Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

17
Jul19

Au bonheur des dames 490

d'oliveira

7759470_BjD1b.jpeg

Notas à margem

mcr 17.07.2019

 

Emídio, Raio, Edgar, Jesus Correia e Correia dos Santos!

Eu não sei se alguma das leitoras (e leitores) reconhece estes nomes. Provavelmente não! E, porém, eles foram celebres nos finais de 40 e nos 50 do século passado. Fizeram a grande equipa de hóquei em patins de Portugal durante anos e anos. Ganhavam tudo ou quase. Oe relatos radiofónicos eram seguidos por multidões em casa, nos cafés, por todo o lado. Nós miúdos, na escola e depois no liceu, durante quinze bons dias abandonávamos o futebol e disputávamos animadissímas partidas de hóquei (sem patins). Aliás sem nenhum artefacto da modalidade. Não havia, ou se acaso havia algum stick este era caro para uma grande maioria. Que os tempos eram outros, pobres, muito pobres, hoje ninguém se lembra ou, pior, ninguém sabe. Nem sequer a Escola o lembra. Portugal no post-guerra era pobre e maltrapilho. Os ricos escasseavam e muitos deles cuidavam de levar uma vida recatada e sem esbanjamentos. Deixavam isso para os “novos ricos”, para os arrivistas, para os que tinham feito fortunas, nas negociatas da guerra, sobretudo nas conservas e no volfrâmio, no contrabando de café para Espanha (que estava ainda pior do que nós). Uma jornalista chamou ao pais o “paraíso triste” e nunca um nome foi tão bem aplicado. No meio disto tudo, de uma quase geral resignação, o hóquei foi um bálsamo, um foguete luminoso, um arco íris. E os cinco acima citados, foram bafejados pela glória e pela admiração e carinho populares. De todo o modo não enriqueceram nem foram recebidos (que me lembre) pelo Presidente da República. Terão voltado para os seus mesteres habituais e porá lá continuaram. A grande excepção era Jesus Correia que além de exímio no hóquei foi um grande jogador de futebol, do Sporting, onde fez parte dos “cinco violinos”. Terá marcado cerca de mil golos (!!!) e ganhou pelo menos seis ou sete campeonatos. Tantos quantos os de hóquei.

Vale a pena lembrarmo-nos dessa equipa agora que voltámos, depois de um longo jejum, a ser campeões mundiais.

2 Tão pública que ela é (para o anedotário nacional) a CGD, o famigerado banco público, devotado ao alto interesse da pátria e à protecção dos cidadãos, entendeu, depois de outras tropelias tais como fechar balcões a esmo, deixar de pagar juros inferiores a um euro.

Parece uma ninharia mas na verdade, para além de ser um confisco (ou uma ladroeira, escolham o termo) aqueles muitos milhares de importâncias abaixo do euro ainda faziam jeito a muito boa gente. Vá lá que, desta vez, o Banco de Portugal rosnou. E a CGD recuou, pelo menos para já.

Do passado nem falemos: a CGD, o tal banco nosso, público, já nos custou muitos, muitíssimos milhões. E ainda não se sabe o que mais se irá encontrar. Por enquanto só há um ex-gestor na cadeia e não por via da CGD mas por um pequeno e merdoso delito. Por aí, à solta, vagueiam, felizes e contentes, vários cavalheiros. Inocentes, inocentíssimos, claro. E virtuosos... muito virtuosos.

 

3 mamarrachos

(ou eu hei de ir a Viana...)

 

O que se passa em Viana com o prédio Coutinho não é sequer um dramalhão de faca e alguidar. É apenas uma vergonha. E conviria deixar de chamar nomes aos moradores que ainda lá sobrevivem, melhor dizendo subvivem que mesmo que a razão estivesse toda do lado camarário (e não está) ou dessa caríssima vianapolis que já vai em duas décadas de pouco serviço.

Relembremos: o prédio foi construído com todas as licenças necessárias. Não houve atropelos à legalidade que se saiba e de nada serve arguir que a coisa começou ainda no antigo regime. Começou mas continuou pacificamente no actual. E se é verdade que o prédio não prima pela beleza, também não é menos verdade que, dentro de Viana com casas baixas há muito pior. Isto sem falar no mostrengo ao alto de Santa Luzia, imitação horrenda do horrendo Sacré Coeur monumento construído em pagamento de uma promessa : se a França se salvasse na guerra franco prussiana (que aliás perdeu sem apelo nem agravo) ergueriam “aquilo”.

Eu percebo que, em Viana, alguém desejoso de passar à imortalidade local começasse uma campanha contra o prédio. De todo o modo, os critérios estéticos são de per si sempre contestáveis, mesmo se numa cidade baixa um edifício com 13 andares parecesse (e fosse) excessivo.

Seria bom e útil, saber quanto custou até agora futura demolição e o realojamento dos quase trezentos habitantes. Mais os honorários da rapaziada da vianapolis, os custos com advogados e tudo o resto. A ideia é que a coisa deve dar uma maquia gorda, obesa, elefântica!

Do ponto de vista moral, simplesmente moral, a guerra desencadeada contra os habitantes, a pressão exercida durante estes vinte anos deve ter sido tremenda. Sobretudo numa pequena cidade como Viana. E foi tal a pressão que muitos, quase todos (mais de 90%) foram desistindo, foram-se rendendo, acossados pela tal sociedade, pela Câmara, pelos media, pelos poderes públicos e pelas boas consciências da cidade. E os habitantes que saíram foram ou realojados ou receberam as indemnizações mais ou menos impostas.

 

Nestas últimas semanas o zelo medonho dos anti-Coutinho atingiu o auge. Cortaram a água, a luz, o gás, proibiram a entrada de familiares e, preparavam-se para proibir o regresso a casa dos imprudentes que saíssem. Foi vergonhoso e digno do 4º mundo ver os desgraçados velhos que resistem a içar a comida e a água por cordas. É inacreditável que se corte a luz a quem a paga. Por muitas sentenças que se tenham na mão. Aliás não chegam como se viu com este último recurso dos moradores com a providência cautelar.

Agora uma pomposa criatura vagamente amparada pela Administração pública ameaça os moradores resistentes com acções de perdas e danos. Essa pessoa de maus fígados e pior moral deveria, por um breve momento, pensar na angústia de quem vive numa casa a que chama sua, que é sua, que foi legitimamente comprada e vivida durante dezenas de anos.

Isto a que se assiste é o Estado, ou este triste estado de coisas, a usar da sua força contra fracos. Melhor andariam os arautos da estética se começassem a olhar para as inumeráveis criaturas que defraudaram e continuam a defraudar o Estado, o Tesouro público e a rir-se dos cidadãos portugueses. A única diferença é que estes bandoleiros que fazem do país um imenso pinhal da Azambuja, tem poder e tem força.

Claro que isto vai acabar mal para as nove pessoas (todas idosas) que ainda aguentam todo este desacato. Mas a vitória dos vianapolistas é, será sempre, uma triste vitória.

(ainda mais à margem: tudo isto se passa enquanto no parlamento se vota uma lei da habitaçãoo!...

 

4

o sr. Carlos César abandona o parlamento. Boa viajem e que uma estrelinha o guie. Segundo ele, é “um incorrigível açoriano” e por isso vai à vida. Para os Açores?

As más línguas, que as há sempre, relacionam esta saída com o facto de se ter gorado a ideia de o alcandorar à presidência da Assembleia da República! César jura que não, que nunca pensou nessa possibilidade. Que jamais correria Ferro Rodrigues do lugar. Credo! Logo eles tão amigos! Eu não sei o que é ser incorrigivelmente açoriano. Será que um açoriano pode deixar de ser açoriano? Ou sê-lo temporada sim, temporada não? Que diabo, uma pessoa é da terra onde nasceu. Pode evidentemente, mudar de terra, ser expulso dela, adoptar outra por vários motivos, incluindo o facto de encontrar trabalho e futuro noutro lugar que não o natal. Mas nada lhe tira a naturalidade.

No caso do sr. César (Carlos, de seu nome) o facto de ser deputado pelos Açores já justificava a sua incorrigibilidade. Estava no Parlamento para lembrar ao mundo, a Portugal ou aos restantes companheiros de tribuna, que, no meio do Atlântico Norte, há um arquipélago mais ou menos vulcânico que merece atenção. Nada disto implica com o ser-se incorrigivelmente indígena da Terceira ou da Graciosa ou de qualquer outra ilha açoriana incluindo o ilhéu dos Capelinhos.

Claro que o sr César pode estar farto do parlamento. Até seria uma prova de bom gosto. Mas não. A criatura garante que continuará (para mal dos nossos pecados que, pelos vistos hão de ser muitos e medonhos) a fazer política. A, como outro fantasma, a “andar por aí”.

A menos que, à falta da presidência do parlamento, volte a pensar na da região dos Açores mas isso é com os eleitores de lá...

