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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

22
Set17

Estes dias que passam 362

d'oliveira

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Lá sair saímos. Para onde?

 

(mcr 22.9.17)

 

“…O jovem Alexandre conquistou a Índia.

Sozinho?


César bateu os gauleses.


Não levava sequer um cozinheiro?”

(Brecht Perguntas de um operário leitor)

 

Se é verdade que a culpa morre solteira, não menos verdadeira é a afirmação de que a vitória é de todos.

Nem tanto ao mar, nem tanto ao mar... De vez em quando lá se descobrem (e se punem) uns culpados como nem sempre a vitória é colectiva.

Vem isto a propósito da saída de Portugal do lixo recentemente aprovada pela Stanley & Poor’s. As parangonas foram gigantescas, o júbilo da imprensa e de alguns políticos alcançou o nível 5 mas talvez convenha alinhar algumas verdades sobre esta missa cantada. Sair do lixo, mesmo que seja para um grau muito abaixo do desejável (e da média da Europa) é para qualquer português uma boa notícia.

Atribuir os louros desta declaração de uma (entre três) agências de rating a um só protagonista é que me parece uma tolice quando não uma vigarice.

Quem me foi lendo ao longo dos anos, sabe a fraca opinião que sempre tive do governo anterior. Houve mesmo leitores que se zangaram: que eu era injusto, que tinha uma agenda própria contra o centro-direita, que fazia propaganda pela esquerda, sei lá que mais. Liam-me vesgamente e já não se lembravam do que eu escrevera sobre Sócrates. Ou sobre Durão Barroso e o great portuguese disaster que no século se chamou Santana Lopes.

Convenhamos, desde a desilusão Guterres que não me sinto especialmente comovido, muito menos entusiasmado, com os sucessivos primeiros ministros e respectivas equipas que nos atropelam. Na melhor das hipóteses roçaram o sofrível mas depressa, muito depressa, caíram no fosso da mediocridade.

Portugal, os portugueses, aguentou estoicamente, como de costume. Gente habituada a uma terra sáfara entre a praia e a montanha pobre, fez das tripas coração e desandou por esse mundo fora. Onde menos se espera, encontramos um português desde aquele Gastão, amigo de Sandokan e casado com uma “rani” indiana até ao senhor Oliveira da Figueira com que Tintin se cruza em “OS charutos do faraó”.

Isto, esta presença modesta mas múltipla de portugueses por esse mundo de Deus serve para vir dizer que esta saída do lixo se deve a muita gente, desde, obviamente, os actuais governantes, ao inditoso Passos Coelho e, muito, a todos os paisanos que aguentaram os anos duros.

Num texto anterior às últimas eleições legislativas, eu dava conta de alguns sinais ténues mas dignos de nota de uma clara melhoria da situação e da sua percepção pelos portugueses. Aliás, baseado nisso mesmo, eu prevenia Costa que as eleições poderiam não ser, como não foram, um triunfo para o PS (obviamente não previa –nem ninguém que eu saiba- a constituição da “geringonça”, tanto mais que, naqueles ásperos dias, PC e BE rivalizavam em duras acusações ao PS).

Centeno e Costa teriam metido um formidável golo ao PSD e ao CDS se, com naturalidade e verdade, os tivessem associado –ainda que minimamente – à saída do “lixo”. Tanto mais que ainda faltam duas agências, a dívida pública é o que é e o nosso progresso é acompanhado (e até superado) pelos nossos parceiros europeus.

Há, entre certos comentadores e, sobretudo, em certos dirigentes partidários, uma ideia de que as agências de rating são uns monstros que, ainda por cima, não proveem de uma votação democrática (!). Isto é uma chapada parvoíce porquanto esta boa gente parece ignorar tudo sobre as ditas agências. Ninguém, nenhum país, está obrigado a consultá-las, a ouvi-las a segui-las. Sobretudo quando se sabe que pagam generosamente os serviços de rating! Todavia, os investidores (grandes e pequenos e mesmo pequeníssimos), à falta de melhor indicador (que não há) apostam os seus dinheiros no parecer destas instituições que, como milhares de outras estabelecem paradigmas, limites e vias para o investimento. Só a bronquidão dos fanáticos é que vê nisto mais fantasmas do que os que não existem.

A segunda (conveniente) consequência de associar os partidos da oposição (mesmo em porção meticulosamente côngrua) a esta nova situação é que assim, também, porventura indirectamente, se “amarravam” estes a parte das políticas e dos desígnios prosseguidos pelo Governo e (eventualmente) se salvaguardava alguma distância para com o PC e o BE. Que, aliás, contribuíram, e não pouco, e a contragosto, para o clima de paz social que influenciou a decisão da Stanley & Poor’s.

Finalmente, é bom não esquecer que, como acima se diz, esta saída é ainda muito pequenina. Estamos muito longe do AAA e bastante longe da média dos nossos parceiros na UE. Digamos: estamos melhor do que a Grécia mas isso não é sequer uma pequena alegria. 

15
Set17

Au bonheur des dames 420

d'oliveira

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Escrever à Sr.ª Aung San Suu Kyi

 

(mcr  15.09.17)

 

Se valesse a pena, escreveria a esta Senhora por cuja liberdade, tantos e tantos de nós se bateram. Durante anos a fio, fomo-la recordando, ao mesmo tempo que condenávamos a Junta de generais birmaneses que a reduzia à prisão em casa.

Valeu a pena? Claro que valeu. A liberdade mesmo de uma só pessoa é sempre melhor do que a privação dela.

Esperávamos algo em troca? Pela parte que me toca, bastava-me a ideia de que, uma vez livre, Suu Kyi conseguisse trazer a democracia ao seu povo. E a democracia significa, desde logo, liberdade, igualdade de oportunidades, respeito pelos direitos humanos, pelas crenças legítimas de todos.

Já, no tempo obscuro em que Suu Kyi estava prisioneira em sua própria casa, se falava de uma minoria muçulmana, distante e perdida nos limites do país, os Rohingya. Eram também os mais afastados do progresso que eventualmente poderia cair sobre os habitantes, os mais mal servidos em conforto, assistência, habitação se é que na Birmânia/Myamar se pode falar disso.

Não se esperava de budistas piedosos uma tão grande aversão e um tal desprezo por compatriotas que não ameaçavam nada nem ninguém e que, por junto, estavam unidos pela religião muçulmana, situação absolutamente espectável numa região que está paredes meias com o Bangladesh, também ele muçulmano. E miserável, acrescente-se.

Desde a libertação de Suu Kyi e da vitória eleitoral do seu partido, do acordo celebrado entre os seus adeptos e os militares, não só os Rohingya não viram melhorada a sua situação mas, pelo contrário, viram a repressão abater-se sobre as suas paupérrimas e longínquas aldeias.

