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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

11
Ago17

estes dias que passam 359

d'oliveira

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Enquanto a burrice não pagar impostos vamos ter mais

 

mcr

 

Joaquim Namorado, nome cimeiro dos neo-realistas, poeta, professor e agitador cultural em Coimbra nos anos 40-70, apresentou certa vez um projecto de Código Civil que ele considerava simples e eficaz. Tinha apenas um artigo e um parágrafo:

artº 1 e único: é proibido ser estúpido.

parº único: fica revogada toda a legislação em contrário

Convenhamos que a proposta era audaciosa mas razoável. E tanto mais razoável quanto, como sabemos, a falta de senso e cabecinha parece ser uma das mais estendidas características da nossa classe política.

Senão, vejamos o caso estridente das próximas autárquicas, limitando-nos ao Porto e a Oeiras.

No Porto, uma criatura surgida do nevoeiro espesso que o PPD teima em cultivar, entendeu contestar a candidatura de Rui Moreira por esta num cartaz ostentar a palavra partido (o nosso partido é o Porto).

Aquele pobre diabo entende que a palavra partido indicia que há um partido local (mesmo que se saiba que tal coisa não existe nem consta que seja permitida). Assim, uma forte maioria de cidadãos iria pôr a cruzinha no grupo independente no convencimento imbecil de que estava a votar em algo semelhante (credo!, cruzes!, canhoto!) a essa coisa chamada PPD. O segundo ponto da actual reclamação tem por base o facto de Rui Moreira aparecer em fotografia em toda a publicidade para os diferentes órgãos autárquicos.

Recordemos que Moreira muito antes de ser presidente da Câmara já era cem vezes (se calhar mil) mais conhecido que o abencerragem descoberto pelo PPD, um tal Álvaro Almeida que ninguém conhece nem sabe de onde terá surdido.

E, pimba, trabalhos para o Tribunal como se este não tivesse coisa melhor em que se ocupar. Eu espero, sinceramente espero, que seja possível fazer pagar fortemente este pedido tonto, esparvoado, atirando para cima do reclamante com uma taxa que, à falta de melhor, faça pagar pela estupidez.

(declaração de interesses: conheço vagamente Rui Moreira mas não troco com ele qualquer palavra há, pelo menos vinte anos. Todavia, votei nele, votarei nele quanto mais não seja para fugir ao xico-espertismo do PS (outra candidatura com slogan idiota: “fazer pelos dois”, parecendo com isso afirmar que o bizarro Pizarro faria sozinho o trabalho dele e de Moreira. Este Pizarro tem-se feito notar por impor candidaturas perdedoras em várias zonas da área metropolitana e goza da injusta fama de ter feito um bom lugar no pelouro que ocupou. Convém lembrar que, em tudo o que se refere a habitação facilmente se vê o dedo do arquitecto Manuel Correia Fernandes, mas isso é outro falar).

Relembre-se, pour mémoire, que, durante meses,o PS nem candidatura apresentava escudando-se numa extraordinária ideia de fazer parte da lista Moreira. Mais, fizeram disso gala e alguns dos seus mais destacados dirigentes referiram essa aliança como coisa certa e segura.

Quanto às restantes candidaturas ao Porto não vale a pena sequer perder tempo. São meros verbos de encher.

Passemos a Oeiras.

Neste concelho não há quem ignore o trabalho de Isaltino Morais, o prestígio de que (justa ou injustamente) goza. Isaltino, libertado depois de um período na prisão assaz único (normalmente aquilo dava pena suspensa mas parece ter existido a ideia de que era preciso dar o exemplo e Isaltino não era suficientemente forte para, graças a um partido, se defender. Estava fora do quadro partidário e isso enfraquecia-o e permitia uma condenação fácil a pena de prisão efectiva. Não estou a defende-lo mas tão só a dizer alto o que muitos, uma multidão, pensam baixinho).

A candidatura de Isaltino apresentou 37.000 assinaturas( o que só por isso lhe garante um dos primeiros lugares no prélio que se avizinha) e para a tirar de cena (juntamente com uma outra candidatura de uma ex-apoiante do senhor Paulo Vistas, ex-delfim de Isaltino) nada melhor do que um artificioso argumento: os assinantes (todos uns ignorantes, claro!) poderiam desconhecer que estavam a apoiar o seu candidato. É que, segundo o doutíssimo despacho do senhor juiz, deveria constar ao alto de cada folha de assinaturas a imensa lista de candidatos isaltinianos!!!

Passemos piedosamente por este extraordinário argumento que, há uns anos, e sob a pena do mesmo magistrado, tinha sido menosprezado!

Recordemos, entretanto que o senhor juiz ora em questão exerce o seu múnus em Sintra mas, oh novo milagre de Ourique, ou das rosas, ou da santinha da Ladeira!..., ofereceu-se , num gesto de grande generosidade e sentido do dever de cidadania, para estar de turno em Oeiras.

Exactamente em Oeiras, onde um seu padrinho de casamento se candidatava (sempre o fatal Vistas). O senhor juiz terá feito vista grossa a esse acaso mesmo se, ao que parece, habita enm Oeiras, onde sua mulher trabalha para a Câmara ora presidida por Vistas.

Relembremos ainda que nenhum juiz é obrigado a oferecer-se para estes turnos mesmo se, eventualmente, possa ter de ser obrigado a fazê-los. Relembremos também que este senhor juiz poderia ter escolhido outros três concelhos (Mafra, Cascais ou Sintra) para evitar caçar nas terras onde concorre alguém que é seu amigo, quase parente e, de certo modo, patrão da sua mulher.

Movido apenas pelo intuito de servir, de nada disto se lembrou o senhor juiz como também se não terá lembrado do que anteriormente decidira em caso idêntico. Mudar de opinião é, aliás, próprio do homem...

Como é que se descalça esta bota, esta enorme botifarra?

Não sei. De todo o modo, qualquer decisão que torne Isaltino (que não conheço, que me é mais indiferente do que o resultado das eleições em Jacarepaguá (Brasil, RJ) parecerá sempre uma chapelada ainda mais alucinante do que era costume no Portugal de antigamente.

Uma chapelada e uma vergonha!...

