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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

08
Abr20

estes dias que passam 356

d'oliveira

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Diário das semanas da peste

Jornada vigésima terceira

“suddendly last Spring”

mcr, 8 de Abril

 

Os jornais de hoje referem que o pico da crise já pode ter ocorrido. Que estaremos no “planalto” da pandemia e, eventualmente, já no plano da descida. Não se fala de arrepiar caminho, de mandar destroçar as tropas, mas de aguentar só mais duas ou três semanas que em Maio já se poderão comer as cerejas ao borralho ou na rua.

Ninguém mais do que eu estará mais contente. Para privação de liberdade já dei mais do devia, muito mais. Ainda por cima, o tempo de que provavelmente disponho já não é assim tão grande que a idade , mesmo não pesando, ou pesando pouco, tem leis de bronze.

Eu farto-me de acompanhar discussões e palestras sobre esta malvada bicheza que nos caiu em sorte mas seja em que língua for, a música é a mesma: Cautelas e caldos de galinha.

Nada me tira da ideia que sem uma vacina eficaz (e isso demora necessariamente) ou descoberta de terapêuticas que abrandem ou aniquilem o cabrao do vírus, não estaremos muito seguros. Pior: o tempo seco parece ser clemente para o vírus. Ouvi, já por várias vezes, que uma humidade acima dos 65/70% torna o monstrinho quase inerme. Seria essa uma das razões de até agora a África inter-tropical estar, tanto quanto a pobreza, o primitivismo dos sistemas de suade pública e a ignorância da população, relativamente a salvo. Os casos de infecção que se registam são quase sempre importados, ao menos é isso que é noticiado.

Todavia, o barulho à volta do assunto parece ensurdecedor e temo bem que comece a fartar ouvintes mesmo os mais interessados.

De todo o modo, um facto é indesmentível (até na Espanha ou na Itália) há menos novos casos e menos –relativamente- mortes.

Da América, as notícias tremendas dos Estados Unidos e de Nova Iorque, uma cidade que me encantou, já não parecem tão esperançosas. Do Brasil nem é bom falar. Ou melhor: a principal notícia positiva seria a defenestração daquele imbecil chapado que dá por Bolsonaro. Essa criatura é, ela mesma, um vírus. Ao pé dele Trump, outro que nem cheiro, é um génio e um intelectual.

Diz-se à boca pequena que em muitas favelas são os gangues da droga quem está na linha da frente de combate à droga. Pudera! O medo de perder os clientes é neste momento uma pequena garantia para os milhões de favelados. O que me espanta é que até ao momento ainda não se verificou a catástrofe que se anunciava para estas zonas onde o distanciamento social é impraticável, a higiene quase um mito e as defesas sanitárias uma miragem.

Leitores mais velhos terão percebido que o titulo do folhetim, em ingliche e tudo!, traz água no bico. E em dose dupla.

Primeiro, a referencia à peça de Tenessee Wiliams, autor de grande mérito. Depois, ao filme de Joseph Mankiewicz, 1959, com três estrelas de primeiro plano Montgomery Clift, Katherine Hepburn e Elisabeth Taylor que provavelmente tem aqui o papel da sua vida. Aliás julgo que terá ganho um prémio.

Tenho ideia que há na Bertrand uma edição que reúne esta peça a mais duas ou três, entre as quais “Gata em telhado de zinco quente”. A ler, sem falta

O filme poderá andar por aí nas FNACs com o título “subitamente no verão passado” ou “bruscamente...” O argumento tem a assinatura de Gore Vidal e não terá tido o aplauso de Tenessee Williams, não se entende porquê.

E já que estamos em tão singular nome, toca de lembrar Tenessee Ernie Ford, um cantor dos anos 50 que se imortalizou com uma versão extraordinária de “Sixteen Tones” de que vos dou os primeiros versos

 

Some people say a man is made outta mud
A poor man's made outta muscle and blood
Muscle and blood and skin and bones
A mind that's a-weak and a back that's strong

 

É uma belíssima canção sobre o trabalho nas minas e apesar da sua carga ideológica foi um êxito na juventude dos anos de rock.

(em aparte: tenho um disco de T E F ainda em vinil. Não resisti e acabei agorinha mesmo de encomendar uma versão cd. É o mal de estar fechado. A loucura instala-se e senti um desejo absurdo e compulsivo. Ainda por cima tenho um gira-discos excelente onde se podem ouvir os LP. Mas o apetite consumista, cruzado com o confinamento doméstico, leva um pobre homem de Buarcos a extremos)

Leitores, cuidem-se. Não garanto que já se vê a luz ao fundo do túnel, mas estamos perto.

* a vinheta: bronze de Rui Anahori (30x10x6) múltiplo de 5 unidades. Anos 70/80.

 

 

07
Abr20

textos alheios 1

d'oliveira

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Gato num Apartamento Vazio

 

Morrer – isso não se faz a um gato.

Pois o que há de fazer um gato

num apartamento vazio.

Trepar pelas paredes.

Esfregar-se nos móveis.

Nada aqui parece mudado,

e no entanto algo mudou.

Nada parece mexido,

e no entanto está diferente.

E à noite a lâmpada já não se acende.

 

Ouvem-se passos na escada,

mas não são aqueles.

A mão que põe o peixe no pratinho,

também já não é a mesma.

 

Algo aqui não começa

na hora costumeira.

Algo não acontece

como deve.

Alguém esteve aqui e esteve,

e de repente desapareceu

e teima em não aparecer.

 

Cada armário foi vasculhado.

As prateleiras percorridas.

Explorações sobre o tapete nada mostraram.

Até uma regra foi quebrada

e os papéis remexidos.

Que mais se pode fazer.

Dormir e esperar.

 

Espera só ele voltar,

espera ele aparecer.

Vai aprender,

que isso não se faz a um gato.

