Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 597

d'oliveira, 24.10.21

Unknown.jpeg

De regresso a casa

(meditação na auto-estrada)

mcr, 24.10.21

 

Não faço parte da imensa maioria que gosta de guiar. Eu guio pelas mesmas razões por que telefono. Absoluta necessidade!

Um dos mais tresloucados sonhos que me persegue desde os meus trinta e poucos anos é o de ter um chauffeur. Chauffeur, notem bem. Motorista é bom para quem conduz autocarros e camiões de longo curso. Chauffeur, a la franciú, como dantes se usava. Jamais xófer, que pelintrice!

Chauffeur como aquele célebre romance de que apenas sei o nome, “John chauffeur russo” de um certo Max du veuzit de quem também nunca me terei aproximado e que foi um sucesso de entre as duas guerras. E até hoje pois fui de propósito à internet,  onde vi que, pelos vistos, ainda se publica e vende.

E, por favor, nada de “Ambrósio” para cá Senhora (má tradução!) para lá. Um chauffeur a quem eu trataria por senhor fulano (nunca o nome próprio mas o apelido, acrescente-se para não cair na ridícula moda actual de tratar um quiddam por sr. João, sr Amílcar, sr. Bartolomeu.). Eu que sempre tive horror às doutorices, bastou-me Coimbra e a estudantada a ser tratada por futricas servis por doutor, não apregoo a minha pobre e esquecida licenciatura. Resultado: apanho, na esplanada com sr m. Ao quando ao lado uns advogados de fresca data são brindados com dr.! Ora toma lá, que é para saberes!.... 

Um amigo meu, juiz conselheiro do STJ, pessoa prestabilíssima nunca negava um conselho aos vizinhos, gente humilde mas grata que o procuravam. Certo dia, confidenciou-nos que havia um desses “clientes” pro bono que o irritava. O homem, farto de nos ouvir tratar o nosso amigo por Manuelzinho, quando o via, desbarretava-se e desfazia-se em cumprimentos, sr. Manuelzinho  para aqui, sr. Manuelzinho para acolá... claro que a partir desse momento de fraqueza do ilustre pilar do Supremo Tribunal, um grupo de amigos galhofeiros só o referem por senhor Manuelzinho....

Voltemos, porém, ao chauffeur.

Eu tive um quando, nuns gloriosos sete anos de pastor, cuidei de uma instituição pública onde aliás me senti bem e, penso, onde deixei amigos e saudades.  Era o sr Pinho. Um profissional notável, com humor, da minha idade, conhecedor de tudo o que era restaurante bom, de todas as doçarias regionais (para eu levar às minhas queridas e devotadas  - e gulosas!!! – secretárias) discreto, discretíssimo, enfim uma pérola rara.

E o chauffeur  com que a partir daí eu sonho é um segundo – se possível – sr. Pinho que aliás, continua a ser um amigo.

Infelizmente, os maravedis de que disponho não dão para tal estravagancia, pelo que sou o chauffeur de mim mesmo e da CG que, uma vez pilhado um marido para todo o serviço deixou praticamente de guiar. Todavia, quando viaja a meu lado, Jesus, Maria, José!. É conselhos, admoestações, avisos, remoques um horror! 

Desta feita, lá fomos de longada a Lisboa visitar as respectivas mães. À uma nunca consigo partir à hora que quero pois a “patroa” tem uma noção assaz elástica das horas. Depois, entende tentar que eu veja algo que ela, sentadinha no seu canto pode ver e que, a mim, ocupado em conduzir não só não quero ver mas receio distrair-me. E acha que eu sou um péssimo companheiro de viagem. Também não me deixa pôr  uma 2pen” de música porque isso lhe contende com os aparelhos que usa nos ouvidos (a CG está mais surda que um portão de quinta!), Resultado a estrada parece-me ainda mais longa e mais chata do que é costume...

De nossa casa à casa da minha Mãe são, contas feitas, 330 qilometros. Três horas se não houver chatices  com duas paragens para dois café rápidos e mijinha para rebater Eu poderia evitar este plebeísmo e usar o “verter águas” tão do agrado dos camponeses de Niza, mas escrevi a coisa e já era tarde para emendar.

Outra das razões que tenho para usar o carro é que , gosto da minha independência, de não depender de outrem e de não dar cabo do juízo de outrem que, por gentileza me pretende conduzir, para me poupar canseiras e dinheiro para gasolina.  E ainda por cima, enjoo! (Nunca com o sr. Pinho, anjo milagreiro das estradas e auto estradas!)

Desta vez deu-me para contar os automobilistas que, impantes e domingueiros, entendem usar a via central quando há três vias. Entre a CREL e o Porto pelas auto-estradas A 8, A 17, A 25 e –suponho- a A 29, contei 32. Nada os obrigava a ir na via central. Nada excepto a burrice, o desconhecimento do código da estrada e a empáfia!

Eu não sou um cumpridor estricto do Código mas aprendi a usar normalmente a via da direita. Ora quando nos aparece um palerma, repimpado, a 70/80 à hora pelo meio, há que dobrar de precauçãoo na ultrapassagem desta espécie tola de reis da estrada.  Apetece, aliás ultrapassá-los pela nossa esquerda mas arriscamo-nos a que o palonço dê uma guinada ou que a polícia nos apanhe em flagrante. Claro que a coisa também permite dois ou três minutos de insultos dos antigos, dos de Buarcos, dos rebuscados que além da mãe metem mais familiares e hábitos infames. E isso alivia, mesmo se o cretino a quem se dirigem não os ouve. A CG aconselha uns toques irados de cláxon mas eu só me lembro disso depois que é quando ela, solícita começa “devia ter feito isto...“

Outra reflexão de auto-estrada é que me faz sempre perguntar porque é que não temos um regime de estações de serviço como em Espanha. Eu de há muito a esta parte limito as minhas incursões automobilisticas pelo estrangeiro apenas à Galiza pelo que pode ocorrer que a referencia a todo o território seja errada. De todo o modo, nas auto-estradas galegas (autovias incluídas) as estações de serviço tem apenas uma unidade a que se acede dps dois sentidos do percurso. Isso permite um serviço eventualmente mais barato, ou melhor e clara economia para quem o gere. E muito menos espaço a usar. O custo estra de um pequeno viaduto seguramente que é compensado pelo resto. Neste percurso de hoje, deparei-me com duas ou três cafetarias fechadas e outras tantas praticamente desertas. Além de uma estação totalmente desactivada, na CREL! Ora este serviço é de uma enorme utilidade para quem viaja pelo que deveria ser protegido e até melhorado. Mas quem é que suporta custos duplos com pessoal e conservação de instalações? Obviamente quem usa a estrada pois os fornecedores de combustível seguramente não são parvos nem mecenas russos.

Mas o país tem auto-estradas a mais e automóveis, para as encher e pagar, a menos!

* na vinheta: a Via appia. Ou de como as auto-estradas são bem mais antigas do que o sr. Sócrates pensava

au bonheur des dames 421

d'oliveira, 23.10.21

Unknown.jpeg

Auf Wiedersehen Frau Merkel

mcr, 23.10.21

Antes que o galo cante três vezes, aqui me apresso a dizer adeus à senhora Merkel e na minha estricta e pessoal qualidade de europeu, lhe agradecer o seu trabalho, os seus esforços, a sua obstinação.

Nunca alinhei no coro que durante anos (e fundamentalmente no tempo da crise) se atirava a chanceler cobrindo-a de insultos e de impropérios.

