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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 693

d'oliveira, 20.05.22

Reescrever o passado ou andar distraída

mcr, 21-5-22

 

 

A revista do Expresso, relativa à ultima semana, traz mais uma vez um artigo sobre a crise de 1962 que, como vai sendo habitual, incorre nos mesmos erros de sempre.

Não negando o facto da crise ter tido o seu epicentro em Lisboa, conviria recordar que houve desde o primeiro dia uma presença significativa de estudantes de Coimbra. É verdade que a policia conseguiu travar uma série de autocarros e reenviar muitos dos que viajavam de  de comboio pelo expediente de mandar parar as composições e retirar todos os estudantes genericamente identificados pela capa e batina.

Entretanto, no primeiro comboio para Lisboa, iam cerca de cem estudantes que, eventualmente desconfiados do que lhes poderia suceder, mudaram já perto de Lisboa para um comboio suburbano que os conduziu até perto de Entrcampos, desembarcando aí e prosseguindo sem impedimento até à Cidade Universitária. Fiz parte desse grupo pelo que recordo perfeitamente o facto. Depois, foi o que se sabe, cargas policiais, esoancamentos, o costume.

A partir da semana que se seguiu, duas Assembleias Magnas proclamaram greves em Coimbra. Foram, é verdade, greves curtas mas provaram inquestionavelmente a solidariedade coimbrã. Aliás, a queima das Fitas foi suspensa e não se realizou, as equipas da Académica jogaram sempre com o sinal de luto académico (no caso um “fumo “ branco sobre o equipamento negro) e a Direcção Geral da AAC foi suspensa pelo Governo e encerrada a Associação.

Contra isso, houve duas ocupações das instalações associativas com forte participação de estudantes. Da segunda vez, a polícia deteve cerca de 250 ocupantes e transferiu para Caxias 44. (mais uma vez fiz parte desse escolhido grupo). A prisão durou para a grande maioria cerca de um mês. Em consequência da agitação estudantil foram expulsos de Coimbra por período variáveis, cerca de 35 estudantes o que representa dado o número diferente de matriculados nas diferentes universidades, um recorde absoluto e relativo.

Durante todo o tempo da crise em Lisboa, mantiveram-se contactos entre as duas Academias. Fiz, com Carlos Bravo, estudante de Geográficas, parte dos “enviados” de Coimbra para recolha e troca de informações e guardo desses dias tumultuosos a melhor das recordações.

Nada tenho contra o trabalho da jornalista mas surpreende-me as falhas de conhecimento de quem a informou. Há mesmo nesse grupo pelo menos uma pessoa, Helena Pato, que depois foi para Coimbra e que seguramente a poderia eludicar.

Tudo isto é História antiga , a maioria dos participantes na greve de 62 rondarão os oitenta anos, no caso de estarem ainda vivos mas isso não é motivo, muito menos razão para elidir da narrativa ma parte que foi, de todo o modo, substancial. Eas expulsões por períodos de um a dois anos das universidades ou apenas da universidade de Coimbra, acrescidas da lista dos presos (quase sempre por tempo claramente superior ao da imensa maioria dos detidos na Cantina Universitária) conferem aos estudantes de Coimbra um papel relevante na agitação académica que começada em 62 se prolongou intermitente ou vigorosa até 69.

Na vinheta: fotografias das minhas primeira e quinta prisões. Onze anos de diferença e mesmo de estatuto. Em 1973 já advogava e, por sinal, defendia uma razoável quantidade de estudantes, desta feita no Porto.

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Au bonheur des dames 497

d'oliveira, 19.05.22

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Faltam-me palavras

Mcr, 19-5.22

 

Parece que o PS “está perplexo” com o anúncio feito pelo Sr. Presidente da República sobre a data da visita do Primeiro Ministro a Zelensky.

Perplexo é uma palavra diplomática neste caso. Eu, pelo menos, estou bem mais que perplexo. E por várias razões. A primeira é esta: a que título o sr Presidente entendeu anunciar a data que, convenhamos, deveria ser algo de sigiloso, dada a natureza da visita e as possíveis ou meramente eventuais consequências do anuncio.

A Ucrânia está sobe intenso ataque russo e, no caso em concreto, um avião ou um míssil podem sempre atingir os dois estadistas que se reúnem.

Não que a presença do dr. António Costa constitua um perigo para Rússia pois Portugal, no cenário europeu é irrelevante militarmente. Todavia, neste tipo de situações e a exemplo do que ocorreu com todas as visitas anteriores ao presidente ucraniano, é de bom tom e claramente prudente, noticiar a posteriori o que ocorreu.

Vai nisto, também a segurança de Costa que irá visitar ainda a Roménia e que pode ser monitorizado desde esse país.

Depois, a que título um presidente de uma república se arma em porta voz do Governo e dos passos que este entende dar? É verdade que o dr. Marcelo Rebelo de Sousa foi jornalista mas é suposto que deixou essa nobre actividade há muitos anos e que a comunicação social actual dispensa o seu precioso concurso ou concorrência.

De resto a notícia em si mesma é irrelevante sobre qualquer ponto de vista. A ida de Costa à Ucrânia é meramente simbólica, implica apenas o Governo de Portugal e não necessita de arauto mesmo de um arauto tão altamente colocado. Há neste frenesi do Sr Presidente da República algo de estranho, mesmo de cómico e seguramente de ridículo.

Sª Ex.ª parece sentir a necessidade de constantemente se pôr em bicos de pés ou, pior, de desvalorizar as acções de outrem anunciando-as com antecipação como se as pretendesse desvalorizar.

Eu percebo que ir a Timor para assistir a uma tomada de posse interesse pouco ou nada a imensa maioria dos portugueses, para já não fala do resto do mundo que seguramente não dará qualquer espécie de relevo a esta viagem presidencial.

Provavelmente nem sequer os cidadãos timorenses se sentirão impressionados com a visita do mandatário português. Um Presidente de República, tirando o cargo altissonante, tem pouca ou nenhuma importância para a relação entre Timor e Portugal. Não decide, não pode prometer, qualquer ajuda substancial ou não. Poderá sempre dizer “duas a abater” mas não é um jogador, quanto muito é um “mirone”. E o mirone, sabe-se desde sempre, pelo menos nos jogos de mesa, “está calado e fornece tabaco”. Ou nem isso...

