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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

24
Mai19

As europeias e o resto

José Carlos Pereira

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A dois dias das eleições europeias, as últimas sondagens apontam para uma vitória confortável do PS, mantendo-se o PSD abaixo dos 30%. É curioso verificar que Rui Rio já construiu um argumentário para amenizar a derrota: a base de comparação são os resultados das anteriores europeias, expurgados da votação que caberia ao CDS, pelo que um “crescimento” para os 27%/28% já deixará o líder do PSD a reclamar um aumento significativo da votação. Isto quando se sabe que os partidos na oposição costumam ganhar as eleições europeias e não só aproximar-se do partido no poder. E em 2014 PSD e CDS estavam no poder e não na oposição...

Esta vitória nas europeias vem confortar o PS a poucos meses das eleições legislativas, após tempos nada fáceis para os socialistas. Por um lado, o desgaste e os erros da governação provocam a erosão natural de algum eleitorado menos fiel. Depois, a remodelação governamental não foi brilhante e não trouxe o suplemento de entusiasmo e de energia que certamente António Costa esperaria. Pedro Nuno Santos subiu a ministro, mas curiosamente perdeu protagonismo e notoriedade face ao papel relevante que tinha na articulação da “geringonça”. Mariana Vieira da Silva passou a ser a terceira figura na hierarquia do Governo e a verdade é que, por muita capacidade e qualidade de trabalho que revele, não se lhe reconhece dimensão política para tal posição. Finalmente, o muito debatido “familygate” provocou sérios danos na credibilidade do executivo e dos dirigentes socialistas.

Contudo, a incapacidade revelada pelas lideranças da oposição, designadamente PSD e CDS, foram permitindo que o PS passasse por entre os pingos da chuva. Mais tarde, a crise criada com a aliança entre PSD, CDS, CDU e BE para repor na íntegra as carreiras dos professores revelou-se decisiva para que o PS recuperasse na simpatia e nas intenções de voto dos portugueses, cuja larga maioria não aprova o privilégio (e o custo) que representaria a reposição integral das carreiras de certas classes profissionais.

O PS elegerá, assim, oito ou nove eurodeputados nas eleições do próximo domingo, mesmo apresentando uma lista de qualidade global inferior à candidatura de 2014. Não me parece que as saídas de Francisco Assis, Elisa Ferreira, Maria João Rodrigues e do notabilizado Ricardo Serrão Santos tenham sido compensadas, no seu todo, por candidatos de igual craveira política e técnica. A eleição do nono deputado, Manuel Pizarro, poderia permitir renovar a liderança da distrital do Porto do PS e ajudar a resolver a candidatura socialista à Câmara portuense nas próximas autárquicas.

Veremos também como se distribuem os restantes deputados ao Parlamento Europeu e, sobretudo, se algum dos partidos mais pequenos consegue eleger representantes em Bruxelas. Numas eleições determinantes para o futuro da Europa e de Portugal, pois é no contexto europeu que se decidem as políticas os instrumentos que formatam a coesão e o desenvolvimento do país, é fundamental que os portugueses participem, votem, façam as suas escolhas e continuem a dar mostras de que os extremismos e populismos anti-europeus e anti-liberais não têm espaço para medrar em Portugal.

Ultrapassadas as eleições europeias, o país entrará rapidamente em modo pré-eleitoral para as legislativas e aí o PS terá o desafio de lutar por uma maioria, sem destruir as pontes que permitam construir novas soluções parlamentares no caso de não conseguir aquele objectivo.

24
Mai19

au bonheur des dames 484

d'oliveira

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Isto mais parece o pinhal da Azambuja

mcr 24.05.19

 

Eu nem sei se ainda existe o pinhal da Azambuja, palco de grandes ladroeiras, no século XIX a pontos de, por isso ficar (mal)afamado. Também não sei se a expressão ainda corre com o significado que na altura lhe era dado.

Portugal, este “torrãozinho de açúcar”, alegadamente inventado por Pinheiro Chagas, segundo Eça, goza da pouco recomendável fama de, em questões de História (Geral, Internacional ou Pátria) ser ligeiramente esquecido, para não dizer cruamente ignorante.

A coisa torna-se ainda mais evidente quando, citando sempre o autor do “Primo Basílio,” convém deitar um pesado pano de esquecimento sobre a nudez acusadora da realidade. Num país de brandos e pouco recomendáveis costumes, os gatunos andam à solta pelas ruas e pelos campos sem que a opinião do indigenato local se comova sobremaneira. E com eles, os espertalhaços, os aproveitadores, os que andam continuamente quase a pisar o risco coisa que eles (e os basbaques) confundem com agudeza de espírito e intligência

Agora, segundo o “Público”, uma senhora deputada da Beira Baixa locupletou-se com quase três centenas de milhares de euros de dinheiros europeus. Em duas páginas, lê-se esta saga extraordinária que narra como empreendimentos já a funcionar tiveram ajudas para projectos onde o nome da deputada aparecia como responsável técnica. Aliás, enquanto parlamentar, a deputada no registo de interesses afirmava isso mesmo. Só muito mais tarde é que veio a propor um novo registo onde, imagine-se!, aparecia desvinculada da empresa desde antes da data do primeiro registo. Tudo isto, acrescente-se, dentro de uma história maior e menos brilhante de compadrios no distrito com investigações policiais a várias empresas. No caso em apreço há ainda a nota extraordinária de de a referida criatura ser alta responsável política local e “especialista” na atribuição de verbas para empreendimentos com fins turísticos. Lá que é especialista não há úvida. Sabe-a toda, a senhora deputada. Conhece, ao que se vê, todos os interstícios da lei, todos os truques e todos os atalhos.

Resta saber o fim desta história que no meio do turbilhão das eleições e das férias que se aproximam pode, até, ficar “em águas de bacalhau”. A ética, como se sabe, vai para férias na estação calmosa. E, às vezes, não regressa...

O segundo caso desta crónica de costumes surpreendentes no reino da Lusitânia de Baixo, é o de um artista (um “artista português”) dedicado às artes fotográficas. Vejamos: um cavalheiro de Torres Vedras é um apaixonado pela fotografia paixão que só é sobrelevada pelo amor ao torrão natal. Vai daí decidiu consagrar o seu robusto talento a imortalizar fotograficamente o Carnaval de Torres que, como é amplamente sabido e reconhecido, só pede meças aos do Rio de Janeiro, de Veneza e de New Orleans.

O continuador de Relvas, Alvão ou Emílio Biel, possuído pelo mais lídimo amor à terra onde nasceu e vive, fotografou abundantemente os festejos que fazem a glória da sua cidade e despertam a inveja das vizinhas e concorrentes.

Ao fim de anos de película impressionada e gasta, eis que ao artista ocorreu a ideia de publicar um livro onde constassem não apenas a pesquisa etnográfica mas sobretudo a beleza e a plasticidade das suas fotografias. Vai daí, produziu um volume com 380 (trezentos e oitenta) peças fotográficas.