Foi essa a origem duma incipiente e frágil revolta de gente inerme e praticamente desarmada. Gente que, ainda por cima, estava longe de tudo e, pelos vistos, até de Deus seja ele qual for.

Não é caso único. Há cinquenta ou sessenta anos que se fala do Darfur, do Sul do Sudão, das profundezas do Congo ex-belga. Ou da minoria berbere. Ou de curdos perseguidos e dizimados pela Turquia, pelo Irão, pelo Iraque e pela Síria. Ou das minorias muçulmanas nos confins da China. E por aí fora.

Tem todos em comum a miséria, o facto de serem minorias étnicas, linguísticas ou religiosas e, sempre, pobres e isolados. E sem voz. E sem representação nos governos dos países onde mal sobrevivem. Os do costume. Os verdadeiros “condenados da terra”, que Fanon me perdoe.

Sei bem, mais que bem, que um blog é só um blog. Que não influencia ninguém ou, na melhor das hipóteses um punhado de leitores, tão inermes quanto quem estas linhas vai traçando. Todavia, o silêncio é ainda pior. Pior até que a indiferença porquanto quem silencia sabe o que se passa quando a maior parte das vezes o indiferente ou não sabe, ou não percebe.

Receio, porém, que não valha a pena escrever à Sr.ª Suu Kyi. Alguns dos seus súbitos defensores afirmam que o silêncio dela tem um motivo: defender a frágil convivência semi-democrática que se vive em Rangun. Navegar entre o escolho dos militares e a multidão budista que sofreu anos de opressão.

Todavia, isto, mesmo se fosse assim, tem um preço. E esse é a morte, a expulsão dos Rohingya e a repressão que sobre eles se exerce impiedosa e brutal. É uma falsa e má contabilidade. E uma desculpa, que me perdoem os defensores de Suu Kyi (que, à cautela, não irá à Assembleia Geral da ONU) que nada resolve, tudo agrava e destrói uma biografia.  

 

 

04
Set17

au bonheur des dames 419

d'oliveira

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a história como "eles" a contam

 

(mcr 4-09.17)

 

A “tv memória” (ou algo com um nome semelhante) tem ocupado o Verão a transmitir uma versão “aligeirada” (demasiado aligeirada, mesmo) da história recente em que avulta uma espécie de hagiografia da 1ª República. Aquilo, mesmo descontando o tom enternecido com que se olha para aquele período histórico, é fraquinho cientificamente para não falar na pobreza franciscana da realização.

Desta feita, voltou à baila a Dr.ª Carolina Beatriz Ângelo, uma das primeiras médicas formadas em Portugal no que viria a ser a futura Faculdade de Medicina de Lisboa.

Beatriz Ângelo foi uma ardente e respeitada sufragista, republicana e admiradora de Afonso Costa de quem ela dizia ser “uma das poucas pessoas de valia no PRP”. Tendo enviuvado cedo, tornou-se chefe de família e foi nessa qualidade que tentou e conseguiu votar nas primeiras eleições realizadas pelo novo regime (1911, se não estou em erro). Conviria reparar que em tais eleições não só não estava reconhecido o direito de voto das mulheres, 1ª causa das republicanas portuguesas, como também se assistiu a uma gigantesca contração do corpo eleitoral, truque usado para permitir que o republicanismo vitorioso nas ruas de Lisboa não fosse derrotado pelos eleitores da “província” “reféns”, como se arguia, do clericalismo e dos cacique monárquicos. Com um segundo pormenor anedótico: onde só houvesse uma lista (a republicana) nem havia a maçada de ir a votos.

Para votar, a dr.ª Beatriz Ângelo teve de recorrer de uma primeira recusa e, mesmo em plena sala de voto, ainda se lhe levantaram dificuldades. Convém relembrar a famosa e inovadora sentença do juiz João Baptista de Castro que contundentemente declarava a exclusão das mulheres como ilegal e absolutamente injusta, mandando em consequência que se inscreve nos cadernos eleitorais o nome de Beatriz.

Teria sido bonito (e justo) relembrar este digníssimo juiz cuja sentença correu meia Europa pelo que tinha de inteligente e de progressivo. Mas não: os tolos, para alevantar Beatriz, ocultaram João Baptista!

Posteriormente, não só o seu voto foi anulado pelo Congresso da República mas saiu legislação a proibir expressamente o voto das mulheres. Parece que a elite republicana temia que a Igreja influenciasse estas e derrotasse a “justa causa” da liberdade e da fraternidade.

Seria apenas com o negregado dr. Salazar que as mulheres alcançariam o estatuto de eleitoras e elegíveis para a Assembleia Nacional. A coisa terá ocorrido nos anos trinta, vinte e tal anos depois do gesto de Beatriz.

Salazar, pressentia que o género feminino escolheria a opção conservadora, a “ordem”, a tradição e a respeitabilidade.

(aliás, recordo, sem emoção, que, ainda nos meus tempos de estudante em Coimbra, se atribuía às “raparigas” nossas colegas um facataz pela Direita que, na verdade, nunca se verificou, pelo menos de forma especialmente ameaçadora. No fundo, a ideia que primava era a de que as mulheres tinham uma fraca sensibilidade política e, sobretudo, eram profundamente influenciáveis por pais, maridos, familiares, padres e sei lá quem mais. E eram mulheres...

Voltando às nossas devoções: evocar Beatriz Ângelo e o seu voto sem, depois, contar o resto da história que é bem mais importante do que o gesto inicial é na melhor das hipóteses uma grave omissão e na pior uma clara falsificação da História. Inclino-me para este segundo caso dado o tom geral dos documentários produzidos in illo tempore sobre a !ª República de que, aliás, são um pobre e triste exemplo as séries dedicadas aos primeiros presidentes da República também eles apresentados em perfil angélico e, sobretudo, baço no que toca a questões essenciais. Não se chega a perceber o que é que distinguiu Arriaga, Teófilo Braga ou Bernardino Machado dos seus amigos e adversários. Alguém me dizia: não te preocupes, aquilo são filmes para consumo das massas e só passam à hora das novelas, ou seja, acabam por ser invisíveis e de pouca mossa.

De certo modo, o meu interlocutor tinha razão: só um velho chato e rezingão, eu, é que se dá ao trabalho de se indignar com esta história alegre e simplificada de Portugal.

 

* em tempo: Carolina Beatriz Ângelo começou a sua carreira de médica em 1903 e a política em 1907 vindo a morrer em 1913. É pouco tempo para se falar de uma carreira política, mesmo se ela fez parte do primeiro grupo de mulheres republicanas. A ideia que fica, sem desprimor para a sua coragem e determinação, é a de um exemplo que não teve tempo para frutificar e deixar obra.

