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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 617

mcr, 21.04.24

De minibus curat pretor?

mcr, 21-4-24

 

 

O sr. tenente coronel Vasco Lourenço, auto proclamado representante da "revolução dos cravos veio, outra vez dizer o habitual par de banalidades que usa desde sempre para falar da sua  posição sobre Abril. A criatura vai-se repetindo, ano após ano graças a jornalistas com pouca imaginação que sabem que ali tem sempre uma dúzia de narizes de cera sore a aventura dos "capitães" de Abril. 

Desta feita o entrevistador de serviço escolheu para realçar a chamada à leitura  pouco entusiasmante do monólogo de VL  a frase " os verdadeiros pais da democracia são os capitães de Abril". 

(Quanto às mães nada!)

 

Digamos que, a propósito da jactância do brioso militar, Brecht escreveu o poema "perguntas de um operário leitor" de que só cito um par de versos. 

"César bateu os Gálios.

 Não ter consigo um cozinheiro ao menos?" 

Conviria lembrar, se é que vale a pena, que juntamente com os militares profissionais de que VL faz parte marcharam umas dezenas de jovens oficiais milicianos bem como uma chusma de soldados que faziam o smo.

 

Pelos vistos não partilham a paternidade de VL  mesmo se, como foi o caso, quase todos soubessem o que arriscavam

Também, pelos vistos, no país que sofria as agruras de um regime implantado por militares (os de Maio, sustentado anos a fio por esses mesmos cavalheiros) ninguém se incomodava. 

Ora, correndo o risco de me auto elogiar (eu e milhares de companheiros, colegas e amigos da mesma idade de VL que, desde 1960 fazíamos o que podíamos nas universidades mas não só)contra  o Estado Novo) mesmo sem querermos ser pais, mães, tios, avós ou sequer primos da Democracia versão Lourenço, nunca nos negámos aocombate. É verdade que não tínhamos armas, nem provavemente as saberíamos usar, ma passamos pelas cadeias políticas  vezes sem conta, andámos na clandestinidade, em fuga, no exílio ou, ironia da sorte muitos foram mobilizados e morreram em África ou de lá regressaram fortemente traumatizados.

Mas além desta malta da minha geração, outras houve, e desde o dia 29 de Maio de 1926 que se opusera, que lutaram, que resistiram, que deram com os ossos no Tarrafal ou em Peniche  sem que os militares da altura e mesmo os do tempo do sr tenente coronel se dessem por achados,

Convenhamos, demorou muito tempo, pelo menos uma boa dúzia de anos para que, finalmente, no seio da tropa, despontasse um movimento que começou como se sabe por questões de estatuto militar e que, graças a uma guerra que paulatinamente assumia proporções de tragédia (portuguesa e africana) e que era condenada em toda a parte, para que os que tinham armas, conhecimento delas, tiopas ao dispor se fartassem, se indignassem se revoltassem.

Ninguém nega ao sr. tenente coronel Lourenço e a todos (todos, todos...) os que marcharam na noite de 24 para 25 até Lisboa um aplauso e a gratidão que logo e revelou nas ruas de Lisboa  e do resto do país logo que começaram a ouvir-se as primeiras (e confusas) notícias. 

No Largo do Carmo, e nas ruas que para lá convergiam ainda Salgueiro Maia não tinha mandado disparar um só tiro e já uma multidão de paisanos se aglomerava, se pendurava nos tanques, oferecia cigarros e comida aos soldados e berrava a plenos pulmões contra a GNR, o regime, Marcelo Caetano  enfim clamava, aplaudia a liberdade que ainda parecia duvidosa. 

O programa do MFA transmitido pela televisão ao inicio da noite era, queira VL ou não um punhado de boas intenções mas não um verdadeiro projecto de Democracia. Até ali tudo o que se proclamava cheirava a mero golpe de Estado mas não a revolução democrática. Nem sequer estava clra a libertação ds presos políticos que, aliás, ainda andou embrulhada numa estúpida distinção entre crimes ...

O MFA iniciou um processo que num par de meses se transformou em Revolução. Esta foi-se fazendo ao longo de tempos nem sempre fáceis e em boa verdade só depois de Novembro do ano seguinte, começou a ser  pensada e reconduzida a estrictos caminhos democráticos. E mesmo depois, já com uma Constituição, eleições, Governos  ainda houve uma forte intromissão dos putativos pais da democracia  ou de quem era seu delegado (refiro-me ao Conselho d Revolução de que VL foi membro até à sua tardia extinção)tenente  

 Por outras palavras, os militares tardaram em regressar aos quartéis. E não foi por acaso que até a Presidência da República  foi primeiro (e por duas vezes) disputada por militares.

o tenente coronel Vasco Lourenço pode não ter tido a oportunidade de se distinguir como Salgueiro Maia, Otelo (que depois deu no que deu...) ou Melo Antunes. 

De todo o modo sobreviveu a todos e é o presidente da Associação 25 de Abril. Todavia, é ele quem todos os anos distribui os louvores e as repreensões  aos políticos. É provaável que estes façam orelhas moucas ao papel deste censor das sensibilidades democráticas mas  enquanto houver jornalistas sem assunto e lugares comuns para debitar teremos e sempre na mesma data Vasco Lourenço

Seria bom que alguém lhe explicasse que os movimentos colectivos são isso mesmo, colectivos sem pai nem mãe ou então com uma gigantesca quantidade de actores que felizmente não se atribuem mais louros do que os devidos

E, já agora, seria igualmente interessante que alguém lhe dissesse que foram militares e quase só militares os fautores do 28 de Maio, os protectores do dr Salazar, os defensores do regime por ele instituído e, durante largas dezenas de anos os beneficiários desse regime. Depois, uma guerra inútil e fora do tempo, lá os foi lentamente convencendo de um par de verdades contemporâneas. Mas demoraram bastante tempo a percebê-lo

 

(o título deste folhetim refere uma famosa frase jurídica "de minibus non curat praetor" que significa que o julgador não trata de trivialidades. Porém,  eu estou como o jornalista sem novidades. E não tendo o bey de Tunes à mão socorri-me da prata da casa. )

estes dias que passam 900

mcr, 17.04.24

Onze anos depois 

(ou cinquenta e cinco ou mais de setenta)

mcr, 16-4-24 

 

 

Falta pouco mais de uma semana para os festejos do cinquentenário. 