Ora, sem dúvida atentos à genialidade da obra, os cavalheiros da Câmara Municipal, melhor dizendo da empresa municipal “Promotorres” (responsável pela organização do famosíssimo carnaval indígena,) entenderam dever comprar por 9433,96 euros quinhentos exemplares do livro para “o utilizar como oferta em situações de representação ou agradecimentos”(sic).

E para que não houvesse dúvidas quanto à legalidade do acto, entenderam não comprar o livro diretamente ao autor mas sim a um terceiro, no caso a Livraria União onde a obra estava à consignação. Esclareça-se que esta consignação tinha o belo volume de 500 exemplares (metade da edição). Eu, comprador compulsivo de livros, ex sócio de uma extinta editora, de duas livrarias entretanto finadas, nunca pensei que uma consignação ultrapassasse nos casos mais simpáticos as duas, três cinco dezenas de exemplares.

E, também com sessenta e muitos anos de comprador, nunca entendi como é que se vai comprar uma obra a um intermediário e não ao editor. É que entre editor, distribuidor e vendedor final (livreiro) o livro sai pelo dobro do preço, como é natural.

Tendo em linha de conta o preço anunciado da edição (10500 euros) metade dele seria 5.250 ou seja a Promotorres pouparia (a ela e aos cofres municipais) 4100, 96 euros. É dinheiro!

Poderemos sempre pensar que, ao pagar esta forte diferença a Promotorres estava a ajudar o comércio local, no caso a já citada livraria União feliz consignatária da obra de arte em causa. Sempre era um prémio a quem tão ousadamente aceita uma consignação tão extraordinária.

Simplesmente, há mais dois ou três pormenores nesta história mecenática torriense e carnavalesca.

O celebrado fotografo (que “cultiva desde jovem o gosto pela fotografia, expondo de quando em quando e é um apaixonado pela arte contemporânea” (sic)) é actualmente Secretário de Estado. E antes disso foi presidente da câmara municipal durante dez anos (2004 a a 2015).

Claro que o artista pensou maduramente na hipótese de existir alguma incompatibilidade e por isso mesmo “certificou-se de que o cargo que exerce não o impedia de colocar à venda em local de comércio regular” (sic) o produto da sua veia artística. E ao fazê-lo sempre pode afirmar que foi ou será “tributado pelo produto das vendas em regime próprio ou em sede de IRS” (sic, de novo, Ufa!)

Não oso questionar o génio do fotografo e amador de arte contemporânea (qual?) e que expões de quando em quando (onde?) mas também não consigo deixar de perguntar se nesta compra miraculosa não intervieram factores menos artísticos tais quais o peso político e institucional do artista e o seu passado próximo na direcção da autarquia.

Fosse eu criatura de torva má fé, teria o arrojo de resmungar que a mediação da livraria não passava de um truque e, ao mesmo tempo, de algum favor. E que o entusiasmo da Promotorres teria um sabor politiqueiro pronunciado. Mas sendo eu, mesmo velho e resmungão, criatura de pios hábitos incapaz de ver a maldade onde ela não existe, forçoso é concluir que tudo isto se passou da melhor maneira, no melhor dos mundos e sempre, sempre, motivado pela causa maior da felicidade dos cidadãos torreenses e do país em geral. Tout est bien quando finit bien\1

(ou como diria o imortal Beru, do não menos imortal San Antonio/ Frederic Dard: du “lard or du cochon”.

(se os leitores se interessaram por este último parágrafo sempre informarei que cito um dos mais extraordinários criadores da língua francesa, objeto de estudo e de teses universitárias e autor de uma boa centena de livros vagamente policiais e fortemente humorísticos. Assinou, fundamentalmente na “série noire” sob o nome da San Antonio e menos de Frédéric Dard. Mereceu ter um “dictionnaire amoureux” e ser alvo de números monográficos de revistas como “Le Magazine Littéraire” um must absoluto que descobri por via de um amigo sardo e bem disposto numa Berlin longínqua e murada no ano da graça de 1970. Devo-lhe mais esta devoção e uma receita imbatível de spaghetti alla bolognese. Espero que esteja vivo como merece, de boa saúde sempre curioso de línguas e diversas literaturas.

Mesmo correndo – como sempre! – o risco de me alongar, devo contar que o conheci no primeiro dia do Grundstuffe 1 do Goethe Institut. E à primeira hora. Alguém ao ver deambular a nossa professora de alemão pela sala, exclamou “Che bel culo!” concordei em voz baixa e ficamos logo amigos. Nem podia ser de outra maneira!)

 

23
Mai19

O leitor (im)penitente 209

d'oliveira

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O melhor sucessor possível de Raduan Nassar

(e de João Cabral, Rachel de Queiroz e Jorge Amado)

mcr 23. Maio 2019

 

Não me tenho na conta de fanático. Com a miopia dos muitos e longos anos de vida não recordo nenhum momento de entusiasmo de tal modo exuberante que fizesse a realidade, a áspera realidade (para citar enviesadamente Danton), descarrilar. Não que tenha, e desde há muito, amores fundos e desamores furibundos. Não falando dos segundos – não vale a pena trazer à cena coisas e pessoas detestáveis que prefiro sepultar no silêncio pesado e escarninho, recordo alguns autores que sempre amei sem peias. Desde Verne até Salgari (sem esquecer Edgar Rice Burroughs, pai de Tarzan) até Fernão Mendes Pinto, Garrett, Camilo, Eça, Pessoa, Aquilino, O’ Neil e Hélder, não tem conta os meus escritores favoritos. Da estranja trouxe, desde cedo, Homero, Dante, Rabelais, Stendahl, Shakespeare alguns russos, Rilke, Prévert, Whitman, Pound e Cervantes. Há mais mas estes são lidos e relidos, tenho-os em muitas e variadas edições, nunca andei por Itália sem um Dante de bolso. Tempos houve que sabia de cor longos trechos, sobretudo dos poetas e mesmo de Rabelais (e no maravilhoso francês em que foi escrito, ora tomem lá!).

Afirmei que a lista não era exaustiva até porque mesmo já fortemente entrado em anos ia descobrindo outros autores e fazendo novos – mesmo se raros – amigos.com a música passa-se o mesmo. Apesar de me considerar definitivamente marcado pela música da minha adolescência onde os grandes nomes do primeiro rock se juntavam a alguns músicos italianos ou franceses e a um solitário e admirável Harry Belafonte. Apanhei com os golden sixties em cheio e daí vem outra enorme pazada de músicos quase todos anglo-americanos. Nunca os distingui dos meus (muitos, uma multidão) admirados músicos de jazz (outra paixão. O que eu daria para ter, mesmo sem já poder ouvir, um enterro à moda de New Orleans!...) da ópera italiana e dos divinos Mozart, Bach e sucessores.