 

27
Ago17

Estes dias que passam 361

d'oliveira

Revisões da matéria dada (variante terceira)

mcr 26.Ago.17

 

Há dez anos, porventura onze, publiquei aqui o texto que abaixo se reproduz.

Tratava-se do "estes dias..." nº 74

 Razões de mera arrumação da minha escrita pregressa fizeram-me dar com ele e verificar a sua terrível actualidade. Republico-o agora sem lhe alterar nada, ou tão somente alguma gralha ou virgula defeituosa. 

 

 

A imaginação nunca ultrapassa a realidade

 

De quando em quando, escrevo aqui umas balivérnias que leitoras condescendentes interpretam como frutos da minha imaginação. E, de facto, sob um fundo pesado de realidade lá vou vaporizando as minhas peças de alguma imaginação.

Hoje, todavia, renuncio de todo em todo à cavalgada imaginadora das minhas “pequenas células cinzentas”, como diria o inestimável Hercule Poirot. E se falo no belga filho da imaginação da senhora Christie é porque o tema de hoje lembra um mistério desses difíceis com que a velha dama nos divertia. É, na verdade, um mistério a boa imprensa de que gozam, entre nós, alguns países, ou melhor os governos de alguns países espalhados por essas vastas geografias de medo e infâmia.

Comecemos pela Venezuela, hoje dirigida por um antigo putchista da direita mais militarona e reaccionária. De facto o senhor Chavez, o arauto de uma rocambolesca revolução bolivariana, começou a sua discutível carreira de estadista, tentando levar a cabo um desditoso golpe nos anos 90 contra o presidente legal Carlos Andrés Pérez. A jogada deu para o torto, ele terá feito quase dois anos de prisão suave e, para espanto dos que ainda se espantam, conseguiu ganhar as eleições presidenciais em 98. Depois, tem sido reeleito. E com margens importantes, há que dizê-lo. O dinheiro do petróleo (cujos preços estão desde há muito em alta) redistribuído em parte pelos mais pobres, pelos militares (ai não!) tem disfarçado a ausência de política e de clareza no discurso populista de Chavez. A América do Sul tem visto outros aprendizes de ditador, tem assistido ao corte crescente das liberdades, ao cantonamento das oposições (cuja inteligência política é inversamente proporcional ao amor ao poder e aos seus mais evidentes frutos) e à lenta edificação de um estado policial. Cá pelo burgo, parece que alguém terá achado que Chavez é o Messias da esquerda. A idade não perdoa, é o que é. Genericamente, os europeus vão dialogando com Chavez tanto mais que o seu petróleo é menos incerto que o da península arábica. Depois, quando acordarem, será tarde.

Não abandonemos este desamparado continente sem referir uma vez mais a infâmia que se representa nas florestas colombianas onde um partido “revolucionário” detém umas centenas de reféns. Desta vez há notícia da morte de uma série de políticos colombianos, que alegadamente terão sido vítimas das tropas governamentais. Digamos para já que, a ser verdade a autoria da tropa governamental, sempre haverá uma certeza: os reféns serviram de escudos humanos. Todavia, não é difícil imaginar que estas mortes se reduzem a meros assassínios de futuros opositores das FARC se e quando estas forem um partido político legal.

Um passeio agora por África, mais precisamente por um país que, custa dizê-lo registava ainda há uns dez, doze anos, alguns índices de prosperidade: o Zimbabwe. Convirá esclarecer algum leitor desatento que, desta banda, nunca se louvou o senhor Ian Smith um dos aliados racistas de um Portugal antigo que não para de renascer. O senhor Smith conseguira, todavia, criar um país com uma sólida economia agro-industrial, nas mãos dos brancos evidentemente. Os negros faziam de paisagem, de boys, de trabalhadores agrícolas como é costume. A estrutura económica que passou intacta para as mãos rapaces de Mugabe pospunha a manutenção das grandes fazendas, mesmo se nacionalizadas. A sua divisão arruinou os trabalhadores agrícolas das antigas fazendas, destruiu a exportação, substituindo-lhe uma economia de subsistência que nem isso chega a ser. O Zimbabwe tem fome. Fome como nunca teve num passado recente e infame. E tem uma ditadura que deve fazer empalidecer de inveja o velho Ian Smith hoje exilado no Cabo. Mugabe vai liquidando metodicamente os opositores políticos, negros desta vez, enquanto o pais soçobra no caos. A Europa torce-lhe o nariz mas os africanos recusam-se a condená-lo. E convenhamos que os ingleses também não o molestam demasiadamente. Ao que parece os mortos actuais já não comovem as consciências democráticas como há anos. A diferença deve ser esta: agora são os negros que matam os outros negros. Logo está tudo bem. Não há colonialismo.

Daqui até à Líbia vai um salto. Por cima do Darfur e do seu imenso desastre. Curiosamente, o meu primeiro sogro, Jorge Delgado ofereceu-me ainda nos anos 60 uma brochura sobre o Darfur, comprada na “Joie de Lire” do François Maspero. Um escândalo que dura vai para cinquenta anos já o não é. O que me admira é que ainda aí haja gente para morrer. Os pretos têm a pele dura, dizia-me um amigo também negro, angolano, assassinado pelos nitistas, em Angola. Teve sorte: provavelmente o MPLA também lhe trataria da saúde, mais tarde.

E a Líbia? Pois a Líbia é o que sempre foi: Kadafi um iluminado sentado em cima do petróleo (que tanta falta faz) continua a sua “revolução verde” (esta gentinha adora falar de revolução!) e faz-se rogar pelos ocidentais. Desta feita, é um processo kafkiano que me traz este personagem à caneta. Meia dúzia de enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano acusados de inocularem vírus mortais a umas centenas de crianças líbias, viram confirmadas pelo Supremo Tribunal as penas de morte. Agora, dizem os nossos jornais, resta apelar a Kadafi. O que vai ser feito, obviamente. Ou seja a campanha de branqueamento do cavalheiro entra numa fase superior, como se dizia nos velhos tempos de “análise concreta da situação concreta”. Vai uma apostinha em como ainda veremos Kadafi ser recebido como benfeitor da humanidade em Bruxelas?

Ou em Varsóvia, já agora e para terminar. Eu confesso que nada tenho contra os polacos, bem pelo contrario, adoro Chopin e fui principescamente recebido pelos meus amigos de Varsóvia quando, in illo tempore, fui visitar uns colegas do Direito Comparado. Detestei a atmosfera política, o medo, a pobreza, o desespero dos meus amigos, tanto quanto apreciei a gentileza deles, a cultura, a amizade demonstrada e a dignidade de um povo que não se submetia.

