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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

23
Mar19

estes dias que passam 391

d'oliveira

 

 

Nós gostamos de viver

(anónima moçambicana)

 

mcr,  21/3/19

Não há palavras que consigam descrever com um mínimo de fiabilidade a tragédia que se abateu sobre o território de Sofala, desde a Beira até à fronteira com o Zimbabué. As imagens medonhas que a televisão nos oferece ficam sempre aquém da realidade.

De facto, o solo está empapado, quando não está completamente submerso. As chuvas violentas, as cheias dos rios (os casos do Pungué e do Búzi) a iminência de novas e fortes descargas nas barragens do outro lado da fronteira, ameaçam a sobrevivência dos sobreviventes (passe a expressão: é que quem ainda não morreu está em forte risco como se verá adiante).

E ameaçam por várias razões que se multiplicam umas às outras: as estradas estão cortadas; há pontes destruídas; o mar continua tempestuoso e as condições climatéricas desde o vento, às chuvas tornam ainda mais difícil a já de si penosa e escassa chegada de socorros.

Não há água! Ou melhor, não há água potável. Pior a água parada é um vector crítica da malária que, ninguém duvide, vem aí e em força.

Não há casas, ou quase: na Beira mais de dois terços do edificado está em ruínas. Mesmo a cidade do cimento, notem bem. Nem me atrevo a pensar nos imensos bairros periféricos, o “caniço” que acolhiam mais de 80% da população.

O ciclone levou tudo incluindo boa parte da resignada esperança: móveis, alfaias agrícolas, celeiros, excedentes – parcos, paupérrimos – agrícolas, economias, roupa, tudo. Dói ver a imagem de um homem carregando uma pobre cadeira de plástico (dessas que cá, à mínima esfoladela, ninguém quer e deita ao lixo. O nosso lixo é uma cornucópia de abundância naquelas terras devastadas.)

Seria fácil e tentador criticar os poderes públicos, a má governação, pela falta de meios, de manutenção, de cuidados de que a Beira sofre desde há décadas. Tudo isso é verdade mas nada disso importa agora. Sobretudo, porque as vítimas, e estamos a falar de centenas de milhares, de mais de um milhão, quiçá de vários, não são responsáveis pela desatenção, pela inépcia ou pelo desgoverno dos governantes. São, numa esmagadora maioria camponeses pobres, trabalhadores humildes na cidade que sempre tiveram pouco se é que alguma vez tiveram algo.

A urgência agora é enterrar os mortos e cuidar dos vivos, como diria o tirânico mas enérgico marquês. E até isso é difícil: ainda não foi possível encontrar todos os que morreram debaixo das casas, das árvores das ruínas, da água.

Os vivos, e nisso incluo os “ainda” vivos, aparecem nos noticiários em cima de telhados abatidos, de árvores, na bancada de um pequeno campo de futebol, errando por rios de lama e destroços, sem outro rumo do que uma possível   -mas longínqua (inalcançável?) – salvação.

Como essa mulher moçambicana que confidenciava à reportagem: “Precisamos de tudo, de uma manta, de comida que só comemos uma vez e não há nada para a noite. É que nós gostamos de viver... “

Mesmo no meio da mais profunda miséria, esta mulher, estas crianças, estes homens, este povo, gostam de viver. Mesmo se, aqui, essa vida pareça um longo e dramático caminho das pedras...

Eles não conhecem nada melhor e o pouquíssimo que tinham, mesmo se insuficiente, se injusto, era melhor do que nada. Vejam bem: a Beira e a sua região interior sobreviveram à guerra civil, às dezenas de milhares de minas terrestres que ainda há pouco matavam quase diariamente homens e bichos. Como a Gorongosa (que já foi um dos maiores e melhores parques de África e que, graças a um americano maluco e amante da África estava a renascer) onde o desastre ia cicatrizando...

Vivi em Moçambique entre o terceiro e o fim do quinto ano do liceu. Voltei lá por três vezes em férias longas de Verão. Aprendi alguns rudimentos (escassíssimos) das línguas vernáculas das zonas onde vivi. Na medida do possível tentei saber mais da história dessa sequência de terras que agora se chamam Moçambique. Tenho em casa alguns, muitos, centos de livros e revistas sobre a região. Em tempos longínquos, que não renego nem esqueço, tentei perceber melhor a situação colonial. Assinei, levantando as suspeições do costume, nas polícias do costume, algumas publicações legais (entre outras “O Brado Africano”) ou nem isso. Já aqui descrevi (testemunhando na medida do possível) a iniquidade dos sistemas de “contrato”, de culturas obrigatórias (sisal, copra, tabaco, algodão, sobretudo), da obrigatoriedade de identificação especial para se circular na cidade e de muitas outras que nem é preciso citar. Li com paixão (que mantenho) o Zé Craveirinha, a Noémia de Sousa ou o Rui Knopfi, sem esquecer o meu querido colega do liceu Salazar, Manuel Fernando Magalhães, autor de uma surpreendente novela “três vezes nove vinte e um”, sátira contra a militaragem em Moçambique (claro que foi preso).

 

A talho de foice, refiro outros dois autores moçambicanos: Luís Bernardo Honwana, autor de um exemplar conjunto de contos, “Nós matámos o cão tinhoso” (1964) e Luís Carlos Patraquim que, além de poeta, é jornalista e escreveu o que foi, para mim, a grande revelação da nova e arriscada ficção moçambicana: “A canção de Zeferias Sforza”, um retrato desconsolado de um país independente, de um partido na realidade único e uma concentração do poder (a todos os níveis) nos militantes mais obtusos mas mais obedientes.

 

Deixemos, porém, o domínio da escrita a que, em havendo tempo, voltarei, para nos concentrarmos no essencial: como ajudar? Como ajudar, já?

 

Basta ir ao multibanco em pagamentos, entidade 20999 e depois marcar 999 999 999 (nove noves, atenção) e doar o que puder. Claro que há muitas outras instituições (Cruz Vermelha, Caritas, Câmaras Municipais, corporações de bombeiros, o que se queira mas esta é simples e rápida. Por pouco que se dê, é muito para quem nada tem mas que “gosta de viver”.

Não estamos a ajudar um Estado ou um país mas tão ó um povo que não merece ser tão desventurado.

Não os deixemos morrer por incúria, indiferença, egoísmo ou preconceito que eles gostam de viver.

Kanimambu!, leitoras eleitores, kanimambu!, obrigado, kotchapela! Zikomo!, Kani! Bongile!, Eja! Assante!

