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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

19
Set19

Au bonheur des dames 411

d'oliveira

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As palavras também valem politicamente

mcr  19.09.19

 

Ando nisto há demasiados anos, e se o faço agora com passos mais curtos, paragens mais frequentes e percursos menos longos, nem por isso olho para o mundo com menor curiosidade e, ai de mim!, com menor indignação. Comovo-me e zango-me com a mesma antiga frequência mesmo se os motivos para tal se tenham alargado à medida que fui tendo mais mundo.

Ao mesmo tempo, outro sinal de afastamento da juventude, foi diminuindo o meu entusiasmo e arrefecendo a minha atracção pela novidade. Nem tudo o que reluz ao sol do meio dia tem luz própria e o oiro da surpresa é muitas vezes mera purpurina.

Vem tudo isto a propósito das próximas eleições legislativas e da desenfreada conversata de jornais e candidatos (qual deles o mais prolixo) sobre os benefícios do voto nas suas listas.

Pelos vistos estamos num combate onde vale tudo. Nalguns casos a coisa começou há mais de um ano. Quem não se lembra daquele ministro patusco que anunciou num espaço de escassas semanas uma catarata de investimentos do Estado em tudo o que mexia, com especial incidência para a ferrovia que está num estado catatónico? A criatura foi mandada para a Europa para eventualmente ocupar um lugarzinho de comissário. Não contavam os seus patrões que, apesar de tudo, na Comissão Europeia ainda há critérios e, finalmente, foi Elisa Ferreira a escolhida. (por acaso, ou talvez não, logo apareceram vozes alvissareiras a uivar que com Elisa no poder ia ser um regabofe para o país pedinchão. Esqueciam-se as criaturas que, justamente por lhe caber um pelouro de que Portugal é grande beneficiário, todos os cuidados serão poucos. Elisa terá de ponderar criteriosamente cada solicitação nacional. Os comissários não são embaixadores dos seus países mas membros de uma estrutura que representa todos).

Deixemos, porém, aquele político de via reduzida e passemos a algumas afirmações da campanha. O primeiro prémio vai sem dificuldade para Catarina Martins que afirmou, com a sua habitual candura, que o Bloco era social-democrata! Assim, a secas...

Eu não sei se a distinta senhora terá alguma vez manifestado qualquer espécie de curiosidade sobre a história pregressa do socialismo. Não sei sequer se, alguma vez, sobrecarregou a sua cabecinha com os chamados textos fundadores e diferenciadores dos socialismos que por aí vicejam, permanecem, murcham ou vegetam. Nem sequer a vou importunar com as querelas que atravessaram as duas primeiras Internacionais em que se agigantam os primeiros grandes revolucionários, depois elididos por Marx que os combateu asperamente, com o crescimento da social-democracia alemã (e aqui Bernstein e Kautsky, “o renegado” são imprescindíveis) com o corte brutal da 3ª Internacional, a de Lenin e amigos, que cindiu definitivamente o “movimento operário” e se cindiu a si própria dezenas de vezes quando não eliminou fisicamente e em atroz quantidade milhões de pessoas e dezenas de milhares dos seus mais devotados apóstolos e aqui mereceriam destaque os membros dos comités centrais do PCb (bolchevique) e posteriormente do PCUS bem como a esmagadora maioria dos elementos do Komintern, dos revolucionários profissionais despachados de Moscovo para a restante Europa e Ásia, que acabaram praticamente todos diante de pelotões de fuzilamento ou no gulag. A história do pai ou do avô do Bloco seja em que variante fundadora for (trotskista, maoísta ou dissidente do pcp) é a crónica de uma permanente, visceral, animosidade contra a social democracia.

É verdade que, nestas coisas, que à falta de melhor, chamaremos “os restos do marxismo-leninismo” todas as cambalhotas foram dadas, todas as palavras subvertidas e todos os princípios reinterpretados segundo as conveniências do momento.

O BE nasceu de uma aliança de pequenas formações que tiveram a clarividência de perceber que (excepção feita da UDP) sozinhas nunca sairiam da cepa torta e que o juntar-se numa proto-geringonça surpreendente por muito que isso fosse aberrante havia uma forte possibilidade de chegar ao Parlamento. O que aconteceu: a sua massa eleitoral, urbana, educada e órfã de partido poderá não ter importância sindical, não tocar senão ao de leve as estruturas autárquicas, não arrastar massas proletárias, mas, nos grandes meios urbanos, dá-lhe a força suficiente para eleger um grupo parlamentar. Para tal bastou acenar com causas fracturantes o que é sempre rentável e envolver o resto num discurso radical apelando à perdida unidade do campo revolucionário. A mítica unidade que nunca existiu (basta lembrar os ataques de Marx a Proudhon, a Bakunin e mais uns tantos na 1ª Internacional) e que foi esmagada com as famosas 21 condições de adesão à 3ª Internacional (Komintern). E os partidos comunistas também nunca foram exemplos de unidade ou, pelo menos, as exclusões, a condenação e a liquidação maciça de dirigentes e militantes (na URSS mas também em Espanha durante a guerra civil ou ainda na URSS entre as comunidades comunistas estrangeiras aí refugiadas e posteriormente nos países de leste satelizados por Moscovo) mostram à evidência que a luta ideológica (que também escondia luta pelo poder) ia “purificando” o partido libertando-o de inimigos verdadeiros ou imaginários e convertendo-o numa organização de funcionários cada vez menos criativos e, sobretudo menos eficientes na governação e direcção dos respectivos países. Os dramáticos anos 80 que viram o desaparecimento da URSS, de todas as “democracias populares” europeias, as mais das vezes de forma pacífica (excluem-se a Albânia e a Roménia curiosamente arredadas da esfera próxima do Kremlin bem como a posterior implosão da Jugoslávia, uma criação de Tito que não resistiu ao desaparecimento dele. E não se consideram o Afeganistão, uma aberração ou o Cambodja onde a revolução comunista se traduziu no genocídio.) mostraram como um sistema cai de podre perante a indiferença dos cidadãos ou o seu activo repúdio (DDR e Polónia).

Todavia, o sentimento de orfandade de alguma esquerda, sobretudo da que embarcara na “doença infantil”, foi suficientemente mobilizador para fazer nascer o BE. Ali estava, pensou-se, algo de novo, de diferente do PC enquistado no Alentejo e nas zonas industriais de Setúbal e Lisboa, afastado do poder pelo cordão sanitário dos partidos do arco da governação. E, além do mais, envelhecido e dogmático...