Por razões que não vale a pena esmiuçar caí num texto meu de 13 de Agosto de 2013. Reli-o e achei que republicá-lo sem alterar uma vírgula seria uma boa maneira de começar a referir-me a esse dia antigo e justo.

E, entretanto, pergunto-me se o menino referido que se chamaria Joel  realizou ou está a realizar alguns dos seus sonhos.

Sonhos simples, decentes, que num país civilizado, europeu, no sec XXI pareceriam fáceis  de se tornarem em realidade. 

Tenho porém um mau feitio que a idade só tem agravado e temo bem que aquele grito de alarme televisivo e posteriormente o meu post tenham sido engolidos pelo nevoeiro. 

 

 De todo o  modo, amanhã, 17 de Abril passa mais um aniversário do início da crise de 69. Recordo, entre tantos papéis publicados um que falava dos "companheiros de bibe e pião" que a nossa geração vira ficar pelo caminho.

No meu caso, dos meus colegas da quarta classe só eu cheguei à universidade. A grande, esmagadora maioria ficou-se pela pesca artesanal ou longínqua e alguns, raros, terão tido pequenos mas meos arriscados trabalhos e empregos. Não é exactamente um remorso o que sinto mas apenas um sentimento absoluto de revolta que o tempo  (e neste caso já lá vão mais de setenta anos...) não conseguiu apagar. Eis o texto que reencontrei

 

 

 estes dias, 297 13-8-2013

 

  

Mal, muito mal,

 

Meu caro Portugal

 

 

 

Ai Portugal se ao menos fosses só três sílabas, sul sol e sal, escrevia alguém, assim ou parecido, já não recordo e daqui deste lugar diante do mar, destino antigo, fado nosso, agora só bom para turistas de pé descalço e esgoto, quero escrever sobre o menino, ontem entrevisto na televisão.

 

A história é simples:

 

Um miúdo, que vive em cu de judas mais velho, para lá duma serrania de que esqueci o nome, um miúdo de dez anos brinca com o telemóvel enquanto guarda um cento de ovelhas pertencentes(?) à família.

 

O garoto é esperto, rápido na resposta e, segundo testemunhos familiares, bom aluno. Vai entrar no 5º ano com uma média de quase 5. Quer ser algo mais e algo melhor do que pastor de cabras numa montanha antiga e íngreme. O pai – e um irmão que também falou – querem para ele as oportunidades que não tiveram. E têm orgulho no pequeno que guarda bem o rebanho enquanto num caderno fatigado vai fazendo contas “para não esquecer o que já aprendeu”.

 

E sonha em ir à praia que nunca viu mas imagina (ou sabe pela televisão) que tem água, “muita água, gente, areia e sol”. E, sonha, porque não?, em ir ao centro comercial onde há “lojas de roupa e de brinquedos”. Detrás do adulto à força espreitam dez intensos anos e um horizonte de brincadeiras.

 

Mas, entretanto, enquanto o Verão vai correndo, ele tem cabras todo o dia, o caderninho das contas para ”se não esquecer”, um telemóvel onde joga algum jogo e a montanha desumana, íngreme e quente.

 

Ao domingo, brinca com os primos... E, como no poema de Prévert, ou quase, não tem tempo para se aborrecer por saber que a seguir vem uma segunda feira de cabras, monte, canseira e o temor de algum lobo à espreita.

 

Que merda de país é este onde um menino, muitos, demasiados meninos, não têm outras férias que não estas de trabalho adulto e estes desejos tão simples, tão pueris, de ver um centro comercial e uma praia onde há areia, gente e muita água. E ele lá atrás das montanhas que se orgulha de saber nadar...

 

Oiço, irritado e triste, uns políticos quaisquer (neste momento um rapazola do PPD, outro do PS logo de seguida e finalmente uma rapariguinha do bloco todos a “mandar vir” um par de ninharias, dois narizes de cera, um chorrilho de imbecilidades que, todas espremidas, não dão água que valha para matar a sede a uma cabra no monte para lá do sol posto onde um pequeno cidadão escreve números num caderninho e sonha com o mar, tanto mar e um pobre brinquedo à venda numa loja de um centro comercial.

 

Desculpem se isto vos parece piegas ou, pior, populista. É que, às vezes, o cronista, para não começar seriamente a bater esta gentalha a tiro de caçadeira, tem de olhar para o lado para um cachopo com um metro e pouco de olho azougado e que se chama, será assim?, Joel, Joel guardador de rebanhos.

 

E sonha um mundo melhor. Mas, logo de seguida,

 

“E eu pensando em tudo isto,

 

fiquei outra vez menos feliz...

 

fiquei sombrio e adoecido e soturno

 

como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça

 

e nem sequer de noite chega...”

