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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Au bonheur des dames 420

d'oliveira, 01.10.20

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Patriótica graça 

mcr, 1 de Outubro

A sr.ª dr.ª Graça Freitas começa, aliás já tinha começado (e há muito tempo) a perder a graça.

Ignoro se ela é, ou era, uma pessoa competente. Mesmo sendo a nº 2 do anterior director geral poderia não passar de um pau mandado. De todo o modo, quando o lugar ficou vacante, a sr.ª dr.ª Freitas subiu naturalmente e é nessa qualidade que todos os dias, todos os santos dias, ela aparece na televisão sem que, nas mais das vezes, acrescente algo de útil.

Eu já aqui disse que os responsáveis políticos deveriam ser poupados ao massacre da banalização. A Directora Geral, o Secretário de Estado, a Ministra deveriam vir a público quando tal se impusesse e não todos os dias como se fossem uns (medíocres) pivots televisivos.

Infelizmente, alguém, ou eles próprios, decidiu que a presença destas três criaturas era vital para o esmagamento do covid. Como os espantalhos nas searas...

 

A permanente presença destas criaturas de verbo gago e palavroso acaba por ter um efeito péssimo: já ninguém liga ao que dizem. Depois dos números de mortos, restabelecidos, hospitalizados as pessoas mesmo mantendo-se na mesma emissão de televisão, desligam. Esperam docilmente a próxima notícia ou, pior, a novela inevitável.

Mesmo os números são profundamente enganadores. Só interessa saber quantos novos infectados há se soubermos quantos testes se fizeram. É que é muito diferente haver 500 ou 600 novos casos se o universo testado tiver cinco, dez ou vinte mil testados. Depois, as percentagens também de pouco servem. Dizer que de ontem para hoje houve um aumento de 5% tem pouco significado. 5% de 10000 não é exactamente a mesma coisa de 50.000. De certo modo, o número bruto de novas infecções traduz melhor a realidade sombria em que se vive. Sombria para nós mas excelente se compararmos os “nossos” novos casos com Espanha, Reino Unido ou França. Mesmo sabendo que estes países tem 5, 6 , 7 ou mais vezes a nossa população. Madrid sozinha tem mais infecções que Portugal inteiro!

Deixemos, porém, esta abordagem e concentremo-nos na tristíssima figura que a dr..ª Freitas foi fazer na Assembleia. Disse a pobre criatura que “não é patriótico pôr sempre o nosso país nas bocas do mundo quando se sugere que a informação não é boa

Eu não sei se a dr.ª Graça sabe o que é um dicionário mas se acaso sabe, e porventura tem um lá em casa, convir-lhe-ia ir procurar a palavra e perceber (se for capaz) o que patriotismo quer significar.

Já Eça referia os patrioteiros e, eventualmente – não recordo – os patriotaços a propósito de uma discussão com Pinheiro Chagas.

Nos tempos em que a dr.ª Graça frequentava os bancos do liceu, o antigo regime insistia no patriotismo e condenava inabalavelmente os anti patriotas.

Fico com a fortíssima convicção que a excelente senhora pertencia aos patriotas puros e duros. Basta-me para tal ver como ela responde à justa indagação parlamentar

E digo isto porque, infelizmente, basta que alguém, em qualquer parte do vasto orbe diga uma amabilidade sobre Portugal para cá se fazer ouvir um coro de clarins e tambores a rufar.

Aliás, se os números fornecidos pela DGS estão certos, somos, sem dúvida, a inveja de muitos países que, coitados, estão em circunstâncias bem mais penosas do que nós.

Por isso a frase da sr.ª Directora Geral é calamitosa e um autêntico atentado à inteligência (dela, dos deputados e nossa, que diabo).

A mim, mais do que a absurda tolice do apelo ao patrioteirismo imbecil, o que me espanta é não ter hvido um deputado que lhe dissesse duas verdades e lhe explicasse a toleima da sua afirmação.

Retiro o que acima disse se, acaso, houve alguém com bom senso e um mínimo de conhecimento da língua que lhe tenha explicado o sentido de patriotismo.

Costuma dizer-se a propósito das empregadas domésticas que o que interessa é que elas limpem a preceito, cozinhem decentemente passem a ferro com cuidado. A inteligência, dizem tais criaturas que cito, não é essencial. Cá, por casa, a empregada cumpre bem as suas tarefas é alegre, amável e inteligente e isso é um ganho inestimável pois, de quando em quando, ela sugere, actuações sensatas que se traduzem em benefício da casa, nosso e das gatas que ela estima ternamente. A inteligência é sempre um bónus seja para empregadas domésticas como para directoras gerais. Provavelmente até é patriótica porquanto ninguém com dois dedinhos de testa consideraria uma pergunta mesmo dura um acto contra a pátria.

Alguém explique isto à dr.ª Graça. Se, eventualmente, não tem um dicionário terei todo o prazer de lhe oferecer um, seja o do Buarque ou o do Houaiss dois brasileiros que amam a língua. Ou procurarei mesmo o José Pedro Machado ou o Morais caso a portuguesíssima Freitas abomine os estrangeiros

Despeço-me patrioticamente

Viva a Pátria

Viva Portugal, um torrãozinho de açúcar

Viva, viva, viva. Pum!

Na vinheta: um útil mapa da prosápia lusitana que provava à evidência que Portugal não era pequeno.

 

 

estes dias que passam 491

d'oliveira, 29.09.20

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Alguém não fez o trabalho de casa

mcr, 30 de Setembro

 

Eu não sei se é a DGS, se é o Ministério da Saúde, se é mais algum departamento estatal que pensa Portugal como uma república bananeira ou se, pura e simplesmente, é a habitual bur(r)cracia.

Também não excluo a estupidez ou, pior, a vontade de alguém em governar-se à custa dos governados.

Eis o caso: aproxima-se o tempo da gripe o que, junto à persistência da pandemia, torna a vida de todos e, particularmente dos mais velhos (é é o meu triste caso) mais complicada.

Faço parte daquele grupo de pobres diabos que leva a sério as prevenções dos médicos, do SNS, da DGS, enfim dos que entendem dever vacinar-se contra a gripe.