O BE ao apresentar-se à sociedade, trazia um ar de juventude e de ousadia e garantia a potenciais votantes que aquilo nunca seria como o PC. E não era, e não foi. Não penetrou nas tradicionais zonas de influencia comunista e não conseguiu criar raízes sindicais ou autárquicas. A geringonça foi uma bênção que lhe caiu no regaço mesmo se a ideia e a proposta tenham vindo do PC. O BE naquele pacto só trazia os seus deputados, necessários para formara maioria parlamentar e votar o Orçamento. Em boa verdade, cumpriram a parte deles e, pela primeira vez cheiraram o doce perfume do poder. E verificaram, porventura surpreendidos, que o PS, que deles dependeu durante estes quatro anos, pretende uma maioria absoluta que o liberte de parceiros que pouco ou nada tem a ver consigo. É este o sentido último da proclamação de amor pela social democracia. Só lhes falta revelar uma súbita paixão pelo euro e defenderem intransigentemente a pertença de Portugal na União Europeia. Esperei alguns dias por um eventual sobressalto nas hostes do Bloco onde, volta e meia, aparecem uns militantes desalinhados a acusar a direcção de abastardamento dos princípios. Surpresa: nada! Será que a ânsia de duas Secretarias de Estado levaram tudo de vencida? Ou, contra as sondagens (aliás sempre falíveis) o BE confia na alegada desconfiança do eleitorado que, juram alguns comentadores, detesta as maiorias absolutas. Em boa verdade já houve três e nada faz pensar que não possa haver mais...

Já gastei demasiada cera com tão ruim defunto. É hora de olhar para o último prodígio parlamentar, o PAN. Em boa verdade ainda não havia um partido ecologista no areópago. “Andam por lá, ao colo do PC, umas criaturas que se são verdes por fora, são vermelhinhas por dentro e votam sempre ao lado do padrinho que lhes abriu a porta de S Bento. Terá sido por isso que m punhado de animosas criaturas entendeu fundar o “Pessoas, Animais e Natureza”. Demasiada areia para uma só camioneta mas como dizia o Vadinho “impossíveis não há!”. Não sei se foi o efeito novidade ou se, de facto anda por aí uma multidão ansiosa por mudar o mundo (e eventualmente a vida, como em tempos presunçosos mas juvenilmente sinceros, alguns sonhámos). A verdade é que o partido chegou ao parlamento, à Europa e caracola nas sondagens . Há, todavia, um pequeno problema. O seu cabeça de cartaz em saindo do estreito campo da ecologia não acerta uma para a caixa. Além de impreparação, de per si grave, anda por ali muita ignorância. Política e não só. A economia, a cultura, a sociedade parecem ser (para não parecer indelicado) conhecidos vagos e de fresca data. E tirando os animais até as pessoas parecem uns vagos fantasmas. Chega-se a pensar que o tema pessoas incomoda como aliás do mesmo parece padecer a Natureza. Eu não sei onde está a base eleitoral deste jovem partido mas de tudo o que ouvi julguei entrever que a natureza por eles pintada é mais cenário do que realidade. Há anos que acompanho as peripécias dos verdes europeus, mormente franceses e alemães e depois do qu observei pemso que é urgente uma visita prolongada dessa malta ao nosso pequeno canto. Ou pelo menos mandem um treinador ao PAN e que seja mais feliz do que o senhor Keiser ao Sporting. Doutro modo, até a senhora Apolónia parece o prémio Nobel comparada com o esforçado senhor Silva. Mal comparado, o PAN é uma caricatura primitiva da conferencia de S Vicente de Paula da ecologia...convenhamos que por mais generosas que sejam as vontades, aquilo é pouco, muito pouco. Ganha votos porque é uma espécie de menor denominador comum da política. E não ofende ninguém, sequer os amigos das touradas ou os caçadores.. Estes, como os pássaros, já perceberam que o PAN é apenas um espantalho desengonçado no meio da seara.

(para ser “justo” eu deveria debruçar-me sobre alguns surpreendentes e novos partidos da Direita, a Aliança ou o Chega, por exemplo. Em boa verdade, do partido do dr. Santana Lopes basta lembrar este fantasmático cavalheiro que “anda sempre por aí” para logo se desvanecerem quaisquer dúvidas. Ninguém percebeu os motivos do abandono do PSD mesmo se toda a gente já estivesse habituada aos seus malabarismos circenses. Quanto ao outro ajuntamento, fora uns slogans radicais e racistas, nada indica que venha a fazer mossa nos resultados eleitorais. O mesmo, aliás, se augura para o grupo do dr. Marinho e Pinto. Aquilo, ideologicamente, é nada, faz nada, e não merece sequer mais que quatro palavras: estrelinha que o guie!...).

 

17
Set19

António Costa vs. Rui Rio

José Carlos Pereira

O embaixador Seixas da Costa fez uma curiosa análise do debate televisivo de ontem entre António Costa e Rui Rio. De facto, Rui Rio, que fazia a sua prova de vida, foi desde o início mais incisivo e enérgico nas suas intervenções. Jogava o tudo ou nada frente a António Costa e marcou pontos, pelo menos na sua área política.
O secretário-geral do PS esteve mais expectante, mais "adormecido", talvez a pensar que não valia a pena afrontar demasiado Rio. Penso, contudo, que António Costa comete um erro grave se partir do princípio que a vitória confortável está no bolso e que basta deixar correr o tempo a seu favor. As vindimas duram precisamente até ao lavar dos cestos.

13
Set19

Estes dias que passam 332

d'oliveira

Salazar Rui Mello 6.jpg

Votos piedosos e medo de explicar o passado

 

mcr, sext feira, 13,  49 anos depois do óbito por mim mais desejado da segunda metade do sec- XX)

 

 

Parece que o Parlamento entendeu lavrar m voto contra o projecto do museu Salazar ou, mais exactamente, do Centro de Interpretação do Estado Novo. O voto terá sido aprovado por PS, PCP e BE & acólitos respectivos. O PPD e CDS ter-se-ão abstido. Segundo li no jornal trata-se de “impedir romarias ao local de (eventual) culto salazarista”

Claro que isto é o chamado fim de festa estival da AR, altura em que o Parlamento avia, a trouxe-mouche, dezenas de votos, moções e se desdobra em declarações para memória futura.