 

(Pessoa/Caeiro “o guardador de rebanhos, IV, in fine)

 

   

 

 

Estes dias que passam 899

mcr, 14.04.24

Será o Irão um tigre de papel?

mcr, 14.4.24

 

É o provável que os meus leitores não conheçam ou já não recordem a expressão "tigre d papel" que Mão Zedong (Mao tse tung) utilizou para caracterizar os Estados Unidos.

Estava-se em pleno tempo do conflito sino-soviético e Mao terá tentado troçar dos dirigentes da URSS e do seu alegado respeito pelas bombas atómicas do arsenal americano.

Os soviéticos teráo ripostado com algum humor dizendo que o tigre americano poderia ser de papel mas tinha dentes atómicos. 

tantos  anos depois, ocorreu-me que o Irão ao atacar Israel provou ser algo semelhante. De facto com trezentos drones, misseis balísticos e de cruzeiro praticamente todos abatidos antes mesmo de chegar aos céus israelitas a sua vingança depois de Damasco não terá impressionado ninguém mesmo se a sua acção alucinada deixe um rasto de questões e de ameaças quanto a uma guerra regional. 

Na verdade não só não surtiram efeito as ameaças aos países vizinhos de Israel que permitiram ou se resignaram a ver o seu espaço aéreo sulcado por aviões israelitas  (e isto depois das ameaças específicas de Teerão) que interceptaam com inegável eficácia a grande maioria das armas iranianas mas sobretudo fizeram com que o mundo não aplaudisse ou mesmo condenasse a acção dos militares iranianos que, ainda por cima celebram uma "grande vitória" por terem atingido uma base aérea no Neguev. Para já a base manteve-se em actividade e, pelos vistos, nenhum dos aviões (que provavelmente estariam no ar ou noutro sítio) foi destruído. Em segundo lugar, o Irão que nunca foi especialmente estimado pelos países do Médio Oriente  concitou as críticas de todos eles e terá mesmo levado alguns (quase todos) a "conversar" com Israel. 

No resto do mundo também não se anunciam apoios significativos à descerebrada tentativa iraniana. E é provável que mesmo as milícias que no Líbano, na Síria ou no Iémen lhe servem de aliados não se sintam particularmente felizes porquanto será sobre elas que recairão as bombas hebraicas. Isto se Israel não ripostar directamente contra a república dos ayatolahs. 

E aqui lembraria que por um lado os locais de tratamento de urânio são mais que conhecidos mas sobretudo que Israel tem dentes atómicos

Finalmente a desastrada intervenção aérea proporcionou uma nova e generalizada  vaga de apoio a Israel e mais uma vez dá-lhe mãos livres para o derradeiro assalto ao sul de Gaza. 

Eu não sou militar, muito menos especialista em questões deste teor mas depois de ouvir alguns peritos de várias nacionalidades começo a suspeitar que o milhão de militares iranianos  não seja eventualmente algo de especialmente perigoso.

 

Isto não significa que subitamente eu me esqueça do que em posts recentíssimos disse sobre Israel. Disse o mantenho todas as acusações feitas. 

Todavia, sobre o estado islâmico iraniano não tenho qualquer espécie de  simpatia, bem pelo contrário. E nisto, creio que estou de acordo com a maioria dos países árabes (todos sunitas) que não se comoveriam com a derrota, uma pesada derrota, dos iranianos E junto a esses o Afeganistão dos talibans ou o Paquistão, países ultimamente atacados por iranianos.

E também não creio que a Rússia corra em socorro do seu fornecedor de drones. Tem mais com que se preocupar com a Ucrânia. 

Sem rentar ser irónico, verifico que o sr Presidente da República convocou o Conselho de Defesa Nacional... 

o leitor (im)penitente 267

mcr, 12.04.24

Terra desolada*

(a propósito de Eugénio Lisboa)

mcr 12-4-24

 

"abril é o mais cruel dos meses, germina

lilases da terra morta, mistura

memória   e desejo, aviva

agónicas raízes com  a chuva da primavera

.................

(T S Elliot, "A Terra desolada, trad. de Ivan Junqueira

Nova Fronteira ,Rio de Janeiro, 1981)

 

Morreu anteontem Eugénio Lisboa, um dos mais importantes intelectuais de Moçambique (pré-independência), afastado da terra onde nasceu, onde resistiu, onde deu a conhecer autores também nascidos  nessa margem do Índico e igualmente maltratados por um poder autocrático, absurdo e, sobretudo, estúpido,  cuja governação ainda hoje assombra o território, sobretudo o norte.

Tirando o consulado de Joaquim Chissano, meu colega de liceu, no 2º ciclo, as desventuras do povo de Moçambique foram e são (ainda) muitas e trágicas.

ainda por estes dias um barco de pesca carregado de refugiados do cólera naufragou à vista da Ilha de Moçambique  deixando na baía mais de cem vítimas.

E quando não é doença, é a fome e sobretudo a guerra larvar que contamina toda a extensa zona de Cabo Delgado e ameaça as terras de Nampula.

Um Governo impotente para deter uma pequena seita islamista e fanática, obrigado a pedir ajuda a tropas de países vizinhos, a braços com mais de meio milhão de deslocados, eis o dramático panorama de uma terra  que poderia ser feliz, rica e livre.

Eugénio Lisboa, nascido na então Lourenço Marques, num bairro branco mas periférico, habitado por colonos pobres, engenheiro de profissão deixa uma vasta produção literária de notável qualidade onde, para além dos estudos sobre Régio, abundam crónicas, poemas, ficções e uma notável autobiografia  ("Acta est fábula, memórias", Opera Omnia, Lisboa) narra  no vol III,  a partir da p 423 os surpreendentes mas dramáticos anos de 1974 a 76 que a partir de uma esperança de descolonização necessária e sensata descambaram numa temporada de insânia onde, lado a lado, comungaram os brancos mais burros e incapazes com os africanos mais exaltados e radicais. Juntos conseguiram  tornar Moçambique num país que ainda não conseguiu escapar à situação de Estado quase falhado.

