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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

homem ao mar 96

d'oliveira, 24.07.21

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Liberdade vigiada 84

A rua deserta

mcr 24 de Julho

 

Há na toponímia portuguesa várias menções a data. Em Portugal, o 24 de julho significa principalmente a entrada das tropas liberais comandadas pelo duque da Terceira em Lisboa, com isso, o breve reinado de D Miguel o usurpador praticamente terminou.

Em Moçambique, e sobretudo em Lourenço Marques (e mesmo actualmente em Maputo) o significado da data é outro. De fcto foi nesse dia que o Marechal Mac-Mahon, Presidente da República francesa decidiu(em 1875)  a favor de Portugal a posse da Baia de Lourenço Marques, dita do Espírito Santo, ou Delagoa Bay. Acabaram, assim pela arbitragem do francês, as pretensões da Grã Bretanha. Aliás, esta decisão co-envolvia todo o território a sul, ou seja praticamente todo o sul do Save.

A avenida 24 de Julho africana tem quase cinco quilómetros e era (ainda é) uma das mais importantes artérias da cidade. Tenho boas recordações dela pois vivi lá quer quando cheguei, quer quando parti de Lourenço Marques. O liceu, o único liceu, no meu tempo, que obviamente se chamava “Salazar”, e era moderníssimo e misto no terceiro ciclo, era a dois passos.

Todavia, não era a  isto que vinha, mas tão somente, ao meu desolado sábado lisboeta. De facto, hoje não houve “feira dos alfarrabistas”. Pelos vistos a Junta de Freguesia não permitiu mesmo se a dois passos, no Príncipe Real se realizasse, em pleno jardim, outra feira desta feita de velharias! Isto se é que são as freguesias quem manda nestas coisas. Se é a Câmara Municipal , tal só indiciaria uma clara má vontade à cultura, coisa, de resto comum a muitas câmaras municipais mesmo quando afirmam o contrário.

O dia continuou amargo pois, tive a confirmação que também “Le Monde” deixa de vender a edição em papel em Portugal. Agora, e sabe-se lá por quanto tempo, só temos acesso ao suplemento semanal “selection”. Depois do “El País” e provavelmente com “la República” que também não se avista há tempos, eis-nos isolados (não sei quantos jornais ingleses e alemães ainda cá chegam mas no mostruário do quiosque no Largo do Chiado nota-se que há menos imprensa diária estrangeira.

Claro que me dirão que me basta fazer a assinatura digital mas, queiram desculpar, não é a mesma coisa. Até pode ser mais barato mas comigo isto é um habito de 60 anos (no caso de “Le Monde”) e uns bons 40 no caso do El País. Do “La República2 era cliente menos assíduo. Eu, no que toca a imprensa italiana fui muito freguês do “Paese Sera” e do Expresso que aliás assinei durante cerca de doze anos.

Gosto de recortar notícias e artigos mesmo se na esmagadora maioria dos casos nunca mais recorra a eles.

Nada tenho contra a internet, aliás uso-a de varias maneiras, excepção feita das “redes sociais”, (facebook et alia). Não uso, não estou, nem tenciono estar. Por junto escrevo neste blog e lembro-me com saudade dos tempos em que tinha mais interlocutores opinar, concordar ou discordar.

Provavelmente já não acompanho tanto quanto  devia as mudanças de um mundo em mudança, se é que posso exprimir-me assim.

A neta de um amigo meu, referiu-se à nossa geração como a geração do cinema a preto e branco. Achei que não valia a penas dizer-lhe que com metade da idade dela já muitos, provavelmente mais da metade, dos filmes eram a cores, mesmo se nem todas as fórmulas fossem naturais. E que, mesmo assim, alguns dos cineastas mais modernos insistiam no preto e branco.

É uma conversa inútil pois ainda há pouco vi outros jovens interessados pedir uma cinemateca onde se vissem filmes anteriores a 1990! Se a noção de clássicos já vai assim, nem vale a pena falar em Fellini, Ford, ou Griffith.

Eu também fui assim, provavelmente. E lembro-me do meu avô Alcino, melómano impenitente me dizer que Ravel era “demasiado moderno” para ele!.

À cautela não vou citar músicos demasiado modernos para mim. Com uma excepção: John Cage.

Mas juro que sempre gostei do Emanuel Nunes, um amigo dos tempos da primeira crise académica, a de 62, ou de Pendereky.

Sei porém que, à medida em que avanço em anos, mais difícil se me torna ter uma clara compreensão de tudo o que vai sucedendo neste mundo onde vivo.

Vou fingir que a a culpa é da crise climática...

* na vinheta: a “24 de Julho” de Lourenço Marques nos anos 60.  

homem ao mar 95

d'oliveira, 23.07.21

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Liberdade vigiada  83

O Estado editor

mcr, 23 de Julho

 

Fiz uma tentativa de ir ao Museu Nacional de Arte Antiga. Chegar lá já não exactamente a coisa mais fácil do mundo mas encontrar um lugar para estacionar seja a que preço for parece uma tarefa impossível.

Deixei essa visita para mais tarde e fui pelo catálogo antes que se esgote. O problema do catálogo é outro mesmo se bem característico das edições do Estado. Existe na loja do Museu, tão inacessível como o museu ele próprio e nas livrarias nem ouviram falar dele. As respostas iam desde o “ainda não foi distribuído” até “nunca aparece cá”.

Ou seja, repete-se a  mazela antiga comum a 95% das edições do Estado: não chegam às livrarias. Ou melhor: é provável que cheguem às duas ou três livrarias da Imprensa Nacional Casa da Moeda. Na internet uma consulta à FNAC, à Bertrand e à Wook não deram resultado. No entanto parece que uma das livrarias Almedina tem o livro. Não são muitas (três ou quatro, mas é melhor que nada).

Não sei, nem tenho possibilidade de saber se nas livrarias dos Museus Nacionais há o livro.

Eu, ao fim de anos e anos, de busca de livros, já conheço os truques todos e, sobretudo já sei que o Estado tem armazéns inacessíveis onde se amontoam edições próprias que praticamente não se escoam por falta de um aparelho de distribuição ou de um contrato com distribuidores privados.

Certa vez, procurando livros editados pela Comissão Nacional  das Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, soube numa pequena mesa de venda existente na Torre do Tombo que havia pilhas enormes de livros num armazém em S João da Talha com milhares de livros não vendidos. O problema é que também não havia quem os fosse buscar a tal sítio.

Vi algo do mesmo género com produtos de outras acções do Estado no campo editorial: dessa vez tratava-se de uma operação conjunta com editoras privadas. O Estado patrocinava a edição de autores clássicos portugueses e recebi em troca uns centos de  exemplares de cada obra.

Vi as garagens do Ministério da Cultura, ainda na Avenida da República, atulhadas de gigantescas pilhas de livros. Ninguém sabia o que lhes fazer. Nem sequer enviá-los para as bibliotecas que ainda não eram muitas mas que já existiam e se debatiam com uma pobreza franciscana.

