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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

20
Fev18

diário político 224

d'oliveira

Notícias fúnebres só depois da pessoa estar morta

d'Oliveira fecit, 20/2/18diário 

 

Assisti, sem entusiasmo nem pesar, aos momentos relevantes do congresso do PSD. Azares de quem vê o telejornal das oito. Também sem qualquer arroubo e escasso, muito escasso, interesse ouvi (e li) os comentadores encartados que pululam nas televisões e nos jornais que compro.

Também não me espantei, macaco velho que sou, com as predições das habituais Cassandras indígenas. Pelos vistos, para a maioria, Rui Rio (RR, como o Rols Royce) está feito. Está morto e não sabe. Herdeiros presumíveis e presumidos disputam os sapatos do defunto.

Este tipo de profecias catastróficas e catastrofistas não é novidade. Ocorreu o mesmo com os inícios da “geringonça” e ela aí está para lavar e durar. Falou-se d tremendas dificuldades com os incorruptíveis PC e BE mas estes rosnam ms não mordem e Costa segue imperturbável. Estará tudo bem? Não, mas enquanto o pau for e vier folgam os lombos.

Voltemos, porém a RR.

Para quem, por sorte ou azar, for do Porto, Rio é um velho conhecido. Três consecutivos e imbatíveis mandatos na Câmara que só abandonou por imposição legal. Uma teimosa resistência a Luís Filipe Meneses, candidato do seu partido que de algum modo ajudou Rui Moreira.

Que história de sucesso foi esta e como começou?

Pois da maneira mais simples e chã. Rio, personalidade importante e incómoda do PSD onde granjeou inimizades de todo o tipo, resolveu num “impulso” longamente pensado, e estudado candidatar-se à Câmara do Porto. Um velho amigo meu dos tempos de Coimbra, imperturbável jogador de bridge e indefectível social democrata, explicou-me a coisa entre duas partidas: a malta lá do partido está contentíssima. Livram-se do Rio que é um chato do catorze e o gajo perde estrondosamente contra o Fernando Gomes. Morre aí e nunca mais chateia a rapaziada.

Eu, que não conhecia Rio de parte nenhuma (aliás nunca lhe falei nem sequer estive com ele em algum sítio) achei a tese interessante e dotada de alguma verdade. Rio fizera a vida negra aos caciques e barões do partido, disciplinara o cadastro interno, em suma esvaziara alguns poderes aparentes que viviam de um clientelismo que se gerava nos momentos prévios a eleições e congressos.

Quando se propôs contra o “vice-rei” socialista do Norte (Fernando Gomes, ex-presidente da Câmara e desafortunado ex-ministro de Guterres) o comentário geral foi que aquilo, aquela candidatura era uma fogachada e um desastre anunciado. Que Gomes ganharia a Câmara quase sem mover o dedo mindinho. Que nem os do PSD votariam em Rio.

Na noite da eleição os foguetes socialistas foram de lágrimas. O “bom povo” tripeiro dera a maioria relativa a RR e Gomes via a sua soberba e a sua desastrada saída do Porto para ocupar uma pasta ridícula sob Guterres premiada rotundamente. Se bem me lembro, nunca mais tentou a vida autárquica. Rio surpreendia amigos e inimigos, desiludia os seus detratores o partido e começava uma carreira bem sucedida na CMP. A “inteligentsia” local odiou-o desde o primeiro momento. Os do futebol, com Pinto da Costa à frente, disseram dele o que Mafoma não disse do toucinho. A população entretanto deu-lhe outros dois mandatos com crescentes votações relegando o PS para uma pobre e vil tristeza. Rio deixou a Câmara com as finanças em ordem, enfrentou o lobby da construção civil que queria parcelas do Parque da Cidade e uma frente edificada do mesmo diante do mar e livrou os portuenses daquele homenzinho ridículo de Gaia que odiava sulista, elitistas e não sei que mais.

Ou, traduzindo para quem não saiba português: RR é muito mais do que um sobrevivente. É um político frio, ambicioso, capaz de pensar no longo termo, pouco dado a palmadinhas nas costas ou a salamaleques à Imprensa que, aliás, o detesta cordialmente.

Não sei, e pouco se me dá, se isto faz um líder ou sequer assusta Costa. Pelo que vou vendo PC e BE reagem com mais nervosismo. Dentro do PSD, fala-se num “saco de gatos” e alguns mais assanhados como um tolo e presunçoso vereador de Cascais, exigem este mundo e outro como se não soubessem que os ventos actuais sopram a favor do PS. Rio tem pouco tempo, muito pouco tempo, para arrumar a casa, restituir a fé e a esperança aos militantes que, nesta questão de virtudes teologais não são propensos à caridade. Rio não tem um “estado de graça”. É um impertinente a quem se exige, de uma só vez, tudo e mais alguma coisa. Santana Lopes que pode ser tudo mas que é político preferiu a segurança de um acordo, António Capucho quer regressar e há sinais de tentativa de reocupar o “centro”.Os mais entusiastas falam no regresso à matriz social democrata.

Pessoalmente, RR nunca terá o meu pobre e risível voto. Todavia, não faço parte dos que já lhe encomendam missa de requiem. Para os mais melómanos, diria que RR está mais próximo da “missa do homem armado”. É tenaz, talvez teimoso, mas tem a cabecinha pensadora arrumada e joga num tabuleiro onde parece difícil ter piores resultados dos que Passos Coelho teve nestes últimos tempos. Mesmo se a drª Elina Fraga não pareça ser peão que se use, muito menos torre ou rainha. Mas, para erros de casting, aí estão múltiplos exemplos vindos de toda a parte. Daqui a dias já toda a gente se esqueceu da criatura. A política é assim.

Vai uma apostinha que RR está aí para durar?

16
Fev18

Au bonheur des dames 446

d'oliveira

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 Pagar dívidas antigas 

 

 mcr 16.2.18

Fui aluno do antigo Liceu D João III (Coimbra) por duas vezes mesmo se por pouco tempo: no 3º e no 6º anos.

Nesse tempo, tratava-se de um liceu “Normal”, isto é de um liceu onde os jovens professores, sob a orientação de exigentes professores “metodólogos”, faziam o “estágio”.

Uma vez aprovados poderiam ir ensinar em qualquer outro estabelecimento similar, integrados na função pública.

As aulas nem sempre eram pacíficas sobretudo se dadas por um metodólogo e respectivos estagiários: estilos de ensino diferentes podiam perturbar a rapaziada. Todavia, é justo realçar a alta qualidade do ensino e a exigência.

Naquele tempo, as instalações eram boas mesmo se, por exemplo, a piscina nunca funcionasse!...

Hoje, diz o jornal, aquele excelente edifício está num estado desolador. Esperam-se (e desespera-se) obras de enorme importância e correspondente custo. A desvairada gestão da ministra Rodrigues e a loucura gastadora da empresa Parque Escolar não deram para restituir a actual “escola José Falcão” (é o seu nome, hoje) à devida dignidade que uma escola, o seu corpo docente e os seus alunos merecem.

Todavia, não é do estado calamitoso do prédio que pretendo tratar.

É do seu nome actual. O “D João III” passou a José Falcão com os ventos de Abril. Ou as ventosidades como já se explicará.

