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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

estes dias que passam 516

d'oliveira, 19.01.21

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Os dias da peste (2ª série) 155

A mediocridade perigosa

mcr, 19 de Janeiro de 2020

As contas de hoje são horrendas. Mais de duzentos mortos! Mais de dez mil infectados! É o descontrolo absoluto. Portugal, o tal “bom aluno” da primavera passada, mostra-se tal qual é. Pior que quase todos (EUA ou Brasil incluídos). Um desastre.

Alguém é responsável. Não basta atirar para cima dos passeantes imbecis (que ninguém multou!) as culpas todas. Há aqui falha total das autoridades, do Governo, do Ministério da Saúde, da DGS.

A balda popularucha do Natal deu no que deu. Os que mandam correm atrás do desastre e uivam desculpas (ou nem isso) de mau pagador. Mentem despudoradamente quanto à colaboração com os privados. Durante meses, a criatura que se esganiça como responsável pela saúde foi destilando o seu pobre veneno ideológico quanto ao banimento dos “comerciantes da saúde”.

Foi secundada alegre e estouvadamente por quantos fingem defender o SNS deixando-o isolado na trincheira contr o covid. É que não basta pedir mais meios quando não há profissionais para os utilizar (é, por exemplo. o caso dos intensivistas que demoram anos a ser formados).

Ainda por cima, sabe-se que vários “comerciantes da saúde” cederam material, enfermarias e trataram doentes com covid.

Mesmo neste momento, ainda não está clarificado o recurso às 15.000 farmácias que poderiam ser úteis na vacinação. 15000 farmácias a dez vacinados dia dá numa semana de cinco dias 750.000 vacinados! Num mês 3 milhões!!! Sem bicha!

Deixemos para outra lide este gravíssimo assunto que hoje, à hora das notícias, alguém aparecerá para explicar o inexplicável. Eu não peço o impossível. Tão só números que estejam na média da UE. E não no dobro ou no triplo!...

O segundo escândalo da semana (e ver-se-ão as consequências daqui a dias...) é a imensa bicha de votantes antecipados. Havia 200.000 inscritos pelo que fácil seria arranjar um sistema que prevenisse afluências demasiadas a cada mesa de voto.

Nada disso. Houve pessoas que disseram estar na bicha há mais de duas horas!!!

Quantas terão desistido?.

Quantas, à vista do que aconteceu, desistirão até domingo?

Que farsa eleitoral é esta? Que faz essa coisa chamada CNE, se é que faz alguma coisa além de receber os emolumentos respectivos ao fim do mês?

Andaram por aí uns esclarecidos a zoar que não havia tempo para adiar a eleição como se fosse algo de terrível o adiamento. Um “inteligente” no “Expresso”, de seu nome Delgado Alves, explica o inexplicável. Atira para o caixote do lixo a hopótese mesmo remota do voto por correspondência, justifica sem olhar a gastos a recolha individual de votos de confinados obrigatórios e nos lares mas, por outro lado, jura que não há hipótese de ”alocar meios “ para fórmulas alternativas. Enfim quem quiser rir-se (ou chorar) que o leia que não há pachorra para o citar mais.

Eu, que voto desde os tempos da outra senhora quando houve uma abébia para votar contra o Governo da altura (já aqui falei disso recentemente) tenho, neste momento, e perante o que se vai sabendo, uma fortíssima dúvida.

Não acredito nas precauções sanitárias e menos ainda na virtude da redução de 1500 para 1000 votantes por mesa. No sítio onde costumo votar há mais de uma dúzia de mesas e a minha é a dos velhos mais velhos e relhos.

Com o bicharoco à espreita não me parece prudente nem, muito menos, saudável meter-me ao barulho. Enfim terei tempo para pensar e quatro dias para conhecer as médias de infectados e mortos.

Entendo, porém, que dos partidos e sobretudo do PS, PC e PSD deveria desde já haver um público e claro compromisso de discutir o voto por correspondência. Relembro a estes “pilares da democracia” que nos EUA foi o voto por correspondência que rebentou com a praga trampista. E, já agora, que este voto poderia minorar a taxa de abstenção que é medonha. Duvido que seja preciso muito para o fazer. Não percebo bem porque é que isto, a admissibilidade do voto por correspondência teria de depender de uma revisão constitucional. Mas admitindo que sim, qual seria o problema de fazer um revisão minimalista a tempo de apanhar as eleições que se seguem? Ou pensarão estas luminárias que o virus desaparece assim tão depressa?

Só me lembro de uma desculpa (de mau pagador): há gente, partidos que tem medo de dar voz aos eleitores. Como, por exemplo, de aprovar a votação uninominal de deputados... mesmo se houvesse, a posterior,i uma correcção estilo lista nacional ou votação para uma segunda câmara. Já repararam que somos um dos raros países europeus unicamaral? Será que a Itália, a Espanha, a França ou a Alemanha são burros e anti-democratas? Quem souber que responda

* na vinheta: sala do Senado em S Bento.

estes dias que passam 515

precedente perigoso

d'oliveira, 19.01.21

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Os dias da peste (2ª série) 154

Precedente perigoso

mcr, 18 de Janeiro de 2021

A criatura que amanhã sairá da Casa Branca andou quatro anos a inundar as redes sociais de mentirolas, gabarolices, injúrias e ameaças. Tudo numa linguagem grosseira, imprópria de um vulgar cidadão quanto mais de um presidente dos EUA. Pode dizer-se que estabeleceu um precedente aviltante, indecoroso e... perigoso.

Esta sinistra e obscena farsa durou quatro anos e só terminou quando se tornou mais que evidente mesmo à miopia das redes sociais que o seu autor perdera as eleições.

Nessa altura, e só nessa altura, convém acentuá-lo, éque as redes, que o tinham acolhido sem reservas, entenderam que os vitupértios trumpistas ultrapassavam todas as barreiras!... E vá de cortar-lhe o acesso.

Mesmo que eu respeite o salutar e higiénico gesto de varrer a merda para a fossa, gostaria de lembrar que o acto libertador contende com a liberdade de expressão.

É verdade que esta liberdade, absolutamente fundamental e intrínseca à democracia, não deveria ser usada para mentir, conspurcar, enganar ou animar a insurreição contra as instituições democráticas como de resto ocorreu.