*estas expressões tiradas de diferentes vernáculos moçambicanos querem todas dizer o mesmo : obrigado que é também moçambicano na medida em que o português é a língua oficial.

22
Mar19

O maior centro de congressos da Europa?!

José Carlos Pereira

Anunciou esta semana o "Expresso" que a FIL - Feira Internacional de Lisboa vai quase triplicar a sua área nos próximos 10 anos. Dos actuais 41.000 m2 passará para 110.000 m2, num investimento próximo dos 150 milhões de euros. Como sabemos, tudo à boleia dos compromissos para a manutenção da Web Summit em Lisboa.

Nada foi revelado ainda quanto à modalidade e aos responsáveis por tão elevado investimento. Quem paga? Quem fica dono de quê? Quem será responsável no futuro pelos enormes custos de operação e manutenção? Qual o retorno do investimento a médio e longo prazo?

O desregulado mercado de feiras, congressos e eventos ficará no futuro ainda mais desequilibrado entre Lisboa e o resto do país, como se não fosse já suficiente o efeito centrípeto da capital, da proximidade do Governo e demais instituições do Estado.

Passado o compromisso da Web Summit, sobre a qual também muito se poderia questionar, para que precisará o país do "maior centro de congressos da Europa"?!

20
Mar19

Au bonheur des dames 476

d'oliveira

No século passado

mcr 19.3.19

 

 

O dr Pedro Nuno Santos já se tinha distinguido em 2011 quando, sem pestanejar e, muito menos sorrir, assegurou que, no que tocava à dívida pública indígena, Portugal possuía a bomba atómica. Bastava dizer que não se pagava e as pernas dos banqueiros alemães começariam a tremer.

Era um delírio, provavelmente devido à mocidade da criatura e, sobretudo à sua falta de experiência de vida, de vida vivida, de vida a sério. PNS foi sempre político desde a sua filiação na Jota socialista até aos dias de hoje. Vê o mundo pelos óculos bem escurecidos, dos cargos políticos e duvida-se que saiba, mesmo vagamente, o que é trabalhar no duro para um qualquer patrão ou o que é andar na profissão liberal a começar a tentar obter nome e clientes.

Depois, também se viu que não sabia o que era a Alemanha, os alemães, banqueiros ou não (por favor mandem-no para lá três mesitos que ele talvez comece a perceber. Aliás, poderá mesmo ir para qualquer outro destino europeu para ver como as coisas acontecem. Poupo-o a uma ida a África pois aí seria bem mais penosa a aprendizagem do mundo.

Agora, volta à ribalta noticiosa por via de um fait-divers. A sua mulher foi nomeada chefe de gabinete de um senhor Secretário de Estado. Parece que ambos, a senhora e o secretariante cavalheiro se conheciam desde a Câmara Municipal de Lisboa e, provavelmente, dos labirínticos corredores do aparelho partidário.

Reinava nessa pouco longínqua época a confiança política e pessoal de um na outra e por isso, só por isso, o primeiro logo que se viu membro do Governo entendeu a que devia entregar a chefia do seu gabinete à senhora em questão.

 

A justificar a decisão estava o facto de a senhora em questão ser eficiente e de merecer toda a confiança do nomeante.

PNS veio a terreiro afirmar que a sua cônjuge merece ser tratada como qualquer outro cidadão/ã e não pode ser menorizada por ser casada com ele.

É comovente este apelo aos direitos humanos, mormente da mulher mas esbarra num escolho difícil de ignorar e que desde a antiguidade tem assombrado os políticos. A famosa frase À mulher de César não basta ser honesta, tem de parece-lo” atribuída a César para justificar o divórcio de Pompeia. De facto, diz a história que Pompeia organizara uma festa exclusivamente reservada a mulheres mas que um seu suposto apaixonado tentara itrodir-se no ágape disfarçado de tocadora de lira. Não conseguiu sequer aproximar-se da anfitriã pois foi rapidamente descoberto e expulso da casa de César. Todavia, este, quis o divórcio e justificando-o com a famosa frase.

A senhora Gamboa pode ser um génio, uma criatura leal, e uma trabalhadora incansável. Merece ter umacarreira política autónoma do marido. Porém, estando ele no Governo, poderá, com ou sem razão, ficar na opinião pública a ideia que só vai para “chefe de gabinete” (de outro membro do Governo) por ser cada com é.

A este propósito relembro uma história antiga muito glosada por um PS também antigo. Num governo PPD houve duas cônjuges de responsáveis ministeriais que também foram para “chefe de gabinete”. Uma das senhoras em causa foi para a Secretaria de Estado da Cultura e era casada com um ministro importante (eventualmente Dias Loureiro). Da outra perdi-lhe o rasto que isto ocorreu no século passado lá pelos anos 80/90. Durante um par de meses foi uma festa de ditos, de piadas, de acusações, enfim o costume.

Mais recentemente, e num exemplo “a contrario” temos que um cavalheiro de seu nome Jorge Simões, presidente do Conselho Nacional de Saúde, se demitiu logo que a mulher, Marta Temido foi indicada para Ministra da tutela.

Relembra-se que Jorge Simões já estava no cargo, que anteriormente passara, como presidente, pela entidade Reguladora da Saúde. Ou seja este professor prestigiado de Higiene e Medicina Tropical há muito que andava nestes domínios (inclusivamente durante o anterior Governo) e era reconhecido como uma autoridade na matéria.

Todavia, entendeu que mesmo estando há tempos no cargo não devia continuar porque sua mulher ia ser Ministra. Bem sei que no mesmo ramo mas o simples facto de já lá estar não poderia ser usado contra ele ou contra a Ministra.

Não vou afirmar que o Professor Doutor Jorge Simões merecia “não ser menorizado por ser casado com é” mas o pudor e o bom senso e uma certa ideia de sentido de Estado levaram aquele profissional reputado a optar por se retirar, reafirmando assim que é honesto e que parece ser honesto.

Este pequeno exemplo deveria servir para o senhor dr Pedro Nuno Santos estar caladinho e não vir para cá para fora a justificar algo que mesmo legal é dificilmente entendido pela opinião.

Ma ao cavalheiro que não percebe os alemães este género de argumentos não convence, se é que sequer os percebe.

Asim Deus (ou o diabo, a escolha é dele) o ajude, se bem que para isso tem ele, primeiro, que se ajudar.