Para junto dele

como quem não quer nada,

devagarinho,

sobre patas muito ofendidas.

E nada de pular miar no princípio.

 

Wislawa Szimborska, prémio Nobel, traduzida por Manuel António Pina

 

 

 

07
Abr20

estes dias que passam 355

d'oliveira

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Diário das semanas da peste

Jornada vigésima segunda-feira

Mistérios

mcr, 7 de Abril

 

Escrevo aqui, com alguma constância há mais de dez anos. Por várias vezes, sobretudo nos primeiros tempos, confessei quão inepto sou nestas coisas de internet & similares. Não é modéstia, é apenas uma dolorosa constatação. Por exemplo: pôr uma música.

Alguém, simpaticamente, fez-me um roteiro dos procedimentos a levar a cabo. Nunca, mesmo seguindo-os tão à regra quanto possível, consegui resultado que se (ou)visse. Outra alma caridosa, explicou-me que seria por eu usar um apple,  que isso pedia uma operação mais sofisticada. Será?

No que toca a colocar fotografias tiradas com o I Phone, o caso é quase semelhante. Tiro a fotografia, vou ao ícone das fotografia, lá me aparece a minha duvidosa obra, carrego num botão com uma seta, carrego no ícone do mail, identifico o mail do receptor (eu), enter e enviar. Até oiço o barulhinho do envio. Em princípio, instantes depois, a foto chegaria ao destinatário. No caso do meu mail descobri que levava mais de uma hora. Ou que não chegava!

Dir-me-á alguma leitora mais generosa e assídua que eu sempre ilustrei os meus posts. É verdade mas nesses casos eu vou pelas ilustrações à internet e zás! pirateio.

Ora, agora, dada a época de confinamento, deu-me para, usar o que há cá em casa, quadros, cerâmicas, máscaras, livros, estantes, cartazes. Enfim, dava cor local aos folhetins que ia produzindo entre quatro paredes e, ao mesmo tempo, homenageava artistas muitas vezes amigos de longa data. Amigos antigos, perdidos no nevoeiro da morte, da angústia de perdade recordações de um outro tempo mais feliz.

“Olhando para trás, angustiadamente”, enfim, sem especial angustia mas não resisti a recordar esta belíssima peça de John Osborne (está traduzida mas duvido que se encontre mesmo nos alfarrabistas) há já uma longa lista de amigos desaparecidos, alguns bem antes do que seria de esperar. Outros, é o caso do misterioso Luís Guerreiro, contemporâneo em Coimbra que, num dia abalou para as Franças e Araganças, para evitar a tropa, deixando um belo livro (Guia de salto, Centelha, ed, Coimbra 1974). Em 2006, publiquei na minha secção farmácia de serviço (nº 18) um punhado de poemas deste livro que julgo magníficos. Onde para esse gajo? Voltou alguma vez? Ninguém sabe dele. Algum(a) leitor(a) poderá dizer-me algo?

Descubro, agora que, no seguimento do que ontem aqui deixei, já levo treze (ou catorze) anos neste barco. Com o JCP somos, agora os mais antigos, desta tripulação que, no princípio era toda constituída por juristas, sobretudo magistrados do MP, um advogado (o malogrado Coutinho Ribeiro “Carteiro”) e uma psiquiatra brasileira (a Sílvia Chueire) que se juntou à equipagem sabe-se lá como e porquê. É a única “rede social” que utilizo e não faço tenção de me meter em mais nenhuma. Provavelmente, também asnearia forte e feio na tentativa de entrar em qualquer delas.

...........

Estes pontinhos significam que interrompi o folhetim para me queixar à CG destas minhas azaradas tarefas. Ela compadeceu-se e mesmo proclamando alto e bom que isto do apple é uma mania lá conseguiu reenviar-me as fotografias que lhe enderecei.

Subsiste o problema de saber como é que eu transfiro fotografias do telemóvel para o computador sem ter que andar a pedinchar a terceiros um reenvio do mail que contem as fotografias tiradas.

Amanhã dedicar-me-ei a tão instante enigma que por hoje as coisas estão aviadas.

Há uma sugestão de leitura (que aliás aplicarei a mim próprio): “As mil e uma noites”, ed: "E-primatur", tradução de Hugo Maia, directamente do árabe. Em Portugal circulam outras edições, entre elas uma traduzida por Aquilino Ribeiro (quase certamente do francês, provavelmente da conhecida e “traidora” versão de Antoine Galland). Trata-se de uma sumptuosa edição em seis volumes, ilustrada por alguns dos melhores (Bernardo Marques, Cipriano Dourado, Carlos Botelho, Fernando Azevedo, Júlio Pomar e Vaz Pereira). Data de 1958. Aquilino é coadjuvado por Branquinho da Fonseca, Carlos de Oliveira, Domingos Monteiro, Irene Lisboa, José Gomes Ferreira, Manuel Mendes, tudo pesos pesados e ainda por Nataniel Costa e Celeste Andrade). Portanto, mesmo com os pecados gallandianos e a junção espúria de ciclos que nunca pertenceram às “Mll e uma noites” (Ali Babá, Sindbad...), vale a pena se se conseguir arranjar a bom preço.

Com Hugo Maia, a coisa fia fino, muito mais fino: vertidas directamente do árabe ( ! ) e dos mais antigos textos conhecidos, estas noites que não são mil nem nada que se lhes chegue, vem em dois volumes a que, pelos vistos, se juntará um terceiro com notas e tudo o resto.

É curioso notar que o tema tem valido uma imensidade de ensaios e controvérsias as mais variadas a começar pelo famoso texto de sir Richard Burton, o explorador inglês que chegou às nascentes do Nilo, visitou Meca disfarçado e falaria trinta línguas(!!!). Consegui, há pouco tempo, uma versão espanhola da edição italiana Franco Maria Ricci que é apresentada por Jorge Luís Borges. Trata-se de um volume da ed Siruela que entretanto também já só anda em alfarrabistas.