Também é verdade que o twiter, o facebook e restantes redes são instituições privadas que não dependem dos poderes públicos pelo menos directamente.

No entanto a dúvida põe-se: tivesse o detestável Trump ganhado a eleições teriam as redes procedido da mesma maneira? Será que o facto de serem privadas lhes permite sem mais nem menos cortar o acesso a um cliente inscrito? E sob que critérios? É que este Donald, que não é o honrado pato da nossa infância mas tão ó um mentiroso contumaz e um político inábil e malcriado, andou todos estes anos a conspurcar as redes sociais sem que estas se dessem por achadas ou indignadas.

Cortar a palavra é sempre um acto de censura e deveria, pelo menos, ser precedido de avisos, de correcções inseridas no texto em causa. Isso terá ocorrido algumas vezes, bem poucas, aliás, sem quem na generalidade afectasse a mensagem de ódio e mentira.

Na América, não são poucas as vezes em que uma correcção de algo errado voe directamente para o exagero e para o impensável. Ainda há pouco o #me too” ou mesmo o #black lives matter # movimentos cuja intrínseca justiça é inegável, resvalaram para mais uma perseguição às bruxas ou para um excesso de violência que permitiu resposta dura e pior de movimentos racistas e xenófobos endógenos.

Por cá, numa versão imbecil e anti-histórica quem pagou as favas foi o padre António Vieira, personagem que eventualmente teria sangue africano mas sobretudo defendeu os indígenas brasileiros, Basta ler o que escreveu.

Claro que os pobres e acéfalos vândalos que pintaram a sua estátua (de notório mau gosto, diga-se) nunca leram Vieira, nunca sequer terão sabido quem ele foi mas bastou-lhes alguém soprar o vento agoirento para se atirarem à estátua.

Do mesmo modo, e neste preciso momento, andam por aí duas candidatas que se dizem de Esquerda a pedir não só a cabeça dum tonto arrivista político mas sobretudo a alanzoarem proibições extraordinárias de um partido que, segundo o Tribunal Constitucional, é legal.

E é bom lembrar que começando pela proibição desse ajuntamento, se acaba por atacar o Tribunal que o permitiu, a Constituição que nos governa e a liberdade tout court.

Poder-se-á dizer que uma dessas criaturas nunca soube o que era viver sob o Estado Novo e que a outra também só o conheceu nos seus estertores e que boa parte do seu currículo de resistente se deve ais excessos alegadamente revolucionários de um copcon que tentava com o seu exacerbado activismo post 25 de Abril encobrir o passado pouco saudável da grande maioria dos seus dirigentes que durante bastante tempo executaram zelosamente a política da “velha senhora”.

Recordo, como se fosse hoje, aqueles dias que mediaram o 25 A e os que imediatamente o continuaram. De um momento para o outro surdiram à crua luz do dia dezenas, centenas de milhares de anti-fascistas de toda a vida que até 24 estiveram calados como ratos, que mal viam um suspeito de “politicamente suspeito” (segundo a definição da polícia política) logo mudavam de passeio e assobiavam para o lado. Isto quando não denunciavam apressadamente um vizinho ou, pelo menos, lhe negavam ajuda.

Infelizmente, uma lei imbecil tornou impossível consultar o arquivo dos denunciantes, dos colaboradores da polícia e do antigo regime. E dos que viviam confortavelmente, dos que assinavam toda e qualquer declaração política a renegar ideologias anti governamentais para agarrar um lugarzinho na funçanata pública.

Alguém viu os magistrados que nos tribunais políticos ou nos de polícia condenavam os manifestantes, os militantes, os suspeitos de pensar mal, serem sequer apontados? Alguém viu os militares, que nas colónias toleravam ou apoiavam a pide na caça aos negros, serem sequer incomodados? E por aí fora....

E por hoje, basta que as estatísticas da mortandade são terríveis.

E um livro: Camus, qualquer obra deste genial autor. Qualquer! Para se perceber quão estreito, mas quão excelente, é o caminho da opinião livre e sem alcavalas ideológicas.

*na vinheta: máscara Kumu (ou Komo ou Bukumu), República Democrática do Congo, 27x16, madeira, pigmentos variados de cor, pintados com a ponta dos dedos, datação: 1ª metade do século XX. Proveniente de uma colecção alemã, pode mesmo ser anterior ao final da 1ª Guerra mundial. Não há qualquer razão para a inclusão desta gravura excepto o facto de ser a mais recentemente adquirida e de ue gostar dela..

Estes dias que passam 514

d'oliveira, 17.01.21

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Os dias da peste 153

Domingo, que domingo?

mcr, 17 de Janeiro

Há dias propensos à melancolia, sei lá por que razão. Ou mesmo por que sem razão. O dia está frio, um griso de cortar a respiração e altamente benéfico para a bicheza que ronda por aí.

Eu, pus o nariz fora de cada, de manhã cedinho para ir pelo jornal e, na passada, aviar um café no supermercado. Cliente único, claro que os passeantes e não hão de ser poucos ainda estão em vale de lençóis.

O café vem da máquina mas é servido em copo de plástico. E para tomar no exterior.

Isto significa que durou menos de dez minutos a minha saída da toca. Já em casa, no quentinho, veio-me à memória um verso do António Rebordão Navarro, lido seria eu caloiro, em Coimbra: “domingos com chuva e bandeiras ao vento”

Seria assim? A memória é traiçoeira e nem sequer sei onde li isto, mesmo que quase jure que foi num jornal. Um contemporâneo meu , mais velho, ficou de me apresentar o ARN que seria estudante voluntário mas nunca foi possível.

Conheci-o, finalmente, no Porto, um pouco como colega e, sobretudo, como amigo. Ele oferecia-me os seus romances com um sorriso aberto e requeria crítica imediata, mas eu baldava-me mesmo se entendesse que naquela obra razoavelmente extensa havia pepitas. Encontrávamo-nos muito em vernissages pois a mulher do António era dada à pintura e, convenhamos que nem era má ilustradora. Nunca vi alguém tão apaixonada e admiradora do marido como a Maria Virgínia que morreu estupidamente atropelada numa rua do Porto. O António ficou bastante ferido e passou meses no Alcoitão em reabilitação.

Nunca ficou a 100% mas continuava a ser um frequentador de tudo o que tinha a ver com cultura. A sua paixão era tal que legou a casa em que viveu sempre à Associação Portuguesa de Escritores. Um intelectual e um homem de bem.