Nem vou referir, pois tenho ideia de já o ter contado, os poucos projectos em que participei. À uma ninguém se lembrava de fixar um preço de venda(!!!) de outras vezes esqueciam-se de contratar um distribuidor e por aí fora: um desastre. Em determinada ocasião, a instituição que eu dirigia entrou numa vaquinha para editar um sumptuoso álbum sobre um grande cineasta português. Quando perguntei em que que data reuniríamos para fixar um preço de venda, olharam-me como se olha um marciano. Depois, percebi que os meus parceiros achavam que o livro, um livro caro, seria para dar. Finalmente, agarrei nos exemplares que me cabiam, fixei o preço e vendi-os todos num abrir e fechar de olhos. Ou seja paguei-me completamente do dinheiro entregue. E jurei que nunca mais.  

Desta feita eu ia em busca do catálogo “Vi o reino renovar (a arte no tempo de D Manuel I)” Vou arriscar: quando regressar ao Porto, irei à livraria da INCM e  eventualmente, caso dê com o nariz na porta, à Almedina. Se nada conseguir espera-me um longo telefonema para o MNAA e uma difícil negociação para obter o livro, combinar forma de pagamento, um inferno.

Cada vez que vejo umas alminhas pueris quererem pôr o Estado a fazer coisas culturais até me arrepio. E fico com a ideia que a coisa vai ser cara, incompleta e fora do alcance físico da esmagadora maioria das pessoas.

homem ao mar 94

d'oliveira, 22.07.21

Liberdade vigiada 82 

sob um céu cinzento

mcr, 22 de Julho

 

viajar trezentos quilómetros sem saber se o sol existe, ou, melhor, sem o ver não é apenas tristonho, é cansativo para quem já não tem os olhos de antigamente.

Aliás havia um vago cacimbo, pelo menos até Aveiro. Felizmente uso umas autoestradas com trânsito reduzido que, pelo menos tem a vantagem de permitir uma condução calma.

Estas autoestradas, mormente a A17 a A8 e mesmo a CREL nunca terão tráfico que as justifique mas faziam parte d plano de Sócrates (pelo menos a A17) de mostrar obra feita. 

Não vou ao ponto de dizer que alguém se terá governado à custa desta obra mas também não serei eu quem ponha as mãos no fogo, sequer ao sol de Verão (agora em parte incerta) pela lisura dos processos e da obra.

Claro que, enquanto figueirense, saúdo o facto da cidade ter sido desencalhada de de uma rede de estradas que vinham do tempo dos afonsinos. Mas reconheço que talvez uma via rápida tivesse tido o mesmo efeito.

E por falar em Figueira, temos, outra vez, mais um regresso do dr. Santana Lopes. Em boa verdade, ele sempre disse “que ia andar por aí”. Todavia, depois de muitas aventuras e graças a uma cisão do PS local, conquistou a Câmara da Figueira da Foz para o PSD.  Depois da Figueira, conquistou Lisboa A partir daí averbou derrotas políticas (perdeu cinco vezes a na tentativa de liderar o PSD), fundou algo de efémero chamado Aliança e teve nova e estrondosa derrota aí. Desfiliou-se e, subitamente, aparece como candidato independente na Figueira. E promete fazer três mandatos! O mesmo é dizer que Lopes quer continuar na política até aos 78 anos! 

Na Figueira conseguiu mais que quadruplicar a dívida da autarquia (de 9 para quarente e tal milhões de euros) coisa que os adversários não deixarão de lhe lembrar. Promete “pôr a Figueira no mapa”, resta saber a que preço. 

Também fica por saber por quanto tempo se aguentará na cidade, caso ganhe. E se estará disposto a ser um simples vereador ou se só se candidata a presidente, coisa que está muito na moda e é transversal a vários partidos.

De todo o modo, sempre quero ver se, como independente, com um PS pacificado e com um PSD pouco disposto a aturá-lo, ele conseguirá votos que cheguem para a sua impetuosa ambição.     

homem ao mar 93

d'oliveira, 21.07.21

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Liberdade vigiada 82

A caminho de Lisboa

mcr, 21 de Julho

 

Recomeço amanhã as idas a Lisboa que, durante anos, eram mensais e sempre em finais do mês. Desta feita, trata-se de uma ocasião especial. A minha Mãe faz, aliás perfaz, 99 anos. Ou seja no próximo domingo estará a navegar pelo seu 1º centenário, o que, apesar de tudo, merece ser celebrado.

Todavia, o tempo, esta incerteza constante em que vivemos desde há ano e meio, torna a efeméride um tanto ou quanto discreta. Em primeiro lugar, boa parte dos familiares sobrevivos não poderá festejar porque as regras em vigor e a prudência aconselham que as pessoas se limitem ao telefone. Depois, em volta da futura centenária são mais, muitos mais, os desaparecidos que os vivos, o que é natural. Mesmo assim, ainda se contam dois irmão e duas cunhadas viúvas, tudo gente na roda dos noventa e tal!

Eu ainda tive a sorte de conhecer uma bisavó e, se não erro, teria cerca de dez anos à morte de uma trisavó. Tudo gente da banda materna, vê-se que eram de boa cepa, tanto mais que, chegaram à extrema velhice sempre lúcidos e curiosos.

A  “old lady” continua, também ela, curiosa, interessada, com uma memória invejável que se já não é a dos primeiros anos dos noventa ainda tem muito que contar. O que não funciona são os olhos, pois a excelente senhora, deixou-se afectar pela mesma doença de que sofro, degenerescência macular, e quando, finalmente concluiu que a lupa enorme que eu lhe oferecera já era de pouco préstimo, foi ao oftalmologista que lhe propôs o tratamento que agora sigo: injecções nos olhos. A boa senhor entendeu que isso era demasiado, tanto mais qye uma amiga, um pouco mais nova, lhe disse que a coisa não funcionava. Eu suponho que essa amiga nunca entendeu que este tipo de tratamento não conduz a melhoras mas apenas tenta evitar que as coisas piorem.

De modo que uma leitora curiosa e atenta deixou totalmente de ler, não tem grande (nem pequeno!...) refúgio na televisão e agora ouve apenas o rádio, o que apesar de tudo, e pelo que ela todas as manhãs me anuncia, ainda lhe permite um contacto razoável com o mundo. É que também está surda o que torna os nossos telefonemas um tanto ou quanto erráticos. Frente a frente ainda controla bem uma conversa mas ao telefone a coisa plissa e ela finge que ouve mas nota-se que há palavras ou frases que lhe escapam.

Todavia, ainda vive sozinha, mesmo se de há anos a esta parte já tenha por precaução uma empregada para dormir lá em casa! Mas ainda não está, mesmo se já é paga como tal, instalada. Vem cedo, faz o almoço, compras, dá uma volta à casa e desanda ainda a tarde tem muito para andar. Entretanto o meu mais que excelente irmão chega, pela hora do lanche e durante um par de horas lá vão trocando impressões sobre isto e aquilo.

A mim o que me admira mais, é o facto da antepassada ainda querer fazer tudo em casa. Tudo, não exactamente, mas é ela que trata das louças do pequeno almoço e do jantar, que prepara as coisas para a sopa e por vezes é ela quem cozinha os seus pratos favoritos, cada vez mais simples. E ciranda pela casa com a vaga ideia de limpar o pó (que já não vê, de regar as flores afogando-as por vezes).Ou seja, e por outras palavras mantem uma notável independência.