Que esse povo seja agora governado por uma parelha de gémeos abaixo de qualquer classificação é coisa que me consegue ainda espantar. É que a coligação que governa a Polónia e que ostenta aquelas duas criaturas à frente do Estado e do Governo não é sequer conservadora, mas retintamente reaccionária. Eu nem falo da homofobia, coisa que ainda conseguiria vagamente perceber dada a profunda religiosidade polaca que além do mais é um factor de unidade nacional e lhes permitiu sobreviver ao período soviético. Isto não significa que não condene as perseguições de rua e legais à minoria sexual, claro. Não consigo entender as leis sobre as provas de cidadania reiteradas à caça de antigos polícias, de colaboradores do antigo regime, de gente que se calou ou que não se manifestou (como se isso fosse possível!...). Actualmente o ambiente tem piorado: os gémeos não só se recusam a aplicar fartas doses de legislação comunitária como entendem chantagear a Europa, desenvolver uma campanha inaudita contra a Alemanha e tentar obter para o seu país (que entretanto assinou com uma mão distraída os tratados que agora alegremente pretende modificar a seu favor) condições de privilégio que nada fundamenta. Os manos Kakzinsky conseguiram o impossível: nomearam uma senhora mediadora para os direitos da infância cuja primeira missão foi despistar “a publicidade subliminal da homossexualidade nuns bonecos infantis – os teletubbies – porque um usava um saco vagamente feminino...

Uma Europa onde esta gente tem entrada não é só triste. É ridícula.

Espero que ao escrever isto num blog não esteja a infringir uma regra de ouro inventada por uma senhora Secretária de Estado que entende que o humor (aqui dolorosamente em falta, mas enfim...) sobre personalidades fica bem em casa, eventualmente numa rua escusa, na praia (se deserta) ou num campo de concentração. Esperemos que os blogs hoje tão na mira dos zelotas e dos filisteus entrem nessas categorias de inocência confirmada.    

27
Ago17

Estes dias que passam 361

d'oliveira

Revisões da matéria dada (variante terceira)

mcr 26.Ago.17

 

Há dez anos, porventura onze, publiquei aqui o texto que abaixo se reproduz.

Tratava-se do "estes dias..." nº 74

 Razões de mera arrumação da minha escrita pregressa fizeram-me dar com ele e verificar a sua terrível actualidade. Republico-o agora sem lhe alterar nada, ou tão somente alguma gralha ou virgula defeituosa. 

 

 

A imaginação nunca ultrapassa a realidade

 

De quando em quando, escrevo aqui umas balivérnias que leitoras condescendentes interpretam como frutos da minha imaginação. E, de facto, sob um fundo pesado de realidade lá vou vaporizando as minhas peças de alguma imaginação.

Hoje, todavia, renuncio de todo em todo à cavalgada imaginadora das minhas “pequenas células cinzentas”, como diria o inestimável Hercule Poirot. E se falo no belga filho da imaginação da senhora Christie é porque o tema de hoje lembra um mistério desses difíceis com que a velha dama nos divertia. É, na verdade, um mistério a boa imprensa de que gozam, entre nós, alguns países, ou melhor os governos de alguns países espalhados por essas vastas geografias de medo e infâmia.

Comecemos pela Venezuela, hoje dirigida por um antigo putchista da direita mais militarona e reaccionária. De facto o senhor Chavez, o arauto de uma rocambolesca revolução bolivariana, começou a sua discutível carreira de estadista, tentando levar a cabo um desditoso golpe nos anos 90 contra o presidente legal Carlos Andrés Pérez. A jogada deu para o torto, ele terá feito quase dois anos de prisão suave e, para espanto dos que ainda se espantam, conseguiu ganhar as eleições presidenciais em 98. Depois, tem sido reeleito. E com margens importantes, há que dizê-lo. O dinheiro do petróleo (cujos preços estão desde há muito em alta) redistribuído em parte pelos mais pobres, pelos militares (ai não!) tem disfarçado a ausência de política e de clareza no discurso populista de Chavez. A América do Sul tem visto outros aprendizes de ditador, tem assistido ao corte crescente das liberdades, ao cantonamento das oposições (cuja inteligência política é inversamente proporcional ao amor ao poder e aos seus mais evidentes frutos) e à lenta edificação de um estado policial. Cá pelo burgo, parece que alguém terá achado que Chavez é o Messias da esquerda. A idade não perdoa, é o que é. Genericamente, os europeus vão dialogando com Chavez tanto mais que o seu petróleo é menos incerto que o da península arábica. Depois, quando acordarem, será tarde.

Não abandonemos este desamparado continente sem referir uma vez mais a infâmia que se representa nas florestas colombianas onde um partido “revolucionário” detém umas centenas de reféns. Desta vez há notícia da morte de uma série de políticos colombianos, que alegadamente terão sido vítimas das tropas governamentais. Digamos para já que, a ser verdade a autoria da tropa governamental, sempre haverá uma certeza: os reféns serviram de escudos humanos. Todavia, não é difícil imaginar que estas mortes se reduzem a meros assassínios de futuros opositores das FARC se e quando estas forem um partido político legal.

Um passeio agora por África, mais precisamente por um país que, custa dizê-lo registava ainda há uns dez, doze anos, alguns índices de prosperidade: o Zimbabwe. Convirá esclarecer algum leitor desatento que, desta banda, nunca se louvou o senhor Ian Smith um dos aliados racistas de um Portugal antigo que não para de renascer. O senhor Smith conseguira, todavia, criar um país com uma sólida economia agro-industrial, nas mãos dos brancos evidentemente. Os negros faziam de paisagem, de boys, de trabalhadores agrícolas como é costume. A estrutura económica que passou intacta para as mãos rapaces de Mugabe pospunha a manutenção das grandes fazendas, mesmo se nacionalizadas. A sua divisão arruinou os trabalhadores agrícolas das antigas fazendas, destruiu a exportação, substituindo-lhe uma economia de subsistência que nem isso chega a ser. O Zimbabwe tem fome. Fome como nunca teve num passado recente e infame. E tem uma ditadura que deve fazer empalidecer de inveja o velho Ian Smith hoje exilado no Cabo. Mugabe vai liquidando metodicamente os opositores políticos, negros desta vez, enquanto o pais soçobra no caos. A Europa torce-lhe o nariz mas os africanos recusam-se a condená-lo. E convenhamos que os ingleses também não o molestam demasiadamente. Ao que parece os mortos actuais já não comovem as consciências democráticas como há anos. A diferença deve ser esta: agora são os negros que matam os outros negros. Logo está tudo bem. Não há colonialismo.