Li-o com alguma atenção mas não traz novidades especiais. De Burton e com textos traduzidos do árabe é preferível "O Jardim Perfumado"

Leitores, isto começa a parecer penoso, o isolamento cansa, irrita, torna-se opressivo. É, porém, o meio mais seguro para combater esta moderna praga e preparar dias mais amenos.

Cuidem-se, engulam em seco, calem palavras mais ríspidas, tentem combater a agressividade dos mais próximos com alguma bonomia. Estamos todos metidos no mesmo barco e para já o que se quer não é um naufrágio mas apenas chegar a bom porto.

*a vinheta Cipriano Dourado, gravura tintada de 1957, o neo-realismo optimista e o Alentejo sonhado. A cerâmica é uma peça de Rosa Cota, e representa a Rainha Santa, Barcelos (?), anos setenta. É um milagre ter durado até hoje sem um arranhão...

 

 

06
Abr20

estes dias que passam 354

d'oliveira

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Diário das semanas da peste

Jornada vigésima primeira

“Wohin gehen wir?

Immer nach Hause.”

(Goethe)

mcr, 6 de Abril

 

Telefona-me a minha Mãe, triunfante “Já estou em casa!”. De facto, no princípio do mês de Março, um pequeno incêndio na caixa da electricidade de um apartamento do prédio onde vive, obrigou-a a refugiar-se em casa do eu irmão pois não havia água, luz, elevador, enfim um incómodo total. A excelente senhora muito a contragosto lá se mudou para uma moradia que tem escadas e que ela já não pode percorrer com o notável à vontade com que ciranda por toda a sua casa.

Já terei dito que a antepassada vai nuns briosos 97 anos, feitos e perfeitos, que daqui a tês meses celebrará o 98º aniversário. É sempre nessas alturas que eu lhe digo que um aniversário apenas refere o passado. Avisá-la-ei, pois que nesse dia em que já poderemos estar todos juntos se udo correr como espero, como toda a gente espera, que entrará no seu 99º ano de vida. Ela, por um lado não apreciará mas por outro, se bem a conheço, sorrirá interiormente por chegar a tão longeva idade com a cabeça a funcionar a 100% mesmo se os olhos já não lhe permitam ler e o ouvido necessite duns aparelhos de que ela não é exactamente uma fã. Também usa uma bengala com tripé o que a não impede de andar por toda a casa que não assim tão pequena, pela varanda e de fazer boa parte da lida da casa. A confiança dela nas empregadas não é especialmente forte o que torna a labuta destas em algo de fácil. Ao falar em empregadas tenho de esclarecer que uma vem duas manhãs por semana e outra, contratada (e desde já paga para tal) para, num futuro incerto e sempre adiado, dormir lá em casa vem nos quatro dias. Ao domingo, não há nada para ninguém, a Mãe desembaraça-se sozinha. Eu não conheço mais ninguém desta idade a viver só. É bem verdade que o meu irmão, que mora relativamente perto, aparece todas as tardes pela hora do lanche e fica cerca de duas horas lá em casa. Eu vou (ia) todos os meses passar quatro dias com ela. E há de tempos a tempos, uma que outra visita de sobrinhas atentas e dedicadas. A excelente senhora lá vai gerindo o seu tempo, queixando-se da velhice (“isto é uma doença”), da falta de olhos pois era uma boa leitora mesmo se nos últimos anos se limitasse a jornais e revistas e à televisão onde não perdia um noticiário.

Aliás, e nessa matéria, recordo que nos anos de brasa, recorria a ela quando me falhava o nome de um Ministro ou de um Secretário ou Subsecretário de Estado. Durante anos, não percebia como é que ela não falhava um nome daquelas sucessivas cabazadas de políticos. Até que ela me elucidou: dividia-os por cabelo curto ou comprido, por bigodes ou não pela indumentária (!!!) (“Coitados, não tem gostinho nenhum!...”) pelo berrante das gravatas, pelo nó delas (“tens de dizer ao teu amigo Graça Moura que o nó da gravata dele é quase maior do que a cara!”). No capítulo gosto, escapavam Álvaro Cunhal e Mário Soares, com uma ligeira vantagem para o primeiro “que não andava sempre atrás da moda” como o segundo (“tu já viste a largura das lapelas daquele casaco?” Ou “mas que ideia tão parva a de usar camisas de riscas com colarinho branco!”).

Agora, aferra-se ao rádio e, logo pela manhã, ao pequeno almoço (quando lá estou), dá-me um resumo completo dos noticiários que já ouviu e das temperaturas previstas para o dia, anotando, escarninha, que o Porto estava mais baixo x graus.

Portanto, e seguindo a máxima imortal de Goethe “para onde vamos? – Sempre para casa,” ei-la regressada a penates. Quando me ligou, disfarçou quanto pode a sua alegria e alívio pois não queria ofender o meu irmão, ou a nora. Todavia, ele, que falou a seguir comigo, aproveitou o facto de ela ser surda e estar sem o aparelho para me dizer quanto ela tinha apreciado o fim do confinamento em casa alheia, já que na sua não se sente confinada pelo simples facto de que desta, há anos, que não sai.

A CG interrompe este monólogo excessivamente filial para me comunicar que a Ordem dos Médicos quer toda a gente a usar máscara. A querida Ordem parece que se esquece de um pequeno pormenor: não se vê uma (1) máscara à venda. Nem luvas, nem álcool a 70%, nada! Mas, kafkianamente avança com a exigência da mascarilha. Eu bem que usaria, quando necessário, ou seja em saídas para comprar víveres, mas nem a peso de ouro as encontro. É verdade que não vou todos os dias à farmácia por várias razões, todas de peso: não preciso de nada, não quero empatar outros clientes mais necessitados e sobretudo à pergunta fatal responde-me a consabida e habitual frase ”não há” ou “não sabemos se vem” ou estoutra “vá passando que pode haver um golpe de sorte, um bambúrrio”

A mesmíssima e excelsa Ordem parece esquecer que uma máscara dura algumas horas, oito dez no máximo se usada com parcimónia. No melhor cenário, teremos o vírus a campear por tudo o que é sítio até finais de Maio. Isto significa pelo menos a possibilidade de adquirir pelo menos dois quarteirões desse artefacto. Não uma, mas cinquenta! A Ordem tem alguma resposta clara para isto?