Tudo isto por causa de um domingo de sol e frio de rachar. E por via de um verso que sou incapaz de reproduzir decentemente e, pior, de me lembrar onde o terei lido. Seria na revista fundada pelo pai e em que ele colaborou fartamente, e que se chamava “Bandarra”? Quando se vai adiantado em anos, quando se é velho, começamos a dar por nós cercados de um exército de sombras, de fantasmas, numa vaga saudade e com remorsos de não termos honrado aquelas amizades tanto quanto deveríamos.

Agora, com a pandemia, começa a cercar-nos uma ameaça cada vez mais presente.

Ontem telefonou-me o Manuel Vitorino um alucinado pelo cinema e pelo jornalismo agora reconvertido em passeador solitário que papa quilómetros bem mais do que eu avio metros. Bom companheiro, folgazão, metemo-nos em vários carnavais de que o MES não foi o menos divertido. O Manuel foi jornalista e agora deu-lhe para comer quilómetros à pata. Até já foi a Santiago! Arre que raive e que inveja.

Enquanto me ffalava ao telefone, arfava pois já ia numa boa dúzia de quilómetros. “Exercício físico”, explicou-me. Exercício, o tanas e o badanas! Andava mas é a enganar o confinamento e não foi caso ´único. Mas foi bom ouvir a voz desse velho companheiro de discussões infindáveis sobre tudo e sobretudo sobre cinema. Se isto passa, teremos que nos juntar para umas horas de um bom papo.

Até lá, cuida-te, Manel que ainda tens Roma e Jerusalem para visitar . à pata evidentemente...

Estes dias que passam 513

d'oliveira, 16.01.21

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Os dias da peste, 152, 2ª série

Segundo dia

mcr, 16 de Janeiro

Onde vivo o confinamento parece ser a regra. Pelo menos é o que vejo. Bem sei que levantando-me cedo e saindo pouco depois para a compra do jornal, posso perder essas anunciadas multidões de que as redes sociais falam.

Hoje, pelas dez e pouco cruzei-me com duas pessoas à porta da papelaria e com outras duas no supermercado onde fui para beber um café. O café é servido em copo de plástico e tam de ser bebido no exterior. Tudo visto, estive fora de casa um quarto de hora. O frio, de resto não ajuda.

Provavelmente, os relutantes ao confinamento só saem da toca pelo meio dia com temperaturas mais amenas. Ou então é porque, por aqui, mora gente mais avançada em idade. E com mais medo que é  algo que guarda a vinha melhor que um cão pastor alemão. Em boa verdade, a velhada, em qie me incluo sem vergonha nem rebuço, tem muito mais a perder como, aliás, se vê pelos números de mortos.

A terceira idade está a ser dizimada, basta ver o que se passa nos lares. Não há dia sem que as televisões se espojem demorada e voluptuosamente em revelações sobre cada um dos lares em que aparece um surto.

Noventa por cento da reportagem é puramente inútil, com umas criaturas a queixarem-se da falta de meios, a pretextar imensos cuidados, a acusar a falta de testes, enfim o habitual passa-culpismo que nestas ocasiões vem ao de cima. No meio disto tudo, há sempre um pivot qu, com ar grave, anuncia mais cem mortes.

Nunca sabemos qual a proporção de velhos (eles chamam-nos “idosos”, do mesmo modo que deixou de haver cegos mas apenas “invisuais”) e, sobretudo quais os meios sociais onde se registam mais óbitos.

Chega-se a pensar que há um claro interesse em esconder o número de vítimas mortais oriundas de lares. Aliás, só excepcionalmente aparecem estatísticas que permitem aos mais interessados perceber quem está mais exposto ou quem é mais atingido.

A DGS deve pensar que a populaça não necessita de saber isto como aliás não necessita de saber muitas outras coisas. No meio do barulho informativo retiram-se muito poucos dados úteis. Nem sequer aparecem quadros claros quanto ao número de vacinados e/ou ao ritmo das vacinações.

Deve estar tudo em “segredo de justiça” guardado com mais dureza do que os escândalos do futebol.

Entretanto a campanha eleitoral vai prosseguindo também ela ilustrada com reportagens mis que duvidosas. Que interesse terá ver um candidato a encontrar-se com um apoiante mesmo se esse apoiante goza de alguma relevância.

No capítulo da saúde, a discussão vai acesa. Agora, subitamente, algumas personagens avançaram com o número mágico de 41%. Seria isso, essa gigantesca catarata de dinheiros públicos, que ia parar às mãos dos odiosos privados. Como de costume, quando se fala de privados, está-se a apontar o dedo aos grupos proprietários dos hospitais privados.

Ora, sabe-se, via Instituto Nacional de Estatística que, os hospitais provados afinal apenas “abocanharam” 9%!!! A comparticipação em medicamentos atinge 12,4% e é a maior fatia dos famosos 41%. O resto, mais ou menos 19% vai directo para os meios complementares de diagnóstico, para todos os profissionais particulares que também tratam doentes, um a um, dentistas, analistas, clinicas de reabilitação física etc.

Também sempre via INE, se verifica que os hospitais privados receberam apenas 16,8% das despesas respeitantes à ADSE que, convém dizer, é financiada pelos 3,5% colhidos nos ordenados dos funcionários. Aqui o Estado não mete nem prego nem estopa.

Finalmente, segundo o Tribunal de Contas, a PPS com o Hospital de Braga terá poupado ao Estado – em comparação com a media de despesa dos hospitais públicos – mais de 75 milhões de euros em três anos. Algum dia saberemos se esta poupança continuou com o actual regime do mesmo hospital. A menos que se trate, também aqui, de segredo de justiça e que a divulgação desses resultados resulte em mais outra caça aos jornalistas, esses bisbilhoteiros que só querem o mal do Estado e do bom povo português...

Reconfinados, por nossa conta

José Carlos Pereira, 16.01.21

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Ontem voltámos a um confinamento (quase) geral para travar o crescimento dos números de infecções e mortes por covid-19. A evolução da pandemia nas últimas semanas e as perspectivas para o resto do Inverno a isso conduziram, sob pena de criarmos o caos nos hospitais e perdermos vidas sem fim.