Porém, a perplexidade do PS não é assim tão natural. Será que não conhecem o homem que ajudaram a eleger para o cargo que hoje ocupa? Não recordam a sua voracidade em estar sempre no olho da fotografia, da notícia, mesmo quando, como antigamente, ele entendia criar o facto político e a  respectiva notícia?

Eu, pecador me confesso, não faço, não fiz e duvido de que alguma vez o faça, parto dos eleitores e admiradores do actual inquilino do palácio cor de rosa.

Não lhe nego a inteligência, a capacidade de trabalho ou a loquacidade comunicativa, bem pelo contrário. Mas, mesmo partilhando o mesmo nome (no meu caso já herdado de meu pai por vontade de uma avó demasiado culta para o seu tempo que versejava em várias línguas e lia Espronceda e Vitor Hugo) nunca senti o apelo da simpatia política e, menos ainda, ideológica.

E, como bom leitor do “Expresso” desde o primeiríssimo número, recordo o ataque gratuito a Balsemão a quem Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto jovem falcão jornalista, chamou em momento absolutamente desisnspirado “lélé da cuca”.

Não irei tão longe (eu respeito as instituições republicanas e não uso esses processos e menos ainda esse género de expressões) mas não condenarei quem aproveite a boleia e o brinde da mesma maneira.

Apenas lembraria em latim, que é mais curial entre juristas que usam o nome do famoso sobrinho:

Est modus in rebus.

(para bom entendedor...)

na vinheta: tu Marcellus eris, pintura de Ingres onde se vê Virgílio lendo o seu poema diante de Augusto, sua irmã Octávia e Lívia e celebrando o malogrado jovem que era uma das grandes esperanças do Império e presumível sucessor do imperador.(para os mais curiosos cfr “Eneida”, VI, 863)

 

 

estes dias que passam 692

d'oliveira, 18.05.22

Na esplanada, desafiando a chuva, ao calor da solidariedade

mcr, 18-5-22

 

 

A CG lá se vai batendo bravamente contra o vírus e, agora, como a infecção está instalada, deixou de usar a máscara. Como se quisesse meter-me também ao barulho!...

Todavia, vê-se que as vacinas algum efeito (e não pequeno) tiveram. A coisa, tirando umas dores de garganta, alguma rouquidão inicial, tem sido relativamente benigna. Esperamos que até domingo tudo se desvaneça e não passe de um momento desagradável que passou.

No meio disto tudo, há uma certa ironia: a CG fechou-se a sete chaves, usou e abusou da máscara e da restante parafernália anti covid. Só não resistiu a uma longa conversa com a nossa empregada que, coitada, aterá apanhado o raio do bicharoco entre um transporte colectivo e uma sessão de fisioterapia.

Eu, felizmente, estava longe, em Lisboa a cirandar pelos alfarrabistas e a expor-me perigosamente nas esplanadas do Chiado cheias como um ovo de turistas que em manadas compactas fazem a via crucis das maravilhas lisboetas pastoreados por guias que os esperam em filas cerradas na praça de Camões.

A nossa casa parece a Ucrânia dividida: o único ponto de encontro é a mesa do almoço e mesmo aí estamos a mais de 2,5 m de distância. Acomodei-me no quarto de hóspedes, não ponho os pés (nem o  resto do cadáver) no escritório principal e voltei à esplanada para escrevinhar estas balivérnias. E vou aos restaurantes aqui do bairro pelo almocinho, coisa que, aliás, já íamos fazendo amiúde.

A pandemia, no nosso caso, alterou hábitos. Agora, há um excelente peixeiro que nos traz o peixe a casa,  a fruta e boa parte dos legumes vem de uma mercearia que também faz entregas a domicílio, a  roupa é passada fora  também com entrega em casa, e quando a empegada não está encomendamos o almoço.

É que a excelente empregada que temos só tem (com grande pena minha) dois dias para nós pelo que, e para poupar a fada do lar, houve que reorganizar quase tudo. De resto eu fui sempre o moço de recados para compras  em supermercado o que nem sequer significou mudança na minha rotina diária.

A CG garante que não só não gastamos mais mas que até poupamos dinheiro.  Pode ser e, de todo o modo, não será o filho de meu pai, que irá verificar com minúcia as contas. Limito-me, preguiçosamente, a acreditar.

 

O covid que atormenta a casa obrigou-me (gostosamente...) a refugiar-me na esplanada para escrever o  folhetim, coisa que faço sem problemas e até com satisfação pois sempre posso exceder-me na dose de cafés que tomo.

E é, justamente, por via do covid, que escrevo esta crónica. De facto, o blog, este blog, completa amanhã 18 anos o que, neste caso, significa pelo menos uma honrada velhice. Tnha sido combinado um jantarinho festivo mas se os bloggers põem o vírus dispõe e eu tive de comunicar, pesaroso, que não poderia ir para não infectar  (eventualmente..., diga-se) a restante companhia. Solidários e generosos os meus colegas de redacção adiaram por oito dias a festividade para que eu possa também comparecer. E vê-los pois durante esta época pandémica os festejos não se realizaram.

É  hora de, publicamente, lhes agradecer o gesto e as boas palavras com que mimaram a minha doentinha.

E de nos espantarmos com esta provecta id

ade: dezoito anos já? 

E de lembrar todos quantos por cá passaram e, muito especialmente, um fundador que já não está entre nós:  Joaquim Coutinho Ribeiro, o Carteiro, boa praça, fino conversador e excelente camarada.

*na vinheta: o Carteiro, nosso amigo. 

 

O Incursões faz 18 anos!

José Carlos Pereira, 18.05.22

O Incursões completa hoje 18 anos de vida, sendo a ocasião apropriada para evocar os colaboradores que contribuíram com os seus textos e reflexões desde 2004 e para agradecer a todos os nossos leitores, que totalizaram perto de 35.000 visualizações do blogue no último ano.