Pessoalmente, enquanto adversário do Estado Novo desde 1958, com largas dezenas de manifestações de permeio, duas crises académicas, quatro prisões e muita bordoada no lombo, para não falar em centenas de abaixo assinados, participação activa na única eleição em que a Oposição foi até às urnas (fui fiscal numa mesa eleitoral, um dos poucos, por sinal que se arriscaram), autor de dezenas de escritos, quase todos censurados em todo o tipo de publicações com destaque para a “Vértice” e para “O Comércio do Funchal”, o famoso e aguerrido “jornal cor de rosa”, lamento esta perdida oportunidade para verificar algo de que desconfio desde há muito: o dr. Salazar está “morto e apodrece” e poucos ainda sentirão o seu coraçãozinho e restantes vísceras vibrar ao ouvir o seu nome.

Vejamos. Salazar morreu há quarenta e nove anos mas estava afastado do poder há 51, graças a uma cadeira subversiva e bolchevista que, caindo, o arrastou na queda e lhe provocou danos irreparáveis na cabeça antiga e manhosa.

Assim sendo, os que ainda se lembram da criatura e, eventualmente, o veneram deverão andar pelos setenta anos, vá lá sessenta e cinco (para casos de grande precocidade política como depois de 74 já sucedeu, vejam-se os casos de Costa ou Louçã)

Convenhamos que não é especialmente crível que esta velharia a cair da tripeça se junte em ruidosa romaria e desande, todos os anos, ou todos os meses, para Santa Comba Dão para, comovida e “patrioticamente”, louvar o ex-Presidente do Conselho e ao mesmo tempo cantar o “Angola é nossa”, o Hino da Restauração ou o “... tronco em flor estende os ramos à mocidade que passa...”..

Seria aliás deliciosamente ridículo ver todas essas ruinas humanas com a velha farda de legionário ou, cereja no bolo, com a fardeta da Mocidade Portuguesa (que de resto, já não era obrigatória desde os primeiros anos 50) com o famoso cinto com S e tudo... E em rigoroso sentido, aos vivas ao velho ditador, à Pátria e ao Império que vai do Minho a Timor.

O salazarismo foi uma doença endémica misto de oportunismo, medo, sacanice e raras, raríssimas, fidelidades ideológicas. A partir da queda de Rolão Preto (1934) e das cisões verificadas no movimento nacional sindicalista, aquilo, a tentativa de génese de um verdadeiro movimento fascista em Portugal, desintegrou-se com meia dúzia de prisões por curto espaço de tempo mas com duradouras consequências. Rolão Preto, que, em 33, num famoso comício, se proclamara anti-salazarista acabou, muitos anos depois, por se juntar à Oposição Democrática, primeiro ao MUD, depois apoiando Quintão de Meireles e mais tarde Humberto Delgado. Esta trajectória comum a muitos outros servidores devotados do Estado Novo (lembremos, por todos Henrique Galvão ou Norton de Matos o putativo pai do “milagre de Tancos”) mostra bem como a política nacional andava naquela época.

Justamente por isso, para descortinar alguns fios condutores da moscambilha lusitana, talvez valesse a pena o tal Centro Interpretativo. De todo o modo, duvido que durasse muito que isto de estudar a história recente é pior do que “cavar em ruínas”, Camilo que me desculpe. Andamos desde há anos a celebrar bacocamente uma 1ª República sem fazer o mínimo esforço de separação do trigo e do joio. Andam por aí una livrinhos patuscos onde as glórias republicanas são exaltadas enquanto os atentados, a “formiga branca” a famosa “camionete dos assassinos” de Granjo e Machado dos Santos, o inacreditável número de governos mais de quarenta em dezasseis anos, os pronunciamentos, a “artilharia civil”, a perseguição encarniçada aos sindicatos e as centenas de mortos por violência política são silenciados, obliterados do mesmo modo que foi esquecida a diminuição para menos de metade dos insritos nos cadernos eleitorais vindos do fim da monarquia. Mas foi tudo isto, mais a dementada perseguição da Igreja e dos católicos em geral e o desastre económico que levou o país inteiro a assistir impávido ou cúmplice ao passeio militar de Gomes da Costa (um herói republicano que meteu Mendes Cabeçadas, outro que tal, na algibeira e lhe roubou o poder de que apressadamente se reclamava. Acabaram ambos na inexistência política, mesmo que o segundo tenha tentado sempre sem sucesso animar o “reviralho”)

Salazar governou todos aqueles anos por algum mérito próprio mas, sobretudo, por demérito profundo e absoluto de adversários. Foi a guerra nas colónias, uma longa guerra de usura e de baixa intensidade, que atirou o Estado Novo para as catacumbas. E foram os militares (os mesmos ou algo do mesmo género e substância dos de 1926) que, depois de terem trazido o cavalheiro de Santa Comba a S. Bento, retiraram o seu sucessor do quartel do Carmo. E, num ápice, entre o 25 de Abril e o 1º de Maio, o país vestiu-se de vermelho e do nada surgiram multidões compactas de democratas

Não se sabe de onde surdiram tantos e tão devotados amigos da liberdade mas talvez valesse a pena tentar traçar-lhes o eventual rasto durante o último decénio de Estado Novo. Ora aí estaria uma excelente missão para o fantasmático “centro interpretativo”.

Quanto aos restantes argumentos da Câmara Municipal de Santa Comba Dão e especialmente o desejo de aumento de turismo graças ao Museu ou a algo do mesmo teor, estamos conversados. A documentação de Salazar está toda em Lisboa nos arquivos da Presidência do Conselho de Ministros, na Torre do Tombo. Bens pessoais, além de escassíssimos são absolutamente irrelevantes. Fotografias irrelevantes, um par de panelas alguns pratos duas camas desconjuntadas na velha e pobre casa do ditador. Eventualmente, o último par de botas com as solas em miserável estado. A criatura era pouco dada à acumulação de quaisquer bens e disso se fazem eco amigos e inimigos. Aquilo era um eremita cuja criada para todo o serviço criava galinhas no quintal de S. Bento. Está tudo dito.

O voto parlamentar é um tiro de pólvora seca, num jogo de batalha naval sem barcos. Uma só coisa me espanta: o voto do PPD e do CDS. Que significado político tem aquela abstenção? Haja quem me ilumine e me explique estes dias de “muito barulho para nada”.

(à margem: vários amigos que muito prezo enviaram-me mails com o convite para me abaixo-assinar contra o tal museu. Ser-me-ia fácil fazê-lo. Nada fiz por entender que aquilo não era guerra que valesse apena. Com dois deles vim à fala e, curiosamente, ambos me disseram que só tinham assinado por desfastio sem acharem que a ideia do museu valesse sequer a pena tanto mais que, desde sempre, se afirmara que nem um cêntimo dos dinheiros públicos iria para ali. Até por isso valia a pena ver o projecto tentar seguir em frente. Aposto dobado contra singelo que dos particulares também não viria dinheiro que se visse e muito menos o suficiente para criar sequer uma casa museu sobre as ruínas da actual casa que foi de Salazar. Em boa verdade, até aposto três contra um...)