Claro que já não quer sair de casa, logo ela que não hesitava em fazer uma surtida às sardinhas assadas, ao cozido à portuguesa, ao restaurante chinês, para não falar das animadas partidas de canasta com um grupo de amigas todas mais ou menos contemporâneas. Essa actividade de “bater a cartolina” no pitoresco dizer de um amigo meu, só acabou por via dos olhos, mas ela, corajosa ou resignada, ou ambas as coisas ao mesmo tempo, não se queixa. Da falta de livros e revistas, sim. Sobretudo destas. Os livros já a cansavam o que é compreensível: aqueles olhos já tinham muitos anos em cima deles, a lupa pesava-lhe.  Portanto jornais e revistas, artigos curtos que permitem pausas para descanso, muito bem e preencheram os  seus últimos anos de leitura. Quer eu quer o meu irmão inundávamos-lhe a casa de jornais, suplementos de toda a ordem, revistas e a boa senhora passava tudo a pente fino fosse o Público, o Expresso a Visão o El País ou o JL  

Agora somos nós que lhe sumariamos um que outro artigo que depois ela comenta com bom senso e humor.

Como a CG faz parte da viagem pois, também ela, tem quase toda a família em Lisboa e arredores, já estou a antever as longuíssimas conversas que seguramente terão, mesmo sendo ambas surdas!

Entretanto, aproveitarei, estes dias para visitar os meus amigos alfarrabistas que bem devem sentir a minha longa ausência (desde finais de Agosto) e a feira da rua Anchieta se é que não foi suspensa dada a situação.

E já que refiro estes salvadores de livros, aproveito para avisar que há pelo menos dois livros a sair nestes dias que talvez valham a pena. Um, de Valentim Alexandre sobre a guerra de África: “Os desastres da guerra – Portugal e as revoltas de Angola(1961: Janeiro a Abril) edição da “Temas & Debates; outro que também me despertou muita curiosidade, “Incorrigível” de Prostes da Fonseca, uma biografia de Carlos Rates, primeiro secretário geral do PC, mais tarde passado às fileiras do Estado Novo.

Como é sabido, o PC nunca foi exactamente um partido que ilumina os pontos mais obscuros da sua história. Aliás, as “Histórias” do partido são de uma confrangedora pobreza e simultaneamente pouco ultrapassam a piedosa hagiografia. Rates, mesmo desavindo e legitimamente expulso, merece que se saiba dele. O mesmo sucedeu a outros dirigentes ou militantes de relevo. sobre Pavel só há um livro de Edmundo Pedro (Um homem não se apaga) Não me recordo de nada de completo sobre Júlio Fogaça e há uma série de dirigentes imediatamente anteriores A Cunhal que também permanecem na mais absoluta obscuridade (Cansado Gonçalves, por exemplo).

Uma jornalista que conheci e que andava a fazer uma pesquisa sobre uma série de episódios da vida comunista antes de Abril queixava-se de que os velhos militantes se deixavam morrer sem escrever uma dúzia de páginas sobre a sua actividade revolucionária. E, ela, filha de militantes relembrou histórias da sua infância em que se destacavam vivos, generosos e combativos, militantes mais ou menos anónimos que tinham participado em aventuras às vezes surpreendentes. Disso, desse caudal de pequenos grandes gestos nada, ou quase, resta. Nuns casos por modéstia, noutros, a maioria por uma estratégia obsoleta de segredo e clandestinidade mal entendida.

Bem aventurado seja José Pacheco Pereira que na sua monumental biografia política de Cunhal (que também se arrasta desde 1999 e ainda terá provavelmente mais dois volumes, a acrescentar aos quatro publicados – o último volume data de 2015! O que me faz perder a esperança de ler toda a obra que presumivelmente só terminará daqui a dez anos.) vai narrando a vida do partido, da oposição e mesmo do país. Consta que no fim da sua vida, Cunhal terá declarado que JPP “sabia mais da sua vida que ele próprio”, o que prova que leu ou alguém lhe leu os volumes saídos até à data da sua morte.

Nas vinhetas: uma fotografia com uns bons setenta e sete anos e duas ou três prateleiras da estante por onde se acolhe a história recente de Portugal. distinguem-se com facilidade os livros de Pacheco Pereira; na estante superior deitados o livro sobre Pavel e outro de Francisco Miguel   Também aparecem livros sobre (e de) Francisco Martins Rodrigues, o movimento maoísta e, claro, sobre Salazar.

Os leitores desculparão o facto das fotografias estarem reproduzidas às três pancadas. Eu já não tenho conserto  mais ainda agora com os olhos em petição de miséria. 

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homem ao mar 92

d'oliveira, 20.07.21

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Liberdade vigiada 81

Orgulhosamente sós! (50 anos depois)

mcr, 20 de Julho

 

Essa lei aberrante que se traduziu na gongórica “Carta dos Direitos Humanos na Era Digital”, um nome comprido criado por um espírito curto, sofreu agora uma notável resposta no que concerne à atribuição de um selo de qualidade para quem verifica fake news- De facto 26 países consultados pela A R negam ter uma disposição semelhante e com as mesmas perversas consequências.

A notícia é avançada pelo “Público” de hoje porque graças a uma iniciativa da I Liberal a coisa volta a ser discutida no parlamento. Remeto os leitores para a notícia que ocupa toda a página 10 e tem chamada na página 1.

 

Esperemos que à falta da lei desaparecer, os artigos mais repelentes deixem de existir, que os “selos de qualidade” idem, que o sr. deputado Magalhães vá para uma mais que merecida reforma e se dedique a remoer sozinho abstrusas intrusões no mundo das notícias. As notícias falsas podem ter algum efeito algum tempo em alguns espíritos mas não conseguem atingir toda a gente e a todo o tempo.

O resto é conversa e vocação para censor.

 

O carro do sr. Ministro do Ambiente foi apanhado a 200 km à hora. O sr. Ministro afirma que não reparou deixando, pois, a responsabilidade deste excesso alucinante de velocidade para o “mexilhão”, isto é para o motorista que o conduzia.

Mais disse que, doravante está o modesto profissional seu subordinado, proibido de ultrapassar a velocidade permitida nas vias em que circular.

Tudo isto seria maravilhoso e obrigaria o cronista a dar os parabéns ao Ministro não fosse dar-se o caso de haver aqui duas pequenas contrariedades.

A primeira é esta: duzentos à hora não passam despercebidos. 130,140 ou 150 talvez mas 200 é de facto um excesso visível a olho nu. Claro que poderia dar-se o caso de o passageiro ir a dormir no fofo banco de trás. Os ministros, coitados, trabalham que nem mouros e acontece adormecerem nos intervalos das reuniões e encontros que mantem com as personalidades que visitam em trabalho.

Depois, temos que não é invulgar, é mesmo dramaticamente frequente os srs. Ministros, nas suas deslocações, tentarem meter o Rossio na Betesga, encontrar demasiada gente num tempo curto, o que normalmente, toda a gente sabe, se traduz em atrasos cada vez maiores à medida que o dia avança. Poderia dizer-se que os ministros chegam sempre tarde, inclusivamente ao primeiro encontro.

Também toda a gente sabe que um ministro d´ordens ao motorista para voar baixinho nestes casos em que o atraso se torna mais e mais visível.

E o motorista, que remédio!, lá dá ao pedal pois sabe que a culpa há de ser sempre dele.

Eu não vou acusar o dr. Matos Fernandes de ter dado expressamente a ordem para acelerar forte e feio. Mas aposto cem contra um que o motorista só i a 200 porque alguém o incumbiu disso. Os motoristas são, pasme-se!, gente como nós. Têm cu. E quem tem cu, tem medo. Portanto não serão adeptos de arriscar a vida só pelo inebriante prazer de fingir que participam no rali de Portugal.