Lembraria, se valesse a pena, que, se responsabilidade pelas dificuldades portuguesas da época havia, elas se deviam a uma política tresloucada levada a cabo cá, por gente de cá.

Em Portugal sempre houve a ideia de que os nossos males, as nossas desgraças, eram apenas e só fruto da acção de outros, do destino, da natureza malvada, de um fado aziago.

Raras vezes, ou mesmo nunca, se tentou entender  as razões alemãs para a observância de regras estrictas no domínio orçamental.

Eu, em tempos, vi uma nota de um milhão de marcas e (não o posso garantir pois já lá vã pelo menos sessenta e tal anos) com uma sobrecarga carimbada que lhe decuplicava o valor.

Datava esta nota da terrível inflação alemã fruto ainda da derrota na primeira guerra mundial  e das condições draconianas saídas do Tratado de Versalhes de 1919.

Antes que me caia meio mundo em cima, asseguro que não dou de barato as tremendas responsabilidades alemãs (e mais ainda as austríacas) no desencadear do conflito. Ingleses, franceses e russos, sem falar dos sérvios e dos croatas, aproveitaram a ocasião e lançaram-se com inusitada alegria numa carnificina que destruiu a Europa então conhecida.

Acabada a contenda, os países vencedores, trataram de garantir que os vencidos, Alemanha, Áustria e Turquia pagariam, com língua de palmo, a sua intervenção.

Sabemos, hoje, quais as consequências desse mau momento internacional. A Alemanha atirou-se de pés e cabeça para a manápula duvidosa de Hitler, um alucinado que se julgava um estratego. A Áustria entregou-se vibrante de alegria (ao contrário do que, depois de 1945, quis fazer crer ao Anschluss. A Turquia perdeu o controle de ilhas a menos de um quilómetro da sua costa, para não falar na perda do império médio-oriental que ainda hoje é palco de situações confusas e sede de tiranias religiosas vindas do confim dos tempos.

No caso alemão, há um testemunho que recomendaria a todos os leitores. Aquilino Ribeiro, casado em primeiras núpcias com uma senhora alemã, deixou narradas as suas impressões de viagem à Alemanha em 1919. A obra tem por título “Alemanha ensanguentada” e é de uma sagacidade extraordinária. Aquilino chega a prever o regime hitleriano. Ou isso, afirma, ou um regime copiado dos bolchevistas.

O trauma da inflação terá sido de tal ordem que cem anos depois continua a alimentar a imaginação financeira alemã actual. E a teoria! E a política...

Por cá, se não foi em uníssono pouco faltou, para toda a Esquerda se esganiçar contra a chanceler.

Merkel, numa das primeiras vezes que veio a Portugal, foi alvo de fortes injúrias, já não recordo se em manifestações em locais onde ela passaria.

Entretanto, as coisas mudaram, Merkel permaneceu e mesmo mantendo o mesmo rumo na sua governação (tendo, porém, o cuidado de se adaptar aos novos tempos)e começou a ser reconhecida não só como um pilar da ideia europeia mas sobretudo, do melhor da civilização europeia, a saber uma compaixão pelos migrantes a quem abriu as portas. Um milhão de pessoas, cálculo por baixo, encontrou um país graças à determinação e à teimosia de Merkel. Teimosia, tintada de uma profunda fé, de alguém nascida e formada na antiga RDA, que se enfrentou com a clara hostilidade de uma certa parte da sociedade alemã, sobretudo a do antigo leste.

Nesse momento, Angela Merkel, foi o símbolo de uma certa ideia de civilização europeia, e desafiou toda a elite governante da União, que regra geral pouco fez pelos que demandavam socorro e abrigo.

É claro que a Alemanha carecia e carece de mão de obra mas não menos verdade é que, em circunstâncias idênticas está a maioria dos países europeus e não se vislumbrou em nenhum deles uma tão evidente atitude e uma tão nobre boa vontade.

Não é por acaso que, as multidões que se acumulam às portas da Europa pedem em alta grita “Germany, Germany”. A Europa, a nossa, tem passado nos últimos quinze anos, por vicissitudes diversas, por altos e baixos, mas se aqui estamos, apesar de tudo, muito se deve à Alemanha e à sua líder.

Não foi por acaso que, nesta última reunião, ela foi alvo de uma comovente despedida recheada de aplauso com todos os restantes dirigentes em pé. Não é por acaso que Obama envia uma mensagem tão entusiástica.

Vamos sentir a falta desta mulher que poderia ter sido uma “dama de ferro” mas que, pelo contrário, sempre privilegiou o diálogo. Veremos se o seu sucessor faz igual pois é duvidoso que consiga fazer melhor.

O balanço dos dezasseis anos de governo de Merkel ir-se-á fazendo nos próximos meses porque os tempos que se aproximam vão ser férteis em problemas, a começar pela continuação das discussões sobre o Brexit.

Não deixa de ser curioso e, aliás, exemplar que Merkel saia do poder  por seu pé. Nada garante que a CDU perdesse as eleições com ela como candidata dada a escassa diferença  de votos na última eleição.

Vamos, ou eu vou, ter saudades.   

 

 

 

      

 

 

au bonheur des dames 420

d'oliveira, 22.10.21

69 cipriano dourado.JPG

Nem mais nem menos

mcr, 22-10-21

 

Escrevo neste blog há mais de uma dúzia de anos. Digo o que penso, não faço fretes a ninguém, de resto já nem idade tenho para isso.

Raros leitores, raríssimos, desconfiam que eu tenho uma agenda política escondida e que quero o mal de uma série de instituições, partidos ou pessoas.

Lamento muito mas sei perfeitamente quão pouca, se é que  existe, é a minha influência  seja em que capitulo for da vida nacional.

E, convenhamos, pouco me importa o facto de ter um reduzidíssimo papel nessa arena de que saí por meu pé há mais de quarenta anos.

A experiência mostrou-me que o comentário político, ou o comentário na generalidade dura pouco e influencia ainda menos.

De certa maneira, este registo é quase um diário e teria funções semelhantes se eu o escrevesse sempre, e diariamente.

A generosidade de um punhado de leitores (eu, de resto desconheço quantos são, mesmo sabendo que há algures um registo do número de leituras que eventualmente mereço. A minha inépcia info-excludente é tal que nem isso sei consultar e, já agora, não tenho sequer qualquer curiosidade a esse respeito) chega-me e sobra para estar aqui.

Tenho-os (ou as visto que há , espero, leitoras) na conta de gente livre que pensa pela sua cabeça que está disposta a dialogar e a ouvir o outro.

De tudo o que vem de ser dito, resulta que seria razoável esperar de quem tem o trabalho de me ler apenas uma coisa. Que leiam o que lá está, só o que lá está e nunca, por nunca, o que lá falta. Eu chamo os bois (e os boys) pelo seu nome, não me escondo nem disparo para o meio da multidão. Digo o que penso, tenho por certo que muita coisa mudou, que eu mudei, que mudarei provavelmente se me caem mais meia dúzia de anos em cima.

Ouvi demasiados profetas e mais ainda falsos, refalsadíssimos, aprendizes de profeta. Dei para um par de peditórios e cada vez me apetece menos continuar essa piedosa tarefa.

Nietzsche dizia, perdoem-me se cito de cor e mal, “não o teres derrubado ídolos, mas o tere-los derrubado na tua cabeça, eis a tua vitória”

Espero, nestes tempos em que é prudente começarmos a d fazer o nosso próprio balanço, ter derrubado dentro da caixa dos pirolitos um par de ideias feitas e outro de fantasmas renitentes, recorrentes e pouco decentes.