É verdade que uma boa parte dos portugueses que abandonaram o território (e muitos nem esperaram pela independência para o fazer)  tinham razões (más) de sobra para o fazer. Não lhes passava pela cabecinha ignorante e racista a ideia de serem governados pela maioria negra.

Todavia, houve um número também importante de portugueses  (e aqui cabem mulatos, negros, indianos e brancos)que nunca pensaram noutra pátria que não fosse aquela onde tinham nascido. que eram essenciais a todos os ramos de actividade; que  eram, como se verificou, insubstituíveis pelos "conselheiros" socialistas, mormente alemães da RDA que afluíram sem conhecer aquela realidade e, provavelmente, sem especial interesse em a perceber.

Também é verdade que muitos dos cooperantes vindos de Portugal só se distinguiam dos anteriores citados por falarem português. No resto supunham-se apóstolos de radicalismos esquerdistas que provaram dolorosamente a sua absoluta ineficácia e tornaram ainda mais dura a vida das pessoas. Outros mais sensatos e capazes não conseguiram impor-se aos primeiros e, regra geral, regressaram desiludidos  à ex-metrópole colonial (conheci pessoalmente uma boa dúzia e sei de muitos mais). Pela parte que me toca, colaborei à distancia, e sempre pro bono, em alguns projectos  e guardo com particular carinho um livro editado  em Maputo, Kutsemba carão edições, 2010,  prescindo eu, gostosamente, dos direitos de tradução de "Cem garrafas na parede" obra da minha amiga cubana Ena Lucia Portela, autora várias vezes premiada e muito traduzida. 

De certa maneira, o exílio forçado DE Eugénio Lisboa (como o de Rui Knopfly, um grande poeta de Moçambique que teve o azar de nascer branco (e a lista de intelectuais cientistas e técnicos de rara ompetência que subitamente se viram despojados da terra em que se criaram, cresceram e ajudaram a prosperar é enorme) permitiu a Portugal ter diplomatas valiosos que para  aqui vieram  forçados. 

E não vale a pena mencionar os vexames, perseguições e violências várias que sofreram por terem permanecido naquilo a que chamaram pátria. E nesta lista cabem nomes que, hoje, passada a insana borrasca pseudo revolucionária da época Machel, são reclamados como pais fundadores de um país que cinquenta anos depois ainda não viu nem a paz nem democracia. 

A ditadura de Machel não poupou militanntes históricos da frelimo com provas dadas na resistencia interoiopr e na guerrilha. assim, sebastião mabote, general, foi destituido dos seus cargos, enviado para cuba, penou 14 meses numa prisão até conseguir ser libertado mesmo se, já não pode voltar, às fileiras militares.

outro resistente conhecido , Matias Zefanias  M'Boa depois de ter passado sete anos preso durante o período colonial, foi julgado (Julgamento dos 300) em 1978 e condenado a mais cinco anos desta feita no Moçambique "libertado". Saiu da prisão directamente para o Cmité Central  da FRELIMO!!!

Malangata, o genial pintor, também não foi poupado mesmo se, no mesmo julgamento mencionado, nada se provasse contra ele. Foi deportado para o Norte de Moçambique para um campo de trabalho onde passou uma temporada dura sobretudo para um homem que já passara dos cinquenta anos. Após a época de Machel foi cumulado de honrarias pelas mesmas (ou quae) driaturas que o tinham perseguido.

como, acima narrei, esse famoso julgamento dos 300 nem sequer foi conduzido por qualquer instância judicial mas tão só por membros da FRELIMO que em pensaram que estavam a usurpar funções e a transformar o país numa ditadura autocrática.

 

 

De certa maneira, a elite branca e democrática que foi obrigada a sair de Moçambique logo nos primórdios revolucionários, teve imensa sorte. Caso tivessem conseguido ficar, é muito provável que não bastassem penas de prisão para os silenciar e punir...

 

Ainda não li (nem comprei) o "epílogo" das memórias para verificar se Eugénio Lisboa se debruça sobre os ásperos tempos  já posteriores à sua saída. Sei tofavia, que, em Cascais onde veio a morrer tinha como eventual vizinha Noémia de Sousa, "a mãe dos poetas moçambicanos" que já por várias vezes aqui referi- Mais uma intelectual que, como Bertina Lopes a "mãe dos pintores moçambicanos" (se me é permitido usar a citação sobre Noémia), morreu em Roma. É bem verdadeiro o título de um belo livro de poemas do cabo-verdiano Daniel Filipe "Pátria, lugar de exílio"  

 

 

Passos Coelho pulou a cerca

José Carlos Pereira, 10.04.24

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O antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho parece ter-se cansado do silêncio e recato a que se votou durante bastante tempo e que até tinha reforçado a simpatia que muitos sectores da direita democrática nutriam por si. Contudo, nos últimos meses algo mudou e Passos Coelho tem surgido em público com mais frequência, a querer marcar a agenda da sua área política, mesmo que isso seja um entrave à liderança do PSD.

Passos Coelho foi infeliz quando veio dizer que António Costa saiu por "indecente e má figura", deixando claro que tem contas por acertar com o ex-líder socialista desde que em 2015 se viu apeado do governo. Mais tarde, o antigo primeiro-ministro não temeu perturbar a campanha de Luís Montenegro ao associar imigração e insegurança, à boa maneira da extrema-direita, incentivando Montenegro a fazer tudo o que fosse preciso para assegurar a maioria, acolhendo se necessário o contributo do Chega e de André Ventura.