José Falcão foi licenciado e depois doutorado em Matemática e lente da Universidade de Coimbra. Porém, a escassa fama que obteve em vida advém-lhe sobretudo, e apenas, do facto de ter sido propagandista e militante republicano, mesmo que de segunda linha. Aliás, morreu cedo pelo que não se podem, sem eventual injustiça, verificar-se os seus méritos políticos e propagandísticos. Escreveu uma “cartilha do Povo” que se não é uma inutilidade absoluta também não merece destaque na escrita política da época. Escassa novidade e estilo pobre.

D João III foi, provavelmente, o soberano português que mais fez pelo ensino e pela Universidade que dotou de meios e de professores de altíssima qualidade. A actual Rª da Sofia em Coimbra está pejada de “Colégios Universitários” mandados fazer por ele e pagos pela Coroa. Em qualquer país civilizado isto poria o último grande rei da dinastia de Avis na História. Se é verdade que outros soberanos e príncipes dotaram a Universidade (D Dinis, Infante D Henrique, Filipe II e D José a conselho do inteligente e maléfico Marquês) deve considerar-se a intervenção de D João III como a mais completa.

Da sua memória resta hoje uma feia estátua no pátio da Universidade e durante algumas décadas do sec. XX o nome do liceu (que começara por se denominar Liceu de Cimbra e Liceu Central de Coimbra até ao tempo da 1ª República que o crismou José Falcão).

Aliás, e para maior rigor o D João III nasceu da fusão dos liceus José Falcão e Júlio Henriques (licenciado em Direito e catedrático de Filosofia mais tarde consagrado como um dos grandes botânicos portugueses, ao lado de Brotero que ele muito admirava. Fundador do Instituto Botânico, dirigiu o Jardim Botânico durante décadas podendo dizer-se sem mentir que a sua obra à frente desta instituição é comparável à de Vandeli ou Luís Carriço).

Ignoro se há em Coimbra, além da Brotero e D Maria, mais escolas secundárias. Se sim, aí estaria para os saudosos da propaganda republicana uma hipótese de homenagear J Falcão.

Agora, que eventualmente se farão obras, seria de toda a justiça restituir à velha escola o nome do rei que mereceria mais, muito mais, da cidade.

A latere: os velhos colégios da Rª da Sofia estão em mau estado e sobretudo afectados a usos desinteressantes. Suponho que estarão incluídos no domínio do Património da Humanidade que contempla Coimbra. Valia a pena começar a pensar-se em restituí-los à sua primitiva e gloriosa função universitária (residências de estudantes, centros de estudos, etc). Para o efeito bastaria voltar a consultar o valioso número XXV da Revista Monumentos onde se pode perceber toda a importância arquitectónica, urbanística destes edifícios. Antes isso que andar a construir “barracos” feios, maus e caros como é timbre do Ministério da Educação.

 

Por mcr, nº 23/3º/A e nº 38/6º/ A  (anos 50)

15
Fev18

Diário Político 223

d'oliveira

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Humores cardinalícios

d'Oliveira fecit 15.2.18

Passado que foi o Carnaval, aguardava com evangélica paciência que o Sr. Cardeal Patriarca comunicasse, urbi et orbe, (enfim, quase, que ele não é papa e, com sorte, nunca será) que a sua declaração sobre a forçosa castidade entre recasados até se resolverem alguns problemas de direito canónico, fosse retificada.

Não foi. Todavia, vários bispos e outros tantos teólogos vieram já a terreiro explicar a sua discordância. A comunicação social tem-se divertido e explorado as declarações de Sª Eminência Reverendíssima. O pópulo católico parece completamente dessintonizado da paternal e surpreendente recomendação de alguém que, para o pecado e para as relações sexuais, parece ser inclemente.

Eu estou fora do rebanho pastoreado pelo Senhor D Manuel. As recomendações do prelado não me afectam. Não só porque já vou adiantado em anos mas, sobretudo, porque tenho por certo que S.ª Em.ia Rev.ima não faz a menor ideia do que é a vida de casado. Nem do que os casais, até os católicos, esperam desse viver em comum. As pessoas casam-se e, no caso em apreço, recasam-se para algo mais do rezar juntos o terço. Para permanecer teoricamente virgens (ou revirgens!) não precisam dessa maçada de ir ao padre e ao registo declarar que querem fazer vida em comum.

O Papa percebeu isso. Todas as Igrejas cristãs o perceberam e só esta “católica, apostólica e romana” ainda insiste no celibato sacerdotal, na castidade a outrance, na exclusão da mulher. Aliás, a perturbante devoção à Virgem em oposição à pecadora Eva (e lembremos o que dizia um famoso doutor da Igreja: a Virgem foi virgem antes, durante e depois do parto. Outro não menos surpreendente descobriu que se “o homem precisava de companhia no Éden, Deus poderia ter criado outro homem” espera-se que para conversar.

Há um par de anos, num irreflectido entusiasmo, o júri do Prémio Pessoa, entendeu distinguir este prelado. Nunca descortinei qual a razão mesmo se o senhor fosse licenciado, quiçá doutorado. Não havia ainda, e não há hoje, obra suficientemente relevante para o chamar a tão alto prémio. A menos que o galardão servisse de base para futura obra que ainda está por levar a cabo.

Esta declaração, totalmente fora da realidade, do século e, provavelmente de qualquer hipóteses de “aggiornamento” eclesial não foi uma graçola de mau gosto mas, eventualmente uma profissão de fé no que a Igreja tem de mais conservador e reaccionário. Que lhe preste.

 

Para ilustrar servi-me de uma máscara de carnaval de Trás os Montes. Convenhamos que além de belíssima contrasta fortemente com a deslavada carnavalice de várias terras nacionais - que as televisões mostraram ad nauseam. Não se entende este entusiasmo por aquele desbarato de toleima e falta de imaginação. Outras televisões, desta feita estrangeiras, insistiram em Veneza. Para que se saiba: o actual carnaval veneziano, além de moribundo é animado a 70% por estrangeiros que pagam fortunas por uma semana com fantasias a rigor mas desoladoramente copiadas das antigas: uma dor de alma ver a cidade lagunar perecer sepultada pelo turismo barato, pela sonolência da razão e pelo mau gosto da cópia. Parece portuguesa!...  

 

 

14
Fev18

Diário Político 222

d'oliveira

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Se um procurador incomoda muita gente, o MP na sua totalidade incomoda muito mais

d’Oliveira fecit 14.2.18

 

(uma palavra prévia em guisa de aviso: há uns dias, não sei já quantos, uma criatura, coimbrã e pesporrenta, entendeu escrever uma defesa do Lula. Só lhe ficaria bem, dado ser amigo e admirador do corajoso ex-sindicalista. Porém, nestas coisas há sempre um porém, a peça em causa é menos uma defesa de Lula do que um ataque à Justiça. Note-se que falamos de um país democrático onde só a justiça andava escapada da maldição. Os políticos brasileiros, as elites empresariais, grande parte do mundo desportivo, para não falar do Exército ou da Polícia eram, desde há muito, tidos por irrecuperáveis. Curiosamente, a Justiça, de ano para ano, vira crescer a popularidade das suas instituições e dos seus agentes. O auge da sua popularidade verificara-se até no exacto momento em que fizera frente à poderosíssima construtora Odebrecht e a outras estranhas e espúrias empresas que compravam tudo sobretudo as consciências. Porém, no decurso deste medonho processo, apareceu Lula. E apareceu um juiz. E uma primeira condenação depois revalidade por outra bem mais pesada. E foi "a pedra no fim do caminho". E a acusação tombou como se previa: “estamos a caminho de uma política justicializada”! Pelos vistos parecia preferível uma justiça politizada em que os seus membros, como por cá tantos aconselham, tivessem em linha de conta os “superiores interesses do Estado”. Citaria, se valesse a pena, os grandes processos de Moscovo e as teses sinistras de Vichinsky curiosamente muito semelhantes à sque presidiram aos processos que liquidaram a Resistência Alemã. Neste campo, os tristes Tribunais Plenários nossos são qualquer coisa de angélico, de pais pobre, envergonhado e subdesenvolvido – mas eficazes não se olvide)

