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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

20
Jun18

Não é só os direitos humanos que estão em causa

JSC

Numa altura em que os EUA não respeitam, minimamente, os direitos das crianças, eis que decidem sair da Comissão dos Direitos Humanos da ONU. A grande razão que apresentam é a dessintonia entre as decisões desta Comissão e as políticas dos Governos de Israel, que, como está à vista de todos, não atira e mata pessoas desarmadas, sobre crianças nem mantém ocupados territórios que não lhe pertencem nem amplia a sua ocupação territorial na Palestina, contra tudo e contra todos excepto os grandes defensores dos direitos humanos, os EUA, que, entretanto, deixam morrer dezenas ou centenas de jovens em Escolas, baleados por colegas…

 

A decisão de Trump de deixar a Comissão dos Direitos Humanos da ONU – e um dia destes a própria ONU – não nos deveria espantar, à luz do que tem sido a sua opção pelos aliados internos e externos. Desde aquele senhor Presidente que se gaba de ter matado, com as suas próprias mãos, centenas de pessoas, do que designa por marginais, até ao seu recente e louvado, por todos, encontro com o todo poderoso Presidente da Coreia do Norte, para não falar de alguns governos europeus que em matéria de refugiados e emigração estão colados a Trump e vice-versa. Nada a surpreender.

 

De Trump só se pode esperar o pior. E o pior ainda está para vir. O que surpreende é a atitude dos líderes Europeus, que estão a tratar estas matérias como se fossem coisas a contornar, a não olhar de frente. Ora, Trump e a sua política é hoje, seguramente, a maior ameaça à paz mundial e à Europa.

 

Neste quadro, o que seria esperar dos líderes Europeus? No mínimo, que ousassem falar mais alto, que reformulassem alianças de modo minimizar e combater as políticas agressivas de Trump – no plano social, económico e do que ele designa de defesa -  que apoiassem aqueles que nos EUA se opõem à política de cãos universal, a que Trump dá o rosto.

 

A saída dos EUA da Comissão dos Direitos Humanos da ONU é mais um sinal que a Europa deverá reter, um alerta para que a Europa faça o que deve fazer, retomar a sua autonomia e liderança política face aos EUA.

16
Jun18

O leitor (im)penitente 209

mcr

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Uma obra mítica

mcr 15.Jun.2018

 

Reedita-se, graças ao jornal “Público” o livro de Victor Palla e Costa Martins  “”Lisboa “cidade triste e alegre””. Trata-se de uma obra há muito desaparecida da circulação e que atingia preços elevadíssimos nos raríssimos leilões de alfarrabistas em que algum exemplar era licitado. Pessoalmente, nunca a tinha visto, mesmo se acompanhara uma que outra almoeda em que constava.

Trata-se de uma obra compósita recheada de excelentes fotografias (a preto e branco) comentadas por grandes autores contemporâneos da 1ª edição (Alexandre O Neil, Armindo Rodrigues, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, José Gomes Ferreira precedida por um belíssimo texto de Rodrigues Miguéis) e é mais uma mostra do invulgar talento de Victor Palla e de Costa Martins.

Sairá em fascículos  semanais (sábado) até fins de Julho e apresenta-se como um fac-simile da 1ª (e única até hoje) edição. Celebremos a ideia, a oportunidade, a possibilidade de muita gente se poder deliciar mas levante-se desde já uma objecção pouco meiga:

A “maioria dos herdeiros” (sic) exigiu contratualmente uma redução de 15% lineares nas dimensões da edição original, conforme consta do que, eventualmente será a última folha da obra.

Portanto, quanto a fac-simile, estamos conversados. Mas, independentemente disso, esta exigência da referida e famigerada “maioria dos herdeiros” (que em nada contribuíram para a edição orginal e se limitam a perceber os direitos desta), fere gravemente a edição. Alguém acredita que Victor Palla (logo ele!) e provavelmente Costa Martins não tiveram o cuidado de fixar com rigor as dimensões daquele livro-objecto?

Terá a esforçada “maioria dos herdeiros” sequer uma vaga consciência do que significa esta amputação da obra dos dois autores?

Será que essas mal inspiradas criaturas temeram que esta edição pudesse concorrer com a desaparecida e valiosa anterior que, de resta está toda na mão de colecionadores e leitores?