Com esta melancólica reflexão deixo-vos com um “adeus, até ao meu regresso” como se dizia em tempos maus mas, apesar de tudo, menos assustadores (ai que estou a louvar a “outra senhora”. Credo, Jesus!, Maria!, José!)

Cuidem-se, aguentem que é serviço a vocês mesmos.

* A ilustração: Nikias Skapinakis em todo o seu esplendor. Uma escultura de Rui Anahori, mármore, topo de uma cadeira dogon, livros muitos, fundamentalmente catálogos de exposições. Sempre achei que os catálogos das grandes exposições eram melhores que ensaios monográficos sobre artistas. Também é verdade que, normalmente – mas nem sempre- correspondem a exposições que se viram. O catálogo ajuda a pôr as ideias em ordem e junta à emoção sentida a razão que, como dizia o Cavaleiro de Oliveira, “é preciso dar força à razão para que o acaso não governe as nossas vidas”. Ora aqui está uma boa leitura, própria destes dias tumultuosos. E já que falo disto, há um interessantíssimo autor. Pierre van Paassen que escreveu sobre o período entre duas guerras uma extraordinária reportagem “Estes dias tumultuosos”. Não se lê: devora-se!

E, já agora, na estante fotografada, logo na 2ª prateleira a contar de baixo, junto à parede, está uma pequena preciosidade: “O ciclópico acto” poemas de Luísa Neto Jorge e ilustrações de Jorge Martins, Livraria Galeria 111, Lisboa, 1972. É o nº43 de uma tiragem pequeníssima, 300 exemplares. Comprei-o em 89, dias antes da morte da Luísa que foi um dos grandes nomes da “poesia 61”. Paguei-o forte e feio mas agora o preço com que  anda no mercado é em médi 20 vezes superior mesmo se acomparação simples não queira dizer muto. Ponhamos que se valorizou dez vezes. Infelizmente não comercio em livros (nem em nada, aliás) de modo que não ganho nada excepto o prazer de o folhear, ler aqui e ali. Como investidor sou um zero.

 

 

05
Abr20

estes dias que passam 353

d'oliveira

 

 

 

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Diário das semanas da peste

Jornada vigésima

A floresta esconde as árvores

mcr, 5 de Abril

 

O vírus insidioso ataca tudo, por todo o lado e atira com o resto que é muito, muitíssimo, para debaixo do tapete.

Foi assim que a horrenda façanha de três inspectores do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) passou quase nas entrelinhas e não suscitou mais do que um par de vozes indignadas. Todavia, os factos são medonhos. Um emigrante, porventura ilegal, pretendeu entrar no país via aeroporto de Lisboa. Foi facilmente apanhado e terá alegadamente resistido aos três polícias que o caçaram. E digo caçaram porque de caça grossa aqui se trata. Com as consabidas consequências desse desporto imbecil e canalha, a morte da presa.

Ao que os jornais contam, o homem, um ucraniano, foi levado para um gabinete discreto e aí foi sovado até morrer por três “corajosos” defensores da lei deste país de brandos costumes.

Depois de o terem assassinado, os intrépidos malfeitores, e fizeram um relatório em que o morto tinha sido encontrado na rua já sem vida.

A história deste homicídio seguida deste extraordinário relatório da ocorrência foi facilmente desmontada não sem antes ter sido coberta ou, pelo menos, consentida pelos superiores hierárquicos dos criminosos. É certo que estes dois superiores hierárquicos já se demitiram ou foram demitidos. Também é certo que os três heróis estão detidos nas respectivas casas, no conforto relativo que estes dias consentem. Mas sempre conforto.

Um pobre diabo faz um assalto, é apanhado e pode ir para uma cadeia passar uma temporada antes mesmo e ser julgado. Os três polícias estão no quentinho do lar. Eu não sei se esta prisão domiciliária foi ordenada por um juiz se bem que tudo o leve a crer. O meritíssimo terá entendido que não valia a pena superlotar a prisão com três criaturas que, exaltadas pelo estado de emergência, perderam a cabeça e apenas responderam à agressão do indivíduo vindo lá do Leste. Forçaram um pouco a mão. Ele há azares, imprevistos, sei lá o quê. A falsificação grosseira da morte na rua poe doença aparente não terá sido levada em linha de conta.

Depois, alguma virtude há nesta ocorrência “funesta”. Provou-se que a gritaria dos anti-racistas (e há-os de todos os tipos e géneros, com ou sem razão, com ou sem pretexto político) quando um cidadão negro, um “preto” apanha um enxerto de bordoada dentro de uma esquadra (provavelmente por agredir um inocente membro da PSP) ou na rua não se deve à cor do agredido. As forças de segurança portuguesas também arreiam em brancos, brancos louros e de olhos azuis. Mais, tratam estes mais duramente como se viu. Portento não há rcismo mas apenas uma exagerada ideia de defesa da ordem nas ruas, nos aeroportos mesmo em gabinetes recônditos destes...

No mesmo país de brandos costumes, neste jardim à beira mar plantado, no torrãozinho de açúcar, neste paraíso que acolhe mimosamente os turistas, eis que duas jovens mulheres entenderam matar um pobre diabo que tinha setenta e cinco mil euros frescos a pesar-lhe na carteira. Para o aliviar dos problemas que este dinheiro recente seguramente lhe ia causar, as duas compadecidas jovens, limparam-lhe o cebo e, já agora, retalharam o cadáver, uma cabeça para barlavento e o resto do corpo para sotavento que estamos no Algarve.