 

A título de recordação, fica aqui a primeira publicação do Incursões, efectuada por l.c., e que consistiu no belo poema "O Outro Nome da Terra", de Eugénio de Andrade:

"O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul."

estes dias que passam 691

d'oliveira, 17.05.22

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Nem de fato e gravata...

mcr, 17-5-22

 

 

dedico alguma atenção a uma boa dúzia de políticos de todos os partidos (é bom dizê-lo, não vá alguém acusa-me de parcialidade) mas a lista vai encolhendo e alargando segundo o que vou vendo deles. Um desses cavalheiros foi durante algum tempo o sr Bernardino Soares. Não que eu visse nele um geterodoxo, um eventual dissidente, um crítico. Naa disso. Parecia, contudo, um rapaz inteligente , capaz de pensar pela sua própria cabecinha e tinha uma característica que o tornava frequentável: era parco, muito parco, no uso da “cassete”, da “langue de bois”  a que fomos ao longo de dezenas de anos habituados.  Havia alguma frescura nos seus pronunciamentos mesmo se, nunca tivesse notado nele, qualquer fuga ao cânone.

Depois, perdi-o de vista pois ele andava embrenhado na gestão autárquicae, francamente, o que ele pensava da sua autarquia entrava a cem mas saía a duzentos.

As agruras do PC  caíram em cima dele pois perdeu as eleições. Havia quem merecesse mais essa marga sorte mas o povo équem mais ordena e o povo que o elegera mandou-o dar uma volta ao bilhar grande depois.

Ontem, de raspão, num zapping incompleto apanhei-o a discutir com uma senhora de que nada sei. Apanhei-o já no fim, e concluindo uma argumentação qualquer sobre a Ucrânia.

Já disse que me escapou quase todo o diálogo travado mas o que ouvi chegou.

Bernardino entendia que só havia um caminho para pôr fim à guerra: negociações.

Se apenas tivesse dito isto, não haveria quem saltasse para a arena para o contradizer. Porém, insistir em “negociações” enquanto os misseis vão sistematicamente partindo, de longe, muito longe, e rebentando as mais das vezes alvo puramente civis (são misseis velhos, pouco precisos, parece que já gastaram a maior parte dos mais recentes e agora andam a rapar o fundo do tacho). Ontem os que acertaram em Odessa e Nicolaiev não fizeram mais que destruir um par de instalações turísticas, errar uma ponte, e alcançar o martirizado centro da  2ª cidade citada- quatro ou cinco vítimas a juntar às anteriores.

E o mesmo terá acontecido em outras zonas  onde os combates são mais acesos.

É verdade que, entretanto, alguma negociação terá havido pois terão saído da fabrica de Azov  umas dezenas de feridos e, parece, mais outros tantos soldados. Uns, os últimos terão sido levados para uma cidade controlada pelas tropas russas e outros para outra cidade de onde eventualmente serão transferidos para território em posse do exército ucraniano.

(quem me lê terá reparado noemprego de uma forma verbal que não passa de um futuro indeciso mas a confirmação tê-la-ei lá mais para a noite nos vários noticiários que sigo).

Esta eventual negociação diz respeito a uma troca desigual 300 prisioneiros russos por duzentos ucranianos um quarto dos quais em mau estado. Todavia, se a Ucrânis concordou com isso, só a aplaudo.  Demonstra que se preocupa pelos seus soldados e isso, mesmo em guerra, é um precioso elemento de avaliação do modo de estar no mundo.

No entanto, esta negociação, muito precisa e isolada, fortemente pressionada pela ONU, pela Cruz Vermelha, pela Turquia e pela opinião pública internacional, não parou a guerra apenas suspendeu algum combate na rota de saída dos ucranianos.

Uma negociação como o se soares desejaria, se é que, de facto a deseja, implica uma suspensão mesmo temporária de combates e para prosseguir a promessa de abandono de territórios esbulhados pela violência ao agredido.

Eu já nem falo da parcela “auto-libertada” do leste ou da península da Crimeia. Isso, que já vem de 2014 poderia ficar para segundas núpcias. Porém o resto que já não é assim tão pouco e que na generalidade bordeja o mar negro desde Mariupol até ao distrito de Kersten,  teria de ser evacuado, tanto mais que se sabe que mesmo ocupados esses territórios se verificam manifestações contra o ocupante.

Exigir a paz e negociações sem suspender as hostilidades, sem um qualquer gesto que apazigúe o invadido será muito lógico para o senhor soares mas não entra na cabeça de ninguém de bom senso.  Note-se que eu não disse parar ou acabar as hostilidades mas apenas suspendê-las claramente. Fazer algo que tenda para um armistício mesmo incompleto.

Tudo o resto é música celestial e apenas pretende validar um acto imoral, contrário ao direito internacional. Ora esta pequena parte ficou no tinteiro das boas intenções de Bernardino soares e contradiz o seu surpreendente fato e gravata algo tão burguês que até parece uma fantasia de carnaval.

Dirão que BS foi pelo menos mais longe, já que admite negociações que os ucranianos estão fartos de solicitar e que só o patético sr Lavrov jura que que nunca foram solicitadas ou, pelo menos propostas.

Agora, tratar o tema das zonas ocupadas como um facto consumado e partir daí para conversas ao som das bombas é que parece um exagero. Como exagero será não dizer com clareza que  há um estado de guerra, uma invasão, uma tentativa de destruição de todo o tipo de estruturas de um território que, aliás, tem o apoio de uma coisa fantasmática chamada partido comunista de federação russa que consegue ser mais papista que o papa Putin.

Com fatinho à “pipi da tabela”, gravata (de gosto duvidoso, mas gravata, quando-même!) e mais gordo , brm mais gordo, BS ainda deixou uma nota sobre a NATO que teria logo à nascença o pecado de branquear a ditadura portuguesa. Tem razão mas conviria, já agora, lembrar o mesmo cavalheiro que o pacto germano soviético permitiu a agressão alemã à Europa Ocidental, que a partilha da Poónia foi uma infâmia, que o massacre de Katyn, um crime medonho e que as dversas intervenções do Pacto de Varsóvia, nomeadamente na Hungria e na Checoslováquia,  um claro exemplo de como essa organização ultrapassou sempre a actuação da NATO

(e nem falo da guerra feita à Finlândia  com ocupação definitiva de território ou da ocupação dos pequenos estados bálticos graças a um entendimento (sempre) com  a Alemanha nazi. )

É curioso como os mais jovens membros da “nomenclatura”

 comunista portuguesa se esquecem de uma História que nem cem anos tem. Coitados ainda não tinham nascido, pelo que o holospodor ucraniano, os processos de Moscovo, as medonhas purgas de Stalin, o terrorismo intelectual de Jdanov, os crimes de Beria, o gulag nunca existiram para estas ingénuas e inocentes alminhas!   Nem a guerra do Afeganistão onde aliás se verificou que o Exército Vermelho erajá um gigante com pés de barro. Mas isso também não lembra aos que mantem a teoria que estamos perante uma operação armada especial e, de modo algum, de uma guerra de invasão. É obra!