* na gravura um fotografia de Rui de Melo sobre os despojos da casa de Salazar

 

12
Set19

o leitor (im)penitente 212

d'oliveira

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Aventuras com livros

mcr, 11,9,19

 

Já nem sei quando começou esta doença, pois que de doença se trata. Entre mim e a livralhada há uma paixão (correspondida ou não, pouco importa) assolapada que vem desde a mais tenra infância, ou melhor desde o momento em que sentava junto dos meus pobres pais e li em voz alta livrinhos. Não recordo os títulos mas estou ainda a vê-los, muito bem ilustrados, capas duras e histórias simples desde a de uma criadinha holandesa com tamancos e tudo que encerava as escadas com tal afinco que o seu rubicundo patão escorregava e se estatelava mais abaixo sem, contudo, se zangar até outra que metia o pássaro roc e me aterrorizava. Eram edições brasileiras, muito bem feitas e e já tinham servido ao meu pai. Onde pararão (se ainda tem forma) esses livros lindíssimos? E onde pararão dezenas de outros com que me cruzei ao longo de uma vida que já vai longa?

Tudo isto, e o que virá a seguir, me passou pela cabeça quando um velho e excelente amigo me veio devolver um dos dois tomos da “Prosa Completa” volume 1 de Jorge Luís Borges (Brughera, 1980, prémio nacional de literatura “Miguel de Cervantes, 1979). É uma excelente edição, apresentada em caixa própria e não lhe conheço sequência. De todo o modo convem começar por saudar a devoluçãoo de um livro que se emprestou. Digamos que não sendo um caso exactamente raro também não é tão frequente quanto deveria ser.

A minha biblioteca foi vítima de frequentes “esquecimentos” por parte de pessoas que dali levaram livros emprestados. E alguns desses esquecimentos foram terríveis. Assim perdi a “Electronicolírica” do Herberto Helder livro que nos alfarrabistas anda (quando aparece) por preços estratosféricos, duas obras de Eduardo Guerra Carneiro, entre elas o livro de estreia (fraquinho) “O perfil da estátua”, “Passage de l’homme” de Marius Grout, premio goncourt de 1943 e considerado o primeiro verdadeiro romance surrealista. Este livro desapareceu pelo menos duas vezes da estante e foi o cabo dos trabalhos encontrar outro exemplar. E por aí fora...

Na lista de livros desaparecidos cabe também referir os que a PIDE m foi levando ao longo dos anos. A cada prisão corresponde mais uma lista ou nem isso pois com o tempo as pessoas tendem a esquecer-se da rapina policial. Ou então, quando se voltava a casa, era tal o alívio que a última coisa em que se pensava era em ir ver os buracos na estante. O mais curioso é que na longa lista de livros que me confiscaram não entra nenhum dos chamados “clássicos” marxistas. Que sempre estiveram a bom recato. A polícia, aquela polícia, confiava as buscas a agentes de segunda ou terceira categoria que se fiavam apenas nos títulos, na língua (livros estrangeiros eram sempre um bom alvo) ou nos nomes dos autores. Autor que cheirasse a russo ia para o cesto.

O caso mais curioso que se passou com este vosso criado teve mesmo algo de extraordinário. Nos fins de sessenta, princípios de setenta, organizei para a editora “centelha” de Coimbra uma antologia sobre o movimento “Black Panther”. Com Maria João Delgado, na altura minha mulher escolhemos uma meia dúzia de pequenos ensaios e aí vai disto. Ainda o livro não estava sequer publicado e eis que a polícia começa a procura-lo. Sendo certo que aquela gentinha ainda não tinha o dom da adivinhação. Ficámos, os da centelha, perplexos. Soubemos, depois, que numa rusga a uma tipografia os agentes tinham encontrado já prontas umas dezenas de capas e isso bastou para lhes aguçar o apetite. Como havia a precaução de diversificar os pontos de produção não encontraram os textos. De todo o modo, a coisa foi logo proibida o que, julgo, foi uma novidade absoluta e um record.

Nesta história de pilhagens policiais, houve um pequeno episódio que merece ser lembrado. Da última vez que fui intimidado para ir prestar declarações à PIDE, os agentes que me visitaram em casa de meus sogros, olharam para a abundante biblioteca de Jorge Delgado, meu sogro e comentaram algo deste género: “agora não temos tempo a perder, mas de certeza que se fazia aqui uma bela colheita de livros proibidos”. E, em boa verdade, se tivessem sequer olhado cinco minutos para as estantes teriam verificado que aquilo iria tudo ,mas mesmo tudo. O Jorge Delgado não perdia tempo com outros livros que não fossem de política. E, obviamente, da que não agradava ao regime dos falecidos Salazar e Caetano... Nunca vi uma biblioteca tão subversiva como a dele, nunca!

Voltemos porem aos livros que desaparecem das estantes, no caso das minhas. Um dos meus melhores amigos era o Pedro Sá Carneiro Figueiredo, leitor voraz, homem cultíssimo, mais distraído do que uma amêijoa melancólica e completamente desorganizado. Ia sempre jogar bridge em minha casa e, de cada vez trazia alguns livros que eu lhe emprestara e levava outros. Nem sempre trazia os mesmos que levara na vez anterior mas isso não o preocupava e também não me punha em cuidado. Com o Pedro valia tudo e eu sabia que mais cedo ou mais tarde ele traria o livro entretanto perdido em sua casa. Todavia, o destino infame e brutal, irrompeu neste vai e vem livreiro e o Pedro morreu subitamente. Durante anos, a viúva ia-me encontrando e trazendo livros que ela ia descobrindo nas estantes caóticas do Pedro. Verdade e diga que a culpa não lhe só a ele. Parece que para combater a desordem do Pedro, uma empregada excelente mas analfabeta sempre que via um livro em cima de uma mesa ou de uma cadeira agarrava nele e enfiava-o no primeiro buraco de estante que encontrasse. E o pobre livro passava à mais obscura clandestinidade pois, só por acaso é que iriam por ele no sítio onde uma mão descuidada mas amante da ordem o pusera.

Uma vez em que referia alguns desaparecimentos de livros numa roda de amigos, alguém disse que os livros eram vagabundos que saiam de casa pelo seu pé.

Retorqui, irritado, que pelo pé deles nenhum viajara mas sim e só pela mão de alguém amiga do alheio.