(em tempos que já lá vão, fui convidado - e aceitei - para ser presidente de uma instituição pública. Tive, imediatamente, o cuidado de solicitar à Ordem dos Advogados a suspensão do meu mandato para não poder ser acusado de servir a dois senhores ou de confundir os interesses da instituiçõ com os do meu ofício de advogado. Já nessa altura, uma estadual e secretariante criatura me mostrou o seu espanto porque "nada me obrigava a tal decisão. Tive de lhe explicar com fria cortezia que uma coisa era a lei outra a ética e a vontade de estar em paz com a consciência. Claro que perdi dinheiro que me fartei. Mas dormi sempre bem...)

15
Mar19

Au bonheur des dames 475

d'oliveira

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Instantâneo na cafetaria

mcr (nos idos de Março)

 

Odeio a apalavra “cafetaria”: trata-se de um espanholismo mais do que dispensável mas que se impôs devido ao desuso de “café”. Hoje, os estabelecimentos do género foram desaparecendo ou transformaram-se em pastelarias-padarias, com um vago serviço de refeições que, elas mesmas, não são exactamente almoços e, muito menos, jantares, mas apenas um desafogo da fome que nos dá por volta do meio-dia, uma hora.

Eu, que já não me posso considerar uma novidade (eis outra palavra decaída: dantes novidade era bem mais do que uma notícia acabada de chegar. Significava também alimentos frescos, da estação, entre muitas outras coisas. Novidade era frescura, algo que, no capítulo da alimentação também já vai carecendo de sentido) ainda recordo os grandes cafés de antigamente, aqueles a que se era fiel toda uma vida, onde se podia até receber o correio e recados variados.

Havia cafés que além dos salões de jogo e dos bilhares ainda ofereciam outros serviços. O “Montecarlo” em Lisboa até tinha barbeiro, vejam lá. Para já não falar dos engraxadores, oficiais de ofício humilde mas útil que nos davam um ar novo e resplendente ao sapato. Hoje, também, os sapatos de couro vão desaparecendo, melhor dizendo, vão-se reduzindo a uma clientela rica, a única que pode dar-se ao luxo de comprar sapatos portugueses de grande qualidade e preço compatível.

Mas os cafés lá vão acabando, tornando-se mais pequenos, mais cafetarias, já quase não há bilhares e os que há são de snooker, ou melhor de uma variante do snooker que é bem distinta e mais fácil do que aquela modalidade que o Eurosport oferece amiúde e me põe doente só de ver como aqueles jogadores dominam a arte. Eu tenho cá por casa uma mesa de bilhar, bilhar francês , versão normal, nada daquelas grandes mesas onde se jogavam partidas “às três tabelas”. Mesmo assim, já não tenho parceiros e contento-me em jogar sozinho contra mim próprio o que, convenhamos, é pouco interessante.

 

Mas, como escrevia, estou na “cafetaria”. Contra o costume é agradável, o serviço é eficiente, há algumas ofertas originais para petiscar e, no inverno, há uma lareira enquanto que, no verão há ar condicionado. E fica mesmo em frente da porta da garagem...

 

Ao meu lado, uma senhora escreve com a mão esquerda. Canhota, portanto. Que inveja lhe tenho. Sou canhoto, canhotíssimo faço tudo com a esquerda, menos escrever. Naquele tempo, a escola primária (que alguém dizia que era “risonha e franca”) não estava preparada para meninos canhotos. Fui obrigado a aprender a escrever com a mão direita. Nem sequer me passou pela cabeça queixar-me em casa. Quando, muito mais tarde, falei disso, o meu pai perguntou-me porque é que eu calara aquela horrenda violência. Tarde piei...

Durante anos a minha caligrafia era mais indecifrável que o linear b. Tive de aprender a desenhar a letra. E tão bem o fiz que toda a gente ma gabava. Só eu me queixava de tantos anos de tentativas e de não ter aprendido a escrever com a mão que faz tudo.

Nem imaginam quanto me custa ver outros a usar a esquerda para escrever. E parece que se multiplicam esses canhotos felizes, raios os levem.

É verdade que (com grande dificuldade, há que dizê-lo) consigo escrever com a esquerda mas o que sai é uma caligrafia miseravelmente infantil, sinal indelével de um tempo outro em que, sob outro nome, já havia um politicamente correcto provavelmente menos perigoso e imbecil que o actual.

Vivemos, como afirmava o poeta, tempos realmente extraordinários, em que tudo parece possível e, ao mesmo tempo, extremamente perturbantes: há por aí alguém que seja capaz de me explicar o que se passa com os ingleses, melhor dizendo, os britânicos? Que é que aquela gente quer? Se é verdade que irlandeses e escoceses (e boa parte das classes mais educadas e jovens) votaram contra o Brexit, se como tudo parece indicar, a vida tornar-se-á mais complicada ecara para todos, como é que houve tanta gente a preferir sair da Europa?

O caso mais extraordinário é o do País de Gales grande beneficiário dos fundos europeus e maioritariamente contra a mão que trazia uma cornucópia de euros. Também não deixa de parecer extravagante que seja um pequeno partido do Ulster p principal apoio da senhora May uma fraca cópia de Margareth Tatcher, a dama de ferro. Uma fronteira a sério nessa ilha poderá trazer (ou trará inexoravelmente) a guerra civil larvar que ausou milhares de mortos e consequente miséria mesmo à minoria protestante irlandesa. Sobretudo, quando se vê actualmente uma República da Irlanda próspera e liberta da férula católica que a asfixiava. A Grécia, há pouco tão incensada, por alguns radicais portugueses (que entretanto já não podem ver o senhor Tsipras, herói decaído das senhoras mais representativas do BE (será que o substituíram pelo grande burguês Varufakis ou mais tolamente ainda pelo venezuelano Maduro ou pelos resquícios autoritários do sandinismo que atormentam a Nicarágua?)

E já que se mencionou a Venezuela, então o famoso apagão da semana passada é obra dos americanos? Isto quando se sabe que a principal central eléctrica (Guri) esta sem manutenção há mais de dez anos e reduzida a um terço ds suas possibilidades, como desde há dez anos já se afirmava. Se não foi o traiçoeiro Trump foi o senhor Guaidó... espantalho conveniente num país one há anos falta tudo excetpo a fome, as prisões políticas e os mortos em manifestações pacíficas.

