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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

23
Jan20

QUESTÕES QUE O LUANDA LEAKS SUSCITA

JSC

Já lá vão alguns anos que, pelo Ano Novo, discutíamos a “acumulação” de riqueza por uma dita élite angolana. Éramos todos oriundos da mesma escola, amigos, com a particularidade de um ser luso-angolano, com grande ligação ao poder e ao MPLA. Era o único a defender, calorosamente, com recurso à teoria económica, os investimentos da Isabel dos Santos e dos que lhe eram próximos.


Não sei que conversa teríamos hoje. Sei que continuo a pensar o mesmo. Era dinheiro a mais para uma pessoa só. E mesmo que dinheiro gere dinheiro, o primeiro dinheiro não podia ter sido gerado. O volume dos investimentos e a oportunidade de cada negócio tornavam isso evidente.


Hoje, atulhado pelo ruído das notícias, centradas em Isabel dos Santos, dou comigo a questionar:


1. Tudo o que tem sido revelado através dos meios da comunicação social deve ser qualificado como jornalismo de investigação ou como pirataria informática?


2. Quem foi o “único denunciante” que entregou os “715 mil ficheiros” à PPLAAF?


3. Como obteve esses milhões de registos?


4. Qual a motivação para disponibilizar essa informação?


5. Como entender que nos 715 mil ficheiros apenas apareça Isabel dos Santos como usurpadora dos recursos públicos?


6.  Se os ficheiros começaram a ser disponibilizados no final de 2018 e início de 2019 porque só agora tornaram pública essa informação?


7. Porque não assacam responsabilidades às auditoras, designadamente à PwC, (que terá recebido milhões e agora saltou fora)?


8. Se todos os negócios e Contas foram auditadas porque é que as autoridades angolanas e mesmo as portuguesas não acusam as empresas de auditoria em causa?


9. Porque é que o PGA foi agora tão lesto e disponível para vir a Portugal e foi tão ríspido e ausente no passado recente (caso Manuel Vicente)?


10. Se os “715 mil ficheiros” foram fornecidos por “um único delator”, como poderemos estar seguros da isenção política, económica ou outra deste delator?


Eis algumas questões a que, em meu parecer, o jornalismo democrático e isento deveria responder.  A corrupção deve ser combatida por meios lícitos e justos. O combate à corrupção não será bem um combate se na génese deste estiverem outros interesses, igualmente mesquinhos e iníquos. Neste combate não deve haver lugar para ambiguidades.

22
Jan20

Luanda Leaks

José Carlos Pereira

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Sucedem-se nos últimos dias as revelações sobre a acumulação de riqueza de Isabel dos Santos a partir da subtracção de avultadas quantias do erário público angolano. É caso para dizer que o jornalismo se prestigia quando investiga casos de grande relevo público e acaba a pressionar reguladores e elites empresariais e políticas, que agora se deparam com o que sempre esteve à vista de todos.

Muitos cooperaram com o regime angolano e com a nomenclatura Dos Santos, fechando os olhos ao que era evidente. Um dos casos paradigmáticos foi a prontidão e a lisonja com que a Câmara Municipal do Porto entregou a medalha de ouro da cidade a Sindika Dokolo, marido de Isabel dos Santos, em troca de uma exposição de arte contemporânea africana e da prometida instalação de uma fundação...de que agora se perdeu o rasto.

20
Jan20

Incursões à mesa

José Carlos Pereira

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Na passada quinta-feira ocorreu mais um encontro à mesa dos colaboradores do Incursões. No coração da Foz do Douro, o restaurante Treze % foi o lugar escolhido para pôr a conversa em dia, para se falar dos projectos pessoais e empresariais dos presentes e, claro está, para comentar a actualidade nacional e internacional.

A política, a economia, a cultura, mas também a gastronomia e os vinhos estiveram em foco. No final, dois dos incursionistas presentearam os demais com uma garrafa de Portinha, vinho verde branco DOC da sub-região de Baião, que resulta de um forte investimento pessoal e afectivo naquele concelho, numa propriedade situada na encosta do Douro. Tchim-tchim a todos os colaboradores e leitores!

14
Jan20

Quem está a ser julgado no processo de Tancos?

JSC

Tancos é o lugar onde foram assaltados os paióis militares. O processo judicial de Tancos é o exemplo de como a procura de aplicação da justiça se pode sobrepor à Justiça.