* na vinheta: Nikilas Bukarin, “o filho querido do partido” (Lenin) uma das vítimas dos processos de Moscovo.

au bonheur des dames 496

d'oliveira, 16.05.22

 

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Um presente do passado tão presente

mcr, 16-5-22

 

acabo de regressar a casa depois de 2 horas que correram velozes, mais depressa do que alguma vez terão corrido.

A culpa desta insólita aceleração do tempo cabe por inteiro a três mulheres a quem me ligam fortíssimos laços de amizade, de ternura, de cumplicidade. 

Subitamente, enquanto conversávamos, assaltavam-me memórias fragmentadas de há mais de cinquenta anos, a bem dizer quase sessenta para ser mais verdadeiro.

Com elas partilhei muito, esperanças, certezas, dúvidas gargalhadas e desgostos. E amigos também, nem todos vivos, nem todos bem mas sempre gente a que confiaria a minha pobre e já longa vida.

É que, nestas celebrações (e o que é um encontro de amigos senão uma celebração?) amontoam-se passado e presente, este visto à dupla luz do que alguma vez sucedeu e do que os nossos olhos actuais mas cansados recordam com maior nitidez.

E, como não podia deixar de ser, atravessa-se, pungente e cruel a sombra da morte. Quando se avança na idade, a morte vai cercando os sobreviventes, carrega-nos de cicatrizes mesmo se, de algum modo, a força da vida manter quem recorda. Há, contudo, alguma urgência nesse exercício, nessa “revisão da matéria dada”, que isto é como o rio do filósofo: nunca mais nos banharemos nas mesmas águas em que mergulhámos.

Não vou dizer, oh estultícia!, que subitamente regressei aos meus vinte anos. Todavia, a ternura, a alegria do reencontro, um indizível conforto, esses estão todos lá.

Também estão as rugas, os sinais claros da idade que não apagam os traços juvenis dos jovens que fomos, antes se sobrepõem de tal modo que, em certos momentos, não temos a inteira certeza do momento em que estamos a viver.

Ganhei o dia, a semana, o mês. Mesmo se ao ver um par de fotografias tivesse de lamentar a falta da minha lupa para reconhecer-me e reconhecer outros que estes olhos já não são o que foram.

A CG diz-me que estou com um sorriso vago mesmo se a máscara (ele está de covid aceso...) me oculte meia cara. Porventura são os olhos de que me queixo que, apesar de tudo, sorriem embevecidos.

Ou então é ela, que já leva quase três décadas a aturar-me, que me tira a bissectriz: as mulheres sabem coisas que qualquer homem nunca alcançará, acocorado a sua fanfarronice e na sua incapacidade de ver, antever, o mundo que o cerca.

O passado, o meu, pelo menos trouxe-me imprevistamente um presente que adoça, ilumina, este presente que vai escorrendo.

Oh que belo dia!

 

 What a beautiful day (hey hey)
I'm the king of all time
And nothing is impossible
In my all powerful mind

 

( eu terminei o texto com uma canção bem mais recente do que uma antiga banda rock, dos idos de 60 cantava. O grupo chamava-se “It´s a beautiful day” e obviamente não é o autor da canção “what a beautiful day” que já é deste século. Porém, sei lá que razões, associo-as sempre. Como se vê, o passado e o presente (enfim um presente também já com um par de anos, teimam em misturar-se. Com esta idade também já vou tendo direito a associações inesperadas) E a vinheta além de uma homenagem ao grupo é um vero retrato daquele nosso tempo. 

 

 

au bonheur des dames 495

d'oliveira, 15.05.22

A inútil precaução”

mcr, 15-5-22

 

 

Permitam-me os raros mas heroicos leitores cuja indulgência é extraordinária para com este escriba que roube ao “Barbeiro de Sevilha”, o segundo título, justamente “a inútil precaução” que aliás  será referida por Rosina quando o conde Almaviva aparece travestido de professor de música.

No caso em concreto a inútil precaução ganha todo o seu significado. ora vejamos: a CG levou sempre muito a sério a pandemia. encerrou-se em casa e nas raríssimas ocasiões em que saía nunca largava a máscara. Até no carro sozinha comigo ela enfiava a máscara. E assim continuou até hoje. Ora na quinta feia passada, enquanto eu estava em Lisboa eis que a nossa excelente empregada apareceu queixando-se de fores, mal estar, enfim algo que parecia uma gripe e como tal foi tomada por ambas. Não era gripe mas um raio de um covid 6ª vaga com que a pobre senhora se cruzou no consultório onde fazia um qualquer tratamento. Deu boleia ao bicho mau que, mal viu a CG,  entrou a matar (enfim a chatear). Na sexta feira já ela me telefonava a informar-me que fizer o teste caseiro e que este dera positivo. 

Só regressei hoje, domingo, e deparou-se-me uma madona dolorida amparada pelas duas gatas mas, vá lá, com apetite para um rosbife. 

Felizmente, a casa é grande pelo que me transladei o cadáver para outro quarto e tenho-me mantido afastado (e mascarado) da doentinha. Temos, ao que parece até quinta ou sexta feira pois afigura-se que o ataque insidioso do vírus maléfico terá terminado por essa altura com, espera, vitória clara da resistente CG que entretanto me jurou que passara uma noite horrível. 

Apiedei-me dela mas pouco ou nada posso fazer  exceptuando os recados, o ir buscar almoço, tratar das coisas até a empregada poder regressar. E esperar, com alguma ansiedade, sair incólume desta emergência.  Convenhamos que ando a tentar passar por entre os pingos da chuva mas, que diabo, tenho uma fezada que ao  vírus  não lhe apeteça esta carcaça  antiga e desinteressante. 