Não sei se o crescimento registado se deveu mais ao abrandamento das medidas no Natal, ao agravamento das condições climatéricas, com temperaturas muito baixas, ou à evolução e adaptação do vírus. Não tenho visto conclusões definitivas a este propósito. A verdade é que algo tinha de ser feito neste momento.

O confinamento de Janeiro/Fevereiro será, contudo, muito diferente do de Março/Abril. No ano passado, o receio e o medo do vírus e do desconhecido fecharam as pessoas em casa. Hoje, muitos portugueses pensam que sabem como limitar os contágios e as infecções e arriscam muito mais a exposição pública. O cansaço relativo às limitações de circulação também acaba por empurrar as pessoas para uma vida "normal".

Ontem, no Porto, durante boa parte do dia, a circulação de pessoas e viaturas mostrava poucas diferenças em relação ao dia anterior. Hoje, durante o meu exercício físico individual pelo campus universitário da Asprela, vi grupos a exercitarem-se em conjunto e pares de amigos e namorados descontraídos nos espaços verdes. Tomar café à porta dos estabelecimentos em grupo virou ponto de encontro de amigos e familiares.

Se é verdade que todos nós consideramos descabidas algumas das dezenas de excepções permitidas pelo Governo, não podemos perder de vista o desafio e a prudência de ficarmos em casa sempre que possível. Quem viu o seu negócio fechado aponta o dedo à excepção que permite que o estabelecimento do vizinho do lado continue aberto, o que até se compreende, mas é fundamental apreendermos que nenhum governo, nenhuma lei vai substituir aquilo que só compete a cada um de nós: adoptar o máximo de bom senso na interpretação do estado em que está o país, a saúde e a economia.

Os hospitais começam a dar sinais preocupantes, com doentes a terem de ser transferidos e outros a esperarem longas horas pelo atendimento. Será que só com imagens chocantes, como as que nos chegaram de Itália ou Espanha em 2020, acabaremos com os abusos que abundam por aí? Convém perceber que se, este confinamento não produzir efeitos, o caminho será o agravamento das medidas, arrastando a economia nacional para uma queda de proporções desconhecidas.

estes dias que passam 512

d'oliveira, 15.01.21

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Os dias da peste 151

O silêncio de novo

mcr, 15 de Janeiro

Ya se van los pastores

a la Estremadura

Y se queda la sierra

triste y oscura

 

 Em finais de 1970, estava eu em Berlin, à boleia da minha então mulher, estudante de Germânicas que, pela segunda vez, ia para o Goethe Institut melhorar o alemão.

Também eu me inscrevi no GI mas no ciclo inicial que do alemão liceal já quase nem me lembrava. Ou melhor só lembrava as “inutilidades” que de nada me serviam para me desembaraçar no dia a dia alemão.

Foi uma das melhores e mais proveitosas estadias em terra estrangeira não apenas pela aprendizagem da língua mas também, e sobretudo, pelo facto de poder viver num país livre, de poder comparar dois regimes políticos (bastava atravessar o Checkpoint Charlie), de conhecer uma boa dúzia de amigos de várias nacionalidades, diferentes experiências de vida.

Com quase trinta anos, o mundo pertencia-me, como no filme (que não vi e de que conheço apenas esses curtíssimos fotogramas...).

Eu tive a sorte de aos treze anos embarcar para África e de conhecer uma outra realidade que, com todos os defeitos (e eram gigantescos ...) me permitiu perceber toscamente, ingenuamente, o sofrimento dos negros e as delícias da vida colonial, o desembaraço e o pioneirismo da vida no “mato” mais um par de maneiras diferentes de me relacionar com os outros.

Muitos anos depois, mas isso será para outra jornada, muito me surpreendia o anticolonialismo absolutamente ingénuo dos meus amigos e camaradas, um sentimento quase pueril que não ia sequer às raízes do mal colonial nem pressentia (eu também não...) quão profundamente algumas situações perdurariam nas nações enfim “libertadas”. Voltemos porém, a Berlin, fins de setenta princípio do crepúsculo da revolta estudantil e auge da ultra-esquerda de que a Rote Armee Fraktion era o exemplo mais acabado (mais perverso, mais inútil, mais estúpido). Terei, mos próximos folhetins, tempo para narrar alguns exemplos tirados do real vivido por nós, estrangeiros que aprendíamos alemão e podíamos, com algum custo, atravessar a fronteira para o outro lado, o paraíso guardado por um muro crivado de balas e de vítimas mortais e por um enorme exército soviético lá aquartelado mas quase invisível.

Convenhamos que, do lado de cá mas absolutamente visíveis, víamos trpas americanas, inglesas e francesas. Aliás, o nosso alojamento ficava em Wedding, no sector francês e enquanto não fomos apanhados era no supermercado das tropas francesas que nos abastecíamos, comandados por uma autentica proletária chamada Martine, uma parisiense a quem devo muito vocabulário e muito calão. Entre os membros do grupo, havia uma professora primária espanhola, de Madrid que nos ensinou muitas canções populares castelhanas, entre elas aquela que que sub-titula a crónica de hoje.

A Maria tinha uma bela voz, uma enorme doçura e vinha, como a francesa, dos bairros populares de Madrid, desconfiava dos excessos esquerdistas a que assistíamos.

Agora, que, de novo, nos caiu em cima o malfadado confinamento, recordo a cantiga ao ver o silêncio e a solidão que se instalaram neste bairro de classe media alta. Apesar de tudo, não fechou tudo mas a pequena freguesia que se sentava nas esplanadas e percorria as galerias comerciais, desapareceu. Resistem a papelaria, um restaurante vegan reconfigurado em take away, o “mercadinho do foco” (pequena mercearia onde me abasteço de fruta, legumes, pão e mais três ou quatro coisas, o supermercado e uma óptica.

Em relação ao outro confinamento, houve progressos, pois o restaurante dá-se ao luxo de servir bicas cá fora sem direito a cadeira mas com real sabor a café de café.

Porém, aflige-me a sorte dos restantes comércios que, uma vez mais, pagarão forte e feio as hesitações e erros do Governo e o desvario dos cidadãos que se arriscaram e infectaram à tripa forra.