Daqui até à Líbia vai um salto. Por cima do Darfur e do seu imenso desastre. Curiosamente, o meu primeiro sogro, Jorge Delgado ofereceu-me ainda nos anos 60 uma brochura sobre o Darfur, comprada na “Joie de Lire” do François Maspero. Um escândalo que dura vai para cinquenta anos já o não é. O que me admira é que ainda aí haja gente para morrer. Os pretos têm a pele dura, dizia-me um amigo também negro, angolano, assassinado pelos nitistas, em Angola. Teve sorte: provavelmente o MPLA também lhe trataria da saúde, mais tarde.

E a Líbia? Pois a Líbia é o que sempre foi: Kadafi um iluminado sentado em cima do petróleo (que tanta falta faz) continua a sua “revolução verde” (esta gentinha adora falar de revolução!) e faz-se rogar pelos ocidentais. Desta feita, é um processo kafkiano que me traz este personagem à caneta. Meia dúzia de enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano acusados de inocularem vírus mortais a umas centenas de crianças líbias, viram confirmadas pelo Supremo Tribunal as penas de morte. Agora, dizem os nossos jornais, resta apelar a Kadafi. O que vai ser feito, obviamente. Ou seja a campanha de branqueamento do cavalheiro entra numa fase superior, como se dizia nos velhos tempos de “análise concreta da situação concreta”. Vai uma apostinha em como ainda veremos Kadafi ser recebido como benfeitor da humanidade em Bruxelas?

Ou em Varsóvia, já agora e para terminar. Eu confesso que nada tenho contra os polacos, bem pelo contrario, adoro Chopin e fui principescamente recebido pelos meus amigos de Varsóvia quando, in illo tempore, fui visitar uns colegas do Direito Comparado. Detestei a atmosfera política, o medo, a pobreza, o desespero dos meus amigos, tanto quanto apreciei a gentileza deles, a cultura, a amizade demonstrada e a dignidade de um povo que não se submetia.

Que esse povo seja agora governado por uma parelha de gémeos abaixo de qualquer classificação é coisa que me consegue ainda espantar. É que a coligação que governa a Polónia e que ostenta aquelas duas criaturas à frente do Estado e do Governo não é sequer conservadora, mas retintamente reaccionária. Eu nem falo da homofobia, coisa que ainda conseguiria vagamente perceber dada a profunda religiosidade polaca que além do mais é um factor de unidade nacional e lhes permitiu sobreviver ao período soviético. Isto não significa que não condene as perseguições de rua e legais à minoria sexual, claro. Não consigo entender as leis sobre as provas de cidadania reiteradas à caça de antigos polícias, de colaboradores do antigo regime, de gente que se calou ou que não se manifestou (como se isso fosse possível!...). Actualmente o ambiente tem piorado: os gémeos não só se recusam a aplicar fartas doses de legislação comunitária como entendem chantagear a Europa, desenvolver uma campanha inaudita contra a Alemanha e tentar obter para o seu país (que entretanto assinou com uma mão distraída os tratados que agora alegremente pretende modificar a seu favor) condições de privilégio que nada fundamenta. Os manos Kakzinsky conseguiram o impossível: nomearam uma senhora mediadora para os direitos da infância cuja primeira missão foi despistar “a publicidade subliminal da homossexualidade nuns bonecos infantis – os teletubbies – porque um usava um saco vagamente feminino...

Uma Europa onde esta gente tem entrada não é só triste. É ridícula.

Espero que ao escrever isto num blog não esteja a infringir uma regra de ouro inventada por uma senhora Secretária de Estado que entende que o humor (aqui dolorosamente em falta, mas enfim...) sobre personalidades fica bem em casa, eventualmente numa rua escusa, na praia (se deserta) ou num campo de concentração. Esperemos que os blogs hoje tão na mira dos zelotas e dos filisteus entrem nessas categorias de inocência confirmada.    

24
Ago17

au bonheur des dames 418

d'oliveira

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De Espanha, bom vento

(mcr 24 Ago.17)

 

Leio no jornal que de Espanha vieram para Portugal mais de 500 militares e cerca de vinte aeronaves para combater os fogos.

E que esses militares, altamente treinados, andam por cá há dois meses. Que, logo que chegam aos locais onde são necessários se colocam às ordens dos bombeiros locais ou de quem superintende no combate às chamas.

Com eles terão vindo 128 veículos de combate a fogos

E que os meios aéreos (vinte) já fizeram mais de 1800 (mil e oitocentas) descargas no imenso braseiro em que o país está convertido.

Finalmente, que o tempo de voo destes aviões e helicópteros já ultrapassa as 525 horas.

No meio disto tudo, que é muito, que é extremamente generoso e solidário, que é profundamente europeu, há uns parlamentares (ou para lamentar(es)?) que manifestaram surpresa(!!!) e que terão declarado que há militares portugueses desagradados.

Uma pessoa lê e não acredita. Então há gente, e não pouca, competente que vem ajudar e aparecem uns imbecis que se queixam? Que se indignam? Que estão desagradados?

Os senhores militares portugueses que ainda há bem pouco provaram que nem sequer sabem guardar os seus paióis, queixam-se da vinda de uma unidade especialmente treinada para o efeito (coisa inexistente num país que, apesar de décadas de fogo, não tem vergonhosamente um corpo militar com as mesmas competências). É obra!!!

Em que raio de terra vivemos? Que raio de gente manda aqui? Como é possível alguém ficar surpreendido com uma presença tão expressiva (e tão útil) de quem nos vem ajudar? Que diabo de Ministério da Administração Interna temos que não informa (ao menos isso, já que no resto aquilo é um poço sem fundo)da chegada dos requisitados ajudantes?

Que nacionalismo bacoco e pacóvio assola essa gentinha surpreendida, indignada, desagradada que, pelos vistos prefere ver tudo reduzido a cinzas do que salvo por mão estrangeira? E mesmo o termo estrangeiro é discutível. Estamos na União Europeia e, por mero acaso, convém recordar que só temos um vizinho, a Espanha. A menos que se conte com o senhor Neptuno e o seu cortejo de sereias, tritões e, já agora, sardinhas, mesmo se em perigo de extinção.

Traduzindo isto em poucas palavras: andam por aqui muitos parvos e mal agradecidos. E –que chatice!- são incombustíveis!

 

*o título deste folhetim reporta ao velho brocardo: de Espanha nem bom vento, nem bom casamento.

Nem sempre a sabedoria popular está adequada ao momento que se vive.