Trata-se de duas jovens de 19 e 21 anos, “socialmente inseridas”, sem antecedentes, sem especiais necessidade de dinheiro que, no entanto, “desatinaram” com os 75.000 euros. E “desatinaram” mesmo porquanto ainda o cadáver não arrefecera e já tratavam de transferir o dinheiro para contas próprias, sem perceber, as duas pobres imbecis!, que só isso já era uma pista. Aliás, pelos vistos, não cuidaram de ocultar o cadáver, sequer de o enterrar, de o esconder eficazmente. Bastou-lhes decapitar o finado e deixá-lo em duas zonas distantes, aliás nem sequer demasiado distantes, cem quilómetros talvez.

É claro que eu poderia argumentar que estes dois tristes “episódios nacionais” seriam já resultado do trauma causado pela irrupção do covid entre nós. Do stress do confinamento, da ideia da perda de futuro, do medo do novo mundo que emergirá das cinzas deste...

Infelizmente, a tese não tem pés para andar, a crise ainda vai na infância, por muito que isso nos incomode. Vamos ter emergência, maior ou menor, até à descoberta e aplicação generalizada de uma vacina eficaz. Mesmo se, e inch’ Alah que sim!, que se consiga provar que uma série de medicamentos já existentes (até a velha BCG!) minora ou faz desaparecer os efeitos mais gravosos da doença se é que a não elimina no doente.

Por outro lado, eu gostaria (ou melhor não gostaria mas quereria) de realçar que, em ambos os macabros casos se está perante um vazio moral absoluto a que se acrescenta uma estupidez quase absoluta. E a prova está aí. Ambos os casos foram resolvidos num ápice. OH, quão longe estamos das séries policiais que correm uma boa meia dúzia de canais da nossa televisão. Por exemplo, hoje, domingo lá para as 14.30/15.00 passa mais um episódio da série italiana “Montalbano”, sólidas histórias policiais de hora e meia devidas ao talento de Andrea Camilari, um escritor que está traduzido por cá. E depois não digam que não avisei.

* na ilustração: Andrea Camileri

04
Abr20

Estes dias que passam

mcr

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adenda à jornada 19 do diário das semanas da peste

(e vai dedicadaaos amigos do Chico e em especial ao Alcino)

Pela presente declaração se comprova e dá pública fé que....., além das elevadas qualidades morais que sua mãe sempre lhe reconheceu, esteve presente em corpo e espírito na celebração da passagem do primeiro cinquentenário de Francisco Cordeiro.

Mais se atesta que a participação do titular deste documento certifica perante toda e ualquer autoridade civil, militar ou religiosa, a obrigação livremente assuida, jus et de jure, de continuamente, e por todos os meios ao seu alcance, desde que lícitos, decorosos e constitucionais, dedicar ao homenageado a admiração e inveja (e mesmo alguma amizade) que constituem pressuposto e razão última da sua presença. 

A apresentação deste certificado constitui direito definitivo do titular para efeitos de trânsito, permanência (e abono de víveres) em todos os países com que Portugal mantém relações diplomáticas os quais deverão ainda prestar-lhe, caso sejam solicitados, assistência moral e religiosa.

Não serve de guia de marcha para comboios, aviões, navios e similares nem pode ser usado como comprovativo de idade no caso do titular pertencer ao sexo feminino. 

Obteve-se o imprimatur e todas as restantes licenças necessárias

Lagares da Beira, 3 de Agosto de 1991

Laus Deo

04
Abr20

estes dias que passam 352

d'oliveira

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Diário das semanas da peste

Jornada décima nona

“oftálmicas” (lembrando o Francisco Cordeiro)

mcr, 4 de Abril

 

O Alcino, bom e velho amigo, deixou-me, na papelaria um maço de papéis com coisas escritas pelo Francisco Cordeiro, outro ainda mais antigo amigo. Conheci-o logo nos princípios de sessenta a propósito do associativismo estudantil. O Chico fazia parte da pró-associação de Medicina do Porto, era amigo de amigos e simpatizamos de imediato. Alto, magro, magríssimo, olhos encovados, calvície a despontar, um bom humor a toda a prova e uma cultura excepcional. Como os leitores, decerto, adivinharão, o Chico percorreu o cursus honorum político da época. Conspirou, foi preso, o costume. Fui-o encontrando, durante esses anos de vinho rosas, anos de brasa, de aventura. E quando, finalmente, cheguei ao Porto, reatámos, com maior proximidade, uma amizade que nunca esmoreceu. Quando celebrou os 50 anos, procurou-me para escrever um texto a propósitoda efeméride e que seria a prova de presença de cada um dos convidados. Assim fiz, e parece que ele ficou contente. Publico-o em separado (anexo à jornada 19). Infelizmente, pouco tempo depois, morreu subitamente ao fazer a barba e deixou os textos que irei ler, logo que as fotocópias estejam prontas. A única vez que li alguma coisa dele, fiquei fortemente impressionado. O Manuel António Pina, nosso comum amigo, era da mesma opinião mas razões que já não recordo deixaram o primeiro projecto de publicação em águas de bacalhau. Eu, sempre que apanhava o Alcino Loureiro ou a Manuela Melo insistia na urgência de ver os textos para perceber se havia possibilidades de os publicar. Eles concordavam mas nunca se andou para a frente. Amanhã irei finalmente lê-los, com os olhos embotados pela comoção e pela saudade.

Todavia, isto nada tem a ver com o título ou, melhor, com a palavra “oftálmica”. Quem me conhece já sabe que aí vem historieta, claro.