Ou presumirão estes surpreendentes herdeiros (“maioria”) que com esta alteração melhoraram a obra dos autores?

Deixemos este pequeno atentado na consciência (se a têm) da tal “maioria” de herdeiros. De certo modo, esta posição ridícula, estúpida e presunçosa, demonstra claramente que o talento, a criatividade e a inteligência não se herdam.

E compremos, mesmo assim, este belo livro. Será, de todo o modo, uma homenagem aos seus autores que não são culpados de terem os herdeiros que lhes caíram na rifa.

13
Jun18

Au bonheur des dames 454

d'oliveira

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Lá se foi Bourdain...

mcr, 13, 6, 2018

A inesperada morte de Anthony Bourdain (aliás suicídio) causou uma certa comoçãoo por todo o lado. Estrela televisiva, enquanto crítico gastronómico, AB conseguia trazer para a ribalta do pequeno ecrã, as gentes simples, de todo o lado juntamente com grandes estrelas do Michein e análogas distinções.

Ao contrário de outros (e recordo uma série de franceses, sempre eles, que continuamente

Viajavam pela França em busca de uma receita, de um “chef” original, de agricultores conhecidos pelos seus produtos de excelência) AB privilegiava os encontros de acaso, aquilo que, agora (ai a moda...) se resolveu chamar “street food”, expressão que oculta realidades muito distintas desde a “petisqueira” até às habituais refeições rápidas que alimentam centenas de milhares de pessoas que por quase todo o lado trabalham arduamente sem tempo para ir a um restaurante, sequer a uma cantina.

A primeira vez que me deparei com esse tipo de alimentação foi (há quantos séculos?...) em Berlin (na altura Berlin Ocidental, com cheiro a revolução jovem, ecos de Rudy Dutschke e a sombra anunciada e paralela da imprensa “Springer” e da “Rote Armee Fraktion” (ou grupo Baader-Meinhof que mesmo sem qualquer verdadeiro entrosamento social, deixaram na Alemanha Federal um rasto sinistro): havia por todo o lado umas pequenas carrinhas que serviam uma salsicha com molho de caril (curry wurst) e batatas fritas. O nome dquelas pequenas geringonças era “schnell Imbiss”, na prática “comida rápida”. Mais tarde, deparei-me com coisas idênticas na Holanda onde o forte era o peixe ou na Itália onde , esquina sim, esquina não, se compravam fatias às vezes generosas de pizza.

No domínio da petisqueira, era a Espanha a campeã. Vezes sem conta em Madrid mas sobretudo em Salamanca (entre a plaza mayor e a do mercado) jantei ou almocei “tapas” variadas e maravilhosas por preço módico a que acrescia um copo de vinho ou uma cerveja bem tirada.

Claro que, em havendo tempo (e mais dinheiro) a minha preferência recaía num restaurante (como no?) coisa que nas terras espanholas há em abundância e a a todos os preços.

Talvez por isso, sempre fui bom espectador de programas culinários fosse em que língua fosse desde que eu, mesmo vagamente, a entendesse. A maior parte dos cozinheiros, curiosos, gastrónomos, que aparecia, conseguia criar empatia com os espectadores, ou então era eu que, comilão e guloso (bons tempos...) me satisfazia com pouco.

Todavia, e voltamos à “vaca fria”, o meu primeiro encontro com Bourdain não foi pela comida. De facto, o diabo do homem, tinha outros talentos escondidos, o menor dos quais não seria uma escrita desenvolta e imaginativa.

Realmente, ainda andarão por aí exemplares de dois romances policiais, curiosos, bem escritos e inteligentes, da autoria de AB. São eles “U osso na garganta” e “sarilhos nas Caraíbas” ambos de uma editora quase desaparecida, a “Ambar”. No primeiro ainda há um jovem cozinheiro, quase o herói da trama. Já no segundo, mesmo se o mesmo jovem ainda apareça, não é ele a principal personagem.

