alturas da Holanda ou da Bélgica. Para isso haveria de limpar o nosso incrível sistema fiscal onde a regra é a permanente mudança, agilizar a justiça fiscal e administrativa que mais parece viver em pleno século XIX e ter em clara linha de conta que, em algumas das nossas exportações, ainda pesa bastante o baixo custo da mão de obra. Ora, ao incrementar a produção nesses sectores haverá maior procura de trabalhadores (num país que envelhece a olhos vistos) e, obviamente aumentos salariais importantes. E relembre-se, outra vez, que nem todos os aumentos de produção se traduzem em aumento de emprego...

Isso poderá traduzir-se em preços menos competitivos e/ou em migração da produção para territórios de mão de obra mais barata.

Conviria ainda começar a pensar na clara mudança de paradigma que a revolução digital tecnológica vai trazer. Vão perder-se milhões de empregos e urge pensar em medidas alternativas e alterar o péssimo sistema de ensino que temos.

4 Subitamente, toda a gente, ou alguma, pelo menos, começou a alvoroçar-se com o êxito de Portugal. Tudo serve desde a eurovisão a premiar uma canção menos medíocre do que as concorrentes, até o Ronaldo com namorada e golos novos. No meio, há um deficit ultra lisonjeiro mesmo se obtido com cativações, paragem total de investimento público, efeitos de um oportuno perdão fiscal, manutenção das medidas austeritárias mais duras (ai os impostos indirectos...) e alguns outros normais truques. A questão que se põe é se, nos anos vindouros, este milagre continuará.

5 O Sr. Presidente da República, sempre no seu papel de 4º Pastorinho jura (ainda mais do que o celebrado professor Pangloss) que tudo vai bem, que tudo vai melhorar. Conviria, lembrar a S.ª Ex.ª que temos vivido uma época excepcional de juros baixos ou baixíssimos, de retoma crescente da Europa que naturalmente nos arrasta, de bondades do BCE que mais cedo ou mais tarde acabarão.

6 Seria bom pensar assim: batemos no fundo, falimos e agora as coisas estão menos más. Par que este panorama (cor de rosa aos olhos de Sª Ex.ª) melhore há muito a fazer. Muito esforço, muito sacrifício, muita imaginação, menos auto-elogio, muito menos complacência com os desvarios desenvolvimentistas à Sócrates (por pouco que não estávamos com mais um aeroporto faraónico e com vários TGV de curto percurso). O único grande investimento das últimas décadas que deu certo foi o Alqueva e convém saber como continuá-lo.

7 Finalmente, não basta estancar ou tornar mais lento o progresso da dívida pública. Há que começar seriamente a diminuí-la. E, já agora: atenção à dívida privada que, tudo indica, tem crescido nos últimos meses. Bastou uma aragem para de novo os portugueses se precipitarem em compra de casa e de automóvel, para não falar no crédito a férias e a consumos que poderiam e deveriam ser adiados. Parece que ninguém aprendeu nada. Já assim tinha sucedido nas duas fortes crises post 25 Abril do século passado. Euforia, despesismo, queda abrupta na triste e mesquinha realidade. Má sina, pior fado que nenhum êxito passageiro no futebol, em Fátima ou no fado apagam.

26
Mai17

o leitor (im)penitente 204

d'oliveira

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 9

 

Faz o que te aprouver (regra da Abadia de Thélème)

ou

o riso inteligente de Rabelais

 

Hoje em dia já ninguém lê francês”, queixava-se o livreiro que, entretanto me vendia (mais) uma edição da obra de Rabelais, “Rabelais et l’oeuvre” (Paris, E. Bernard & Cie Imprimeurs editeurs, 1897). Uma bela edição, parecia-me, imprevidente que sou e, no caso, apressado a tentar fugir de uma mais que anunciada chuva que ameaçava cair.

Devo dizer que, desde os tempos imemoriais em que mergulhei de cabeça numa edição para crianças de Gargantua e Pantagruel, fiquei irremediavelmente contagiado por Rabelais.