Tudo isto serve tão só para reafirmar que mcr é o que é e não o que eventualmente alguém gostaria que fosse. Para o melhor e para o pior. E escreve de boa fé pois sabe, para alguma coisa serve a idade e o espectáculo do mundo, que a mentira só se aguenta com uma sucessiva cascata de aldrabices e que, tarde ou cedo, rui fragorosamente. Demasiado trabalho e demasiado barulho para nada.

E disse.

 

(sem ter nada com o de cima: avisa-se o leitor JMM que há poraqui,um livro com todas as gravuras da Encyclopedie para oferta pois, com a louca compra da obra propriamente dita este calhamaço, em estado perfeitamente novo necessita de quem o acolha generosamente. Não é generosidade minha, é necessidade absoluta de espaço! diga qualquer coisa pois duvido que tenha recebido um mail meu.)

 

*na vinheta uma gravura tintada de Cioriano Dourado, comprada com grande sacrificios nos ptomórdios da minha vida profissional. Ora 50 anos depois, continuo a gostar dela  e lamento que o meu (inexistente) talento fotográfico não permita avaliar a sua qualidade.

au bonheur des dames 419

d'oliveira, 21.10.21

Sócios a la carte

mcr, 21-10-21

 

O governo polaco quer, jura-o permanecer na União Europeia. Entretanto sempre vai afirmando a primazia dassuas leis sobre as que decorrem dos tratados que assinou. 

A europa, isto a União, ameaça cortar-lhe fundos, coisa que indigna imenso os polacos. 

Esqueceram-se, como é usual, dos  compromissos assumidos. Quando bateram à porta da União, o brilho dos dinheiros toldou-lhe a visão nacionalista e assinaram de cruz.

A União também não sai desta cena pura e imaculada. Na ansia de se defender do perigo russo, tolerou durante demasiado tempo, os arreganhos nacionalistas polacos, húngaros e outros. 

A tolerância com as vociferações de Orban & assimilados durou demasiado tempo e não produziu outros efeitos que não fosse aumentar a impudência dos que entendem que isto de ser da União só serve para certas situações mas não para outras. 

 

Por cá, também há quem queira, e muito, os dinheiros que tem largamente escorrido desde o primeiro dia. Todavia, a Europa é sempre denunciada  como um monstro, um atentado à soberania nacional.

Este nacionalismo serôdio é, também ele, a la carte, aceitam-se as esmolas mas não os conselhos ou as condições do óbolo. 

Fosse o Chega a denunciar  o “diktat” europeu caía aqui o Carmo e a Trindade. São. Porém, outros, de sinal político contrário e a coisa parece normal e justificada.

Critérios... 

estes dias que passam 596

d'oliveira, 20.10.21

images.jpeg

Sair do pântano

mcr, 20-10-21

 

 

Os sinais de crise “orçamental” agravam-se sem que se perceba exactamente se o PC e o BE (e o restante “Portugal dos pequeninos -Pan e verdes-) vão ou não chumbar a proposta já na generalidade.

Eu ouvi atentamente o Sr. Presidente da República mas a sua extrema defesa da continuação deste governo, com ou sem contribuições dos aliados gerigoncistas, convence-me pouco. Suponho que é possível marcar eleições rapidamente e, de todo o modo, o Governo ficaria em gestão até elas se realizarem e surtirem os efeitos desejados.

O que mais me impressiona neste xadrez a três, é a ideia de chantagem do BE que quer à viva força, endividar o país por mais uma ou duas gerações. Não se trata de propor medidas que se esgotem no actual ou futuro exercício orçamental mas sim de deixar uma pesada factura perpétua que alguém, depois de nós, irá pagar.

O que mais me surpreende é que este tipo de propostas pressupõe que a torneira de Bruxelas continuará a jorrar incessantemente  Ora, o BE (e mais ainda o PC...) detestam a União Europeia, acham que a soberania nacional sai beliscada  (o PC já se deve ter esquecido das loas que entoava a forçada inter-relação URSS-países de leste (ditos graciosamente “socialistas” e mantidos naquela esfera pelos diferentes contingentes russos estacionados nesses países em nome da solidariedade operária e dos amanhãs que cantariam). O Pacto de Varsóvia era algo de sentido único porquanto era necessário defender a pátria dos trabalhadores e da revolução de Outubro, mesmo à custa da criação de um “no man´s land” de países sem governos democraticamente eleitos.

Acabada a URSS foi uma corrida às independências com o resultado que se conhece. Os bálticos voltaram-se para os seus antigos parceiros comerciais. A Polónia e Hungria (e a Eslováquia, recentíssima) tornaram-se países de democracia iliberal, curiosa nomenclatura que esconde como os velhos hábitos se mantiveram e a Europa apenas lhes serve para conter a Rússia e abonar mesadas importantes. A Jugoslávia implodiu, a Roménia  a Bulgária e a Albânia tentam fugir da miséria em que viviam. Panorama pouco brilhante  onde só se vislumbra um traço comum: a extrema direita campeia alegremente, a xenofobia corre por arrasto, os emigrantes são mantidos a uma conveniente distância.

Não cito o caso da Ucrânia, pois esse país, ainda está uma situaçãoque definia o México: longe de Deus mas muito perto dos EUA. Substituam-se os EUA pela Federação Russa e logo se percebe como é que as coisas correm por esses sítios. No que diz respeito ao Cáucaso, basta recordar como é que a Geórgia tem sido amputada de territórios que se tornaram meros prolongamentos da velha Rússia czarista.

Não sei se os actuais militantes do PC ainda se lembram como era o mundo entre 1945 e 1990 mas recordo a famosa resposta de uma jovem deputada do PC que, perguntada sobre algumas minúcias deste tipo, respondeu que as ignorava...

Portanto, e a ser verdadeira a apregoada intransigência, dos dois partidos da extrema Esquerda, teremos que o Orçamento não passará. Que o Governo cairá. Que haverá, em seu tempo, eleições legislativas.

Valendo as sondagens o (pouco)  que valem, pode-se antecipar que estes dois partidos pagarão forte e feio o derrube de um Governo que trouxeram ao colo durante anos.

Confesso, à puridade, que tal resultado é mais do que merecido, Resta, porém saber para onde irão as vozes que perderão. Algumas das zonas suburbanas e do Alentejo, poderão cair na escarcela do Chega (tal reviravolta sucedeu em França, Itália e Espanha. Na ex-RDA o partido que mais se afirmou foi a Alternativa para a Alemanha, cuja presença na antiga RFA é absolutamente residual.

E o BE poderá igualmente ser batido como aliás, ainda agora foi muitas vezes pelo Chega que averbou cinco vezes mais eleitos do que o bloco. Nada indica, bem pelo contrário que as zonas de pequena e média burguesia que acharam o BE encantador continuem com a mesma simpatia pelo que parecia ser um partido iconoclasta de uma esquerda não pc.

Na mesma linha o PS não perderá votos, ou poucos, pois aparecerá como vítima da maquinação dos seus camaradas da geringonça.

Eventualmente o PSD subirá mas não o suficiente para –mesmo agregando outras forças de Direita- poder bater os socialistas. De todo o mofo, o Governo que sairá desse eventual prélio eleitoral poderá ser mais frágil do que o actual e, menos inclinado a usar a muleta esquerdista que, batida duramente, preferirá a velha via de partidos de protesto.