Bourdain escreveu também “memórias” e livros de cozinha, fruto da sua experiência como “chef” em alguns restaurantes de nomeada de Nova Iorque. Porém, quando tive a sorte de lá passar por essa fabulosa cidade, ainda não sabia dele. E, provavelmente, não teria dinheiro (e provavelmente oportunidade, dado o sistema de marcações complicado nos restaurantes de luxo ou simplesmente na moda) para provar algum dos seus cozinhados. De todo o modo, deixa um vazio, amargo e pouco explicado.

Não sei exactamente porquê, mas o acompanhamento dos seus programas permitiu-me conhecer um pouco melhor povos e culturas, cidades que nunca percorri. O homem tinha humor, elegância, saber, cultura e praguejava que nem um carroceiro. Mas até isso, nele, era simpático, pelo menos para um “pobre homem” de Buarcos, terra de pescadores, mar e bom peixe.

RIP

* na gravura "caldeirada à pescador" versão da Figueira da Foz

06
Jun18

COMO O FUTEBOL TRAMOU OS PODEROSOS…

JSC

Desta vez a coisa correu mal para o Sr. Netanyahu. O jogo amigável com a seleção da Argentina estava marcado para a cidade de Haifa. Contudo, o Governo de Israel pretendeu dar um brilho especial à comemoração dos 70 anos. Vai daí transferiu o jogo para a Cidade ocupada de Jerusalém. Depois do show da família Trump tinham agora o show de Messi e C.ª. Até pretendiam que a estrela fosse beijar o muro das Lamentações. E o mundo a assistir, a validar a ocupação.

Sucede, porém, que nem todos são capachos do Governo de Israel. A seleção Argentina fez o que tinha a fazer: Não há jogo.

Netanyahu acusa os argentinos do habitual: estão a fazer política, a favorecer os inimigos de Israel.

E a transferência do jogo para Jerusalém foi o quê?

31
Mai18

Estes dias que passam 373

d'oliveira

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Valha-nos Nossa Senhora da Boa Morte

Coisas simples e evidentes

mcr 31.05.2018

 

Uma Manuel (Maria) e um Manuel, gente do mais estimável e inteligente que por aí anda, ofenderam-se muito comigo quando lhes resumi sucintamente (demasiadamente sucinto) o meu post sobre a votação da eutanásia.

O Manuel quase que me gritou que eu seria contra a “despenalização”, acusando-me de querer mandar para a prisão, para o cadafalso ou para Vorkuta qualquer criatura que ajudasse outra a morrer.

A Maria Manuel avançou com o tema do aborto, com a luta de dez anos (aliás até reconhecia que dois sucessivos referendos não tinham tido consequências por falta de votantes).

Eu, velho ou novo reaccionário empedernido, lá ia dizendo que a AR entendera pronunciar-se sobre uma questão que não fora discutida pelos partidos e pelos deputados nela integrados durante a última campanha eleitoral. Que isso, só isso, feria a votação de ilegitimidade ética e política; que a famigerada discussão ampla e generalizada nunca existira, que o chamado direito à morte nunca por nunca poderá ser paralelo ao direito à vida; que os cidadãos eleitores tem o direito de conhecer as opiniões dos que solicitam durante um escasso mês o voto popular; que o facto de a eleição dos deputados não se fazer uninominalmente como em qualquer país civilizado em que o cidadão sabe perfeitamente que vota em A ou B e não numa turbamulta; que, no caso das cidades mais importantes (Lisboa, Porto, Braga, Aveiro, Coimbra ou Setúbal), a votação e eleição aparecem absolutamente opacas perante os eleitores mostrando os candidatos como simples peões de brega, fungíveis, como se de coisas simples se tratasse, torna esta Assembleia numa espécie de tablado onde os partidos levam a “voz cantante” e os deputados apenas levantam e sentam o cu para votar como manda o chefe que, por sua vez, mais não é do que uma correia de transmissão do aparelho obscuro que governa de facto o Partido; que –e isto é o mais importante – não basta legislar sobre a eutanásia mas sim sobre como se morre em Portugal.

Morre-se mal ou muito mal por cá. Cuidados continuados são como qualquer pessoa minimamente séria sabe mais raros do que os milionários do totoloto. Cuidados paliativos, idem, aspas, aspas. Quem tem dinheiro, desanda para as escassas instituições privadas que existem e são obviamente caras. Quem não tem morre no hospital ou é rapidamente mandado para casa onde morre na mesma no meio do desamparo e da mágoa impotente dos familiares.