Vem do fim dos sessenta uma empedernida admiração pelo Chico Buarque que atravessou Portugal como um meteoro com a peça “vida e morte severina” por ele integralmente musicada. É verdade que o texto (do enorme João Cabral de Melo Neto, membro do trio fantástico Drumond e Manuel Bandeira – e uma lembrança carregada de ternura para Vinicius, um poeta igual à vida) era de per si uma “assombração” (uso o belíssimo termo brasileiro em todos os seus sentidos possíveis. Mas o Chico, rapaz da minha criação e do meu tempo, levo-lhe dois anos mais, foi outro cometa. Eu “até que nem sou” muito da música brasileira mas ao Chico (e um pouco ao João Gilberto, ao Caetano e ao Tom Jobim) não resisto: rendição incondicional não apenas pela música mas sobretudo – e muito – pelas fabulosas letras. Nesse capítulo ele está (oh que vulgaridade! ) ao lado de Dylan, do Brel, do Ferré, do Leonard Cohen e de mais alguns, que deram um lastro admirável aos nossos anos de juventude.

A recentíssima atribuição do Camões ao Chico Buarque foi, para mim e apesar de tudo, uma surpresa. E um momento de pura felicidade: já antes tivera o gozo de ver premiado o Manuel António Pina (um amigo antiquíssimo...) e o Raduan Nassar o autor mais avaro de palavras que alguma vez conheci (três pequenas obras que se lêem de um só fôlego e que andaram por aí aos caídos em saldos de saldos sem que alguém lhes pegasse. À conta disso, sempre que as via, comprava-as e oferecia a amigos escolhidos com forte recomendação e indizíveis ameaças para o lesa-crime de não ler.

Não deixa de ser curioso que, ao saber da notícia do prémio, a primeira palavra de Chico fosse para esse escritor brasileiro tão desconhecido e não para João Cabral de Melo Neto autor da “vida e morte...” já citada. Ou para outros e mais recentes “Camões” brasileiros...

Não sou dos que correm atrás do Camões ou do Nobel sem mais nem menos. Bem pelo contrário, quer num quer noutro, tenho largos motivos para me perguntar a que título os prémios caíram no regaço de certos autores. No caso do Nobel tenho uma lista infindável de escritores que o não receberam sabe-se lá porque (más) razões. Jorge Amado, Lawrence Durrell, Graham Green ou Philip Roth são exemplos evidentes. Ando há anos com uma aposta pendente com um velho amigo meu sobre o poeta libanês (nascido na Síria) Adonis. Eu, que além dos versos lhe conheço a generosa biografia, entendo que nunca receberá o prémio. Vão adiando, adiando sempre a espera que o homem morra (e ele já está com um pé nos noventa anos!...). Nessa altura, os do Nobel suspirarão aliviados. O mesmo já lhes tinha sucedido depois da morte de Amos Oz, um israelita com que os poderes públicos do Estado hebreu sempre conviveram mal. Como este, Adonis poeta que nunca aceitou os fanatismos radicais da zona, fossem eles sionistas ou jihadistas, é um incómodo para as plácidas criaturas suecas muito amadoras do mainstream e dos equilíbrios geo-políticos.

Suponho que no Brasil bolsonarista a notícia não seja motivo de festejos mesmo se, a imensa popularidade do cantor seja, suponho, transversal à sociedade brasileira. Mas o Chico nunca foi persona grata para a ditadura e a polícia ter-lhe-á enviado mais de vinte intimações para ele se apresentar “para esclarecer”... O costume, como se sabe, ou como os da minha geração sabem, ou sabiam, de ginjeira.

Não sei se se irá repetir a famosa e famigerada discussão sobre o facto de CB ser um letrista de sambas. A coisa foi tentada com Dylan mas não surtiu efeito. Pode mais uma canção do que cem poemas hagiográficos ou patrióticos e não é por acaso que em situações difíceis e limite da história recente foram canções que ficaram (a “Madelon”, o “It’s a long way to tiperary”, a “Lily Marlene”). Os pobres soldados, carne para canhão das trincheiras da 1ª guerra e das frentes sangrentas da 2ª, são (foram) testemunhas fieis e fidedignas do que agora escrevo.

(e entre nós: alguém se lembra do “angola é nossa” que as emissoras e a televisão vomitavam incessantemente?)

Parabéns, Chico Buarque. Afinal não há tanto mar entre cá e lá. Honra seja aos proponentes portugueses do prémio que, primeiros a falar, logo o indicaram. É verdade que este ano cabia a um brasileiro mas não se deve esquecer que a literatura brasileira actual apresenta um belo naipe de bons autores credíveis para serem escolhidos num prémio mais ou menos rotativo entre os PALOP. Portugal e Brasil. De todo o modo, a consagração de Buarque é ainda e sobretudo a consagração de uma poesia em português. Em bom português...

 

(nota: Existe e está em venda um belo livro com todas as letras de Chico Buarque. Com dois bónus: uma pequena biografia e muitas fotografias: “tantas palavras” Chico Buarque, Companhia das Letras, 1918)

* a vinheta: "morte e vida severina" o espectáculo dos estudantes da Pontificia Nniversidade de S. Paulo. E um abraço aos meus velhos amigos e amigas desse tempo de vinho e rosas de chumbo e de esperança

 

18
Mai19

15 anos de Incursões

José Carlos Pereira

Hoje fazemos 15 anos. O Incursões nasceu a 18 de Maio de 2004 com este belo poema de Eugénio de Andrade.

É o momento de evocar aqui todos os que foram fazendo e lendo o Incursões ao longo destes anos, com uma menção especial ao J.M. Coutinho Ribeiro, que partiu demasiado cedo e continua a fazer falta aos seus amigos.

O tempo áureo dos blogues parece ter passado, agora que as redes sociais dominam, mas continuamos a ter um número considerável de leitores, que totalizaram no último ano 21.000 visualizações do Incursões. É para eles que aqui continuaremos.

 

15
Mai19

Au bonheur des dames 483

d'oliveira

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Eppur si muove

mcr 15.Maio.2019

 

Ver o grotesco espectáculo de um tal Joe Berardo a tentar graçolas no Parlamento diz tudo sobre esse “augusto” órgão e nada sobre o cavalheiro que a si próprio se denomina Joe, à boa moda de uma certa América dos anos 20/30.

Eu não sei de onde lhe vem a fortuna mesmo se esta está a bom recato, como a bom recato está a famosa colecção que, convenhamos, não é assim tão extraordinária quanto se pinta. Há ali muito “ar do tempo”, muita moda, e muita disparidade (graças provavelmente aos rapazes e raparigas que, com tabuleta de críticos de arte, à porta, foram indicando as peças a adquirir). Ver o dito senhor Berardo a falar de arte é ainda menos estimulante do que um copo de óleo de fígado de bacalhau bem cheio.