Retomo assim uma série, “Os dias da Peste”, que julgava concluída. A história repete-se sempre pelo menos duas vezes (Hegel) da primeira vez como farsa da segunda como tragédia (Marx)

E, já que falamos de farsa e de tragédia, ocorre perguntar como é que, em 2021, 47 anos depois do fim do “Estado Novo” , pode haver uma senhora procuradora da República que entende poder espionar jornalistas no exercício da sua profissão, tentando descobrir por meios no mínimo bizarros (para não usar termo mais forte e contundente), quais eram as suas fontes. Pelos vistos, houve de tudo, desde perseguição policial à socapa, fotografias tiradas à sorrelfa, invasão das contas bancárias.

Não é a primeira vez a que, espantados e assustados, assistimos a este género de actuações à moda dos sheriffs do Far West. Conviria explicar à senhora magistrada que os fins não (nunca) justificam os meios, que isto não é o “Duelo em OK Corral” (mesmo que se duvide que a senhora em causa conheça o filme do grande Sturges, ou sequer este realizador que com esta fita ganhou um”oscar”).

Há um par largo de anos, tivemos a oportunidade de assistir à invasão do parlamento por um outro magistrado que ia à caça de um deputado socialista acusado (pelos vistos falsamente como se provou em julgamento!) de predador sexual de meninos da Casa Pia. Não sei o que terá acontecido a esse herói justiceiro. Provavelmente progrediu tranquilamente na carreira, deixando para trás a honra perdida de um político promissor. Depois há queixas contra quem critica o MP e as rocambolescas aventuras de quem por lá se passeia.

Já não bastava a complicada saga do procurador europeu que, pelos vistos, ainda vai fazer correr muita tinta (e eventualmente algum metafórico sangue...) para agora se assistir a esta aventura.

Eu, aliás, recordaria que, há muito boa gente que jura que  parte das revelações sobre processos mantidos em segredo de justiça não vem só de jornalistas atrevidos, de acusados, dos seus advogados mas do interior dos tribunais e do MP. Si non e vero... Entretanto, o escândalo foi tal (soprado também pelos interesses corporativos jornalísticos o que, aliás, se percebe bem) que já se anunciou um “inquérito” à actividade da procuradora.

Em tempos de pandemia, cheira-me que este inquérito vai acabar em águas de bacalhau mas isso é por eu ser indivíduo mal comportado, proclive a dizer mal, a procurar cabelo em ovo, enfim um inimigo das instituições e das autoridades legítimas. De resto isso mesmo consta de vários processos que, em tempos pelos vistos saudosos, me foram movidos por egrégios representantes da autoridade antes de 1974.

au bonheur des dames 421

d'oliveira, 12.01.21

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Votar?

mcr, 12 de Janeiro de 2021

Ou eu estou enganado ou a publicidade ao voto antecipado citava as juntas de freguesia como local onde um eleitor se poderia inscrever para poder votar antes do dia da eleição. Como tinha de pedir uma “prova de vida” para apresentar na Caixa dos Advogados achei que podia matar dois coelhos de uma só cajadada.

Nada feito. Para o atestado da prova de vida tive de fazer uma marcação para a próxima quinta-feira. A sala esta semi deserta mas regras são regras Só na quinta! Quanto à minha intenção de me inscrever como votante antecipado, uma menina explicou-me que só pela internet!...

Sabendo que há dezenas, se não centenas, de milhares de cidadãos eleitores que não tem esse meio pergunta-se se não andarão a “gozar com o pagode”. Esses eleitores, que pagam impostos, estão condenados, se quiserem votar, a ir meter-se na confusão do dia de eleições! Estão condenados a arriscar o canastro por querer exercer um direito constitucional!

Entretanto, as direcções dos lares, as freguesias onde eles estão situados, as câmaras municipais vem afirmar que não tem meios para formar as equipas de recolha dos votos. As direcções dos lares torcem o nariz à entrada de estranhos nas suas instalações.

Conviria lembrar que há dezenas ou centenas de milhares de “idosos” que por sorte deles ou por falta de meios estão nas suas casas. Não estarão doentes, acamados mas deles ninguém se lembrou.

Obviamente, eu não estou a exigir que uma equipa vá de casa em casa como se fora o compasso pascal. Seria impossível e ainda por cima poderia ser inútil em muitos casos.

Todavia, as cabecinhas pensadoras da Comissão Nacional de Eleições que, suponho .funciona permanentemente já há muito se poderiam ter lembrado do voto por correspondência, esse voto que, por exemplo terá tido um espectacular efeito nas eleições americanas e, eventualmente, garantido a vitória de Biden.

E não se diga que não houve tempo. Estamos sob pandemia desde Março passado, ue diabos!

De todo o modo, faço um voto: que se estude essa modalidade, se aprove como seria sensato de modo a que cada um possa exercer o seu direito e o seu dever sem arriscar meter-se em multidões que agora, como o Governo afirma, são perigosíssimas.

Eu partilho dessa terrorífica ideia governamental mas espanto-me de hoje se anunciar um confinamento de um inteiro mês com um dia de folga para votar.

Pensarão aquelas luminárias que o vírus estará distraído ou de férias? A medida até agora anunciada foi a de reduzir de 1500 para 1000 o número de votantes por mesa! E de prevenir os eleitores para trazerem uma caneta!

A duas semanas do dia da votação que campanha se pode fazer mesmo se a já feita deixe muito a desejar?

A que níveis estratosféricos subirá a abstenção?

Aliás, é sabido que, nestes casos, só os extremos mais animosos é que se dispõem a arriscar. O cidadão médio, que já vai faltando à ida às urnas cada vez mais, achará que não vale a pena arriscar e que a decisão já está tomada.

Julgo que o principal prejudicado será ReBelo de Sousa, uma vez por todas vítima das projecções já conhecidas. Mesmo não tendo ideia de votar nele, acho que esta eleição a todo o custo é prejudicial para ele, para a democracia e para cada um de nís eleitores, individualmente. Pelos vistos ninguém se atreve a pedir um adiamento das eleições. Ou melgor, o Presidente da Câmara do Porto pediu isso mas não vi, até ao momento, uma grande adesão ao que em nome da democracia e da verdade eleitoral solicita.

Parece que toda a gente considera a Constituição uma vaca sagrada, intocável. Bom seria que olhassem um pouco em volta ou, por exemplo, para a América com as suas famosas Emendas (entre elas, uma que faria que o Vice-Presidente declarasse Trump fora de jogo definitivamente).