E começo por mim. 1960/1 o meu ano de caloiro. Não demorei sequer uma semana a descobrir que ao lado da faculdade de Direito, monumento nacional como nos lembrava o Doutor Carlos Moreira, o “Zé do Caco” (usava um monóculo) quando nos queixávamos do frio que se rapava naquelas salas imensas, estava a de Letras, pejada de raparigas e com um bar onde se podia ir por uma bica. Afreguesei-me num ápice. Ora, durante as horas que ali passava amesendado, habituei-me a ver uma bela, belíssima, caloira de Germânicas que aguentava a pé firme, sem pestanejar, os meus olhares mais fatais, concupiscentes e persuasivos. “Está no papo” dizia-me a mim mesmo. Faltava o principal, alguém que nos apresentasse, que naquela época aquilo era assim mesmo no embiocado país que era o nosso (e vosso, leitores mais novos que não imaginam como era “o incrível país de minha tia, trémulo de bondade e aletria”((Alexandre O’ Neil)). Este alegado derriço à distância acabou abruptamente quando alguém me disse que aquela jovem de belos olhos e olhar colaborante era mais míope do que uma toupeira. Não usava óculos por garridice.

Passemos ao Chico daqueles mesmos anos. Pelos vistos, também ele, tinha o hábito de trocar olhares ferozmente incendiários com qualquer exemplar do sexo feminino que lhe estivesse ao alcance do olho brejeiro e, vamos lá, merecesse o esforço. O Chico, mais inventivo do que eu, chamava a isto praticar “oftálmicas”. Com mais outra diferença. Ele não tentava namoriscar os alvos que eventualmente lhe aguentassem o olhar fulminante. Era o jogo que lhe interessava mais do que o resultado final. Alguém, um dia, quis apresentar-lhe uma moçoila de muito bom ver e o Chico indignou-se. “Que não, que não, que, assim. aquilo perdia a graça e o mistério”.

Foi ele, que, anos mais tarde, me explicou que, dada a minha história abortada no bar de Letras, também eu era um praticante de “oftálmicas” ou, pelo menos, merecia ser considerado um aspirante a tão complicado desporto. Fiquei comovido e disse-lho, acrescentando que ignorava quase tudo da prática e tudo, absolutamente tudo, da teoria. E o solícito “olhador” começou a dar-me um curso intensivo, dizendo que aquilo era como o “bumburismo”, ou seja a criação de um amigo imaginário a quem recorremos quando alguém nos quer chatear com convites que não desejamos. A teoria é explanada na peça de Óscar Wilde, “A importância de se chamar Ernesto”, uma leitura aprazível para estes tempos miseráveis. Ora aqui está mais um livro que, averiguei agora mesmo, está na “wook”. Leitores, cuidem-se, aguentem, não deprimam, não dêem hipótese a essa bicheza (se bicheza é) do covid. Ignorem-no olimpicamente como em “Os marcianos divertem-se” de Frederic Brown, colecção Argonauta, Livros do Brasil . Esta é uma recomendação à leitora que me tem por elitista. Um elitista que lê ficção científica!

* a ilustração: De cima para baixo: masc. UBI (Costa do Marfim), BAÚLÊ (Mali), GURUNSI (Burkina Faso), BOZO (Mali), TSCHOKUÉ (Angola. Lunda) Não estou seguro mas o bronze (casal dos primeiros antepassados ) será do Mali e da etnia DOGON. A figura armada, pau preto, é MAKONDE (Moçambique norte ou Tanzânia sul). Ao lado, e antes que me perguntem, estante dos dvd de filmes americanos. E depois parte da estante dos livros sobre África. 

04
Abr20

Um país mobilizado

José Carlos Pereira

Na edição online do jornal "A Verdade", publico hoje um artigo de opinião sobre o modo como está a ser enfrentada a luta contra a Covid-19:

"A renovação do estado de emergência não surpreendeu ninguém na fase em que nos encontramos da luta contra a Covid-19. Presidente da República, Assembleia da República e Governo permanecem alinhados num amplo consenso quanto aos instrumentos necessários para travar a propagação do vírus e os efeitos da doença que se abate sobre muitos milhares de portugueses.

O Governo tem agora caminho aberto para aumentar as restrições à circulação injustificada, reforçando inclusivamente as penas contra as violações que venham a ocorrer, para reforçar os apoios necessários aos hospitais e demais equipamentos de saúde, incluindo-se aqui os lares onde residem milhares dos nossos cidadãos mais velhos, bem como para intervir nas relações de trabalho, seja redobrando a fiscalização de despedimentos, seja limitando alguns direitos dos trabalhadores, que poderiam ser um obstáculo sério em alguns sectores.

A maioria dos portugueses tem feito, em várias sondagens, uma apreciação bastante positiva da actuação dos titulares dos órgãos de soberania, particularmente do primeiro-ministro e do Presidente da República, no modo como têm enfrentado uma crise que é sanitária, mas também económica e social. E eu subscrevo essa opinião maioritária.

Nenhum país, nenhum governo poderia estar preparado para um embate desta dimensão. O nosso excelente Serviço Nacional de Saúde (SNS), dotado de profissionais tantas vezes exemplares, não podia estar preparado para receber um número tão elevado de doentes, muitos deles necessitados de cuidados extremos. O país, com uma mobilização extraordinária de todos, públicos e privados, procura agora disponibilizar aos profissionais os meios suficientes para que possamos lutar, com a confiança possível, contra a Covid-19. Isto num momento em que a concorrência entre países é enorme e a dependência face a fornecedores, muitos deles sem escrúpulos, é total.

Também a nível económico e social, o Governo tem implementado as medidas possíveis com os meios à disposição. Numa altura em que ainda se discute de que modo a União Europeia poderá apoiar os estados membros, sem consenso à vista, o Governo português tira partido das boas execuções orçamentais dos últimos anos para poder apoiar empresas e trabalhadores, muitos deles a verem repentinamente terminar os seus vínculos laborais.