É que não basta vestir-se todo de preto paras se poder entrar no mundo dos connaisseurs de arte. De preto andam os gatos pingados e preta é a cor do urubu e não se lhes conhece nenhum entusiasmo por Van Gogh ou Vieira da Silva. Os únicos homens que se vestem muito de preto e nem por isso perdem um certo ar de senhores são (ou eram) os ciganos e nem todos. E há (ou havia) nesses homens um sentido inato da dignidade, da honra e da palavra dada. Uma dívida era uma dívida e não havia subterfúgios (tão pouco advogados ao lado) para iludir esse facto.

Parece que o mister Berardo não tem de seu um cêntimo. Viverá de quê? Quem lhe paga a renda da casa, aliás luxuosa que, pelos vistos, não é dele mas de uma sociedade de que a criatura nem accionista directo é? Quem lhe paga a farrapada preta com que se adorna? E as jataradas e almoçaradas? E o carro? E a quinta da Bacalhoa? E, e, e?

Ver esta abencerragem na televisão dá-me a volta à tripa e faz-me pensar em fugir para muito longe, a ter um estatuto de apatridia para não me confundir com os cidadãos do país de que ele eventualmente se reclama. Será este desgraçado Portugal uma república bananeira, um imenso pinhal da Azambuja, onde cavalheiros de trabuco à ilharga fazem pela vida à custa dos passantes indefesos e inseguros?

 

2 Deixemos este tema inóspito e lavemo-nos mãos e mente com a lembrança dessa grande cantora e atriz (mal aproveitada) que foi Doris Day. Eu sou, pela idade e porque, muito pequeno, ia com a minha excelente Mãe ao cinema Peninsular todos os domingos à tarde, um do felizardos que viram muitas das fitas protagonizadas por D. D.

E, mais ainda, ouvi um ror de canções (muitas delas suavemente jazzy) que valiam cem vezes o “Que será, será?” com que os ignorantes a recordam. Não que seja algo de mau, mas é tão redutor!...

Sobretudo quando se sabe que ela interpretou (e brilhantemente!...) o “song book” de Rodgers & Hart, que cantou em dueto com Sinatra ou que tem uma colectânea de músicas de cinema de grande qualidade. Isto entre quase uma centena de discos onde é raro descer ao sofrível.

 

Curiosamente, ontem (terça feira) vi na 2 um longo documentário sobre Heddy Lamarr, actriz bem mais antiga do que DD e que teve, ainda na Alemanha, uma estreia fulgurante com o filma “Êxtase”, o primeiro a mostrar um nu impressionante. Da europa partiu para Hollywood onde sob a férula de Louis B Meyer teve uma carreira excepcional que culminou (que bem que me lembro, ai quão velho estou!) com “Sansão e Dalila”(real: Cecil B de Mille), em que contracenava com Victor Mature, um actor que tinha grande saída entre o público feminino 2 que trabalhou com John Ford, entre outros,

Além de bonita e boa actriz, Hedy era um inventora de qualidade mesmo se muitas das suas criações neste campo tenham sido esquecidas. Na sua Alemanha natal o dia do seu aniversário foi instituído como “dia do inventor” – bonita e justa homenagem E era, honra lhe seja, uma feroz adversária do nazismo e, em Hollywood, pertenceu a todos os grupos de actores que contribuíram para o esforço de guerra.

 

O jornal “Le Monde”, que devotamente acompanho desde o princípio dos anos 60 (uma vida!) entendeu, e bem, muito bem, republicar todos os livros de Julio Verne numa edição fac-similada da maravilhosa edição Hetzel. Em boa hora o faz, dado que os exemplares dessa edição atingem valores astronómicos que vão das largas centenas de euros até a alguns milhares. Esta ediçãoo anuncia-se barata mas há um horrendo defeito: não se consegue adquiri-la em Portugal, Já escrevi o raio do jornal mas nem resposta. É de uma criatura ficar com os dentes como ossos!

Todavia, pesquisei tanto quanto pude, ou, melhor, tanto quanto sei, e em breve me hegaão outos fac-similes de algumas das principais obras desse autor que já chegou (oh la la!) à colecção “Pleiade”. Uma das características mais interessantes da edição agora em fac-simile é a de apresentar todas as gravuras originais, coisa que nunca (que eu saiba) ocorreu nas edições portuguesas da Aillaud, da Bertrand ou Companhia Nacional Editora (edições ainda do fim do século XIX) que se limitavam a duas magras gravuras.

É curioso como Verne (e também Emílio Salgari) quase desapareceram da actividade editorial nacional. Nos seus países respectivos gozam ainda hoje de grande respeito e afeição de leitores de todas as idades (e não só os mais jovens) e, no dizer de Umberto Eco ou de Fernando Savater, tão ou mais devotos quanto eu, ainda hoje se podem ler com muito maior proveito do que os Harry Potter. Em Itália, nas redes sociais aparecem inúmeros grupos de leitores de Salgari que tentam porfiadamente descobrir a mítica ilha de Mompracem, praça forte de Sandokan, um inimigo jurado dos ingleses à imagem do Capitão Nemo das “vinte mil léguas submarinas” e também da parte final da “ilha misteriosa”.   Provavelmente, isto não passa de uma mania de velho mas antes isso do que perder tempo a ouvir os dislates de boa parte dos candidatos ao parlamento europeu e, entre eles, dquele pobre diabo que dá por qualquer coisa Marques e que o PS numa hora de pesadelo preferiu a Maria Mauel Leitão Marques que sabe mais a dormir do que o cabeça de lista acordado e cheio de vitaminas. Pelo menos, aqui, o PS poderia ter marcado a diferença e apresentado uma grande cabeça de lista, num universo masculino de onde se salva Marisa Matias que, todavia, sucede (pela 3ª vez a si própria) o que não lhe retira o mérito que a sua inteligência, o seu zelo e a sua simpatia mais que justificam. Não é que vá vá votar nela  mas Marisa merece o destaque que tem tido.

*na gravura : um urubu, bicho feio e preto mas apesar disso bem menos medonho que alguns bípedes que por aí se mostram sem vergonha nem pudor

10
Mai19

Au bonheur des dames 482

d'oliveira

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As aventuras do munícipe cumpridor

mcr 10 de Maio de 2019

 

Ser cidadão em Portugal não passa de um eufemismo. Os portugueses, onde quer que vivam (ou quase) são, na melhor das hipóteses súbditos. E súbditos atentos, veneradores e obrigados. Se não...

Os governos, as repartições públicas, as polícias, o fisco (ai o fisco!...), as câmaras, os da água, os da luz, os do gás, os do lixo, o polícia de giro, o senhor presidente da Junta, o excelentíssimo presidente da Câmara e os venerandos vereadores, para não falar dos meritíssimos juízes e demais autoridades judiciais, tudo, todos merecem vénia gorda, respeitinho, muito respeitinho, RESPEITO!