Mesmo vacinado (e à espera da quarta dose que chega daqui a dias e já me apanha pronto para mais uma picadela) não me alegra a hipótese de também eu ser pasto do maldito bicho mau. E julgo que neste caso não devo sentir-me solidário com os contagiados e pronto a sacrificar-me. Passo bem sem o vírus e, com sorte, ele passará bem sem mim. 

Mas que isto, o ataque à cara metade, mulher prudentíssima e que usou de todas as defesas possíveis para não ser infectada, parece mesmo enquadrar-se numa “inútil precaução” não me restam dúvidas. 

Com sorte, (como no finale dessa belíssima ópera do genial Rossini) poderemos daqui a uma semana cantar

 

Amore e fede etera

Si vegga in voi regnar

 

E já que estamos com a mão na massa rossiniana aqui me despeço

Pace e gioia sia con voi

 

 

 

 

estes dias que passam 690

d'oliveira, 14.05.22

Mikahilstahl

mcr, 14-5-22

 

Não, não é uma ruina fabril no meio de um território devastado mas tão só um jornalista em fim de percurso, reformado, envelhecido, rabugento, zangado por não lhe reconhecerem o talento literário e perseguindo o sonho impossível de suplantar a memória do pai, um homem de coragem, um lutador infatigável num tempo em que simplesmente discordar já era um atrevimento inaudito. Recordarei sempre a sua imagem a discursar no Largo do Carmo quando tudo ainda era duvidoso. 

Miguel Sousa Tavares já ão viveu esse tempo, chegou tarde, a hora dos heróis romanescos já passara.

Com o passar dos anos o ego foi-se-lhe crescendo na inversa proporção do seu discernimento político. O mundo não girava exactamente como o jornalista queria, os costumes pátrios  já não admitem a bondade das touradas, a ousadia da caça e,  apesar de continuar dentro da mesma inteira página do Expresso, a sua opinião e as suas proclamações ja deixam indiferentes os leitores. MST é lido ainda mais como um abencerragem (é a palavra justa...) saudoso de um Portugal vagamente marialva que também já viu melhores dias. 

 Por outro lado, do lado materno, MST também vem de uma mulher a vários títulos excepcional. Não apenas como poeta mas também como resistente á ditadura (e mais uma vez não posso esquecer a sua participação na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos de quem sou, fui, devedor grato).

De certo modo, compreende-se o drama do filho mais velho de um casal excepcional. Nem todos se conformam com um percurso normal com os seus altos e baixos, num país normalizado sem necessidade (pelo menos aparente) de heróis e sem vilões medonhos. 

Ficou-se pelo jornalismo onde ninguém lhe nega alguma competência  esmo se tintada de insolência atrevida e de excesso opinativo  que, segundo alguns lhe toldava o necessário espírito crítico.  

Nos últimos anos,  o peso da idade (fatal em quem se toma por importante) revelou-se em todo o seu esplendor. Um par de idiossincrasias que passariam por originalidade há anos e enquanto jovem, tornam-se mais evidentes e menos densáveis nestes tempos em que o politicamente correcto enforma a vida pública.  MST foi-se promovendo a “velho do Restelo” com toda a carga que a sua intemperada arrogância de muitos anos, a sua truculência jornalístico-opinativa merecem. 

A guerra na Ucrânia tem-lhe sido fatal a mais de um titulo. Também ele, alinhou na frente dos combatentes contra o pensamento único, provavelmente mais por tentar mostrar-se “au dessus de la melée” do que por qualquer russofilia ou ucranofobia. Apesar de tudo ninguém confunde o ex-azougado jornalista com a senhora da última página do Publico ou os camaradas dos sr Jerónimo de Sousa.

MST começou por se afirmar como adepto da paz, coisa que o não distingue de 95% dos restantes portugueses. Todavia, já nessa defesa a outrance da paz, parece ter esquecido algo: o agredido (e ele diz sem peias que é a Ucrania) por muito que queira a paz não tem outro remédio senão o de se defender pela guerra da guerra que lhe é feita. 

Depois, um país tem direito à sua integridade territorial e foi isso, desde 2014 que sempre esteve em causa. Qualquer pessoa sabe que a auto-proclamada secessão dos dois territórios russófonos do leste, disfarçada de insurreição popular só se manteve graças ao apoio de tropas russas. E mesmo assim, mais de metade desses territórios resistiram a essa primeira guerra larvar e que uma boa parte dos cidadãs que tem o russo como primeira língua entenderam conservar-se ucranianos. Só isso justifica estes longos oito anos de hostilidades.

Já o caso da Crimeia é diferente: aí foi o exército russo a tomar a iniciativa a partir da base de Sebastopol e de forças navais que desembarcaram na região onde, de resto, haveria uma população – ou parte dela – pró-russa. 

Aliás, o conflito, pelo menos a sua fase mais acesa, limitou-se ao leste e mesmo assim com limitações: os ucranianos esforçaram-se por conter a “rebelião” mas com o cuidado de não levar a cabo operações que suscitassem mais e maior intervenção russa. 

Por isso a “operação especial” foi, de algum modo, uma surpresa (mesmo se os americanos desde sempre a dessem por certa e próxima).

Querer nestas circunstâncias que se entabulassem conversações de paz que, à cabeça implicasse perda de territórios já parecia algo de inconcebível. A brutalidade do ataque, a progressão de tropas russas no sul até à zona próxima de Mikolaiev (o que além do mais indiciava um próximo ataque a Odessa e, eventualmente uma marcha até à Moldávia) não são de modo algum argumentos propiciadores a qualquer acordo de paz, sequer a um armistício que, aliás, e a crer nas palavras de Putin e do governo russo, sempre foram excluídas.

As únicas condições conhecidas (perda dos territórios, impossibilidade de adesão à NATO, renúncia à entrada na UE, “desnazificação”, duvidosa neutralidade, desarmamento quase completo, enfim um ultimato em boa e devida forma) eram inaceitáveis para qualquer pessoa excepto, ao que parece, Miguel sousa Tavares aposto da paz e da harmonia entre o cântaro de  ferro e o cântaro de barro. 

Mas ele, qual vox clamantis in deserto, insistiu nessa tecla sem explicar como isso seria útil para uma Ucrânia retalhada e para a sua população cuja tenacidade em defender-se diz muito. 