1. Em dado momento descobre-se que alguém assaltou os paióis e roubou armamento.


2. Segue-se a investigação, o apuramento de responsabilidades, as intervenções públicas das chefias militares e de políticos.


3. Desde o começo que o foco não foi propriamente chegar aos autores do roubo, mas o apontar para os políticos, que não terão disponibilizado os meios para guardar o paiol.


4. Parece absurdo. Contudo, foi assim.


5. Entretanto dá-se o achamento das armas.


6. Desde logo, a Justiça deixou cair, por inteiro, o roubo propriamente dito, para se centrar na questão do achamento. Quem soube? Quem não soube? Como soube? Como não soube, mas devia (podia) saber?


7. A fulanização do processo acabou por transportar o primeiro-ministro para o centro do mesmo, o que, na prática, contribui para esconder e desculpabilizar os verdadeiros autores do roubo.


8. Entretanto, nós, contribuintes, assistimos impávidos e serenos ao arrastar de um processo que há muito parece ter perdido o norte porque se enleou nos meandros da política, percurso que deveria estar fechado à Justiça.


9. Assistimos e pagamos por isso!


10. Por fim, sobra a questão: Quem é que está a ser julgado pelo roubo das armas?

02
Jan20

Au bonheur des dates 408

d'oliveira

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De olhos no teto com a “nona” a entrar-nos na alma

 

mcr 2-01-20

 

Em que ano foi ? Seguramente quando os anos cinquenta já estavam perto do fim. Eu teria 16, 17 anos?

De todo o modo era um miúdo ignorante com um escasso horizonte musical, se é que posso falar de horizonte. O meu avô paterno, já entrado nos sessenta, exportador de vinho do Porto (como o pai e os irmãos), vivera na Alemanha um par de anos entre Hamburgo, Heidelberg e Wurzburg aprendendo enologia, química do vinho e sobretudo vida, muita vida (descobri nos seus papéis uma correspondência com três amigos que também tinham tido a sorte e os meios – avultados – para depois do liceu irem fazer o “grand tour” e algum curso – onde é referida insistentemente uma certa Fraulein Ilse a quem os amigos mandam cumprimentos respeitosos com algum comentário brejeiro pelo meio, o que me faz desconfiar que o velho senhor não fora sempre aquele pilar de virtudes que aparentava er e qu me moíam o juízo (escasso juízo e muita sede de aventura)).

Dessa estadia de alguns anos no estrangeiro o avô trouxe sólidos conhecimentos de alemão (e de holandês!) que se juntaram à sua extrema facilidade para línguas desde o latim e o grego até ao francês, espanhol e italiano, sem falar no inglês que ele utilizou muito nos anos em que viveu em Inglaterra. Depois das línguas, do conhecimento bíblico de Eva, no caso Ilse, adquiriru uma sólida cultura musical forjada em inúmeras salas de concerto e de ópera de que foi assíduo frequentador. Aliás foi na Ópera do Rio de Janeiro que conheceu a sua primeira mulher, a avó Dora Heinzelmann, leitora de Espronceda e dos clássicos espanhóis e ibero-americanos e amante da pintura em particular e das artes plásticas em geral. Nos curtos anos da sua breve vida em Portugal, a casa do “Torne” em Gaia era frequentada por Diogo de Macedo, Teixeira Lopes, os Carneiro, pai e filho e vários amigos destes. Desse grupo conservo um belíssimo guache que constava do álbum da avó.

Havia, pois, na casa deste esclarecido homem dos vinhos do Porto, um ambiente cultural muito habitual, aliás, noutras casas da alta burguesia portuense.

Não admira, portanto, que, quando começaram a aparecer gira-discos mais ou menos portáteis de qualidade, o velho senhor encomendasse um na Alemanha que apareceu na companhia de uma edição completa das Sinfonias de Beethoven (uma edição em 33 rotações recheada de nomes de maestros conhecidos.

O dia da chegada dessa encomenda volumosa foi uma festa. Desembrulhar aquela maravilhosas novidades, admirar as capas dos discos e escolher o local para colocar o gira-discos foi uma tarefa árdua que nos ocupou a manhã inteira. Depois do almoço, partimos, o avô e eu, para a sala e sob as instrucções dele deitei-me a seu lado no chão daquela bonita sala forrada a tapeçarias antigos com um belo teto trabalhado e um lustre que aliás herdei.