Tudo que é necessário fazer junto de qualquer uma destas altas autoridades é para o desgraçado requerente um percurso armadilhado, tortuoso, cheio de alçapões. Vejamos este caso pequeníssimo.

Vivo numa zona onde o transito era um pandemónio. Estacionava-se por aqui de qualquer maneira, todo o dia. De quando em quando a polícia municipal aparecia e era um bodo aos pobres. Os infratores corriam que nem baratas tontas nas a “autoridade” estava preparada e esperava-os de contravenção em punho.

A Câmara, enfim um qualquer serviço dela, entendeu – e bem! – tornar a nossa vida menos infernal e, de passo, ganhar uns cobres fazendo pagar o estacionamento. Aos moradores foi concedida, mediante uma prestação anual de vinte e cinco euros, licença para durante um par de horas poder parar nos locais vedados ao público em geral. De um dia para o outro apareceram espaços à fartazana. Quem vem às compras tem sempre lugar por cinquenta cêntimos.

No ano passado, tornei-me, sem grande dificuldade (só tive de estar hora e meia no Gabinete do Munícipe à espera de ser atendido...) usuário do novo e útil serviço.

De facto costumo fazer tudo de manhã e saio já pronto a ir tratar dos meus assuntos logo que beba o café que me acorda e leia rapidamente o jornal. Assim sendo, saio de carro estaciono ao pé da esplanada e uma vez despachado, meto-me no carro e vou à minha vida.

No fim do ano recebi um aviso para pagar a nova anuidade mas (mea culpa, mea máxima culpa) deixei passar o prazo para o fazer via multibanco. Agarrei num cheque, juntei-lhe uma carta a desculpar-me) o meti tudo num envelope que estampilhei devidamente.

E fiquei a aguardar que no máximo até meados de Janeiro receberia o selo ou indicação para o ir levantar.

Janeiro passou, Fevereiro também, em Março comecei a desconfiar e em nova carta, desta feita registada perguntei pelo selo. À cautela juntava na mesma missiva uma fotocópia do meu estrato bancário onde se via cruamente que alguém descontara o meu cheque. Março e as suas águas foram-se e em Abril voltei a escrever mas ao senhor Presidente da Câmara: mais fotocópias, mais protestos da mais elevada consideração, enfim a habitual parafernália de cumprimentos devidos à majestosa excelência que teria a maçada medonha de me ler vinte e cinco linhas.

Por mera prudência, desta vez, fiz o registo com aviso de recepção. De facto poucos dias depois, recebia um ofício seco e curto (e grosso) que prevenia alguém com o nome do meu pai (quase idêntico ao meu) de que o meu assunto estava devidamente processado (um número infindável de letras e números!!!) e em vias de resolução e que, caso eu quisesse (e acreditasse) poderia usar um número de telefone que me forneciam. O ofício não estava assinado. Por junto no fim havia a referência “o Técnico”.

Temos assim que o Técnico desconhecido enviava um ofício a um cavalheiro já falecido sobre um requerimento assinado por o filho do mesmo!

Sempre de boa fé, prova de supina e culposa burrice minha fui aguardando pelo selo. Ao fim de dez dias, tentei telefonar. Pior do que telefonar para as criaturas da internet é telefonar para um serviço dito “público”. Do lado de lá alguém nos vai dizendo que “estamos em linha de espera há x minutos”. Ao fim de x mais y, aconselham-nos a deixar o nosso número numa jura mais falsa do que judas de que em breve seremos contactados.

Mais dois telefonemas sempre com a mesma resposta, convenceram-me a ir ao Gabinete do Munícipe. Não levei farnel mas, à cautela, ia cheio de jornais e revistas para aguentar o tempo de espera. A família despediu-se de mim como se despediria de alguém que fosse viajar para os trópicos. Paciência, disseram-me, muita paciência. E caldos de galinha...

No Gabinete reinava o ar torvo de quem espera e desespera. Eu tinha o número A 35 e um quadro electrónico indicava que o paciente 30 estava a ser recebido. A meia hora passou e miraculosamente, um número faltou e eu aproximei-me da senhora que tinha a missão de me iluminar.

Em abono da verdade, devo dizer que a funcionária que me atendeu era bonita, gentil, educada e eficaz. Em dois minutos explicou-me que o nome do meu pai aparecia depois de alguém ter andado a pesquisar. Que se eu tivesse indicado o meu NIF as coisas poderiam ter corrido de outra maneira. Expliquei, contrito, que numa carta, sobretudo dirigida ao Presidente da Câmara não me parecia curial meter um número desse tipo e menos ainda o do telemóvel (pelos vistos também aconselhável!...)

De todo o modo, a funcionária consultou rapidamente o tal processo cheio de letras e números e anunciou-me risonha que o meu selo estaria pronto num minuto. E esteve!

De tudo isto, uma mera anedota, sai uma primeira conclusão em forma de pergunta: será assim tão difícil para A CMP enviar pelo correio para o cidadão requerente o selo, depois de cumpridas as formalidades necessárias e recebido o pagamento?

Eu não quereria tirar daqui, deste historieta, moral nenhuma mas não posso deixar de pensar que o correio não é meio idóneo nem eficaz de obter o que quer que seja. E mais: dei razão a uma versão distorcida do provérbio que diz que quem quer vai, quem não quer manda. Tivesse ido ao Gabinete com o cheque em punho e, provavelmente outro galo me cantaria. Ou não, mas isso é já outra história...

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10
Mai19

Diário Político 217

d'oliveira

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Pela nossa (e vossa) rica saúde

d'Oliveira fecit. 10/5/19

 

Agora que se está quase no fim da actividade parlamentar, o Parlamento entrou num furioso rodízio de actividade. Para já é a saúde que mobiliza os deputados.

Estou ainda para perceber quais as razões que levaram o PS a recusar o projecto de Maria de Belém Roseira (cujo percurso relevantíssimo inclui o ter sido deputada várias vezes, Ministra da Saúde, Presidente do partido e mais umas quantas altas funções nacionais e internacionais) e avançar com uma proposta canhestra e risível que voga nos limites da realidade nacional e da irracionalidade operacional.

Já assistimos às ameaças à subsistência da ADSE (paga integralmente pelos seus utentes) mas governada por comissários políticos partidários que ninguém elegeu.

Já tivemos uma amostra dos confrontos com os privados de que a ADSE os acusava. devido à (sobre)facturação. Em resposta, os principais grupos hospitalares ameaçaram cobrar à cabeça os serviços que prestavam. Resultado: um milhão de utentes da ADSE sentiu-se ameaçado e, pelos vistos, as coisas compuseram-se e abriu-se um período de negociações. Na realidade, se a ADSE pode ter razão, os privados também a tem na medida em que os acertos de contas ultrapassavam temporalmente todos os prazos naturais e razoáveis.