Claro que não vou exigir (para quê? Que o dr. Fernandes assuma a responsabilidade pela excessiva velocidade. S.ª Ex.ª já afirmou que não reparou e que, além disso, deu ordens claras para o motorista respeitar o código da estrada. Se isto é assim, poderemos inferir que a culpa, como é hábito, cai em cima do imprudente condutor que, além do mais deverá pagar a multa respectiva e ficar inibido de conduzir por vários meses. Ora como a função de um motorista é conduzir o popó de S.ª Ex.ª segue-se que ao não poder fazê-lo por culpa própria terá de ser alvo de um processo disciplinar. E por aí fora...

Claro que, em algum país menos sofisticado e muito menos progressista, ao ministro poderia dar-lhe para assumir a responsabilidade. Felizmente, esse não é o caso. Por cá, a velocidade do automóvel é coisa absolutamente exterior à vontade do político. Doravante já se sabe, pé curto no acelerador e respeito pelo código mas isso é porque S.ª Ex.ª se preocupa com o ambiente e com a lei.

 

Outro a quem a velocidade também prega partidas com a cumplicidade do motorista, sempre essa classe pouco respeitosa e pouco respeitável!, é o dr. Cabrita.

Desta vez o “excelente” ministro tresleu um relatório. Onde nesse documento emanado de um departamento do seu ministério, o mesmo é dizer, um relatório suave e cândido como se deve, há umas aborrecidas verdades sobre os festejos sportinguistas por alturas da vitória no campeonato. Onde o documento aponta um trémulo dedo acusador à Câmara Municipal e ao MAI, o ministro leu que a culpa era de outrem.

Não vale a pena dar demasiada atenção a esta baralhada. Com o dr. Eduardo Cabrita, o preto é branco, o sim é não e o dia é noite.

 

Um amigo meu, acha que o dr. Cabrita é um “antípoda” queira isto dizer o que se quiser. É, pelos vistos, tudo ao contrário. Como aliás o próprio processo da revelação do relatório. Antes de ser  entregue o documento à comunicação social, foi esta convidada a ouvir o Ministro falar sobre algo que os atónitos jornalistas desconheciam.

É uma nova moda que se pegar dará resultados extraordinários: amanhã antes de rebentar um fogo, logo o ministro irá falar sobre a grandiosa actuação dele e a pequena ajuda dos bombeiros e dos meios aéreos. O público aplaudir-lhe-á verve, o talento, a constância perante a catástrofe e a coragem, claro, a coragem...

O neto Nuno Maria ao vê-lo na televisão pensará que ele é o capitão América e imitar-lhe-á o gesto largo que, no seu entender de três anos e meio e três palmos de altura, é um golpe de karaté no monstro das bolachas.

O problema do dr. Cabrita é que, na generalidade, os seus ouvintes têm umas dezenas de anos em cima e não creditam em fadas, bruxas, heróis da Marvel e assimilados. Pior, já nem se indignam com a criatura: riem-se dela!   

 

* na vinheta : modelo de carro recomendado para os senhores membros do Governo         

   

 

homem ao mar 91

d'oliveira, 19.07.21

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Liberdade vigiada 80

Comentar os comentadores?

mcr, 19 de Julho

 

Não vou escrever em defesa própria por várias razões: se é verdade que passo boa parte do meu tempo à conversa (ao menos espero-o) com um par de leitoras e leitores que fazem o favor de me aturar, não menos verdade é que os não vejo, os não conto, e só de longe em longe tenho uma resposta (ia a dizer feed back mas salvei-me a tempo demais um estrangeirismo que nada acrescenta – nem sequer sofisticação – ao português de todos os dias), uma pergunta, uma crítica.

Eu encaro isto, este folhetim, todos os folhetins, como uma conversa de bica aberta, numa mesa preguiçosa à volta de um café ou de um álcool nocturno (ai que saudades tenho das tertúlias do “snob” em Lisboa, do “club 21” no Porto, aqui ao pé de casa ou mais longe ainda das mesas descuidosas, ruidosas, conspirativas do “Mandarim” e da “Brasileira” em Coimbra ou da “Shell” e da “Caravela” na Figueira.

Muito do que vagamente sei, e o melhor do que sei, vem daí dessas reuniões tumultuosamente amigáveis, dessas infinitas discussões que se prolongavam até altas horas, noite fora, noite hospitaleira, noite de tods os sonhos, esperanças e ilusões

Onde estão o António Cunha Pinto, o João Quintela, o Pedro Sá Carneiro, o António Manso Pinheiro, o Zé Valente, o Luís Monteiro, o Zé Portocarrero? E outros, muitos outros, sobretudo os mais velhos a quem devo tanto, Marcos Viana, Jorge Delgado, Paulo Quintela, Joaquim Namorado, Carlos Mota Pinto, Luís de Albuquerque, Alfredo Fernandes Martins ou Rui Feijó? Que paciência enorme, que infinita generosidade tiveram para comigo!

Todos eles, com os meios da época, m tertúlias e jornais, nas aulas, onde quer que se propiciasse uma conversa, uma discussão amistosa, aí estavam prontos, sempre prontos para ensinar sem nada pedirem em troca senão um ouvido atento e uma mente curiosa e pronta para pensar.

Hoje mesmo, no “Público” Estrela Serrano parece insurgir-se contra uma alegada e excessiva abundância de comentadores na televisão. Eu compreendo mal esta, parece-me, má vontade como se participar numa roda de discussão, em nome próprio, dizer o que se pensa fosse algo de bizarro ou algo que deformasse a opinião pública. ES desconfia dos que vão a todas, dos que tem sempre uma palavra a dizer sobre uma infinidade de assuntos em que manifestamente não são especialistas.

Eu arreceio-me mais dos especialistas quando estes recusam dar espaço e palavra aos restantes. Faço parte daqueles cidadãos que entendem que a palavra no ágora é sempre bendita e desejável. É evidente que há quem seja capaz de dizer vinte asneiras por minuto mas isso, essa capacidade para asnear é imediatamente perceptível por qualquer criatura dotada de senso comum. Reservar a troca de opiniões ou a simples manifestação delas para um grupo restrito equivale defender que nas grandes discussões políticas, morais, éticas só alguns , um pequeno lote de iluminados tem o direito de se pronunciar. Daí até negar o simples acto de votar para todos vai um passo mínimo e que foi várias vezes dado. Por exemplo no Texas e em mais um par de Estados republicanos americanos a maioria conservadora quer dificultar o acesso à inscrição nos cadernos eleitorais (e por isso ao voto) de muitos cidadãos eventualmente provenientes de minorias raciais (negros, asiáticos, hispanos, eventualmente índios americanos) que podem desequilibrar a balança em favor dos Democratas.