Grande parte deste texto foi escrita nessa altura mas abandonada porque entendi não dever dar ao esganiçado coimbrão a escassa honra de ser citado. No entanto, “factos supervenientes” obrigam a repegar no assunto de outra forma. Aí está o que resultou

 

Estava escrito nas estrelas e, mais ainda, na História: Desde o momento em que, em Itália, um punhado de juízes decidiu enfrentar o poder político estabelecido (movimento mani pulite) e levou à derrocada dois dos maiores partidos que durante dezenas de anos ocuparam o poder juntos ou alternadamente, o destino dos magistrados estava traçado. Em Itália mas não só. Lá, sobretudo no Sul, recorria-se ao expeditivo método do atentado bombista (e assim se foram vários e prestigiado juízes e procuradores ligados às investigações anti mafia). No Norte, mais sofisticado, ia-se, pouco a pouco cercando (cerceando) o poder dos magistrados, acusados de judicializar (!!!) a política até se conseguir este resultado absolutamente perturbador: o poder agora está nas mãos de populistas, neo-conservadores exaltados, irredentistas, como se Craxi (Bettino) tivesse lançado uma maldição aos seus acusadores. A prova provada é o à vontade com que Berlusconi se move entre ninfetas sem falsos pudores e a construção de impérios mediáticos.

No Brasil foi o que se viu: enquanto se tratava de atacar o “capitalismo” da construtora Odebrecht e um punhado de políticos corruptos mais ou menos conservadores tudo era louvores. Quando se deram as primeiras bicadas no “mensalão” e no aparelho instalado no PT, começou a soprar (como na famosa área de Rossini) “un venticello”. Data desse tempo a decisão de uma política brasileira de se candidatar contra Lula que, coitado, pelos vistos não sabia de nada... Os dinheiros corriam com mais velocidade que as águas de Iguaçu, os políticos hostis rendiam-se por absoluto milagre e ninguém sabia de nada!... Depois os juízes começaram a apertar.

E juiz que aperta é juiz que deve ser desapertado.

Dantes um honrado cangaceiro dava conta do recado mas os tempos, ai os tempos, mudaram. Os tempos e os costumes. Agora convém ataca o poder judicial na base. Na credibilidade que, em democracia, ele costuma ter. O Sr. Lula foi acusado. Foi julgado. Foi condenado. Recorreu. Voltou a ser condenado por outro tribunal que, aliás, até aumentou a pena.

Ai Jesus que a Direita vem aí. Nisto de condenações a coisa funciona assim: o condenado é um patrão, um banqueiro, um empresário? A justiça funcionou!

É um líder da esquerda ou alguém que se presume como tal? Trata-se de uma conspiração do capital, dos trusts, dos monopólios, da reacção. Renasce com todo o seu bafiento esplendor a velha langue de bois do mais serôdio discurso estalinista.

Em Portugal, as coisas não são diferentes. De repente, e não foi assim tão de repente, o MP deu em acusar banqueiros, políticos, gente do futebol empresários variados, uns humildes cavalheiros africanos que compram no Estoril apartamentos cujo preço equivale a 300 anos de salários deles e começa o fandango.

Anos antes, os actuais acusadores do MP indignavam-se voluptuosamente, com a miopia da justiça. E repetiam em coro que “é sempre a mesma melodia... quem se safa é a burguesia”. A justiça era de classe, estava feita com os ricos, nos grandes ninguém toca, etc...

Agora andam por ai, à solta, como no Pinhal da Azambuja, bandos de juízes de instrução e de procuradores numa desvergonha total que até perseguem (vejam que camorra!) outros procuradores! E pretinhos inocentes. (E bombeiros!, meu Deus!, bombeiros!...)

Há poucos dias um ministro pediu um estúpido favor baseado numa estúpida premissa de que a sua segurança pessoal estava em risco. E foi ufano para o camarote de um cavalheiro que, agora, ó espanto!, está arguido num processo mais uma vez movido pelo tenebroso Ministério Público.

Como ocorre sempre, e decorre estritamente da lei, este pedido despoletou acusações burras. Mas acusações a que o MP não se pode furtar. Em escassos dias o processo, obrigatório, morreu arquivado. E bem arquivado. Isto, que é uma vitória para o ministro pouco cauteloso, não é de nenhum modo uma derrota para o MP. O MP fez o que devia. Fê-lo depressa. Cortou o venticello antes de que ele, "piano piano, terra terra... va fischiando e ti fa d’orror gelar" até que no fim produza "una esplosiose um tremuoto, un temporal que fa l’ária ribombare."

E no meio disto tudo, sobram culpas para os magistrados e ninguém se incomoda com a parvoíce obnóxia de pedinchar um lugarzinho para ver a bola. Já nem se fala de ética (para quê?) mas tão só de um ridículo e presunçoso pedido que a mais elementar prudência – já nem se fala de vergonha – deveria absolutamente evitar.

Do cavalheiro africano acusado de corromper um magistrado, nem novas nem mandados. Parece indecente acusar-se um honrado político cujo único e venial pecado foi comprar uma casinha, um apartamentozinho que custa milhões. Comprou-o com o suor do seu rosto (ou de outros muitos rostos todos pretinhos como ele, claro) e agora anda por aí um MP a perguntar por “lavagem de dinheiro”? Estamos perante uma campanha neo-colonialista e higienista?

Ainda ontem, o dr. Sousa Tavares (filho, não confundamos) mostrava a sua semanal e televisiva indignação com a “roda livre” do MP bem visível numa ordem de detenção do fantamasgórico cavalheiro africano. Parece que corria a notícia funesta que a criatura viria a Portugal e, à cautela, lá se fizeram os necessários (e porventura obrigatórios) esforços para o encontrar e notificar. Essa “inutile precauzione” (para continuar citando a imortal obra de Rossini) foi tomada como um horrendo atentado ao Direito e à Justiça. Aliás, e na mesma penada, o senhor dr. Tavares qualificou a intrusão do MP no caso da poluição do Tejo de absurda e altamente duvidosa. Vejamos: a eventual criminosa é a Celtejo. A Celtejo é da Covina. A Covinna é a proprietária da revista “Sábado” e do jornal “Correio da Manhã”. Estes dois órgãos de imprensa seriam useiros e vezeiros em fintar o “segredo de justiça”. Por seu turno, ao entrar em campo, o MP impôs o dito segredo de polichinelo, digo de justiça, à investigação. Isso seria, aventa o sapiente Tavares, um meio anormal de esconder os pecados da Celtejo ou de, presumo eu, deixar para as duas publicações os direitos exclusivos da reportagem.

No meio desta construção bizarra, há ainda o facto de a Celtejo fabricar papel. E o papel é feito a partir de eucalipto, planta perniciosa entre as perniciosas para Tavares (filho, insiste-se). Tavares odeia eucaliptos ainda mais do que algum agente do MP.