 

5 anda por aí muito machismo disfarçado Reza a lenda que Santa Úrsula prometida a um pagão foi morta por Átila (outro pagão) por se recusar a casar com ele. As suas onze (ou onze mil)companheiras todas virgens como ela foram igualmente mortas pelos hunos ou por outros bárbaros do mesmo género e espécie. Tanta mortandade faz pensar que naqueles ásperos tempos não era bom ser mulher. E nos de hoje?

A senhora Úrsula von der Leyen teve contra ela vários cavalheiros que insistiam em acusações antigas que se verificaram infundadas ou em apreciações pouco lisonjeiras sobre o seu último e difícil cargo ministerial (Ministra da Defesa! na Alemanha!!!) mesmo que geralmente se lhe reconheçam excelentes serviços nas anteriores pastas com especial destaque para o Trabalho,

Dentre os críticos, assume especial relevo, o SPD, partido social democrata alemão em acelerada queda junto dos eleitores. Melhor dizendo, e digo-o com profundo desgosto, está a caminho de se tornar uma insignificância na Alemanha. Um pouco como o que se passa em França onde o PS está nos cuidados intensivos. Ou na Grécia onde o PASOK já só é uma triste memória.

Nada tenho contra o anterior candidato, o sr Timmermans, mesmo se também o não achasse nenhum Hércules político. Aliás, a regra não escrita do PE é eleger para este cargo um representante do partido mais votado. E esse partido é, goste-se ou não, o PPE. Claro que das últimas eleições o PPE saiu menos robusto. Mas essa falta de força não se traduziu em ganho para os socialistas antes permitiu a entrada de mais pequenos grupos políticos no PE e algum crescimento dos ecologistas. Isto para não falar dos anti-europeístas que, ontem pela gritaria dos adeptos do sr Farage se mostraram tão educados quanto as antigas claques futebolísticas britânicas

Tenho por mim que a eleição agora assegurada de Von der Leyen tem para já uma imensa virtude: Finalmente uma mulher à frente da Europa. Já não era sem tempo. Do que fui lendo sobre ela e sobre as suas propostas não vi motivo de escândalo. Cumpre os mínimos à vontade e parece-me, por exemplo, bem mais interessante do que Durão Barroso. Aliás, o facto de ter uma sólida formação académica, ser médica e doutorada, aliada ao quase inacreditável facto de, numa Europa que envelhece sem natalidade que se veja, ter sete filhos, é um bom sinal. E ter sido ministra de áreas sensíveis (Trabalho, Segurança Social e Defesa) dá-lhe um bom background. E o discurso foi bom, francamente bom.

Mas, há sempre um mas, von der Leyen é mulher. Mulher num mundo de homens de barba rija. E, pelos vistos, não cedeu nem precisou de certos votos dúbios. Aliás, dúbia foi a inesperada aliança dos anti-europeístas, com a tropa inglesa e alguns ilustres deputados sans peur et sans reproche que votaram baseados unicamente no preconceito ideológico que disfarçava também, e talvez principalmente, muito marialvismo. Parece que, contra a srª Von der Leyen há a acusação de não ter sido eleita deputada ao PE.

Finalmente, aqui, muito entre nós, o cabeça de lista do PS local foi eleito não pelo seu mérito próprio que é inexistente mas porque sim. E à frente de uma mulher competente, Mª Manuel Leitão Marques, que provavelmente faria (fará?) boa figura na lista que a nova Presidente da Comissão vai apresentar numa composição enfim paritária.

11
Jul19

Estes dias que passam 328

d'oliveira

Unknown.jpeg

O cronista desconfiado

mcr 11.7.19

 

 

Nem sempre fui desconfiado, bem pelo contrário. Na minha meninice tardia (já lia livros se bem que em voz alta) a avó Aldina (a “Velha Senhora”, visitante antiga desta página) explicou-me o Natal. Não, o menino Jesus não vinha ver a árvore (naquele tempo o Pai Natal todo de vermelho via Coca-cola, ainda não era o intruso tremendo de hoje), era a família que presenteava a criançada que mal conseguia dormir de 24 para 25 (lá em casa era no próprio dia que estremunhados e ansiosos íamos, o meu irmão e eu, quase de madrugada, enfim pelo raiar das 8 da manhã, ver o que se passava junto dos nossos sapatinhos, à sombra da árvore.

Mais tarde, depois de acreditar ferreamente no que contavam Júlio Verne, Emílio Salgari e Edgar Rice Burroughs (o cavalheiro do Tarzan que li integralmente na colecção “Terramarear “ de origem brasileira e presente na Biblioteca Pública Fernandes Tomaz, na Figueira da Foz, tive que me render à evidência. Tudo aquilo provinha da imaginação formidável dos autores e, no caso de Burroughs, a África é bastante fantasiosa pois o autor nunca lá pôs o pé.

Já Verne é um estudioso, um leitor de mapas e revistas científicas e um formidável explorador de futuros prováveis a que, entretanto, consegue juntar num cenário de viagens pelos mais recônditos cantos do mundo, aventuras e heróis que as vivem vitoriosamente graças ao seu conhecimento científico. Salgari, marinheiro e viajante parte de princípios semelhantes e sobretudo de um apertado conhecimento de geografia para, também ele levar os seus heróis por mundos ainda mal descobertos, A Asia, as Américas o Extremo Oriente que os seus leitores iam conhecendo através de jornais e revistas de notável qualidade e extensamente ilustradas.

Tudo isto, toda esta digressão sobre os livros que povoaram a minha infância e primeira juventude, para explicar que sempre tentei perceber o mundo desconhecido pela leitura. Quando cheguei a África, à África verdadeira e não apenas às grandes cidades mas muito ao “mato” onde um branco era quase uma (nem sempre recomendável) novidade o choque foi notável. Aos quinze anos, mesmo sem o saber, já tinha uma obscura consciência dos males do colonialismo, mesmo se não fosse ainda capaz de objectivar claramente o sistema. Mas já sentia como injusto o “contrato”, as culturas obrigatórias (sobretudo o algodão) a injustiça do imposto em moeda no caso de populações onde ela não existia e onde a economia era de subsistência, a brutalidade boçal de muito colono e a inexplicável ausência de negros no sistema de ensino secundário. E não gostava de missionários. E achava lindíssimos os “manipansos” ou seja alguns objectos de arte africana que, sei lá porquê me pareciam extremamente expressivos. Ao invés, a maioria dos nossos conhecidos, mesmo dos interessados em “arte indígena” (!!!) adorava encomendar aos escultores makonde Nossas Senhoras, caravelas e peças para jogos de xadrez, tudo muito “africano” como se vê. Também havia encomendas de máscaras que, de modo algum, correspondiam às máscaras correntes nas culturas locais! Porém, isto era apesar de tudo um vago sinal de interesse – não vou ao exagero de falar em respeito- pelo outro, pelo negro (em português colonial pelo “indígena”). Desse curto período da minha irrequieta mocidade ( acrescentado a três outros - longos, longos- períodos de férias grandes quando já estava na universidade. Nasceu aí e continua em crescendo uma paixão por África, pelas civilizações ditas “primeiras”. Na minha caótica biblioteca jazem milhares de livros sobre África (história, arte, geografia, etnologia, dicionários e línguas além de, obviamente, tudo o que tenho apanhado sobre a “expansão colonial portuguesa” , termo propositadamente ambíguo como é sabido mas que dá imenso jeito nesta época de anti-colonialistas ignorantes e de saudosos do império igualmente néscios.

Neste capítulo incluo aquele vereador patarata que descobriu o mal absoluto no Jardim   da Praça do Império frente aos Jerónimos. Havia por lá uns canteiros representando os brasões das colónias. O pobre diabo nem hesitou: acabem-se os canteiros e assim purifica-se a história pátria! Queira ou não esta criatura, a História fica para além dele e o seu gesto tolo só a torna mais ininteligível. E mais boçalmente ideológica...

Vem tudo isto a propósito de um texto da srª doutora Fátima Bonifácio a quem a passagem acelerada dos anos terá toldado a agudeza. O texto, pobre dele, é ml amanhado, confuso, parte de pressupostos racistas , esquece que em Portugal foram assimilados e se perderam na voragem dos séculos muitas dezenas de milhares de negros trazidos como escravos. Esquece igualmente o que devemos a inúmeros “mestiços” (e só vou citar Almada Negreiros) sem falar na pujante presença de negros na cultura americana mormente na música e nas letras ou em França (também só cito Alexandre Dumas) para não falar de países onde a presença de intelectuais de “cor” (incluindo prémios Nobel) é corriqueira. Tudo sem “quotas”, notem bem.

Li hoje que um professor universitário de origem moçambicana mas residente em Portugal onde, aliás, exerce, entende a obrigatoriedade de quotas como um último e perigoso sinal de paternalismo racista branco. Não direi tanto mas temo bem que não esteja totalmente longe de alguma verdade.

O texto da senhora Bonifácio merece ter o mesmo destino que Camilo augurava a uma carta recebida: passar ao ventre da mãe terra pelo esófago da latrina!