Eu não consigo perceber que estado de catástrofe, quantos mortos, quantos infectados, quantos hospitais a rebentar pelas costuras, serão necessários para adiar a eleição presidencial.

Temo que a abstenção prove a importância do que venho dizendo mesmo se isso não me alegre de nenhum modo. Porém,, duvido que esse escândalo anunciado tenha o mesmo efeito no Governo que água nas costas de um pato.

Aquela gente não olha para o lado, nem, como nas passagem de nível, para ,escuta ou olha.

Eu hoje iria dar-vos conta de um par de livros que valem a pena e que ajudariam a passar mais um mês de isolamento. Fica para mais tarde mas recordo que já cá cantam dois “tijolos” do António Ramos Rosa (1º e 2º tomos da “Obra Completa” em publicação pela Assírio & Alvim). E saíram dois volumes de poemas da recentíssima prémio Novel 2020, Louise Gluck ( “Averno “ e “A Íris selvagem”, ambos na Relógio de Água). Eu já os tinha na edição espanhola bilingue mas não resisti, Aliás há que ajudar as editoras corajosas que se atrevem a publicar poesia. Escusado é dizer que recomendo, porque li, apreciei e degustei, estes livros que menciono. De resto nunca recomendo livros que não tenha lido.

au bonheur des dames 420

d'oliveira, 11.01.21

Peixeiradas...

mcr, 11 de Janeiro

Os debates eleitorais poderiam ser ocasiões especialmente boas para não só informar os cidadãos mas também para mostrar que a política se pode discutir com seriedade, inteligência e civilidade. Tenho por mim qye um participante calmo, sereno e fundamentando com habilidade e bom senso as suas posições políticas pode não só ganhar votos e reconhecimento público mas elevar o nível geral do debate público. Quatro candidatos tem conseguido esse propósito João Ferreira, Mayan Gonçalves, Marcelo Rebelo de Sousa e “Tino de Rãs” (como ele próprio gosta de ser chamado.).Estes quatro políticos (e “Tino” é um notável exemplo de como um homem do povo/povo consegue articular um par de ideias sem cair em populismose sem qualquer sombra de sentimento de inferioridade perante os contendores) tem conseguido passar uma imagem que merece ser elogiada mesmo por quem não os acompanha ideologicamente.

Dos três restantes escusar-me-ei de referir o candidato do Chega por várias razões (a menor das quais será a de ainda não ter conseguido perceber uma espécie de cataventismo ideológico com que recheia a sua mensagem. De todo o modo a criatura tem tido a sorte de encontrar pela frente duas senhoras que, à simples vista dele disparam em todas as direcções incluindo os mimosos pés.

Talvez nem valha a pena referir a teimosa afirmação de ambas que nunca dariam posse a um Governo onde o Chega estivesse representado.

Provavelmente, durante as lições de Direito Constitucional escapou-me a parte em que, num sistema como o português, o PR pode dar-se a esse luxo sem que daí decorram várias consequências desagradáveis para ele. (Ou ela, no caso em apreço).

É evidente que nem a dr.ª Matias nem a dr.ª Gomes tem qualquer hipótese de serem eleitas. Porém, isso, não deveria servir para dizerem o que lhes passa pelas cabecinhas pensadoras (se é que as cabeças, neste caso, alguma vez pensaram dois minutos).

Andam por aí uns comentadores que tentam chamar à colação anteriores presidentes da República, nomeadamente Jorge Sampaio quando este, em privado, avisou Santana Lopes da maçada que era ter como Ministro dos Negócios Estrangeiros um euro-cétpico, no caso o dr. Paulo Portas.

Eu lembraria que esse exemplo nem serve porquanto o dr. Portas fez parte desse Governo em cargo tão relevante quanto o anterior.

Mas imaginemos que Santana não ouviria o Presidente. Que é que este faria? E, já agora, recordemos as circunstâncias específicas do caso. Na altura, muita gente entendia que Sampaio não devia nomear Santana mas, imediatamente,  convocar eleições, coisa aliás feita pouco depois, com a poderosa ajuda de Cavaco Silva com a sua famosa frase sobre a má moeda estragar a boa.

Deixemos, porém, este arroubo ditatorial das duas senhoras que ainda não teráo percebido que é assim que começam os governos “fortes”, pé ante pé, devagar, devagarinho como quem vai à Ribeira Grande.

Uma tentativa aqui, outra mais adiante, mais uma proibição e temos o famoso poema de Brecht completo.

Eu sou dos que preferem uma direita à vista a uma clandestina. Ou, pior, clandestinizada!

Será da velhice mas vivi demasiados e penosos anos sob o Estado Novo, ao contrário da Jovem senhora Matias que desses tempos tumultuosos só ouviu falar.

Já a senhora Gomes, mesmo que à justa, ainda pode afirmar que conheceu o “fascismo”. Teria os seus vinte animosos aninhos em 74 e militaria no MRPP, militância essa que, após 74 a terá levado por um brevíssimo período (eventualmente cerca de dois meses que foi quanto durou a ideia otelista de prender quem não lhe agradava. Foi o protesto público, meu também, que libertou essas centenas de militantes – eventualmente 400)

Essa breve experiência deveria chegar para perceber que os adversários políticos se combatem com argumentos e que num país em que as eleições são livres e democráticas não há eleitos bons, os nossos, e maus, os outros.

A menos que, como se diz noutro poema de Brecht, se deva substituir o povo que teima em votar mal.

Mas, independentemente deste pormenor da tomada eventual de posse, o que tem distinguido estas duas candidatas é o tom arruaceiro, populista, a gritaria com que recheiam as suas paupérrimas intervenções que, aliás, nem sequer, normalmente, dizem respeito às funções, deveres, direitos e responsabilidades do Presidente da República.

Neste capítulo foi de ir às lágrimas a troca de palavras com Marcelo Rebelo de Sousa sobre o !seu amigo” Ricardo Salgado. Este cavalheiro que não conheço nem quero, de resto conhecer, já foi condenados lateralmente três vezes sem que o PR tenha mexido um dedo do pé esquerdo em favor dele.