Já crescidinho fui encontrando, em francês, edições que começaram por ser em francês moderno mas a que, pouco a pouco, se juntaram outras mais difíceis no saborosíssimo francês rabelaisiano. Não contente, com isso, também fui apanhando edições ilustradas e só Deus sabe quantas há que Rabelais e os seus maravilhosos personagens entusiasmaram tudo o que conta no mundo da pintura e da ilustração. De caminho, li biografias de Rabelais, um génio absoluto que mais do que nenhum outro autor, marca indelevelmente a passagem da Idade Média para o Renascimento. A truculência medieval ainda está viva mas a sua desassombrada crítica da sociedade contemporânea (desde a Sorbonne ao Papado) o seu profundo respeito pelo bom senso, a defesa da Natureza e de uma Moral descomplexada, o riso contagioso mas humano, os profundos conhecimentos quer de Medicina quer religiosos de que dá provas, mostram um espírito livre e uma inteligência superior. “Gargantua...”, a par do Quixote, do teatro de Shakespeare, e do inolvidável Dante (e juntemos-lhe sem vergonha nem descaramento a maravilhosa “Peregrinação” lida a par com a “História Trágico-Marítima”, com que os nossos ancestros tanto contribuíram para uma outa, e melhor, maneira de entender um mundo em mudança) é um dos grandes momentos do que agora, indiferentes e ingratos, chamamos Europa. Deveria acrescentar Montaigne mas, culpa minha, minha máxima culpa, ainda não o li suficientemente bem, para me atrever a juntá-lo a esta constelação, mesmo se o ache extraordinário. Aqui fica, porém, a referência.

Há edições em português (não sei se integrais) e que devem andar por aí, porventura baratas, que as escolhas de críticos, livreiros e editores traduzem muitas (demasiadas) vezes um simplismo mais ignorante do que se deve.

Fique claro que não estou a afirmar que ler Rabelais é uma obrigação. Ler nunca é uma obrigação mas tão só um prazer, um sorriso, uma vaga dança à beira mar numa manhã macia de mar manso e brincalhão. Todavia, Rabelais é como Cervantes uma leitura empolgante, viciante a que, depois, se regressa muitas vezes como quem visita a família que vive longe na terra da nossa infância e juventude.

Logo no início, aí em cima, contava uma compra apressada que fiz. Com o entusiasmo, o receio da molha e uma irresistível vontade de mais um café, deixei para segundas núpcias o exame do livro. Em casa, horas depois, fui-me a ele. Lá estava o texto em francês moderno mas das cento e sessenta gravuras devidas a Jules Arséne Garnier que constavam no índice, nem uma restava! Alguém as terá subtraído e re-encadernado o livro para ocultar as provas da desfaçatez. É coisa que sucede amiúde com livros ilustrados ou com mapas. Há sempre um arganaz que retira estas partes para as vender vantajosamente por separado. E nisto há também livreiros de porta aberta a colaborar nesta piratagem. A desculpa é sempre a mesma: já compraram as gravuras ou os mapas isolados!... E se não fossem eles a comprar seria o colega do lado... E a vida custa a todos, etc., etc....

 

*Recomendação de leitura: para quem não conhece e tem receio do francês rabelaisiano eis a edição recomendada. “Les cinc livres des faits et des dits de Gargantua et Pantagruel” Gallimard, colecção “Quarto”, Paris, 2017

Na página da esquerda Rabelais ele próprio, na da direita o mesmo em francês moderno. Há um bom prefácio inteligente e compreensível.

*na gravura Rabelais

 

15
Mai17

O leitor (im)penitente 203

d'oliveira

 

 

 

 

 

 

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Livros, alfarrabistas & outras fantasias 8

(“Álbuns Fotográficos e Descritivos da Colónia de Moçambique”)

Os livros são uma aventura sem fim, uma viagem sem bússola, um desvanecer de dinheiro pior do que consumir cocaína. O leitor voraz, nunca está satisfeito. Pede sempre mais e mais, quer tudo e mais alguma coisa, o que faz lembrar aquele cavalheiro medievo, Pico della Mirandola que, diz-se, sabia tudo e mais alguma coisa. Morreu cedo de tanto ler, mas não de tresler, deixando uma obra copiosa salpicada, nalguns casos (13!, número aziago!) de heresia de que, contrafeito, teve de abjurar. Pico lia tudo, comprava tudo o que corresse escrito e discutia tudo. Hoje, poucos o conhecem e menos ainda o leem (é o meu caso...) mas o homem, segundo a biografia que lhe dedicou um sobrinho, era da raça dos génios.