Porem, a notícia, também de hoje, de um grupo de personalidades entendeu apresentar queixa crime contra a referida senhora. A notícia curta não explicita com clareza a base jurídica da queixa e sobretudo mesmo que seja aceite, não destrói a argumentaçãoo da autora. Apenas a transporta para o eventual paraíso dos acusados de delito de opinião. A opinião da historiadora deve ser combatida pelas opiniões dos queixosos. E espera-se que escrevam com mais clareza o que querem. E também apareceram no mesmo jornal onde o artigo saiu apelos a que se proibisse qualquer outra publicação de textos da referida autora. Há até uma senhora que o faz em nome da sua “assinatura” do jornal. Eu, que leio e pago o Publico desde o primeiro dia não me sinto defraudado. Como não me sinto atacado por tantos outros textos em que algum “ódio de classe” de duvidosa origem e de mais que duvidosos antecedentes, lá publicados. Bastaram-me os anos de leitor de jornais entre 1958 e 1974 onde a verdade era só uma e a censura se cevava à vontade nos textos vagamente discordantes. Fui alvo desse lápis azul muitas vezes (na Vértice, no Comércio do Funchal entre outras publicações) para concordar agora com qualquer espécie de censura.

O meu amigo Joaquim Namorado, que viveu e morreu comunista puro e duro, afiançava que estava disposto a colaborar num pasquim dos anos sessenta (o “Agora”) desde que o deixassem dizer o que queria. E remetia para os leitores o julgamento crítico do que defendia. Vivemos numa repelente época do politicamente correcto. Ainda há poucos meses, um grande e excelente jornal americano pedia desculpas por ter publicado uma caricatura do excelente António em que Trump e Netaniahu apareciam um de kipá e o outro à trela. E acabava com a publicação de caricaturas, cedendo assim aos lobbys mais assanhados de Israel e dos EUA.

Somos nós, o público, os leitores, os inconformados, quem perde. E a vitória dos fanáticos torna-se perigosamente mais viável. À falta de contraditório... À falta de opinião....

 

 

 

10
Jul19

Diário político 220

d'oliveira

Unknown-1.jpeg

Unknown.jpeg

Surpresas?

Nem por isso.

d'Oliveira, desenganado, viaja pela pátria em 10 de Julho do ano da graça de 2019

(Costa, amigos da Grécia, a saude periclitante, os monumento e Fátima Bonifácio) Espíritos sensíveis; não leiam!

 

1 Em fim de legislatura o dr. António Costa teve (tem e terá?) contra ele o dobro das greves que atormentaram o dr. Passos Coelho. O dobro! Algo como, cito de memória, 70.000 contra 32.000 (não garanto estes números e não tive oportunidade de os confirmar).

Trocando por miúdos, o dr. Costa, que chefia um governo progressista num momento de grande distensão económica e de recuperação do emprego, consegue apagar o dr. Coelho que era o “inimigo dos trabalhadores e do povo, o “serventuário da troika e dos interesses mais infamemente capitalistas”...

Dá para pensar. Então Costa apanha com greves obviamente comandadas pela Esquerda (PC e PS – aqui o Bloco não pinta para nada, ou muito pouco) mesmo governando com o apoio da ”geringonça”? ) E Passos, o reaccionário vê-se agora absolvido, senão beatificado, dada a “indulgência” de que terá sido alvo por parte das forças sindicais?

Será que a nova frente sindical tem como objectivo derrubar ou, no mínimo, desacreditar um governo “de esquerda”?

Ou, hipótese fascinante mas perversa, os sindicalistas disparam sobre Costa para forçar o regresso de Passos e, aí sim, reafirmarem a vontade popular e proletária de uma “verdadeira” revolução?

 

2 Mafra, o Bom Jesus e o Museu Machado de Castro, já fazem parte do património da humanidade. Nada mais justo nem mais inesperado. A propósito, uma das televisões entendeu entrevistar a senhora que faz de Ministra da Cultura. Sem propriamente se apoderar descaradamente do sucesso, e também sem o negar, a senhora em questão teceu um par de considerações irrelevantes esquecendo o enorme trabalho dos proponentes deste reconhecimento. Esqueceu, igualmente, o descaso que o ministério da alegada Cultura tem demonstrado no capítulo do Património Construído.

A propósito de Mafra esperava-se que, de uma vez por todas, alguém do Governo viesse anunciar que se punha fim ao “imbroglio” deste palácio (e dependências) ter uma administração (?) repartida por pelo menos três ministérios (Cultura, Defesa e Agricultura) e uma Câmara Municipal (que deve ter um papel idêntico ao de Durão Barroso no famoso encontro dos Açores onde se decidiu atacar o Iraque por este ter armas de extermínio maciço...) Não houve fumo branco. Nem preto! Nem fumo! Nem sequer “só fumaça”...

Sobre o candente problema da autonomia de museus e restantes sítios patrimoniais a senhora em questão fez vista grossa às objecções levantadas pelo ex-director do Museu de Arte Antiga e jurou que estamos no melhor dos mundos.

Finalmente sobre o “não aparecimento” de obras de arte pertencentes ao Estado (e há uma boa centena delas “não aparecidas”) a criatura entendeu explicar que a culpa –como de costume – começou no século passado. Desta vez, nem sequer aproveitou para cascar no governo anterior. Antes referiu os “tempos longos” tão caros a uma certa historiografia: tudo começou nos anos 90. Ou 80. Ou quarenta. Ou com as invasões francesas...

(mesmo sem retirar a carga ideológica e publicitária que, naturalmente, teve, seria interessante recordar a campanha do Estado Novo na reabilitação, preservação ou restauro dos monumentos nacionais, levada a cabo pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais e facilmente consultável por ainda estarem à venda – em alfarrabistas, claro – oa 132 +3 boletins da referida instituição)

3 O dr. Centeno (que, como o finado dr. Salazar, quando ministro das Finanças, manda nisto tudo) veio esclarecer o povo ignaro da excelência da sua acção quanto ao Serviço Nacional de Saúde. Afinal está tudo bem, houve um gigantesco reforço em meios técnicos e humanos e um invejável investimento. Qualquer notícia sobre o estado catatónico do SNS é uma fake new.

A dr. Temido, ministra da mesma pasta, abundou no mesmo sentido: “Tout va bien, madame la marquise...”

Entretanto um estudo académico, coordenado por Pais Mamede e Adão Silva, vem propor um seguro de saúde universal que daria ao SNS pés (e mãos) para andar. É um pouco o ovo de Colombo: uma espécie de ADSE geral e universal que, com pequeno dispêndio para os cidadãos, tornaria o SNS financeiramente forte a ponto de evitar as dramáticas rupturas actuais e de, no momento do pagamento de serviços médicos, reduzir este a valores mais ou menos simbólicos, É evidente que a teoria absurda e não funcional de um SNS absolutamente gratuito cairia por terra. Como, aliás, já caiu. Entre atrasos evidentes e escandalosos e falta de assistência em muitos pontos do país, o SNS é já uma miragem que só serve para dar votos ao seus defensores que, entretanto, levam a sua miopia política e social a extremos inacreditáveis e são incapazes de explicar de onde hão de vir as cada vez mais crescentes necessidades de financiamento.

De todo o modo, ninguém, muito menos eu, acredita que isto seja levado a sério. Os esforçados defensores da “albanização” do país acham que “fazer do passado tábua rasa” é a única solução. Não é, já não é, nunca foi e os exemplos medonhos do passado século deixam cruelmente à vista o que foi o reinado da utopia (soviética & similares).

 

4 Na Grécia, o sr. Tsipras foi estrondosamente derrotado. O fim do populismo de esquerda do Siriza estava há muito anunciado. E tudo começou no exacto momento em que, para governar, se aliou a um partido de extrema direita. Depois foi o qu e viu, entradas de leão e saídas de sendeiro no conflito com a Europa, a história de um referendo que vencedor foi imediatamente desrespeitado pela ansia de continuar no poder. O reforço da austeridade por incapacidade de criar reformas que viabilizassem a economia nacional, que quebrassem o poder imenso da Igreja ortodoxa e dos principais armadores (cuja fortuna continuou intocada) e outros elementos da elite económica e financeira grega.

Ironicamente, a cereja neste bolo desastrado tem origem no único gesto inteligente e ousado de Tsipras: o acordo com a República da Macedónia do Norte.

A este propósito, recordo que a Macedónia de Filipe e Alexandre não era exactamente a mesma Grécia de Atenas, Tebas ou Esparta. E Demóstenes, ateniense e orador ímpar, bem que tentou afastar os macedónios da “verdadeira” Grécia.

Todavia, o nome “macedónia” e o emblema solar tornaram-se matéria sagrada para a maioria dos gregos e isso, como a condenação do nº 666 (o número da “besta” ou do Anti Cristo).