Isto queridos, Manuel e Manuel, perturba-me, ofende-me, indigna-me. È que, a esmagadora maioria dos moribundos não quer morrer. Agarra-se à vida como a lapa ao rochedo. E os seus familiares, honra lhes seja, também não o querem ver desaparecer. Centenas de milhares, para não falar em milhões de portugueses tentam tudo para acompanhar os seus na hora da verdade. E isso vê-se até na hora da morte ou no dia dos mortos altura em que os cemitérios florescem desmedidamente como se as pessoas quisessem lembrar aos seus mortos que eles estão, por um simples dia, vivos, pelo menos na memória dos mais próximos.

Pessoalmente, gostaria que me evitassem sofrimentos inúteis, tratamentos caros e também inúteis para já não falar no temendo sacrifício que uma pessoa em fim de vida, doente ,incapaz e sofredor, impõe aos seus familiares. Vi, como morreu o meu Avô Alcino, uma caricatura de velho doente e envergonhado ( o Parkinson afectara-lhe a fala, retira-lhe o controlo de várias funções excrescentes o que o envergonhava medonhamente. Estava à mercê do filho, da nora, deste neto inepto ou de alguma empregada doméstica que provavelmente pensava que “não era para aquilo que a pagavam”. Vi o meu tio Joaquim, vaguear pelo Alzheimer, balbuciando palavras desconexas, o olhar enlouquecido não reconhecendo amigos ou inimigos, mulher parentes ou filho. Anos a fio... sofria? Não sofria? Logo ele que adorava ler, conversar, passear que se ria e pensava!

Todavia em um nem outro são, penso, candidatos a uma morte piedosa. O “famoso” sofrimento irreprimível não ocorrerá nestas duas cada vez mais presentes doenças da velhice.

Mas eu gostaria de ser poupado à humilhação (claríssima e sentidíssima no caso do Avô) de acabar assim os meus dias. E para isto não há, ninguém prevê, uma solução que preserve a decência da vida e limite no possível a tremenda decadência da pessoa.

Ou há: cuidados continuados, cuidados paliativos residências medicalisadas para os cada vez mais numerosos anciãos que sobrevivem mas subvivem.

Alguém lembrou isto durante essa inexistente e absurda discussão, durante essa desoladora votação?

Mas há mais e pior: Foram votados quatro projectos: convenhamos que eram profundamente semelhantes e as diferenças poderiam, caso houvesse votação na especialidade, ser praticamente apagadas. Então não é que as votações foram sempre diferentes. Que houve deputados, mormente no PS e no PSD que só votaram os “seus” projectos e contariam os restantes? Isto pode ser chamado de “voto de consciência”? Isto foi de um “elevado nível”? As intervenções foram, e estou a ser simpático, de uma vulgar mediania, recheadas de narizes de cera que mais pareciam trombas de elefante. O Parlamento deu-se em espectáculo a si meso e merecia um Eça e uma “campanha alegre” para descrever o que se passou.

Mas deixemos isto que é triste e penoso e passemos a um argumento refalsadamente indecente: a comparação com o processo da despenalização do aborto. A campanha durou anos e anos e baseava-se numa incontornável realidade: a prática transversal e generalizada do aborto clandestino. Ao que, na altura, se afirmou, em Portugal realizar-se-iam ano bom, ano mau, quarenta mil abortos. Quarenta mil entre os praticados por médicos clandestinamente e regiamente pagos aos “selvagens” no recôndito das aldeias ou das casas por métodos bárbaros que causavam a morte a não poucas mulheres e que deixavam muitas mais profundamente marcadas ou incapacitadas em diferentes graus.

A prática do aborto clandestino fazia parte do modo de ser português como aliás do modo de ser de muitos povos e países. A urgência em lhe pôr cobro era sentida por uma larguíssima maioria dos portugueses. Só que, neste caso, havia uma fracção ruidosa e disciplinada que era contra. Que ainda é contra. Que em certos países é violentamente contra. Que, por isso, chega a matar, a pôr bombas.