Em chegando o fim de Setembro, passo pela farmácia e, zás, por uma módica soma, vacinam-se. Não vou ao Centro de Saúde por duas razões muito simples. Uma pessoa chega lá e espera horas para ser atendida. Depois, razão menor, sempre poupo ao Estado o custo de uma vacina. Aliás, mesmo sendo “beneficiário” da ADSE (que mensalmente me leva uma bela soma) apenas a utilizo para o desconto nos poucos medicamentos que, por sorte -por serem poucos – sou obrigado a tomar. O resto fica por minha conta, tanto mais que reaver o dinheiro gasto dá uma trabalheira dos diabos e recebe-se tarde e a más horas. Por outras palavras a minha saúde fica barata ou, até dá lucro ao Estado e/ou à ADSE.

Todavia, enquanto cidadão, entendo que tenho direito a que o Estado se preocupe com a minha saúde e atempadamente ponha ao meu dispor os meios para me manter tão são quanto possível.

Portanto, e para abreviar, desloquei-me à farmácia para a vacina. Nada feito. Já há vacina mas, para já, é para os profissionais de saúde e para certos grupos de risco residindo em lares, isto é para os que, por milagre, ainda não foram mortos pelo covid e pela péssima assistência sanitária de que “gozam”.

Aceito que haja prioridade mas, porém, não percebo porque é que, cá fora, sem pesar no SNS não poderiam as farmácias fazer este ano o que sempre fizeram. Ou seja, abastecer-se no mercado armazenista, e vender o seu produto a quem esteja disposto a pagá-lo.  

O amável jovem farmacêutico que me atendeu afirmou-me que este ano a DGS ou outra qualquer instituição bur(r)ocrática entendeu que ou não haveria abastecimento no mercado livre ou, se acaso o houver, ele será deixado para as calendas de Outubro.

Convenhamos que isto tem um nome e esse é atentado contra a saúde publica, entendendo-se que nisto vão incluídos o receio, a angústia e a cautela de milhares, dezenas ou centenas de milhares de cidadãos que, avisados do que pode por aí vir, e escaldados pelo que as televisões mostram de outros países decidiram não deixar para amanhã o que poderiam fazer hoje. E sempre, note-se bem, sem obrigar o Estado a pagar seja o que for!

O mesmo farmacêutico (corroborado por dois outros colegas em duas outra farmácias) explicou-me que decuplicou o número de pessoas que tentaram já inscrever-se para a vacina.

Razões são várias mas sobretudo esta: as pessoas não confiam nos centros de saúde, na sua eficácia, basta lembrar o trabalho inglório que se tem ao tentar telefonar para lá. Não atendem e não devolvem as chamadas. Eu próprio já verifiquei isso quando quis avisar uma senhora enfermeira que me enviou um mail justamente sobre vacinas. Por três vezes tentei dizer-lhe que tinha tido essa cautela. Nada feito.

Agora, depois de saírem notícias sobre surtos em clínicas e hospitais, ainda é maior o receio, justificado ou não, dos utentes. Sobretudo porque, ao ouvir as televisões ninguém consegue ver onde está a razão e onde ela falece. A DGS tem posições tão sinuosas, tão dispares no tempo que o seu crédito se reduz dia a dia.

E o covid sempre presente. E a gripe a chegar. A gripe que, ainda há meses para afastar o espantalho do covid era, dizia-se, muito mais mortífera! Quem semeia medos recolhe pânicos!

Ao lado desta injustificada falta de vacinas no sector farmacêutico, junta-se entretanto a ideia difusa mas repetida que o monopólio estatal garante gordas comissões a criaturas ao serviço conjugado do Estado e delas próprias. Convenhamos que, perante o espectáculo dos inúmeros altos servidores públicos acusados e em via de julgamento, a ideia da corrupção nesta distribuição não deixa de ter pés para andar.

O senhor secretário de Estado veio ontem, num discurso confuso e aos tropeções dizer que a partir da terceira semana de Outubro haverá eventualmente vacinas para fornecer às farmácias. Todavia, há que reconhecer amarguradamente que palavras de altos responsáveis da saúde valem o que valem e é pouco.

Alguém diz que isto se deve a trapalhadas de trapalhões que demoraram demasiado tempo a requisitar para o país um número decente de vacinas. Não custa nada a acreditar dada a situação em que o covid nos apanhou: de calças na mão mesmo depois de termos visto a pandemia cevar-se noutros lugares. A costumeira displicência portuguesa de que este povo, sobretudo o que não manda, não tem, não é ouvido, é vítima.

Portanto, leitoras e leitores, preparem-se. A vacina da gripe virá (ou não) daqui a três semanas. Com a gripe já perto ou já cá dentro. Com o covid à espreita. Com o SNS a espernear para chegar a todos. Com dezenas, centenas de milhares de consultas, cirurgias e outros actos médicos atrasados ou perdidos. E com o povo embalado pelas futuras presidenciais ou pela surpreendente discussão à volta do Orçamento. J´ninguém percebe nada: o PS jura que se perde de amores pela Geringonça a três ou a dois. P PC rosna que não vai a jogo, o BE faz finca pé nas suas exigências. O Presidente da República a mandar recados sobretudo ao PPD que, até à data, não é parte neste cozinhado. Ou seja, o sr. Presidente entende que o seu antigo partido tem o dever de ser uma tábua de salvação caso o tempestuoso namoro PS/BE falhe. Não se descortina como isso é possível dada a claríssima divergência programática entre os dois partidos maiores. Mesmo quando o sr Presidente se desdobra numa versão pessoalíssima da sua mais que apagada liderança do PPD e dos favores que terá feito a Guterres não se consegue perceber como é que agora isso se poderia repetir sem atirar o PPD ou os seus votantes para os insondáveis abismo de uma Direita ultramontana que quer replicar em Portugal os êxitos obtidos em França, Itália ou Espanha. Quer e, eventualmente, pode: basta que as alternativas desapareçam. Hitler subiu ao poder, por eleições livres dessa maneira. As esquerdas (PC e PS) não se entenderam, aliás combateram-se violentamente nas ruas através de milícias próprias, o Centro implodiu e os nazis foram tranquilamente ganhando eleição após eleição (A Prússia já era governada por eles antes de deitarem a mão ao resto da Alemanha). O que fizeram sem demasiado esforço e com a brutalidade congénita que os unia. Brutalidade, aliás, que se generalizava a outros estractos políticos e sociais, convém acrescentar antes que me acusem de fazer a culpa morrer solteira...

Não estou a traçar nenhum cenário especialmente previsível mas apenas quero ressaltar que a História recente (ainda não passaram cem anos) fornece algumas lições e sugere algumas cautelas.