Por cá, os antigos amigos de Tsipras (e sobretudo, as antigas amigas) calaram-se como ratos. Para elas e eles, a Grécia já não estava na moda. Tinha-se rendido ao monstro europeu que, “cínica e miseravelmente” recusava dar mais dinheiro para um 4º resgate... Durante umas semanas, eufóricas e exaltadas, a Grécia preencheu os sucessivos vazios deixados pelos naufrágios da URSS, da China, da Albânia ou do Vietnam. Agora tudo se reduz, melancolicamente à admiração resignada dos senhores Melenchon e Iglésias, meras caricaturas dos heróis progressistas. Ou, pior ainda, do sr. Jeremy Corbin...

 

5 Uma senhora que já não é propriamente nova, professora universitária, historiadora e autora de alguns livros meritórios sobre o século XIX português, entendeu parir um texto sobre negros e ciganos e sua congénita inadaptação ao mundo ocidental. A coisa nem sequer é imbecil. Vai bem além disso .E é ridícula, mesquinha, baseia-se em preconceitos sem qualquer fundamento, toma algumas mínimas partes pelo todo e está tão disparatadamente longe da realidade que, só me apetece pensar que há idades perigosas para a razão!

Anda por aí um alarido, nem sempre inteligente, nem sempre responsável, nem sempre sensato sobre o “racismo” (que existe) e que obviamente (basta ver o presente exemplo) é cretino e afrontoso. Depois, e a par, correm uma série de propostas porventura generosas mas de resultado improvável. A ideia de quotas deeria ser temperada antes e a montante por um claro, exigente esforço desde os bancos da pré primária, desde as condições de habitaçãoo. Desde o respeito pelas minorias, desde a educação da polícia e de outros agentes do Estado.

E desde uma outra e fundamental ideia. Portugal (e o Ocidente para onde foge gente de todo o mundo)deverá exigir aos que o procuram um claro respeito pelas leis e costumes. E um rápido conhecimento da língua e da cultura nacionais. Sem isso, as sociedades ghetizadas, não saem do seu casulo e da sua estranheza. Por exemplo: é inaceitável que a certos romenos se permita mendigar ou usar a mendicidade como único meio de ida. É inaceitável o uso de burkas, nikabs e outras formas de esconder o corpo e o rosto. É intolerável a ablação d o clítoris. E por aí fora.

Isto dito, convém relembrar estoutra verdade: somos um povo emigrante. Fomos, “depressa e em força” para o Oriente, para o Brasil ou para África. E depois para o resto do mundo desde a Venezuela até à França, dos Estados Unidos à Alemanha ou à Inglaterra. Só não emigrámos para o leste europeu onde os poucos portugueses que lá passaram nunca se fixaram: o frio e o primado da ideologia sustentado na contínua vigilância policial eram mais repulsivos que “os brandos costumes do regime reaccionário e clerical em vigor no jardim à beira mar plantado. E integrámo-nos com grande facilidade. Em Malaca a raiz portuguesa quase desapareceu, o mesmo se passou na Índia e em África criou-se o termo “cafrealizado” para designar colonos que viviam sem constrangimento como os povos da região. Nada disto nos iliba dos desastres da colonização que levámos a cabo e que nunca foi especialmente humanitária ou portadora das luzes da civilização. A senhora Bonifácio, que terá tido uma juventude vagamente esquerdista e é historiadora, deveria saber isto mas pelos vistos o avanço da senectude fê-la olvidar estes maus passos desta “cristandade” pouco observadora dos Evangelhos.

Desconheço se contra chineses, indianos (e outra gente de cor) também alimenta argumentos idênticos ao seu desinspirado artigo. E, no entanto, há claríssima diversidade cultural, espiritual e social entre a Índia milenar, (com as temíveis diferenças de casta) a China ou o Japão onde ainda reina uma espécie de Deus vivo. E já que se fala de “Cristandade”, relembraria o Islão e as suas versões mais radicais, o judaísmo que continuadamente se perseguiu (e se persegue) e que na sua versão estatal mais dura trata os seus palestinianos abaixo de cão. E continuando neste mimoso caminho, será que a senhora Bonifácio também tem sobre, por exemplo, as minorias sexuais e as seitas religiosas mais extravagantes, opinião?

Aqui para nós, se a tem, ha de ser fresca, fresquíssima...

Parece que alguns ofendidos entendem que ela devia ser privada de espaço nos jornais, mormente no “Público” onde vomitou o pobre texto de que se fala. Não alinho nessa cruzada: as opiniões mesmo as mais obviamente estúpidas (e é o caso) devem ser conhecidas. Para poderem ser combatidas por armas menos perigosas do que as que foram usadas nos séculos que nos precederam (desde os campos hitlerianos aos da Sibéria e ao Congo sem esquecer os primeiros de todos miseravelmente inventados pelos britânicos na África do Sul e contra os boers.

A história recente está cheia de exemplos de intelectuais que ao lado de verdadeiras obras primas (Céline: voyage au bout de la nuit; Ezra Pound “Cantos”) foram cúmplices políticos da abjecção fascista. Mas há, entre eles e Bonifácio, uma diferença abissal: eles eram geniais e as suas obras permanecem como autênticos faróis do século XX. A senhora Fátima não ultrapassa (antes fica aquém) o padre José Agostinho de Macedo, que aliás escreve bem melhor.

 

 

(As vinhetas representam ciganos em campos de concentração nazis e negros congoleses administrados pelo rei dos belgas. À compadecida atenção da senhora Bonifácio, arauto da Cristandade e da e dos valores ocidentais. Para que saiba, se é que, coisa de que seriamente duvido, esta chamada de atenção vale a pena.)

02
Jul19

estes dias que passam 327

d'oliveira

 

as injustiças do ensino 

mcr (Junho 2019)

Uma comissão, mais uma, descobriu (oh pasmo tremendo! Oh surpresa inenarrável!!. Oh, Oh, oh, oh três vezes oh!!!) que os filhos dos mais instruídos tem mais possibilidades de frequentar cursos de prestígio do que os filhos das classes menos afortunadas do ponto de vista da instrucção!...

Ai, pobre de mim, que profeta em terra própria, descobri essa amarga verdade quando acabada a escola primária vi que apenas mais dois colegas iam comigo para o liceu e outros tantas para a Escola Comercial e Industrial. Os restante trinta e tal iriam engrossar as tripulações das bateiras, lanchas, traineiras, e arrastões que aquela praça armava. Isto significava que nós os três (2 filhos de médico, e 1 de industrial) nos destinávamos a uma profissão nobre (e mais bem paga) enquanto os da Escola teriam a sorte de ser empregados e comércio ou electricistas, carpinteiros ou marceneiros, de todo o modo um eventual progresso naquela população quase só feita de pesadores e mineiros.

Durante os quatro anos de primária já tinha descoberto que só na nossa casa havia livros, coisa tão natural como sapatos (também só na nossa casa) e uma empregada doméstica que na altura se chamava criada de servir. (a propósito, as criadas de servir da minha infância, eram quase da família e nós mantivemos com todas – já não resta nenhuma – laços de amizade e de certa familiaridade. Para várias, eu e o meu irmão fomos sempre “os meninos” tratados por tu como Deus manda sendo que uma, a saudosa Deolinda, ao visitar-me muitos, muitos, anos depois me disse Ai Marcelito como tu cresceste. Pudera não que a coisa ocorreu quando eu tinha já quarenta anos!).

Parece que a dita comissão descobriu que 68% dos filhos de médicos, advogados e engenheiros frequentavam cursos prestigiados na Universidade. Em contraponto outros tantos 60 ou 70% de filhos de cidadãos com instrução não universitária andariam no politécnicos e em cursos menos ribombantes!

A comoção que esta descoberta da pólvora seca provocou deu azo a discussão na televisão onde circunspectos cavalheiros e damas da nossa melhor inteligentsia progressista bramiram que faltava cumprir o 25 de Abril.

Por acaso, mero acaso, claro, foram estas mesmíssimas criaturas que aplaudiram com as duas mãos a baixa generalizada de propinas universitárias não cuidando de distinguir ricos de pobres. Com um pouco de imaginação poderiam antes ter criado mais e melhores bolsas para estudantes oriundos de meios menos favorecidos de modo a que estes pudessem enfrentar as despesas de uma universidade, sobretudo no domínio do alojamento. Com a mesma escassa imaginação poderiam pensar em seguir (desde os primeiros anos de escolaridade) os alunos que se distinguissem, fornecendo a estes meios especiais de vida para poderem competir com os meninos oriundos de famílias mais privilegiadas. Com mais uma pisca de imaginação poder-se-ia criar um sistema especial de bolsas para permitir que estudantes vindos de meios menos afortunados frequentassem os tais famosos colégios de elite que obviamente preparam os seus alunos para as melhores escolas nacionais e internacionais. Porque é no ensino dito secundário que a selecção ainda pode ter sucesso e permitir que o elevador funcione.