E começamos, não pela 1ª sinfonia mas pela 6ª. O meu avô explicava cada andamento enquanto ia mudar o disco (eu não tinha permissão para tal, coisa que muito me vexava), referia a época da estreia, os comentários e traduzia com uma facilidade que ainda hoje lhe invejo (mesmo sabendo algum alemão adquirido em duas incursões pelos Goethe Institut de Berlin e de Murnau). As notas que acompanhavam os discos e, sobretudo um longuíssimo artigo retirado do “der Spiegel” (suponho) que motivara aquela sumptuosa compra. Tudo isto, deitado a meu lado no chão protegidos apenas pela espessura do tapete que nos protegia do soalho. E todos os dias repetíamos o mesmo ritual, uma sinfonia por dia em ordem dispersa, acho que a 5ª foi a penúltima, até ao grande dia em que me foi apresentada, depois de traduzida a ode de Schiller de um velho e bonito livro com marcas de muita e constante leitura e pétalas secas sinal de que também a avó Dora o explorara.

Mais de sessenta anos depois, eu gostaria de vos descrever os sentimentos de um rapazola ignorante ao ouvir aquela peça que, continua a comover-me até às lágrimas cada vez (e são muitas pois além dos discos consta em todas as “pen” que trago no carro e que estão sempre em actividade.

A única coisa que recordo bem é que tomei a resolução de me inscrever na “Juventude Musical” e passar a assistir a todos os concertos que, nessa época, ocorriam no cinema Trindade pela tarde. E era da minha mesada que eu pagava a quota. Com os livros que começava a comprar sobrava-me o dinheiro certo para, aos domingos, ir ao cinema. Felizmente ainda não fumava nem tomava café...

Mas a que vem este relambório todo?

Pois ao facto de ter lido no Público de hoje que este vai ser o ano “Beethoven”, celebrando assim a data redonda dos 250 anos do seu nascimento. Devo ao eminente Carlos Fiolhais, um professor coimbrão, a notícia. Fiolhais é um desses cientistas que aliam um saber quase enciclopédico a uma impressionante folha de serviços na Universidade de Coimbra tendo mesmo sido director da prestigiosa Biblioteca da Universidade. Escreve com frequência nos jornais e fá-lo com inteligência, elegância e humor. Neste texto em apreço cita a tríade Haydn/Mozart/Beethoven, três monstros sagrados onde, a meus olhos –e ouvidos! – avulta o segundo de que sou fanático a ponto de ter duas edições completas da sua obra para já não falar dos cd, lp e dvd diversos que fui juntando e de que não consigo (oh egoísmo absurdo!) separar-me.

Ao contrário do avô materno Manuel, oficial do exército, o avô Alcino nunca foi uma pessoa fácil e não primava pela ternura para com os netos. Por isso conservo tão vívida a imagem de alguns momentos de intimidade à sombra de Beethoven. O velho génio surdo fazia milagres a começar pela música que já não ouvia. E esses dias a travar conhecimento com as sinfonias a que seguiriam depois, as sonatas, adoçam a imagem antiga e severa de m velho senhor que uma vez se deitou no chão para ouvir e explicar a um neto, que agora se recorda dele enternecido, o milagre absoluto da música imortal – duzentos e cinquenta anos depois e toda ela soa tão fresca e natural como no dia em que foi pensada.

Bom ano Beethoven para todos vocês!

31
Dez19

estes dias que passam 329

d'oliveira

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“É preciso dar força à razão para que o acaso não governe nossas vidas”

(Cavaleiro de Oliveira)

mcr 31.12.2019

 

Leitoras e leitores que me aturam mais do que mereço. Desejo-vos um bom ano de 2020 que, por mais bissexto que seja, vem carregado de esperanças e avisos.

Se as primeiras são sempre bem-vindas, os segundos devem ser tomados a sério.

Nos últimos dia, os jornais encheram-se de previsões. Conviria olhá-las de soslaio e não levar demasiado a sério o que, muitas vezes, não passa de apressada futurologia.