*a estampa: capa do livro "Os Panteras Negras" que, mesmo proibido preventivamente, saiu, foi clandestinamente distribuído e, do mesmo modo  furtivo, vendido. Se não erro, este foi um dos 32 livros proibidos à Cntelha entre 1970 e 1974. A polícia não dava tréguas e nós também não! 

 

06
Set19

au bonheur des dames 410

d'oliveira

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Sólido, líquido e gasoso

mcr 6/9/19

 

A dr.ª Catarina Martins é, ao que sei, licenciada em Letras e Línguas Modernas e terá sido actriz. Actualmente, aliás desde há vários, bastantes, anos, é política a tempo inteiro o que, provavelmente não lhe dará tempo para grandes e diferentes estudos especialmente os que dizem respeito à Pluviosidade nacional e ao regime meteorológico português mormente no “interior” do país.

Parece que, numa discussão sobre barragens, a líder do BE terá afirmado que nas barragens se perde muita água por evaporação. Até aqui nada de novo. No Verão qualquer superfície líquida perde água por evaporação.

Todavia, esta perda de água motivaria uma ojeriza às barragens e represas que na óptica de Martins seriam mais ou menos inúteis. Ou não justificariam os gastos na sua edificação e manutenção. Numa palavra haveria “barragens a mais”

Convenhamos que a tese é ousada mas não passa disso. Pessoalmente conhecendo-se o regime de chuvas neste país talvez valesse a pena ter ainda mais barragens que conseguissem reter mais água das chuvas abundantes no Inverno para a falta dela durante a longa estiagem.

Evaporar-se-ia mais água? É evidente. Mas haveria mais água para a agricultura, para beber, para combater os fogos.

Suponha-se que não há barragens. Qual o benefício que daí decorreria? Nenhum! A água das chuvas e dos rios correria mais livre para o mar sempre perto e perder-se-ia sem vantagem alguma para quem quer que fosse.

Eu sei, ou julgo saber, que a dr.ª Catarina Martins é do Porto, cidade que tem uma frente de mar e outra de rio que, durante séculos registou cheias catastróficas nas zonas da Ribeira e de Miragaia. Perderam-se bens inumeráveis, morreu gente e ainda são isíveis em certos locais ribeirinhos as marcas das cheias mais violentas.

Contudo, as barragens no Douro e afluentes e outro género de represamento permitiram regularizar o curso do rio, evitar quase todas as cheias e sobretudo as catástrofes a elas anunciadas para já não falar na melhor navegabilidade do Douro. E a água que a região bebe vem obviamente de captações no sistema fluvial. O mesmo sucedeu noutros rios, Mondego incluído. E há notícias de projectos para a bacia hidrográfica do Tejo. Nem se fala nos ganhos enormes registados com o Alqueva e nos ainda futuros na mesma zona.

................

(ia este texto neste ponto quando, li na edição do “Público de hoje, quinta feira uma excelente coluna de reparos judiciosos às declarações tonitruantes da dr.ª Martins. Em substância dizem o que acima fui escrevendo e acrescentam dois pontos fundamentais. A água que se evapora num determinado ponto há de gerar nuvens que se desfarão em chuva noutro. O que chove em Portugal provem, ou pode provir, de evaporação de massas de água em Espanha, na Suíça ou noutro sítio qualquer. O que evapora voltará ao estado líquido sob a forma de chuva ou sólido sob a de neve que na Primavera há de transformar-se em regatos, ribeiras e rios. A água do mar também se evapora e, perdendo o sal, nessa operação também se precipitará em algum local do planeta. O texto aliás indica a exacta percentagem de evaporação por metro cúbico de água.

O nosso país tem uma orografia difícil. O Norte é montanhoso mas rico em chuvas. Estas se bem aproveitadas poderiam formar grandes reservas de água não apenas para criação de barragens hidroeléctricas mas mesmo de reservas de água que poderiam ser canalizadas para o centro sul e para o sul onde a falta de água é habitual. Há, aliás, projectos para isso embora o investimento inicial tenha até à data assustado os nossos decisores que nunca pensam no longo prazo. Países mais secos e desfavorecidos que o nosso já mostraram que isso pode (e deve) ser feito e os resultados estão à vista.

Todavia, pelos vistos, a dr.ª Martins com a candura do desconhecimento destas realidades entende o contrário. Vistas curtas e vagamente literárias sobre o país que habita e que é bem maior do que o Porto ou, actualmente, Lisboa, lugares onde, com água canalizada, este problema não se põe. Para já!  

 

 

 

 

02
Set19

Elisa Ferreira na Comissão Europeia

José Carlos Pereira

Ursula von del Leyen e António Costa fizeram uma escolha muito acertada para preencher o lugar de comissária europeia em representação de Portugal. Elisa Ferreira tem os conhecimentos, a tarimba e o perfil adequados para o exercício da função, após longos anos no Governo, no Parlamento Europeu e no Banco de Portugal.

Convivi profissionalmente durante cerca de dois anos com Elisa Ferreira e já então era notório o seu à vontade nas questões relacionadas com a Europa, os fundos comunitários e o desenvolvimento regional. Espera-se agora que venha a receber uma pasta que faça justiça às suas competências e seja uma das mais relevantes para a Europa e Portugal.

29
Ago19

Au bonheur des dames 409

d'oliveira

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Coincidências, demasiadas coincidências....

mcr 29.Ago.19

 

O Ministério Público terá anunciado que iria requerer a dissolução do Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas por, na sua Assembleia Constituinte, ter participado uma pessoa que “não é trabalhador por conta de outrem”.

Vale a pena relembrar que o Sindicato está prestes a fazer um ano, que os seus Estatutos foram aprovados por todas as entidades competentes e que, até hoje, tem funcionado sem que a sua legitimidade tenha sido minimamente posta em causa.

Duas greves depois, várias violações governamentais e patronais da lei da greve depois, muito barulho, pouca razão e a brutal constatação de que de facto o salário real (o que conta para efeitos de subsídio de doença e de reforma) é uma vergonha e uma afronta, eis que agora, frente à ameaça de uma nova greve (desta feita ao trabalho extraordinário) marcada para daqui a um par de semanas, é tirada da cartola anti-sindical mais outra repolhuda lebre: o sindicato é ilegal, não está conforme às leis em vigor e padece de vício absoluto pelo que só a sua dissolução pode trazer ao país, ao patronato e ao Governo a tranquilidade necessária e a paz social.