É evidente que, para se detectar com a maior rapidez e brevidade o talento, haverá que criar provas de aferição sérias que ultrapassem a trapaça do ensino actual onde o sucesso de todos, ou quase, esconde as diferenças e a ignorância e permite a injustiça que, depois, é alvo de queixume.

Também não deixa de ser evidente que entre uma casa onde há livros e outra sem eles o mais provável é que na segunda o nível da exigência familiar seja menor. E o da esperança num melhor destino, idem. Ou da ambição!

Enquanto houver ricos e pobres (ou ricos e menos ricos) haverá diferença no destino dos filhos. Provavelmente, porque são diferentes o meio cultural, a ambição, as relações familiares, a ideologia de classe, os preconceitos, os hábitos. Nada disto é redutível a qualquer espécie de igualdade natural ou forçada. Não o foi em nenhum regime pretensamente igualitário (nem vale a pena falar da utópica União Soviética onde a classe dirigente se governou e onde os aparatchiks guardaram ciosamente para si e para os seus todos os lugares valiosos. O elevador social nunca funcionou e nos casos raros em que pareceu ter importância, foi a ambição e o zelo partidário que deram a um escasso número de militantes fieis (e mais papistas do que o Papa) um lugar diferenciado do da maioria esmagadora da população e mesmo da maioria do Partido.

Nos EUA, as minorias só chegam às universidades mais prestigiadas graças fundamentalmente ao mérito desportivo e a quotas impostas. De longe a longe, alunos distintos do secundário conseguem o mesmo, obtendo bolsas de estudo dos próprios estabelecimentos universitários. Yale ou Harvard, para não citar uma vintena de outras grandes universidades, tem custos proibitivos e para um pobre mesmo com excelente preparação escolar a entrada é semelhante à da parábola bíblica do buraco da agulha. Aqui, entretanto, são os ricos que entram no “reino dos céus”.

As lacrimosas constatações da comissão e de um quarteirão de personalidades comentadoras e putativamente generosas esbarram num pequeno problema: soluções! Soluções simples, evidentes, democráticas. Soluções que garantam, após aferição séria, que os bons alunos conseguem, mesmo sem meios de fortuna, frequentar as melhores escolas (públicas ou privadas) e levar a cabo um percurso educativo valioso e libertador. Provavelmente, seria melhor criar condições para a existência de uma verdadeira classe média que extravase da que só é alimentada pela função pública (ela própria cada vez mais dependente do poder político e das simpatias partidárias) e que ultrapasse o funil das “jotas” partidárias que dividem os poderes fácticos e políticos todos.

Sem isso, tudo é conversa fiada, sentimentalismo bacoco e caridadezinha classista

02
Jul19

au bonheur des dames 489

d'oliveira

images.jpeg

Ai aguenta, aguenta...

(a culpa é sempre do povo ingrato)

Mcr (Junho, 2019)

Uma secretariante estadual criatura entendeu vir anunciar a um grupo parlamentar que as filas de cidadãos à porta das repartições que tratam do cartão de cidadão eram culpa única desses mesmos cidadãos, perdão súbditos.

De facto, sempre segundo a surpreendente senhora, são os cidadãos que, ao juntarem-se em magote à porta do serviço com horas de antecedência em relação ao horário de funcionamento, fazem com que o serviço entupa.

Parece que, quando se começam a distribuir as senhas para atendimento, estas se esgotam num ápice e fazem com que cidadãos mais retardatários que entendem só dever procurar a repartição quando esta oficialmente abre ao público batam com o nariz na porta.

Ou seja, os cidadãos que, por imperiosas razões julguem ser seu dever renovar o documento de identificação, são os responsáveis pelo naufrágio. Eu não posso estar mais de acordo com a governante personagem. Os cidadãos são uma chatice medonha para quem carrega aos ombros a pesada cruz do Estado. Se não houvesse estas criaturas madrugadoras e sofredoras tudo se passaria no melhor dos mundos. E sem bichas!

Provavelmente também não haveria necessidade de passar o cartãozinho. Aliás, países há, não dos menores, que não impõem qualquer cartão aos seus indígenas. Todavia, neste jardim ocidental, neste “torrãozinho de açúcar” o malfadado papelucho é preciso por tudo e por nada. E não há documento que o substitua, mesmo se vier munido da fotografia do resinado íncola interpelado por uma qualquer (e são múltiplas...) autoridade civil religiosa militar ou outra, por exemplo o marçano da loja onde se vai por dois quilos de batatas e um litro de azeite.

Há neste país prodigioso ( e não será um prodígio o facto de enquanto meia europa sufoca encalorada, por cá sopre uma doce brisa primaveril que nos permite passear de cabeça descoberta e sem recear uma insolação?) um extraordinário hábito e que é este: a culpa é sempre dos outros, nunca nossa Ou então é o destino cruel, o fado antigo, algum malefício ou praga encomendados contra nós.

A ideia de que a passagem das quarenta para trinta e cinco horas de trabalho (uma justa medida há muito reclamada pelo povo trabalhador), o facto de haver uma crónica falta de pessoal em muitas repartições públicas, a insuficiência de meios técnicos adequados, as famosas cativações que nos irão posicionar num lugar cimeiro do deficit público – os melhores entre os melhores - é coisa que não perpassa pela ment iluminada da senhora SecretáriaBem pelo contrário: é a populaça ignar e vil que no seu descontrolado afã de obter um documento se amontoa num caos sem precedentes à porta dos Serviços exigindo em medonho murmúrio o documento de que, com descaramento inaudito, diz ter necessidade.

Isto, essa mole plebeia e mal educada que se levanta noite fechada para, ameaçadora, vir perturbar a paz pública, tem um único fito: perturbar a excelente governação da pátria que a pariu e levar a cabo uma campanha canalha contra o partido no poder, os seus amigos (ou amigalhaços? Ou ex-amigos?) com vista a fazer a nação valent e imortal voltar atrás, aos tempos da troika malvada, do dr Passos Coelho, agente do conservadorismo e relutante saudoso de tempos ainda mais antigos.

Não se percebe, porém, como é que uma outra Secretária de Estado, entendeu desmentir a primeira (caridosamente afirmando que as palavras desta tinham sido mal entendidas, fora do contexto, como de costume.

Em que é que ficamos?

 

Nem de propósito

Tina acabado a crónica acima quando a minha Mãe me pediu para ir levantar algum dinheiro a banco. A excelente senhora que está a muito poucos passos do 1º centenário não usa cartão e, de resto, por dificuldade de locomoção, prefere mandar os filhos levantar-lhe o dinheiro que precisa para pagar as empregadas e fazer as compras da casa.

Desta feita, quando cheguei à agência havia uma bicha de cinco ou seis pessoas diante da caixa. A pessoa que lá estava despachou um cliente e zarpou para outro local para entregar dinheiro a uns homens fardados de algum transporte blindado. E chegaram, entretanto, mais pessoas que resignadamente se dispuseram a esperar. Dez ou quinze minutos depois os seguranças lá partiram ajoujados, penso eu, ao peso das notas acondicionadas numas maletas de aspecto robusto. E a bicha começou a mover-se. Quando fui atendido e antes sequer de perguntar o que se passava, o caixa entendeu explicar-me que havia dois colegas de férias, que, de qualquer modo, a equipa da agência era reduzida, que o banco tencionava encerrar cem balcões (!!!) e que nós, os usuários e depositantes, tínhamos de “compreender”. Retorqui-lhe que o banco não é o Registo civil, nem nós os solicitantes de cartão de cidadão. Que se havia pouca gente que arranjassem mais. E que, à falta de podermos trocar duas amabilidades com o Presidente do banco ou sequer com o gerente que está sempre em lugar incógnito, era aos funcionários que exprimíamos a nossa indignação. E que se ele se achava inocente que informasse quem de direito, nem que fosse apenas o sindicato.

Tudo visto, despois do descaso dos poderes públicos, as instituições privadas , ou algumas, também acham que os utentes são os culpados do mau funcionamento e, sobretudo, uns chatos que só sabem resmungar e não apreciam como deviam o facto do banco generosamente lhes guardar o dinheiro que aí depositam.

* O título refere uma frase de um senhor banqueiro que interrogado sobre as dificuldades do povo e da sua (in)capacidade para as aguentar respondeu lapidarmente. E tinha razão...

02
Jul19

Estes dias que passam 326

d'oliveira

Adalberto-LIbera-Curzio-Malaparte-Casa-Malaparte-C

 

Verão tímido, dias de preguiça

(e a morte ao longe)

mcr, Julho 2019

 

Já alguém deu pelo Verão? Estes dias de névoa matinal, temperaturas à volta dos vinte graus, sol raro desmentem o calendário. Quando era menino, nem um tempo destes me fazia perder a praia e o mar. Como se fosse (e era!) imune a estas temperaturas dúbias. Aliás o mar parecia mais quente (ou menos frio...) e a nós, os do grupo da “praia”, pouco se nos dava o mal humor do tempo. Férias eram férias, ponto final, parágrafo. E amanhã estará sol.