Se ´verdade que do correr dos dias há situações previsíveis, quase inevitáveis, também não é menos verdade que há muitas coisas que podem ocorrer mercê de acontecimentos que estão para lá da normal previsão. Ninguém esperava que o vale do Mondego, agora tão castigado e sempre tão abandonado dos poderes centrais se convertesse naquele imenso mar de água a cobrir quase vinte mil hectares de terra boa e fértil. É verdade que alguém, um ministro não ouviu quem pedia uma barragem. Parece que achou aquilo um gasto inútil (sempre veremos se o que poupou d´para compensar o imenso prejuízo destes primeiros dias de invernia...) e que com um simples riscar de aldeias do mapa actual tudo se resolverá. O senhor ministro tem uns tiques estalinistas e um modo autoritário de olhar o mundo que nos fazem temer um qualquer novo plano quinquenal a juntar ao deslocamento forçado de populações. Para um recém chegado ao partido socialista a criatura tem assomos soviéticos dos anos trinta que nunca passariam pela cabeça de qualquer social-democrata. Enfim, a cada um a realidade segundo o olhar enviesado que terá.

Promete-se para o ano que entra daqui a uma dúzia de horas um orçamento com superavit. Eu, velho, cansado e cínico, já me contentava com um deficit ligeiro sobretudo quando se verifica que os saldos orçamentais sempre se fizeram à custa de menos e piores serviços públicos essenciais. É verdade que, neste capítulo, e sobretudo na saúde, anda a promessa de despejar mais 900 milhões. E com isso pagar as dívidas em atraso, contratar muitos médicos, muitos enfermeiros e mais, muito mais pessoal. É bom lembrar que talvez seja preciso saber se há candidatos em número suficiente (e não tem havido...). Seria também bom saber se a gestão do parque público de hospitais vai mudar, se o ministério das Finanças vai entregar a tempo as verbas necessárias. É sempre bonito saber que as taxas moderadoras vão ser eliminadas. Já agora também seria bom reconhecer que estas taxas tinham mais o objectivo de dissuadir a corrida às urgências do que arranjar mais uns dinheirinhos. A corrida às urgências vai manter-se e o travão das taxas não estará lá para a controlar. É bom saber que os serviços locais de atendimento vão ter maior amplitude horária (e maior custo). Será que os longos entupimentos destes serviços desaparecerão e isso encorajará as pessoas a renunciar à corrida aos hospitais?

A imprensa e a televisão fizeram-se eco das conclusões do Tribunal de Contas sobre os resultados das parcerias público-privadas no caso de alguns hospitais. Tudo visto, o Estado economizou, no mínimo, trinta milhões de euros num só hospital. A má notícia é que essa parceria vai acabar. Outras duas já acabaram por os privados entenderem que não tem condições para continuar. Em boa verdade, os actuais responsáveis (se é que a actual senhora que faz de ministra pode ser considerada responsável...) na ânsia de controlarem tudo ainda não perceberam que, sem os sectores privado e social, o caos actual e o desastre a que se assiste seriam ainda maiores e mais graves. E contra os menos protegidos de quem eles se arrogam a representação.

Um orçamento com superavit só deveria ser alcançado se isso não representasse, como tem representado nestes anos de Centeno, um feroz ataque ao investimento público (inferior inclusive ao dos anos Passos Coelho) e em sectores críticos desde a saúde à educação, uma falecida ambição de Guterres.

Não perceber ou fingir não perceber o país que somos e temos, sobretudo desde a perda do Brasil, não é só ignorar a História, e também dispensar qualquer noção de Economia.

O “milagre das rosas” da diminuição do deficit tem sido alcançado com captivações e não com uma racional diminuição da despesa.E bom será que se recorde aos mais optimistas que o mesmo resultado tem como base uma carga fiscal sem precedentes que engrossando a receita não tem efeito no investimento público ou na maior/melhor racionalização dos gastos do Estado.

Há quem encha a boquinha mimosa com uma aproximação à Europa só porque percentualmente estaríamos uma décima melhor do que p.ex. a França. É bom lembrar que 0,3%de 10 não é igual (nem aproxima) quem tenha apenas 0,1de 30 ou de 40. Recorram à aritmética da antiga 4ª classe, hoje tão fora de moda e de memória.

Também seria bom não tentarmos ver nos nossos êxitos, por vezes passageiros, algo melhor do que realmente é. Estamos à inteira mercê das tempestades políticas, económicas e financeiras que eventualmente se possam abater sobre o mundo ou apenas sobre a Europa. E com menos meios (que não sejam a inércia e a pobreza) do que muitos outros países nossos directos concorrentes.

Até o oásis turístico em que, por força de situações dramáticas na bacia mediterrânica, nos convertemos trouxe como consequência uma tenaz, acentuada e obstinada subida de preços na habitação nas grandes cidades e no litoral algarvio. E daí também uma falta de médicos e professores que não podendo pagar os arrendamentos nessas terras deixam vagos postos em hospitais e escolas. “Estamos na moda”, diz-se. É provável mas a moda muda constantemente e passa tão depressa como a “linha saco” nos vestidos das mulheres ou as “calças em boca de sino” mos cavalheiros. Se é que alguém se lembra disso...