Eu, que já não sou uma novidade, ainda me lembro de um famoso apagão em Nova Iorque que teve consequências tremendas. Olha se os americanos se tivessem lembrado dos mais recentes inimigos vietnamitas (a guerra durou até 1975) ou do “inimigo interno” (estudantes protestatários, black panthers ou outros grupos negros de direitos civis) o que não se teria então dito. Pelos vistos, agora, a versão de Maduro obtém o assentimento beatífico de meia dúzia de cidadãos portugueses, alguns dos quais piedosamente calados durante o Estado Novo. Naquela época o silêncio destes agora buliçosos indignados e venezuelófilos (o neologismo é da minha responsabilidade) permitia conservar os empregos na função pública e escapar ao serviço militar nas colónias, nas frentes de guerra activas e perigosas.

Raios me partam, canhoto que sou, não percebi que estar calado poderia ter-me evitado tantos dissabores e, ao mesmo tempo, permitiria apresentar-me, hoje, de cara lavada e impecável (mas imaginativa) folha de serviços anti-fascistas, anti-imperialistas e anti mais qualquer outra coisa que me viesse à ideia ou estivesse na moda.

Dia seguinte:

Entretanto, mudei de poiso matinal. Na esplanada de sempre com vista desafogada para o jardim. O sol (primavera antecipada que iremos pagar com uma valente seca lá mais para o verão) entra pela vidraça do teto e acerta-me em cheio na cabecinha pensadora. O sr. Luís, dono do pequeno local jura que já encomendou uns panejamentos de lona para proteger a clientela mais sensível a estes excessos luminosos. Só que... ”o sr. dr. Já sabe. Neste país tudo é para se ir fazendo e nada para se fazer já. A encomenda foi feita no ano passado e já vamos em Março...”, lamenta-se.

É bem verdade. Vivemos de projectos, de promessas, de antecipar o futuro para melhor prolongar o passado pegajoso, lento e ineficaz que trazemos no ADN.

Veja-se, para não ir mais longe, o triunfo daquela triste criatura que comanda a lista do PS às europeias. No seu mandato, as promessas acumularam-se. No que toca à ferrovia foi o que se viu. A realidade, sempre essa miserável que só faz desfeitas aos políticos, é menos buliçosa: faltam comboios, falta pessoal de manutenção, as linhas do Oeste (Figueira da Foz –Lisboa), do Algarve e do Sueste funcionam ao pé coxinho, melhor dizendo com os dois pés coxinhos. Em todas as circulações eliminaram-se comboios e, mesmo assim, o atraso é a regra. As linhas de Sintra e de Cascais que carreiam para Lisboa, centenas de milhares de trabalhadores, tem horários rarefeitos tem menos composições, e as que ainda circulam já deveriam estar retiradas por terem ultrapassado há anos o prazo de validade. Um dia destes há uma desgraça e vai-se a ver nunca aparecerão responsáveis. Ou aparecem os do costume, uns desgraçados que não mandam nada, que ganham uma miséria e que são obrigados a conduzir aquilo, aquelas latas de sardinha sobrecarregadas sob pena de, se o não fizerem, se reclamarem, se denunciarem o previsível naufrágio, serem despedidos.

Os polícias manifestaram-se: parece que no que toca a aos de serviço perdidos ainda estão pior que os professores. Parece também que não há subsídio de risco, que não lhes é reconhecido o estatuto de profissão de desgaste rápido, que as esquadras (ou uma significativa parte delas continuam a ter deploráveis condições, para já não falar na falta de viaturas e de outros meios. Felizmente que os criminosos indígenas são mansos e, muito portuguesmente, pouco activos. A apregoada segurança dos cidadãos deve-se não à capacidade policial mas apenas à frouxidão endémica do crime local de baixa produtividade o que, aliás, está de acordo com as mais recentes estatísticas sobre o trabalho nacional. Há males que vem por bem!

* a ilustração: acidente de comboios em Alfarelos. 

 

13
Mar19

"Descentralizar o Estado, Reforçar as Regiões"

José Carlos Pereira

Participei esta semana na conferência "Descentralizar o Estado, Reforçar as Regiões", que assinalou o início das comemorações dos 50 anos da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte. Entre as intervenções que marcaram a conferência estiveram as de Luís Valente de Oliveira, Luís Braga da Cruz, Miguel Cadilhe e Eduardo Ferro Rodrigues.

A defesa convicta da regionalização atravessou os discursos, com Miguel Cadilhe a defender que a legitimidade dos futuros dirigentes regionais impõe a sua eleição directa e o presidente da Assembleia da República a defender que o processo da regionalização deve ser retomado depois do ciclo eleitoral que decorrerá ao longo deste ano.

Calou fundo na plateia a intervenção do presidente da Junta da Galiza, Alberto Núñez Feijóo, que enalteceu a cooperação transfronteiriça com o Norte de Portugal e, sem querer imiscuir-se no debate nacional sobre a regionalização, revelou dados relevantes sobre a evolução daquela região. Sublinhando que a autonomia pressupõe uma total lealdade ao estado espanhol, referiu nomeadamente que o PIB regional cresce mais do que o PIB de toda a Espanha ou que a dívida pública e o desemprego na Galiza são inferiores ao total espanhol.

Quanto ao investimento público, Alberto Núñez Feijóo adiantou que 50% é realizado pelas regiões autónomas, 25% pelos municípios e os restantes 25% pelos estado central espanhol. Números que devem fazer reflectir todos os que pugnam pelo desenvolvimento harmonioso e integrado do país.

 

12
Mar19

Sou do tempo em que o sindicalismo era uma actividade nobre, de intervenção…

JSC

Sou do tempo em que o sindicalismo era uma actividade nobre, de intervenção…

Nos dias de hoje olhamos para muitas práticas sindicais e só podemos concluir pela perversão do movimento sindical, tomado de assalto por pessoas que, verdadeiramente, nunca foram confrontadas com o problema da perda do emprego, com a exigência da pontualidade, da produtividade. Estou a falar de pessoas que têm no sector público a sua zona de conforto, exactamente o sector onde não se observa, directamente, o confronto entre o dono do capital e o trabalhador em si mesmo.


Deve ser por isso que é neste sector que estão a surgir as maiores aberrações sindicais. Os partidos, todos os partidos, não podem continuar a fechar os olhos a esta realidade perniciosa, que acabará por ser contrária ao próprio movimento sindical e aos princípios que deve prosseguir.


Há dias um presidente de um sindicato decidiu fazer uma greve de fome. Onde? À porta do Presidente da República.


Hoje, um presidente de outro sindicado decide iniciar uma greve de fome. Onde? À porta do Presidente da República.

 

Como parece óbvio, estas pseudo greves de fome não passam de um reality show, a clamar a atenção do Presidente e, em especial, dos tempos televisivos.

 

Por se tratar de um reality show, não nos devemos preocupar com o assunto, até porque o estado de saúde destes grevistas não correrá perigo, em momento algum.

