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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

12
Jul20

Francisco Assis novo presidente do Conselho Económico e Social

José Carlos Pereira

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Francisco Assis foi eleito na sexta-feira pela Assembleia da República como novo presidente do Conselho Económico e Social (CES). O ex-eurodeputado socialista alcançou uma votação significativa, que reforça as condições de que dispõe para o exercício de um cargo muito importante nos tempos mais próximos.

A larga experiência política de Francisco Assis, a sua formação humanista e a sensibilidade social de que sempre deu provas constituem, a meu ver, factores que contribuirão certamente para um bom desempenho na presidência do Conselho Económico e Social. No futuro próximo, com as consequências económicas e sociais da pandemia a dificultarem as condições de vida dos trabalhadores e a relação dos parceiros sociais com o Governo, a intervenção do presidente do CES pode ser muito útil para ajudar a construir pontes e arbitrar interesses tantas vezes divergentes, sem diminuir o poder da palavra que está reservado a quem dirige aquele órgão.

Muitas vezes não tenho estado de acordo com Francisco Assis, nomeadamente na forma como avaliou a geringonça e as possibilidades de diálogo e de entendimento do PS com os partidos à sua esquerda, por um lado, e com o PSD, por outro. Mas isso não impede que continue a considerá-lo um dos principais activos da esquerda democrática, opinião que fui consolidando nas várias oportunidades que tive de conviver com Francisco Assis em contextos mais reservados e distendidos.

12
Jul20

estes dias que passam 450

d'oliveira

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Os dias da peste

Jornada 116

Sempre (desconsoladamente) português

mcr, 12 de julho

 

 

Permitam-me os raros mas abnegados leitores que eu comece por uma recordação vivíssima da vez m que quase morri. Claro que este quase é demasiado enfático, passei seguramente por coisas bem piores e mais duradouras, mas, quando se tem 17 ou 18 anos, tudo assume proporções medonhas. E nem falo das paixões amorosas que nessas idades são temíveis e nas desilusões, nos fracassos que deixa(va)m qualquer um de rastos.

Desta feita, a coisa foi outra.

Em pleno Verão, na Figueira, melhor dizendo entre a Figueira e Buarcos, já depois do Viso mas antes do “ferro de engomar”, na zona dita de “Palheiros”, a praia bordeja(va) a única rua/estrada que ligava as duas localidades. A oeste o mar ganha-pão mas cruel e a leste a linha breve de casas que substituiu muito provavelmente pequenas cabanas que abrigariam barcos varados na praia, redes e apetrechos marítimos. É a isso que soe chamar-se “palheiro”. Digamos que esta zona marca também o meio da baía. A terra eleva-se docemente até aos “Quatro Caminhos” e depois a Tavarede. Durante centenas de anos toda essa zona interior esteve dentro de uma grande quinta dita de Sotto Mayor hoje totalmente urbanizada . Era na extrema da quinta com a zona onde a estrada passava que se erguia (e ergue ainda quase escondido) o fortim de Palheiros cuja missão era “cruzar fogo com a fortaleza de Santa Catarina na foz do rio e com a fortaleza de Buarcos. No século XX, esta zona apresentava casas com um máximo de dois andares que, no Verão eram quase todas alugadas a “banhistas”.

Nesses habitantes ocasionais e estivais sobressaíam as crianças que, neste tempo de que falo eram todas adolescentes e, obviamente meus amigos e amigos dos meus vizinhos permanentes.

A “praia” assim se chamava a zona e a praia propriamente dita era desaconselhada para banhos mas em chegando Junho começavam a ser pontuada por uma extensa e cerrada fila de barracas o que tornava impraticável a vigilância da medida proibitiva . E nós, um grupo enorme de amigos que tinham crescido juntos ou acolhido outros rapazes e raparigas, como é costume na época balnear, não nos atínhamos ao respeito pela lei e pouco muito pouco à obediência às cores da bandeira frente ao ferro de engomar onde praticava um banheiro cuja missão, como se depreende, era levar ao banho adultos e crianças que viam o mar pela primeira vez.

Era vê-lo, enorme, sólido com várias criaturas de braço dado de cada lado a correr para a onda e a obrigá-los a mergulhar as cinco ou seis vezes do contrato diário. Uma gritaria apavorada que ia amainando à medida que os mergulhos se sucediam e que terminavam em fanfarronices absurdas uma vez terminada a sessão do banheiro.

O nosso grupo ia para a água cerca de cem, cento e cinquenta metros mais a sul, longe do alcance e da autoridade do banheiro.