 

07
Ago17

estes dias que passam 358

d'oliveira

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Os ditamaduros

Uma inflação que vai acabar brevemente nos 1000%; 160 mortos em manifestações de rua em três meses (todos, aliás da “oposição”); uma histórica chapelada nas eleições da Assembleia Constituinte; 500.000 refugiados na Colômbia (números relativos a 20 de Julho pp);a prisão arbitrária como orática; centenas de presos políticos amontoados nas cadeias, sem processo, sem julgamento ou com julgamento sumário; um parlamento eleito privado de segurança e de poderes; uma procuradora geral expulsa do seu cargo por voto à mão levantada; milícias populares armadas ao lado da polícia para ameaçar, espancar, ferir, prender ou matar manifestantes; um repúdio internacional generalizado desde o Mercosul à União europeia passando pelo Vaticano; negativa de reconhecimento internacional dos novos orgãos legislativos eleitos; queda abissal da moeda nacional face ao dólar e ao euro (1 para 50.000!!!); hospitais sem medicamentos, sem sangue, sem sequer compressas; campos petrolíferos arruinados pela falta de peças, pela ignorância e pelo abandono dos mais qualificados; televisões, rádios e jornais encerrados, confiscados ou proibidos; acusações contínuas de terrorismo ou de traição contra quaisquer vozes desconformes; falta geral de mantimentos, mormente alimentação e fome generalizada em grandes sectores da população, especialmente na que se associa à oposição; corrupção generalizada; etc., etc....

Este é o actual retrato da Venezuela que foi, durante anos e anos, um país rico e próspero. Mais rico do que qualquer dos seus vizinhos, provavelmente o mais rico de toda a Ibero-América.

Não se pretende fazer crer que tudo corria no melhor dos mundos. Não corria, havia pobres, havia subúrbios onde se vivia mal e amontoadamente, sem condições de qualquer espécie (exactamente como hoje acrescentando agora o deficit de esperança). Houve ditaores e golpes de Estado, democracia musculada políticos corruptos. Também havia partidos, coisa que agora fora algo que soa a “bolivariano” não existem senão clandestinamente. E é bom recordar que o próprio Hugo Chavez também deu uma perninha no “golpe de estado”, mesmo que depois chegasse ao poder por eleições mais ou menos democráticas. Da mesma espécie das últimas legislativas que, apesar de todos os entraves, foram ganhas pela oposição ao chavismo, (per)versão Maduro. Todavia, nunca a Venezuela se viu perante uma crise tão violenta, um cenário tão assustador e um futuro tão desolador.

Perante tudo isto que faz o PCP. Absolve o poder ditatorial que se vai instalando (com ajuda e treino de especialistas cubanos) e declara o governo venezuelano “democrático”, legítimo e progressista, decretando por outro lado que a oposição chafurda no banditismo, no capitalismo (esta nunca falha) e no proto-fascismo (idem, aspas.

E avisa o Governo Português (que internamente apoia com duas mãos à falta de mais) que seguir a opinião mais que prudente da União Europeia faz perigar a situação da comunidade portuguesa e luso-descendente instalada na Venezuela. A falta de decoro deste aviso atinge as raias da indecência quando se sabe que já há na Madeira cerca de quatro mil refugiados; que na passada semana vários portugueses foram feridos em manifestações; que desde há meses que estabelecimentos comerciais portugueses, mormente padarias, foram assaltados e saqueados. As ameaças à comunidade portuguesa são constantes e inclusivamente vistas na televisão. Aliás, já o não serão, pelo menos em estações portuguesas dada a proibição de entrada de jornalistas portugueses poucos dias antes da caricatura de eleição deste domingo.

Sobre tudo isto, o silêncio do PCP é de oiro. Como de oiro é qualquer opinião (ou falta dela) sobre a ideologia “bolivariana”, arremedo velho e revelho de outras absurdas teses nacional-ditatoriais em voga nos piores anos da “violência” latino-americana. O PCP sempre lesto em criticar o que ele considera como desvio á justa linha marxista-leninista, consegue dar uma prodigiosa cambalhota ao louvar um punhado de tolices que só a cabeça de Maduro poderia evacuar.

Não que esta posição, arrebatada e para uso externo, seja uma novidade. Não é muito antiga uma curiosa opinião de um dirigente do PCP (Bernardino Soares) que “pessoalmente não tinha dúvidas de que na Coreia do Norte não existisse democracia”). Convém lembrar que a criatura foi deputado durante vinte anos, líder da bancada mais de dez e membro da Comissão Política. Também é licenciado em Direito!...

À falta da boa e velha União Soviética, até a Coreia ou esse escárnio vivo chamado Maduro, servem para ilustrar e defender a boa causa.

Estamos servidos.

De verdade e de democracia!

 

 

03
Ago17

Au bonheur des dames 417

d'oliveira

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Morrer em Agosto, que desperdício!... 

 

Aos 89 anos eis que se vai Jeanne Moreau que eu tanto admirei e, mais ainda, desejei. Suponho que a vi pela primeira vez em “Eva”, um excelente filme de Joseph Losey, na altura expatriado na Europa devido à perseguição movida contra actores, argumentistas e realizadores (para não falar de escritores e outros intelectuais) levada a cabo pelo senador Mc Carthy e pelo famigerado Comité de Actividades Anti-americanas (acho que era assim que se chamava. Já agora: McCarthy acabou por ser ignominiosamente varrido da cena depois de um jornalista ter descoberto e publicado toda a infame teia de mentiras e abusos de que ele se serviu para levar a cabo a sua medonha tarefa. )

Depois vi-a em “Ascenseur pour l’echafaud” (música sublime de Miles Davis), “Jules et Jim”, e mais uns quantos, entre os quais um que persigo há anos ( Badaladas da meia noite, Orson Welles. Há por aí alguém que tenha uma cópia ou me diga como o poderei encontrar?), “Uma mulher é uma mulher” (Godard), “A noite” (Antonioni) etc...

Guardo, intacto, o enlevo pelas suas extraordinárias qualidades de actriz, pela voz (extraordinária) e pelos silêncios que diziam mais que mil palavras. Moreau nunca se limitou a um registo, antes era capaz de drama como de comédia (não sei porquê mas tenho ideia dela num filme com Darry Cowl que era divertidíssimo) como por exemplo em “Viva Maria”.