Claro que ainda falta o grande processo onde, aliás, figura, um figurão bem pior que não refiro por mera medida de higiene política, e não só. Até lá, queira a jurista Gomes ou não, o homem é inocente. Claro que poderá sempre inovar e julga-lo já criminoso mas isso decorre da sua bizarra concepção de Direito Penal (para juntar ao Constitucional, como já referi)

Por outro lado foi extraordinária a sua alegação de que um pirata informático acusado de ter tentado “abotoar-se” à custa de algumas vítimas ser uma espécie de Robin dos Bosques, personagem simpática mas irremediavelmente ligada ao imaginário infantil mesmo com a bênção de Walter Scott.

Temos assim que um bisbilhoteiro que entra em milhares de contas com propósitos que parecem tudo menos altruístas acaba por ser uma espécie de Zorro sem máscara nem espada.

Seria interessante poder lembrar que provas obtidas por meios fraudulentos não podem, não deveriam ser levadas em linha de conta mesmo se isso possa ser de especial utilidade para serviços policiaos ineficazes.

Quanto à senhora Matias, também se verifica que, como Lucky Luke ele dispara mais depressa do que a sua sombra. Basta recorrer aos exemplos de hoje (noticiário das 20) Segundo ela, Marcelo, sempre ele, falhou no apoio aos cuidadores informais (!!!???) e também não se preocupa com os estado das águas do Tejo (esclarecedor!!!....)

Reparo agora que dirigi os meus protestos contra duas mulheres e, per absentia, um cavalheiro que desprezo.

Para me remir desse feio acto “machista” recomendo vivamente que leiam no Publico de hoje (11 Janeiro) um notável artigo escrito por duas granes figuras da política portuguesa com um grande curriculum e uma notabilíssima folha de serviços a Portugal: Maria do Céu Machado e Maria de Belém Roseira

Só tenho a honra e o gosto de conhecer a segunda que foi minha colega em Coimbra e gostaria muito de conhecer a primeira para lhe agradecer uma inteira vida de trabalho brilhante em prol da saúde dos portugueses.

Um último reparo: intitulei este texto de peixeirada. Nada a ver com as honradas, fortes, belas mulheres da minha infância em Buarcos, mães de colegas e amigos com quem estudei, joguei ao pião, andei ao soco. Ah, se as candidatas agissem como as peixeiras... trabalhasse, sofresse e enfrentasse a vida como elas...

 

au bonheur des dames 419

d'oliveira, 10.01.21

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E mais um confinamento...

mcr, 10 de Janeiro

Faço parte do grupo de pessoas para o qual mais ou menos confinamento é igual ao litro. Salvo ir a um alfarrabista ou ao encadernador que provavelmente teráo de encerrar portas, o meu mundo é o meu pequeno bairro. Há um supermercado, uma mercearia, um quisque de jornais e revistas, dois cafés e mais um par de estabelecimentos.

Provavelmente, os cafés, mesmo com esplanadas exteriores teráo de fechar. L´s se vão as duas bicas da manhã e os dez minutos que emprego para começar a ler o os jornais.

A farmácia também não é longe e para as próximas semanas só me apoquentam uma ida ao oftalmologista para saber que lentes devo usar depois da retirada da catarata e outra para verificar como anda o dibetes. A primeira implica quase de certeza a substituição das lentes dos óculos e duvido que a óptica consiga estar aberta. Logo se verá.

É duro continuar sem poder ir a Lisboa ver a minha praticamente centenária mãe cmo sempre fiz uma vez por mês. Mas a old lady pediu expressamente que eu não arriscasse. Não por ela mas por mim pois desconfia das paragens para beber um café na autoestrada e dos cafés da sua zona.

No Natal tivemos todos extremo cuidado, cada qual ficou em casa, eu e a CG lá nos juntamos com o Nuno Maria e os pais (agora é assim a escala de importância) e por poucas horas de cada vez.

Todavia, como se vê, a balda do Natal está aí a dar os seus terríveis resultados, mostrando, mais uma vez, que –como era mais que expectável – a decisão do Governo (que pretendeu ser amável! ) foi de uma ligeireza imprudente e ao arrepio de quase todos os nossos parceiros da UE!

Ainda não ouvi uma palavra a este respeito, uma vaga desculpa, um simulacro de arrependimento! Aliás, outra coisa não seria de esperar. Com sorte ainda se vai ver que a culpa deste reforço de infecções, internamentos e mortes é toda de Passos Coelho. Ou, já agora, da sinistra cabala dos três figurões do PPD que ousaram atacar malévola e traiçoeiramente a Presidência Portuguesa.

Neste capítulo a informação copiosamente repetida pelas televisões que parecem comprazer-se em reportagens sobre lares, sempre longas e regra feral anódinas, sofre de um par de falhas facilmente resolúveis: Em primeiro lugar a informação bruta (mortes, novas infecções, internamentos) assim sem mais de poico serve. Conviria talvez saber quantos testes se fizeram e qual a percentagem de infecções. Por outro lado, é difícil saber-se quantos casos há por cem mil habitantes que é um critério seguro e comparável aos que correm na Europa.

Só assim teríamos uma perspectiva clara sobre como estamos em termos de combate à pandemia. É evidente que deve haver uma razão para não usar estas duas informações. Espero apenas, mas com pouca ou nenhuma convicção, que isto não seja propositado para ocultar a quem se interessa o real estado da nação.

Claro que alguém, há sempre alguém alucinado pelas teorias da conspiração anti-governamental, achará que isto é um descabelado ataque à transparência (à opaca transparência...) em que se move o augusto e amorável Governo da Nação.

Ou dir-se-á que estes índices apenas interessam a uma minoria desprovida de patriotismo e interesse pelo progresso formidável a que se assiste.

Bem sei que poderia mudar de disco e falar, por exemplo, da morte de João Cutileiro, esse grande nome da escultura mundial que está por descobrir mesmo cá. Segui-lhe a carreira, desde a descoberta espantada e aturdida do D Sebastião. Sempre que pude vi as exposições em que se apresentava mas, ahimé!, nunca cheguei aos preços que pediam. Ficava sempre uns contos de reis abaixo.

Recordo, para a pequena e beata história do Porto, o facto de uma companhia de seguros ter colocado um nu dele no jardim junto da rua. Tiveram de a esconder moutro recanto menos visível que a puritanagem transversal da “invicta” desatou num cochichar interminável e grotesco. Isto na cidade que assistiu a Soares dos Reis!...E já em plena democracia...

Ai a “província”!...