Dançar à beira do vulcão não é exactamente o melhor remédio.

na vinheta: gravura, uma entre centenas de uma grande aventura cultural e científica paortuguesa: as viagens philosophicas (finais do sec XVIII). Desta feit, é a levada a cabo no Brasil. Já, por várias vezes, aqui referi o esforço desses exploradores naturalistas mandados para todos os cantos do Império colonial. No caso é a do dr Rodrigues Ferreira que percorreu a amazónia e o Mranhão durante dez longos anos, reunindo um espólio fabuloso que enviou para Portugal. Dessa soma impressionante de documentos de toda a ordem, ainda restam muitos embora a maior parte tenha sido saqueada pelos franceses de Junot e esteja hoje em Paris no chamado "cabinet de Lisbonne". Ferreira, claro é mais desconhecido ilustre da nossa História mas isso é o destino natural de muitos outros nacionais. 

 

Os impostos que Trump não paga

José Carlos Pereira, 28.09.20

"The New York Times" faz serviço público. A revelação das declarações fiscais de Donald Trump, que este sempre escondeu, pode ser a machadada que faltava para obstar à sua reeleição. Oxalá Joe Biden saiba tirar partido desta bomba na sua campanha, começando já pelo debate televisivo de amanhã.

Au bonheur des dames 419

d'oliveira, 26.09.20

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Pot-pourri de Outono

mcr 26 de Setembro 2020

 

O dia a dia proporciona a qualquer pessoa um conjunto de observações que só reunidas merecem , se é que merecem, referência. A pátria assoberbada com os escândalos, os processos, o covid manhoso, deixa passar o dia a dia mesmo quando este se revela ridículo ou, pura e simplesmente, detestável.

Comecemos por uma patetice que também é uma grosseria e, sobretudo, uma arrogante falta de juízo político, social e ético.

A srª Inês de Medeiros é presidente da Câmara de Almada, autarquia arrebatada ao PCP não tanto por virtude dela mas sobretudo por cansaço da população e manifesta perda de velocidade do partido comunista. De facto, nada a recomendava especialmente para a carreira autárquica mesmo se, como se sabe, fora deputada pelo PS. Desse período, fora um par de vulgaridades a propósito de cultura, só resta o escandalozinho de, enquanto deputada ter usado da estranha prerrogativa de viagens semanais Lisboa Paris (em classe executiva)à conta do Parlamento. Tal facto levantou um sururu de primeira e a deputada acabou por custear por si as suas idas a casa.

Eleita surpreendentemente presidente de uma Câmara do cordão vermelho pouco se ouviu falar da sua obra, excepção feita a uma persistente campanha dos vencidos que não lhe perdoaram a ousadia. Em breve saberemos mais, quando ( e se) disputar um novo mandato. Manda a verdade dizer que também se não ouviu grandes críticas o que não deixa de ser um sinal animador. Pas nouvelles, bonnes nouvelles!

Todavia, no melhor pano cai a mancha. Eis que a propósito dos degradados bairros sociais de Almada, a boa senhora entendeu aprofundar a discussão exaltando as “maravilhosas vistas” desses locais abandonados de Deus e dos homens ou tão só das atenções municipais. Da intervenção em causa que a televisão maliciosamente passou na totalidade há dias verifica-se que tudo o que depois se disse da infelicidade, da parvoíce e da insensibilidade da autarca é pouco e tristemente verdadeiro.

A srª Medeiros, logo que o rumor começou veio, como de costume, afirmar que os seus destemperados dizeres tinham sido “descontextualizados”. Não foi original e, sobretudo, usou mal as palavras. A sua infância austríaca e a longa permanência no estrangeiro tê-la-ão afastado da subtil semântica indígena. Nada no seu discurso, passado, como já se disse, de novo na televisão, permite falar em contexto ou na falta dele. Naquela aziaga intervenção a autarca até se diz disposta a ir viver para o “bairro amarelo” cujas vistas fazem a inveja da margem norte (sic).

Não se percebe porque razão não optou por dizer que aquilo foi uma distracção, uma fogachada tola disparada durante o calor de uma discussão e pedir desculpa pela asneira. Nada disso. A srª Medeiros arrogantemente tentou enfrentar a comunicação social acusando-a de mentirosa ou de estúpida. Foram os interlocutores que não perceberam a bondade das suas palavras, o arreigado respeito pelos seus munícipes mais desfavorecidos e, já agora, a defesa tous azimuts da sua cidade, bela entre as belas.

Pobres cidadãos de Almada.

 

As aulas vão começar nas universidades e a grande questão do momento é, imagine-se!, a praxe. Parece que, com o covid tem de se amaciar um par de aspectos da repelente instituição que sobrevive graças à imbecilidade manifesta de uma multidão de “praxistas” disseminada pelo inteiro universo universitário nacional a partir de desastrado exemplo coimbrão.

Não vale a pena tentar explicar o quão ofensiva pode ser esta prática herdada de muita selvajaria tradicional e inexplicavelmente replicada nas universidades (e são muitas) portuguesas.

Eu estudei em Coimbra, aliás até fui “bicho” e, por isso mesmo, eventual vítima das “trupes” embuçadas que corriam ruas, travessas e becos à procura de um desgraçado para rapar e/ou sovar. As autoridades fechavam os olhis a estas “rapazices”, a Universidade via com complacência estas práticas que, in illo tempore, só abrangiam os varões. Com o exponencial acesso das mulheres ao ensino dito superior, eis que a praxe começou a aplicar-se às meninas. Em boa verdade já não há “rapanço”, “unhas” e, muito menos “canelão”. Neste último caso, a prática morreu desde que o recinto universitário extravasou da “Porta Férrea”, local ideal para os “doutores” em alcateia ferrarem caneladas nos pobres caloiros que só tinham aquele caminho para irem às aulas.

Porém, além das capas e batinas (hoje um vestuário caro e incómodo) das fitas e grelos, da “Queima” que se tornou num cortejo alcoólico e sujo, subsiste, mesmo que profundamente desvirtuado, o “gozo” dos caloiros. Em tempos, mesmo nos meus, a coisa, de todo o modo humilhante e desprezível, durava um par de semanas e em casos contados poderia revelar alguma ironia, uma pouca de graça. Em caso contados, raros, raríssimos. Na generalidade, aquilo reunia uma multidão de sevandijas, outro tanto de imbecis espectadores e um ou vários rapazinhos imberbes recém chegados que se deixavam “gozar” para evitar “julgamentos” e rapanços que sempre se lhes seguiam.