As medidas de apoio directo ou as linhas de financiamento garantidas pelo Estado são instrumentos colocados à disposição de empresas e trabalhadores, de modo a conter os efeitos nefastos da crise. Essas medidas podem certamente melhorar e corrigir assimetrias que ainda se fazem sentir, contando para isso com a flexibilidade de que o Governo já foi dando provas, mas é evidente que não é possível dar tudo a todos. Além do mais, convém não esquecer que tudo aquilo que hoje for dado terá de ser pago amanhã.

Não é admissível, como alguns vieram defender, que o Estado se substitua às empresas e pague por inteiro os ordenados dos privados – seriam 1,6 mil milhões de euros por cada mês! Como também não é de todo razoável reivindicar apoios para empresas de duvidosa viabilidade, que já foram somando no seu percurso dívidas ao fisco e incumprimentos bancários.

Ao Governo exige-se que esteja atento e totalmente disponível para ir acertando as medidas à medida que o tempo passe e que os efeitos da crise se avolumem. Os serviços públicos devem estar focados na agilização dos procedimentos necessários para que o dinheiro chegue rapidamente às empresas. Os dinheiros dos fundos europeus devem ser disponibilizados com celeridade. As dívidas às empresas devem ser saldadas de pronto, injectando dessa forma liquidez na economia. Em Bruxelas, António Costa terá de continuar a lutar por uma solução financeira à escala europeia.

Como nos têm dito, Abril será um mês essencial na luta contra o coronavírus. É fundamental que cada um de nós faça a sua parte para que a propagação da doença fique contida em patamares que permitam uma resposta eficaz do SNS. Claro que haverá muitas mais vítimas e os nossos familiares e amigos sofrerão com isso, mas temos de nos unir e de mostrar que somos capazes de vencer o vírus. Logo a seguir, cá estaremos para reerguer o país e ajudar a ultrapassar a recessão económica e a crise social que já atingem Portugal, a Europa e o mundo em geral."

03
Abr20

estes dias que passam 351

d'oliveira

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Diário das semanas da peste

Jornada décima oitava

Ora dizes tu ora digo eu

mcr, 3 de Abril

 

isto começa a parecer um labirinto. Ninguém, com autoridade clara e indiscutível, explica exactamente um par de coisas simples.

Comecemos pelas máscaras. Sim ou não? Já ou só depois de estar infectado?

Até, ontem, a maioria, senão a quase totalidade, apontava para o uso só depois de estar infectado. E argumentavam: a máscara protege não o infectado mas os que lhe estão próximos, os que cuidam dele, o ajudam, lhe trazem a comida etc...

Os ainda sãos não devem usar máscara porquanto é inútil e dá uma falsa sensação de segurança.

A CG que desde que se levanta até à hora do leitinho, xixi e cama, anda numa sarabanda com o telemóvel a espreitar as notícias, avisou-me, há minutos que a OMS recomenda o uso generalizado de máscaras, doentes e não doentes, efe erra á e pilinhas de fora! Que as anteriores recomendações de não uso de máscara se deviam pura e simplesmente à escassez delas!!!

Claro que vou tentar confirmar isto, no noticiário da uma da tarde e nos seguintes. O “Público de hoje, 3 de Abril, é omisso a este respeito.

Ponhamos que é verdade o recado da CG. Máscaras, máscaras, máscaras. Primeiro problema, onde é que as há à venda. Eu não ando todos os dias acorrer para a farmácia, mas das duas vezes em que lá fui, de máscaras nem a sombra, idem para as luvas, o mesmo para o álcool. Vá lá, venderam-me um gel pequenino que há de dar para no máximo, e poupadinho, uma semana.

A segunda notícia estarrecedora é a de que a regra de manter uma distância conveniente (digamos dois metros) de outra pessoa não serve. O vírus, sempre a CG e as suas fontes, pode atingir-nos a oito metros de distância. É verdade? Se não é que fazer a quem põe estas notícias. Poderemos fusilá-lo provisoriamente?

Ferrar-lhe um enxerto de bordoada? Mandá-lo por umas semanas para a enxovia? Ou basta uma multa relativamente pesada?

O Senhor Presidente da República perorou longamente sobre o 2º Estado de Emergência. Não vale a pena tentar explicar que mais de cinco minutos adormece o ouvinte, pelo menos distrai-o. Depois, os comentadores aparecem e dizem se sua justiça. A seguir virão os político e finalmente ouvir-se-á o povo ou alguém que se assume como tal.

Entretanto, e ainda sobre o discurso à Nação de S.ª Ex.ª, temos que “esta é a mais grave crise nos últimos 45 anos”. Ou seja, desde 75, o ano do Verão quente, que por enquanto está ainda só a 44.

Parece que também há quem fale nos dias que antecederam antes do 25 de Abril de 1974. Lamento muito, mas nem no estertor do Estado Novo, com a guerra no horizonte de todos e no presente de muitos, vivemos tempos assim, tão angustiantes, tão indefesos, tão falhos de soluções. S.ª Ex.ª poderia ter falado da gripe asiática que, nos idos de 57, também não foi pera doce, da gripe “espanhola” que produziu uma hecatombe a que se seguiu logo outra com o tifo que matou, em Portugal milhares de pessoas (1917-18). Quando fui tratar de re-arranjar o jazigo, descobri que além da minha avó Dora, estava lá um caixãozinho de criança, datado de 1918. Trata-se, julgo, de um primo afastado que estaria em Gaia por qualquer motivo. Teria poucos anos, oito se bem recordo.

Portanto, não me pareceu brilhante a ideia de estarmos perante uma crise como já se não vi desde há quarenta e cinco anos. Sejam quais forem os perigos que S.ª Ex.ª viu há quarenta e cinco anos, nenhum é comparável a este rufar de medos, boatos, impotências várias, que acontece por todo o mundo e que tem um rasto de um milhão de mortes.