Tudo visto, eleições agora não mudarão especialmente o panorama geral e apenas atrasarão a tomada urgente de medidas que, de todo  o modo, tem sido sistematicamente adiadas, postergadas ou reduzidas a puros gestos de cosmética política sem eficácia real e duradoura.

E os dois últimos países na cauda da Europa terão mais e mais possibilidades de nos ultrapassar. Não porque se tenham particularmente desenvolvido mas apenas porque nós nos continuamos a afundar. Por alguma razão, um dos grandes livros da nossa época de ouro se chamou “história trágico marítima”. Corremos para o naufrágio com a orquestra de bordo a tocar desafinada mas com muito "sentimento....

au bonheur des dames 418

d'oliveira, 19.10.21

m_obra-2.jpg

Sem estados de alma

mcr, 19.10.21

 

 

Graças a um leitor que  me lê com alguma constância mas que discorda de quando em quando, descobri que alguns textos meus podem ser tomados como um pessoal ajuste de contas com os visados.

Devo dizer que não tive nunca essa intenção. Quando não gosto claramente de alguém ou o digo com todas as letras ou nem sequer refiro a criatura.

Já não recordo se é Orwell ou Huxley que nas suas sombrias antevisões de um futuro sinistro criou a categoria dos “non persons”. O “non person” é alguém condenado à inexistência social, banido  mesmo se vivo entre os outros de contactos sociais ou outros.

Tenho, ao longo destes muitos (demasiados) anos de ida duis non persons de estimação. Se me cruzo com eles o que quase nunca sucede olho através deles de tão translúcidos de alma e carácter que são. Em boa verdade é raríssimo, sequer, lembrar-me que eles existem mas lá vem o dia (e foi ontem) que uma menção ao “odiozinho” de estimação pela ministra da  Saúde, mos recordou.

Nã, não tenho nenhuma especial desafeição violenta pela referida senhor. Muito menos a considero estúpida ou esparvoada. Apenas me incomoda que, no perigoso e dificílimo lugar que ocupa ela ainda não tenha percebido que a saúde dos portugueses, de todos os portugueses (e de algum eventual estrangeiro que por aqui passe) não pode ser um campo de tiro para radicalismos sócio políticos de qualquer espécie.

É perfeitamente admissível que essa senhora deteste o capitalismo, ou apenas a medicina privada. Já não parece sério que se esforce por a tornar um inimigo a abater quando, como se sabe e, pior!, se vê o SNS atravessar um período de enormes dificuldades, de insuficiências dramáticas que, agora sem a pandemia, se revelam angustiosas.

“em tempo de guerra não se limpam armas”, diz-se com alguma desrazão. Em tempos de crise sanitária, todos são poucos para restituir aos cidadãos um serviço rápido (insisto: rápido) e eficaz de os tratar condignamente,

Não vou, não é preciso, elencar  molhada absurda de situações problemáticas em que vivem os hospitais do SNS. Há atrasos tremendos que, obviamente, atingem sempre os menos abonados. Um rico se o hospital o remete para uma consulta com seis meses  de espera, nem hesita, parte para o privado e é atendido. Um pobre, um remediado, não o pode fazer: aguenta que é serviço!

E há casos em que os seis meses se convertem num dois, quase três anos.

Há falta de médicos no SNS. As causas serão variadas mas a verdade é que do SNS saem continuamente especialistas. Võ para os detestados hospitais privados. Como se presume que estes profissionais não são masoquistas nem tolinhos de atar, há que aceitar que procuram melhores remunerações, melhores instalações, melhores e mais bem apetrechados hospitais.

E aqui começa a questão: estes médicos já nem sequer se limitam a fazer umas horas noutro hospital. Saem, desistem, estão fartos.

Quem diz médicos, diz enfermeiros (que inclusive emigram e obtêm um enorme sucesso e bom nome noutros países o que aliado a remunerações que duplicam, triplicam as de cá – quando há emprego!- os faz “desertear” do país onde nasceram, onde cresceram, onde estudaram onde tem os familiares e os amigos. E onde há bom clima, sol, segurança, etc...

Todos os dias, desde há muitos meses (mesmo antes da pandemia) se ouvem queixas de todo o género. É a pediatria que encerra aqui, é a oftalmologia que quase não tem um médico num quadro de seis ou dez ou mais. São cirurgias adiadas por falta de anestesistas. É isto, é aquilo, mais aqueloutro. É Babel , uma babel de vociferação ou de desculpas de mau pagador.  É, numa palavra, o desastre ainda moderado mas a apontar para o naufrágio e para o caos.

Ainda há meia dúzia de dias oitenta e sete chefias de um hospital apresentaram em conjunto a demissão. Vai-se a ver e o Ministério mostra uma calma de cemitério que se desconhece a si próprio. As ARS fingem que a coisa é uma brincadeira de mau gosto, assobiam para o lado, chutam para canto.     

 

No meio disto tudo, mesmo se os males já eram antigos, conhecidos, diagnosticados, caiu a pandemia. Ainda hoje, ninguém assumiu o número de mortes não covid em excesso se atentarmos em médias anteriores. Esses mortos são clandestinos, não existem, são “non persons”

Isto parece a história dos jogadores de golfe que nunca morrem, foram só à procura de uma bola perdida.

A famosa questão das PPP é de bradar aos céus. O Tribunal de contas, provavelmente uma força de bloqueio destae Governo ou só desta ministra, veio dizer, preto no branco, que quatro ou cinco hospitais com PPP presentavam melhores resultados, menos gastos por doente, mais rapidez na prossecução dos seus fins. A poupança, ou a diferença para os melhores hospitais públicos traduzia-se em mais de cem milhões de euros.

Mas, como Marco António, dizia de Bruto, os hospitais públicos são honrados e os privados uns desaforos.

Eu não quero impor nenhuma PPP a ninguém. Apenas gostava que se reconhecessem os erros de gestão, os seus motivos e se obtivesse um resultado semelhante aos obtidos por esses quatro ou cinco hospitais que durante alguns anos tiveram administração privatizada.

O Ministério exerce sobre a ADSE uma pressão intolerável e os seus utentes que a pagam integralmente sofrem as consequências de para o topo dessa entidade serem nomeados os boys e as girls e nunca quem merece a confiança de quem entra com o dinheiro.

Portanto, e resumindo, não odeio a ministra, que não conheço, que não desejo conhecer, era o que me faltava. Odeio o fanatismo, a burrice, a toleima a teimosia no erro sobretudo se ela se exerce contra os que nenhuma protecção têm. Há pelo menos seis ou sete milhões de portugueses que ou não podem de todo escolher o sistema de saúde, ou não podem pagar uma alternativa rápida, e segura que os livre da doença, da angústia, do temor e da longa e interminável espera.

Parece, contudo, que a boa gstão da vacinação, ungiu a ministra de um novo esplendor. Convenhamos que, se é verdade que a task force reportava ao MS, não menos verdade é que, na sua primeira e aberrante forma, estava destinada ao fracasso graças à nomeação “política” e desrazoável (e evito termo mais apropriado...) de uma criatura medíocre mas que sempre navegou no cimo da onda até mostrar a sua total queda para ser a prova viva do Princípio de Peter. Quem ganhou a guerra da vacinação foram os profissionais de saúde que acumularam, extenuados, milhões de horas extraordinárias (ouvi dizer 17 milhões!!!), e a equipa gestora dirigida pelo vice almirante. E também se devem citar as autarquias que nunca negaram esforços e colaboração. O resto veio por acrescento.    