 

O que nos deve mesmo preocupar e levar a questionar os decisores políticos é como é possível que os contribuintes paguem, ano após ano, mais de 36 mil dias de faltas ao serviço para que milhares de policiais desenvolvam a sua actividade sindical? Só na PSP há 17 sindicatos, 3680 dirigentes mais os delegados sindicais.

 

Quando ouvimos (e ouve-se demasiadas vezes) um destes sindicalistas dizer que as esquadras não têm agentes para fazer rondas, para reforçar a vigilância, não seria de lhe perguntar quantos polícias, nesse dia, nos últimos dias, faltaram ao serviço para desenvolver actividade sindical? E, já agora, que actividade é essa que obriga milhares de agentes?

 

É para esta realidade que se deveria olhar e tratar. O show da greve de fome é isso mesmo, um episódio de televisão.

08
Mar19

Diário Político 214

d'oliveira

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para que o mcr não fique aqui sozinho

d'Oliveira, fecit, 8 de Março

La Lega

 

A oilì oilì oilà e la lega crescerà
E noialtri lavoratori, e noialtri lavoratori
A oilì oilì oilà e la lega crescerà
E noialtri lavoratori vogliam la libertà

 

Sebben che siamo donne
Paura non abbiamo
Abbiam delle belle buone lingue
Abbiam delle belle buone lingue


Paura non abbiamo
Per amor dei nostri figli
Per amor dei nostri figli
Sebben che siamo donne
Paura non abbiamo


Per amor dei nostri figli
In lega ci mettiamo

A oilì oilì oilà e la lega crescerà

(este é um lohgo excerto da canção "la Lega", tão do nosso gosto naqueles anos difíceis. A ilustração é, obviamente, uma gravura dos tempos da Revolução Francesa)

























 

 

08
Mar19

Au bonheur des dames 474

d'oliveira

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o oito de março devia ser todos os dias, há de ser todos os dias

mcr, 8.3.2019

 

Se l'operaia non va in paradiso, non va in paradiso è perché
Non sa come andare avanti
se la prende coi padroni, se la prende coi padroni e con i santi
E dio si arrabbia e non la vuole più.

Se l'operaia non va in paradiso, non va in paradiso è perché
Sta a guardare le signore
e si chiede che cos’hanno, e si chiede che cos’hanno di migliore.

Non ha tempo per i figli
Crescono in casa come conigli
Si lamenta del suo stato
Produrre, far l'amore e fa’ ‘l bucato.

Se l'operaia non va in paradiso, non va in paradiso è perché
ha perduto la pazienza, 
non le va di fare più, non le va di fare più la riverenza
E Dio si arrabbia e non la vuole più.

 

para Anna Maria O., florentina, ourives, a quem num momento de estravagante mas nunca lamentada loucura amororosa ofereci "Portogallo mio rimorso" de Alexandre O' Neil . Demorei mais de trinta anos a reencontrar o livrihoe outros tantos a não esquecer este amor de verão su la spiagia, stessa spiagia, stesso mare...

(leitoras - se as há, a letra da canção vai no original pois parece fácil de traduzil e  mais de entender)

*na gravura: "maternidade" etnia Bulu 

07
Mar19

Nós, os outros e a recessão (ou o Diabo...)

José Carlos Pereira

De há uns meses a esta parte assistimos a um coro de vários comentadores políticos e económicos de direita, que quase fazem apostas sobre o momento da chegada de nova recessão económica. Bastou um pequeno abrandamento de alguns indicadores nos últimos trimestres para logo virem criticar as opções seguidas nos últimos anos.

Para esses comentadores, é certo que um novo ciclo recessivo está à porta, pelo que o caminho a seguir seria não abrandar a austeridade, não devolver rendimentos retirados a trabalhadores e pensionistas, em suma, não deixar os portugueses "respirar".

A última edição do "Expresso" veio, no entanto, deitar um balde de água fria a esses comentadores e a alguns políticos. De uma assentada, Christine Lagarde, directora-geral do FMI, Olaf Scholz, vice-chanceler e ministro das finanças alemão, e François Villeroy de Galhau, governador do Banco de França, em diferentes entrevistas, defendem que não estamos perante a iminência de uma recessão. Reconhecem, é verdade, que há um abrandamento das taxas de crescimento da economia global, fruto sobretudo de alguma incerteza geopolítica, mas o "Diabo" da recessão não está para já à vista.

06
Mar19

Estes dias que passam 390

d'oliveira

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E o raio do Carnaval que não chega (III)

 

Deus, Pátria e Família (ou quase)

 

Eu não queria falar dos variados laços familiares que ornamentam este Governo. É que, do ponto de vista de Sirius, receio ser preconceituoso mas, mais comezinhamente, do ponto de vista do cidadão comum que sou, parece-me um exagero: Marido e mulher (ou vice-versa, não vá ser acusado de machismo) pai e filha se é que não há por lá padrinhos e afilhados, primos, parentes longínquos, enfim toda a parafernália do que, eventualmente, poderia configurar um potencial caso de nepotismo, parecem-me um caso de imprudência política. Não vou dizer que um ou outro é incompetente, ou está ali apenas por ser familiar, mas a bem da democracia e da transparência (mais uma nova palavra a ser rapidamente gasta pelas esquinas da opinião pública) conviria que estes casos não ocorressem. Tudi isto, este cerrar de horizontes, dá a ideia de uma elite exausta, incapaz de procurar sangue novo fora dos limites da sua freguesia, do seu bairro ou da sua rua.

 

Ao que sei, e sei muito pouco, a dr.ª Mariana Vieira da Silva é licenciada em Sociologia e a partir de 2005 andou pelos ministérios. A ideia com que se fica é que, fora o trabalho político nunca teve contacto com a vida de todos os dias, as chatices de procurar um emprego, de ser mal paga, de aturar patrões chatos ou simplesmente exigentes.

Há quem afirme de modo mais ou menos genérico que a senhora é muito competente, coisa que, por cortesia, vou aceitar mesmo se valesse a pena ser provada com factos concretos. Não lhe invejo a sorte de suceder a uma Ministra competente, discreta e burramente empurrada para um segundo lugar na lista de candidatos a Bruxelas. Aqui, vai ter de mostrar se, além de filha querida, é também competente e capaz de fazer isto andar para a frente.