Agora, na última edição do Expresso, para comemorar a falta de avanço russo, as pequenas reconquistas ucranianas, eis que entendeu glosar o discurso de Putin na Praça Vermelha e o que ele apelidou de parada de Zelenski sozinho numa avenida de Kiev.

E bolsa um par de imbecilidades sobre Zelenski a esse propósito mas não só. Mais uma vez, só contra o mundo todo o u quase. Um herói! O al dacoisa está em que o artigo confunde planos, realidades e afirma que o mundo inteiro mente ou pelo menos sonega boa parte da verdade. Assim, as reportagens são todas pró ucranianas não se consegue ver nada do lado russo, como se os jornalistas ocidentais conseguissem acompanhar de perto as tropas de Putin. Parece esquecer-se que, mesmo nos raros momentos em que aparecem russos, isso é apenas em cenários cuidadosos inócuos, como se a guerra real não fosse mais do que uma inocente operaçãoo especial sem grande aparato. MST “está farto” de ver cidades, bairros inteiros arruinados, fossas onde estão corpos de civis (testemunhados por toda a gente a começar pela Aministia Internacional e pelos enviados da ONU, quase como se dissesse que é tudo uma cambada de mentirosos, de patetas, de inocentes úteis ao serviço de cavilosos interesses da NATO (que vende armas!). Provavelmente, não reparou na gigantesca vaga de refugiados, no que eles dizem, nas imagens de não poucos cidadãos russos contestatários que se sujeitam a penas de 15 anos de prisão por se manifestar ou simplesmente por usarem um léxico proibido pelas autoridades em decretos publicados pelo poder russo. 

A idade não ajuda mas neste caso há que dizer que MST não aprendeu nada e já esqueceu muito. Continuará, até que a voz lhe doa, a afirmar que armar quem se defende e está em clara inferioridade numérica e de armamento, é um crie lesa paz .

Não é possível imaginar MST em Munique, durante a triste comédia de um acordo em que Hitler toureou um tonto e presunçoso Chamberlain. Nem noutras alturas da mesma época em que havia a ideia peregrina de consentir todas as tropelias que ocorressem ao trêfego Adolfo desde que isso o aplacasse. 

E o resultado viu-se.

(não valerá a pena recordar que na mesma trapaça caiu Stalin que celebrou um pacto infame com os nazis que permitiu a estes invadir tranquilamente Polónia – partilhada com a URSS - e o Ocidente. E fornecer durante dois inteiros anos de guerra uma quantidade gigantesca de bens de toda a ordem à Alemanha. O último comboio com um carregamento soviético cruzou-se com a vanguarda das tropas invasoras alemãs! Também, por essa época havia quem dissesse que a causa da paz estava a ser defendida e que os belicistas ocidentais tinham fortes responsabilidades na guerra.

 

Não quero com o que vem de ser escrito defender que MST seja defenestrado da sua coluna semanal. Até convém que ele continue pois à medida que o tempo passa e já lá vão mais de 70 dias a sua prosápia vagamente pacifista vai-se mostrando cada vez menos neutral e menos independente e não se vislumbrando na sua  cruzada contra o famoso pensamento único um argumento que sirva mesmo quando refere (que os há) alguns ultra-defensores da Ucrânia que também fazem tábua rasa do bom senso e da verdade factual. 

É por isso que entendi que MST merece também ele, o seu reduto inexpugnável  que o título do folhetim indicia. De modo algum o comparo, logo ele um civil (mesmo caçador e amador de touradas) que usa a caneta como arma com os “desperados” da aciaria de Mariupol.

 

 

 

 

 

 

estes dias que passam 689

d'oliveira, 13.05.22

 A notícia e as interrogações

mcr, 12 de Maio de 2022

 

 O ex-banqueiro fugitivo e aprisionado na África do Sul terá sido encontrado morto na sua cela. A notícia é sucinta, não adianta pormenores de qualquer espécie mas o facto de ter sido “encontrado morto na sua cela” parece afastar qualquer acção crapulosa e permite pensar que  morte terá tido causas naturais. 

Sabe-se que os advogados ul africanos do finado tinham pedido a sua libertação sob caução (uma caução baixíssima, pouco mais de 2.000 euros para quem estava condenado pelo desvio de muitos milhões e possuiria, à data da sua prisão mais de dez cartões de crédito emitidos por outras tantas instituições bancárias. 

E é bom recordar que JR foi detido num luxuoso hotel  de Durban, após ter estadeado em outros hotéis de igual gabarito por toda a África do Sul.  

Apenas refiro isto para afirmar que a proposta de caução (a ser verdade) era claramente delirante. 

Com a morte do fugitivo lá se võ os processos e, sobretudo, desaparece o dinheiro desviado ou, pelo menos, torna-se ainda mais difícil encontrar-lhe o rasto. Como de costume será o pagode a pagar a factura de mais esta aventura bancária portuguesa. 

 

 

Se somarmos esta  notícia a uma outra, também recente e envolvendo outro cavalheiro dado a aventuras igualmente desastrosas para os cofres nacionais, o sr Berardo, temos que o termo delírio acima proposto assume outra e mais vertiginosa proporção. Com efeito parece que esta criatura entendeu agora acionar quatro bancos, pedindo 900 milhões euros por alegadamente ter sido enganado pelos demandados que teriam ocultado a fragilidade dos seus recursos ao desvalido colecionador de arte!!!

Ou, por outras palavras, os investimentos deste verificaram-se ruinosos por as acções dos bancos não terem o valor em bolsa que eles anunciavam. 

Não vale a pena pronunciarmo-nos sobre a questão. De resto, representantes de alguns dos bancos em causa entenderam não discutir a questão num programa de televisão limitando-se a afirmar em tom ligeiramente enfastiado que aguardavam o desenrolar do processo caso a queixa fosse para a frente. 

Eu nunca ponho a mão no fogo, sequer em água morna, por qualquer banco, mas maravilho-me com esta eventual acção De Berardo versus Banca.  Se estivéssemos no Carnaval ou eventualmente no pino do Verão eu pensaria que isto era uma notícia apropriada a tais épocas. Todavia, estamos em Maio e, apesar do calor  (que está de “estorricar os untos” se me é permitido citar Eça) ainda não é época azada para a silly season, mesmo bancária. 