 

Eu poderia acrescentar um par de Ministros que me irritam tanto ou mais (e já nem refiro o pobre sr. Cabrita). Poderia dizer que o “inimigo das perninhas dos banqueiros alemães” ainda nem sequer percebeu como é que a Alitália morreu de vez e foi substituída de raiz por uma outra empresa pública. E a Alitália transportaria seguramente três ou quatro vezes mais passageiros do que a TAP que era desde há muito uma relíquia do “Portugal desde o Minho a Timor”. Agora a TAP é um sorvedouro de dinheiro, despede à mesma trabalhadores, e ninguém de bom juízo se atreve a prognosticar-lhe uma retoma que devolva aos contribuintes os cinco ou seis mil milhões que ela já custou ou vai ainda custar.

E pasmo, mas devo ser eu que vejo tudo cada vez pior graças aos pobres olhos castigados pela degenerescência macular, que a mesma criatura que ameaçava o ministro das finanças venho agora afirmar que este orçamento é do melhor que há. Com o mesmo desplante, como se nada tivesse sido dito antes. Arre!   

* A vinhea é por demais conhecida. Se não erro, o quadro chamou-se "retrato do dr Tulp" e passou à posteridade sob o nome de  "A lição de anatomia"

O quadero está na Mauritshaus em Haia, o melhor (porque de tamanho humano) museu do mundo. aind por cim também lá está a "vista de Delft"

Uma filha deste médico Tulp casou-se com o filho do burgomestre de amsterdão e na casa que ainda hoje pertencerá à família reune-se uma impressionante colecção de pinturas porque em todas as gerações foi confiado a um pintor de prestígio o retrato do dono da casa. Como conheci e fui amigo de um dos descendentesdessa família pude, nos anos 70 , visitar essa prodigiosa casa. Babei-me, morri de inveja, felicitwi esse meu amigo (Jn Pieter, se bem recordo) que noivva com uma amiga e colega minha no curso de Diereito Comparado. Oh dias maravilhosos em Amsterdão- Oh paixão súbita e alvoraçãda que por lá vivi. às vezes penso que parto deste mundo de "papo cheio". Ou quase...

 

 

o leitor (im)penitente 222

d'oliveira, 18.10.21

thumbnail_IMG_0943.jpg

Por aqui começou tudo

mcr, 18.10.21

 

 

O título é pomposo e não especialmente correcto. Eu refiro-me à Enciclopédia francesa, dos senhores Diderot  d’Alembert.

É verdade que esta formidável obra abriu caminhos novos, ou tornou o mundo mais visível e compreensível. Obviamente o Poder, que nunca é parvo, como alguns tontos pensam, tentou tudo para sabotar o empreendimento que só continuou porque muitos dos seus subscritores eram suficientemente importantes para obrigar a polícia a moderar-se nas buscas e apreensões.

A publicação durou mais de 20 anos e na obra colaboraram alguns dos mais eminentes espíritos franceses (por exemplo Voltaire, Montesquieu ou Rousseau).

A enciclopédia foi depois replicada por muitas outras em toda a parte (Portugal incluído) mas nunca foi suplantada em fama e glória.

Há enciclopédias que anualmente se renovam, o caso da Britânica, outras que eram mais do dobro do tamanho  - o caso da Methodique  do sr Panckoucke (200 volumes, do quais 47 de ilustrações (no todo 4.500, 125.ooo páginas!) que demorou cinquenta anos a ser publicada. Vi uma, no sempiterno sr. Gonçalves (“Nova Eclética, Lisboa) que felizmente estava já destinada a alguém seguramente com muito mais posses do que eu. E, também, com mais espaço...

Ainda neste domínio, embora totalmente diferente, vale a pena referir uma enciclopédia publicada na URSS, nos primeiros anos da revolução onde se encontram curtas autobiografias de mais de duas centenas de dirigentes bolcheviques. Datam de 1925 as notícias biográficas que depôs desapareceram misteriosamente por óbvias razões

No final dos anos 60, o editor François Maspero publicou essas autobiografias numa edição preparada por Georges Haupt e Jean-Jacques Marie que se encarregaram de apor uma nota final que naturalmente os biografados nunca teriam imaginado.

O livro chama-se “Les bolcheviques par eux-mêmes e foi publicado na “Bibliotheque socialiste” da editora Maspero em 1969. Altamente instrutivo!   

 

A edição que adquiri por um bambúrrio de sorte, tem 18 volumes, 12 dos quais de estampas (ab-so-lu-ta-men-te maravilhosas) e 6 de texto.

Trata-se de um fac-simile d edição original e deve a um dos mais notáveis e aventureiros editores modernos: Franco Maria Ricci, um italiano  do qual se pode dizer, sem grande exagero, que no campo da edição há um antes e um depois de FMR. FMR nunca produziu um livro medíocre, nunca descurou a tipografia, o papel (neste caso é o Fabriano) e em muitas das suas edições deixou um legado de virtuosismo e de qualidade de impressão invejáveis. Eu ando há anos a namorar uma colecção sobre estados italianos de Veneza a Roma, de Nápoles a Florença que é a mais sumptuosa descrição desses desaparecidos Estados com uma iconografia admirável. Em boa verdade, a coisa até nem é demasiadamente cara mas alguém me avisou que há forte risco em comprar via internet dado que nem sempre os livros chegam ou então são exemplares demasiado “fatigados”, quase imprestáveis.

FMR, de certo modo, “democratizou” os livros de arte ou com arte, porque, ao contrário de muitos editores actuais, não fazia edições limitadas a umas escassas centenas de exemplares (casos de Siloé, Manuel Moleiro, Cartem, todos em Espanha, todos com excelentes edições mas todos irremediavelmente caros)

Ora, e para voltar à enciclopédia em apreço, comprei um exemplar que estava como novo, fechado ainda no celofane de origem. Parece que o seu proprietário, queria obsequiar alguém a quem deveria gordo favor pelo que, na altura da publicação encomendou dois exemplares. Um para ele e outro para o feliz, futuro, beneficiário da sua generosidade. Razões obscuras fizeram com que essa oferta nunca s realizasse. E agora, um amigo meu, descobriu que o homem estava disposto a livrar-se da obra por a ter em duplicado.

W chegaram hoje, os dezoito espectaculares volumes cada um dos quais encadernado como se vê e dentro de uma caixa que o protege de tudo ou quase.

Nestes casos, e tratando-se de um leitor impenitente e vicioso como eu, o principal problema, tirando o cacauzinho desembolsado, foi arranjar espaço. E espaço digno, já agora. Nem imaginam a aventura que foi encontrar um buraco numa estante com 110 x 40 x 27 cm!... Demorei horas e horas mas como se vê pela fotografia, lá consegui.

 

estes dias que passam 595

d'oliveira, 17.10.21

images-1.jpeg

De repente, a verdade

(a verdade, a áspera verdade, Danton)

mcr, 17.10.21

 

 

A pandemia parece estar mais ou menos vencida. Pelo menos entre nós.

Por muito extraordinário que tal pareça, a direcção banal (e digo banal por excesso de generosidade e porque hoje é domingo) do Ministério da Saúde, saiu, pelo menos aos olhos de alguns, reforçada. A ministra apressou-se a integrar os quadros do PS, e há mesmo quem lhe vaticine um grande futuro. E bem precisa dele, porque passado, o que se chama passado é pequeno, medíocre quase sempre e espalhafatosamente ideológico no mau, pior, sentido da palavra.