Os talibans do SNS entendem que qualquer cuidado de saúde exercido por privados é um “negócio” e, pior ainda, uma amaça à universalidade do serviço público. Vê-se que não costumam frequentar os hospitais e centros de saúde onde as bichas se alongam infindáveis. Parece que desconhecem que é a própria eficiência dos hospitais que expulsa dai (e do serviço público) numerosos tratamentos e meios de diagnóstico. Não vale a pena relembrar a demora das cirurgias não urgentes e, muito menos, das outras. Não interessa saber que, em certas (a maioria) zonas do país, uma colonoscopia pode demorar mais de três anos (entretanto, em Deus querendo, o paciente morre e o problema fica resolvido).

O SNS é, de certo modo, vítima do seu sucesso. São precisos mais (muito mais) médicos, enfermeiros e restante pessoal de saúde e, até, de administrativos e pessoal menor. Faltam camas, as urgências estão atulhadas, há doentes em macas pelos corredores e o descontentamento de pacientes e pessoal de saúde generaliza-se.

É verdade que os custos em material moderno e em tratamentos de vanguarda atingiram níveis estratosféricos o que, aliado ao envelhecimento da população (e consequente generalização de doenças próprias dessas idades), torna tudo extremamente complicado.

Por outro lado, a falta de investimento e as famigeradas cativações aumentam as dificuldades por todos sentidas mormente profissionais de saúde e (muito especialmente) doentes.

Tudo isto aconselharia que o assunto fosse “tratado com pinças”, o que até à data não ocorreu, bem pelo contrário. Como de costume, num país com um alto índice de analfabetismo político e ideológico, tudo descambou para uma espécie de guerra do alecrim e manjerona. De um lado os auto-proclamados defensores do SNS e do Estado centralizador e intérprete único da felicidade das populações. De outro, os liberais de toda a espécie desde os modestos defensores da harmonização entre serviço público, privado e social até aos que execram a palavra “publico” vendo nela a porta aberta ao mais violento bolchevismo. Em boa verdade, são poucos os abencerragens desta última e radical modalidade e bem mais os adeptos do esquerdismo juvenil ou senil que já esqueceu tudo sobre a prática do socialismo real tal qual se usou na finada URSS e satélites forçados.

(virá daí a atribuição exclusiva da paternidade do SNS ao dr Arnault (que executou as instruções de Mário Soares) e se atire para o fosso da História o “relatório das carreias médicas” e a persistente acção de Miller Guerra desde os inícios dos anos 60).

Agora, o problema parece ser a existência de meia dúzia de PPP. Ao que se sabe são apenas quatro, quase três visto a relativa ao Hospital de Braga ter sido denunciada pelo grupo privado que alegou prejuízos. Conviria, porém, salientar que segundo dados de instituições públicas de controle pelo menos três destas PPP tinham tido resultados excelentes colocando os hospitais a que diziam respeito em 1º, 3º e 4º lugares diante da esmagadora maioria dos hospitais públicos cuja gestão mereceu severos reparos. PC e BE querem que se determine em lei a proibição de contratualização de ppp. O PS e os partidos de “Direita”, recusam a proibição em graus diversos. O PS, aliás, deve estar lembrado que foi um seu prestigiado Ministro (António Correia de Campos) o introdutor deste esquema. Aliás, sendo meros contratos de duração certa parece que isso bastaria para se considerar que só se recorreria a eles em circunstâncias especiais e concretas. Tornar em principio geral a proibição é cortar apenas uma possibilidade entre muitas outras de resolver temporariamente um problema de gestão.

À cautela, o PC quer adiar esta discussão para depois das eleições europeias, para as “não inquinar”. Ora estas já estão mais que envenenadas pelo problema do descongelamento das carreiras dos professores e pela guerra de números esgrimidos entre Centeno e os restantes partidos (por acaso a Unidade Técnica de Apoio ao Orçamento já confirmou os números de Centeno que só pecavam por ser brutos e não líquidos (seiscentos e tal milhões contra oitocentos)

Algum bom senso e um exame mesmo superficial da realidade portuguesa recomendariam que o SNS fosse obviamente protegido. E, em primeiro lugar, dotá-lo dos meios financeiros, técnicos e humanos necessários em vez de o fazer andar continuamente à mingua, a arrastar-se penosamente e a sofrer a comparação desvantajosa com os serviços prestados pelo sector privado.

E já que se está com a mão na massa, bom seria que acabasse a persistente má vontade demonstrada pelos poderes públicos e por uma boa parte da Esquerda em relação à ADSE. Seria bom que fossem os utentes a eleger a Direcção desta, seria bom que se permitisse a admissão de novas categorias de utentes e especialmente de todos quantos trabalham em funções públicas. Isto aumentaria a capacidade financeira da ADSE e, eventualmente, reduziria o acesso aos Hospitais Públicos cuja capacidade de resposta está mais que esgotada. Também não se entende a recusa à contratualização de novos prestadores de serviços de saúde que ainda estão fora da constelação da ADSE (o exemplo mais flagrante é o da Fundação Champalimaud que só foi citada pela ineficaz e medíocre Ministra da Saúde como resposta à paralisação anunciada pelos grupos privados. Aliás a extensão às Misericórdias dos acordos com a ADSE seria também de inteira justiça e introduziria uma maior e mais saudável concorrência na prestação de serviços de saúde.

Ao fim e ao cabo é da saúde dos portugueses que se trata. E essa está muito para lá da cegueira ideológica (que , essa sim, é sempre uma doença. Mortal!)

* na ilustração: Rembrandt: "retrato do dr Tulp" também referido como "a lição de anatomia"

 

08
Mai19

au bonheur des dames 481

d'oliveira

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Os professores no labirinto

(“A verdade, a áspera verdade” Danton)

mcr 8 de Maio 2019

 

O sururu que se levantou à volta do descongelamento das carreiras dos professores foi penoso. De ver, de ouvir, de ler.

Indo por partes: Se é verdade que o PS, este, actual de Centeno, parece querer levar as contas públicas com um rigor louvável mas sempre desconhecido na formção socialista, não menos verdade é que desde que o Govero tomou possehouve uma catadupa de medidas que pareciam claramente significar o contrário.

Não indo mais longe, temos que a redução do IVA na restauração foi uma burrice supina. Primeiro, tal medida não reduziu em nada os preços antes praticados. Depois, e num período de crescimento exponencial do turismo, quem se aproveita são os estrangeiros que nos visitam.

Em segundo lugar, temos que o frenesi reversivo do Governo e a vontade de agradar aos seus dois mimosos protetores (PC e BE) a diminuição do horário da função pública teve efeitos catastróficos no funcionamento dos hospitais públicos e das escolas.