Agora, e em definitivo, Passos Coelho, pulou a cerca para a área da direita mais conservadora e reaccionária, nas ideias, nos costumes e nos valores. Ao apresentar o livro "Identidade e Família", Passos Coelho colocou-se do lado dos que olham de esguelha para o papel da mulher na sociedade e para a legislação do divórcio e são contra o direito ao aborto, a eutanásia, o casamento e a adopção por pessoas do mesmo sexo e a educação para a cidadania na escola pública, que procura preparar os mais novos para a diversidade dos dias de hoje. Esses sectores falam da família como se tivéssemos recuado 60 anos e erigem a dita "ideologia de género", seja lá isso o que for, como o maior mal das nossas sociedades.

Ver Passos Coelho aos sorrisos e cumprimentos com André Ventura e Diogo Pacheco de Amorim nesse evento, com palavras de incentivo a uma intervenção dialogante no parlamento, foi a cereja no topo do bolo, levando ao êxtase a extrema-direita "intelectual" que campeia pelas redes sociais. Ainda bem que não faltaram vozes dignas e qualificadas da direita e do PSD a distanciarem-se do discurso de Passos Coelho e das ideias veiculadas pelo livro. Portugal avançou e não deixará que se recue em valores fundamentais.

Nos últimos anos, costumava dizer que a mais valia de um eventual regresso de Passos Coelho seria fazer secar o Chega, recuperando boa parte do seu eleitorado para o PSD. Já não digo isso. Passos Coelho não vê mal no Chega e até parece contar com o partido de Ventura para os seus projectos políticos de futuro. O país saberá responder.

estes dias que passam 898

mcr, 08.04.24

são misteriosos os caminhos da Justiça

(ou 'parecem)

ou o que parece é

mcr, 6-4-24

 

 

Não tenho especial simpatia pelo dr António Costa  como já não tinha pelo seu antecessor. Aliás, uma vez, disse que entre um e outro eram mais as semelhanças do que as diferenças. A Teresa Portugal ia-se passando. Acusou-me sem especial convicção que eu os confundia com Dupont e Dupond (vê-se que essa excelente amiga tinha as suas leituras de Hergé). Eu nunca fui um fanático do Tintin mesmo se reconheço a qualidade mas também nunca me lembraria de utilizar os dois heróis de bd para caracterizar políticos portugueses. Ou estrangeiros, a menos que os admire. 

No caso em apreço  mesmo se não me sinta órfão de Costa, uma coisa é segura. A constituição de arguido num processo nebuloso cujas primeiras fases redundaram numa clara derrota da  acusação levou-o  à demissão e esta levou o Presidente da República a marcar eleições. Nenhuma das posições foi brilhante, sequer necessária.

E, agora, quase cinco meses passados, Costa pede para ser ouvido. C0nvenamos que 150 dias é já uma pesada pena e inibe qualquer pessoa de planear o seu futuro. A situação de arguido condena-a a um limbo miserável e, no caso em concreto, condena-o a não se apresentar como candidato  a qualquer cargo político, português ou europeu.  

por outras palavras há aqui um intromissão da justiça. na política que, ainda por cima, dado o que se conhece do processo pode dar em nada.

De resto, e quase simetricamente, também o presidente do Governo Regional da Madeira está em situação idêntica e às voltas com um processo cujos contornos parecem também eles pouco sólidos. disse "parecem" e não disse "são". Este processo caracterizou-se ainda por cima num penoso e pouco legítimo arrastar de dias em qe pessoas entretanto presas nem sequer puderam ser atempadamente ouvidas. 

quem, nos tempos da outra senhora, passou por incómodos semelhantes  (e é o meu caso) tenta perceber sem o conseguir onde estão as diferenças daquele tempo obscuro com o actual. E o mesmo desprezo pelos direitos do cidadão se bem neste caso os prazos de redução da liberdade não se comparem. Todavia, e este é o ponto, a privação da liberdade mesmo por um dia tem de ser claramente justificada. 

Ora a ideia quepassa passa para a opinião pública, custe isto o que custar aos senhores procuradores, é a de que se usa a prisão como muito à vontade, com arrogância e deixa também a ideia de que uns dias numa cela talvez intimidem o preso e o levem a confessar algo que não fez, ou que não fez daquela maneira. 

Também, quanto ao sr Albuquerque nada me liga. Não o conheço, passarei muito bem sem o conhecer mas a verdade é que esta situação de arguido mesmo em liberdade pode custar-lhe todo o seu futuro político.

 

A suspeita que é lançada deixa sempre traços e conhecem-se mais casos de carreiras políticas destroçadas mesmo se os processos levantados deram em nada. 

A suspeição atirada à  opinião pública pelo MP  é, queira este ou não, uma pena acessória de condenação inapagável. Não vou, se bem que me apeteça, lançar paralelos com os processos de outros tempos em que o simples rótulo de "comunista" ou o carimbo "ps (politicamente suspeito) tinha pesadas consequências até ao nível do emprego. 

Grande número, quase todos, dos processos levados ao plenário terminavam com condenação e pena acessória de medidas de segurança pr tempos longos. Isso também trazia consequências para osreus condenados. De certa maneira a coisa estava prevista nos códigos penais da época mas a época era farta em códigos e pobre em direitos fossem eles quais fossem. 

Cinquenta anos depois de Abril seria bom pôr fim a estas referências de arguido sem que rapidamente, imediatamente, se ouçam os incriminados. Pode pensar-se que há uma agenda oculta e justicialista nas actuações do MP o que seria, caso fosse verdade, uma tragédia para a democracia . 