O ano que entra pode não ser uma absoluta incógnita mas nem o Orçamento, nem as previsões, nem os votos pios são favas contadas.

De todo o modo, Bom Ano para todos ou, pelo menos, que não seja pior do que este que hoje termina.

E gozem os fogos de artifício que são a mais cabal demonstração do modo estúpido de queimar dinheiro.

 

*republica-se a fotografia das cheias do Mondego pois as águas ainda não foram embora. E teme-se que não o façam tão cedo.   

 

 

26
Dez19

au bonheur des dates 407

d'oliveira

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mcr le fou

(na morte de Ana Karina, minha impossível namorada)

 

Tinha a minha idade, talvez um ano mais, mas continuo a vê-la (e desejá-la) muito, mas muito, mais nova. E, nesse impossível filme, também eu sou jovem, também eu deambulo pela vida sem saber exactamente o que queria embora tivesse certezas absolutas quanto ao que detestava e do que terrores nocturnos e diurnos fugia sem rumo.

Faço parte de uma geração que nasceu em pleno auge do cinema. No meu caso, mais precisamente, o saco das águas de minha mãe, então grávida de mim, rebentou em plena sessão de um filme parece que com o Gary Cooper.

Lá fomos ela e eu, à boleia e quentinho, no seu ventre generoso, numa corrida para Coimbra, para a maternidade. O meu pai, jovem médico cauteloso, entendeu –e bem, muito bem- que um prematuro de oito meses devia nascer num local adequado e com as máximas garantias de sucesso.

Desde cedo, demasiado cedo dirão alguns mais pernósticos e invejosos, acompanhei (com o meu irmão, mais novo catorze meses) a minha mãe às matinées do Cine Peninsular. Uma vez entrados na sala escura, os dois, mais outros compinchas tão pequenos e aventureiros como nós, íamos para os camarotes que prolongavam o balcão pelas laterais até ao ecrã. Aí, de pé, olhos perdidos na tela, víamos os filmes, os desenhos animados, os documentários enfim tudo. Em boa verdade, o primeiro filme que recordo foi “Não há paz entre as oliveiras”, um excelente clássico neo-realista de Giovanni de Santis, um autor, hoje (tolamente), esquecido.

Depois, ao longo dos anos, fui devorando quantidades absurdas de filmes que, graças ao cine clube de Coimbra, a umas escapadas a Paris, praticamente cobrem toda a produção interessante (e não só) dos anos 50 a 90.

Jazem em estante própria, cá em casa cerca de mil dvd, 90% dos quais de cinema até esses anos (se algum eventual leitor souber de um dvd com “Douro faina fluvial”, por favor avise-me que não dou por ele em parte alguma).

Durante esses longos e maravilhosos anos, foram muitas as actrizes que me encheram o olho e me provocaram uma respiração acelerada. Num país soturno, o cinema era uma porta aberta para a liberdade, às vezes para o futuro, para a aventura que nos era diariamente negada. Vivi até aos treze anos numa zona turística e balnear e o simples facto de o Verão transformar abissalmente as nossas vidas e experiências, tornava ainda mais urgente o mundo (mesmo se de fantasia) que o cinema abria. Era um época em que se viam fitas vindas de boa parte da Europa (da França, da Inglaterra, da Itália, da Alemanha e da Suécia) e a realidade, mesmo reinventada, dessas longínquas paragens aliada à pequena mas constante visita de turistas estrangeiros, tornava ainda mais difícil o nosso dia a dia mesquinho e obrigava-nos a tentar mudar a realidade política e social que nos castrava o pensamento. Não eram precisos os admiráveis Esenstein, os proibidos italianos ou o “Zero de conduite” para sonharmos dar um rumo diferente às nossas peregrinações pelo “país triste”. O cinema explicava-nos que havia outra realidade que por muito cor de rosa e adulterada que fosse, permitia pensar um mundo diferente.