(vá lá que ainda não foi desta que se cercaram os grevistas e se ameaçou liquidar essaescumalha a tiro de canhão ou se prendeu toda essa multidão indisciplinada e se conduziu o bando para os porões dos navios de guerra estacionados no Tejo como em tempos d saudosa e democrática 1ª República ocorreu. O dr Salazar e a sua gente levavam a coisa com mais cuidado: iam prendendo pela madrugada, à hora do leiteiro, os mal pensantes, arreavam-lhes forte e feio, extorquiam as normais condfissões de pertencerem ao partido bolchevista e punham-nos a bom recato numa cadeia por uns anos. Outros tempos, pelos vistos saudosos...)

Desconheço quantas pessoas estariam na Assembleia Constituinte do Sindicato mas, pelos relatos e pelos documentos fotográficos existentes, havia ali gente que chegasse para criar um, dois talvez mesmo três sindicatos. Estar lá ou não alguém exterior ao universo de trabalhadores por conta de outrem só tiraria sentido à reunião se esse ET ou  o seu voto, ou a sua assinatura. fossem essenciais para o acto constitutivo.

Questão mais complexa será a de saber se na Direcção do sindicato cabem membros que não pertençam à profissão protegida. Que isto não é líquido basta o facto de ninguém (Ministério Público incluído – que, aliás, já se tinha pronunciado sobre outras questões legais mormente as relacionadas com a absurda requisição civil preventiva) ter questionado durante todo este empo a presença subversiva e perturbante de um agente do anti sindicalismo e da Constituição da República Portuguesa. Todavia, a presença tão tardiamente constatada dessa alma penada saída do 9º círculo do Inferno de Dante adquire agora o estatuto de ameaça que se atribuía – em vida – ao senhor Bin Laden.

(nota à margem: o mesmo Ministério Público ou o seu Conselho Consultivo demorou um dia para decidir da bondade da aplicação da requisição civil preventiva e já leva um larguíssimo par de semanas para saber se os os negócios de familiares de ministros com o Estado estão ou não dentro da lei... Por este caminho se parecer houver ele só aparecerá depois das eleições. E, mesmo nesse caso, das duas uma: ou é homologado e produz algum efeito ou nem isso. A homologação depende do 1º Ministro de um Governo que, pela voz de vários dos ministros e apoiantes tem qualificado a lei de absurda...)

Sobre a momentosa questão de saber se na Direcção de um sindicato, ou de qualquer outra estrutura sindical, regional ou nacional, pode estar alguém que na prática esteja por completo desligado da actividade, lembraria que são às dúzias, aos quarteirões, os sindicatos representados por sindicalistas cujo único emprego conhecido nos últimos, cinco, dez, vinte anos é o de dirigente sindical. A burocracia sindical das duas grandes confederações existentes está cheia deles e nunca vi alguém questionar estes, de facto, ex-trabalhadores que algumas vezes tem mais anos de actividade sindical do que de trabalho por conta de outrem.

Mas este é um território minado. Quero com isto dizer que, nos tristes tempos que correm, há operários bons e sindicatos bons e operários perversos e sindicatos malignos que só querem o mal de Portugal e dos Portugueses. As organizações patronais acarinham os primeiros, celebram acordos com eles (magros acordos, está bem de ver, mas acordos) e arrepelam-se à simples ideia de se sentarem à mesa com os díscolos, sejam eles enfermeiros, estivadores ou camionistas que transportam matérias perigosas.

Claro que isto não ocorre só no “torrãozinho de açúcar” pastoreado por Costa. Em França a história sindical está pejada de “sindicats-maison” e, muito recentemente nos Estados Unidos, uma empresa de capitais chineses que reergueu das ruínas uma fábrica de componentes auto numa das antigas capitais do automóvel já avisou os seus trabalhadores americanos que não permitirá a “entrada do sindicato”. O senhor Trump, tão defensor da America great again e tão crítico da Chin, está, neste capítulo, mais calado que uma ostra melancólica...

Não me vou atrever a afirmar que no cerne disto tudo está a figura baça do dr. Pardal Henriques que se tornou o espantalho de toda a boa consciência nacional. A criatura não me suscita qualquer espécie de simpatia mas incomoda-me pouco. Todavia, para certos tenores pífios da comunicação social e do “Comentariado” político, o homem é o diabo reencarnado em advogado gordo e óculos. Até o dr. Marques Mendes o elegeu como o “pior da semana” num dos seus melífluos sermões dominicais. Eu bem sei que a opinião de Marques Mendes vale o que vale e influencia quem influencia e pesa o que pesa. (Não é “professor Marcelo” quem quer mas apenas quem pode e Mendes pode muito pouco. Nunca se deve comparar um açor com uma galinha pedrês com vontade de voar).

Eu, quando vejo tantos assanharem-se contra um simples mortal, mesmo gordinho, mesmo de óculos grossos, mesmo atrevidote, desconfio. Quando a sanha parece atingir as instituições que nos deviam proteger e defender, relembro a celebre frase “qui custodiet ipsos custodies?”, que, no caso, se poderia traduzir “quem nos guarda dos nossos guardas?” Estou à vontade neste capítulo porquanto, quando tudo e todos se atiravam ao Ministério Público, eu, por aqui, várias vezes, tomei a sua defesa. Lamento muito, mas agora, a coisa parece-me demasiado política, demasiado inquisitorial para aceitar sem mais este aviso de acção contra um sindicato. Como se isso pretendesse dizer que é na praça pública que estas questões se julgam e que deste princípio de acção já saiu, pelo menos para a opinião pública, a condenação de perverso sindicato e do seu advogado. Convenhamos que para calar 1800 motoristas num universo que engloba mais de 30.000 anda por aqui muito fogo à peça, muito obus, muita metralhadora e muita, mas muita, raiva...

Arre!

*a ilustração: o Inferno de Dante

26
Ago19

au bonheur des dames 408

d'oliveira

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Ai Zeca o que te querem fazer!

( ou: nem depois de morto os vampiros te largam!)

mcr 26.08.19

 

Conheci o Zeca Afonso logo que cheguei à faculdade, ou seja há quase sessenta anos. Na altura ele ainda andava no fado de Coimbra mesmo se já fosse fazendo incursões na balada. Recordo o meu pai, “coimbrinha” assanhado, antigo elemento da “república” Penúria Constante, ex-orfeonista ex-jogador de andebol na AAC, fadista ocasional e poeta oficial do seu curso, maravilhado com a Balada do Outono. Por altura de umas férias de Verão passadas em Moçambique, houve uma reunião dos “antigos estudantes de Coimbra” associação a que o meu pai, a par do bridge, devotava o seu tempo livre e o seu carinho, e eis que ele garganteou, com a sua bela voz de tenor do orfeão académico de Coimbra, a balada. Nesse momento, percebi que a geração mais antiga acolhia o Zeca entre os seus.