Tenho por mim que uma das primeiras leis (seguramente consensual)a negociar entre PSD e PS seria exactamente sobre esta questão. Não deve ser dicil evitar a referência a arguido quando não está em caua a liberdade dele e sobretudo quando não se prevês a sua comparência muito breve diante de um magistrado. 

E como se vê Costa (há mais de cinco meses) e Albuquerque (há dois meses e meio) estão à espera não se sabe bem de quê. se é que mesmo esse "quê" exista ou tenha possibilidades de vir a existir.

 

 

estes dias que passam 897

mcr, 05.04.24

Falta de tudo em Gaza, 

falta de chá em Portugal

mcr, 5-4-24

 

Comecemos pela caricatura. O sr Pedro Nuno dos Santos entendeu não ir à tomada de posse do Governo. É com ele e com a sua perspectiva das relações institucionais na esfera do Estado.

Rsolveu, entretanto, mandar uma criatura que, pasme-se, aceitou o triste fardo. A srª Leitão foi ministra já e, quando tomou posse, lá esta um representante, o mais alto representante, do segundo partido mais votado. 

Aceitou ir representar o Ps mesmo se dentro deste partido não tenha uma psição de tal modo preponderante ou evidente para, numa cerimónia deste teor, substituir o Secretário Geral. 

claro que isto não é exactamente o mesmo do que, nos velhos tempos, se chamava mandar a criada de servir em representação  dos patrões. Mas anda lá perto. Fica a coisa, pois, no ausente e na sua representante. Também a expressão falta de chá soa a antigo e seria preferível, no caso português, dizer-se falta de educação, de cortesia. .Por cá o chá ainda é coisa de elites ou como tal é tomado.  Isto não é a China, a Índia, a Rússia ou a Inglaterra ou mesmo o mundo árabe zonas onde o chá é rei.

A falta do sr. Pedro Nuno é apenas uma grosseria condizente com o seu estilo tronitruante que, duvido, não terá sido especialmente apreciado por muitos socialistas que vem no gesto uma bravata digna do inimigo das perninhas dos banqueiros alemães.Ou uma garotice de menino malcriado e presunçoso. Os gestos ficam com quem os pratica.

Alguém pode vir dizer que todos os representantes da Esquerda protestaária também faltaram. É verdade mas, pelo menos, não se deram ao trabalho de fingir mandando o primeiro porteiro da secção ou do centro de trabalho. Em boa verdade, mesmo representando algumas centenas de milhar de eleitores, essa falta é meramente insignificante mesmo se também demonstradora de uma falta de sentido de Estado. É com eles...

Passemos, porém, a algo bm mais sério e bem mais aterrador; a Palestina, melhor dizendo Gaza. Neste momento, as autoridades de Israel ou o seu mandatário mais evidente, Netaniahu tentam cada vez mais assemelhar-se aos bárbaros do Hamas ue eles afirmam combater. 

Pelo menos nos métodos. em primeiro lugar usando a fome com meio de pressão sobre os mais inocentes, sobre os cidadãos inermes, sobre os que já não tem casa , sobre mulheres, velhos e crianças. Sobre os habitantes que o mesmo estado de Israel mandou recuar para sul.

Se esse gang de aspirantes a mafiosos pensa que com essa atitude combate o Hamas, é bom recordar-lhes que. em primeiro lugar, este (o Hamas e parceiros) está bem escondido e provavelmente bem alimentado e bem medicado).

Depois, a violência inenarrável exercida pelas bombas, pelas faltas de água, alimentação e medicamentos , pode matar mas, sobretudo, é geradora de uma cólera imensa e um convite à mobilização de mais e mais terroristas ou meros guerrilheiros ou ainda  de simpatizantes. Ciar "danados da terra" é sempre uma estupidez.

Note-se, en passant, que a geração que agora dirige Israel já nenhuma memória tem do holocausto, da Shoa, dos campos de extermínio.

Nasceram e criaram-se numa terra livre, democrática  e respeitada em todo o mundo. Agora, esse mesmo mundo que se comoveu, que se aterrou com o massacre de Outubro, começa a dar sinais de impaciência, de revolta, de censura. Parece que Israel se quer assemelhar a vários estados párias ou a caminho disso.

quem estas linhas escreve, entende que boa parte dos alvos israelitas são exactamente iguais aos alvos de Putin na Ucânia. com os mesmos tenebrosos efeitos. E provavelmente sem conseguir qualquer solução. Nem sequer a libertação dos reféns, muitos dos quais poderão já não estar vivos .

O "erro" do bombardeamento de três automóveis identificados com voluntários de uma ONG que levavam mantimentos para os esfomeados é, até prova em contrário, um crime. Já passou tempo suficiente para, além das desculpas formais, se perceber como é que aquilo aconteceu, quem tem a responsabilidade, quem foram os agentes e porquê. 

Nada disto iliba o Hamas e restante comandita  cujos chefes estão confortavelmente instalados no Qatar e noutros locais bem seguros. nada disto iliba o Irão e a canalha ultra religiosa que lá manda. E que, aliás, tm oseu quê de semelhante aos fanáticos ultra ortodoxos de Israel e dos colonatos que quando descansam das rezas lá vão assassinando uns desgraçados agricultores da Cisjordânia.

Conviria, no entanto, ter algum uidado com as palavras. O que se passa neste miserável campo de batalha é um crime de guerra mas não é um genocídio. Ou ainda não é um genocídio. 