Participei, nos tempos da outra senhora, em variadas campanhas para inscrição nos cadernos eleitorais que coitados eram minguados de gente. A polícia atenta lá ia aparecendo, mais ameaçadora do proibidora mas ciente que a sua sinistra sombra assustava muitos candidatos a votante e mesmo alguns dos nossos. Faço parte de uma minoria de “oposicionistas” ao Estado Novo que defendia a ida às urnas em todas e quaisquer circunstâncias. É verdade que havia “chapeladas” enormes, entradas maciças de votos, contagens aldrabadas, tudo o que quiserem. Havia, obviamente, mas eu queria, ao menos saber, quantos, depois disso tudo, éramos nós. Em Ditadura ou em regimes próximos dela, a Democracia nunca ganha. Portanto, não valia a pena estar a sonhar com a cereja em cima do bolo. Não havia bolo nem cereja nem o caroço dela. Por outro lado, o Regime era por demais conhecido cá e lá fora para se levar a sério as estrondosas vitórias de que depois se reclamava. Um simples voto contra era já um sinal, uma luz ao fundo do túnel. É que, sustentava eu, não parecia entusiasmante andar a por alguns milhares de cidadãos em polvorosa e depois, à boca das urnas, negar-lhes a dignidade do voto. É que esses cidadãos ou alguns deles tinham-se mostrado e por isso por essa coragem tinham direito a no dia das eleições fraudulentas irem com o melhor fatinho, com medo mas ousadamente, votar. Desistir na véspera parecia-me uma traição. E foi por isso que na única eleição em que se foi até ao fim (legislativas de 1969) fui voluntário para ser fiscal pela CDE na freguesia de Santo António dos Olivais. Um dos catorze processos em que figuro como principal acusado, é exactamente por isso. De certa maneira olho-o com mais carinho do que aos outros. E devo confessar uma coisa: ao apresentar-me na mesa de voto fui tratado com deferência pelos membros da mesa, todos da “Situação”. E tive acesso a tudo, participei na contagem, na acta, em tudo. Tenho a ideia de que aquela gente respeitava a audácia do rapazote que os desafiava e ao Regime que eles defendiam.

E quando, mais tarde, os polícias do costume, os esbirros do regime, me confrontavam com o facto de ter ido desafiar o Regime num acto eleitoral, eu respondia com a constituição, a deles, a de 33 e, curiosamente, a discussão ficava por ali. Sempre!

Portanto, e para regressar ao ponto de partida, não são os comentadores que estão a mais nas televisões mas sim a tentativa tosca de os limitar, de os “pôr no seu lugar”, de querer limitar o seu raio de acção.

E é também por isso que aqui estou, neste cantinho, a dizer o que penso, o que sinto, o que gostaria de ver. E é por isso que respondo aos que me interpelam, criticam, corrigem. Bem hajam quantos o fazem.

E é por isso, também, que estou ao lado dos que se     manifestam em Hong Kong ou em Cuba. Ou no Brasil ou em Budapeste Sem liberdade não há fartura que a substitua. E, como se sabe, nunca houve fartura nos regimes de partido único. Nunca houve progresso nos Direitos Humanos, nunca a felicidade das pessoas foi a primeira preocupação do Estado e do Poder.Aliás, nunca as pessoas estiveram no cento da actividade do Estado.

 

  • na vinheta: Éluard e Léger  o poema do primeiro ilustrado pelo segundo.
  • Vai esta em memória de Manuel Sousa Pereira, escultor, carpinteiro marceneiro, amigo, campeão do consumo de leite em minha casa durante anos, amador do belo sexo, conversador infatigável. Faz-me uma falta tremenda e o seu fantasma está constantemente a importunar-me. Foi levado pelo covid num dia estúpido de Março deste ano.

 

 

 

 

homem ao mar 90

d'oliveira, 18.07.21

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Liberdade vigiada 79

Domingo sem sol

   mcr, 18 de Julho

 

 

O Verão já não é o que era. Ou é mas dá-lhe para me fintar. A verdade é que, ontem, escrevi aqui que hoje iria tomar um café numa esplanada à beira mar. E iria relativamente cedo para evitar o calor\ao do meio da manhã e as hordas de veraneantes e passeantes que correm, possessas, para a beira aos domingos. Vem vestidas a preceito, de desportistas natos, mas aquilo é sol de pouca dura. Em chegando à hora do almoço, e porque a marcha rápida ou a corrida lenta lhes deram apetite, é comer à fartazana, coisas simples, uma feijoada, umas tripas, um cozido à portuguesa com todos.  Também há os que optam pelo cabrito assado e, nesta época do ano, com as centenas de restaurantes de Matosinhos a dar tudo por tudo por uma sardinhada.

O sol, porém,  cortou-me as vasas: desaparecido em parte incerta. Em vez dele, uma temperatura que só com boa vontade se pode dizer primaveril. E negrume das nuvens baixas ameaça mesmo uma chuvinha. Em Julho! Na segunda quinzena de Julho!

Desisti da Foz, pus um casaco de malha leve sobre a camisa e tomei o 1º, e sagrado, café da manhã aqui no supermercado do lado. Hoje neste bairro aprazível as esplanadas estão todas de pousio, Portanto restou-me aviar o café inaugural e melancólico no súper onde também comprei o jornal. O quiosque, ao domingo, também não abre, claro. Isto parece a Inglaterra ou a Baviera. Ao domingo não há nada para ninguém.

Descoroçoado, regresso a penates rapidamente. E tomo outro café, desta feita nespresso, sem grande convicção. E abro o jornal e dou de caras com a notícia da morte do Zé Carlos Serras Gago, um “rapaz” do meu tempo, aliás mais novo uma meia dúzia de anos.

Durante algum tempo, nas minhas idas mensais a Lisboa, eu encontrava-o repimpado na “Mexicana” à conversa com um grupo de amigas onde também estava a minha prima Maria Manuel. O Zé Gago era um bom conversador, culto, demasiado gordo e vinha também ele, do mesmo passado obscuro de lutas estudantis. Desandou para Paris por via da guerra ou de outra coisa qualquer  e por lá se civilizou como todos quantos demandávamos a Europa. E a Europa começava nos Pirenéus que antes havia uma Espanha amortalhada sob o bunker franquista, os camisas azuis, a padralhada mais burras do mundo, a tropa vencedora da guerra, um território desolado que mesmo no nosso tempo (vinte anos depois da guerra) ainda cheirava a campos de prisioneiros, a prisões miseráveis, a “grises” nos campus universitários, enfim pior do que cá.

Portanto, Paris era a primeira etapa do descobrimento do mundo e Zé Gago aproveitou quanto pode, julgo eu.

Agora já de nada lhe serve essa “oisive jeunesse” que no caso dele não foi assim tão oisive pois regressou a Portugal com um doutoramento na carteira. Ao que sei assou por Vincennes, uma universidade experimental onde havia professores ultra conhecidos e esquerdistas ultra convencidos. Esta mistura não deu grandes resultados pr toda a ordem de razões e por, sobretudo, ninguém se conseguir entender quanto à ordem que devia reinar na universidade.

De todo o modo, a aventura post-Maio 68  continuou por lá durante uns anos mesmo se os “lendemains” não cantaram e o horizonte (que havia de ser vermelho) nem sequer se apresentasse rosa desbotado.

Perdi a pista do Zé Carlos quando a minha prima e amigas entenderam zangar-se com a gerência da Mexicana e emigraram para outro local que me ficava à desamão e onde não era fácil estacionar.