(aparte: eu não gosto nem desgosto de eucaliptos. Tenho na terra a que chamo minha, uma “papeleira”. Felizmente, os ventos dominantes, a “nortada”, afastam os cheiros medonhos da fábrica. E os fumos. Sei, todavia, que a “pasta de papel” é um dos maiores pilares da exportação nacional. E que um eucalipto, ao fim de dez anos, já dá lucro. E que isso foi a parca salvação de dezenas de milhares de pequenos produtores. É verdade que também favorece os incêndios, tanto ou mais que o nosso nacionalíssimo” pinheiro bravo. E que as outras velhas e nobres espécies arbóreas autóctones (carvalho, castanheiro, faia etc...) demoram três ou quatro vezes mais a dar rendimento. Portanto: ou se subsidia fortemente a exploração florestal ou, proibindo o eucalipto, se decapita a fileira do papel se perdem mil milhões anuais e milhares de empregos. E deixam-se dezenas de milhares de pequnos proprietários florestais ainda mais desprotegidos do que já estão...

Esquecia-me referir que a tão propagandeada reorganização da floresta vai demorar (se sequer a implementam) uma ou duas décadas; vai necessitar de uma gigantesca injecção de meios financeiros e humanos; vai obrigatoriamente modificar leis e regulamentos sobretudo em tudo o que toque torra abandonada ou sem proprietário conhecido. E por aí fora.

Em resumo: quem gosta da imobilidade deve, numa corrida, ir ao beija-mão do senhor Tavares (filho) Fim do aparte)

 

No meio disto tudo, que não é pouco, apareceram umas extemporâneas declarações da Sr.ª Ministra da Justiça sobre a duração do mandato da Sr.ª Procuradora Geral da República. A declaração ministerial nem sequer era correcta do ponto de vista jurídico. Um mandato de seis anos pode, se nada estiver estabelecido em contrário (como, p.e., no que se refere os juízes do Tribunal Constitucional) ser renovado. O bom senso obriga a pensar cautelosamente nesta hipóteses. Em equipa ganhadora não se mexe. Pior, quando alguém está ligado a Angola pelo nascimento, pela família –aliás numerosa- que detém postos de poder (mesmo se também possa contar com vítimas do progrom anti-nitista) o silêncio seria de ouro (dado o contencioso existente no caso Vicente ou no da burla ao Banco de Angola – 130 milhões de euros e sete processos de investigação pelo MP -)  tanto mais que o mandato da actual PGR ainda tem alguns meses pela frente para se dar por findo.

Pessoalmente, yo no creo en brujas o en conspiraciones. Pero que las hay, las hay...

 

14
Fev18

Estes dias que passam 365

d'oliveira

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Deutschland bleiches mutter

 

 mcr 8/2/18 e 14/2/18

 

O cartaz que acima se reproduz vem (ahimé!) dos anos 6o, melhor deizendo dos finais dessa época contraditória e, para mim, luminosa e indecisa. Vi-o pela primeira vez em Berlin, num Studentenheim em Wedding onde me albergava enquanto estudante do "Goethe Institut. Abafei-o à má fila e regressei à pátria madrasta com ele. Se a memória me não falha esteve pendurado n parede lá de casa até a PIDE ir fazer uma visitinha. Eu acabara de ser preso e aquela boa gente queria por força saber que leituras eu faria. Acabaram por levar dois quarteirões de livros, um poster do Ho Chi Minh e este cartaz. Talvez também tenha ido um poster comemorativo do cinquentenária da Revolução de Outubro e alusivo ao cruzador Aurora. 

Berlin, nesses anos de vinho e rosas, de certezas e angústia, era uma inolvidável experiência. Para um estrangeiro que podia (mesmo que dificultosamente, bem dificultosamente) passar o muro o mundo explicava-se com grande rapidez. do lado de cá, o protesto, Rudi Dutschke, os Kindergarten, a prosperidade gritante e uma imprensa variada mesmo que assombrada pelo império Springler. Comunas de todo o género, anarquistas, comunistas, contestatérios sem agenda especial mostravam uma cidade cercada e vibrante. Do outor, o cinzentismo da Karl Marx Allee, os cafés tristonhos e pobres, as lojas quase vazias, as livrarias reduzidas aos clássicos marxistas, aos aitores do realismo socialista e a alguns, não todos, escritores alemães de séculos passados. Aquilo não era apenas pobreza intelectual. Era censura pura e dura, coisa que, pelo que depois fui lendo, não parecia visível aos raros estudantes portugueses que tinham bolsas de estudo para a chamada República Democrática Alemã.

No meio disto tudo, as Juventudes do SPD exerciam uma rigorosa crítica a tudo o que o Governo Alemão fazia ou queria. E faziam o excelente Willy Brandt passar maus bocados. Achavam-no "burguês", "reformista", inseguro frente à CDU e ao Ocidente. Ao mesmo tempo, iam acertando o passo à deslavada mas ditatorial república vizinha refugiada atrás do Muro e alvejando os seus cidadãos quando algum deles tentava fugir do paraíso socialista para o império do capital e do mal. 

Tudo isto, agora que o império da STASI está enterrado, me vem à memória ao ler as notícias do eventual acordo de governo para a Alemanha. Pelos vistos, Schultz ainda vai submeter a votos o acordo. Os militantes (mais de 400.000) responderão por postal à pergunta se concordam ou não com o alcançado. Parece que Juventude partidária é contra. E que, desde há meses, tem andado  numa intensa campanha de recrutamento para obter mais vozes contra. Vejam bem: estes novos, novíssimos, militantes (já são quase 25.000!), sem passado político, sem garantias de futuro no SPD, vão poder dizer "sim" ou ""não" a um acordo para cuja discussão não contribuiram. Entretanto, o partido vai perdendo continuamente popularidade. Se a coisa continua arrisca-se a ser suplantado pelos neo "fascistas" da Alternativa pela Alemanha. 

Convenhamos. O antigo slogan (tradução livre: todos andam por aí a dizer ninharias, nós não) era eventualmente ousado e a destempo naquela época de guerra fria. No entanto não propunha que "morresse Sansão e todos os que aqui estão", como infelizmente agora parece ser o caso. Este acordo, pelo que tenho lido (e ouvido na televisão alemã) merece ser aproveitado. Na Alemanha porque marca um forte progresso de políticas mais justas, mais igualitárias  e mais geradoras de emprego. Na Europa porque dá ainda mais força à actual tentativa de melhorar o dificultoso estado da União.

A juventude, comentou alguma vez algum cínico demaiadamente realista, é uma doença que passa com o tempo. Como a acne  que, todavia, pode deixar borbulhas maxime um rosto desfigurado.

...............

Repego neste texto perdido há quase oito dias. Não dava com ele, e ele, quieto e manso na caixa do blog!...

entretanto Martin Schulz desiste de ser (um bom) ministro dos Negócios Estrangeiros e, já se demitiu de todas as suas funções no SPD. Má notícia para o partido e má notícia para a coligação em perspectiva. Pior notícia para a europa e, especialmente, para os países do Sul.

Os ventos foram semeados. Vejamos se por aí vem alguma tempestade.

06
Fev18

Au bonheur des dames 4445

d'oliveira

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Segundo texto para Maria Assis sobre os tempos que correm

Dois Secretários de Estado que gostam de ler.

 

Faço parte dessa ínfima minoria de criaturas que tem o hábito de ler. O solitário vício de ler. Livros, revistas, jornais, literatura inclusa e indigesta das embalagens dos medicamentos, folhetos, grafittis, seja o que for. Com uma única excepção: nunca (NUNCA) li a chamada imprensa cor de rosa. Defeito meu, certamente ou então será porque não consigo ter qualquer espécie de curiosidade pelas vidas do jet set ou dos que gostam de o ser. Melhor dizendo, leio as letras gordas das capas que se metem pelos olhos dentro de quem vai por um jornal ou uma revista no quiosque.