A vitória sobre a dramática situação que vivemos em Janeiro (foi só há nove/oito meses) deve-se a 99% a dois factores; a extraordinária dedicação, o sacrifício, mesmo, dos corpos sanitários (médicos, enfermeiros, técnicos de saúde, auxiliares e outros não especificados) e à formidável logística montada pelo almirante e os seus 32camaradas militares (e pelos civis que eventualmente com eles trabalharam) que conseguiram revertar uma situação horrenda num êxito que, pelos visto, e bem, o mundo nos admira.

É bom lembrar que o primeiro responsável pela task force foi uma mediocridade que ao longo dos anos tem passado de alta função em alta função sem deixar qualquer rasto que o distinga. Um enorme erro, um escândalo num hospital de que, além das funções na task foce, era dirigente, obrigou-o a sair pela porta de trás. Saiu e não deixou saudades mas apenas um rasto baboso de pequenas situações mais que controversas e a mostra cabal que não servia para a missão.

Eu quase diria que num dia, vá lá numa semana tudo mudou. Tudo, a começar pela complacência com irregularidades de todo o género que muitas vezes não passavam de uma corrida desenfreada a vacinas antes de outros mais necessitados e em risco de morte. Não vou (mas podia pois tenho boa memória) aponta nomes e funções administrativas, autárquicas, políticas de muito espertlhaço (e espertalhaças que também não foram poucas, provando que no capítulo da sem vergonha a igualdade de género está plenamente alcançada). Basta-me lembrar a calma mas forte determinação do vice almirante ao declarar que não admitia tais manobras e a notícia de que iria ser entregue ao MP a respectiva denúncia. Com o entusiástico apoio dos profissionais e a absoluta aceitação cidadã, a vacinação correu como ninguém esperava.

Esta foi a grande vitória do combate sanitário. Todavia, os hospitais foram obrigados a adir e a cancelar milhões de actos médicos desde consultas a cirurgias. Havia que fazer escolhas e elas ter-se-ão feito e podemos pensar que, na generalidade foram percebidas pela população e mesmo pelos doentes. Seguramente que morreu gente, nem era de esperar outra coisa mas, lamentando as eventuais mortes, este país deu, por uns meses o aspecto de país organizado, eficiente, generoso, e sensato. Se fomos ou não os melhores da europa ou do mundo, interessa-me pouco. Fomos, isso sim, um país claramente civilizado, decente, ordeiro, disciplinado.

Entretanto, agora, que o pior terá já passado, o SNS começa a mostrar sinais de absoluto esgotamento, de falhas cruciais, de crise violenta. Hoje mesmo, os jornais, ou, como de costume, apenas o “Público” traz(em) um texto de página inteira com o título “SNS, um apelo: Salvaguardar e reforç<r, transformando” (p 8, Público). O teor do texto assinado prr umas dezenas de pessoas das quais, à primeira vista apenas conhecerei meia dúzia, é um claro sinal de que a actual política seguida tem de ser urgentemente corrigida. Melhor: é uma condenação mal disfarçada de anos e anos de descuido de má gestão, de incapacidade, de fanatismo e sectarismo, na direcção dos assuntos de saúde.

Não vou dar-me ao trabalho de resumir o texto, quem quiser que o leio no jornal ou via internet.

Por várias vezes e na veste de simples cidadão, já aqui aflorei um par de temas sobre esta questão. Procurei não meter foice em seara alheia mas apenas apontar um par de situações que, seja qual for o ponto de vista, brada(va)m aos céus.

A simples ideia de que é desta esta ministra que se espera uma leitura do manifesto é algo que me apoquenta. O que aqui vem, são verdades como punhos – mesmo que eu possa aqui e ali discordar – e esbarram em tudo o que a ministra tem dito. Ou em muita coisa. O que quase vem dar ao mesmo.

Este país, ou melhor quem o dirige, caiu, há muito no facilitismo, no empurrar com a abarriga, no adiamento de soluções, na incapacidade de reformar o que quer que seja.

Agora, e no capítulo da saúde é o que se vê, demissões em cascata de responsáveis clínicos de vários hospitais, noticia de impossibilidade de varias especialidades funcionarem sequer mediocremnete, fuga de profissionais para o execrado sector privado o tal que só vê cifrões na ultrajante e imbecil acusação de certa Esquerda que, entretanto se ai doente corre para os mesmos hospitais que despreza.

Eu, por mais voltas que dê, não consigo perceber como é que o sector privado prospera, abre hospitais por todos os lados, concorre vantajosamente no que toca a administração hospitalar (lembremos os resultados surpreendentes das PPP que foram acabando). Não se pode falar apenas do milhão de utentes da ADSE (mal tratados pela administração da mesma, meros burocratas nomeados pelo Governo que não põe lá um cêntimo que seja mas envia gente sua para controlar e como prémio de fidelidade partidária) ou dos cidadãos que, desconfiados (e com cada vez mais razão) além de pagarem os seus impostos ainda pagam seguros de saúde. Bem se vê a confiança que depositam no SNS e sobretudo, na rapidez de resposta deste.

Não se veja neste texto o que nele claramente não está. Sou favorável ao SNS muito antes dele existir. Bastavam-se certos exemplos estrangeiros, nomeadamente o britânico e tudo o que, nos anos de chumbo já circulava como proposta desde o relatório das carreiras médicas até à intervenção de Miller Guerra, entre muitos. Essa altura havia esperança e ideias. Agora, pelos vistos, a esperança murchou e as ideias dentro do Ministério, passaram à clandestinidade.

Mas a Ministra essa está, pelos vistos, em alta. Deixem-na estar que quando cair há de fazer mais estrondo. O problema é saber quando e como. Que seja antes do último estertor do SNS é o meu voto.

*a vinheta: eu bem queria ter arranjado uma imagem mais expressiva da gigantesca (e tranquila) afluência aos centros de vacinação. Esta foi a que saiu. Provavelmente procurei mal, como de costume. Nós, os info-excluídos, somos assim. Ou, pelo menos, eu sou assim: desajeitado e trapalhão.          

estes dias que passam 594

d'oliveira, 16.10.21

Dois discursos  para o parlamento

mcr, 16-10-21

 

 

Nos tempos difíceis da “resistência estudantil coimbrã”, ou seja entre a publicação de decreto lei 40.900 e a crise de 1962, a Associação Académica de Coimbra voltou (em 1960) a ter uma Direcção Geral da “oposição”. Terminava assim, um ciclo de onze anos de apagamento continuado da AAC sempre nas mãos da “Direita” havendo mesmo dirigentes associativos que mais não eram do que funcionários do Estado Novo.

A reviravolta ocorreu, talvez na sequência das eleições Delgado e sobretudo, pela perda da memória dos processos desencadeados contra os estudantes democratas a partir do desmantelamento do MUD Juvenil

Claro que a grand maioria dos estudantes pouco ou nada tinha a ver com esta organização satélite do PC, mesmo se nela também militassem outros elementos da oposição. O facto é que a PIDE metia tudo no mesmo saco, prendia a esmo, e só depois quando se tratava de levar ou não a julgamento os detidos é que eram libertados muitos, a grande maioria, dos estudantes postos a recato nas cadeias.  Claro que isso, e a ”informação política” e policial não desanimava apenas alguns antes  amedrontava uma forte maioria que não queria, nem podia, dar-se ao luxo de fazer política mesmo se esta se reduzisse a gerir, dentro da apertada malha permitida, uma associação de estudantes. O tempo, porém, faz esquecer alguns medos, as gerações sucedem-se e, em 1959/60, uma lista apoiada pelo Conselho de Repúblicas e por todos os Organismos Autónomos, bateu a Direita por uma escassa, mas evidente, maioria de votos. 