23
Ago17

Estes dias que passam 360

d'oliveira

 

 

O comentador “comprometido”

 

por mcr  22.Ago.17

 

O dr. Marques Mendes viu-se alcandorado ao posto de comentador dos domingos na tv. Marcelo foi para outras e altas paragens, Mendes segue-lhe peugada, sabe-se lá se não sonha com Belém (Credo, Deus nos acuda, Santa Rita nos guarde).

Marques Mendes apareceu na política muito depressa e muito novo pela mão dos cavalheiros nortenhos do PPD. Foi deputado não sei quantas vezes, secretário de Estado, Ministro (e no meio disto tudo terá sido (e ainda é) advogado. Foi dirigente do PPD mas a memória desse conturbado tempo não parece brilhante ou imorredoira. De todo em todo, recordo que foi ele quem tentou pôr ponto final na carreira autárquica de Isaltino Morais. Falhou. Morais livre do partido e de Mendes ganhou redondamente a eleição e continuou a ganhar até dar com os costados na cadeia por, corrijam-me se estou em erro, lavagem de dinheiro e fuga aos impostos. Curiosamente, foi o primeiro político a ir para a cadeia e a cumprir pena.

Saiu e aí está de volta às lides e com fortes probabilidades de ganhar de novo Oeiras.

Não conheço Mendes nem tão pouco Isaltino. Não conheço e falece-me a vontade de os conhecer, mesmo se vários paroquianos de Oeiras me jurem que Isaltino fez um excelente lugar na presidência da Câmara. Provavelmente melhor do que Mendes no Parlamento ou nos Ministérios por onde passou...

Mendes, já o disse, exerce de comentador na TV. Às vezes pergunto-me se um Conselheiro de Estado deveria fazê-lo mas, pelos vistos, o que a mim me surpreende não incomoda ninguém.

Aos domingos, lá o vejo e oiço. Não que tal exercício penoso me seja grato ou que aproveite o facto para descontar nos meus pecados. É a minha mulher que comanda a televisão à hora do jantar pelo que não me resta alternativa viável. Depois, já suportei o piedoso professor Marcelo pelo que já tenho a pele curtida para o melífluo Mendes. Oiço-o entre duas garfadas e resmungo.

Desta feita, porém, Mendes foi longe. E mal. Já sabemos que não suporta Isaltino, logo ele (Mendes) homem pequenino que não consta ser bailarino. Isaltino, pelos vistos, ignora-o publicamente mesmo se em privado possa criticar o comentador.

Ora bem: Mendes, na sua última e untuosa prédica dominical veio dizer que Isaltino não deveria poder concorrer. Que o crime, cuja pena já cumpriu é grave; que, eventualmente, o Tribunal Constitucional –se fosse requerido – poderia condena-lo à inabilitação eleitoral. Que o senhor Paulo Vistas (ex-delfim de Isaltino e, agora, seu oponente, poderia ter recorrido para esse alto Tribunal e que não o fazendo fora generoso e cavalheiresco!

Eu começo por não perceber como é que um cavalheiro licenciado pela mesmíssima universidade que eu, entende que além da pena a que alguém foi condenado ainda lhe deveria acrescer a inabilitação eleitoral. Consultada a Constituição nada lá existe que preveja tal pena acessória. Nada! Ponto final, parágrafo.

Em segundo lugar, não vejo a razão especial para ser Vistas e não nenhum dos restantes candidatos a Oeiras (e serão no mínimo, meia dúzia) a recorrer para o TC.

Mendes ao referir (imprudentemente) Vistas parece estar a aceitar que o anterior despacho que inabilitava Isaltino (dado por um senhor juiz que, curiosamente, mudou de opinião quanto à fundamentação do despacho e que, também curiosamente é afilhado de casamento do senhor Vistas e que, finalmente e mais curiosamente ainda se oferecera vindo de Sintra para juiz de turno em Oeiras no período de validação das candidaturas...) beneficiava o ainda actual presidente da Câmara de Oeiras, directamente herdada de Isaltino...

Eu percebo, ou faço por isso, que o senhor dr. Mendes detesta Isaltino. Lá terá as suas (Boas ou más )razões. De todo o modo, o papel de comentador carece de uma certa altura (e isto não se refere ao tamanho de Mendes) de uma certa neutralidade e não pode, e muito menos não deve, transformar-se em propaganda eleitoral barata e feia contra Isaltino. Mas foi.

Mendes, praticamente, apelou ao TC e às forças partidárias, para que fosse defenestrado Isaltino. Já não recordo se avisou a audiência da sua particular condição de jurista mas esta é, apesar de tudo, conhecida.

Mendes tem todo o direito de pensar que a certos crimes de colarinho branco (que ele entende ser gravíssimos) se deveria aplicar uma pena acessória de inabilitação eleitoral (de dez anos pareceu-me ouvir).

Conviria recordar a Mendes que, por enquanto e até lei expressa, nenhum Tribunal pode aplicar penas não previstas. Isaltino já cumpriu pena. Pagou com prisão efectiva (efectiva!!!, recordo)e com uma valente multa a famosa evasão fiscal relativa a uns dinheiros depositados numa conta na Suiça.

Em Portugal, e até há bem pouco, os políticos ou não iam a julgamento ou não eram condenados, ou sendo-o a pena de prisão ficava suspensa. Aliás, tem havido penas de prisão suspensas por vários anos por crimes de similar gravidade e nunca vi Mendes condenar tal inércia de julgadores.

Uma amiga minha jura que “lhe saltou a tampa” queira isto dizer o que quer que seja. Ver um Conselheiro de Estado e um comentador (que creio regiamente pago) neste papel de cabo eleitoral ou de insofrida raiva é algo que me revolve as entranhas e me estraga a digestão. Mesmo se a coisa vem de Mendes criatura a que dou muito pouco crédito e que me faz,ai meu Deus!, ter saudades de Marcelo!!! (ao que cheguei!)

É claro que poderíamos dizer que estamos em Agosto, em plena silly season, mas mesmo assim...

É que, para terminar, pode ocorrer que esta intempestiva arenga de Mendes tenha um efeito devastador quer para candidatura de Vistas quer para a do PPD local. E que seja utilizada pelos apoiantes de Isaltino (e consta que foram mais de trinta mil os munícipes que o propuseram. Ou seja que na contabilidade das proposituras Isaltino arrecadou mais de metade das que foram publicitadas.) para reforçarem a aura de vitimização do seu candidato, coisa sempre exaltante num país que continua sebastianista.