Ora, o seu primeiro assomo no Ministério parece ser a proposta de um dia de luto nacional pelas mulheres vítimas de violência doméstica. A ideia é, sejamos generosos, peregrina. Que efeitos se pretende com isso? Bandeirinhas a meia haste? Discursos e soluços de comoção na véspera do 8 de Março? Alguém espera ver o agressor que rebentou o tímpano à aterrorizada mulher, que anda espavorida a esconder-se por aí, a vir pela rua fora de baraço ao pescoço. Pés descalços e a cabeça coberta de cinza a bradar pecavi, pater pecavi, chorando baba e ranho?Ou, mais extraordinário ainda, será que um certo magistrado virá a terreiro afirmar que, volta e meia, sai da realidade e dispara mais depressa do que a própria sombra, como o excelente Lucky Luke que, aliás só maltratava bandidos horrorosos mas simpáticos pelo menos no que toca a mulheres pois não consta que batessem nas legítimas se é que as tinham?

Ou iremos ter direito em todos os noticiários a uma mão cheia de ministros e outras idênticas luminárias a solenemente garantir que agora sim, agora é que os violentadores domésticos vão saber com quantos paus se faz uma cruz?

Eu até poderia espera que o governo, ou então o Parido, propusesse uma lei a aumentar fortemente as penas contra esta indiscriminada perseguição das mulheres (mesmo das “adúlteras”, das “descaradas”, das que “provocam” o inocente macho lusitano, das “que o abandonam” (horribile dictu!) . Será difícil?

Dirão que não há tempo para concretizar a medida. Sem dúvida, mas também não há tempo (nem dinheiro) para concretizar os famosos 11.500 quartos em residências universitárias e andou por aí um secretário, ou Subsecretário, tanto faz, a anunciar isso como se a medida fosse para ontem e não para as calendas gregas.

Apetecia-me substituir-me ao extremoso pai e dizer comovido: “Marianinha, não seria melhor ir pôr um raminho de flores no túmulo da misera e mesquinha Inês de Castro?”. Ainda por cima fica em Alcobaça, aqui tão à mão e t\ao romântico.” (Bem sei que a bela Inês foi executada e que o crudelíssimo e desalmado Pedro – que só por chalaça é chamado de Justiceiro – não meteu para isso nem prego nem estopa. Se esta Inês não servir então recordem Maria Teles de Meneses, amante de um dos bastardos desse mesmo Pedro que, roído de ciúmes a matou também em Coimbra no palácio de Sub-Ripas, acicatado por Leonor Teles, irmã da assassinada e mestra eximia em malas-artes.

 

Da vida de estudante

E já que se falou nessa cornucópia de residências universitárias a vir numa manhã de glorioso sol, vale a pena analisar a conversão do ex-Ministério da Educação em residência. No meu peregrinar por Universidades estrangeiras tive a sorte de ser alojado, por cinco ocasiões em residências deste género: na Holanda (Amsterdam), na Itália (Trieste), na Alemanha (Berlin oeste), em Espanha (Madrid) e na Jugoslávia (Ljubliana). O programa era mais ou menos assim: Havia quartos que tinam uma pequena casa de banho, outros apenas com um lavatório, ficando os duches ao fim do corredor. As cozinhas comuns estavam também instaladas em cada andar e poderiam ser utilizadas por várias pessoas ao mesmo tempo. Duas dessas residências tinham mesmo cantinas no rés do chão o que era bastante prático. Isto, convém dizê-lo, entre os anos 60 e 70. Ou seja, há praticamente 50 anos! Conheci, ia-me esquecendo, uma residência portuguesa, em Lisboa, na Visconde de Valmor, se não erro com instalações modelares. Alojaram-me lá, por duas semanas enquanto esperava embarcar para Moçambique num programa de férias que, nós mesmos organizávamos a preços excelentes. Havia apenas o problema de só na véspera do dia de embarque sabermos se havia ou não vaga naquele avião. A residência era gerida pela Mocidade Portuguesa, organização com a qual não só não mantinha nenhum vinculo mas abominava. Todavia a ideia de dormir ao relento e de fazer jejum também não me agradava pelo que lá pedinchei um quarto prometendo pagar a hospedagem quando regressasse de férias. Não paguei mas ainda hoje encaro a ingratidão como uma falta. As dívidas pagam-se e a verdade é que nessa residência estivera alojado até semanas antes da minha chegada, o Joaquim Chissano, meu antigo colega no liceu de Lourenço Marques e posterior Presidente da República de Moçambique. (também ele deixou um calote que no caso tinha alguma forte desculpa. Não se “dava o salto” avisando da saída e pedindo a conta.)

Ora, um programa de residência estudantil implica pois um fartote de obras mesmo se o prédio lá está. Em poucas palavras aquilo, se tudo correr com celeridade, projecto, concurso, adjudicação, obras (e atrasos!...), irá demorar uns anos, três ou quatro, pelo menos. O mesmo se poderá dizer com todos os restantes prédios já identificados (adorei a ideia de umas cocheiras num palácio lisboeta!...).

Este anúncio, mesmo se feito com boa fé, peca por parecer mera propaganda eleitoral. Anuncia-se algo que este Governo não fará e que só com muita celeridade se irá concretizando na segunda metade da próxima legislatura...

Eu, velho do Restelo e mau patriota, estou nisto como o troiano ao ver o cavalo de Ulisses: Timeo Danaos et dona ferentes (ou seja: arreceio-me dos gregos mesmo quando dão presentes).

 

ADSE, um romance policial?

(entradas de leão...)

 

São cada vez mais patentes as desafinações nesta opereta em que a doutora Sofia Portela deveria representar o papel de casta diva e o coro dos maus ficava a cargo dos “privados” sejam eles quais forem. Foi exemplar (mas pediam-se mais três sessões) o programa da RTP 1 sobre a questão.

É que ainda não se sabem algumas coisas.

A saber: como é que se controlam as despesas apresentadas pelos “privados”? quantos desses privados abriram demasiadamente a boca (dez, vinte, noventa, como alguém adiantou)? Há nesse número de degenerados que “querem lucrar com a saúde dos portugueses” algum(s) dos grandes hospitais que, provavelmente arrebanharão a parte de leão dos actos médicos? Quais são os actos médicos que apresentam diferenças notáveis? E a quanto ascende cada diferença? Há algum acordo antigo entre a ADSE e as “piranhas” privadas sobre preços de todas e cada uma das intervenções que se efectuam? Como é que despesas de há três e quatro anos só agora são analisadas? É verdade que, ao invés de ver reforçados os seus quadros, a ADSE tem vindo a perder trabalhadores e, sobretudo, trabalhadores especializados na análise e controlo das despesas? Porque é que a ADSE não aceita mais utentes especialmente os provenientes da função pública? É verdade que, como foi afirmado na referida emissão da RTP, que o Estado tem guardado ao fresquinho um total de 500 milhões de euros do Instituto Público? Percebendo-se quea ADSE é só financiada pelos utentes, como é que aparecem nos seus órgãos entidades como autarquias, sindicatos etc? Qual é a hipótese de um utente como eu com mais de quarenta anos de desconto para a ADSE pode intervir, fazer perguntas, obter respostas, enfim ser ouvido com alguma atenção devida a quem mete ali 3,5% do seu salário ou da sua reforma? Deve o Conselho Directivo da ADSE ter membros não utentes? Etc., etc... (a lista de perguntas é infindável e pelos vistos, só agora, de supetão, é que se fazem.