Além do mais, JM tinha carácter, personalidade, inteligência a rodos. Sabia bem o que queria (para ela e para os outros com quem se sentia solidária) e não fazia fretes ao poder.

 

Relembremos agora Sam Shepard, dramaturgo americano, autor de uma extensa obra (destaco “Crónicas Americanas”) , actor e guionista de cinema de que relembro “Paris Texas”. Venceu o Pulitzer com “Buried Child” e foi um dos mais emblemáticos nomes do teatro “off-off Broadway”. Shepard tinha uma escrita poderosa, simples e, ao mesmo tempo, poética o que lhe grangeou bastante notoriedade como “escritor de culto”, coisa que provavelmente nunca quis ser. De certo modo, foi mais aclamado fora da América do que no seu próprio país. Provavelmente, os leitores europeus fascinavam-se com a sua “americanidade” eventualmente invisível aos olhos dos seus concidadãos.

Para os dias que correm, morreu cedo vitimado pela implacável esclerose lateral hemiotrófica, um mal que não perdoa.

Ficamos, todos, (muito) mais sós.

03
Ago17

missanga a pataco 83

d'oliveira

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Pergunta inocente

 

Foi regulamentada por decreto a gestação de substituição ou seja a possibilidade de um casal infértil poder pedir a ajuda de uma mulher para gerar o futuro filho daquele.

O decreto estabelece inequivocamente a absoluta gratuitidade da gestação a cargo da gestante substituta.

Do ponto de vista dos princípios isto parece óbvio. Mas, na prática, como é que será?

Alguém de bom senso acredita que vão aparecer por aí mães de substituição à borla?

Alguém acredita que o casal que deseja filhos não pague, se tal for exigido pela gestante?

Ou estaremos perante mais uma lei “para inglês ver”?

Não me abono no cinismo corrente e contemporâneo mas, desculpem lá, não acredito nisto. E vocês?

(mcr 4-8-17)

01
Ago17

Au bonheur des dames 415

d'oliveira

Irmãos siameses

ou

os mistérios da internet segundo um ignorante atestado

(por mcr, 1/8/17)

 

Comecemos pelo princípio, como dizia um imortal professor da Faculdade de Direito de Coimbra

O imortal, aqui, é mera retórica: todos os ilustres lentes daquela vetusta universidade são imortais ou, pelo menos, assim parecem. Com dois queridos e desaparecidos amigos, atempadamente prófugos dos “Gerais”, criámos, numa noite especialmente copiosa em libações, a teoria do “professor perpétuo” que finalmente apenas consistia nisto: os cavalheiros que chegavam à cátedra estavam amaldiçoados e nunca morriam mas tão somente encarnavam sucessivamente noutros corpos e continuavam a usar a sua sanha medonha contra os inocentinhos que imprudentemente cruzavam a “porta férrea” para adquirir algumas luzes. Mais tarde, forneci ao Nuno Brederode, outra imensa saudade!, esta teoria e ele prometeu-me (em pleno café Monte Carlo) propagandeá-la naqueles extraordinários escritos que lhe admiramos. Deve, porém, ter-se esquecido ou ainda estarão sob a vaga forma – informe – de rascunho à espera de mão inteligente e piedosa que os reúna, estude e edite.

Voltemos, todavia, à vaca fria, ou seja ao princípio. E este é assim: entrei neste blog pela mão amável de um par de cavalheiros que imprudentemente acreditaram nos meus imaginários dotes literários. Não sei o que lhes deu nem como chegaram a tão bizarra conclusão mas a verdade, verdadinha, é que me convidaram a espedaçar a gramática e a lógica com uns “dazibaos” que me iam ocorrendo.

Começou assim a carreira bloguística de mcr, vai para mais de dez anos. Algum tempo depois, sussurrei à extraordinária almirante Kami(kaze) o nome do meu compadre e quase alter ego d’Oliveira, companheiro de aventuras e loucuras (e algumas agruras...) desde a nossa comum infância na praia de Buarcos, nas escolas da mesma gloriosa terra, na mata de Sotomaior e em mais de mil outras ocasiões, Caxias incluída.

Durante muitos e bons anos, lá fomos a par e passo, publicando o que nos vinha à cabeça. D’Oliveira, aconselhado por mim, adaptou a numeração dos seus textos sob um título geral comum, alegadamente para traçar uma rota reconhecível pelo menos temporalmente. Como eu, volta e meia, perdeu-se na numeração, coisa fácil de ocorrer para quem usa mais de um computador. Ou é aselhice nossa e comum, ou, de facto, nem sempre um computador diferente “entende” a numeração. Para evitar alguma piedosa piada dos leitores, ambos convimos que o defeito é nosso, absolutamente nosso.

O tempo foi decorrendo pacificamente, o blog mudou de site e, até há bem pouco, qualquer leitor poderia verificar a quem pertenciam os textos, mesmo se os já referidos títulos gerais (ou etiquetas) fossem suficientemente indicativos pelo menos para os heroicos frequentadores que ainda se atrevem a ler-nos.

Todavia, há um ou dois meses atrás, um de nós deve ter tocado por erro absoluto nalguma tecla difícil e, subitamente, o nosso ordenado mundo de fronteiras bem estabelecidas ruiu. Sem se saber como, e sem qualquer golpe de d’Oliveira tudo o que escrevíamos (e que já tínhamos escrito!!!) lhe passou a pertencer. Recorremos ao Pedro Neves, salva vidas de bloggers azarados ou ignorantes do SAPO, e e ele lá arranjou meia solução. Os textos passaram todos (!!!) a ser meus. Não o consegui convencer a criar um esquema de partilha igual ao anterior. E d’Oliveira passou a publicar “à minha boleia”. Era natural dado que a preguiça dele é muito superior à minha.

Porém, este (pouco satisfatório) estado de coisas voltou a alterar-se há alguns dias. E d’Oliveira regressou enquanto eu (mcr) desaparecia pelo cano.

Convenhamos que a coisa (“situação desesperada mas não grave” como dizia alguém) não assume uma especial importância. Nem é causa de zanga, desavença, mau humor entre dois “pobres homens de Buarcos” que se estimam e respeitam vai para um largo par de décadas.