Eu nem me atrevo a fazer aqui a lista das actrizes que me emocionaram mais do que era devido não só pela sua arte mas também, há que confessá-lo sem rebuços, pelo corpinho. Em minha defesa devo acrescentar que algumas mulheres que não primavam pela beleza ou fugiam do cânone também mereceram a minha devota atenção. Basta-me citar duas italianas de primeiro plano: Ana Magnani e Giulietta Masina, mulheres de corpo inteiro que contribuíram enormemente para o sucesso de alguns dos grandes realizadores italianos (no caso de Masina, Federico Fellini, a Magnani filmou mais e com muitos e não há dela um único filme piroso).

Porém a Karina - e também um pouco Eleanora Rossi Drago ( “Verão Violento” de Zurlini), Claudia Cardinali (“A rapariga com a mala” ,Zurlini outra vez!) e Jeanne Moreau (“Eva” de Losey) – acertaram em cheio nesta tosca e tímida criatura nessa década dourada mas violenta dos anos sessenta. A esse grupo junta-se a trágica figura de Jean Seberg (“O Acossado”, Godard) de que sempre lembrarei, e por mais de uma razão (como alguma vez contarei), a rapariga que vendia o New York Herald Tribune. Também ela foi musa, e de que maneira, de Romain Gary um notável escritor que cometeu a proeza de ganhar por duas vezes o Gongourt.

Todavia, a Karina tocou-me mais fundo. Provavelmente a época agitada e exaltante que se vivia contribuiu muito para isso. E a presença do grande Samuel Fuller no elenco, prova provada de quanto o cinema americano influenciou a nouvelle vague em geral e Godard em particular. Ana Karina surge já o filme leva um largo par de minutos mas a sua força, ou a sua simplicidade transforma o ambiente fílmico e dá um sentido absolutamente novo quase iconoclasta à aventura do herói (Jean Paul Belmondo, numa actuação densa quase à beira do cabotinismo) cuja vida cinzenta se transforma numa rota imprevista rumo à liberdade). Num único filme a jovem actriz entra na divisão maior das actrizes francesas, clube exigente e pouco numeroso.

Eu não sei se basta um filme para marcar um intérprete e tornar lendária uma personagem. Porém, verdade ou não, pouco me importa, isso ocorreu com Ana Karina que na altura andaria pelos vinte cinco, vinte seis anos.

Citei acima algumas actrizes e respectivos filmes onde tiveram uma preponderância marcante. Para, algumas, e basta citar Claudia Cardinale, esse momento de entrada na alta roda do cinema dá-se com “La ragazza con la valigia” teria ela também pouco mais de vinte anos mesmo se já trabalhara com Bolognini ou Visconti sem falar numa breve mas fulgurante aparição em “I soliti ignoti”. O processo foi semelhante com Jeanne Moreau mesmo se até ao “Eva” ela já tivesse filmado com Louis Malle, Vadim, Truffaut ou Molinaro sempre com presenças interessantes mas não ainda com o toque de génio que, nesse filme, também ele hoje esquecido, demonstra.

MS Fonseca, um genial cronista sobre cinema (no Expresso) titulava a sua coluna “o cinema dá o que a vida leva” (creio que era este o nome mas onde estou não tenho possibilidade de o confirmar). É uma verdade imensa que, porém, se âncora num equívoco igualmente grande. Porque o cinema, quer se queira quer não, molda costumes, hábitos e modos de ver. Torpedeia a diferença e constrói uma realidade que não é mais do que uma aproximaçãoo à imitaçãoo da vida.

Provavelmente, temos todos necessidade disso. De sobre a crua vida lhe vestirmos o manto diáfano da fantasia como Eça, sempre esse homem fatal, escreveu.

Ana Karina (e tantas outras) ajudaram-me a viver onde a vida era triste e desesperada. Só isso faz dela uma namorada ideal. E presente, sempre presente.

 

(este texto começou a ser escrito no dia seguinte à morte da actriz. Razões várias, viagens, Natal (ai o Natal! Ai a distribuição das prendas! Ai algumas prendas!...), preguiça (sempre presente, Deus seja louvado), amigos que aparecem inopinadamente à mesa da esplanada onde logo pela manhã me sento a tomar os primeiros cafés do dia, a ler o jornal e a escrevinhar estes folhetins, tudo se conjugou para só hoje, um dia depois das festas acabá-lo e acabar o luto por essa belíssima mulher.)

E já agora para vos desejar a todos um bom ano de 2020, bissexto e tudo. E deseja-lo a sério mesmo se como um verdadeiro “pobre homem de Buarcos” eu desconfie da avalancha de promessas que as ilustres e excelentíssimas autoridades que nos governam prometem. Que não seja pior do que o que passou...