11
Ago17

estes dias que passam 359

d'oliveira

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Enquanto a burrice não pagar impostos vamos ter mais

 

mcr

 

Joaquim Namorado, nome cimeiro dos neo-realistas, poeta, professor e agitador cultural em Coimbra nos anos 40-70, apresentou certa vez um projecto de Código Civil que ele considerava simples e eficaz. Tinha apenas um artigo e um parágrafo:

artº 1 e único: é proibido ser estúpido.

parº único: fica revogada toda a legislação em contrário

Convenhamos que a proposta era audaciosa mas razoável. E tanto mais razoável quanto, como sabemos, a falta de senso e cabecinha parece ser uma das mais estendidas características da nossa classe política.

Senão, vejamos o caso estridente das próximas autárquicas, limitando-nos ao Porto e a Oeiras.

No Porto, uma criatura surgida do nevoeiro espesso que o PPD teima em cultivar, entendeu contestar a candidatura de Rui Moreira por esta num cartaz ostentar a palavra partido (o nosso partido é o Porto).

Aquele pobre diabo entende que a palavra partido indicia que há um partido local (mesmo que se saiba que tal coisa não existe nem consta que seja permitida). Assim, uma forte maioria de cidadãos iria pôr a cruzinha no grupo independente no convencimento imbecil de que estava a votar em algo semelhante (credo!, cruzes!, canhoto!) a essa coisa chamada PPD. O segundo ponto da actual reclamação tem por base o facto de Rui Moreira aparecer em fotografia em toda a publicidade para os diferentes órgãos autárquicos.

Recordemos que Moreira muito antes de ser presidente da Câmara já era cem vezes (se calhar mil) mais conhecido que o abencerragem descoberto pelo PPD, um tal Álvaro Almeida que ninguém conhece nem sabe de onde terá surdido.

E, pimba, trabalhos para o Tribunal como se este não tivesse coisa melhor em que se ocupar. Eu espero, sinceramente espero, que seja possível fazer pagar fortemente este pedido tonto, esparvoado, atirando para cima do reclamante com uma taxa que, à falta de melhor, faça pagar pela estupidez.

(declaração de interesses: conheço vagamente Rui Moreira mas não troco com ele qualquer palavra há, pelo menos vinte anos. Todavia, votei nele, votarei nele quanto mais não seja para fugir ao xico-espertismo do PS (outra candidatura com slogan idiota: “fazer pelos dois”, parecendo com isso afirmar que o bizarro Pizarro faria sozinho o trabalho dele e de Moreira. Este Pizarro tem-se feito notar por impor candidaturas perdedoras em várias zonas da área metropolitana e goza da injusta fama de ter feito um bom lugar no pelouro que ocupou. Convém lembrar que, em tudo o que se refere a habitação facilmente se vê o dedo do arquitecto Manuel Correia Fernandes, mas isso é outro falar).

Relembre-se, pour mémoire, que, durante meses,o PS nem candidatura apresentava escudando-se numa extraordinária ideia de fazer parte da lista Moreira. Mais, fizeram disso gala e alguns dos seus mais destacados dirigentes referiram essa aliança como coisa certa e segura.

Quanto às restantes candidaturas ao Porto não vale a pena sequer perder tempo. São meros verbos de encher.

Passemos a Oeiras.

Neste concelho não há quem ignore o trabalho de Isaltino Morais, o prestígio de que (justa ou injustamente) goza. Isaltino, libertado depois de um período na prisão assaz único (normalmente aquilo dava pena suspensa mas parece ter existido a ideia de que era preciso dar o exemplo e Isaltino não era suficientemente forte para, graças a um partido, se defender. Estava fora do quadro partidário e isso enfraquecia-o e permitia uma condenação fácil a pena de prisão efectiva. Não estou a defende-lo mas tão só a dizer alto o que muitos, uma multidão, pensam baixinho).

A candidatura de Isaltino apresentou 37.000 assinaturas( o que só por isso lhe garante um dos primeiros lugares no prélio que se avizinha) e para a tirar de cena (juntamente com uma outra candidatura de uma ex-apoiante do senhor Paulo Vistas, ex-delfim de Isaltino) nada melhor do que um artificioso argumento: os assinantes (todos uns ignorantes, claro!) poderiam desconhecer que estavam a apoiar o seu candidato. É que, segundo o doutíssimo despacho do senhor juiz, deveria constar ao alto de cada folha de assinaturas a imensa lista de candidatos isaltinianos!!!

Passemos piedosamente por este extraordinário argumento que, há uns anos, e sob a pena do mesmo magistrado, tinha sido menosprezado!

Recordemos, entretanto que o senhor juiz ora em questão exerce o seu múnus em Sintra mas, oh novo milagre de Ourique, ou das rosas, ou da santinha da Ladeira!..., ofereceu-se , num gesto de grande generosidade e sentido do dever de cidadania, para estar de turno em Oeiras.

Exactamente em Oeiras, onde um seu padrinho de casamento se candidatava (sempre o fatal Vistas). O senhor juiz terá feito vista grossa a esse acaso mesmo se, ao que parece, habita enm Oeiras, onde sua mulher trabalha para a Câmara ora presidida por Vistas.

Relembremos ainda que nenhum juiz é obrigado a oferecer-se para estes turnos mesmo se, eventualmente, possa ter de ser obrigado a fazê-los. Relembremos também que este senhor juiz poderia ter escolhido outros três concelhos (Mafra, Cascais ou Sintra) para evitar caçar nas terras onde concorre alguém que é seu amigo, quase parente e, de certo modo, patrão da sua mulher.

Movido apenas pelo intuito de servir, de nada disto se lembrou o senhor juiz como também se não terá lembrado do que anteriormente decidira em caso idêntico. Mudar de opinião é, aliás, próprio do homem...

Como é que se descalça esta bota, esta enorme botifarra?

Não sei. De todo o modo, qualquer decisão que torne Isaltino (que não conheço, que me é mais indiferente do que o resultado das eleições em Jacarepaguá (Brasil, RJ) parecerá sempre uma chapelada ainda mais alucinante do que era costume no Portugal de antigamente.

Uma chapelada e uma vergonha!...