E fazem-se porque estalou um conflito começado com a denúncia vaga de um excesso de 38 milhões de despesas cobradas sem justificação capaz que teve como primeira resposta uma ameaça de suspensão de prestação de serviços por parte de dois ou três grandes grupos hospitalares.

É verdade, como foi repetidamente afirmado na já citada sessão televisiva, que, ao contrário do que oficiosamente sai do Conselho Directivo, não há qualquer reunião oficial e/ou formal entre prestadores de serviços (e nesses os grandes grupos capitalistas, monopolistas e lesivos dos mais sagrados interesses do povo, dos utentes, do proletariado e da pátria sofredora) e a virginal direcção da ADSE?

Neste momento, começa a ser perceptível uma certa vontade de apaziguamento: declarações incendiárias de certos responsáveis da Saúde baixaram de tom ou, até mesmo, cessaram. De repente perante a iminência de corrida desenfreada aos hospitais do SNS, de quebra maciça de quotizações na ADSE, eis que uma certa calma parece surdir. Do lado dos privados, nomeadamente dos grupos hospitalares de grande dimensão, a ameaça d suspensão é, ao que parece, apenas algo que eventualmente poderia suceder mas que, para já está apenas no domínio dos cenários possíveis. Claro que a ninguém e sobretudo a estes prestadores convém uma quebra acentuada da procura de cuidados médicos. A saúde, ao contrário do que só os tontos asseveram, é também um negocio. Sempre foi, basta atentar que desde que há médicos há medicina privada. Aliás, até há bem pouco tempo, a grande maioria dos médicos exercia nos seus consultórios, em clínicas privadas. Só uns quantos estavam nos hospitais públicos que, de resto, sofriam a concorrência dos hospitais das Misericórdias mesmo em cidades tão importantes quanto o Porto. A expressão “direito à saúde” significa tão só que se entende que nenhum cidadão possa ficar privado de cuidados médicos sejam eles públicos (Centros de Saúde ou Hospitais Públicos ) ou convencionados. Neste último grupo é preponderante desde sempre a acção dos laboratórios de análises para onde o SNS encaminha praticamente todos os utentes não internados. Ou os dentistas, a fisioterapia e mais um quarteirão de especialidades a que, por diversas razões, os hospitais não podem dar resposta atempada.

Muitos dos pretensos salvadores do Estado providencial deveriam ter pensado nisto, ter-se lembrado disto em vez de subirem às trincheiras desguarnecidas da defesa a outrance do SNS. O SNS é uma boa ideia, vai funcionando e, para já, deveria ver os quadros hospitalares completos de médicos, enfermeiros e demais pessoal de saúde, auxiliar e administrativo. Deveria, urgentemente, melhorar as instalações que, em muitos casos, estão degradadas, reorganizar sob uma nova óptica centrada no doente muitos serviços, delimitar cuidadosa e prudentemente o estatuto do seu pessoal, impedindo a transumância que, ainda hoje, se verifica entre hospital público e medicina privada.

Quem padece só tem uma ideia: ser tratado bem e rapidamente, num ambiente digno, são e acolhedor. Tudo o resto é conversa fiada ou, pior, desconversa, propaganda, ideologia oca quando não mera estupidez.

Pede-se mais sensatez, mais inteligência e mais cidadania.

A todos e cada um.

 

20 anos 20

O Bloco fez vinte anos. Digamos que atingiu a maioridade. O primeiro sinal disso éos malabarismos e contorções com que se vai fazendo ao Poder. A sua direcção percebeu, há muito tempo, que quem quer atrepa até lá chegar.

A postura anti-sistema nunca deu frutos mesmo se salva as boas consciências, sobretudo as mais juvenis. Ainda por cima, o BE tenta caçar nos terrenos do PC (e de vários micro-grupos esquerdistas que nunca puderam, souberam ou quiseram um lugarzinho ao sol).

O PC que, aliás, nunca foi anti-sistema, guarda o seu campo cuidadosamente seja nas autarquias seja nos sindicatos seja nas múltiplas frentes de massas com que vai adubando a sua futura seara e criando alguns militantes e funcionários. Ao fim e ao cabo tem quase cem anos de experiência própria e alheia. É disciplinado, pouco dado a arroubos, não se envergonha com a companhia da Coreia do Norte, da China de capitalismo de Estado ou de Cuba mesmo se esta vai dando sinais de ferrugem (muito perto dos EUA e muito longe do fantasma da URSS).

O BE nasceu de um casamento surpreendente de três grupos com diversa tradição, formação e importância. De um lado os resquícios da UDP (ela mesma já resultado de fracções e re-arranjos de diferentes grupúsculos nascidos no fim dos anos 60 ou já post 25 Abril. Teve a sorte de eleger um deputado que manteve ao longo de várias eleições. Primeiro era um operário patusco e depois o inefável major Tomé, um militar que viu a luz durante os mais ásperos momentos do PREC). A presença destas criaturas no parlamento angariou-lhes uma pequena clientela que conseguiu eleger sempre por Lisboa um único mas miraculoso (e miraculado) representante. No resto do país a UDP era só paisagem. A seguir, temos a malta trotsquista (não todos claro que uma das características dos movimentos que se reclamam da IVª Internacional é nunca estarem todos de acordo no mesmo momento. De todo o modo havia um pequeno partido, a LCI e mais tarde o PSR que lá foi titubeando pelo áspero caminho do marxismo nacional (mas de inspiração francesa, até no nome) tendo de notável o facto de os seus militantes – ao contrário de muitos “maoístas” nunca terem estado dentro do PC. De resto, mais ainda do que os maoístas, foi na universidade e nos liceus que recrutou quase todos os seus militantes. Finalmente, o terceiro e mais reduzido dos grupos fundadores vinha directamente do PC, surgido do mal estar de muitos militantes com o conservadorismo de Cunhal e com a apática política cultural nele produzida ou teorizada. Não é bem a bela história de Jules et Jim e da extraordinária mulher que os acompanhou, longe disso mas é deste namoro a que aderiu Fernando Rosas (que percorreu toda a escala: foi do PC, da Esquerda Democrática Estudantil do MRPP e finalmente do PSR (agrupamento que o candidatou sem êxito ao parlamento) que finalmente sai o BE. Como cocktail político é mais um cacharolete dada a impossibilidade teórica (e historicamente comprovada) de se misturarem tantas e tão diferentes tendências que sempre se esmurraram (em todos os sentidos) voluptuosamente em defesa de minúsculas diferenças que eles consideravam maiúsculas.