Tive a sorte, a infinita sorte, de ser caloiro já com uma Associação Académica de pé, com uma direcção geral democrata que conseguia vagarosamente eximir os caloiros de quando em quando. As actividades associativas desportivas ou culturais permitiam aos caloiros fazer o seu caminho casa-associação- casa sem cair nas patas dos trupistas.

Quando fui veterano (1969) fui um dos subscritores do decretus que abolia todas as formas infamantes de praxe, “gozo” e “mobilizações” incluídos. Fui, aliás eu que redigi o documento que lá vem, se se conserva com a minha assinatura “marcellus fluviulus” se bem recordo. Devo dizer que fui sempre anti-praxista mas não deixei de aproveitar a minha promoção a veterano para melhor combater aquela burrice manifesta. Aliás, os veteranos são apenas e só os alunos que tem mais matrículas do que normalmente o curso comporta. Ou seja, os veteranos ou são cábulas ou estúpidos, basta escolher. Eu fui provavelmente as duas coisas mesmo se em meu abono possa fazer uso das vicissitudes da vida académico-política que levei a cabo entusiasticamente. De todo o modo, no quarto ano, percebi, tardiamente, que podia fazer tudo e estudar um mínimo e num ápice terminei o curso sem mais chumbos e, pasme-se, com boas notas.

Nesse decretus que refiro, não se beliscavam os trajes académicos, as insígnias, as festas estudantis (queima, latadas, tomada da bastilha) nem sequer a nomenclatura dos diferentes graus que levavam um caloiro a doutor. Só se eliminavam a violência e a humilhação.

Durou pouco este estado de coisas. Em Coimbra (onde apesar de tudo acabaram trupes, rapanços unhas) e espantosamente nas outra universidades (Lisboa e Porto, primeiro e agora no resto do país) que não só copiaram (macaquearam) servilmente o mau hábito coimbrão mas até o expandiram desmesuradamente.

Tudo isto nas barbas de Reitores, Senados Académicos, Conselhos de Faculdade e associações de Estudantes. Toda esta boa gente copiou o modelo coimbrão (fora uma que outa novidade sempre cretina no traje professoral ou estudantil) sem perceber que tirando o fado e a balada que se podem cantar em todo o lado nada poderia sequer assemelhar-se à velha cidade, aos velhos edifícios, a um clima intelectual e tradicional construído ao longo de séculos. Coimbra, que pouco mais tem do que estudantes que a fazem viver e cuja mitologia pluri-centenária foi absorvida pela cidade “futrica”, não é replicável por qualquer outra cidade por muitos estudantes que a sua universidade tenha.

Agora, algumas “autoridades académicas” parecem querer travar algumas manifestações não por serem estúpidas e estupidificantes mas por mera precaução anti pandemia! Não vi nenhum comunicado de associações de estudantes mas tão só referências a “conselhos de veteranos” que pouco adiantam. Isto não é negar o século XXI. É negar, desde logo, o XX.

 

As presidenciais começam a bater-nos à porta. Desta feita, o PC apresentou o seu candidato, escolhido como não podia deixar de ser, por unanimidade, no Comité Central.

Vá lá que, depois do fiasco das ultimas eleições com aquela criatura da Madeira, resolveram fazer avançar um dos seus “jovens” (42 anos, o que no pc é juventude pura e dura): João Ferreira, biólogo e deputado europeu. Antes deste cargo terá sido deputado na AR. Pesquizando na internet nada mais se sabe. Se além da política, trabalhou em algum sector. Também não é necessário porquanto, na mitologia partidária basta ser quadro do partido para ser não só um intrépido defensor do proletariado, do povo e dos bons portugueses mas um verdadeiro trabalhador.

Resta que o público em geral, um pouco mais abundante do que o estricto quadro da militância comunista ou mesmo do círculo de simpatizantes, desconhece completamente a criatura. Nõ pretendo com isto dizer que Ferreira é um verbo de encher mas apenas que tem pela frente um árduo trabalho que é fazer-se conhecer mesmo se já tnha disparado a primeira salva afirmando que se dosse Presidente da República daria o seu aval à eutanásia. É pouco e é muito, dado que essa discussão ainda vai no adro. De todo o modo já garantiu o voto da sr.ª dr.ª Isabel Moreira, deputada do PS que prefere o comunista a Ana Gomes, sua alegada correligionária ou a Marisa, uma repetente nesta guerra.

Obviamente, mesmo se o PC recusa tal tese, João Ferreira tem apenas uma missão: fixar eleitorado próprio que ultimamente se tem mostrado demasiado volátil (ou então tem morrido velozmente) e contrariar as duas senhoras já referidas. O dr. Rebelo de Sousa vê assim o seu caminho mais facilitado e com mais dois ou três eventuais candidatos (o sr Tino de Rans e uma senhora socialista que anda afanosamente a recolher assinaturas) aquilo, a eleição, nem história vai ter.

 

Finalmente, e a propósito do sr. Presidente da República seria bom recordar que a sua decidida campanha contra o chumbo do Orçamento tem algumas fragilidades. Primeiro terá de convencer PC e BE a alinhar de novo com o PS. Claro que as resmungadelas destes dois partidos pouco significam. Trata-se marralhar antes de concluir o negócio orçamental. Não vá o PS obrigar a novas eleições, coisa por que estava mortinho, na espectativa de obter uma maioria absoluta. Agora, com a perda de velocidade de Costa, bastarão umas concessões aqui e ali para todos gritarem vitória. O PPD que não tem ilusões já se pôs de lado ou melhor já não acredita na hipótese de ser boia de salvação deste Governo. E isso facilita a vida a Rui Rio que poderá votar como lhe der na real gana sem com isso perturbar a economia. Estranho, muito estranho, seria que o PPD desse boleia ao PS sem fortes garantias e claros ganhos políticos. Rio aposta no cansaço, no anunciado “fim de ciclo” de que toda a gente fala.

De qualquer maneira, a velada ameaça de Marcello é uma falta democrática. E de nada lhe vale tentar relembrar o seu medíocre desempenho à frente do PPD e os alegados favores feitos a Guterres. Não foram favores porque nada podia fazer. Estava apenas a tentar salvar a pele mesmo se isso tinha como consequência um enfrentamento com alguns barões do seu partido. Foi escovado sem honra nem glória e do seu tempo de líder não resta nada. Absolutamente nada. Até Santana deixou mais vestígios. Mesmo se esses fossem sobretudo cacos.

De facto, começo a pensar que estamos em fim de ciclo, queira isso dizer o que quer que seja.