É que anda por aí uma gentinha com a língua sempre pronta para a asneira sobretudo quando ninguém lhes sai ao caminho. Claro que eles, ou alguns deles, os os seus mentores, sabem bem, muito bem, o significado de genocídio mas  isso não os impede de mentir, de exagerar, de ladrar às canelas de quem passa. 

Todavia é assim, de exagero em exagero, de burrice em burrice, de mentira em mentira, que se forjam mitos, seitas, e cúmplices de todo o género de aberrações políticas. 

Também, neste caso, começa a ser urgente recuperar o famoso slogan da guerra de Espanha: "no pasarán!"

( mesmo que, acrescento  eu, a canalha franquista passou e cevou-se na pobre gente vencida...)

 

 

 

 

 

o leitor (im)penitente 266

mcr, 02.04.24

três (ou quatro)  livros

mcr, 2 -4-24

 

Sei bem que devia meter a minha colherada política tanto mais que hoje é empossado o novo 

Governo chefiado por Luís Montenegro.

Todavia tenho como certo que tudo o que dissesse seria cuspir contra o vento se me permitem expressão tão antipática.

De facto, até ao momento apenas temos um punhado de intenções brandidas durante a campanha eleitoral mas cujo valor terá agora de ser aferido pela pratica normal da governação.

digamos que fora algum declaração mais ruidosa e solene , será precisa uma semana (pelo menos, dada a urgência que a composição do parlamento sugere)u mais. Um Governo de um partido que esteva afastado dos ministérios oito longos anos vai ter de "dar à perna", verificar os dossiers, estudá-los e isso leva o seu tempo. 

O resto, as diferenças políticas e suas eventuis consequências, sendo importante  n\ao elimina estes primeiros passos que para uns serão hesitantes, para outros meramente cautelosos.

foi por isto que me espantou a posição do PC com a sua imediata moção de rejeição anunciada mesmo antes de conhecer sequer os ministros, já não digo o restante pessoal, de ouvir o programa do Governo, de verificar se nas medidas anunciadas há ou não benefício para os cidadãos, para os "trabalhadores" de cuja representação o pc se arroga apesar destes serem notoriamente muitos mais do que os magros resultados eleitorais mostram.

Bem sei que para um partido que regra geral, classifica o ps de agente da burguesia e cavalo de Troia da reacção, do capitalismo, da NATO ou da tremenda Europa, um governo do PPD deve assemelhar-se aos quatro cavaleiros do apocalipse juntamente com as sete pragas do Egipto, em suma o fascismo puro e duro chefiado pelo fantasma do cavalheiro das botas nado e criado em Santa Comba Dão.

Não refiro os restantes partidos ditos de Esquerda mesmo se, à excepção do PAN, tem representação maior no parlamento, Em boa verdade representam no toral um quinto dos efectivos do Chega o que prova à saciedade que as suas declarações de guerra ao ajuntamento de Ventura  foram ignoradas.

Neste momento, o "partido de protesto" é o Chega por muito que isso custe aos que, desde sempre, reivindicaram o protesto.

Uma coisa é certa: este Governo vai navegar sempre à vista da costa, entre Scila e Caribdis  o sr Montenegro vai ter de penar bastante. E com ele, nós  cidadãos paisanos que legitimamente esperamos que o Governo governe que a saude melhore, que as poícias deixem de reclamar, que as escolas ensinem ... E por aí for

Depois, lá mais par o Verão é altura de não só pensar o Orçamento mas tembém, e cada vez mais urgentemente, um par de problemas europeus, o menos dos quais não será a Defesa, a hipotética volta do SMO,  

Finalmente, háque recordar aos mais distraídos que o famoso excedente de Medina não poderá ser usado para tapar as reivindicações das corporações que neste momento  (e durante boa parte doas anos perdidos por Costa) estão na rua.

Perante este cenário que só peca por reduzido creio que qualquer tentativa minha de análise está votada ao fracasso.

Melhor será chamar a atenção dos leitores para alguns livros a sair ou já nas livrarias. 

Manuel Alegre publicou "Memoria minha" que, como o nome indica, é um livro de memórias que aguardo enquanto leitor e mais ainda como migo, com alguma ansiedade.

De João de Deus sai um livro sobre a sua vida. Este belíssimo poeta e exemplar cidadão teve um destino singular. A suafmosíssima "Cartilha Maternal" apagou (de certo modo) tudo o resto incluindo a obra poética . O poeta, o boémio coimbrão, empalidecem a imagem do cidadão o que faz de João de Deus um desconhecido . Este livro, espero-o (ainda o não tenho)  poderá reparar o desconhecimento mesmo que aind por aí estejam os hordins escola com o seu nome.

Maria Antónia Oliveira reedita, muito acrescentado, o seu "Alexandre o' Neil uma biografia literária. Quem, como eu, conhece e apreciou a primeira edição recomenda vivamente a obra que é publicada pela Assírio e Alvim.

Finalmente, este velho routier pelas aventuras políticas de sessenta para cá está interessadíssimo pelo  ensaio histórico "Memória Vermelha" de Tania Branigan (Bertrand) um documento sobre a Grande Revolução Cultural e Proletária  (1966-1976) uma hecatombe ética, política, cultural e humana cujas consequências ainda se sentem. Um desastre absoluto, o naufrágio de tod umaEsquerda generosa e ignorante que, na Europa, julgou, sem saber ler o ou falar chinês,  que ali estava a salvação do sistema russo/soviético. Não estava nem, aliás, este tinha hipóteses de salvação. Como se viu. A China que hoje conhecemos perdeu nesta última e trágica aventura  do maoísmo (já antes as "cem flores..." ou o "grande salto em frente" tinham sido desastrosos  e mortíferos) milhões de cidadãos e o PCC que hoje governa perdeu, se alguma vez a teve, a alma. O comunismo chinês será tudo o que quiserem excepto comunismo, democracia, liberdade  ou revolução. Há ali uma china milenar que regressa sem o encanto da velha cultura nem a promessa de melhores dias. E uma autocracia mais violenta, mais eficaz, mais preparada para matar no ovo quaisquer aspiração libertária.