Ora, num desses dias luminosos e transparentes de Verão, eis que o mar apareceu liso à hora da maré baixa e formando o que por lá de chamava uma ”coroa de areia”, ou seja uma ilhota longa e paralela à linha de costa, separada desta por dez vinte metros de água baixa. Na coroa vinha, morrer ondas pequenas e mansas nunciando a segura vinda de uma maré mais forte.

Claro que a rapaziada (e a raparigada, não vá alguém chamar-me misógina, logo eu, que burrice!) nem hesitava. Água adentro para a coroa e mergulhos a muitos metros da costa numa brincadeira mais audaciosa porque mais longe dos olhos inquisidores das famílias, mormente das mães de família que velavam tanto quanto podiam pelo pudor das donzelas a seu cargo. Jeux de mains, jeux de vilains, se posso usar um franciú mais apropriado...

A maré ia subindo lenta mas certeira, as pessoas iam-se cansando e retirando para terra mas eu, parvo e enfatuado, caprichei em ficar em ser o último a dar-me por vencido.

Já o mar me dava pelo peito, a coroa desaparecida, a corrente a tomar velocidade quando decidi regressar. E, nesse preciso momento, uma caimbra violentíssima numa das pernas deixou-me quase paralisado a umas largas dezenas de metros da praia. Senti-me incapaz de nadar, perdido, morto ou quase. Nem os Doors nem o Jim Morrisson tinham ainda composto “the end” mas juro que foi essa a sensação que me invadiu. Ainda hoje não consigo ver o “apocalipse now” e a cena dos surfistas na praia sem pensar nesses momentos aflitivos.

Os adolescentes são, de seu natural, teatrais. Eu fui um adolescente igual a tantos outros, por isso naquela hora em que via o meu mundo a desaparecer e eu com ele, no meio das águas que cresciam, só me lembrei de virar-me para terra, olhar a praia, a minha casa para me despedir.

Todavia, nem a dor que era digo-vos horrenda nem a ideia de uma morte solitária e romântica no pino do Verão me retiraram completamente o tino. Se nadar era impossível, podia sempre pôr-me a boiar e ajudando com as mãos tentar aproximar-me lentamente de terra tanto mais que a corrente dominante puxava para sul mas para a praia. E assim fiz nuns larguíssimos minutos que duraram anos chegando exausto a terra, rolado nos seixos dolorosos da linha de rebentação, bebendo desalmadamente “pirolitos” de água salgada porque me ria só de ver-me salvo. Acho que fiquei ali lambido por ondas cada vez mais fortes um bom quarto de hora. A dor entretanto foi desaparecendo, a perna parecia suficientemente restabelecida e lá me arrastei praia fora para junto dos amigos. E com a inexplicável sensação que vira pela primeira vez a minha cidade, melhor dizendo o meu canto, a minha casa. Como se tivesse estado longe, ausente e redescobrisse um mundo que voltava a ser meu.

 

Essa sensação, que mistura uma aguda sensação de ausência e outra não menos forte de pertença, sucedeu-me por várias vezes ao longo da vida. Ao fim e ao cabo estive fora da pátria madrasta algumas vezes, nunca demasiado tempo, mas sempre alguns meses seguidos, o suficiente para pensar Portugal de outra maneira, de fora, pelos olhos não de um estrangeiro mas pelos de alguém que se debruçava sobre um país menos próximo com os olhos dos estranhos que na altura partilhavam a minha vida. Foi assim que, durante anos, em longas, longuíssimas férias de Verão em Moçambique (de Julho a Dezembro, com o privilégio de fazer em Janeiro os exames de Outubro), já com os sons de guerra no ar ou, mais tarde, em quatro ou cinco ocasiões de meses de ausência em vários países europeus (Itália, Alemanha, Holanda, Espanha e França),fui perscrutando a realidade de que me afastara e comparando qualidades e defeitos, o sol pátrio e os céus menos benevolentes dos países do norte. Graças ao facto de sempre ter gostado de línguas estrangeiras tinha a possibilidade de falar com pessoas que, em muitos casos pouco ou nadasabiam de Portugal (Lamento muito, doutores Costa, Marcello e outros, mas a verdade é esta: na Europa o desconhecimento sobre a “nação valente e imortal” é imenso e encontrar um “lusófilo” é quase um milagre. Acresce que, no caso desses íncolas europeus encontrarem um português de pouco lhes serve ou servia: a emigração portuguesa era iletrada, exercia todas as pobres profissões que por cá destinamos aos “nossos” emigrantes negros ou asiáticos. E, podem crer, falava pouco e mal as línguas dos empregadores. E vivia longe dos centros urbanos onde eventualmente se poderiam encontrar gentes curiosas sobre Portugal. Nenhum campeonato de futebol ganho, nenhuma final de Taça em Lisboa muda esta realidade. Mesmo os milhões de turistas que durante os últimos anos atravancaram as ruas de Lisboa e Porto, tiraram mil selfies ao pobre do Pessoa no Chiado (quem será este caramelo sentado a uma mesa de bronze com uma cadeira vazia ao lado?) ficaram depois do seu périplo de oito/quinze dias pelas praias e pelo sol portugueses mais informados disto, do que somos. Provavelmente acharam os indígenas simpáticos, falam todos inglês turístico, são serviçais, roubam moderadamente nos preços, aliás baratos. E come-se o mesmo hamburger, as mesmas “pastas” internacionais, o mesmo imprestável fast food.