Será por ainda me lembrar desse “dolce far niente” que mesmo com vários textos escritos e prontos, nem um publiquei. Também é verdade que fui para Lisboa (este é um hábito mensal que consiste em visitar a minha excelente Mãe que, à beira de (per)fazer 97 anos está tão bem quanto lhe é possível. Perdeu (e isso é mais do que um desgosto, um autêntico drama) muita visão o que a impede de ler um dos seus prazeres e hábitos favoritos. Também ouve mal e anda com a ajuda de uma bengala. Mas a vivacidade está igual, mesmo quando se queixa, o humor e a auto-derisão continuam, vive sozinha (há uma empregada contratada para a acompanhar mesmo de noite mas, para já, a old lady mantem-na longe. ) e faz tudo. Só não sai de casa. Nós, os filhos, oferecemos-lhe uma cadeira de rodas com a vaga ideia de que assim poderia ir comer sardinhas assadas (e, no Inverno, cozido à portuguesa) onde isso se faz decentemente. Mas ela já não está para essas cavalarias. Vou tentar encontrar um restaurante perto onde em poucos minutos compre as sardinhas e as traga ainda quentes. Em casa ninguém consegue assar sardinhas na brasa. Nem os pimentos.

No resto, que ainda é muito, e para nós, filhos, netos e bisnetos, tudo, ela permanece. Como uma rocha!

 

E os textos no tinteiro, ou seja no computador, prontos a ser lidos por quem tiver paciência. Sairão hoje.

Mas antes, um pensamento, para o António Hespanha. Conheci-o em Coimbra, foi mesmo meu colega. Na altura não era exactamente, ou só, um militante católico. AH foi um dos rostos da Direita estudantil, fez parte das listas de Direita candidatas à direcção da AAC. Não foi o único a mudar de posição mas foi com certeza um dos que mudou com maior estrondo. Militou no PC uma boa dúzia de anos, o que, depois de Praga, do conflito sino-soviético, do gulag, de Maio de 68, é obra. Foi uma reviravolta de 180 graus.

Isso, todavia, não o impediu de criar uma obra histórica importante de exercer um mestrado de influência. O “Público” de hoje consagra-lhe duas inteiras páginas, com chamada e fotografia na primeira página e ele merece a homenagem. E não merece o apagamento biográfico e político discreto. Nós somos sempre tudo o que fizemos e pensámos. E isso nunca diminuiu ninguém.

Hespanha não foi o único intelectual de Esquerda vindo dessa Coimbra universitária de Direita dos anos sessenta. Bem pelo contrário, foram vários e relevantes os seus companheiros de percurso. Mesmo que lhes estranhemos a conversão tardia e depois de 69 (uns) ou de 74 (outros). Ou o recém-descoberto radicalismo que manifestaram. Também isso faz parte do mesmo processo de abandono de uma igreja por outra. Até se desvanecerem ambas. No meio do pântano onde tantos permaneceram, eles, pelo menos, tiveram a coragem das suas opiniões. E mais ainda, a coragem de as aabandonarem quando se deram conta da realidade.

*a gravura: casa de Curzio Malaparte, um escritor muito cá de casa, em Capri. CM é um exemplo do intelectual que mudou de opinião e disso deixou vivo e brilhante testemunho. A casa é um portento. pena não a poder mostrar melhor.

18
Jun19

estes dias que passam 325

d'oliveira

Unknown-1.jpeg

Unknown.jpeg

Sim, mas...

mcr 18.06.19

 

Deve ser “esta a vez primeira” (oh recordação terna e antiquíssima dos meus companheiros de cela em Caxias, no longínquo ano de 61. A “charamba” era cantada pelo José Orlando Bretão, desaparecido demasiado cedo na sua Terceira natal deixando um punhado de excelentes estudos sobre o folclore da sua ilha) que chamo o PAN (Pessoas, Animais Natureza) à colação.

O PAN começou por parecer uma coisa simpática mesmo se para o público aquilo parecesse mais uma organização de bons sentimentos em relação aos animais domésticos. O resto, as pessoas e a natureza, era pouco visível quer nas palavras quer nas acções. De todo o modo, já se afirmava como um partido ecologista diferenciado daquela coisa chamada “os verdes” (cópia descarada de uma sigla internacional, sobretudo alemã) e que em Portugal só são verdes por fora. No resto não passa de um satélite menor do PC.

Todavia, a entrada no parlamento e a consciencialização crescente (e urgente!) de que há que dar uma volta às políticas ambientais e ao desenfreado ataque à natureza, fez emergir o PAN que obteve um bom resultado nas europeias. De certo modo, começa a ser olhado como um refúgio para os descontentes com a voracidade do PS, o conservadorismo do PC, a inércia da Direita e as farroncas do BE.

Ora o PAN desdobra-se esforçadamente em propostas às vezes irrecusáveis, outras utópicas mas sempre generosas. Dentre elas, destaca-se a da punição do descontrolado arremesso de “beatas” para a rua.

A ideia em si mesma é boa. Os restos de cigarros, mormente com filtro, demoram imenso tempo a desaparecer, atafulham sargetas, sujam praias e parques e poluem forte e feio. A propositura de multas pesadas (200€) para quem atire a beata para o chão deveria ser dissuasiva do gesto. Deveria, digo, mas não é. É que a multa depende de um agente da autoridade, seja ela qual for, que multe rapidamente o infrator. Isso pressupõe um exército (para já não falar no que generosamente chamarei de motivação. (Como a que levou umas criaturas do fisco a parar carros em rotundas para verificar se os proprietários tinham os impostos pagos...)

Eu ainda recordo um dos desportos favoritos do tempo do Estado Novo: o uso de isqueiro. Era obrigatória uma licença e obviamente, naqueles tempos insultuosos e difíceis, havia um grupo de criaturas que andavam à caça dos não licenciados.

Da mesma época, recordo também uma lei que previa multar as pessoas que atravessavam as ruas fora das passadeiras (uma inovação de finais dos anos cinquenta). E ainda uma outra disposição que obrigava as pessoas a circular calçadas. Na Figueira da minha infância as rijas peixeiras de Buarcos traziam uns tamancos (ou algo do mesmo género) atados ao pescoço e quando viam um polícia lá se calçavam. No resto do caminho voltavam ao pé andarilho e rapado.

Conviria explicar ao esforçado deputado do PAN que a multa, dissuade apenas quando está presente. Porém isso não inibe a tentação nem substitui a necessária consciência cívica que impõe respeito pelos outros, pela natureza e pela higiene (pessoal e pública).

Não deixou de ser curiosa a recepção da ideia. Houve mesmo um(a) parlamentar que achou exagerada a quantia a comparou à multa por circular acima do permitido nas vias públicas.

Recordaria ainda que vigora, desde há anos, a proibição de falar ao telefone enquanto se conduz. “Cadé” as multas ou, pelo menos, as multas pesadas e em número suficiente para fazer desaparecer essa prática criminosa?

E finalmente: se é verdade que as beatas incomodam e prejudicam, que dizer dos milhares de cães que donos devotados passeiam diariamente por todo o espaço público e que fazem o seu cocó tranquilamente? Haverá multas? Ou o respeito a outrance pelos fieis companheiros permite essa libertinagem excrementícia dado que o PAN dedica todo o seu carinho aos excelentes bichos?

A coisa (o desrespeito pelos outros peões e passeantes) é de tal ordem que quando se vê alguém apanhar o cocó do cãozinho pensa-se que estamos frente ao novo milagre das rosas. Para não ir mais longe: n zona onde moro há um jardim agradabilíssimo no meio dos prédios. A zona (classe média alta!) abunda em cães. Pois só uma vizinha nossa é que se dava ao trabalho de recolher as fezes dos seus bichos. Todos a achavam uma excêntrica!

De tudo o que venho dizendo só se retira uma conclusão: não é mais uma lei que vai modificar os (péssimos) hábitos dos indígenas. Quanto mais não seja porque está praticamente garantida a impunidade dos que desrespeitam. E as leis que se não cumprem levam ao incumprimento das outras. A uma cultura que começa nas pequenas (más) maneiras e acabam no escândalo da corrupção quase generalizada, exactamente essa que começa no desenfreado hábito da pequena cunha e acaba nos banqueiros que concedem generosas subvenções a arrivistas e bos autarcas que governam os municípios a seu bel prazer.

 

12
Jun19

Au bonheur des dames 488

d'oliveira

Unknown-1.jpeg

 

Remember Ruben

mcr 12.06.19 

Aproveito o título de um belíssimo livro de Mongo Beti (escritor cameronês, desparecido no princípio do século) para me despedir do Ruben de Carvalho que conheci logo nos inícios de 60 nas lutas associativas estudantis. Acho que, da primeira vez, ele ainda seria liceal e membro da pequeníssima pro-associação dos liceus de Lisboa, aliás a única que existia. Não sei porquê mas associo-o a umas aventuras (modestas) com malta das RIP (reuniões inter propaganda) por altura da crise e que terminavam sempre, se a memória me não trai (coisa que começa a ser frequente...) na Portugália, à volta de umas imperiais. Durante alguns, poucos, anos ainda nos encontrávamos sempre por via de questões estudantis e/ou políticas. Todavia eram encontros breves, quase fortuitos, tanto mais que eu era de Coimbra e o Ruben lisboeta assumido.