Eu, da Mexicana e “environs” tenho várias recordações, incluindo aquela em que uma manifestação partida do “Técnico“ e com destino à Cidade Universitária foi bloqueada à entrada da Avenida de roma. Homem prevenido, pouco temente a Deus, e já rodado nestes “rodeos” onde fazíamos o papel (involuntário) de espancados, consegui fugir para a Igreja, esconder-me lá dentro, num desvão e só sair uma boa hora depois. Tendo verificado cuidadosamente que a polícia já não guardava o campo de batalha, fui até à Mexicana tomar um café reparador. E gostei do sítio, da esplanada, das raparigas que passavam por ali. O que nunca previ, nesse dia em que escapei dos 2safanões dados a tempo” foi que cinquenta anos depois ali voltaria várias vezes, sempre ao sábado e tomaria café com “raparigas do meu tempo”, mesmo se mais novas.

Os tempos estranhos que correm, a falta de contacto que geram, dão nisto: uma notícia do armador sobre o enterro de alguém de quem, em alturas normais, teríamos sabido que estaria doente, ou como foi o caso, no hospital.  A morte, por estes dias funestos, passou à clandestinidade, vem sempre de improviso, sem sinais de qualquer espécie. Um recanto numa folha de jornal e é tudo.

Um comentário entristecido num blog  e é tudo. Uma notícia na internet, três ou quatro fotografias, numa delas o Zé envergando um elegante “borsalino” que me fez recordar uma queixa dele sobre o preço absurdo desses chapéus, Pelos vistos, não resistiu e comprou mesmo um. Será que alguém se lembrou de o enterrarem com esse chapéu que ele tanto quis?

Na vinheta: um “borsalino” panama.  

     

o leitor (im)penitente 218

d'oliveira, 17.07.21

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Liberdade vigiada 78

Pequenos prazeres e...

mcr, 17 de Julho

 

Ai leitoras minhas, e leitores claro que também fazem o favor e o sacrifício de me aturarem caturrices próprias daminha idade. Ai, dizia eu, e com que razão: ia escrever sobre alguns livros recém chegados mas ao olhar para a estante dos livros em castelhano vi que uma prateleira periclitava. Acudi à pobrezinha e reparei num livro grande cujo nome me escapava dadas as minhas actuais limitações.

A curiosidade mãe de todos os vícios e todos os progressos humanos fez-me pegar nele e consuktá-lo com mais detença.

Era “O cameleón solteiro” de Camilo José Cela, galego e prémio nobel (1900). O livro belamente editado e ilustrado continha todos os artigos que Cela escrevera para “el correo galego” (e reparem desde já: enquanto Cela, maltratado por alguns na sua Galiza Natal por escrever sempre em castelhano, utiliza “o” o Correo aparece com o artigo grafado à espanhola: el!)

Já que me meti neste atalho, convém dizer que muitos, e porventura os melhores, escritores galegos escreveram em espanhol (ou castelhano para os mais rigoristas mas menos atentos à realidade da expansão da língua espanhola que é provavelmente a terceira maior do mundo)escreveram em espanhol (insisto) É o caso de Gonzalo Torrente Ballester e mais ainda de Valle-Inclan que carregava as suas obras de galeguismos razão pela qual proibia a tradução para o galego pois esse estilo misturado perderia sentido.

E continuando nesta rede de atalhos não me venham com Castelao, Rosalia ou Cunqueiro todos excelentes mas justamente limitados na difusão nacional e mundial pela língua usada.

Voltando à rua principal: saco o “camaleón...”, abro-o com a volúpia que calcularão e, ZAZ! CATRAPAZ!!!, a letra é miúda e já só lá vou com lupa!...Ai mcr, pobre leitor indefeso perdido na obscuridade...

Todavia, eu já me preveni com lupas várias e lá dei uma voltinha pelas crónicas sempre excelente de CJC. E redescobri que este belo volume, edição especial, tinha sido editado em parceria com a Xunta de Galicia, no “pontificado” de Manuel Fraga Iribarne, em 1991. Foi o próprio Fraga quem ofereceu este exemplar a Joaquim Montezuma de Carvalho, homem de letras, jornalista emérito que se relacionou com meio mundo sobretudo com escritores espanhois e latino americanos. Foi amigo de Cela e de Octávio Paz, ambos Nobel e o primeiro tinha-o em grande conta pois Montezuma foi um dos dez primeiros assinantes de “Papeles de son armadans” uma revista dirigida por Cela desde a sua ilha de Palma. Durou anos e anos esta revista que aliás publicou muitos portugueses, porventura aconselhados por JMC. Montezuma morreu em 2008 e o livro que Fraga lhe oferecera e que ele doara a um neto, apareceu na feira  dos alfarrabistas da rua Anchieta onde o comprei em Outubro de 2016. O livro traz o cartão de Frags, uma página de guarda escrita por Montezuma. São cerca de 270 crónicas curtas, deliciosas e em galego, um galego muito português como recomenda uma das cinco ou seis seitas linguísticas que não se entendem quanto à frafia da língua actual. O galego na Galiza apenas se conservou entre “labregos e marinheiros”, o mesmo é dizer entre camponeses e percadores. As elites refugiavam-se no espanhol até á chegada de Rosalia de Castro e mesmo depois. Agora a guerrilha da pronúncia e da ortografia vai rija e sem resultado seguro à vista.

De todo o modo, os portugueses que se chegam à Galiza nas férias (e são uma multidão!) pouco se importam falam em português e todos os compreendem. O rio Minho é mais uma vista bucólica do que uma fronteira. Ou já não é uma fronteira nem de contrabandistas. E as rias (Baixas ou Altas) tem praias deslumbrantes e águas menos frias do que as do litoral português!...

O meu projecto para o verão deste ano era carregar com a família para Nanin para um hotel excelente, cómodo, com praia privativa e excelente serviço de cozinha. E uma piscina para o Nuno Maria, claro. Todavia, as coisas ainda não estão para uma aventura dessas, como se vê. Fica para o ano. Os mariscos das rias de Pontevedra e Arosa, o peixinho desse mar não perdem pela demora. Para o ano, em Deus querendo, lá estaremos.

Entretanto, nem tudo se perdeu com o covid fdp. Apareceu-nos uma peixaria, óptima que nos traz a casa j´devidamente (e bem) preparado o peixe que encomendamos. Eu atrevi-me a perguntar ao senhor José Manuel se ele não me arranjava enguias. A CG crocitou uns disparates sobre cobras que eu, um pobre homem de Buarcos, ignorei olimpicamente. Ao fim de semanas de ansiosa espera, as enguias chegaram. A competentíssima D Cidália, fez-me uma robusta caldeirada delas que deu para dois copiosos almoços. Estavam de comer e chorar por mais. A CG provou mas não foi além disso pois “as cobras”... mas a D Cidália, que não conhecia o pitéu, ficou cliente. Se a esse almocinho juntar a chegada de  “Diz~lhe que estás ocupado (conversas com Alexandre O Neil)” de Joana Meirim , Tinta da China, 2021, “A Grécia de que falas (antologia de poetas gregos modernos”, tradução de Manuel Rezende, Língua Morta, 2921 e “Trieste” de Jan Morris (uma autora de livros de viagens imperdível) podem calcular que, mesmo com a sombra da pandemia no horizonte próximo, lá me vou safando.

Assim os olhos ajudem!

E amanhã, vou ler o jornal para uma esplanada à beira mar. Cedo para não perder uma boa mesa e não ter muita gente à volta. Logo que a multidão preguiçosa começar a chegar e com ela o calor do fim da manhã baldo-me para casa, para o fresquinho...  