De todo o modo estas novidades afastam-nos do dia a dia violento da guerra que, mesmo assim, assume protagonismo graças a uma entrevista a duas páginas do casal russo Kashin, esses admiráveis – e bem pagos pelos cofres camarários e nacionais- abnegados beneméritos dos ucranianos em fuga por via, exactamente, da invasão russa. Um must! Só isso dá direito a comprar o “Público” pois permite uma leitura jocosa, substancial e reveladora do que se passa na pátria valente e imortal dos heróis do mar. 

E já que estamos com a mão na massa, perdão, no “Público” vale a pena ler uma reportagem de quase duas páginas sobre o processo de naturalização do sr Abramovitch, que a comunidade israelita do Porto  considerava de excepcional interesse nacional. Vale a pena ver como um processo moroso se transformou, no caso em apreço, numa maratona velocíssima em que todos os serviços públicos se mostraram de uma inusitada rapidez numa clara afirmação de patriótico  zelo em prol de uma individualidade que, por exemplo, não conseguira sequer um visto de residência na Suíça esse paraíso das grandes fortunas. As autoridades helvéticas devem ser as mais estúpidas da Terra ou do sistema solar , quiçá da Via Láctea!...

Assim correm os dias que passam...

au bonheur des dames 494

d'oliveira, 12.05.22

O cumpridor e promessas

mcr, 12 de Maio de 2022

 

escrevi aqui que se da Azofstal (Mariupol) saíssem os civis graças ao tardio esforço do sr. engenheiro Gutterres, o acompanharia a Fátima. 

Eu não acreditava que a coisa tivesse êxito mas na verdade saíram quase quinhentas pessoas mesmo se haja notícias de outro tanto que lá ficou (doentes, feridos quase todos homens, eventualmente soldados também feridos). De todo o modo, como há muito deixei de ser radical, entendi que a promessa deveria ser meio cumprida, mesmo sem a beatíssima companhia do Secretário Geral da ONU. 

Aproveitei o facto de ter de vir para Lisboa para ver a mater augusta que vai briosamente nos seus cem anos e fiz um desvio até  Fátima. Dispensei-me de entrar no santuário que nesta época está que ferve de peregrinos e dei por cumprida a minha promessa. E regressei logo que pude à A17 para continuar a fazer uma viagem razoavelmente solitária.

Verifiquei, assim que entrei em estradas normais que eram muitos os peregrinos, a guarda republicana a avisar os automobilistas e os grupos de voluntários que ajudam as pessoas que vem de longada e de longe a pé- Até vi uns peregrinos com uma bandeira ucraniana!...

Cumprido o meu dever, laico e automobilístico, desacompanhado de Guterres , entendi trazer (ou voltar a trazer) uma crónica com trinta e muitos anos sobre uma promessa de ida a Fátima que se gorou pelas razões que no texto se expõem. 

Aqui vai:

 

 

Figueira-Fátima só ida

Se os meus parcos leitores  permitem tenho uma confissão a fazer: não sou nem nunca fui pessoa dada aos mistérios da fé. Aquilo passa-me ao lado como se fosse água pelas penas de um pato. E não é que não me tenha esforçado: foi há quase meio século que num verão mimoso desfilei com outros meninos e meninas na procissão dos primeiro-comungantes. Há disso uma fotografia delida pelo tempo: eu e o meu irmão, de casaco e calção cinzentos, fitinha larga e benzida num dos braços e mãos juntas atadas por um terço.

 

Lembro-me  que, nesse dia inesquecível, lavado de todos os pecados, o meu maior desejo era pertencer `a "Cruzada Eucarística" cujos elementos abriam a procissão ostentando a tiracolo uma banda branca com uma cruz azul. O quadro ficará mais completo ( e ligeiramente menos inocente) se acrescentar que nesse grupo se incluía uma menina de loiros e longos cabelos anelados...

 

Todavia nunca cheguei a ingressar nessa piedosa agremiação. Havia muitas missas e novenas a cumprir que os caminhos do Senhor não são pera doce. Tanto mais que, durante o longo período de catequese me fartara de faltar às aulas de doutrina, salvando-me de denúncia da catequista apenas porque com a memória forte da infância decorava e papagueava, sem erros, orações, mistérios, listas dos pecados capitais, das virtudes teologais, hinos sagrados incluindo, oh maravilha!, o inteiro  "tantum ergo sacramentum..." e a Salvé Rainha, toda em latim de igreja (bem melhor e mais bonito do que esse arremedo que ora se usa sob o nome de pronúncia restaurada).

 

Depois as missas eram insuportavelmente longas, sobretudo a das onze, a melhor e a de mais escolhida freguesia. Com o meu irmão e um comum amigo de nome Bartolomeu, fintávamos as famílias e metíamo-nos no museu a ver armaduras japonesas, cacos romanos e outros objectos fascinantes, enquanto na igreja cheia o monsenhor Palrinhas dava início a uma longa cabotagem de ladaínhas, sermão, cânticos enfim o que se chama uma missa bem medida. Normalmente chegávamos quase no "ite.." para saber, não fosse alguém perguntar, qual a cor dos paramentos. Depois sorrateiramente seguíamos os cardumes de raparigas até ao bairro novo onde se passeava uma meia hora antes de recolher toda a gente a casa para o almoço dominical.

 

Convenhamos porem que não éramos só nós a fazer gazeta ao "santo sacrifício": as esplanadas dos cafés estavam desde cedo cheias de cavalheiros  que aproveitavam a ausência das  famílias na missa para tomar uma descansada bica, ler o jornal e falar com amigos. Provavelmente pensavam que a mulher e a filharada rezariam o quantum satis para absolver toda a tribo...

 

Não se pense contudo que esta mansa falta à prática dominical fosse sinal de  laicismo radical. Nada disso: era apenas preguiça, despreocupação e vontade de aproveitar a manhã luminosa depois de uma semana de duras penas. Os figueirenses quando era necessário frequentavam a casa de Deus com aplicada devoção e era lá que se casavam, baptizavam a prole e enterravam os seus.

 

Todavia, de longe em longe, a cidade era percorrida por um frémito religioso de maior alcance e rivalizava com Buarcos onde era conhecida a devoção por S Pedro e pela Senhora a Encarnação. Os pescadores, sobretudo aqueles que se perdiam meio ano pelos mares do bacalhau em dóris frágeis no meio do nevoeiro encaram a religião como um assunto sério e vivem-na como um perpétuo seguro de vida que eles contratam com um par de santos que consideram mais influentes e próximos de Deus. 