 

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A que vem esta lengalenga mirandoliana se o que pretendo é falar de um certo Rufino, fotógrafo e africanista, autor de dez gordos volumes pejados de fotografias sobre a colónia de Moçambique em 1929?

Pois apenas isto, o senhor José dos Santos Rufino por razões que não enxergo, resolveu, naquela data, arriscar muito dinheiro na publicação dos “Álbuns...” Não vislumbro que, à época, lhe sobrasse freguesia suficiente na colónia (em 1929, Moçambique era, oficialmente, colónia, abandonada que fora a designação de província ultramarina dos tempos da monarquia). Também duvido que, na Metrópole, houvesse uma multidão de entusiastas coloniais que compensasse o esforço e os gastos da edição. É que se trata de algo luxuoso, caro, fotografias algumas vezes enormes, tratadas, reveladas e editadas na Alemanha pela renomada firma Broschek & Co. (Hamburgo). São dez volumes oblongos (22x29cm) que no conjunto hão-se contar mais de mil fotografias, algumas em página dupla. A obra encerra fotografias das localidades mais importantes (Lourenço Marques, Beira, Tete, Quelimane ou Moçambique -mas não Nampula, na época um lugarejo sem importância -), instalações portuárias, comerciais, agrícolas e industriais, fauna, flora, arquitectura e monumentos e, no 10º volume, uma extensa mostra das populações nativas.

A qualidade das fotografias foi sempre aclamada mesmo se Rufino não conste na lista nacional, africana ou mundial dos grandes fotógrafos reconhecidos. Mas. é-o, indubitavelmente.

Hoje, a colecção pertence ao ex Banco Nacional Ultramarino e raras vezes aparece completa no comércio alfarrabista. Quando tal acontece, os preços são consideráveis (entre 750 e 1000 euros nas consultas que fiz) o que muito me entusiasmou porquanto fui pacientemente reunindo os volumes entre Dezembro de 2007 e Setembro de 2009. Tinha fixado uma tabela máxima por volume (€ 50) e consegui terminar o lote um pouco abaixo do limite que me tinha imposto, sobretudo porque consegui que todos os tomos estivessem em “bom” ou “muito bom” estado de conservação.

Para além do interesse estético, o que me interessou sempre foi o valor documental e, sobretudo, a confirmação do que sempre defendi: Moçambique é um país construído por portugueses, sul-africanos, indianos, alguns chineses, gregos, italianos e alemães. Deveria referir os africanos, isto é os negros indígenas que alombaram com o trabalho mas penso que isso está implícito sempre que se fala de África.

Também me pareceria interessante fazer notar o esforço de muitos mestiços que nos anos da construção do “Império” eram importantes (por todos, em Moçambique, a família Albasini) estatuto que foram perdendo durante o apogeu da colónia-província ultramarina. Para isso, portugueses e indianos contribuíram fortemente mas não é desdenhável a contribuição bóer, a provar que durante muito tempo, a mestiçagem não só não era proibida mas tinha estatuto social e económico. Anda por aí muito aprendiz falhado de anti-racista que desconhece que o apartheid foi obra de anos posteriores. Não é que antes não houvesse diferenciação racial (com pesadas e vis consequências) mas esta tal qual se tornou política oficial da RAS tem origem nos finais da primeira metade do século XX.

E, mesmo que Moçambique não fosse um paraíso racial (longe disso), as diferenças entre o estatuto de brancos e não brancos era algo de infinitamente menos ignominioso do que em muitas outras zonas de África. Não desculpa nada mas não pode ser esquecido.

 

* nas fotografias que se juntam aparece a palavra “mufano” para significar criado jovem. É uma adaptação tola e masculinizada do termo ronga “mufana” que significa rapaz, jovem. O feminino, no mesmo vernáculo, é tombazana.

 

08
Mai17

estes dias que passam 348

d'oliveira

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Uma vitória, duas derrotas

Eu sei que as eleições francesas já deram o que tinham a dar. Macron ganhou, diz-se (e é gloriosamente verdade) e basta. Não, não basta. Não basta por toda uma série de razões: Macron neste momento já vai nos 66, 1 contra 33,9 de Le Pen. Ou seja já está quase no dobro da adversária. É uma derrota pesada, pesadíssima para esta, digam lá o que disserem.