Assim sendo, só louvo a propensão leitora de dois políticos socialistas que, durante os seus mandatos governamentais, alimentavam a cabecinha pensadora lendo imprensa vária (num dos casos) e livros não especificados no outro. Desconheço se, nesses tempos de glória, eram, no Governo, os únicos a parar para ler ou se mais alguém da mesma banda os acompanhava nesse dever de saber como ia o mundo. Todavia, o MP vem agora acusar as duas criaturas de terem comprado tais publicações com um cartão de crédito atribuído a governantes. Mais tais publicações (que num dos casos, o mais grave, ascende a mais de 13.000 euros e tinha por alvo, revistas, romances e livros técnicos) não foram encontradas uma vez terminado os mandatos dos cavalheiros em questão. No caso menos importante, José Magalhães, a quantia em causa –pouco mais de 400 euros – refere apenas revistas. Para o tempo de mandato convenhamos que foi pouco. Provavelmente sabia tudo e só comprava, de longe em longe, informação de que necessitava. Ou então era apenas um fraco leitor.

No segundo caso, Conde Rodrigues parece ser um leitor omnívoro. Em cinco anos gastou mais de 2500 euros anualmente. É bem verdade que terá comprado “livros técnicos” (os livreiros, quando se lhes pede, passam uma factura com este termo sem que isso seja necessariamente verdade) e romances para além das publicações periódicas. De nenhum destes produtos resta traço nos gabinetes ministeriais. E é aí que as coisas se complicam. Por muito leitor que se seja, o dinheiro com que se comparam os livrinhos ou é nosso ou de outrem. No caso em apreço, do Estado (obliquamente nosso, dos contribuintes ou seja de um terço das criaturas que habitam este torrãozinho de açúcar e que passam por ricas ou remediadas).

Não consigo (por grave defeito meu) lembrar-me do senhor Conde Rodrigues mas rendo-lhe um pequeno preito de homenagem: num país de semi-analfabetos dá sinais de curiosidade intelectual e literária mesmo se, eventualmente, os “romances” em causa sejam de amor ou (perversidade que gostosamente partilho com ele) eróticos. Quem nunca leu Sade, Crebillon fils, Laclos, Montesquieu ou Diderot não sabe o que perde. Nisto de romances cabe tudo desde a senhora Corin Tellado o senhor Marcel Proust. Tivesse ele tido o cuidado de deixar os livrinhos na biblioteca do Ministério e não seria este arrebatado leitor quem lhe atiraria a primeira pedra. Mesmo se o seu gosto literário não coincidisse com o meu. Mas não deixou!...

Alguém menos dado a perdoar extravagâncias literárias poderia pensar que Sª Ex.ª se abarbatou com 729 publicações (é esse o número que o MP revela. Ai quanto gostaria eu de saber os títulos, os autores, pelo menos os géneros, da livralhada comprada...) pertencentes ao Erário Público.

O senhor José Magalhães foi, como se disse, modestíssimo. Contas feitas, só em jornais, gasto três vezes mais por ano. Bem vistas as coisas só o “Público” chega e sobra para atingir a escassa verba de Magalhães. E é isso que me espanta. Então o raio da criatura lia assim tão pouco? Ou foi apenas distraído? 400 euros são de facto uma soma mais que exígua para o que se espera da curiosidade intelectual da personagem. Magalhães, desde os seus tempos de Vichinsky lusitano e censor moral ao serviço da bancada do PCP, dava a ideia ler um pouco mais do que o “Avante” ou aquela “verdade a que temos direito” e que se intitulava “O Diário”, publicação que se finou mansamente alguns anos depois do PREC.

Isto parece quase tão ridículo quanto a historieta de mendigar um bilhete para ver a bola no camarote do senhor Vieira. É mais uma burrice, uma esperteza saloia, do que um crime.

Joaquim Namorado, um excelente amigo, tinha um projecto de Código Civil que continha apenas um artigo e um parágrafo único que passo a citar

Artº I É proibido ser estúpido

  • º único Fica revogada toda a legislação em contrário

Vê-se que Magalhães, apesar de ideologicamente próximo de Namorado não leu ou se o leu não percebeu. Que desperdício!

Voltando, contudo, à vaca fria: que diabo de revistas compraria a criatura? Teria alguma graça se fosse a tradução brasileira da “Playboy”, ou a relançada e francesa “Lui”. Todavia não o creio: O apostrofante Magalhães dos heroicos tempos do PREC não cabe na pele de um leitor de Hugh Heffner, eterno woomanizer de pijama de seda que vagueava pela “mansão” rodeado de coelhinhas pouco dadas aos extremos do #metoo.

Seria alguma revista de automóveis dessas com muito brilho e retratos de modelos que nunca estarão ao meu alcance ou, sequer, dos meus leitores?

Poderia, dado que já passaram anos, ainda ser a espanhola “Interviu”, iniciadora do “destape”, logo “progressista” em terras vizinhas e actualmente apenas uma saudade nocada vez mais rarefeito panorama das revistas europeias. Ou o “Nouvel Observateur” (agora só “obs” ou “nouvel obs” ou qualquer outa burrice a la mode e do mesmo desnatado género e teor. Oh que de labirintos intelectuais, de caminhos que se bifurcam incessantemente mas que acabam todos no mainstream das paradas águas de um vago socialismo à portuguesa, agora apimentado pelo fantasma recorrente do sr. José Sócrates e da geringonça.

Ai Portugal se ao menos fosses só sul sol e sal...

* na ilustração uma (exageradamente) famosa revista dos tempos áureos do “verdadeiro” socialismo tal qual se entendi nas franças e araganças de outros, apesar de tudo, saudosos tempos...

02
Fev18

Au bonheur des dames 444

d'oliveira

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tempos confusos, práticas estranhas

(para Maria Assis, uma testemunha de outro tempo de batalhas duvidosas a que não se fugia)

 

O senho Centeno é uma criatura singular. Apareceu nas vésperas da última eleição legislativa com uma proposta económico-financeira que o PS, sempre preguiçoso e pouco imaginativo, aceitou de braços abertos. Depois, mesmo depois desta perdida, o PS governou. Com Centeno ao leme das Finanças. Quando se esperava que aquele programa fosse aplicado, saiu outro completamente diferente. Com isso Centeno, evadido do limbo do Banco de Portugal, ganhou a simpatia de Herr Schauble que o crismou de Ronaldo. Schauble mesmo alemão e de cadeira de rodas gosta de ironizar...

A recuperação geral na Europa e na UE, o silêncio das ruas portuguesas sem marchas, sem indignados sem manifs, o turismo fugido de um Mediterrâneo perigoso, e o comportamento das exportações fizeram o resto. Foi aquilo e não especialmente Centeno que mudou, episódica e levemente, a pátria imortal dos nossos egrégios avós. O resto, a dívida pública – e a privada, ai a privada!...-, o novo “consumo” interno desenfreado (até o BP o quer limitar) pintaram a cara de um país que ficou negro no Verão.

Centeno marchou para o seu lugar europeu e pelos vistos gosta de estar na mesa dos adultos. Ainda bem, mesmo se lá, como cá, pouco ou nada poderá influir na Europa que se redesenha.