Muita e boa gente previu um naufrágio iminente mas a verdade é que, mesmo com pequenas cisões internas e várias saídas abruptas, a coisa se manteve. É provável que para isso tenha contribuído o facto de, à falta de outras frentes, o Bloco ter conseguido aguentar e fazer crescer moderadamente um grupo parlamentar. Isso deu visibilidade, pelo menos nas grandes cidades e serviu de refúgio aos eleitores órfãos do PC e do PS que viam no voto BE um voto de protesto. Vi, mesmo gente que nada tinha a ver com qualquer brotoeja esquerdista fugir do PSD zangada e correr para votar no BE convicta de que assim também não apoiava o PS ou o PC.

A “geringonça” permitiu à direcção bloquista fazer as vezes de pagador de promessas e de farol das mais lídimas aspirações de uma certa burguesia educada e urbana. Se estivéssemos em França (onde aliás, volta e meia, aparecem fenómenos semelhantes) diria que o BE “est três tendance”. Traduzindo: está na berra, está na moda, é “bem” que se farta.

Todavia, por muto marxizante (enfim um marxismo muito sui generis) que se queira, o BE continua aflitivamente em busca de uma base social popular, trabalhadora (nem me atrevo a dizer proletária) e de polos significativos na esmagadora maioria das autarquias portuguesas. Na frente sindical vale menos do que o PS ou o PSD ou, até, provavelmente, do que o CDS. Dir-se-ia que subsiste em boa parte graças ao “ar do tempo”, ao “espírito do tempo”. E ao prodigioso equilibrismo da sua direcção política. A seu tempo tudo será “pesado, contado e dividido” se me é permitido citar, de cor, mesmo sem ser particularmente propenso a visões apocalípticas, o profeta Daniel.

Parece que o senhor juiz Neto de Moura vai atacar nos tribunais todos (ou alguns ) dos críticos que com mais ou menor felicidade e ironia lhe zurziram os fundamentos não jurídicos das sentenças em dois casos de violência doméstica. Como qualquer cidadão ele é livre de fazer o que lhe passa pela cabecinha pensadora. Todavia, sendo eu também um vago jurista (não praticante, graças a Deus) sempre, e em nome de algum resquício de solidariedade corporativa e, sobretudo temendo que a sua inusitada acção aumente uma já forte corrente anti magistrados, sempre lhe recomendaria mais discrição. Este processo vai ser a risota, melhor diria o escárnio da parte alegadamente ofendida, vai dar recursos de toda a ordem e, eventualmente acabará no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. E aí, aposto dez contra um, as pretensões do juiz ofendido não terão qualquer êxito que por aqueles lados vive-se já longe do “ancient regime” . E já, envergonhado enquanto português, imagino a chacota dos media europeus.

Ainda por cima, o caso Neto de Moura, torna-se ainda mais frágil porquanto este senhor juiz pediu ao STJ que o dispensassem do julgamento de caos de violência doméstica. Se bem percebo, fê-lo – e muito bem, por esta vez- porque se conhece e reconhece que a sua visão do mundo e da vida está em desconformidade com os tempos em que vivemos. Como se dissesse “eu sou assim, as minhas decisões nesta matéria vão ser alvo de crítica virulenta, de troça, de rancor e finalmente tudo isso irá recair sobre a generalidade dos juízes pelo que para prevenir tão medonhas situações seria porreirinho que me afectassem a outros julgamentos onde a mão, a perna, o corpo, o espírito de Eva (enviada pelo Maligno) sejam menos evidentes”.

O STJ recusou e isso condena o juiz ora desembargador a eventualmente tomar decisão inoportuna sobre algum eventual novo caso (e eles aparecem em catadupa...) .

Portanto, eu, no caso dele, teria fingido que nada era comigo e evitaria mais esta exposição pública seguramente desagradável.

 

 

O dr António Costa foi a um programa de televisão muito badalado (ou pelo menos, péssimo espectador que sou, muito visto). Eu não conhecia a apresentadora que, para meu gosto, se ri demais, tem uma voz que roça o desagradável e se veste de um modo bizarro (mas eu sou um velhadas e um conservador). Nesse programa entendeu fazer uma “cataplana” de peixe. A família que compareceu em peso (que bonito!) jura que ele é o cozinheiro da casa e que cozinha bem (melhor do que a mulher, como esta própria reconheceu. Ora aqui está uma bela aproximação ao “8 de Março). Fiquei comovido e com água na boca se bem que prefira uma boa caldeirada à pescador à algarvia cataplana.

Este acontecimento mediático-carnavalesco ocorreu em pleno Carnaval e foi, há que dizê-lo, bem menos imbecil e indigesto do que as longas reportagens sobre a miríade de carnavais que assola o país onde umas criaturas tentam provar ao pagode que cá também se samba. Não é verdade. Cá samba-se mediocremente, é uma péssima imitação do Brasil e o resto da folia é de uma pobreza imaginativa que brada aos céus. Então os pobres diabos que se vestem de mulher são de uma tristeza infinita. Vá lá que enquanto andam por aí a fazer tristes figuras não batem nas caras metades. Algum ganho se há de ter numa terra onde depois do futebol e do fado se afinfa forte e feio nas fêmeas (até há, uma santa, muito da minha devoção, que é a pafroeira das mulheres maltratadas pelos cônjuges – Santa Rita de Cássia, cuja procissão em Caminha é um festim para a boa disposição de qualquer ateu benevolente).

Bem fez o Presidente da República que desandou para Luanda e, mal chegou, foi ver o corso de lá. A criatura não perde pitada. E, desta feita, não houve selfies. Ficam para os próximos dias que os angolanos não perdem pela demora...

*na grvura: "caretos" de Podense, ou um carnaval português Ese... autêntico.