"La Cina (non) è vicina", Marco Bellochio que me perdoe. 

Um novo xadrez político

José Carlos Pereira, 28.03.24

Na edição online do jornal A Verdade publico hoje um artigo de opinião acerca do quadro político saído das últimas eleições legislativas:

"As eleições do passado dia 10 colocaram Portugal perante um quadro político inédito, na medida em que passámos a contar com três pólos políticos: PSD, PS e Chega. O resultado alcançado pelo partido de André Ventura foi verdadeiramente surpreendente e, com os seus 50 deputados, que representam cerca de 1.170.000 votos, o Chega passa a ser determinante nas contas à direita e terá um papel relevante na próxima legislatura.

As cenas caricatas dos últimos dias, em torno da eleição de José Pedro Aguiar-Branco como presidente da Assembleia da República, foram um aperitivo para os tempos conturbados que aí vêm.

A Aliança Democrática (AD), que ganhou as eleições à justa e ficou abaixo das expectativas criadas, prepara-se para formar governo. Espera-se que amanhã [hoje] Luís Montenegro apresente a composição do executivo a Marcelo Rebelo de Sousa. Ficaremos então a conhecer as suas apostas para um governo que lutará mês a mês pela sobrevivência, uma vez que os 80 deputados da AD, a que podemos juntar os oito deputados da Iniciativa Liberal (IL), estão longe de garantir uma governação estável e duradoura.

Terminada a especulação acerca da participação da IL, sabe-se já que o governo apenas incluirá representantes do PSD e do CDS. A presença da IL, que nas eleições também ficou aquém dos objectivos de crescimento a que se propôs, apenas se justificava na perspectiva de o PSD pretender aglutinar sob a sua alçada toda a direita democrática. Mas o perfil mais irreverente e irreflectido da IL acabaria por acrescentar problemas a um governo da AD que terá de ser coeso, determinado e alinhado nas suas políticas e iniciativas.

Luís Montenegro deve optar por concentrar-se na execução dos fundos europeus e do Plano de Recuperação e Resiliência, na gestão do excedente orçamental que herda do governo cessante e na resolução das reivindicações mais prementes. Desse modo, implementa as medidas mais populares e procura reforçar a empatia com os portugueses, com o objectivo de chegar à negociação do orçamento para 2025 numa posição mais favorável.

A via alternativa seria procurar desde o início uma confrontação com a oposição, designadamente na Assembleia da República, que conduzisse à queda do governo e a novas eleições em breve. A AD não vai certamente enveredar por esse caminho.

O PS perdeu quase 490.000 votos face a 2022, mas essa derrota acaba atenuada pelo facto de ter ficado apenas a cerca de 54.500 votos do resultado da AD. Foi a menor diferença de sempre entre as duas forças mais votadas numas eleições legislativas. Esse resultado e a circunstância de Pedro Nuno Santos ter escassos meses em funções como secretário-geral do PS não coloca em causa a posição do líder socialista, como se viu, de resto, nas reuniões dos órgãos nacionais do PS entretanto realizadas.

Pedro Nuno Santos esteve bem ao antecipar que não viabilizará moções de rejeição e que está disponível para concertar medidas direccionadas a determinados sectores profissionais. Como também fez bem em afirmar que o PS deve ser a alternativa à AD, não deixando esse espaço para a extrema-direita.

Caberá agora ao PS olhar para dentro de si próprio e encontrar explicações para a perda de votos verificada desde as eleições de 2022 e para as dificuldades em atrair o voto de determinadas classes etárias e profissionais. Os mais jovens, sobretudo, afastaram-se das propostas socialistas e isso deve interpelar seriamente os dirigentes do PS.

Jovens e menos jovens, descontentes, renitentes, habituais abstencionistas, saudosos de um passado distante e militantes do protesto, todos juntos formaram um caudal que resultou na grande votação do Chega. Construir algo a partir desse resultado será uma tarefa quase impossível para André Ventura. Por um lado, os votos que alcançou foram mais contra a “situação” e contra os ditos partidos do regime do que propriamente a favor das ideias e dos princípios do Chega. O país não tem um número tão grande de xenófobos, racistas e extremistas.

Por outro lado, se o PSD lhe fechar a porta, o que pode fazer Ventura com os seus votos? Política de terra queimada e obstrução sistemática ao governo? De que servirá, em termos práticos, ter votado no Chega? Os eleitores do Chega preferem soluções ou confusão e arrivismo permanente?

Lidar com o Chega, e sobretudo com os eleitores do Chega, é um grande desafio para PSD e PS. Se o PSD optar por se aproximar das reivindicações do Chega para se manter no poder, isso poderá ser um presente entregue nas mãos do PS. Ficaria mais fácil demarcar linhas vermelhas com os que transigem com forças que se guiam por valores políticos, humanistas e civilizacionais retrógrados e, na sua essência, anti-democráticos.

Os restantes partidos com assento parlamentar, com resultados e balanços diferentes no pós-legislativas, prosseguirão certamente as respectivas agendas, mas tendo presente que estão muito limitados na forma como podem condicionar a governação da AD. O xadrez, nesta legislatura, joga-se em três tabuleiros: PSD, PS e Chega."