Entretanto, uma palermice ia entornando o caldo. Centeno, arguindo de uma qualquer ideia de segurança pediu, solicitou, implorou um lugarzinho no “camarote presidencial”. Tais lugares não têm preço (ou tendo-o esse é de tal modo elevado que o melhor é não comentar) e o desejo de Sª Ex.ª foi prontamente atendido. Ele e o abencerragem sentaram-se naquele olimpo de papelão e ouropel e provavelmente tiraram uma selfie comemorativa.

Caiu o Carmo e Trindade. Que o camarote tinha um custo a pagar agora ou nas calendas!

O ministro e os seus defensores aproveitaram a burrice da crítica para se defenderem. Os críticos, em vez de dizerem que um ministro não deve pedir este género de favores insignificantes pelo que isso tem de eticamente absurdo e tolo, vieram falar de corrupção. Que diabo, esta corrupção é tão visível que corre o risco de não passar de um tiro de pólvora seca.

Centeno ou foi ingénuo ou tonto. Ou ambas as coisas, ao mesmo tempo. Deveria saber, mesmo inexperiente politicamente, que o que pediu, segurança pessoal ou não como molho, é indefensável eticamente. Gosta de futebol? Basta vê-lo comodamente na televisão, se receia que um energúmeno na bancada lhe venha pedir contas. Os ministros são, ou deveriam ser como a mulher de César mesmo se a Centeno falte cultura clássica.

O Sr. Primeiro Ministro defendeu o seu Ministro arguindo que aquilo, o bilhetinho de borla eram trocos miúdos. De acordo, tem toda a razão. Até aqui!

Mas perde toda a razão, toda, repito, quando afirma, pomposo e desafiante, que nunca o demitirá, suceda o que suceder, seja arguido ou não. Isto é um desafio esparvoado e perigoso à Justiça e um convite a todos quantos cá por baixo andamos, a mandar a Justiça às malvas para não dizer à merda. Demitir Centeno por conta de uma bagatela que releva da sua patetice seria uma tolice em cima de outra. Dizer que, em caso algum (em caso algum!) tomaria providências é um exercício de arrogância presunçosa que nem sequer defende bem Centeno.

Nota à margem: o PE teve uma conversa preliminar sobre esta caso, o que prova que os eurodeputados andam com falta de trabalho. Os deputados portugueses (todos mesmo os “conservadores”) opuseram-se a qualquer inquérito. Se foi por o assunto ser de lana caprina, muito bem. Se foi por solidariedade patriótica, muito mal. Tudo isto cheira a Carnaval mas não é o de Veneza, o de New Orleans nem o do Rio. É um desses pobretes mas alegretes, típicos da nossa província mais provinciana de onde espiritualmente surdiram Centeno e Costa.

 

18
Jan18

Diário político 221

d'oliveira

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Calma aí, malta americana

d'Oliveira fecit 18.1.17 

 

Tenho muita simpatia por Oprah Winfrey. Não exactamente pelo programa que a tornou famosa mas, sobretudo, pela cultura que tem demonstrado e pela biografia que é a de uma esforçada e corajosa lutadora.

Notem que não é todos os dias que uma mulher (mulher!) negra (negra!!) de origem humilde consegue ultrapassar todos estes medonhos senãos e converter-se num ícone americano. E, ainda por cima, não se distinguiu nos tradicionais meios reservados a esta imensa minoria americana. Não canta, não é atleta. sequer escritora. Está no “entertainment”, no reino da televisão onde os brancos, e sobretudo os brancos WASP, dominam quase completamente.

Também não vem das grandes lutas pelos direitos civis mesmo se nunca os tenha desertado.

Oprah fez o seu longo caminho a pulso, com determinação, coragem e talento, imenso talento. E cultura (basta consultar a lista dos livros que ela recomendou ao longo dos anos e a continua mobilização de personalidades culturais que foram ao programa).

Tudo isto e o seu apoio claro e iniludível a Barack Obama são excelentes razões, mas nunca as razões suficientes, para uma candidatura à presidência dos EUA.

Mesmo se, como parece, algumas (eventualmente muitas) criaturas entendam que para bater uma personalidade mediática como Trump seja necessária outra personalidade igualmente famosa. Depois, os súbitos apoiantes de Oprah afirmam que se aquele é um ignorante chapado (e é) de política internacional e até interna, e mesmo assim foi eleito, nada de pior sucederia com Oprah, mais culta, mais inteligente, mais sensível com mais bom senso.

Provavelmente não. Todavia, a América precisa desesperadamente de alguém ao leme com o mínimo de traquejo político (interno e internacional) para resolver enormes e instantes problemas globais desde as questões do clima à da desnuclearização ou aos efeitos da globalização.

Os apoiantes de Oprah já vieram falar de Reagan, um presidente que veio, também, da área do espectáculo. Parece que ignoram alguns factos: Reagan foi um importante dirigente sindical e posteriormente exerceu o cargo de Governador da Califórnia. À escala mundial este Estado americano passa à frente de três quartos dos Estados independentes seja em população, seja em indústria, em PIB ou em integração de populações diversas.

Aliás, a favor de Reagan havia ainda outro ponto: foi um republicano que governou um Estado tradicionalmente democrata. Não é pouco, nada pouco.

O Partido Democrata americano ainda não cessou de lamber as feridas da horrível derrota infligida por Trump. Diz quem sabe, e nisso conviria incluir muitos críticos do Presidente actual, que os democratas estão de cabeça perdida, desvairados à procura de um líder credível e elegível pois não basta ter a maioria dos votos. Há que obtê-los Estado a Estado dado o particular sistema eleitoral americano onde finalmente é o numero de “grandes eleitores” que decide o destino de uma eleição.

Demonstra-se este estado de extrema aflição com a candidatura de uma senhora chamada Chelsea Maning que, numa anterior vida, foi soldado e forneceu à Wikileaks 700.000 documentos classificados. A referida criatura tenta a candidatura com expresso apoio da comunidade LGTB e de numerosos progressistas (eventualmente os mesmos que andam a apoiar o #metoo) que também tweetam a exemplo de Trump.

A coisa seria ridícula e surpreendente sobretudo depois de se saber que a Wikileaks foi um dos principais estorvos contra Hillary Clinton e que o candidato democrata contra quem Chelsea concorre tem um excelente historial como congressista.

Esta América, que parece um cachorro a correr atrás da sua própria cauda, não só não tem “o sentido da galinhola” (Eça, sempre) mas sobretudo não aprendeu nada com a derrota. As elites democratas ainda não entenderam que os EUA não se limitam a N.York, Los Angeles, S Francisco e à intelectualidade que pontifica em certas e óptimas universidades, nos meios jornalísticos de grande qualidade ou no cinema. Esquecem-se que há fortes manchas de brancos pobres, de brancos empobrecidos, de gigantescas minorias de várias cores e culturas onde o sonho americano não chegou. Foram esses votantes (onde também, acreditem, havia negros ou mulheres, gays ou intelectuais) que fizeram a diferença. Eles e, convém relembrar, muitos democratas desiludidos que apostaram tudo em Bernie Sanders e se recusaram a votar Clinton (é a velha ideia de “Morra Sansão e quantos aqui estão” ou do “quanto pior, melhor”...) Bem lembrava Lenin, num contexto absolutamente diferente, é verdade, que “o esquerdismo é uma doença infantil” embora não só do comunismo, acrescento eu.