 

*na vinheta: le quartier jaune, perdão bairro amarelo, onde Madame Medeiros apreciaria viver. Eu, egoísta e malvado, detestaria... Feitios...

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Marcelo e os ares do Porto

José Carlos Pereira, 24.09.20

As vindas ao Porto obnubilam as ideias do Presidente da República. Há semanas, na Feira do Livro, aconselhou uma manifestante descontente com o Governo a votar nos partidos da oposição. Ontem, à porta da Torre dos Clérigos, ditou aos deputados como devem votar na aprovação do Orçamento do Estado, como se lhe coubesse comandar a Assembleia da República.

Marcelo Rebelo de Sousa parece saudoso dos tempos idos em que Belém centralizava os fios do poder...

au bonheur des dames 418

d'oliveira, 19.09.20

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Estrangeirado mas informado

mcr,  19 de Setembro

 

Tenho um amigo francês, dezoito anos mais velho, que chegou a Portugal e à Figueira pouco antes do fim da guerra. Vinha acossado por várias polícias, desde logo as alemã e francesas (Paris e Vichy) e mais tarde pelo franquista. Pai preso por resistente, resistente também ele, encarregado de guiar fugitivos até à fronteira espanhola, descobriu que lhe andavam no encalço e, com dezanove anos acabados de fazer, desandou sem olhar para trás. Atravessou meia Espanha à pata, entrou sem especiais dificuldades por Vilar Formoso (passaporte espanhol mais falso do que Judas). Arribou à Figueira, apenas para descansar umas semanas e seguir para Inglaterra para continuar o combate. Adoeceu com alguma gravidade e ficou-se por Buarcos a recuperar. Entretanto a guerra na Europa acabou, encantou-se com uma rapariga local e, graças a vários figueirenses de origem francesa (gente que se fixara por alturas da construção da linha de caminho de ferro da Beira Alta, normalmente técnicos que terão sentido o apelo de uma terra à beira mar e se integraram na comunidade local. Conheci e privei com muitos, os Jacques, os Bracourt os Reynaud...), deixou-se ficar. Nada o prendia ao país natal, pais desaparecidos, família dispersa, país libertado e devastado.

Contra o costume, aprendeu rapidamente português, mantendo um ligeiro sotaque que lhe denunciava a Saboia natal e uma especial predileção por boa e sólida comida. Agora, rodeado de filhos, netos e bisnetos, aparece de vez em quando, ainda robusto, proibido de tomar café que ele substitui por chá de cidreira que acompanha com “um cheirinho”. O médico que apenas lhe permite um copo de vinho a cada refeição, esqueceu-se de lhe interditar os cognacs, armagnacs e  destilados similares. Francês astuto, temperado por muitos anos de Buarcos, também não perguntou e a verdade é que aos 96 está rijo, um pouco surdo, ágil tanto quanto se permite a um quase centenário. E depois de almoço e do jantar a eterna infusão acompanhada de um cálice de “fine Napoleon “ ou de uma reserva velha e excelente de “Carvalho, Ribeiro & Ferreira”.

Conhecemo-nos desde sempre e ele, agora, aprece duas três vezes por ano pois tem por cá um bisneto que não dispensa a companhia do antepassado. Partilhou com o Fernando Assis Pacheco e o tio Marcos Viana, as últimas garrafas de um brandy que o avô Alcino fazia com carinhos de pai. E só para oferta! “Ai o brandy do teu avô”, suspira. O tio Marcos jurava que nunca tinha bebido nada melhor e o Fernando homenageou a criação do velho Corrêa Ribeiro no seu excelente romance “Trabalhos e paixões de Benito Prada” (cfr pag 194, in fine, onde o meu querido amigo põe um agente da “prestimosa” a emborcar um cálice da nossa produção). Agora, quando aparece, leva uma das últimas e raras garrafas de porto que me caíram em herança desafia-me para um restaurante francês para matarmos saudades "du pays".

É dele a frase “evacué comme un malpropre” que eu tinha escolhido para um texto desaparecido em combate neste computador que, de quando em quando, me prega partidas infames. No caso por duas vezes que escrevi um post que misteriosamente desandava para o infinito quando o tentava publicar. Só à terceira é que se salvou. À terceira versão, diga-se, diferente da segunda que já nada se assemelhava à primeira excepção feita do assunto. O que se perdeu de literatura “boa, abundante e bem confeccionada” como se dizia na tropa a propósito do rancho que se servia aos pobres taratas que, em boa verdade. Raramente tinham comido melhor e em tal quantidade,

Desta feita, porém, lembrei-me dele – e já lhe enviei cópia, ao cuidado de uma bisneta- por via de um artigo no “Le Monde” datado de 18, sobre a pandemia na Suécia.

Os leitores lembrar-se-ão da estratégia sueca, fortemente atacada, de apenas esboçar uma espécie de resistência passiva ao vírus filho da puta. É verdade que morreu gente (cerca de 6000 pessoas) numa população de 10 milhões de habitantes mas o país nunca parou.

Neste momento, a Suécia averba cerca de 200 novos casos dia (!) tem 130 doentes no hospital (!!) e 13 nos cuidados intensivos (!!!)

Estes números, comparados aos de cá, deixam-me extasiado, tanto mais que as aulas já lá começaram há duas semanas. Costa, cuidadoso, teme 1000 casos dia e os números de hospitalizações cá são três vezes maiores sem falar na percentagem de casos em cuidados intensivos.

Os suecos não deitam foguetes, não se armam ao pingarelho, nem recomendam o seu sistema como exemplo. Mas que estão a aguentar, ai disso não resta a mínima dúvida.

Ora, a que se devem estes números, excepcionais em toda a Europa, e extraordinários quando comparados com os nossos, pais igualmente periférico mas dependente, pobre, com maus hábitos cívicos, menor educação ambiental e social?

Não sou sueco, nunca pretendi sê-lo, provavelmente não gostaria de viver longe do sol, sal e sul mas tenho por mim que convinha perceber melhor como é que esta gente, periférica como nós, insisto, se debate com o mesmo problema e consegue, aparentemente, melhores resultados.

Digo aparentemente porquanto, no que toca ao vírus filho da puta, pouco se sabe e tudo pode, subitamente, acontecer.

E lembrei-me da Suécia, porquê? Porque saiu mais uma reedição de uma obra de Stig Dagerman, um sueco escrevente e anarquista que descobri nos alvores de 60. Desta feita é “Um outono alemão”, reportagem sobre a Alemanha no fim da 2ª guerra, o mesmo é dizer o desastre total. E lembrei-me a este propósito do paralelo, fácil de fazer, com “Alemanha ensanguentada” de Aquilino Ribeiro, um outro olhar compadecido sobre os horrores suportados sempre pelos que menos têm, que menos decidem e mais aguentam. E mais morrem.