Mesmo com uma crescente abstençãoo, Macron ganha folgadamente, o que significa não apenas a rejeiçãoo da adversária mas também, que diabo!, a aceitaçãoo de algumas das suas propostas.

Os arautos da insubmissão (e amigos da Maduro, convém lembrar) não conseguiram impedir esta limpa vitória, sequer ensombrá-la. Das duas uma: ou os seus eleitores menos próximos desobedeceram às vergonhosas recomendações de voto branco (e estou em crer que foram bastantes) ou outros antigos abstencionistas perceberam que isto não era a feijões e que a tese ultra imbecil do “quanto pior melhor” tresandava.

Há uma certa ironia histórica nisto. Em tempos não demasiadamente recuados (Alemanha nos anos 30) o forte KPD (Partido Comunista Alemão, obedecendo ao Komintern, lançou a política “Klasse gegen Klasse” (classe contra classe) atacando com a máxima virulência o SPD (Partido Socialista) que foi considerado a “vanguarda da reacção”, um bando de social-fascistas e outros mimos do mesmo género.

Foram baldadas as tentativas de criar uma frente comum anti Hitler, e o resultado foi devastador. Uma vez no poleiro o “pintor de paredes” ilegalizou o PC e mandou os seus deputados e dirigentes para os campos de concentração entretanto inaugurados. O PS não demorou a seguir este destino mas por uma causa nobre: os socialistas negaram votar os “plenos poderes” a Hitler e foram, por sua vez, reduzidos à prisão e ao exílio.

Quando a classe contra classe morreu já era tarde. Todavia, logo que a guerra eclodiu, os partidos comunistas, mais uma vez em obediência cega às directivas da 3ª Internacional, condenaram as potências democráticas e declararam-se neutrais. Em França, levaram o atrevimento impudente a solicitar das entidades ocupantes, licença para voltar a publicar”L’Humanité”. Os alemães recusaram.

Foi preciso que a Alemanha invadisse a URSS para, então, os comunistas ocidentais se proclamarem anti-fascistas e combatentes!...

Felizmente, anda restava em França alguma memória destes tempos miseráveis em que os comunistas silenciavam as atrocidades do ocupante e o servilismo de Vichy. (para memória: logo que a ocupação alemã se tornou efectiva, Paul Nizan, destacado intelectual comunista, recusou a directiva da Internacional. Foi acusado pelo servil Thorez, dirigente do PCF, como traidor e polícia!...Assim se vê de que lado estava a inteligência e em que fossa nadava o colaboracionismo dos pseudo-revolucionários vermelhos. )

Voltando às eleições francesas, depois desta digressão infelizmente necessária dada a ocultação da história recente: A vitória de Macron é também a vitória de quem vê o mundo actual tal como ele é e está, contra os saudosos do passado. Queira-se ou não, 2017 não é 1917, 1870 ou 1789. O mundo em vogam inocentemente os Mélenchons e os seus amiguinhos e amiguinhas portugueses, não existe, não volta. Se importa mudá-lo convém, para já, compreendê-lo, explica-lo.

E para tal, é necessário rearmar a ideia de Europa, desta comum Europa que, pela primeira vez na História está em paz há mais de setenta anos. Em França ou cá, onde também, quatro tristes agoureiros (ou agoureiras) pretendem convencer-nos contra a mais plácida e visível evidência de que o euro, a Europa, o cosmopolitismo, são a doença e não a cura. Há que melhorar as coisas? Claro! Há que democratizar as instituições comunitárias? Sem dúvida! Há que repensar a política internacional e interna? Absolutamente (e aqui vai uma dica: conviria pensar num parlamento nacional eleito mais democraticamente sem se elegerem deputados à molhada. Seria bom podermos chamar à pedra o fulano (ou fulana) que elegemos para ver se não se escondem na multidão que vota sem ligar nenhum aos eleitores).

A vitória de Macron é, sem qualquer dúvida, uma vitória sobre a direita, nacionalista, autoritária e xenófoba mas também sobre uma esquerda identicamente autoritária, igualmente nacionalista e, graças à sua diabolização da mundialização e do espaço europeu, recorrentemente xenófoba também. Digam eles o que disserem. Para caricaturas de Maduro, já chega o “Podemos”, não precisamos do pobre Mélenchon.

Paz à sua alma. Amén!

* na gravura duas bandeiras: a francesa e a europeia. É assim que se pode fazer a História. Assim seja.