* na vinheta a estante nº 4 a da ficção espanhola e latino americana As três filas de cima e a quarta, livros em duas filas estão carregadas de Cela e Ballester. E no espaço horizontal vazio deveriam estar “A la pata de palo”, “O camaleón solteiro” e “Ls caprichos” todos de Cela que, por serem compridos só ali couberam. Na fila de baixo está todo, ou quase todo, o Semprún (Jorge) autor muito da minha predile. Ao lado e à direita estão o Cortazar e o Jorge Luís Borges, sempre à mão e prontos a reler. 

homem ao mar 89

d'oliveira, 16.07.21

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Liberdade vigiada 77

As crianças são carne para canhão

mcr, 16 de Julho

 

Não faço a menor ideia do que, em Braga, se ensina na cadeira de cidadania ou lá como se chama. Sei que, cadeiras dessas, estão sempre sujeitas à discussãoo e à polémica. E que tais discussões nada tem de científico e provavelmente de utilidade para a juventude que as recebe.

Eu foi vítima de duas coisas semelhantes durante o meu percurso liceal.  Por um lado tive aulas de religião e moral desde o primeiro ano. Por outro no 3º ciclo apanhei com uma coisa chamada Organização Política e Administrativa da Nação que não nos punha a par de nada objectivo e nos injectava doses maciças de fervor pro-regime. Em boa verdade, esta segunda parte pouco efeito tinha mas a cadeira tinha notas, exame finl e isso bastava para ser temível.

A moral essa era um passeio. Claro que havia obrigatoriedade mas ninguém chumbava porque, como o Canto Coral, outra seca tremenda, tínhamos que lá estar aquelas horas a ouvir um pobre clérigo a tentar meter-nos na cabeça o que já sabíamos de casa, da catequese ou então a coisa resvalava para debates para os quias não estávamos preparados. No meu entender, e com a vaga ideia que a distância me dá daquilo, a “religião e moral” era como água nas costas de um pato. Chateia mas não afoga.

Havia ainda a “mocidade portuguesa”, outra aberração escolar. No pior dos casos aprendia-se a marchar como a soldadesca, a miudagem agrupada em “quinas” e “castelos”  com os respectivos chefes e um militar  a ensinar inutilidades. A mais extraordinárias dessas coisas era o “alfabeto homográfico”. Presumo que a larga maioria dos leitores não sabe o que era isso. Eu explico. Agarra-se numa criatura e entregam-se-lhe duas bandeiras de cor viva para a mão. Com essas bandeiras e em gestos bem estudados o pobre mensageiro enviará a outro que tal uma menagem. O primeiro problema é que a mais simples palavra demora o tempo de fazer um gesto por cada letra o que, para miúdos não é coisa fácil. Depois nós não sabíamos o que dizer ao outro desinfeliz que a cinquenta metros esperava o nosso discurso. Ainda por cima precisava de um papel e um lápis para apontar a “mensagem”. Já não refiro a possibilidade de erros de ortografia de um ou de outro.

Na “mocidade” e nos sítios em que isso era possível havia sempre a possibilidade de fazer desporto, coisa que deveria caber mais à ginástica mas cabia por falta de meios.

Por exemplo: no liceu D João III (Coimbra)havia uma piscina. Nunca a vi com água e a sua zona era utilizada como balneário, isto é, era lá que trocávamos de roupa. Parece que não havia dinheiro para a água, para um ou mais nadadores salvadores, para um professor de natação...

O problema é que “MP” também era raro haver desporto. Ou não havia campo ou não havia bolas, enfim, uma pobreza franciscana. Aliás, nos anos em que penitente, fiz o curso secundário,  só em Lourenço Marques era obrigatória a farda. Nos outros sítios nada! Via-se que o tempo glorioso da imitação das juventudes italiana e hitleriana passara há muito...

Em Lourenço Marques, (fins do 3º ano 4º e princípios do 5º) descobri, maravilhado que podia escapar daquelas horas desastradas inscrevendo-me na “secção de cinema2, o que fiz sem hesitar. A dita secção funcionava numa sala sem vigilância e a ideia era os seccionistas desenharem para fazer um filme de animação. Eu contribuí com dois coqueiros e uma cabana com teto defolhas. Digamos que em uma hora despachei o trabalho de quase cem semanas. Aliás, ia para a “mp”, passava pela secção onde três ou quatro mariolas jogavam à bisca ou à sueca e desandava. Ia passear de bicicleta por toda a cidade. Às vezes até íamos à praia para dois mergulhos. Abençoada “MP” (desta vez em maiúsculas por gratidão).

Portanto, nesses tempos de “escola risonha e franca” a malta driblava como podia essas aulas odiosas que numa semana chegavam às dez ou mais horas.

Os tempos mudaram e a Democracia chegou ao ensino. Ou melhor, nalguns casos, a Democracia travestiu-se de algo perigosamente obrigatório e à vontade do freguês. Perdão à vontade de quem ensinava. As ditas aulas de cidadania dão para tuso, desde ensinar a atravessar a rua pela passadeira e só com osinal verde” a ensinar a miúdos de 13, 14 anos as subtis variações dos direitos LGBT. Desconheço, neste caso em pormenor, se os mestres tem alguma específica preparação científica para o efeito.  Claro que a escola deve defender todos os seus frequentadores seja qual for a preferência sexual da criatura. Não vou sequer (porque não me sinto à altura) entrar na discussão sobre a idade em que um adolescente pode e deve começar a perceber o mundo e o sexo. Do que sei, porque os jornais passam a vida a alertar-nos é que é entre os adolescentes que se observam os mais inquietantes – porque frequentes – sinais de violência de género. Pelos visto, uma forte maioria que ronda os 70% dos rapazes e raparigas acha normal controlar o telemóvel do/a namorado/a, cenas de ciúmes com alguma violência, e tudo o resto. Vê-se que as aulas de cidadania não os tocaram, ou pura e simplesmente não foram sobre esse assunto.

Eu tenho um medo que me fino de tudo o que é ideologia a ser vazada para as cabeças jovens. Não esqueço  o que pude tardiamente ver sobre o condicionamento ideológico dos jovens alemães (e lembremos que foi das “Hitlerjugend” que saíram os mais violentos soldados das “Waffen SS”, os que mais resistiram, os mais mataram gente inocente nos países ocupados mormente em França e Polónia. Na União Soviética, nos anos mais duros era ensinado aos “pioneiros” a denunciar os contra-revolucionários” onde quer que se acoitassem e sobretudo os familiares. Gá relatos publicados de jovens “heróis soviéticos” que tinham avisado a polícia dos suspeitosos passos da parentela, pai e mãe incluídos. A coisa foi menos grave com os Balilas e assimilados italianos por duas ordens de razões, aquilo nunca foi demasiadamente levado a sério , eram gente do sul e católicos, ou seja indisciplinados. O mesmo em Espanha onde as organizações estudantis do regime sempre despertaram desinteresse, dúvida e antipatia entre a maioria da juventude.  Por cá, e fora os primeiros anos desde a Ditadura ao inicio da guerra, a MP foi sempre uma cruz, uma chatice e refúgio de meia dúzia de criaturas  pouco saudáveis. Como aliás a Legião que nunca foi uma milícia do regime mas apenas um velhacouto de oportunistas e um meio de escapar à extrema pobreza. Nos meus tempos de rapaz ver a Legião desfilar dava aos espectadores acessos convulsivos de riso que eles disfarçavam o mais possível . Aquilo não era um desfile mas uma penosa marcha desengonçada de umas dezenas ou centenas de pobre-diabos amarfanhados num uniforme grotesco que descobria as barrigas, as calvas, todas as mazelas do “garboso” legionário. Em suma a legião era desprezada sobretudo pelos militares e pelas forças militarizadas. Até pela polícia!