E havia mais: havia o perigo das malformações dos fetos; o resultado insuportável de violações de mulheres indefesas; a ignorância de muitas raparigas que, só tarde e a más horas, percebia que no amor nem tudo são rosas, ou sendo-o também há espinhos. Entre os mais pobres havia o terror de não poder alimentar mais uma boca.

Ou, por outras palavras: havia uma profunda consciência dos males de uma política sanitária de interrupção da gravidez não desejada ou perigosa. E tanto era assim que o recurso desesperado ao aborto clandestino e perigoso era banal, tocava todas as classes, religiosos e não religiosos. Havia, digamo-lo, uma clara reprovação da ilicitude de tal prática. E o sentimento generalizado de que urgia acomodar a lei às espectativas reais das pessoas, mormente das mulheres principais interessadas e principais vítimas. Por isso, uma vez, finalmente, votada a “lei do aborto” não se verificou nenhum protesto digno de nota nem sequer por parte dos que à lei se opunham.

E no que toca à eutanásia? Aqui as questões são diferentes. Em primeiro lugar, há a percepção de que ajudar a morrer é, ainda, matar. Depois, convirá fazer uma simples pergunta: quantos dos leitores que, como eu, não querem morrer na indignidade, no sofrimento intolerável e também não desejam que o seu pesadelo seja extensivo aos seres mais queridos e mais próximos, já tiveram a precaução de registar o seu “testamento vital”? Não pergunto, para não embaraçar nenhum/a dos deputados/as favoráveis aos projectos chumbados, se algum/a sequer se lembrou dessa pequena, fácil formalidade?

Se não erro, ainda não há vinte mil portugueses registados. Vinte mil num universo de nove (mas que fossem só oito...) milhões de adultos! Ou seja: perante a hipóteses de serem atingidos por doença ou acidente com consequências mortais e intenso sofrimento (para não falar na hipóteses de uma agonia lenta e extremamente onerosa para o próprio e para os familiares), apenas uma pequeníssima, insignificante minoria decidiu dar um passo, fácil e gratuito. Dispor que, em caso de impossibilidade futura de manifestar a sua vontade, o cidadão recusa tratamentos inúteis e nomeia simultaneamente um ou mais procuradores que velarão pelo respeito da sua vontade livremente tomada em plena consciência. Vinte mil, ou um pouco menos!

Esta é, para já, a imagem de uma sociedade que mais de cem auto-proclamados políticos afirmaram compreender, defender e representar. Não vou perder tempo e palavras com muitos, a grande maioria dos que no Parlamento lhes fizeram frente. Nem sequer, piedosamente, desejar que algum dia estejam perante o dilema da morte piedosa, seja a deles ou dos seus entes queridos. Não vá suceder como aquando do aborto em que à janela o atacavam e no quarto dos fundos ou numa clínica cara, o praticavam. Como bem prega frei Tomás: Olhai para o que diz e nunca para o que faz.

Mas isso é já uma outra guerra...

(nb Também não queria recordar um pequeno pormenor que parece ter escapado a muitos, senão a todos: Na União Europeia apenas três países, Holanda, Bélgica e Luxemburgo legiferaram sobre o tema. Por outras palavras, apenas 10% dos europeus da UE... Mesmo sendo um principio (com já 15 anos), é pouco. E revelador do estado da discussão ou do receio de a iniciar. Convém avisar que, justamente, nestes países, iniciadores da UE, existe uma excelente taxa de cobertura médica e de cuidados paliativos e continuados. Nada que lembre Portugal...)

* Na imagem: Nª Srª da Boa Morte  (Igreja de S Roque?)

31
Mai18

14 anos de Incursões

José Carlos Pereira

Encerra hoje o mês de Maio, o mês que viu nascer o Incursões há 14 anos. As notícias sobre a morte anunciada dos blogues foram manifestamente exageradas e nós por cá continuamos a escrever e a reflectir sobre a realidade que nos cerca, procurando também ir ao encontro de quem nos lê.

A este propósito, as estatísticas evidenciam que no último mês tivemos cerca de 3.000 visualizações, predominando os leitores de Lisboa e do Porto e, fora do país, do Brasil, seguido a larga distância por Moçambique e Angola.

Os leitores e colaboradores do Incursões ao longo destes 14 anos são merecedores de um cumprimento especial.