 O Presidente eleito foi Carlos Candal, já na altura aluno do 6º ano de Direito (post-licenciatura). Era não só um homem inteligente mas, sobretudo, capaz de analisar friamente as possibilidades que se lhe ofereciam. E tinha a enorme vantagem de não ter um currículo político ligado ao PC. 

A gestão da Associação dependia muito das concorridas Assembleias Magnas que duravam horas intermináveis, sobretudo porque dos lares femininos, devidamente enquadradas por freiras também estudantes, vinham compactos grupos de raparigas que normalmente votavam à Direita. Felizmente, em soando a meia noite, aquelas gatas borralheiras recebiam ordem de marcha e retiravam-se. Era a altura em que subitamente paravam as alegações e se passava à votação. E se ganhava à justa.

Candal, nos casos mais bicudos, levava no bolso cábulas de dois discursos. Se via que  a opinião era maioritariamente conservadora, lia o discurso “b” tentando mostrar abertura da sua parte e preparando o caminho para tornar o resultado relativamente inútil. Se a coisa se apresentava de boa feição, sacava do discurso “a” e avançava com força para soluções mais difíceis.

Candal, foi posteriormente ,um líder da Oposição em Aveiro e deputado pelo PS. Morreu cedo e respeitado como político e como advogado.

Tentei pensar no discurso de alguns aparentes opositores do Orçamento  que daqui a dias terão de se pronunciar pelo chumbo in limine da 1ª votação. 

E a coisa seria mais ou menos assim.

 

Todos os portugueses sabem que desde sempre nos pronunciamos contra este projecto de Orçamento, claramente lesivo dos direitos dos trabalhadores, das pequenas e micro-empresas, dos funcionários públicos, dos jovens, dos reformados, dos restantes assalariados, enfim do povo em geral. 

O PS porem prefere sempre aliar-se à Direita, ao Patronato, aos interesses conjugados do capitalismo mundial, do imperialismo e das mais torvas tentativas da Europa para colocar Portugal como mero apêndice produtor de mão de obra barata e exportável para o estrangeiro. 

Tentámos até ao ultimo momento, fazendo cedências para facilitar o diálogo, mas deparámo-nos com uma barreira de hostilidade e de anti comunismo primário. 

Aprovar o Orçamento seria trair não apenas os nossos militantes, os nossos votantes, mas também todos os portugueses honrados que, eventualmente, terão por engano votado noutras forças políticas. É em defesa deles, do povo, dos trabalhadores e do futuro que, somos forçados a declarar que este Orçamento não terá o nosso voto mesmo que, eventualmente, se venha tentar confundir a opinião pública, afirmando que o nosso partido alinha em maiorias negativas. A chantagem não terá senão uma resposta. Que se juntem, como é sempre o caso, aos partidos da Direita. Se, porventura, essas forças votarem igualmente contra, o nosso partido desde já declara que é visível a diferença de motivações e razões que nos move. É a contragosto que assumimos a hipótese de derrubando o Governo, se ter de ir para eleições. Todavia, antes isso, do que, e para citar, um antigo primeiro ministro socialista, o nosso partido aceitar afundar-se no pântano das alianças duvidosas e da políticas que arruínam o país

 

A segunda versão passará mais ou menos pelo mesmo território vocabular 

 

O nosso partido desde sempre entendeu que este Orçamento não serve os interesses do país, das classes trabalhadoras, dos jovens, dos intelectuais e das restantes forças progressistas. O povo sabe perfeitamente em que trincheira estamos e e como sempre dedicadamente o tentamos defender. 

Durante as discussões para tentar evitar uma crise política sempre prejudicial para o país, para os trabalhadores e para o povo em geral.

Nesse diálogo difícil e exigente, conseguimos obter alguns relevantes avanços na boa direcção, mesmo se não possamos afirmar que tivemos ganhos em todos os pontos que defendemos.

Todavia, mesmo com vitórias limitadas mas significativas em políticas que servem o povo e os trabalhadores em geral e impedem o patronato de continuar a sua política de brutal exploração, entendemos, fazer das tripas coração, e para citar uma frase de um grande líder político português iremos engolir um elegante se esse foro caso.

Ao abstermo-nos nesta votação, sabemos perfeitamente que abrimos caminho à continuação do PS na governação mas, e isso é ainda mais importante, impedimos a Direita reaccionária e capitalista  de conseguir o seu grande objectivo que era o de levar o país  a uma longa paralisação de meses, o que significaria um enorme sacrifício para as classes trabalhadoras, para os jovens e para o povo em geral. Esse intento desde cedo anunciado pelos partidos que tentam fazer regredir a pátria e anular medidas de incontestável progresso social, não poderia nunca ter o aval do nosso partido. Votar com a direita nunca foi o nosso objectivo , nem sequer a nossa prática. 

Desta maneira, abstendo-nos na discussão na generalidade, entendemos que novos e importantes passos ainda se podem dar nas discussões na especialidade. 

É nessa espectativa, pois, que anunciamos a nossa posição. Não apoiamos o PS mas seguramente estamos em condições de bater de forma clara a tentativa golpista da Direita. E mais uma vez o país verificará que o nosso partido está onde sempre esteve: na vanguarda da luta contra a exploração dos trabalhadores e do povo em geral.

 

E o dr. Costa, poderá uma vez mais dormir descansado. Os seus apoiantes dirão que ele é o mais hábil dirigente político do século XXI e que o bom senso triunfou. 

O sr Presidente dormirá igualmente tranquilo mesmo sabendo nós que dorme pouco ou nada. 

O país, irá para o fim de semana, encolhendo os ombros e resmungando que isto é tudo a mesma choldra.

Algum comentador apropriar-se-á do título de uma peça de Shakespeare e usará de novo a batida frase muito barulho para nada. O meio de comunicação social que o emprega pagar-lhe-á a verba do costume e algum leitor achará que a criatura é fina como um alho...

 

Leitores, isto hoje saiu assim com mau humor e preguiça ue chegue. O dia está feio, chov, o frio anuncia-se e eu estou cada vez mais velhio e descrente. Tenho porém a sensação que daqui a um par de dias um destes dois discursos ouvir-se-á. Tendo para o segundo mas nada garante que o parlamento possa enlouquecer. 

au bonheur des dames 415

d'oliveira, 15.10.21

empregada-de-mesa-alemão-ou-bávara-com-canecas-d

Quadros de uma exposição, perdão de uma colecção

mcr, 15.10.21

 Olê, mulé rendera 
Olê, mulé rendá 
Tu me ensina a fazê renda 
Que eu te ensino a namorá…

(Lampião, 1922  )

 

 

 a leitora Maria Miguel que me escreve, desculpando-se do nome com que a baptisaram que me desculpe. Podia ser bem pior. Por exemplo, Miquelina!

Aliás, talvez movido pela moda recente , eu até acho Mª Miguel, um nome bastante potável. Olh se fosse Vanessa. Ou Natahca (os ignorantes não sabem que é um diminutivo –russo – de Natália). Portanto, avisada que está a questão da ida à pia baptismal, coisa de que geralmente não temos culpa e, muito menos recordação, passemos aos nossos afazeres. A leitora, queixa-se que eu encaro o caso Rendeiro bonacheiramente, divertido quando “a coisa é muito, mas muito, feia” (sic, MM ).