Mas é irritante!

Por isso, e só por isso, lá terei de recorrer ao pacientíssimo Pedro Neves, se é que ele não estará de férias a torrar-se sob algum sol ameno, cercado de loiras voluptuosas ou morenas sensuais, sendo que alguma delas, ou todas em sucessão, está de serviço a um imenso leque abanando-o para que essa pequeníssima brisa lhe torne a passagem pela praia mais amena. E tem de ser assim pois é mais que sabido que, ao sol, as neves (mesmo se com um Pedro atrás) derretem-se mais depressa do que o fogo consome meio pinhal.

Decidi, entretanto, estabelecer aqui, para memória futura, a listagem dos títulos gerais (etiqueta etcs) que fui perpetrando. Ei-los (não sei se todos...): au bonheur des dames; estes dias que passam; o leitor (im)penitente; farmácia de serviço; expediente; o gato que pesca; tudo a bombordo, chateado no calabouço, a gata que pesca, etc...

D’Oliveira, por seu lado, assinou sempre “diário político” e “a varapau”.

Os dois, copiando com mais audácia do que qualidade a parelha Eça e Ramalho, entretivemo-nos numa série chamada “missanga a pataco”.

Dantes, qualquer leitor mais ousado ou mais inconsciente (ou mais desvairado e menos ocupado) podia ir ao blog e, encontrando, os botões correspondentes a estes títulos, podia apanhar a série toda. Assim acontecia no antigo poiso de incursões. (blogspot. qualquer coisa). Agora tal possibilidade requer entrada no texto, procurar a etiqueta no fim, ou seja uma maçada de todo o tamanho.

Baralhando e resumindo: até melhor altura os textos sob a etiqueta “diário político” são da autoria de d’Oliveira.

Todos os restantes (e fundamentalmente o leitor (im)penitente; au bonheur des dames; estes dias que passam) continuam a ser escritos por mcr.

 

01
Ago17

Diário político 217

d'oliveira

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Mais venezuelano que isto só no finado Reich de mil anos

Uma criatura dada, ao que consta, à sociologia, entendeu dever defender o inqualificável regime venezuelano nas páginas do “Público”. O jornal, na sua ansia de respeitabilidade e de independência, dá lugar a todos os plumitivos mesmo aos que, como é o caso, defendem a prisão arbitrária (e na Venezuela a coisa além de comum, frequente é abundante), a repressão policial (já quase nem se contam os feridos e os presos nas manifestações mesmo se o número de mortos (de mortos, reparem bem) já ultrapasse a centena, o ataque às instituições, mormente ao parlamento eleito há pouco mais de um ano, seja o que se sabe.

Na Venezuela, os proventos do petróleo servem para pagar pinguemente os polícias, os militares, as milícias e fornecer uma espécie de refeições aos sequazes do regime. O resto, a maioria, que se aguente. Nos hospitais falta tudo, a inflação ronda os 800%, faltam os produtos mais básicos no mercado e não se passa um dia sem que uma população inerme mas desesperada não proteste, arriscando a liberdade e a vida. Na Colômbia já passa de meio milhão o número de refugiados. Ainda ontem, o governo colombiano(o mesmo que conseguiu fazer a paz com a guerrilha, estendeu o direito de permanência sem limite de tempo a essas centenas de milhares de pessoas que assolados pela fome e pela ameaça passa as fronteiras.

Tirando Cuba, beneficiária de generosas doações de petróleo, não há país latino americano que abone aquele ridículo mas perigoso ditador de pacotilha herdeiro do falecido Chavez, inventor duma delirante ideologia “bolivariana”. O “bolivarianismo” é um cocktail de velhas ideias todas mais ou menos radicais que fizeram a desgraça da América Latina e a glória de uma pequena multidão de generais e caciques corruptos, incultos e ignorantes.

O senhor (presumo) professor ou ex-professor em Coimbra atreve-se a dizer que de fora da Venezuela chovem medonhos ataques contra a democracia cristalina defendida por Maduro e sequazes. A palavra democracia neste arauto da tirania grotesca que assola um país que poderia ser próspero, rico e tranquilo, parece a de um émulo daquele Scaramucci que durou dez dias na Casa Branca. No afã de defender o indefensável, o sociólogo coimbrão mostra até que ponto pode descer um “intelectual” fascinado pelo fanatismo ideológico, pela moda dos radicalismos cada vez menos operantes naquela parte do mundo.

Por muito menos, infinitamente menos, Antero qualificou um intelectual do seu tempo como “esgoto moral”.

Maduro, o herói do embevecido “sociólogo” faz Trump parecer um democrata inteligente e um político tolerante. A que miserável ponto chegámos!

Depois de mais uma facecia eleitoral, em que pouco mais de dois milhões de eleitores votaram, ainda não se conhece país, decente ou menos decente, que aprove esta caricatura de democracia. Mais, são já numerosos os governos que declararam não reconhecer esta fraude chamada eleição da assembleia constituinte, fuga para a frente de um regime iníquo, criminoso e opressor.

Sabe-se, aliás, e socorro-me, entre outros, de “Le Monde” que boa parte dos votantes compareceram mais por temor de serem excluídos (ainda mais excluídos) dos favores do regime do que por convicção. As ameaças de Maduro, hoje mesmo postas já em execução com a prisão de dirigentes da posição recentemente saídos dos calabouços onde vegetavam há anos cumprindo penas enormes por “conspiração”, “traição” e outras acusações aberrantes são um sinal de que as coisas vão piorar. Com o aplauso do liberticida de Coimbra, espera-se, adivinha-se...

(é propositadamente que se não nomeia a criatura ora posta em questão. Uma pessoa, mesmo condenando, não deve sujar a metafórica folhinha de papel em que escreve nomeando-a. De resto, e desde há muito, desde sempre, aliás, a criatura mostra o que vale. Desde um passado de assistente no tempo em que estes só entravam nesse grupo depois da aprovação dos poderes da altura, até um lamentável livrinho de versos tudo concorria para tornar a personagem risível. Todavia, isto, o artigo no Público, ultrapassa todas as (más) espectativas que a vaidade e o desejo de se mostrar poderiam suscitar. O homenzinho não presta. Não presta e, como uma espécie de Midas da fossa, transforma em merda tudo o que toca).

d'Oliveira fecit,  1 Agosto 2017  

 

 

19
Jul17

au bonheur des dames 414

d'oliveira

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Antes que seja tarde

 

Não costumo ouvir o meu antigo colega José Miguel Júdice que comenta os assuntos da semana numa das televisões só de notícias. Não que despreze as suas opiniões mas apenas porque nessa hora costumo estar atento a outras emissões.