Todavia, a primeira vez em que falei a sério com o Zeca foi quando ele mostrou, muito em segredo, a um comum amigo, Jaime Magalhães Lima, e a mim as letras de “Os Vampiros” e (se não erro) “Menino do Bairro Negro”. Quando se é jovem, as amizades surdem com facilidade sobretudo se a admiração as sustenta. A partir dessa altura (1962) passei a encontra-lo com frequência e, depois do regresso dele de Moçambique, fui um dos privilegiados (com António Mendes de Abreu e João Nazaré) a quem ele entregava cópias de canções com receio de as perder ou de não se lembrar das letras quando cantava em Coimbra. (Uma das vezes em que isso sucedeu foi justamente nos jardins da AAC em plena crise de 69 em que ele com a generosidade infinita que o caracterizava apareceu para animar a malta. O António e o João cantaram-lhe o “coro da primavera” e eu murmurava as palavras pois desafino a qualquer velocidade, mesmo entre o dó e o ré. E o Zeca, entusiasmado ia-se recordando e dizia –juro – “ó pá isto não é nada mau!” ) Os seus discos eram por mim (e por muitos mais) comprados logo no dia em que chegavam à Casa Neves (em Coimbra) mercê de um acordo feito com um dos empregados da loja. Havia sempre o risco de serem proibidos e apreendidos. O último encontro importante que tivemos foi quando, em nome da delegação da SEC no Porto, o recebi no Auditório Nacional Carlos Alberto. Foi a primeira vez que um cantor de intervenção actuou num palco nacional (Logo se seguiram outros, obviamente). E lembro como se fosse hoje, uma ácida pergunta de um “progressista” da mesma Secretaria de Estado: “E além de comunistas quem é que vocês convidam mais?”. Na época, mesmo entre os socialistas, havia gente, intelectuais incluídos, que não iam à bola com o Zeca. Não só era um cantor de esquerda, mas, sobretudo, era “popular”.

Agora, que está morto e enterrado, chovem os ditirambos e as ameaças de homenagens. A primeira e mais ridícula é a ideia peregrina de o amortalhar em Santa Engrácia, no Panteão. A família, no caso boa intérprete do pensamento do Zeca, recusa. Quem o conheceu bem, adivinha facilmente primeiro a gargalhada, depois a indignação perante tão insólito sepulcro.

A segunda questão prende-se com o seu fabuloso legado musical e poético. Parece que os “masters” das canções andam perdidos no meio do naufrágio da Movieplay, agora falida mas proprietária deles. O antigo Secretário de Estado Barreto Xavier sustenta, muito acertadamente, que não é preciso encontrar o objecto físico para classificar como património imaterial nacional esse riquíssimo acervo, testemunho exemplar de um tempo obscuro (pela parte que me toca, considero a obra pré-abril 74 muito mais interessante, muito mais inventiva e mais significativa do cancioneiro afonsino. É uma mera opinião, claro.

Portanto, enquanto não aparecerem os negregados masters há que classificar preventivamente a obra. Depois, logo se vê. Quanto à edição, uma nova edição dos seus discos (e ainda há por aí muitos exemplares das anteriores edições), há que precaver o pagamento de direitos e, sobretudo, não dar oportunidade aos vampiros e aos urubus que só querem lucro fácil mesmo que seja “á pala” de um ícone de que não poucos se aproveitaram.

A ver vamos se os burocratas da Ajuda percebem estas coisas tão simples...

E se os embalsamadores profissionais de glórias defuntas largam a ideia de depositarem os humanos restos mortais do cidadão Zeca Afonso naquela mastaba sinistra de Stª Engrácia e os deixam honradamente converter-se em pó no cemitério humilde onde agora está.

 

(nota à margem: surgiu recentemente um disco –livro com duas gravações inéditas de J A . Fiz parte dos que desde o primeiro momento o subscreveram, não pela valia artística da coisa que é (e sou bondoso) medíocre mas porque faço parte dos seus amigos e dos que guardam uma memória fresca e alegre dele. A recolha é fraquinha, não traz nenhuma novidade e o texto que a acompanha também nõ descobre a pólvora. Longo, chato e sem novidade. Felizmente a edição parece ser limitada o que significa que não irá afectar demasiados ouvintes. Sempre é uma triste consolação...)

(2ª nota ainda mais à margem: correu por aí a ideia de medalharem postumamente José Afonso! Credo! Jesus, Maria José! )

 

*a ilustração: capa do disco que contém a "Balada do Outono" que, a meu ver, marca, pelo menos do ponto de vista musical,  o novo rumo da canção de José Afonso. 

 

 

 

20
Ago19

A greve que a direita adoptou

José Carlos Pereira

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Espera-se hoje pelo resultado das primeiras conversações mediadas pelo Governo entre a Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (ANTRAM) e o Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP), na sequência da suspensão da greve por esta estrutura sindical no passado domingo. Ao fim de uma semana de greve, com custos elevados para o país, que aumentariam exponencialmente se a paragem continuasse, imperou o bom senso entre as partes, que aceitaram voltar a sentar-se à mesa para negociar condições salariais para...2021.

Muito se discutiu sobre quem ganhou e quem perdeu com a greve e com o final da mesma. Creio, no entanto, que o essencial neste momento é pacificar o sector e tranquilizar os portugueses, designadamente os sectores económicos dependentes do transporte rodoviário de mercadorias. Com a greve, todos ficámos a conhecer melhor as práticas laborais e os padrões remuneratórios vigentes e é claro que há muito a rectificar no sector, por muito que isso custe a patrões e trabalhadores. Os horários prolongados, que se tornaram habituais para aumentar o rendimento líquido, acabam por colocar em causa a segurança do transporte e travam a contratação de mais trabalhadores pelas empresas. A prática de vencimento base muito baixo, alavancado por subsídios e mais subsídios, resulta numa subtracção dos impostos devidos por ambas as partes, com prejuízos a jusante para os trabalhadores que se vêem perante a iminência da reforma ou de situações de baixa médica. A mediação do Governo deve ter presente todas estas questões.