 

29
Mai18

Estes dias que passam 372

mcr

Nem sim nem não

 

mcr 29.V.18 

 

 

O Parlamento chumbou as propostas de legalização da eutanasia. Porém, o grande problema do distinto areópago era outro: nenhum dos senhores e senhoras deputados/as estava mandatado para se pronunciar sobre esta questão. Retificando: o PAN teria colocado a questão no seu programa eleitoral. Os restantes, nada.

Percebe-se, aliás, a razão, desta omissão tremenda da defesa dos direitos humanos: há custos, altos custos, eleitorais neste tipo de propostas fracturantes. 

A senhora coordenadora do BE já disse que voltará ao Parlamento com proposta idêntica. Espero que, dessa vez, o faça confortada com o voto dos seus eleitores. O mesmo desejo para os restantes. É bom, é salutarmente democrático, que os eleitores saibam o que farão os deputados com os votos por aqueles conferidos. Espero, mesmo  com fortes dúvidas, que todos os que vierem solicitar o nosso voto tenham a coragem de em plena campanha se assumirem como defensores ou opositores da eutanásia. 

Pessoalmente, quero ser eu a decidir sobre a minha morte. Recuso-me, todavia, a obrigar quem quer que seja, mormente médicos ou enfermeiros do SNS, a aceitar a minha decisão e a (eventualmente) violar a sua consciência.Em segundo lugar, devo advertir que a famoa discussão pública foi escassa, quase inexistente. 

E, já agora, gostaria de saber porque raio não me é permitido pedir a um par de amigos que me atirem ao mar. Parece que isso, com ou sem eutanásia, é proibido. Notem que nem falo de um pobre vivente mesmo em coma inexorável e em grande sofrimento: falo do meu desditoso futuro cadáver. 

Ou será que alguém pretende proteger as funerárias que à falta de se poderem cevar no morto, cobram balúrdios aos vivos que sobram? Senhores deputados, esta causa não é fracturante, não defende especiais direitos humanos mas tambem não ofende as crenças de quem quer que seja.O mar dá-se melhor com um cadáver do que com o plástico, o lixo, os óleos contra o sol e outras porcarias do mesmo tipo. Desejo-vos boa vida e, se possível, melhor morte.

 

 

29
Mai18

O Congresso do PS

José Carlos Pereira

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 Tiago Miranda, "Expresso"

 

O PS realizou no passado fim de semana o seu XXII Congresso e dele não saiu nada de verdadeiramente novo. Como quase sempre acontece quando um partido está no poder, não houve disputas efectivas de liderança nem guerras em torno da representação nos órgãos nacionais. A candidatura minoritaríssima de Daniel Adrião mais não fez do que marcar figura de presença e garantir alguns lugares na Comissão Nacional para os seus apoiantes.

António Costa geriu os três dias do Congresso como pretendeu e, ao adiar para 2018 as decisões quanto às próximas eleições europeias e legislativas, seja no que diz respeito a compromissos programáticos, a metas eleitorais ou aos protagonistas dessas mesmas eleições, esvaziou de polémica a reunião magna dos socialistas. Claro está que a isto não é alheio o facto de ainda ter pela frente a negociação do último Orçamento do Estado desta legislatura com os partidos que suportam o executivo, o que tornava de todo inconveniente qualquer exercício de avaliação da relação com PCP, BE e PEV ou mesmo de discussão sobre as bandeiras eleitorais para os próximos anos.

Restava verificar como é que os congressistas iam reagir ao confronto de ideias entre visões diferentes do posicionamento ideológico do PS, afirmadas nas semanas anteriores nas páginas dos jornais por personalidades como Augusto Santos Silva ou Pedro Nuno Santos, e como seriam capazes de lidar com o processo que envolve o antigo líder José Sócrates, na sequência do recente divórcio entre este o partido. Pois bem, tudo correu como António Costa desejaria.

A relação com José Sócrates esteve sempre mais presente na cabeça dos jornalistas e dos comentadores do que na dos congressistas. Motivou uma ou outra intervenção genérica sobre a necessidade de incrementar a luta pela transparência e pelo combate à corrupção e à má gestão dos dinheiros públicos, mas sem se poder dizer que houve um caso José Sócrates no Congresso. O partido parece ter virado a página, aguardando pela evolução do processo judicial.