Conheci o JMJ na Faculdade, embora seja mais velho. Depois, os azares da sorte e a uma tremenda dose de cabulice aliada a outras e mais interessantes ocupações (desde o Teatro à política, passando por algumas pequenas maçadas prisionais), fizeram-nos cruzar. Não é segredo para ninguém que JMJ era um dos melhores arautos da Direita mais retinta. Já será menos sabido que eu navegava em águas muito, muitíssimo diferentes. Por isso, durante anos foi nulo o nosso contacto, só activado depois em algumas reuniões de curso.

Sempre tive o hábito de tentar perceber o pensamento dos nossos (ou dos meus) adversários políticos e Júdice servia perfeitamente. Era (é) inteligente, sabia comunicar e não tenho dúvidas que, além de bom profissional, era (é) uma pessoa culta.

É verdade que o tempo, e os azares do mundo, modificou muito as opiniões de quase toda a gente. Isso e a idade ensinam mais do que a universidade. Continuo, pois, a tentar saber o que Júdice, hoje bem menos radical, pensa e diz. Ele e outros. Mas ele é o motivo do folhetim de hoje.

De facto, Júdice, observou que com a surpreendente mudança de opinião sobre a eventual futura localização da Agência Europeia do Medicamento, o Porto justo escolhido corre, todavia, um sério risco e, ao mesmo tempo, iliba o Governo de quaisquer responsabilidades na candidatura.

A AEM é desejada, ardentemente desejada, por meia dúzia de metrópoles europeias. Algumas estão muito perto do centro da UE ou, pelo menos melhor posicionadas geograficamente que o Porto.

Por outro lado, mesmo que não seja fundamental, há que ter em linha de conta com a vontade das centenas de funcionários deste departamento europeu. E nesse campeonato, o Porto não só fica depois de Lisboa mas, sobretudo, depois de algumas cidades emblemáticas e concorrentes (Paris, Berlin, Amsterdão, Viena ou mesmo Barcelona e Copenhaga, entre outras).

Por isso, foi fácil desistir de Lisboa onde, aliás, já se albergam duas instituições europeias circunstância que não ajudava nada.

Atirar a candidatura para o Porto pode ser visto de dois modos. Um, um favor ao candidato Pizarro que se arrogou rapidamente da falsa primazia no protesto.

Outro, no caso bastante provável de se perder, atirar com as culpas dessa perda para as exigências “provincianas” e bairristas do Porto.

Confesso que a coisa já me aflorara as cansadas meninges. Todavia, não lhe dei a devida importância, tanto mais que nunca pensara que o Governo poderia fazer marcha atrás e oferecer à “Invicta” a oportunidade de se candidatar a sede da AEM.

As únicas vantagens do Porto é ser esta cidade mais barata do que qualquer concorrente, ter um aeroporto internacional, ser de pequena dimensão (dentro dos seus limites) ao mesmo tempo que é capital de uma região poderosa e de outra ainda mais expressiva (contando com a Galiza aqui ao lado).

Portanto, caro Rui Moreira, aconselho muitas cautelas e caldos de galinha. Isto de contar com sapatos de defunto ou com o ovo no cu da galinha tem muito que se lhe diga e pede (suponho que V foi velejador) muito navegar à bolina e calma, montes de calma. Para desgraças já bastam estes campeonatos todos sem ganhar coisa que se veja.

Quando a esmola é farta, o pobre deve desconfiar.

De todo o modo boa sorte. Era bom para todos, para o Porto, para o Norte e para o país esta vinda da AEM. Por uma vez o Brexit poderia ser-nos útil a nós que, há séculos, andamos a apanhar as migalhas que os “bifes” nos deixam.

18
Jul17

au bonheur des dames 413

d'oliveira

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Por aqui e por ali

 

1 Leio com estupefacção que os cinco comandantes provisoriamente exonerados em Tancos foram de novo nomeados para os mesmos cargos. Tinham sido afastados para “não perturbar as averiguações internas” (sic). Desconhece-se se, neste tão curto prazo (17 dias), as famosas averiguações tiveram qualquer resultado, exceptuando as judiciosas declarações do senhor CEMGFA sobre a diminuta importância económica do roubo e sobre a irrelevância das armas desaparecidas!

Uma outra consequência dessa “exoneração provisória” foi, sem dúvida alguma, lançar poeira aos olhos do cidadão e afastar as pertinentíssimas suspeitas sobre o papel do CEME e do senhor Ministro que continua a passear a sua impotência política e a sua surpreendente teoria sobre o que é a responsabilidade política. De todo o modo, S.ª Ex.ª está politicamente morto e bom seria que a, bem da higiene pública, lhe fosse passada a respectiva certidão de óbito enviando-o para lugar mais adequado.

Resta deste folhetim escabroso apenas, e a meus olhos maldosos e anti-patrióticos, a “honra perdida” ou simplesmente beliscada dos cinco coronéis agora repostos no seu lugar. Repostos mas humilhados e fragilizados. De tudo isto salvam-se dois generais que publicamente recusaram o silêncio. Apenas dois! E agora, que irão fazer os cinco renovados comandantes? Fingir que tudo não passou de um pesadelo “de uma noite de Verão”?

2 Os fogos continuam. Melhor: agora é que a coisa começa mesmo a aquecer. Agosto, o temido Agosto, está à porta, a seca é extrema, o calor mantem-se. Volta e meia, regressa o SIRESP. Antes era o “fogo posto”. Agora, mais tecnologicamente, temos que o SIRESP tem falhas. Pelo menos, no dizer da “comunicação social” que se espoja deleitada na descrição das catástrofes. À passagem de um mês do fogo de Pedrogão, eis que as televisões se atiraram de novo aquela zona sinistrada. Não conseguiram dizer nada de novo. Por junto, surpreendiam-se com a lentidão dos auxílios como se fosse possível em curtas semanas começar a erguer casas, fazer plantios, limpar os destroços etc...