Menos horas de trabalho significam necessidade de mais gente ou aumento da balbúrdia nos serviços de saúde. Não se aumentou o número de médicos, enfermeiros e restante pessoal nem sequer se substituíram cabalmente as vagas resultantes da aposentação de profissionais. Pior: prevê-se para os centros de saúde (onde haverá muitas centenas de médicos em fim de carreira) u desastre ainda maior.

Juntem a esta realidade desesperada as cativações levadas a cabo e perceberão que por muito medíocres que sejam (e são-no!) os titulares da Saúde e da Educação, pouco podiam fazer com os recursos humanos e meios financeiros postos à sua disposição.

No caso da Educação, afirma-se por aí – e ainda não vi qualquer denegação – que “de 2015 para cá o absenteísmo de docentes e funcionários aumentou 10% com um custo de 150 M€ por ano; que, no mesmo perído as despesas de pessoal aumentaram cerca de 700 M€; que o número de educadores e docentes aumentou entre 6 a 7000 enquanto o número de alunos diminuiu constantemente” (Público, 8 de Maio).

Entretanto, e voltando à factualidade necessária, temos que, desde há vários anos, os professores representados pela FENPROF, vinham exigindo a reposição dos 9 anos congelados enquanto o Governo respondia com 3 (eliminei os meses e dias por mera comodidade e porque isso pouco ou nada afecta as contas finais relativas)

O PC e o BE (que num prodígio babado de tolice, os “comentadores” descrevem como “consequentes” (ao contrário do PD e do CDS que são uns “inconscientes”) sempre avalizaram as reivindicações dos docentes.

O PS teve, durante estes anos (e nos anteriores ao seu Governo) uma atitude ziguezagueante entre o sim , o não e o “oh quem dera!”. Durante algum tempo, pareceu mesmo concordar com as exigências (na totalidade ou quase) do professor.

Todavia, a tentativa de apresentar um défice decente e a vontade de ter na próxima legislatura um horizonte financeiramente são (o PS está convencido que pode ganhar as eleições e não serei eu quem o contradiga, mesmo se leve muito a série o famoso princípio “prognósticos só no fim do jogo”) levou costa e Centeno (ou vice-versa) a bater o pé e teimar (bem) nos três anos.

Conviria, aqui, lembrar que o simples facto de creditar os professores com um qualquer direito ao descongelamento significa que o mesmo princípio é reconhecido e se torna extenso a todas (e não são poucas nem despiciendas) as restantes carreiras especiais que obviamente reclamarão direito idêntico.

Disto decorre que, mesmo apenas com os três anos aos professores, sempre haverá aumento (importante e não previsto) da despesa pública pois não se vê como é que militares, forças policiais, magistrados e outros corpos essenciais irão aceitar ser excluídos desse maná (começado, repete-se com as reversões generosamente imbecis do IVA).

A questão agudizou-se com a famosa “coligação negativa” ocorrida na comissão parlamentar de Educação. E aqui conviria apontar o dedo às pobres criaturas do PPD e do CDS que, mesmo vendo recusadas as suas elementarmente cuidadosas medidas de salvaguarda do bom funcionamento da despesa pública, não perceberam que se entregavam de pés e mãos – se a distinção, neste caso, tem algum sentido – nas mãos da Esquerda e davam ao PS um balão de oxigénio de que ele precisava como de pão para a boca.

É que ninguém irá verificar se o PS – ao recusar, aliado às Esquerdas, as clausulas de salvaguarda – tem ou não culpas no cartório. Tem-nas, evidentemente, mesmo se por pura falácia venha dizer que as vetou por as mesmas preverem, implicitamente, a bondade da reivindicação de 9 (nove) anos. Ou seja, aceita três (e consequências) mas segundo costa não aceita nove (hoje ou daqui a dez anos). E ameaça não votar a renovada proposta das clausulas de salvaguarda por isso mesmo. Como se vê os “princípios” intangíveis do PS são de tal forma sagrados que prefere perder no parlamento do que ganhar no essencial. E nem sequer se pode dizer que isso seria aliar-se à “Direita” porquanto a “Esquerda”, desprezando os pedidos da FENPROF seu instrumento sindical de sempre, já declarou que votará contras mesmas cláusulas.

Eu, que confesso não ser bom de assoar e menos de convencer entendo que assim o PS pretende uma absoluta rendição da “Direita” mesmo se, à moda de Sansão “morra aqui ele e quantos aqui estão”. Estará a “Direita” prnta a saltar da sertã para a fogueira?

Ou seja, o espectáculo segue dentro de momentos.

No meio disto tudo, o há dias vencedor Nogueira já não exclui sair do partido, coisa aliás natural quando vê o seu desesperado pedido recusado em nome de (Jerónimo dixit) um futuro reconhecimento dos professores quanto à justeza estalinista da sua política de terra queimada.

Em vésperas de eleições europeias parece que vale tudo. Que o BE que só tem uma euro-deputada acredite que isso não a deite para fora da carroça ainda se percebe mas o PC tem outras e diferentes responsabilidades. E há, de todos os lados, desde o “LIVRE” até ao CHEGA (ou basta ou lá que quer que seja...) uma multidão de pretendentes pelo menos tão grande e ambiciosa quanta a que infestava o palácio de Ulisses enquanto este andava a tentar enganar Poseidon, o vingativo.

 

 

03
Mai19

Estes dias que passam 323

d'oliveira

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Andam a brincar aos orçamentos?

mcr 03.05.19

 

Uma extraordinária coligação (PC, BE, PSD e CDS-PP) votou ontem algo também extraordinário: a devolução do tempo total de serviço aos professores.

Resulta deste voto (e já iremos ver o resto) que o PS sofreu uma pesada e humilhante derrota.

Aliás, a vaga e infantil ameaça do sr. Carlos César (uma mediocridade importada dos Açores...) de demissão do Governo traz a esta aliança contra-natura um pouco de pilhéria que, infelizmente, só provoca sorrisos forçados e aumenta o descrédito na personagem e no partido que ela, pelos vistos, representa.

Vamos por partes:

Alguma vez, in illo tempore, o PS foi favorável a tal medida?

Parece que sim, que isso decorre de promessas eleitorais e (antes) de declarações contra o anterior Governo de Passos Coelho. Na altura, o PS não se coibia de fazer fogo com tudo o que lhe vinha à mão. E durante todo o tempo passado após a sua miraculosa subida o Governo amparado pela mão ardilosamente generosa do PC, também não houve especial cuidado em definir com precisão e cuidado quais os limites à pretensão dos sindicatos de professores. Porém, a promessa de pagar 2 anos, nove meses e alguns dias já abria uma brecha nas famigeradas “boas contas” de Centeno. Pior: ninguém percebia como é que se chegara a este número e não a qualquer outro, igualmente aleatório.