A discussão ideológica ocorreu, permitiu ver que há opiniões divergentes até entre os principais dirigentes do partido, mas isso será algo para debater (e preocupar?) mais à frente. António Costa, o pragmático, sabe que tem de reservar para si a liderança do espaço do centro-esquerda e manter as pontes abertas para eventuais entendimentos com os partidos à sua esquerda, sem hipotecar a possibilidade de entendimentos estruturantes com o PSD, como sucedeu recentemente sobre os fundos comunitários e a descentralização. Como eleitor do espaço político do centro-esquerda, prefiro ver o PS reservar para si a autonomia de, a cada momento, decidir o que é melhor para o país.

29
Mai18

Diário político 226

d'oliveira

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É com certeza uma casa espanhola (e modesta...) 

 

O senhor Pablo Iglésias é, como se sabe, secretário geral da organização “Podemos”, força política radicada na extrema Esquerda espanhola e herdeira, pelo menos em avultado número de militantes, da fantasmática IU e de diversas pequenas, e praticamente desaparecidas, formações de Esquerda. Também recebeu o apoio (e integrou) avultado número de antigos militantes do PSOE. Neste momento é a quarta força política de Espanha depois de durante algum tempo ter ameaçado os socialistas. Desde a fundação até hoje, o Podemos já misturou muita água no seu vinho o que, justamente, lhe terá conseguido uma melhoria na quantidade de votos que tem obtido.

De todo o modo, não é fácil definir com exactidão o programa do novel partido justamente porque, como se sabe, é a prova do poder que finalmente traça as verdadeiras fronteiras da ideologia e da real intervenção política.

Todavia, não é a isto que vimos.

Há uns tempos atrás, em 2012 , o anterior ministro da Economia de Espanha (hoje no BCE) entendeu comprar uma casa por 600.000 euros. Tal facto originou um violento ataque de Pablo Iglésias que não só achava que quem gasta tal soma numa casa é “milionário” e por isso indigno de ser ministro, sobretudo da Economia, mesmo s Guindos tivesse tido excelentes lugares regiamente pagos antes de entrar na política. Iglésias, aliás, também declarava que uma casa de tal preço era um lixo disparatado e ofensivo.

Nas últimas semanas, Iglésias e a sua companheira, entenderam comprar exactamente pelo mesmo preço (ó ironia das ironias!...) uma casa situada numa zona privilegiada para aí viverem e educarem os filhos que estão prestes a nascer.

Estalou o escândalo entre a opinião pública espanhola. Iglésias pecava tanto ou mais que Guindos. Ainda por cima, recorria a uma hipoteca que representa exactamente 90% do preço da futura casa pagável em prestações mensais durante trinta anos, o que atira o fim da dívida do casal para os setenta e poucos anos. Fora o ordenado de deputados que ambos recebem, desconhecem-se outros meios de subsistência, mesmo se Iglésias tivesse sido professor e colaborado nuns simpáticos mas quase desconhecidos programas de televisão.

A militância “podemos” que aplaudira freneticamente a denúncia contra Guindos ficou entalada. A s críticas vieram de todo o lado e especialmente do presidente da câmara de Cadiz, o senhor “Kichi” que, pelos vistos, fez voto de pobreza e vive num apartamento minúsculo de 40 m2, situado numa zona popular e alugado.

Perante o arruído ensurdecedor e a geral gargalhada da restante classe política, Iglésias, sempre hábil recorreu a um estratagema: um referendo interno entre os apoiantes de “Podemos”. Dois terços votaram (como no?) no líder e casal hipotecado até às orelhas já pode dormir descansado na sua nova mansão que, por ser de revolucionários já não é nem uma vergonha nem um luxo.

(lembremos para os ex-amigos íntimos do Siriza grego que já o senhor Varufakis se deixara fotografar numa belíssima mansão com vista sobre a Acrópole: a revolução é sobretudo óptima e aconselhável para os outros, para os paisanos e demais patas ao léu que, embevecidos votam nos exemplares e humildes profetas do futuro radioso e dos amanhãs que cantam ((pelo menos para eles, acrescento eu)).

* na gravura a "casinha" em que questão. Fonte: internet