Há muito que não propunha uma leitura, redimo-me agora e espero poder vir a dizer qualquer coisa de “ressurreição” (em terras francesas) de Joseph Roth, o autor de “A marcha radetzky” um dos melhores livros do século XX (com tradução portuguesa). Descobriram-se inéditos do austríaco o que merece ser celebrado. A seu tempo, depois de ler, algo se dirá se valer a pena.

Até lá, bom fim de semana...

Na imagem: fotograma de “Mónica e o desejo” de Ingmar Bergman

 

 

 

O prólogo das presidenciais

José Carlos Pereira, 18.09.20

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As eleições presidenciais do início do próximo ano contam já com várias cartas lançadas, muito embora se continue a aguardar pelos trunfos que vão marcar o desfecho do "jogo": a decisão de Marcelo Rebelo de Sousa sobre a sua recandidatura e a deliberação dos órgãos nacionais do PS acerca do envolvimento do partido nas eleições.

Não se esperam, a este propósito, quaisquer surpresas: Marcelo concorrerá ao segundo mandato e o PS, com maior ou menor consenso, decidirá não apoiar formalmente nenhum dos candidatos anunciados, como já sucedeu em 2016. Só não me refiro às decisões que PSD e CDS irão tomar sobre as presidenciais porque é inevitável que venham a conceder o seu apoio a Marcelo Rebelo de Sousa.

O actual presidente terá pela frente uma caminhada sem um adversário que verdadeiramente lhe dispute a vitória, cabendo-lhe enfrentar candidatos que, na sua maioria, procuram preencher e ampliar as respectivas trincheiras partidárias, como sucede com Marisa Matias, João Ferreira e André Ventura.

Já a socialista Ana Gomes tem um perfil diferente e poderá acabar por ser o principal challenger de Marcelo. O seu discurso tonitruante anti-corrupção, e quase anti-sistema, como se pode ver na forma como defende o denunciante Rui Pinto face ao sistema judicial, colhe simpatias populares em largos espectros. Na linha do que fizeram nas anteriores presidenciais Henrique Neto e Paulo de Morais, com quem tem afinidades, Ana Gomes assume um discurso populista, de verbo fácil e setas apontadas aos ditos poderosos e corruptos, pouco se importando em reunir meia dúzia de provas no sentido de incriminar este ou aquele suspeito.

A antiga eurodeputada reunirá apoios de várias frentes: de uma esquerda menos militante nos partidos do sistema, como se vê com a adesão de dirigentes do Livre, das franjas socialistas descontentes com António Costa e apreciadores das suas causas, num espectro que vai de Francisco Assis a Vera Jardim, e dos movimentos que se animam com as campanhas populistas das redes sociais.

As críticas que Ana Gomes lançou ao PS no momento da sua apresentação pública são desprovidas de sentido, já que, no meu entender, não cabia ao PS estar a promover uma candidatura presidencial. Aliás, se nos detivermos apenas nos principais candidatos, vemos que desde 1986 têm sido os candidatos a imporem-se aos partidos e não estes a gerarem candidaturas. Foi assim com Mário Soares, Freitas do Amaral, Jorge Sampaio, Cavaco Silva, Manuel Alegre, Sampaio da Nóvoa e Marcelo Rebelo de Sousa. Candidaturas partidárias neste período apenas houve as de Basílio Horta e Ferreira do Amaral, nas recandidaturas de Soares, em 1991, e de Sampaio, em 2001, que não pretendiam mais do que fixar o eleitorado do centro-direita.

O contexto de grave crise económica e social em que vivemos deve concorrer para que o partido que governa esteja sobretudo focado na acção executiva e na recuperação do país. É um facto que as eleições presidenciais são importantes, nomeadamente numa altura em que vemos crescer o espaço extremista, mas caberá aos candidatos do espaço democrático que se apresentem a eleições conter e desmontar os argumentos vazios daqueles que, por muito barulho que façam, nada têm para acrescentar ao que o país precisa.

estes dias que passam 490

d'oliveira, 18.09.20

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Despedido com justa causa

mcr, 18 de Seembro

 

O sr Costa, o cidadão, não o político, foi enxotado da pícara comissão de honra do sr Vieira sem viso prévio nem toma lá que já bebes. Atirado borda fora daquela nau que não navega em mares especialmente bonançosos.

Vieira, ou alguém por ele, seguramente alguém por ele, percebeu que Costa era um fundo tóxico num momento delicado para “o glorioso”. Já basta o desastre da Grécia!

A notícia caiu como um raio momentos antes de Costa ter um tête a tête com o Presidente da República que já avisara que chamaria a buliçosa intervenção clubista do 1º Ministro à colação.

Não sei se Costa se surpreendeu tanto quanto a sua camarada Jamila, defenestrada pela temível senhora Temido que, neste capitulo de noite de facas longas, já mostrou não ter nada a aprender. Assim aprendesse a ser Ministra da Saúde mas isso é pedir de mais.

A decisão de Vieira foi acompanhada de um texto em que, como de costume, se acusa a comunicação social de todos os malefícios. Há mesmo uma teoria da conspiração monstruosa anti benfiquista em que espero me incluam. Ser anti benfiquista é ainda pior do que ser anti-comunista na versão suicidaria e lacrimosa do PC.

Com Costa vai o resto dos políticos que se apresentavam como garantes das virtudes cívicas, morais, desportivas e administrativas do sr Vieira.

Estaremos perante o início do fim da intervenção política no futebol? Estaremos igualmente a caminhar para o fim da intervenção do futebol na política?

Nada menos seguro. Isto, infelizmente, é apenas um gesto cauteloso de Vieira, ou de quem o assessora, não tanto em relação ao Benfica mas às complicações judiciais   que se preveem.

Ou seja, Vieira tem melhores conselheiros que Costa que averba de uma só penada duas derrotas: a do gesto irreflectido e a da escovadela para fora da comissão. Há ainda uma terceira: o ridículo. E disso Costa não se vai livrar tão depressa.