 

07
Ago17

estes dias que passam 358

d'oliveira

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Os ditamaduros

Uma inflação que vai acabar brevemente nos 1000%; 160 mortos em manifestações de rua em três meses (todos, aliás da “oposição”); uma histórica chapelada nas eleições da Assembleia Constituinte; 500.000 refugiados na Colômbia (números relativos a 20 de Julho pp);a prisão arbitrária como orática; centenas de presos políticos amontoados nas cadeias, sem processo, sem julgamento ou com julgamento sumário; um parlamento eleito privado de segurança e de poderes; uma procuradora geral expulsa do seu cargo por voto à mão levantada; milícias populares armadas ao lado da polícia para ameaçar, espancar, ferir, prender ou matar manifestantes; um repúdio internacional generalizado desde o Mercosul à União europeia passando pelo Vaticano; negativa de reconhecimento internacional dos novos orgãos legislativos eleitos; queda abissal da moeda nacional face ao dólar e ao euro (1 para 50.000!!!); hospitais sem medicamentos, sem sangue, sem sequer compressas; campos petrolíferos arruinados pela falta de peças, pela ignorância e pelo abandono dos mais qualificados; televisões, rádios e jornais encerrados, confiscados ou proibidos; acusações contínuas de terrorismo ou de traição contra quaisquer vozes desconformes; falta geral de mantimentos, mormente alimentação e fome generalizada em grandes sectores da população, especialmente na que se associa à oposição; corrupção generalizada; etc., etc....

Este é o actual retrato da Venezuela que foi, durante anos e anos, um país rico e próspero. Mais rico do que qualquer dos seus vizinhos, provavelmente o mais rico de toda a Ibero-América.

Não se pretende fazer crer que tudo corria no melhor dos mundos. Não corria, havia pobres, havia subúrbios onde se vivia mal e amontoadamente, sem condições de qualquer espécie (exactamente como hoje acrescentando agora o deficit de esperança). Houve ditaores e golpes de Estado, democracia musculada políticos corruptos. Também havia partidos, coisa que agora fora algo que soa a “bolivariano” não existem senão clandestinamente. E é bom recordar que o próprio Hugo Chavez também deu uma perninha no “golpe de estado”, mesmo que depois chegasse ao poder por eleições mais ou menos democráticas. Da mesma espécie das últimas legislativas que, apesar de todos os entraves, foram ganhas pela oposição ao chavismo, (per)versão Maduro. Todavia, nunca a Venezuela se viu perante uma crise tão violenta, um cenário tão assustador e um futuro tão desolador.

Perante tudo isto que faz o PCP. Absolve o poder ditatorial que se vai instalando (com ajuda e treino de especialistas cubanos) e declara o governo venezuelano “democrático”, legítimo e progressista, decretando por outro lado que a oposição chafurda no banditismo, no capitalismo (esta nunca falha) e no proto-fascismo (idem, aspas.

E avisa o Governo Português (que internamente apoia com duas mãos à falta de mais) que seguir a opinião mais que prudente da União Europeia faz perigar a situação da comunidade portuguesa e luso-descendente instalada na Venezuela. A falta de decoro deste aviso atinge as raias da indecência quando se sabe que já há na Madeira cerca de quatro mil refugiados; que na passada semana vários portugueses foram feridos em manifestações; que desde há meses que estabelecimentos comerciais portugueses, mormente padarias, foram assaltados e saqueados. As ameaças à comunidade portuguesa são constantes e inclusivamente vistas na televisão. Aliás, já o não serão, pelo menos em estações portuguesas dada a proibição de entrada de jornalistas portugueses poucos dias antes da caricatura de eleição deste domingo.

Sobre tudo isto, o silêncio do PCP é de oiro. Como de oiro é qualquer opinião (ou falta dela) sobre a ideologia “bolivariana”, arremedo velho e revelho de outras absurdas teses nacional-ditatoriais em voga nos piores anos da “violência” latino-americana. O PCP sempre lesto em criticar o que ele considera como desvio á justa linha marxista-leninista, consegue dar uma prodigiosa cambalhota ao louvar um punhado de tolices que só a cabeça de Maduro poderia evacuar.

Não que esta posição, arrebatada e para uso externo, seja uma novidade. Não é muito antiga uma curiosa opinião de um dirigente do PCP (Bernardino Soares) que “pessoalmente não tinha dúvidas de que na Coreia do Norte não existisse democracia”). Convém lembrar que a criatura foi deputado durante vinte anos, líder da bancada mais de dez e membro da Comissão Política. Também é licenciado em Direito!...

À falta da boa e velha União Soviética, até a Coreia ou esse escárnio vivo chamado Maduro, servem para ilustrar e defender a boa causa.

Estamos servidos.

De verdade e de democracia!

 

 

03
Ago17

Au bonheur des dames 417

d'oliveira

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Morrer em Agosto, que desperdício!... 

 

Aos 89 anos eis que se vai Jeanne Moreau que eu tanto admirei e, mais ainda, desejei. Suponho que a vi pela primeira vez em “Eva”, um excelente filme de Joseph Losey, na altura expatriado na Europa devido à perseguição movida contra actores, argumentistas e realizadores (para não falar de escritores e outros intelectuais) levada a cabo pelo senador Mc Carthy e pelo famigerado Comité de Actividades Anti-americanas (acho que era assim que se chamava. Já agora: McCarthy acabou por ser ignominiosamente varrido da cena depois de um jornalista ter descoberto e publicado toda a infame teia de mentiras e abusos de que ele se serviu para levar a cabo a sua medonha tarefa. )

Depois vi-a em “Ascenseur pour l’echafaud” (música sublime de Miles Davis), “Jules et Jim”, e mais uns quantos, entre os quais um que persigo há anos ( Badaladas da meia noite, Orson Welles. Há por aí alguém que tenha uma cópia ou me diga como o poderei encontrar?), “Uma mulher é uma mulher” (Godard), “A noite” (Antonioni) etc...

Guardo, intacto, o enlevo pelas suas extraordinárias qualidades de actriz, pela voz (extraordinária) e pelos silêncios que diziam mais que mil palavras. Moreau nunca se limitou a um registo, antes era capaz de drama como de comédia (não sei porquê mas tenho ideia dela num filme com Darry Cowl que era divertidíssimo) como por exemplo em “Viva Maria”.

Além do mais, JM tinha carácter, personalidade, inteligência a rodos. Sabia bem o que queria (para ela e para os outros com quem se sentia solidária) e não fazia fretes ao poder.

 

Relembremos agora Sam Shepard, dramaturgo americano, autor de uma extensa obra (destaco “Crónicas Americanas”) , actor e guionista de cinema de que relembro “Paris Texas”. Venceu o Pulitzer com “Buried Child” e foi um dos mais emblemáticos nomes do teatro “off-off Broadway”. Shepard tinha uma escrita poderosa, simples e, ao mesmo tempo, poética o que lhe grangeou bastante notoriedade como “escritor de culto”, coisa que provavelmente nunca quis ser. De certo modo, foi mais aclamado fora da América do que no seu próprio país. Provavelmente, os leitores europeus fascinavam-se com a sua “americanidade” eventualmente invisível aos olhos dos seus concidadãos.

Para os dias que correm, morreu cedo vitimado pela implacável esclerose lateral hemiotrófica, um mal que não perdoa.

Ficamos, todos, (muito) mais sós.