Alguma Esquerda europeia, obnubilada pelos malefícios do tabaco e do capitalismo, olha a América com mais pavor do que, por exemplo, a Rússia do ex-camarada Putin. E enfileira em todas as bizarrias que por lá surgem desde que rotuladas de “anti-sistema”. Trata-se de não só não perceber o mundo mas também de ser incapaz de transformá-lo se me permitem este paralelo com uns antigos escritos sobre Feuerbach...

Temo bem que a árvore Oprah esconda ou derrote a floresta e espero, para bem de quem, com paciência, quer ver o mundo avançar nem que seja uns milímetros (um avanço é sempre um avanço), que Oprah resista a este súbito canto de sereias, provavelmente oriundo de quem nunca leu e, muito menos perceberá, a “Odisseia”. Ou seja, o regresso do guerreiro à casa onde o esperam mulher filho, a sombra de um velho pai, um porqueiro e súbditos fartos da guerrilha dos pretendentes.

 

*aproveito a deixa grega para recomendar vivamente não só a leitura dos poemas imortais de Homero na tradução de Frederico Lourenço como também a belíssima tradução que este helenista propõe da Bíblia: já cá cantam três volumes e aguardam-se com ansiosa volúpia os restantes.  

11
Jan18

Au bonheur des dames 443

d'oliveira

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#me too, o movimento e as francesas

 

mcr 11-1.18

 

este texto vai para  Irene MR, Mª José C e Maria de L A

 

(nota prévia: Quem, com santa e resignada paciência, me lê terá reparado que são mais de uma dúzia os textos em que me refiro à violência de género e à inominável cobardia (para já não falar no crime miserável) de muitos homens. Eles agridem, eles denunciam, eles maltratam, eles matam as ex-companheiras por dá cá aquela palha. Que os abandonaram, que se fartaram de apanhar pancada, de ouvir insultos, de serem menos do que as antigas criadas de servir, de serem violadas –sim também existe violação dentro do casamento- enfim por um ror de razões que seria fastidioso enumerar. Portanto, caras e caros leitores, recordem isso antes de me atirarem a primeira pedra (curiosamente o castigo para as adúlteras quer na Bíblia –A.T.- quer na medonha “charia” muçulmana)).

 

Apareceu nos EUA, mais propriamente em Hollywood, uma campanha (#me too) de denúncia de agravos feitos por homens ligados à indústria cinematográfica a mulheres, mormente actrizes. Nas queixas há de tudo: apalpões, convites para a cama, chantagem, palavrões, violação. Há também conversas ou palavras “impróprias”, que a América é o paraíso da correcção política!

Alguns (com a entusiástica ajuda dos media, fartos já de arrear – merecidamente, acrescente-se - em Trump) mostraram-se espantados, escandalizados, horrorizados(!), com estas revelações.

Este escriba persigna-se três vezes e pergunta-se se estas boas alminhas alguma vez pararam para pensar na história pregressa de Hollywood. É que, desde meados dos anos 50, que anda por aí um livro de Kenneth Anger (“Hollywood Babylone”, Jean Jacques Pauvert ed, Paris)que só apareceria nos EUA (em versão inglesa e original) em meados de 60. Rapidamente proibido lá, só voltou às livrarias dez anos depois.

Entretanto, dezenas de publicações (destaque-se a “Playboy”) foram ao longo de todos esses anos denunciando “Sodoma e Gomorra na Meca do cinema”. Recordo-me de ter visto na televisão (há quantos anos já!) um documentário sobre actrizes e modelos onde algumas delas confessavam, sem excessivas recriminações, que tinham passado voluntária ou obrigatoriamente pela cama de realizadores, produtores, fotógrafos, agentes, sei lá que mais.

O actual arruído foi desencadeado pelas acusações a um poderoso produtor, Harvey Weinstein, por um grupo de actrizes. Estupro, violação seriam o pão de cada dia na vida de um homem que chegou a ser homenageado pelo seu apoio à causa judaica e atacado por alguns filmes seus serem anti-cristãos e anti-americanos. Um “must”! Por acaso, também foi responsável por alguns (muitos) sucessos artísticos e comerciais. Uma autêntica “american live story”...

Abatido Weinstein, começou (Não há país como “a terra dos bravos e dos livres”, para estas coisas) a caça à macharia mal intencionada. Em pleno desenrolar dos “Globos de ouro”, um dos premiados foi acusado por uma actriz que afirmou que ele a fizera actuar nua depois de lhe ter imposto um contrato onde isso estaria previsto. Ou seja, o anjinho ofendido primeiro contratou, fez o filme, recebeu o cacauzinho e, depois, muito depois, lembrou-se de protestar. É obra!

Numa entrevista no “Late night show”, animado pelo prodigioso Stephen Colbert, um entrevistado confessou que ao abraçar uma mulher lhe “tocara nos seios”. E estava muito arrependido... Pergunto-me como é que ao abraçar se toca nas mamas da criatura abraçada.

A campanha corre, infrene e imparável, pela América. Todos os dias se noticiam casos de há dez, vinte, trinta anos. A diligente justiça americana renova a perseguição a Roman Polansky, ameaça Woody Allen e instala no meio libertino e sofisticado de Hollywood um clima de denúncia onde vale tudo. Pelos vistos qualquer “inapropriate behaviour” é tremendo crime. Um olhar mais demorado pode ter efeitos tão dramáticos quanto um apalpão que, por sua vez está ao nível do assédio puro e duro, quiçá da violação. Al Capone e a KKK espreitam, com Manson e os bombistas de Ocklahoma, as vestais do cinema americano, para o efeito vestidas de negro severo mas generoso em decotes.

Um grupo de cem artistas, académicas e escritoras francesas publicou em “Le Monde” uma carta aberta onde pedem moderação, bom senso e calma e, horribili dictu!, defendem que aos homens deve ser permitida uma suave intencionalidade sexual no que dizem, pensam ou fazem perante as mulheres. Jesus! Caiu o Carmo e a Trindade. Ou melhor, a torre Eiffel e o Arco do Triunfo. A primeira como vero símbolo fálico e o segundo como uma vagina desmesuradamente acessível à peonagem que o atravessa a pretexto de ver a chama do soldado desconhecido. Aliás, o Arco, tributo às campanhas napoleónicas é, desde há muito um símbolo a proscrever por nacionalista, imperialista, militarista etc.

No dia seguinte trinta senhoras da melhor sociedade feminista responderam às anteriores cem. Estão em minoria mas isso não espanta num país onde um antigo presidente da república (Felix Faure) morreu literalmente na boca de uma amante posteriormente conhecida como “pompe funébre”. Onde outro, Mitterand, era conhecido por ter “casa civil e casa militar”(na amável interpretação de Jorge Amado) ou outro ainda mais recente se disfarçava de motociclista para se escapar do Eliseu para se ir aconchegar nos braços de ma actriz que (Vergonha!) nunca se queixou de assédio. Há quem se lembre de uma (a única) Primeira Ministra da França, Edith Cresson que afirmou sem pestanejar que uns bons 25% dos ingleses eram homossexuais e por isso desprezavam as mulheres. A senhora Cresson, além de inteligente, culta e belle femme, foi, et pourquoi pas?, amante de Mitterrand mesmo se esse fait divers não deva ter influído na sua nomeação.

Não admira num país que viu nascer Sade, Laclos, Bussy-Rabutin, Crébillon fils, Brantôme (e não esqueçamos osenormes Montesquieu e Diderot que escreveram belos textos eróticos) ou já no nosso tempo, Roger Vailland, esta desatada fúria americana cause uma divertida perplexidade. Alguém, não consigo recordar agora, citou Mae West essa deliciosa e inteligentíssima desbocada. Que diria ela, perguntava-se esse desconhecido, se visse e ouvisse o que se passa?