Ora,  cara leitora (e já agora os que cairão na loucura, mansa, de me lerem mais esta crónica), esta história, à medida que vão conhecendo mais pormenores, é uma chachada (não xaxado, género musical brasileiro e nordestino, a que pertence a canção cuja 1ª quadra serve de epígrafe  - eu sei que é forçado mas que querem, lembrei-me de algo que ouvia muito quando era criança e isso é sempre terrível: não resisto, enquanto escorre uma vaga lágrima de saudade por um tempo que a memória traidora e vacilante e os horrores do tempo presente, tornam quase excelso - ).

Tudo nesta opereta, indigna sequer do parque Meyer, resuma a falso e a ridículo. Vejam só: dos 15 quadros desaparecidos ou dados como estando em parte incerta (como o dono...) já apareceram alguns que a sr.ª Rendeiro foi encontrar no “hall” da garagem.

Vê-se que gente fina é outra coisa. Então havia de haver na garagem, um “hall” de paredes nuas? Que diriam as pessoas desta falta de arte, bom gosto e decoração num hall, mesmo se de garagem.

Ainda por cima, a garagem é (ou era) o território privado do fidelíssimo e generoso motorista que comprou um apartamento por pouco mais de um milhão e logo o cedeu em usufruto à esposa amantíssima do patrão!

Para que não se dissesse que as relações laborais na casa Rendeiro eram como as que a CGTP passa a vida a denunciar, houve quem tivesse a ideia brilhante de pespegar lá um quadro, quadro bom, quadro de colecção, um Noronha da costa talvez, ou um Rezende, porque não, que os vieira da silva vão directos para a alcova do motorista, perdão, “chauffeur” de Monsieur et Madame. (noblesse, mesmo a dos parvenus!) oblige!

Eu, ao ler esta história lembrei-me logo de um casa alemã onde estive hospedado durante uma missão oficial e artística . A história é simples. Um grupo de alemães, residentes numa pequeníssima cidade, criou um “centro cultural” com o dinheiro que sobrara de umas obras citadinas. Vejam bem: a cidade resolveu fazer um pequeno bairo, alguma repartição, uma escola (que sei eu?) e, vergonha das vergonhas!, sobrou dinheiro. A câmara municipal ia morrendo de susto pelo erro orçamental e lá conseguiu empandeirar o inesperado diferencial para construir um centro cultural. Em Wiesloch (no Land de Baden-Wurtemberg).

E depois de criada a instituição, desataram a promover actividades culturais. No grupo de sócios mais aniados, estava uma senhora portuguesa casado com um cavalheiro alemão. Durante uma exposiçãoo de pintura de artistas da região, lembrou-se a excelente senhora do seu longínquo Portugal, do Norte, aliás e eis que, munida de plenos poderes nos apareceu na Delegação Regional de Cultura propondo um intercâmbio de exposições. Achámos (o Rui Feijó e eu) que a ideia era interessante e como os alemães se prontificavam a arcar com a despesa quase por inteiro, ainda melhor. Quando lá fossemos, levaríamos a nata dos artistas portuenses ou a trabalhar no Porto, dando-lhes um pouco de publicidade internacional, tanto mais que os alemães prometiam fazer circular a nossa ostra por vários sítios.

A exposiçãoo alemã lá se fez, e com ela vieram duas ou três dúzias de entusiastas da pequena cidade. Recebêmo-los com folares e cavalhadas, eles gostaram e partiram cheios de presentes que entretanto conseguimos recolher junto de várias casas exportadoras de vinho do Porto.

Na altura de pagar a visita, o Rui pediu-me pelas alminhas que eu fosse o representante oficial da Delegação e também do Ministério que, uma vez sem exemplo, nos apoiou com muitas e boas palavras. Entendemos que, já agora, valia a penas convencer os artistas a fazerem a excursão, pagando, claro, do próprio bolso a viagem de autocarro. Em boa verdade, esse grupo era já um habitué de excursões à estranja para ver exposições, assistir a espectáculos etc. 

Eu aceitei a incumbência exigindo apenas ir de avião pois temia enjoar.  Fizera as minhas contas e descobria, contristado, que as ajudas de custo atribuídas me permitiriam comer um a refeição diária no caso de encontrar hotel barato. Todavia, fui, afinal tinha curiosidade em ver como funcionava aquela pequena cidade e a sua instituição cultural.

Para surpresa minha, verifiquei que os alemães, cientes da pobreza endémica lusitana, tinham decidido alojar toda a lusa expedição nas casas dos sócios do Centro cultural. Eu, personagem importante, fui destinado à casa do amabilíssimo presidente, um médico simpático e dado ao consumo de champanhes de primeira qualidade. A casa era bonita, tinha um agradável jardim, estava pejada de pintura por todo o lado.

E agora, a parte “rendeira”: a casa de banho dos hóspedes estava dividida em duas partes  e na da santa, bem atrás do assento onde “todo o vale se caga e todo o cobarde faz força” estava um belíssimo original de Sempé, um reputado autor de bd francês, coisa para custar uns milhares de euros!

Não sei se o proprietário detestava o artista ou se, à falta de outro espaço, o pendurara ali.

Resta dizer que esses dias em Wiesloch foram extraordinários, aquela gente era gentilíssima, levaram-nos a uma série de cidades próximas, não permitiam que gastássemos um tostão (vejam há quanto tempo isto foi...)Parecia que havia um sistema de vigilância sobre os hóspedes portugueses de tal modo que se algum entrava num café quando ia pagar respondiam que a conta já estava liquidada.

Eu lá tive que fazer de representante da pátria dos egrégios avós, de alinhavar umas discursatas que os jornais locais reproduziram com elogios, e a exposição foi um êxito enorme. As peças foram exibidas em vários outros círculos, a televisão fez um documentário de mais de um quarto de hora, eu tive de improvisar uma apresentação da cidade, da região e das forças vivas culturais que foi copiosamente distribuída e comentada. Apenas duas ligeiríssimas nuvens toldaram a minha estadia. No dia aprazado para me estrear num voo em bal\ao, o ceu e o nevoeiro negaram-me essa alegria. Em segundo lugar, todas as noites os meus hospedeiros me convidavam para despachar umas garrafas de Veuve Clicquot na companhia de artistas e sumidades locais. Ora eu detesto champanhe! Ao terceiro dia, o meu hospedeiro descobriu-me clandestinamente sentado numa esplanada a atacar um copázio de cerveja. Espantado (os alemães, às vezes, são ingénuos, perguntou-me se eu gostava de cerveja, como se não lhe bastasse o copo de litro que eu emborcava com visível e sequiosa alegria. Quando respondi afirmativamente, todas as restantes noites me dava escolher entre o caríssimo champanhe e umas óptimas cervejas de diferentes proveniências (sempre alemãs, claro).

Claro que gastei todas as ajudas de custo em prendas para esses amigos que me receberam tão fidalgamente. Ao fim e ao cabo, esse dinheiro não era meu...

Voltando à vaca fria: o aparecimento de uma peça no hall da garagem (ninguém percebe o que é que a briga ada da Judiciária andou a bisbilhotar pela casa  sem dar com o quadro, ora reaparecido nõ é mais do que a versão portuguesa, e em calão, do acontecido com o original de Sempé pendurado em cima de uma retrete para hóspedes de marca.

Eu não sei se a srª Rendeiro sabe fazer renda, nem me ofereço para a ensinar a namorar pois tenho-a como espsa fidelíssima e bem casada. O marido estará em local incógnito como alguns dos quadros ainda por encontrar mas ela tem o expediente suficiente para provar que a Judiciária, em questão de buscas, não lhe chega aos calcanhares. 

A  vinheta: era deste tmanho a caneca de cerveja que eu pacatamente bebia em Wiesloch