Quanto à análise política sobre a forma como Governo, oposição e sindicatos enfrentaram a greve, é justo reconhecer aquilo que foi sendo mencionado pelos comentadores e analistas mais isentos: o Governo fez o que tinha a fazer. Depois do que se passara em Abril, aquando da primeira greve, o executivo não podia correr quaisquer riscos perante uma greve por tempo indeterminado. O mal está na dependência do país perante o transporte rodoviário de mercadorias e matérias perigosas, não está no plano que o Governo desenvolveu para evitar que Portugal ficasse refém de algumas centenas de motoristas. A fixação dos serviços mínimos, a requisição civil e o recurso a militares e agentes de autoridade mostrou um poder político interveniente e activo na defesa do interesse nacional, o que sossegou os portugueses.

A oposição com responsabilidades institucionais, de um modo geral, foi moderada nas suas apreciações à forma como o Governo actuou porque sabia que a forma de responder à greve não poderia ser muito diferente. Mesmo nos partidos mais à esquerda, após a federação sindical ligada à CGTP ter concluído o seu acordo com a ANTRAM, não havia razões para defender uma greve que, no final, já só era mantida pelo SNMMP, uma estrutura sindical independente que mais tem parecido estar ao serviço da estratégia de promoção pessoal do seu advogado e vice-presidente, Pardal Henriques, que aparentemente descobriu o púlpito certo para encetar uma carreira política no partido de Marinho Pinto.

Quem gostou mesmo da greve, quem se bateu por ela, criticando fortemente o Governo e até a "candura" dos partidos da oposição, foi a direita profunda, a direita inorgânica que não se revê no PSD nem no CDS, que se considera incompreendida pelo país e desconfia da capacidade de afirmação dos novos partidos de direita. Essa direita, que inclui por vezes alguns militantes do PSD e do CDS que nunca aceitaram a "geringonça" e verdadeiramente odeiam, é o termo, António Costa e a sua solução de Governo, combate nas redes sociais e em alguma imprensa, mas estão arredados do país real e das suas preocupações. Essa direita adoptou Pardal Henriques e o seu sindicato, mas mais uma vez não obteve ganho de causa.

14
Ago19

Au bonheur des dames 407

d'oliveira

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A silly season lá vai ao tropeções

mcr 14.Ago.19

 

E a greve, idem. Agora, S.ª Ex.ª o Ministro do Ambiente, resolveu fazer doutrina laboral e sindical, a criatura tem, pelos vistos, um largo cabedal de conhecimentos. E disse que, em certos casos, provavelmente neste, os camionistas não podem ater-se ao horário normal de oito horas mas levá-lo até às onze, ou seja fazer 60 horas semanais! Vê-se que S:ª Ex.ª sabe o que é sentar-se ao volante de um camião pesado. Porventura porque senta ela própria o dito cujo nos cadeirões do ministério...

Nisto, parece estar de acordo com o homenzinho da ANTRAM que é mais papista do que o Papa e censura o Governo por não ser ainda mais autoritário. O indivíduo ataca o dr. Pardal Henriques sem perceber que aquele é o seu exacto retrato no espelho. Com a diferença, pequena mas importante de que um é, até prova em contrário, representante de trabalhadores e outro de patrões. Por mais que as coisas estejam diluídas, a luta de classes ainda mexe. E com patrões que impõem a famosa cláusula das duas horas extra diárias (que são sempre mais ao fim de contas) logo se vê quem explora e quem é explorado.

Até o PC que só acha que os únicos grevistas que não são instrumentalizados são os dos “seus” sindicatos (o resto é lumpen enganado por falsos profetas, basta ler o comunicado ou o dr. Domingos Lopes) entende que as coisas foram longe demais. E faz bem, o PC que para a próxima greve da sua gente bem pode recear outra requisição civil agora que o dr. Costa se habiruou e que a sua gente perdeu a vergonha.

Quanto à Direita bem se pode perguntar se alguém a viu ou se anda perdida nas brumas de Agosto, escondida nas areias algarvias, férias são férias, que diabo e no Twiter o pobre RR bem que tenta gracejar. Mas Rio nunca teve piada, o humor não é com ele e a gramática (ou o estilo literário) não o ajuda.

Mudemos de agulha. Agora uma dúzia de senhoras cantoras de ópera, todas mais relativamente desconhecidas umas que as outras, vem queixar-se de Plácido Domingo, cavalheiro com setenta e oito anos feitos e perfeitos. Pelos vistos há quarenta anos, mais dia menos dia, o tenor negociava o seu apoio a troco de uns favores sexuais que elas teráo rejeitado o que teve como consequência a falta de contratos e carreiras no limbo. Demoraram algum tempo a pôr a boca no trombone, mesmo se alguma queixa ainda vá até 2001...

Dantes, contava-se que muitas aspirantes a estrela tentavam um caminho menos duro e mais horizontal, oferecendo-se para ir para a cama de alguém influente a troco de um momento de glória ou de um contrato vantajoso. E citavam-se nomes, muitos nomes. Agora, é a vez das que sem atingirem a fama, atiram as culpas não para alguma eventual falta de talento mas para o apetite insaciável de ogres como Domingo. Porquê agora e não há dez, vinte, trinta anos quando o homem tinha real poder e poderia ser atacado. Nesta altura do campeonato o espanhol já quase não risca, está com os pés para a cova, o nome dele já nada diz às novas gerações.

O “me too” assume muitas vezes um certo toque de requentado e não precisa de provas. Basta uma declaração de uma “vítima” e eis que a “bem-pensância”, os politicamente correctos, os influentes do pret-a-penser na moda, todos juntos num místico casamento entre a hipocrisia e a virtude, saltem para a rua. Eu desconfio, desconfiei sempre, destes ajustes de contas tardios, sobretudo quando as notícias vm de meios onde a promiscuidade é generalizada.

Entretanto, uma notícia consoladora, ainda não foi desta que aquele fulaninho grosseiro e parlapatão que dá por Salvini, levou a água ao seu moinho. O homem é apenas uma caricatura deslavada de Benito Mussolini. Espero que acabe como ele já que não se lhe pode augurar a poética justiça de o ver desaparecer no mar cor de vinho. Arre que este mundo está horrendo. Entre os Putin, os Kim, os Trump, os Maduro, os Boris Johnson, o cavalheiro chinês, os Assad, os Erdogan e mais um largo par de personagens (nas Filipinas, no Brasil na Nicarágua ou na Guiné Equatorial), o planeta bem que está em risco. E em risco bem maior do que a invasão do plástico, o carbono triunfante, e o clima que perdeu a cabeça. Ao pé disto que vale uma greve de 2000 motoristas (800 de um sindicato e 1200 do outro)? Ou a mobilização de 12.000 agentes da autoridade (seis polícias para cada grevista (no caso de todos fazerem greve!) É obra!

* na estampa: rio poluído nas Filipinas