Seria bom recordar que o PSD e o CDS nunca foram, durante anos, adeptos desta medida mesmo se não recaia sobre eles o alegado (e real) roubo de tempo de serviço. Ao aceitarem juntar os seus votos aos do PC e do BE demonstraram estar nisto com o mesmo espírito de chicana com que os restantes se governaram.

São as eleições vizinhas que impõem esta declaração de guerra ao PS? Sem dúvida. É o PS inocente e prudentes nesta questão? De modo algum: o PS sabia, sempre soube, desde o primeiro dia, que PC e BE lhe iriam passar esta factura. Esta e outras como, por exemplo, a irresponsável reversão do IVA sobre a restauração ou as 35 horas na função pública que introduziu, ou fortaleceu ainda mais, o caos nos hospitais.

Aliás, o PS, desprovido há muito de qualquer sistema ideológico coerente, andou nestes últimos tempos num desnorte absoluto. Veja-se, apenas, e como exemplo, o caso da nova lei de bases da saúde. Dando de barato que uma nova lei era necessária (e nada o prova) eis que a sua desastrada e desastrosa Ministra da Saúde entendeu comprometer-se com o BE com “propostas de trabalho” em que dava mis uma machadada nos tenebrosos privados. Claro que o BE não se coibiu de trazer à duvidosa luz do dia este compromisso que pôs uma forte maioria do PS aos uivos.

Vai daí, o PS retratou-se afirmando que aquilo (a sua triste proposta) era apenas um documento de trabalho (como se este género de documento não configurasse algo de fartamente real e mais que comprovado pela sanha da Ministra que, em vez de acudir ao urgente, se entretém a tentar rebaixar a Bastonária dos enfermeiros (que aliás se põe sem rebuço, nem prudência, nem bom senso,) a jeito atirando-lhe às canelas uma sindicância que faz lembrar os velhos tempos do Estado Novo.

(é verdade é que esta Ministra é imprestável, disfarçando com o seu ar azougado a impreparação para o cargo e a falta de visão para os formidáveis desafios que aí vem se é que ainda cá não estão. De todo o modo, esta senhora, inquestionável prova do imortal principio de Peter, está a prazo e aposta-se singelo contra dobrado que não fará parte do próximo elenco governativo caso o PS vença as eleições. E digo “caso” porque com estas sucessivas “argoladas” Costa esbanja alegremente os trunfos que ainda tem.)

Todavia, e a favor de Costa estão também os partidos da Oposição. O CDS ainda se percebe: nada tem a perder e a sr.ª Cristas acha que tudo lhe serve para minar o terreno do PPD. Porém, este também não faz a coisa por menos. Supondo que ganhasse as eleições como é que resolvia o imbroglio dos professores sobretudo se, na mesma trincheira, e à espreita, estão os militares, as polícias, a GNR, os guardas prisionais e tutti quanti que também sofreram cortes similares na carreira e nos ordenados?

Quanto aos aliados nesta vaga “frente popular” há que distinguir o PC (e o seu acólito verdinho) do BE. O primeiro tem uma estratégia definida desde há muito tempo e, por mais sobressaltos que o comunismo tenha sofrido, mantem-se fiel a um programa e aos seus apoiantes. Estes podem estar envelhecidos –e estão – mas votam sem a menor sombra de dúvida no que o Partido propuser. As notícias sobre revoltas dentro do “aparelho” e em certos núcleos de militantes são (como o PC afirma, aliás) mais atoardas do que ameaças sérias. Mesmo que existam aqui e ali alguns dissidentes, a verdade éque o “centralismo democrático” reduzirá a ferida a uma coisa pouca. À cautela, já se procedeu a um par de exclusões e ao afastamento de outros tantos elementos duvidosos.

E o BE? Aqui o problema é diferente. Primeiro, porque os bloquistas andaram todo este tempo a tentar tornar-se úteis senão imprescindíveis ao PS. Eles (e não é por acaso que naquele albergue espanhol se acolhem bastantes trotskistas) apostaram no “entrismo” mesmo se, de quando em quando, alguém mandatado para isso manifestasse oposição ao PS. Só que, sem a poderosa disciplina interna do PC, há, naquele bloco mal fissurado, algumas tribos mais puristas que se fartaram de ver a Direcção a assobiar para o lado. O PS, por seu lado, nunca teve grande confiança no BE tanto mais que este não representa uma força eleitoral significativa. Atrai os votos de massas urbanas educadas mas falha nas frentes sindical e autárquica. E está mais permeável a modas culturais e políticas que o conservadorismo inato do PS rejeita e desconfia. Mais, o PS atirou recentemente para a frente um par de “esquerdistas” que poderão atrair bloquistas mais interessados na governação e na influência que um lugar nos gabinetes oferece.

O BE está pois dividido entre duas alternativas: ou manter-se como grupo reivindicativo e anti-sistema, agregador de minorias activas com alguma influencia nas classes urbanas jovens e educadas sempre prontas a abraçar a última novidade ou começar o seu caminho de Damasco de ingresso no PS e na área de poder. Pese as enormes diferenças há um exemplo esquecido, o MES que, nos anos oitenta depois de se ter auto-subvertido, viu boa parte da sua ala esquerda acorrer ao PS que, entretanto já tinha fagocitado o grupo dos ex-GIS, primeira grande dissensão (“à direita”) do mesmo partido.

(não que eu queira comparar os militantes da extinta Esquerda Socialista vindos quase todos das lutas académicas e políticas dos anos 60 e 70, da resistência católica ou do sindicalismo da mesma época com, por exemplo, os elementos mais em vista do BE, mormente as irmãs Mortágua, Catarina Martins, Marisa Matias ou Pedro Filipe Soares chegadas à política muito depois do 25 de Abril, do PREC e dos anos subsequentes. O facto de notoriamente serem da geração dos filhos dos primeiros não deve ser considerado uma capitis deminutio mas evidencia apenas experiências políticas (e assunção dos riscos inerentes) muito diferentes.)

Todavia, nada disto justifica o ardor com que alguns bloquistas parecem querer queimar os barcos em que chegaram e tornar impraticável qualquer exercício orçamental para os próximos anos. Isto se o seu objectivo for um país democrático e inserido na UE. Caso tenham como objectivo um paraíso à Kim Jong-Un (já que nunca conheceram a Albânia socialista) então estão no bom caminho. Resta saber se os portugueses estão de acordo.

03
Mai19

A palavra a António Costa

José Carlos Pereira

O núcleo duro do Governo esteve reunido esta manhã e António Costa falará hoje ao país, tudo em resposta à decisão de acrescentar cerca de 800 milhões de euros de custo com as carreiras da administração publica. De onde se retira esse montante? Quem paga esse preço? A parada é elevada e a coligação negativa ontem formada no parlamento, a fazer lembrar os idos de 2011, merece resposta adequada. Eu sei o que faria se estivesse na posição do primeiro-ministro.