 

au bonheur des dames 418

d'oliveira, 08.01.21

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A justiça é cega (como se verá)

mcr, 8 de Janeiro de 2020

O caso do procurador europeu está cada vez mais confuso. Ora vejamos:

A srª Ministra veio afirmar que chegou a ponderar a sua demissão. Se isso é verdade, e neste caso anda tudo um pouco à deriva para não dizer nada de mais grave, algumas razões a terão levado a ponderar. Depois, de “ponderar” achou que não, que não se devia demitir. Razões de uma e outra atitudes desconhecem-se. Esperemos que a srª Ministra as conheça se bem que tenhamos por duvidosa a sua “ponderação” que pode parecer mero efeito retórico para consumo da galeria. Nisto, esta senhora, como boa parte dos seus colegas, parece ser exímia. Claro que tudo lhe pode ter sido sugerido. Por exemplo, por alguém que há uns anos sugeriu a uns procuradores que investigavam o senhor Sócrates a deixarem-se de trabalhos e concluírem pela imediata inocência do investigado. Isto é uma mera suposição claro, nada indica tal, mesmo se esse cavalheiro depois de uma sanção agora aparece no gabinete desta Ministra...

Entretanto, apareceu um senhor juiz excluído sem saber porque razão e a quem ainda não foram sequer explicitadas as razões do seu afastamento do concurso. O juiz, e não é um qualquer mas um profissional respeitado e com um currículo mais que respeitável, já decidiu pedir a nulidade do concurso do qual foi afastado. Aliás, ó Portugal das maravilhas!, os critérios de avaliação só foram decididos depois (notem: depois!!!) de conhecidos os nomes dos três concorrentes!!! Assim até eu (se tivesse amigos...) poderia ter sido escolhido...

Mas há mais: eu nada tenho contra o facto do dr. Costa achar esta Ministra um prodígio (é uma opinião, dele evidentemente, mas cada qual governa-se com o que sabe) mesmo se a vox populi parecer ter, e cada ve mais, opinião diferente. Todavia, quando este cavalheiro entende que as críticas de três conhecidos e reputados militantes do PSD são uma conspiração (com frente sanitária e tudo!) contra a egrégia presidência portuguesa agora iniciada, entramos no domínio do desvario.

Eu bem sei que o dr. Costa anda mais que aflito para descalçar esta bota depois de já ter tido outro problema com o dr. Cabrita que, também ele, é um luminar da transparência e da defesa acirrada dos Direitos Humanos, incluindo dos direitos do pobre diabo que só não morreu de causas naturais porque um médico consciencioso fea uma autópsia decente e pôs a boca no trombone.

Isso, a actual situação da pandemia agravada provavelmente pelas baldas do Natal, chega para uma pessoa perder as estribeiras. Só que...

Só que um promeiro ministro não pode perder as estribeiras. Ora neste caso malfadado nem os aliados ocasionais o apoiam. Por junto, apareceu um pobre diabo pomposo e socialista a debitar uma jeremiada de conforto para a Ministra. Patético!

O processo da surpreendente nomeação depois de outra pessoa ter sido escolhida pelo júri internacional está a correr mal ou, eventualmente, pessimamente. As queixas em instancias judiciais começaram. Até a Ordem dos Advogados se meteu ao barulho!

Já sei que alguém virá dizer que a O A não deve meter colherada em assunto que não lhe lhe competiria directamente. Mas também é verdade que, volta que não volta, aparecem umas criaturas vociferantes a exigir que esta Ordem faça e desfaça!...

Eu não sei qual será o destino da queixa do juiz ou da da Ordem. Mas que isso provoca ruído,  não duvido.

Entretanto o PPE queixou-se nos meios europeus. O PPD é do PPE logo foi ele o instigador!...

Não percebo bem onde é que entra a “frente sanitária”. Também não entendo como é que o dr. Poiares Maduro entra nisto. A menos que, agora, a mera crítica política seja crime de lesa majestade costista.

Nos meus tempos de conspirador fui várias vezes acusado de coisas tremendas (até de bombismo!). Só que os meus acusadores estavam a soldo da polícia ou eram polícias. Mas mesmo eles, sempre que eu me defendia com o direito a ter uma opinião, logo me garantiam que sim, pois claro, era o que faltava, só que o seu direito está inquinado por acções conta a Constituição, contra o Estado, contra a Paz Pública, contra o bom nome do excelso Presidente do Conselho ( e contra um sem número de individualidades que começam no Governo, passavam ao parlamento, às pol´cias,  depois às autoridades académicas, possivelmente até aos bedéis, archeiros e contínuas da faculdade e por aí fora. E pimba!, cadeia com o subversivo mesmo sem provas, sem confissão, sem nada. E eu lá partia para mais um estágio em Caxias sur mer e de lá contemplava, melancólico, o mar da palha e lia os livros que noutras alturas pelo tamanho deixaria para mais tarde. Aviei assim, o “Ulisses” numa traduçãoo brasileira, o Proust em sete volumes da Livros do Brasil, a “Peregrinação“, a “História Trágico Marítima”, todo o padre António Vieira (tudo nos clássicos Sá da Costa) e por aí fora. Até livros de Direito! Quase acredito que foi a prisão, as prisões, quem me permitiu licenciar-me...

Ora o dr. Costa não é polícia dos da secreta, não consegue provar que há uma conspiração em curso, muito menos com ala sanitária, mas permite-se a liberdade pouco poética de entender que a discussão política é atentatória do bom nome da pátria, da eficácia da presidência semestral, da fama imorredoira do jardim à beira mar plantado. E claro, da competência e inocência de vários ministros resplandecentes de critério, de justiça, de bom trabalho e boa educação.

Ainda não vi o Governo anunciar uma peregrinação especial a Fátima, em modo virtual, evidentemente. Se não chegar, recomendo a Rainha Santa ou até a “santinha da Ladeira”. O Senhor Presidente da República poderá ajudar dada a su condição de católico militante, como aliás, sublinhou num dos últimos frente a frente.

Para não deixar o dr. Costa sozinho, eis que a Comissão Nacional de Eleições resolveu avisar que seria bom que os internados em lares fossem votar nas próximas eleições pois estava-lhes garantida a prioridade! Não puderam ver as famílias no Natal mas poderão, são incentivados!, sair para votar. Ena, ena!!!