Desviei-me do ponto central ou seja dessa coisa que chamam cadeira de cidadania que, pelos vistos, não tem um par de regras gerais e é aplicada à vontade ou quase da criatura que nas escolas tem a disciplina a seu cargo. Desconheço com se faz nas escolas privadas mesmo que suspeite que também aí a carga ideológica e a ignorância ínsita na mesma permitam distorções de toda a ordem.

   De todo o modo, o caso voltou à ribalta por via de um (ou uns?) pai de Braga que não quer sujeitar os filhos a um ensino de que discordará. Não sei o que é que nesse caso específico é ensinado. Sei apenas que os meninos ficam “retidos” por excesso de faltas. Parece que já se atrasaram dois anos, ou melhor, frequentaram as aulas terão tido aproveitamento mas voltam para trás depois de uma decisão judicial que deu razão à escola. O pai (ou pais) persiste na sua. As crianças nem tugem nem mugem. Mais dia menos dia vem aí uma qualquer criatura de um qualquer serviço social e retira os meninos que já serão adolescentes ao pai tirano. Este irá às instancias judiciais europeias e Portugal, como de costume, sairá condenado (esta semana mais uma sentença europeia condenou a separação de dois irmãos gémeos retirados aà mae durante anos. Claro que os contribuintes portugueses – porque o dinheiro vem deles – pagarão forte e feio pela cabronada feita contra mãe  e filhos. Os separadores das crianças e da mãe esses continuarão na sua tarefa exemplar de lixar a vida aos outros. Alguém acredita que serão chamados À responsabilidade?  Se sim, tem direito já ao reino dos céus!

Nesta altura do campeonato alguém dirá que eu sou por uma escola neutra. Ser, seria mas lamento, não há escolas neutras. Sou contudo, contra a mixórdia metida a martelo nas cabeças dos jovens, mesmo que ela esteja envolta nos mais sagrados princípios incluindo aqueles por que me bati, anos a fio. Sou por um ensino tão objectivo quanto possível, pela escolha de temas importantes mesmo que não fracturantes (e disso, dessa enxurrada moldada pela moda de cada momento estou mais que cheio!). Sou contra exames dessas matérias. Basta já a obrigatoriedade de assistência.

E sou, vejam lá o descaramento, pelos dois jovens que se vem metidos num drama kafkiano miserável. Retirá-los, puni-los depois deles terem dado as provas escolares necessárias para continuarem a progredir na sua carreira académica, junto com colegas e amigos, diz tudo do regime a que os submetem.

E lembraria, sem grande razão, mas a título de mau exemplo, aquela coisa horrenda que nos faziam no antigo 5º ano dos liceus com Camões. Não só nenhum professor se atrevia a chegar ao Canto Nono (um canto sublime, num poema sublime que demorei anos a amar) mas os alunos tinham que dividir as orações de cada estrofe. Todos os dias lá marcavam mais um par de versos. E aquilo era difícil, convenhamos, mesmo para mim que fui aluno de dispensa à oral (a única que havia). A maior parte dos meus contemporâneos tem um “pó” negro aos Lusíadas e provavelmente a Camões à conta desses professores (e eram todos ou quase) que atiravam para cima do poeta  a sua incomensurável incompetência pedagógica.

 

Em boa verdade, isto hoje está-me a sair chocho. É do calor...

Na vinheta: o alfabeto homográfico     

homem ao mar 88

d'oliveira, 15.07.21

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Liberdade vigiada 76

“Quem anda à chuva molha-se”

mcr, 15 de Julho

 

 

O título só pode ser infirmado se o caminheiro em tempo agreste e chuvoso tiver o cuidado de calçar galochas, usar um impermeável e, porque não?, um guarda-chuva.

Ora o sr. dr. Azeredo Lopes entendeu enfrentar os elementos de peito feito, pensando provavelmente passar incólume entre os pingos da chuva.

Candura? Ousadia? Falta de discernimento?

Confesso que não sei responder  estas três perguntas separadamente ou em simultâneo.

O dr. Azeredo Lopes será seguramente uma pessoa de bem, incapaz de conluios, conspirações, omissões culposas no desempenho dos cargos políticos para que foi, e poderá ser, chamado.

Mas no caso do assalto a Tancos foi tão ingénuo, tão displicente, tão arrogante que o seu linchamento em gogo lento na praça pública tinha fatalmente que ocorrer.

Mesmo inocente, acrescente-se. Quem quiser ir aos arquivos dos jornais que verifique se, de tudo o que ele disse, de tudo o que calou, não o teria encarado com culpado, quanto mais não seja por displicência.

O sr. dr. Azeredo Lopes estava no lugar errado, na altura errada e era, sem qualquer dúvida, a personalidade errada para o exercício ministerial sobretudo de algo tão sensível como é a Defesa. Não que lhe falte inteligência, verve, honradez pessoal. Nada disso. O que lhe faltou naquele estúpido momento, naquela caricatura de assalto a instalações militares, naquele drama de faca e alguidar foi apenas uma coisa: assumir politicamente a responsabilidade política; tirar disso as devidas consequências; pôr o lugar à disposição para, como jurista que é, poder tranquilamente preparar a sua defesa.

Se tivera tido essa atitude, a opinião pública teria esmagadoramente pendido para o seu lado. Perceberia que quem desse modo desapegado do poder assim agia era muito provavelmente inocente, vítima de circunstâncias que não podia controlar.

Provavelmente, o processo poderia ter avançado muito mais depressa e o resultado de agora teria não só inocentado o Ministro que defendia a sua honra e dar-lhe-ia uma dimensão moral e ética invejáveis.

É provável que o dr. Azeredo Lopes seja apenas um político desajeitado, um jurista atirado ao fosso dos leões, mas é bom lembrar que não desconhecia o meio onde se meteu. Efectivamente, foi presidente da ERC, embora se desconheçam as razões substantivas que levaram alguém a escolhê-lo para tal lugar. Digamos, piedosamente, que a imagem que deixou foi decepcionante para não dizer medíocre. Também, por isso, não teve por parte dos meios de comunicação social o amparo necessário nem ninguém, ou quase, tomou a sua defesa. Houve mesmo quem afirmasse que o Ministério era uma recompensa pelos eventuais e alegados serviços prestados nessa altura.

Em suma, viu-se envolvido numa abstrusa aventura de contornos difíceis de classificar, metido com um par de pobres imbecis, gatunos de baixo estofo e outro tanto de militares também eles de cabeça perdida que deviam pensar que estavam a brincar aos polícias e ladrões. Uma história rasca, sem especiais consequências salvo a humilhação de alguns coronéis comandantes de regimentos que viram as suas aspirações ao generalato espezinhadas pelas autoridades e (por inerência, pelo menos) por Azeredo Lopes, titular da pasta.

Eu não gostaria de afirmar que isto, esta tosca historieta, é, de certo modo, o retrato do país. Mas que outra coisa poderei dizer?