 

 

au bonheur des dames 417

d'oliveira, 17.09.20

Desconfinar

mcr, 17 de Setembro

 

Não há bela sem senão, eis uma verdade demasiado usada mas sempre recorrente. Eu, que cada vez conheço menos gente ligada ao poder, ainda não tinha tirado a bissectriz à dr.ª Ana Mendes Godinho. Azares da velhice, claro. A minha geração vão desaparecendo a todo o vapor, mais pela lei de bronze da vida mas, actualmente, with a little help do covil. Note-se, a propósito, que se refiro o filho da puta do vírus, não estou de modo algum a associá-lo à senhora ministra. Pero que hay coincidências, las hay. De facto, a propósito do lar de Reguengos, a ilustre senhora perdeu-se num labirinto de declarações todas mais desastradas umas que as outras. Já nem falo do fatal esquecimento de leitura do texto da Ordem dos médicos que S.ª Ex.ª mandou analisar pelos “serviços competentes”!!! Relembro, antes, a cegada das declarações sobre inquéritos que afinal não o eram e que, claro, apontavam para para uma espécie de virgindade cognitiva do Ministério. Tudo correra bem excepção feita às quase duas dezenas de mortos. Ora a boa verdade é que tudo correra mal, a começar pela diluição de responsabilidades entre a Câmara a ARS e a direcção do lar. Não fora o facto da Ordem dos Médicos ter posto a boca no trombone e ainda hoje aqueles mortos não teriam morrido. Ou teriam morrido por acaso, pela idade, pelas maleitas próprias da velhice jamais pela incúria, pelo desleixo, pela impreparação de gente que acha que os velhos são descartáveis. E, de facto quase que o são: a ida para um lar é, muitas vezes, demasiadas vezes, uma entrada num “no man’s land”, numa espécie de pré-morte ou de não vida. As famílias (talvez apenas algumas ou muitas) empandeiram os trastes velhos para o lixo e os antepassados ainda vagamente vivos para os lares. E aguardam a misericórdia de uma morte que tarda. Fazem o luto ainda em vida dos indesejáveis. Pelos vistos o Estado segue este exemplo de amor familiar, finge que tutela os lares, envia esporadicamente umas inspecções que ao cabo de algum tempo, normalmente longo, elaboram um relatório que irá dormir o sono dos justos numa secretária burocrática. Não admira que o inoportuno inquérito levado a cabo pela Ordem dos Médicos tenha sido, além de uma “ilegalidade” (sic) um pontapé no vespeiro. E foi um ver se te avias, Ministros, Misericórdias, Câmara, ARS, todos em coro a enxotar os ainda há pouco heróis da primeira linha, a quem numa cerimónia burlesca é ridícula fora dedicada a final da “champions”. Todavia a dúzia e meia de mortos não se comoveu com estas mostras de virtude ultrajada. Mortos estavam, mortos estão, mas a indignação parece viva depois de estas semanas todas. Setembro está a ser um mês horribilís para Costa & comandita.Aumentam os números de infectados, os surtos em lares já vão em 33, começa a época das aulas e, pior, a da gripe. A economia e o seu principal apoio, o turismo, está como se vê, o Benfica, o tal clube de seis milhões de lusitanos naufraga na Grécia diante de uma “equipa de 2ª divisão” (sic) e diz adeus à Europa, melhor dizendo a umas dezenas de milhões de euros a que uma simples presença daria direito. O virtuoso presidente dessa egrégia e patriótica instituição é alvo de rumores, insinuações, acusações e em breve poderá ter de se sentar no banco dos réus. É neste contexto que surge uma lista com centenas de nomes associados numa patusca “comissão de honra”a favor da reeleição do actual presidente. Se isto não é a cereja em cima do bolo da asneira então não sei o que será. Não vou referir, deixo isso para ocasião mais substanciosa, a pré campanha eleitoral para a Presidência da República. Pelos vistos há claras suspeitas que se vai repetir a caminhada de Branca de Neve e os Sete Anões de há quatro anos. Todavia, vai um reboliço de apoios cada um deles mais surpreendente que o outro. A srª deputada Moreira (PS) jura um amor eterno ao candidato do PCP. Outra deputada do mesmo ajuntamento dá o nome por Marisa, a dr.ª Gomes recebe o voto caloroso e perigoso do fundador do LIVRE, o mesmo que fez incontáveis juras de amor a Joacine que lhe pagou como se sabe. E Marcelo calado. Está num cinema de Lisboa uma reposição de filmes do grande Kurosawa, o autor de “Ran”. Eu lembraria aos entusiasmados cabos eleitorais que vissem este filme e percebessem as razões que levam o grande daimio a não se mexer. Ou dito de outra maneira: a aranha na teia está imóvel à espera que a mosca lhe caia na rede. Depois comê-la-á tranquilamente Percebem ou querem que vos faça um desenho? Este texto, penosamente escrito num I Pad foi quase todo realizado na esplanada. Reato assim uma tradição que os idos de Março interromperam rudemente. Estou a terminá-lo em casa, ao som reconfortante da trovoada e sob a ameaça da chuva benfazeja.

Senhor é mais do que tempo

O verão foi demasiado intenso

Lança a tua sombra sobre os relógios de sol

e por sobre as pradarias desata os teus ventos

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Quem não tem casa não a irá mais construir

Quem está sozinho vai ficá-lo ainda mais

Insone, há de ler, escrever cartas torrenciais

e correr as áleas num inquieto ir e vir

enquanto o vento carrega as folhas outonais

E com este fragmento de Rilke me despeço. Acompanha-me deste um dorido sétimo ano num colégio interno altura em que copiei, um a um, todos os poemas constantes de dois volumes organizados por Paulo Quintela com o título geral de “Rainer Maria Rilke Poemas”.

 

estes dias que passam 489

d'oliveira, 16.09.20

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Uma vitória e uma derrota

mcr, 16 de Setembro

 

 

Estejam descansados os leitores. Não vou falar de futebol, assunto, aliás.de que não percebo patavina. A menos que se trate de futebol na praia, o dos meninos que corriam com cachorros alucinados pela extensa praia da Figueira, ali entre o viso e o “ferro de engomar”. Aí nesse território sagrado da infância feliz e exaltante, o futebol ocorria duas vezes ao dia. De manhã, antes do primeiro mergulho e de tarde antes da “bolacha americana” que era o que se usava nas décadas de 40 e 50. Era o Xico Neves quem organizava as infindáveis partidas que metiam também equipas locais de Buarcos capitaneadas pelo João “Mantana”, aliás João São Marcos que, espero, estará ainda vivo e a gozar de uma merecida reforma depois de muitos anos de desenhador e mestre de trabalhos manuais. O João era colega de escola, protestante, refilão e um admirável amigo.