A partir dos anos 70 só fui sabendo dele pelos jornais e por alguma esporádica aparição na televisão. Conservo, porém, uma boa recordação dele e, mesmo sem nunca ter partilhado as suas opções ideológicas e partidárias, estimava-lhe a maleabilidade, a cultura e a boa disposição. Agora, sei, de ciência certa, o que sempre suspeitei. Era a ele que se devia o programa diversificado da Festa do Avante, pelo menos no que toca à música. Até nisso se podia perceber o grau de liberdade (de heterodoxia?) de que o Ruben gozava. E gozava-o porque era respeitado e porque se sabia fazer respeitar.

Amigos ou conhecidos comuns que navegavam nas mesmas ou próximas águas do Rúben isso mesmo me confirmavam. Gabavam-lhe a inteligência, a cultura, a amabilidade, o humor e...a firmeza.

Morre agora, com 74 anos, uma vida cheia e, suponho, uma maleita sacrista e pertinaz. A morte colhe as vítimas cegamente e não tem quaisquer escrúpulos na hora de escolher. Fica-nos uma memória, no meu caso bastante ténue mas abençoada pela alegria daqueles anos tumultuosos em que qualquer escolha encerrava perigos e a aventura estava proibida. Éramos poucos, muito poucos, “we jfew, we happy few we the band of brothers”, que, paulatinamente, o peso dos anos vai inexoravelmente reduzindo. E o Ruben era um dos mais novos...

* na gravura : Mnemosine a deusa da memória e as musas

11
Jun19

Estes dias que passam 324

d'oliveira

Unknown-1.jpeg

“l’autunno sará caldo” *

ou

As omeletas fazem-se com ovos 

mcr 11.06.19

 

(e um pouco de sal, manteiga ou óleo e, mesmo uma frigideira. Isto sem falar numa escumadeira para virar os ovos e dar-lhes forma).

Desculparão os leitores mais atentos este exórdio (bonita palavra!) mas eu só começo assim porque, se pudesse, era o que diria ao sr. Primeiro Ministro.

Eu sei que ele é um cozinheiro de mão cheia (é que a amantíssima esposo e os filhos extremosos afirmam) mas talvez com esta imagem culinária consigamos entender-nos. É que tudo isto vem a propósito dos transportes públicos que estão pelas ruas da amargura. Pode S.ª Exaª afirmar que “uma família de Sintra poupa em transportes mais de cem euros mês” coisa de que eu jamais me atreveria a duvidar pois os primeiros ministros nunca mentem. Todavia, e nisso há sempre a maçada de um “mas”, diabos levem conjunção adversativa.

Quando numa fanfarra triunfante e pré-eleitoral o Governo anunciou formidáveis descontos nos transportes, logo houve um coro de elogios e um arruído de protestos. Os pró governamentais salientavam a bondade da iniciativa e o profundo amor que ela revelava pelas classes laboriosas e periféricas. Os (obviamente invejosos) da oposição viram nisso uma pura e atempada manobra eleitoralista.

Raros foram os que saudando a ideia logo chamaram a atenção para o facto de uma descida de preços poder levar o caos a uma insuficiente rede de transportes que já rebentava pelas costuras. De facto, os comboios eram já escassos, as locomotivas e as carruagens padeciam dos males da idade avançada (avançadíssima!!!), da falta de manutenção e esta da falta de pessoal especializado há muito denunciada por sindicatos e administrações da CP.

Foi aquele extraordinário Marques (agora felizmente longe na Europa para futura vergonha nossa) quem anunciou o novo milagre das rosas. Nisto de anúncios bombásticos a criatura excedia-se, desdobrava-se, ultrapassava-se continuamente para regozijo de basbaques e aflição das oposições.

Pelos vistos ninguém fazia contas, a aritmética, terror da minha antiga escola primária, andava esquecida e as promessas valiam de per si. Os comboios hão de vir (virão?) daqui a uns anos se é que já foram contratados e encomendados. A manutenção essa depende da entrada imediata de uns centos de profissionais especializados (onde estarão? Como serão preparados e quanto tempo isso vai exigir?).

Também não há navios para a travessia do Tejo e quanto a autocarros, eléctricos ou metropolitano estamos na mesma: hão de vir como D Sebastião numa manhã sem nevoeiro mas inevitavelmente futura. E o futuro, este futuro mede-se em anos ou seja nem na próxima legislatura (cujas eleições provocaram este aluvião de novidades e de progresso) estarão por aí. O que está, é o novo preço! Indubitavelmente mais barato é verdade mas pelos vistos impraticável. Os comboios passam, cheios que nem um ovo e nem parar podem. Isto quanto aos que passam pois todos os dias as televisões anunciam supressões de composições. Prece que em Maio e só no Algarve houve 185 comboios a menos. O mesmo, com números semelhantes ou superiores, ocorreu nas linhas suburbanas de Lisboa. Quando algum chega eis que multidões desvairadas se lançam ao seu assalto. Ist parece Tóquio, o Tóquio antigo, em que cenas desse género também ocorriam e onde havia mesmo uma categoria de trabalhadores cuja missão era empurrar sem grande suavidade os candidatos a passageiros para dentro da “lata de sardinhas”.

O Metro, sempre inventivo anuncia a retirada de mais alguns assentos. De pé cabe sempre mais um. Os reis do apalpão rejubilam: agora é que vai ser um fartote!

O público viageiro e sempre ingrato protesta que as coisas pioraram e que chegar tarde ao emprego passa a ser a regra. Quando se chega, claro.

E nisto de chegar há uma linha férrea extraordinária: a do Oeste ou seja a que liga(va) a Figueira da Foz a Lisboa e servia, entre outros destinos, Torres Vedras, Caldas da Rainha e Leiria. Servia, digo, e muito bem, porque agora já não serve ou só serve de quando em quando. Há estações desactivadas e há trafego ferroviário suspenso entre outras por vezes substituído por autocarros. De todo o modo, já não chega a Lisboa, ficando-se por Sintra e daí, se não houver muitas supressões (e isto é um voto pio mas fervoroso) , é aproveitar a “exemplar” linha de Sintra que, em funcionando, permitiria a cada família uma poupança (não de tempo) de cem euros por mês.

Ou seja: nesta omeleta faltam ingredientes mormente os ovos, as frigideiras são do tempo dos afonsinos e as escumadeiras não passam de uma saudade.

Isto mesmo foi dito pelo Governo que penosamente rezou uma espécie de acto de contrição e confessou alguns ligeiros pecadilhos mas que atribuiu a um finado governo anterior toda a responsabilidade!

Os governos anteriores, sobretudo se forem da oposição são muito úteis pelo menos para carregar com os pecados capitais (e mesmo com os veniais). Vamos lá a ver se o futuro Governo que se afigura da mesma cor e substância resolve as coisas. Aceitam-se apostas mesmo se a casa jogue cinco contra um na impossibilidade de, em quatro anos, se notarem melhorias. No fim logo se verá a quem se apontam as responsabilidades.

(hoje mesmo, 11 de Junho está em curso uma greve dos transportes rodoviários da margem sul. Um dirigente sindical afirmava eufórico que a paralisação estava a ser cumprida a 95% e que ninguém ou quase iria conseguir chegar o seu emprego em Lisboa. Ignoro se são transportes públicos ou privados mas relevo desde logo que uns e outros estão sob a mesma tabela e que se isso ocorre em empresas privadas bom seria perguntar ((mesmo se isso me parece pura retórica pois estou convencido de que não)) se os patrões já receberam do Estado a compensação pelo grande desconto que efectuam em cada viajem).

Uma medida pode ser boa em abstracto (e esta é-o) ms no concreto pode correr mal. É evidente que ao embaratecer visivelmente os preços dos transportes públicos, já se sabia que a procura deles iria aumentar fortemente. Conhecendo-se, igualmente, as disponibilidade da frota pública, dever-se-ia pensar que os operadores privados teriam maior número de passageiros. Como os preços novos significavam um custo acrescido dever-se-ia ter agilizado significativamente os pagamentos a estes operadores. E mesmo assim, dado o inevitável aumento da procura haveria que pensar como é que as frotas podem ser prontamente aumentadas. E isso significa também para qualquer privado uma despesa de investimento importante que pode não ser viável a curto prazo. Dizendo-o de outra maneira: o Estado deveria prever, avaliar e tomar medidas para responder prontamente a este brutal afluxo de modo a evitar o caos, e o desastre diário que se verifica.