Esta campanha acaba por abafar outras bem mais urgentes quais sejam pagamento igual por trabalho igual (e não só no cinema, que diabo, mas nas fábricas, nas grandes cadeias de distribuição, na Banca ou noutros domínios), a luta pelo ambiente, a eventual proibição do porte de arma ou a necessária limitação da intervenção de seitas e grupos religiosos na condução dos negócios públicos. Neste momento tudo isso está na sombra. O que está a dar, graças a uma centena de famosas, é o assédio sexual seja ele qual for, revista ele a modalidade mais inócua. Foram causas idênticas, ou um estado de espírito idêntico, que levaram à imbecilidade da lei seca, que mantiveram no índex as obras de Miller e um bom cento de argumentos ou de filmes “unamerican”

Às vezes, por muito jazz de que eu goste, por muito poeta e escritor americano que aprecie, por muito John Ford que veja e reveja, sinto que tive a sorte de nascer em Portugal. Arre, que isto até me faz parecer nacionalista! Credo, Deus me livre...  

 

* na imagem Kirk Douglas, 101 anos e mais de 80 de cinema, veio de preto, sabe-se lá por que razão. A acompanhante também.

**o título leva o #me too a negro. É uma mostra de solidariedade, juro.

10
Jan18

Au bonheur des dames 442

d'oliveira

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Não percebeu, não percebe e (provavelmente) nunca perceberá.

(mcr 10-1-18)

 

A Sr.ª Dr.ª Constança Urbano de Sousa, patética e inverosímil ex-Ministra da Administração Interna, entendeu dar por findo o período de nojo pela sua remoção de tão difícil cargo com uma entrevista ribombante mas paupérrima.

Como única nota de interesse, remeteu as críticas que a sua deslavada acção mereceu para o factor sexismo.

Tudo o que se lhe apontou de ineficácia, incoerência, inabilidade e autismo, deveu-se, segundo ela, ao facto de ser mulher.

Com uma excepção: reconhece, a contrapelo e a contragosto, que a sua disparata referência à falta de gozo de férias não terá sido uma expressão feliz. Ora aqui está um exercício de autocrítica digno dos melhores momentos do falecido Komintern (entidade que CUS não conhecerá bem mas isso não é seu exclusivo. Basta ler um artigo de opinião da também Dr.ª Mortágua, exalada bloquista, para se perceber que aquelas matérias, mesmo com o centenário da “Revolução de Outubro”, gozam de um conhecimento fugaz entre a nossa “inteligentsia” progressista).

De facto, a ex-ministra enfrentou (ou antes: assistiu) a uma situação de extremo dramatismo. Não foi apenas a terrível morte de mais de uma centena de cidadãos portugueses (dos mais indefesos, desprotegidos e pobres e isolados!) mas a perda de culturas, pomares, olivais, vinhedos, floresta, hortas, reses, abelhas, animais selvagens e de companhia, gado doméstico, empresas e casas, emprego e qualidade de vida. Foi muito e foi mais do que isso. Foi a verificação de um país paralisado, dividido, enfraquecido, esquecido pelas luzes do turismo de massas e pela pequena “sociedade afluente” que povoa parte do litoral. Deveria ser também o momento do fim da inocência de alguns (muito poucos) e a tomada de consciência de que assim corremos inexoravelmente para o fim de um Estado em que Nação e Povo e História pareciam confundir-se desde há séculos, dentro da mesma fronteira, da mesma língua, dos mesmos mitos fundadores.

E igualmente o do despertar de uma consciência nacional, social, ética e solidária, reclamada por muitos e defendida por poucos. A ver vamos, como dizia o cego...

A Dr.ª Constança andou durante o Verão e o Outono do passado ano como uma abelha enlouquecida e desnorteada. Do que dizia, do que fazia, do que pensava chegavam-nos ecos assustadores. A pobre senhora esbracejava como os moinhos de Consuegra contra os quais o “engenhoso fidalgo” esgrimia uma pobre espada.

Agora, porventura entusiasmada com a campanha #me too, eis que levanta um dedo acusador a todos quantos se indignaram com a sua actuação e o fizeram saber.

Alega a criatura que todos os dias recebe na rua, ou em qualquer outro local público, mostras de simpatia e conforto. Provavelmente até de agradecimento!

Eu não quereria desmentir a senhora mas, que diabo!, a coisa, assim dita, parece-me forte. Fortíssima! A rondar a paranoia... Que é que qualquer cidadã ou cidadão (escrevo as duas formas para me defender de machismo, assédio sexual ou qualquer outra maleita do século) lhe poderá agradecer? E louvar?

A paralisia? A falta de tacto (ou de férias...)? O discurso enrolado, a nomeação de gente da protecção civil manifestamente incapaz e alvo, agora, de acusação criminal?

A dita senhora escreveu numa carta patética e choramingas que por várias vezes pusera o cargo à disposição ou oferecera numa bandeja a demissão. Desculpar-me-ão pôr em dúvida tal afirmação.

Quem se quer demitir, demite-se. Se, do outro lado, há quem arraste os pés, eleva-se a voz, faz-se barulho, uiva-se se for o caso, mas não se permite que uma situação nos esmague, engula. Em síntese: tudo, menos o pântano! Vai nisso a honra das pessoas, o sentido ético, a salvaguarda política de uma missão nobre (e a governação é seguramente uma delas).

A ideia de que a opinião crítica apouca as mulheres é falsa, é estúpida e é deletéria. Poderei não concordar com a geringonça mas tenho de reconhecer a alta qualidade da dr.ª Mª Manuel Leitão Marques, a verticalidade da dr.ª Joana Marques Vidal, a combatividade de um largo punhado de deputadas desde Catarina Martins a Assunção Cristas sem esquecer a porta voz dos Verdes ou Ana Catarina Mendes. Ou a derrotada candidata do PSD à CML.

Tenho por certo que alguma da melhor literatura portuguesa do passado século se deve a um extraordinário punhado de mulheres de que só cito Irene Lisboa, Maria Judite de Carvalho, Fernanda Botelho, Agustina Bessa Luís, Sofia de Melo Breyner, Fiama HP Brandão, Luísa Neto Jorge, Maria Velho da Costa, Isabel Barreno, Isabel da Nóbrega (e lamento deixar de lado outras tantas e sobretudo um punhado de revelações já deste século). Duvido que conseguisse citar, do mesmo modo e de jacto, tantos homens escritores que de facto tenham deixado uma marca profunda, tão profunda quanto a delas. Poderia identicamente falar de artistas plásticas, de intérpretes musicais ou de cientistas. A nossa história cultural está pejada delas, não existe (ou existe mal) sem elas.

Há uns tempos, escrevi aqui que Mário Soares nunca teria sido o que foi sem Maria Barroso. E, mais: que ela voluntariamente se apagou para que ele e a comum ideia política que partilhavam fosse mais evidente. Ou indo mais longe no tempo. Snu partilhou com Francisco Sá Carneiro tudo, inspirou-o, aconselhou-o e acompanhou-o (inclusivamente na morte).

Tudo isto faz com que leia, entre espantado e desdenhoso, as declarações da dr.ª Constança. Ela equivoca-se ou tenta equivocar-nos. Ou não percebe, como escrevo no título deste folhetim...