Fora isso, o futebol para mim é uma solene chatice agora cercada de uma rede de interesses inconfessáveis e mafiosos. E digo mafiosos só por raríssimas vezes ter parado num dos canis onde pululam comentadores encarniçados, aos gritos e impropérios defendendo o indefensável, o clube, as manigâncias, os capos da seita, enfim tudo o que de pior a televisão tem, usa e abusa.

Resolvida esta questão, vamos ao que interessa. E o que interessa são duas quase novidades, um pouco antigas que se ainda não tem barba já ostentam buço viçoso. A primeira é uma triste notícia. A editora Cotovia fecha portas no fim do ano.

Esta editora que, em indo a Lisboa, frequento com prazer, todos os meses fica situada na rua da Trindade, quase a chegar ao largo Trindade Coelho ou da Misericórdia e paredes meias com uma sex shop.

Neste local, existiu durante anos a Livraria Opinião, um baluarte do livre pensamento, das tertúlias estúrdias e bem humoradas, uma loja de livros de três andares onde conheci dezenas de autores (entre todos o Al Berto que lançava um primeiro (ou quase) livro que já deixava adivinhar a sua força, o seu talento e a sua especial língua). Acho que já, por aqui, contei episódios vários ligados a essa assembleia de gente culta e livre e talentosa. A Opinião fechou depois do Hipólito Clemente ter decidido ir fazer outras coisas, entre elas licenciar-se, ganda maluco. Do Hipólito basta dizer como o Luís Pacheco: era um livreiro de mão chia capaz de vender a Belzebu, um inteiro catecismo católico!

Já está do outro lado, como o Assis Pacheco, o outro Pacheco, o Cabeça de Vaca et alia.

Agora é a vez da “Cotovia”. obra de um André Jorge, que também já não frequenta este mundo de merda e covid, fechar a porta. Demasiada boa literatura, uma escolha impecável de títulos, colecções primorosas de poesia e teatro (o Brech, o Ibsen e quantos mais!), uma série de livrinhos que traziam os brasileiros até nós, enfim um regalo. Pelos vistos nenhum dos grandes grupos livreiros tentou adquiri-la. Ou então foram os da Cotovia que não quiseram abastardar a sua herança, sei lá. Mas vai fazer falta, malta. Vai fazer muita falta.

 

A vitória é a doação de todos os arquivos do grande arquitecto Paulo Mendes da Rocha, Pritzker (o nobel dos arquitectos), Leão de Ouro de Veneza, etc., etc.. , à Casa da Arquitectura (Matosinhos). Mendes da Rocha é brasileiro mas tem trabalhos em todo o mundo. Por cá é autor do novo Museu dos Coches e só isso basta para ver quão bom o homem é.

Parece que no Brasil e na faculdade onde ensinou vai um murmúrio grosso e a engrossar de tristeza. Aguentem, amigos brasileiros, vocês tem aí a espantosa Biblioteca Real levada por d João VI e por cá não se ouvem queixas. Por duas ou três razões: porque ninguém sabe: porque ninguém se interessa; porque se entendeu respeitar a vontade desse rei que só vale a pena conhecer porque fugiu, e bem, aos franceses para evitar a triste sorte do colega espanhol que mais não foi do que um capacho de Napoleão. Claro que o, na altura, regente poderia ter mandado resistir às tropas de Junot que entraram no país famintas, doentes, cansadas e facilmente derrotáveis por um par de regimentos de linha portugueses. Não foi assim e Junot instalou-se em Lisboa, apanhou o título de duque de Abrantes que a viúva fartamente usou nas “memórias” que escreveu. Junot , uma vez chegado à capital entregou-se aos prazeres de Cápua, dentre os quais sobressai a notória ligação com a condessa da Ega, justamente conhecida em toda a Lisboa como a “égua do Jinote”. Fora dessas tropelias amorosas, Junot roubou quanto pode, deixou roubar e quando vencido seguiu para França, os ingleses permitiram que levasse um saque imenso de preciosodades incluindo um gigantesco espólio científico organizado pelo dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, o homem da “viajem filosófica” à Amazónia, de onde em dez anos fez chegar a Portugal uma incrível e extraordinária colecção naturalista e iconográfica e etnológica.

Aliás, ARF, português nascido na Baía, licenciado em Coimbra e emérito explorador é sobretudo conhecido e reverenciado no Brasil onde se sucedem as edições da sua “viagem philosóphica”. Aponte-se o nome da editora que graças à Odebrecht, presumível corruptora nos dois continentes, editou, e bem, não só Ferreira mas toda uma série de textos holandeses do tempo da ocupação do norte do Brasil por Mauricio de Nassau: Kapa editora.

Is leitores ter-se-ão apercebido qu o texto como de costume se afastou do seu propósito inicial para acabar nas invasões francesas. Se é verdade que, alguns portugueses se terão sentido órfãos, não menos verdade é que os franceses forem recebidos pelos proto-liberais em salvadores, em enviados da Revolução. Dí à colaboração foi um pequeno passo alegremente dado. Quando o Portugal ultramontano, e sobretudo o Portugl profundo, se ergueu contra os ocupantes, não admira que muitos “pedreiros livres” teham sido perseguidos. Daí até ao caso Gomes Freire de andrade que combateu em nome da França foi só um pequeno passo que Beresford não hesitou em dar. Ou dito de outro modo, na história dos acontecimentos de 1820 nem tudo são rosas. A começar pelo Brasil que os pais do vintismo queriam de novo reduzir a uma mera colónia. A liberdade não estava propriamente prevista para todos. A independência do Brasil, a reacção absolutista, as guerras civis tem um tronco comum e tudo a ver com os anos 20 E até com os primórdios da invasão francesa.

Ou de como a mancebia com a belíssima condessa da Ega não causou especial repulsa patriótica nem fez cair a “honra” do conde cornudo nas sargetas de Lisboa. Não fora o regente e futuro rei que ordenara que se recebesse “bem” os franceses? Não o exigia também a nova ideologia nascida à sombra da Revolução que fizer de Napoleão, 1º Cônsul? Que ele, depois, se tenha coroado Imperador e criado uma série de pequenos reinos para os seus familiares não horrorizou especialmente os franceses, mesmo os mais assanhadamente democratas. Dessa tentativa de criar reis subsiste, intacta, a monarquia sueca ganha pelo geral Bernardotte.

Provavelmente, em boa hora!

 

Na vinheta: Museu dos Coches, projecto de Paulo Mendes da Rocha