Pelos vistos, e pelas desculpas esfarrapadas, que ora se ouvem, tal não aconteceu. “O Verão –mesmo com férias- e sobretudo o Outono serão quentes, muito quentes” como há cinquenta anos se gritava ameaçadoramente pelas ruas italianas.

* l’autunno sará caldo!” foi uma expressão cunhada em 1969 em Itália pela esquerda extra-parlamentar e pelos sindicatos e anunciou uma vaga crescente de greves e de manifestações sobretudo no norte industrial

** a imagem: o outono quente em Itália

 

 

09
Jun19

Au bonheur des dames 487

d'oliveira

Unknown.jpeg

Fazer dos outros parvos

mcr 9-06-2019

 

1) Eu não queria falar do dr Victor Constâncio. E não queria por uma velha velhíssima razão. Há muitos, sei lá quantos, anos, um velho amigo meu ao saber que eu não estava inscrito num partido, entendeu insistir durante semanas para que entrasse no PS. Na altura o PS andava na mó de baixo, o meu amigo dava-me cabo do pouco juízo que tinha de modo que lá me inscrevi. Descobri, estupefacto, que tendo saído de um agrupamento em que fervilhava a discussãoo ideológica, o PS era um remansoso local onde ninguém se dava a tais práticas. Na secção que me foi destinada, o mais político que ouvi da boca de uma senhora que fazia de responsável foi que os militantes machos fumavam que nem carvoeiros e que ela tinha de varrer a sala das cinzas e até de uma que outra beata deixada cair por algum camarada menos cuidadoso. Não vou contar a minha vida partidária mas sempre acrescento que subi de vento em popa e um mês depois de entrar já era delegado a um congresso federativo, candidato sem o saber a um lugar no respectivo secretariado e mais não sei o quê.

tudo isto porque na campanha que opunha Constâncio a Jaime Gama, escolhi como de costume o lado errado e defendi Constâncio um par de vezes ( “minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”). Constâncio ganhou e na direcção do PS cometeu o erro trágico de se deixar seduzir por uma iniciativa do PRD (Partido Renovador Democrático, criado à sombra quarteleira do senhor general Eanes e organização estrafalária e populista até dizer chega que fundamentalmente se apresentava como redentora.

Na altura o Senhor professor Cavaco Silva era primeiro ministro e estava à frente de um Governo minoritário . O PRD (18% ds votos) entendeu propor uma moção de desconfiança e o PS (21 ou 22%) apoiou a ideia. Cavaco caiu. Convém lembrar que até o dr Mário Soares mandava recados ao partido advertindo que em caso de vitória da moção haveria eleições e que as perspectivas não eram as melhores para o PS.

O PS e Constâncio não acreditaram pois pensavam que no último momento seriam chamados a formar Governo. Não foram. A partirdaí Cavaco ganhou com maioria absoluta dois mandatos sucessivose o PS andou pelos corredores esconsos de S Bento a falar sozinho. Entretanto o PRD, essa fantasia pretensiosa, desapareceu sem deixar rasto nem saudades. Vitor Constâncio lá se resignou a abandonar o lugar no PS e o cargo de deputado. Pode dizer-se que nesta fase sombria não se distinguiu nem pelo génio político, nem pelo talento oratório.

Entretanto, este cronista, depois de ter tentado por todos os meios convencer os seus camaradas da loucura de votar com o PRD, desandou do PS, explicando numa cartinha tudo o que pensava daquela aventura. Todavia, poupava Constâncio que “teria sido mal aconselhado”! Ingenuidade minha, claro.

Mesmo assim, custa ver alguém por quem demos a cara a fazer-se de sonso, de desmemoriado, de ignorante, de inocente útil e parvo. Constâncio, pelo que afirmou na Comissão da AR, não se lembrava, não tinha de saber, não sabia enfim, o Governador do Banco de Portugal que ele era andava por lá como na política: às cegas, aos baldões, aos tropeções a apanhar calduços ou cachaços dos malandrins que gozavam o gordinho que passava.

Uma tristeza!

 

2 A digna sucessora dos senhores João Soares, o “esbofeteador” e de Castro Mendes o “fantasma desconhecido”, Doutora Graça Fonseca, a propósito da lista de obras desaparecidas do acervo do Ministério, afirmou, sem tentar ser irónica, que tais obras apenas estavam por localizar. Patético! Ou ridículo, se preferirem...

Conviria lembrar à distinta senhora que qualquer desaparecido está por localizar, É assim nos comunicados de guerra ou sobre desastres: "há mortos, feridos e desaparecidos." Infelizmente, muitos destes últimos nunca parecem ou aparecem já cadáveres. Os americanos até tem uma sigla:MIA (missing in action”).

Portanto as obras “por localizar” estão desaparecidas. É aliás provável que continuem “inlocalizaveis” perdoe-se a palavrinha inventada e abstrusa. São quase 200 as vítimas deste inexplicável nevoeiro. Ou melhor: quem conhece os labirínticos corredores dessa coisa pomposa chamada Ministério da Cultura, desconfia mesmo da veracidade da lista. Estará completa?

Em tempos que lá vão, aquilo era uma balbúrdia. As peças circulavam livremente por todo o lado, não havia um registo seguro do comprado, do recebido como oferta, sequer do eventualmente deteriorado.

Ainda recordo, uma excursão feita à garagem do Ministério, estava este ainda na Avenida da República. Em vez de carros, havia pilhas enormes de livros. Tratava-se de obras editadas com o apoio do Instituto do Livro e que numa certa percentagem eram entregues ao MC. Ali chegavam e ali estadeavam sem préstimo nem destino. Semanas, meses, anos. Recordo igualmente, uma gigantesca partida de livros  adquiridos a uma(s)editora(s) em risco que o ME, na sua versão Secretaria de Estado tentava impingir às instituições que os quisessem.  E foram raras as que, depois de prevenidas, acorreram a levantar os livros...

Recordo também, um livro sobre Camilo Castelo Branco, publicado a expensas do Ministério pela comissão das comemorações do centenário de CCB em 1991, chamado “Imagens Camilianas” Tratava-se de um belíssimo álbum, com caixa própria que reproduzia em mais de 60 páginas, imagens do escritor. Uma vez publicado, foi enviado para a Delegação Regional do MC no Porto e mais uma vez os montes de livros ficaram por lá sem serventia. Que se saiba nunca foram distribuídos sequer vendidos. Uma pequena pesquiza revela alguns exemplares à venda no OLX, e em dois alfarrabistas do Porto. Recordo que no local onde estavam depositados houve uma inundação que destruiu alguns exemplares. Os restantes bem como uma série de obras de pintura transitaram para Vila Real, destino escolhido pelo dr Santana Lopes (outra luminária cultural feita Secretário de Estado!) para a DRN . Nesse lote ia o original de “A liberdade está na rua” (Vieira da Silva) e um belíssimo desenho de Fernando Lanhas. Ao todo seriam duas ou três dúzias de peças, incluindo algumas esculturas. Nem quero pensar no que lhes terá sucedido. Pela parte que me toca (bem como aos dois anteriores Delegados Regionais) tive o cuidado de ao deixar o cargo, pedir quitação e inventário do que passava para a criatura que me substituiu(dinheiros e obras de arte. Cautelas e caldos de galinha nunca são de mais, tanto mais que eu saía daquela casa depois de me demitir  do cargo e em claro enfrentamento com o inglório fundador desse partido largamente derrotado nas últimas eleições ).

Voltando à doutora Fonseca, especialista gorada em eufemismos e desastrada responsável da Cultura nacional, a sua reacção à notícia do Expresso diz muito do estado a que chegou cultura democrática e a ideia de responsabilidade que deveria presidir aos actos e às palavras de quem momentaneamente (e mal, pelo que se vê) governa a pobre pátria. Ainda por cima, o desaparecimento ou, pelo menos, notícias dele, tem anos. De facto há muito tempo telefonou-me alguém que já na altura andaria na peugada das peças. E já havia várias (pelo menos das que estavam na DRN) que estariam em Alcácer Quibir prontas a regressar com o rei D Sebastião numa eventual manhã de nevoeiro.

Na origem deste mistério “doloroso” ou “gozoso” (é só escolher) está o estranho facto de as peças artísticas andarem sempre a mudar de poiso e de não haver um registo claro dessa deambulação ou sequer haver uma ficha decente da peça (com fotografia, preço, data de aquisição. medidas, e demais dados pertinentes. Recordo que na DRN (mais uma vez!) isso foi feito com enorme rigor por Manuel Matos Fernandes, um grande funcionário entretanto falecido. E que tal inventário foi, devidamente enviado, para “conhecimento” ao Ministério. Não me lembro entretanto se alguém de lá se deu ao trabalho de acusar a recepção. E uso o “não me lembro” apenas porque me custaria dizer que pura e simplesmente se estiveram nas tintas. Como já nesses anos do fim do século, ocorria com frequência, displicência e falta de consciência...

na gravura: “A poesia está na rua” (Vieira da Silva)