O SIRESP serve agora de cortina de fumo para a crudelíssima realidade: a inércia e a inoperância das acções de prevenção. A ideia que os incêndios se combatem depois de começarem tem destas resultados. Mais meios aéreos, mais meios terrestres, mais bombeiros, a tropa, novos comandantes da proteção civil, muita discursata, muito palavrório e as medonhas chamas a rirem-se disso tudo. E, é verdade, uma senhora Ministra constante num lugar que, reconhecidamente, é bastamente superior aos seus talentos. Mais um cadáver político à espera de pio enterro. R.I.P.

 

3 Parece que o Governo se entendeu com o Bloco de Esquerda sobre a redução da área de plantação de eucalipto. Por acaso, agora, um dos fogos ceva a sua fúria não em eucaliptos, fonte de todo o mal, mas em áreas de pinheiro bravo No entanto, não convém recordar isso. Não é politicamente correcto dizer que a floresta arde naturalmente; que a floresta não cuidada arde constantemente; que já ardia, mesmo quando o interior era habitado nas áreas de pinhal.

Sou um mero cidadão curioso e não um perito sem floresta, longe, muito longe, disso. Porém, corrijam-me se estou enganado, tenho ouvido dizer (e tenho lido) que a área de eucalipto pertencente às papeleiras não arde. Ou arde muito pouco. Porque há ordenamento na plantação, sapadores florestais e prevenção a sério.

Mesmo assim, corrijam-me de novo, não há eucaliptal suficiente para as papeleiras que, por isso, importam trinta por cento (ou mais) da matéria prima. Isto pode querer dizer (notem as minhas precauções) que, se diminuem a área de eucalipto, aumentam consequentemente as importações. Ou diminui o fabrico de pasta de papel. Se assim for, das duas uma: ou se reduz o emprego fabril nas celuloses ou as fábricas terão de enfrentar custos maiores o que só pode ter uma de duas consequências: alta de preços e eventual perda de mercado ou pressão para aumentar a competitividade e redução de emprego.

Também levaria a minha desvairada curiosidade a uma pergunta simples: que é que o BE, tão amante da natureza e do interior, propõe para onde não se plante eucalipto? Casinhas brancas à portuguesa com pão e vinho na mesa? Pastagens (não esquecer que para isso é preciso pastores)? Outras espécies florestais de crescimento rápido?

4 Os nacionais populistas andam num frenesi. A PT, que durante anos foi um escândalo, está a ser alvo de um piratagem efectuada pela sua proprietária (Altice). Consta que estão a ser mudados de lugar funcionários. Pergunta inocente: houve despedimentos? Resposta para já: Não.

Os mesmos fervorosos defensores da apropriação pública e estatizante de empresas, não querem que a Altice, sempre essa empresa fatal, compre a TVI e respectivos satélites. Afirmam que isso irá criar um monopólio. Há que tempos que não ouvia esta palavra! (culpa da queda do Muro e do falecimento sem glória da URSS. Às vezes a falência de um sistema tem destas consequência semi-semânticas...)

Vejamos por partes: A Altice, no que toca aos serviços de tv por cabo, jura que tem o dobro dos trabalhadores das duas concorrentes. A ser verdade (e na PT tudo era possível até esta ligeira estravagância) parece normal e conveniente que haja um esforço para poder ser concorrencial sobretudo se não houver despedimentos.

No que respeita à compra da TVI, a pergunta que se faz é esta: qual é a diferença entre a Altice (francesa) e a Prisa (espanhola) e anterior proprietária? Será que PC, BE e Costa são iberistas?

Por outro lado, sendo a TVI uma emissora privada (parece que é a que conta com maior audiência) será que só agora se percebeu isso e, aqui del rei!, há que nacionalizá-la? Não chegam a RTP 1, 2, 3, Internacional, África, Açores, Madeira, sei lá que mais que se arrastam à custa do contribuinte a fingir de serviço público? O público, esse ingrato, prefere as estações concorrentes, sobretudo a TVI. Não acham que se devia castigar esses anti portugueses e anti patriotas?

(digo isto porque, como bom traidor impenitente, quase não vejo as tv nacionais mas, antes e sobretudo, a TV5, algumas de língua inglesa, a TVE, os noticiários da RAI, a ARTE e os canais onde correm as séries policiais. E de quando em quando, o canal Holywood, os canais temáticos e, muito, muitíssimo, o canal Mezzo. Da emissão nacional só os canais de notícias em continuo. E bonda! )

A Altice é, agora, o novo monstro, o novo Cabo das Tormentas, dos nacionais-populistas.

Perderam-se (alguém perdeu, nanja eu) a EDP, as seguradoras, os bancos, a ANA, e o que não se perdeu andamos a pagá-lo pertinazmente com língua de palmo (os Banifs, os BPP, os BES, os BPNs, a CGD . – o que já se sabe e o que mais tarde ou mais cedo se saberá- enfim toda essa banca rota que nos há de desgraçar por muitos e maus anos). Nada disto é importante, ninguém quer saber. Agora é Altice de um tal Drahi que está a dar.

Lamentavelmente, não houve tempo para se assistir ao estoiro da PT comprada ainda antes de se poder ver como é que o Titanic foi ao fundo.

Pessoalmente, estou-me nas tintas para a Altice mas, enquanto cidadão, arreceio-me destes gargarejos nacionalizadores dos cavalheiros do costume. A História tem-nos ensinado o que sucede quando acontecem as nacionalizações sempre a favor do Povo com letra grande e sempre a serem pagas pelo povo com letra pequena. A diferença é que o primeiro constitui a clientela predileta do PC e do BE enquanto o segundo engloba os paisanos todos ou, pelo menos, os paisanos que pagam impostos. E eu não quero pagar (mais do que já paguei) a PT, a TVI e o que por arrasto pode vir. E não sou solidário de gente que foi desnecessariamente empregada por cunha, por clientelismo político, na PT. Pelos vistos fizeram pouco ou nada. Mas ganharam o seu dinheirinho enquanto o nosso fluía para sabe-se lá onde.