E depois, não é só esta perplexidade quanto ao “pico” da crise, quanto ao regresso à normalidade possível. Todos os dias nos falam de uma nova data, de um carregamento de testes, máscaras a chegar, da hipótese de medicamentos que atenuem mesmo se não curam definitivamente a infecção. Neste ruído de fundo, é difícil perceber onde estamos se é que estamos em parte alguma e não no meio do mar tenebroso à mercê de um Adamastor que também não vemos mas tememos. A isso a esse medo difuso, junta-se, cada vez mais evidente, a incerteza sobre o emprego, sobre os postos de trabalho, sobre a produção. A crise económica virá sem dúvida mas qual será a sua dimensão e sobretudo a sua extensão. Que meios teremos para reerguer uma economia que já há muito tinha pés de barro que vibrava sob a pressão do turismo, a “indústria” mais efémera e insegura que há.

Junte-se a estes dois e diferentes terrores o stress do confinamento, que isto de estar fechado numa casa com a família toda a todo o momento não é nada fácil. Basta que alguém entre em depressão para os equilíbrios frágeis se perderem. Psiquiatras e psicólogos vão ter muito com que se entreter.

Eu não falo pr mim. Somos dois, vivemos num apartamento muito grande, lá nos vamos organizando tant bien que mal. Agora, há meia dúzia de dias, descobrimos o take away trazido a casa, a lavandaria aberta onde levar a roupa para ser passada a ferro pelo que as tarefas domésticas estão mais simplificadas. Ou estariam não fora a CG ter, desde sempre, a mania de lavar o lavado, o raio da criatura não para. Agora descobriu que os quadros (e são umas boas dezenas!) poderão estar cheios de pó por cima. E pimba, toca andar com um dos escadotes dos livros, empoleirada, de pano húmido de água e lixívia a dar-lhe forte e feio. Ontem, veio uma empregada fazer uma limpeza forte. Perdeu a manhã a limpar estantes, nunca os livros foram tão “higienizados”. Também passou o espanador pelos discos e promete voltar na próxima quinta feira para continuar a nobre batalha. Aspirou com valentia e violência alguns tapetes que parecem novos e os vidros das janelas perderam aquele ar entediado e sofredor que quatro semanas sem cuidados lhes tinham dado. A CG exultava e decidiu pagar-lhe o dobro do que ela pediu. A pobre senhora resistiu heroicamente mas finalmente aceitou com a condição de na próxima jornada de trabalho se pagar apenas o que ela acha justo.

A propósito do take away , as refeições vem de um restaurante onde vezes sem conta não consegui marcar mesa. A comida é excelente, boa e velha cozinha portuguesa, sem arremedos de “nouvelle cuisine”, “veganismos”, cozinha de autor e outras balelas que não suporto. E ao encomendar tenho a saudável sensação que estou a contribuir para manter uma pequena empresa, a garantir salários, postos de trabalho. Por isso vou todos os dias pelo jornal, à papelaria e por fruta, legumes e outra pequenas coisas a um “mercadinho do foco” que também não se rende. Entreguei em cada lado algum dinheiro e assim não mexemos nele. Quando estes adiantamentos estiverem no fim , novo carregamento e nova rodada.

Só o café me desconsola. Eu trago em cima dos lombos antigos e vergados, milhares de bicas tiradas em centos de cafés e pastelarias. Estas cápsulas do nespresso & similares poderão ser fabricadas com os melhores cafés, das melhores colheitas mas falta-lhes qualquer coisa. Se calhar tenho um paladar habituado à ordinarice, serei como os antigos amantes do tinto carrascão em copos de três. Copos mal lavados, carregadinhos de vírus menos fdp, a vozearia dos beberrões ou, no Alentejo, o cante, ai o cante. É tempo de me entreter a ouvir os cds alentejanos, bom jazz, melhor ópera enfim muito rock n roll, tudo. Nisso, a televisão é boa companhia, sobretudo o canal “Mezzo”, vinte e quatro horas de música variada. Ainda ontem, ouvi pela quinta o sexta vez, a nona dirigida por sir Simon Ratlle, gravada em no Barbican há pouco mais de um mês.

Também a RTP 2 consegue a proeza de trazer alguns programas interessantes (não todos, claro) e há as séries policiais nos AXN e companhia. Com jeitinho e paciência passa-se bem. Também é de referir mas isso é para quem ainda não esqueceu o franciu dois canais franceses, TV 5 e ARTE. E mesmo as televisões de notícias em contínuo mostram-se quando querem. Ontem vi uma longa entrevista com um cientista Pedro Simas de alto lá e para o baile. O cavalheiro é bom, fala com clareza e simplicidade, ensina sem arrogância e inculca serenidade e confiança a quem o vê/ouve. Chapeau!, doutor, assim, sim. Obrigadinhos...

A gata Kiki de Montparnasse acaba de chegar. Deu a volta ao bilhar, pulou para um maple e daí para obilhar propriamente dito e espojou-se dengosa à spra que eu lhe vá fazer festas. O que será para já. Não podemos deprimir uma gata.

Leitores,cuidem-se. Para os mais corajosos, uma leitura imprescindível “A Odisseia” na tradução de Frederico Lourenço. Isto, se a curiosidade vos não devorar, dá para três boas semanas de Abril . Se o pé vos pxa para a ficção, eis um livro extraordinário, bom, divertido que narra uma temporada galega em que achuva não para nem esmorece “Mazurca para dois mortos”.de Camilo José Cela Ainda deve haver na wook.

* a ilustração de hoje um canto da sala com parte dos discos de jazz. O quadrinho que se vê é do Siné, um autor colérico, generoso e divertido que foi uma referencia a partir dos anos sessenta.