 

Terá sido pois num desses momentos de arrependimento colectivo e exacerbada introspecção que um grupo de cidadãos proeminentes e amplamente conhecidos nos meios boémios da terra entendeu ir, de longada e a pé, até Fátima, coisa que nesses anos longínquos deveria significar oitenta quilómetros bem medidos.

 

Os cavalheiros em causa além de pertencerem a algumas das mais conhecidas famílias tradicionais gozavam da fama (e proveito) de bebedores inveterados coisa que dava muito (e ainda dá, penso...) nas terras pequenas. Nesses tempos benditos em que beber vinho era, sic, dar de comer a um milhão de portugueses a embriaguez só assumia foros de escândalo quando atingia indivíduos socialmente desqualificados que, na via pública, vomitavam com o vinho um rol de palavrões. Isso, vestirem andrajos e cheirarem mal atirava-os para a categoria de bêbados sem préstimo ao passos que os señoritos de que falo frequentavam o Tennis  ou a Assembleia e sabiam qual era a diferença entre o garfo de peixe e o da carne.

 

Foi pois dentre o selecto meio dos que se embebedavam na "Agostinha" e no "Casino Peninsular", que se projectou a piedosa excursão à terra dos três pastorinhos. Os penitentes prepararam com esmero e unção a viagem, munindo-se de uma muda de sapatos meias q.b., bordões peregrinantes e demais impedimenta. Para comer socorrer-se-iam dos estabelecimentos do caminho mas à cautela levavam alguns mimos caseiros num cesto de vime. No que respeita à sede resolveram depois de breve debate que se desalterariam em todas as locandas do caminho. Andar cansa e torna a goela sequiosa de modo que o melhor seria parar sempre que, nessa via crucis, se mostrasse restaurante, venda, taberna ou casa de pasto. 

 

E que beber perguntará algum leitor cuja coragem o fez chegar até aqui. Pois para beber eliminou-se desde logo qualquer bebida gasosa (laranjada ou pirolito) por efeminadas e pouco adequadas a uma jornada sacrificial. O leite foi vetado por não oferecer confiança o que se vendia por aqueles pinhais imensos. Alguém terá mesmo falado dos perigos da febre de Malta e de outras maleitas igualmente perigosas. A cerveja foi cortada por duas razões essenciais: no caminho não deveria haver quem decentemente soubesse tirar uma caneca á pressão (e a cerveja mal tirada é pior que mijo de burra...)  e tendo um efeito diurético forte poderia obrigar algum dos caminhantes a verter águas na via pública com notório escândalo de quem visse.

 

Resta a água arguirá de novo o mesmo e já citado leitor generoso mas inocente. Alto aí e para o baile!  A água fora as propriedades higiénicas que ninguém nega, a utilidade para o regadio ou para a culinária, só é bonita na forma de mar, rio ou lago. Aceita-se no estado sólido se servir para temperar o whisky e no gasoso para saunas. Fora isso, que já é muito esgota-se, aqui o parágrafo água que mesmo em religião apenas serve para baptismos.

 

Há que recorrer ao vinho, maxime a algum dos seus derivados ou destilados se tal for necessário. O vinho está consagrado desde as bodas de Caná, pertence à herança greco-latina, é um genuíno produto português além do que tem efeitos vaso-dilatadores unanimemente reconhecidos.

 

Não posso precisar o dia e a hora em que a comitiva  iniciou a sacra caminhada. Sei apenas que foi a pastelaria Caravela o local de reunião. Aí os peregrinos tomaram uma bica e um cálice de "Carvalho, Ribeiro & Ferreira" na altura a melhor aguardente velha do mercado. Um minuto depois paravam no Nicola para um licor beirão, e logo em frente no "Oceano" para um bagaço. Nos restantes trinta e oito metros parou-se na "Império", no "Astória", na "Peninsular"  e no Arnaldo, cortando-se aí para esquerda, com o fim de atingir o jardim municipal, tomar a marginal do rio até à ponte para a margem direita do Mondego. 

 

Parece, ou pelo menos tudo o leva a crer, que ninguém se terá apercebido aquando da elaboração do roteiro que a R.ª Dr. António Dinis, além do Mercado, do cinema Parque Cine era praticamente ocupada no seu lado esquerdo descendente por pequenas casas de pasto (hoje 40 anos passados muito snakebarizadas e hamburguerizadas, infelizmente). 

 

 A penosa caminhada e as libações sacrificiais a que ia dando azo fizeram com que a marcha penitencial tenha acabado  antes do jardim. Um dos caminheiros teve mesmo que ser socorrido no hospital com coramina, dois outros foram levados a casa por um talhante solícito, um quarto ferrou-se a dormir numa das tascas mais consagradas e como era assíduo só foi acordado onze horas depois a pedido de uma esposa aflita mas conhecedora dos seus hábitos. O quinto vomitou, discretamente, nos lavabos do cinema "Parque cine" e saiu pelo portão da Rª Cândido dos Reis,  subiu, foi comer na "Lagosta Vermelha" tendo-se posteriormente emborrachado de cerveja no mesmo e mal afamado local em companhia de um croupier do Casino. 

 

O último entrou no mercado comprou vários produtos com os quais fabricou um coktail de ovo que ofereceu a vários vendedores. Com eles e numa marcha titubeante ( o licor de ovo é fatal...) saiu da praça pela porta oeste, atravessou a rua e foi encontrado nos baloiços do parque infantil a cantar para um grupo de meninos a imortal modinha

  " Mamã eu quero

    Mamã eu quero mamar

  Dá chupeta, dá chupeta

  pro bebé não chorar..." 

 

 

 

Vai esta para António Pinguel, Ana Leal de Oliveira, os 2 manos Esteves, Mário Vieira de Carvalho, Octávio Correia Ribeiro, Luisinha Novais e Rosa Carlos núcleo duro de um grupo de amigos que começou na praia de Palheiros, entre Figueira e Buarcos, à sombra  do parque Sotomayor. E com uma comovida lembrança do Luís Neves nosso amigo. E à Teresa  Estrela Esteves, idem