É para o que estamos...

 

 

19
Jun17

Estes dias que passam 355

d'oliveira

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“A morte neste jardim”

(enterrar os mortos e cuidar dos vivos)

As imagens (muitas vezes sensacionalistas) que gulosamente as televisões repetem vezes sem conta, deviam fazer-nos reflectir. Como é que, num país onde Verão após Verão, se sucedem as chamas, as mortes, a ruína dos mais pobres, dos mais velhos e dos mais distantes, ninguém atenta nesta horrenda verdade: gastamos em combate aos incêndios mais (muito mais, várias vezes mais) do que Espanha, França, Itália ou Grécia.

Todavia basta reparar nas imagens: mato por todo o lado, floresta desorganizada, estradas e caminhos, bem como as casas, paredes meia com as árvores. Basta uma chama e vai tudo. Sabemos disto desde há décadas. O interior perde gente, antigas terras agricultadas ficam baldias e selvagens, quem resta investe em eucaliptos e pinheiros, numa desordem que agora cobra um alto preço. Sessenta e um mortos! Para já. Mas é infelizmente previsível que esta macabra contagem continue a registar progressos. Há desaparecidos, as frentes de fogo continuam activas, o calor não baixa, o vento continua a soprar com força, a humidade atmosférica está em níveis baixíssimos.

E o Verão ainda nem começou...

De quem é a culpa? Vai, mais uma vez, morrer solteira? Desta feita não há incendiários, desculpa muitas vezes fácil e esfarrapada que oculta as falhas políticas de todos, Governo, autarquias, pequenos proprietários rurais, proprietários absenteístas ou emigrantes. Não há prevenção que se veja. Ou seja, quando, desde há muito, era imperioso ordenar a floresta, criar leis que o permitissem, punir quem não limpa os seus pinhais e florestas, tornar as estradas nacionais seguras sem barreiras de sombra e de árvores (nunca esquecer que boa parte das vítimas morreu na estrada em fuga, em pânico, perdidas pessoas e bens). Quem ficou teve melhor sorte: até ao momento, pese a angustia, o medo, a desolação, ainda está vivo.

Quem viaja por esse interior intensamente florestado, repara na falta de “estradões” corta fogo. Basta ir a Espanha para ver como se faz. Quem passa pelas matas ordenadas pertença das grandes papeleiras, vê que aí tudo ou muito, ou alguma coisa, se fez para prevenir o incêndio. Prevenir é melhor, é mais barato, é mais futurante do que remediar.

Cada vez se gasta mais em aviões, em helicópteros, em equipamento pesado de bombeiros, em formação. Desgraçadamente, graças a um conjunto dramático de coincidências, tudo isso se mostrou inoperante.

Parece que não há guardas florestais! Parece que nada ou pouco regulamenta as plantações ou simplesmente o que lá está. Grande parte da floresta nacional portuguesa desapareceu sendo substituída pelas plantações rápidas desde o pinheiro ao eucalipto. Que ardem com facilidade, como se vê. De resto, a floresta arde, sempre ardeu, especialmente a mediterrânica. Temos de viver com isso, aliás vivemos com isso há centenas ou milhares de anos. Mas, pelos vistos, não aprendemos nada. Durante séculos a floresta era protegida pelos rebanhos, pelas pessoas que iam por mato para camas dos animais, para aquecimento. Agora não há pessoas, o aquecimento faz-se a gás e os rebanhos são escassos. A erva cresce, seca, torna-se combustível sem mais. E arde.

Agora, o tempo é de choro e de apelos à solidariedade (de todos) e à coragem dos que perderam tudo, para não falar dessa outra quase certeza: daqueles que, durante os próximos três meses irão perder terras, casas, gados, bens, parentes e amigos.

Lamentavelmente, se acaso a selecção se safa, este desastre passará para um plano mais opaco. Se, ao menos, estes primeiros dias de apelos se traduzirem numa ajuda razoável às vítimas sobrevivas, já teremos um milagre mesmo se o verdadeiro auxílio seja a inflexão das políticas da floresta, milagre dos milagres, quase impossibilidade teórica e prática.

Senão... as árvores voltarão a crescer (sobretudo os eucaliptos que convivem com o fogo) a desordem continuará viva e alegremente irresponsável, os estradões ficarão no papel, os guardas florestais brilharão pela ausência, os bombeiros voltarão a receber mais equipamento e as mortes seguramente repetir-se-ão. Como a frágil comoção pública e o dedo apontado aos incendiários (parece que alguém teria pensado numa espécie de prisão preventiva domiciliária dos eventuais ateadores de fogos!!!)

 

Nas reportagens que fui vendo, dois destaques: as televisões repetiam continuamente as mesmas imagens e as mesmas entrevistas numa ânsia de gastar tempo e ganhar audiências.

Vários populares afectados pelos incêndios entenderam queixar-se dos bombeiros (nove ou dez deles já feridos e hospitalizados) que não os ajudavam a salvar os parcos bens, a casa, o terreno. Nem sequer percebiam que os bombeiros tinham uma missão bem mais dura, mais perigosa e mais urgente: salvar todos, circunscrevendo o avanço do fogo. As televisões adoraram estes queixosos, deram-lhes a palavra sem perceber a verdadeira missão de quem informa sobre um desastre medonho e que é não ceder ao fácil, à demagogia e ao egoísmo. Mas isso seria pedir demais aos repórteres no “terreno”, não acham?

 

* O título do folhetim pertence a Luís Buñuel que para este filme (1956) requereu Simone Signoret e Charles Vanel.

O subtítulo pertence ao Marquês de Pombal. Era um déspota, um ambicioso, um parvenu mas também soube ser eficaz. Por vezes, demasiado “eficaz”...

 

 

16
Jun17

Au bonheur des dames 410

d'oliveira

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Estamos bem melhor e há muitos anos

 

No “Público” há hoje uma reportagem sobre os efeitos benéficos do Erasmus. Não tenho quaisquer dúvidas sobre isso, basta-me ver o que se passa com uma série de familiares jovens que, ao contrário da minha geração, puderam conhecer mundo sem perder os contactos académicos e por preço acessível.

Sou de um tempo em que viajar ficava caro, caríssimo e estava absolutamente fora do alcance de quem era jovem. Nesses tempos longínquos nem sequer era ainda concebível a primeira revolução ni turismo jovem, o “inter-rail”.

Todavia, apesar disso, dessa dificuldade quase absoluta de viajar, para já não falar dos custos e da possibilidade de ter passaporte (coisa que nos anos de guerra 1961-1974 era quase milagrosa), tive a enorme sorte de poder viajar. E nesse viajar incluo a ida para Moçambique quando tinha 13 anos. Tirando a língua, tudo era diferente, maior, menos convencional, menos (muito menos, pelo menos para os “europeus”) pobre. Até o liceu que frequentei tinha uma característica inédita nos anos 50. Era misto. Melhor dizendo, era misto no 3º ciclo, mas a zona das raparigas só se separava da dos rapazes por um largo pátio central.

Quando regressei à pátria madrasta (à “metrópole”) para acabar o liceu e fazer a universidade pude dar-me conta do fosso que três anos em África representavam. Numa palavra era bem mais cosmopolita do que os meus colegas. Com o passar dos anos, além de ter voltado para férias em Moçambique, comecei a poder viajar pela Europa. A Espanha, a França, a Bélgica e depois a Itália, a Alemanha a Holanda e por aí fora. Claro que, seguindo uma palavra de ordem de Jorge Delgado, um sogro que foi um pai, um amigo, um mentor e um camarada, dispus-me a ir a todo o lado desde que pudesse passar por Paris. Mais tarde, estendi a ideia a Berlin, Roma e Amsterdão. Quando conheci Nova Iorque, foi como se regressasse a casa. Só em Paris, graças ao Lagardére (Paul Féval), ao Vitor Hugo, aos Mosqueteiro (saravah, querido Alexandre Dumas, homem livre e combatente pela liberdade) e a um punhado de franceses mais, tive idêntica sensação. Calcorreava as ruas desde o 1ª ao 7º bairros e tudo me falava a velhas aventuras, lidas desde que me lembro de ler. Que emoção andar pela re Tournon e saber que ali vivia d’Artagnan e, mesmo ao lado, Athos ou Porthos. Acho que, ainda hoje, conheço melhor Paris que Lisboa ou o Porto. Em Veneza, discuti cinema, o velho cinema dos anos 40/5o com um punhado de locais que não acreditavam que existisse um portuga capaz de se recordar (e citar) “Não há paz entre as oliveiras” ou “Arroz amargo”, filmes do enorme Giuseppe de Santis que hoje está tão (mal) esquecido. Em Pescara, ofereci a uma florentina, linda como os amores e ourives, “Portogallo mio remorso” de Alexandre O’Neil numa tradução belíssima de Joyce Lussu que, depois descobri ser mulher de Emilio Lussu, grande dirigente de “Giustizia e Libertá”, várias vezes preso, exilado (inclusive em Portugal) e autor de um livrinho (Teoria da Insurreição”) que nos anos sessenta me impressionou fortemente. Andei 30 anos à procura do livro e quando desesperava (já nem era citado no catálogo da editora Einaudi) consegui-o num alfarrabista italiano encontrado na internet.

Destas viagens trouxe quilos, quintais, toneladas de livros que me habituaram a ler no original centenas de autores. Isso, a curiosidade, a vontade de perceber, fizeram-me ainda mais europeu mesmo se a minha costela da praia de Buarcos, nunca me permitisse esquecer este amaldiçoado rincão tão maltratado pelos seus indígenas, tão descuidado pelos seus políticos e tão sofrido pelos menos afortunados que buscam sob sois menos clementes ou menos brilhantes o pão nosso de todos os dias.

Cosmopolita, pois, mesmo se a tal condenado pelos anos de chumbo. A liberdade vinha de fora, o conhecimento também. Hoje, e era a isso que eu vinha, os vinte anos do programa Erasmus estão em vias de criar uma elite universitária, mais livre, mais disposta conhecer o outro, a reconhecer-se nele, a ver o estrangeiro como um vizinho.

Durante os meus tempos de estudante de “Direito Comparado”, conheci umas     centenas de colegas vindos de toda a Europa (só não havia, et pour cause, russos ou chineses!)e, em menor grau, de outras partes do mundo. Foi nessa amável e gloriosa época que, um alemão me confidenciou que nunca poderia fazer a guerra contra outros povos. Porque os conhecia, através de nós, colegas e amigos, aprendizes bem dispostos de um par de regras de convivência jurídica internacional.

O medo, a estranheza pelo estrangeiro vencem-se pelo convívio, pela tentativa por vezes torpe de falar outra língua, de entender o que nos tentam dizer. Na primeira vez que pisei a Grécia, soltei as duas únicas palavras que sabia, kalimera e/ou kalinicta (– não garanto a grafia.) isso para dizer bom dia ou boa noite, palavras ensinadas por um chef de mesa de um restaurante chinês (!), aqui do Porto.

Foi uma alegria: uma inteira família, que digo?, um clã de gregos guinchou de prazer, cobriram-me de palavras e antes que eu conseguisse dizer que era português já circulavam numa improvisada mesa vinho, azeitonas, pão, queijo e uns tomates comoventes de saborosos. Aquele improvisado ágape (palavra grega) durou horas de conversas impossíveis, risos, cantigas, muita gesticulação. Adoptaram-me, claro, e vi alguma Grécia pelos olhos e companhia deles, orgulhosos de se mostrarem e mostrar uma terra que, ao fim e ao cabo é de nós todos, europeus. Nem a uma missa escapei e a dois baptizados. Descobri que o pope do lugar comia como um abade lusitano dos velhos tempos. E bebia como dois cónegos dos nossos, dos de antigamente. Em boa verdade nem àágua dizia não. Também é verdade que a misturava com um vinho escuro, espesso, oleoso que a mim me soube a papel de música. Ou então já estava também bem servido e melhor bebido.

O Erasmus é o modo mais rápido, mais barato e mais inteligente de criar cidadãos portugueses europeus. Cai na idade de todos os espantos, da aventura possível, da novidade e dos amores de Verão (ou de qualquer outra estação, convenha-se, que a “juventude é”, como afirmava, certeiro, Ruben Dario, outro cosmopolita, “um divino tesouro”).