Para o ano vamos à Tunísia ou à Turquia, começam as duas por T, de certeza que também dizem o imprescindível em inglês e deve poder-se comprar uns souvenirs baratos e sempre do mesmíssimo mau gosto que se encontrou em Lisboa...

 

Todavia, graças a essas estadias longas fora do “torrãozinho de açúcar”, algumas delas ainda durante o antigo regime e, por isso mesmo, com o perfume da aprendizagem da liberdade diária e normal, o que eu aprendi sobre o meu país. Às vezes coisas anódinas. Por exemplo, na Baviera, zona católica por excelência, as igrejas barrocas tem imensa luz natural. Uma bávara ignorante mas viajada comparou-me essa luminosidade com a penumbra das nossas igrejas (e quando digo nossas englobo as italianas ou as espanholas) que ela achava deprimente. Tive de, com a paciência de um ateu evangélico, lhe explicar que nos países do Sul há pelo menos trezentos dias de sol, muitos deles de sol intenso e abrasador. E por isso, as Igrejas se estivessem sujeitas ao regime bávaro seriam (mal comparando) uma espécie de fornos crematórios para os fieis. Que, não há nada (ou há pouco) num dia de quarentinhas ao sol como entrar numa igreja em que o silêncio antigo se casa com uma penumbra fresca que permite descansar, meditar, rezar, ver quando os olhos já se habituaram, o modo de ser cristão no sul. A alemoa pensou uns minutos, amuada mas, de repente, surdiu-lhe na cara um sorriso de compreensão e, juro-o, rapou de um caderninho e escreveu a explicação do mistério das nossas igrejas menos ensolaradas para, disse-me com uma seriedade nórdica mas simpática, que tinha de explicar isso aos amigos. E sempre que me encontrava, coisa fácil em Murnau na alta Baviera, guinchava-me um gruss Gott amistoso, seguido de um Wie ghets? mais gentil se possível, beijocava-me a bochecha e desandava com muitos viel Spass. Pena ser feínha e gorda mas pelo menos, se adregava conversarmos corrigia-me o alemão e explicava-me como se vivia nas antigas terras desse rei parvo que se chamou Luís. Falei-lhe do nosso D Sebastião, da desventura africana, do regresso num dia de nevoeiro e ela gostou muito. E eu que apenas lhe queria dizer que reis imbecis há em toda a parte...

Olho, hoje, a pátria madrasta, com olhos vagamente estrangeirados. Doem-me certas características nacionais, já nem falo da corrupçãoo mas tão só da “cunha” sempre presente, da resignação dos que não emigram por falta de coragem ou medo de perderem o bacalhau com todos. Ou as sardinhas assadas mailos pimentos...

Aterra-me esta constante mania de tentar mudar tudo, num esfregar de olhos mesmo se o que foi mudado ainda nem tempo teve de provar a sua utilidade. Quantas mudanças nos programas escolares! Nos de saúde! Na habitação ou na Justiça! As reformas portuguesas são altamente reformáveis, ficam caras, caríssimas. Não há ministro por menos façanhudo que se apresente que não queira mudar tudo, já, agora, ontem. A começar pelo nome do Ministério, pela lei orgânica, pelo quadro de funcionários, contínuos incluídos que há lá uns rapazes da terra filhos de compadres ou camaradas que precisam de um emprego seguro...

Depois, como afirmava o príncipe Salina, tudo isto só significa que “é preciso mudar algo para que tudo fique na mesma”. Num Portugal, inocentemente siciliano, a coisa traduz-se: tudo como dantes, quartel general em Abrantes!

Quem me lê, Deus lhes pague em triplo!, sabe que mesmo sem dar para o peditório fadista, eu acabo por ser um crítico queixoso. Mas ver os principais vultos políticos actuais a falarem da injustiça da nossa “velha aliada” faz-me lembrar, para pior, Eça, sempre ele, na carta a Pinheiro Chagas: mas que grupo de brigadeiros caturras e patrioteiros nos caiu em cima! (citação livre).

 

Às vezes, quando resolvo propor uma leitura para os dias quentes que se aproximam, lembro-me do Allen Ginsberg, esse imenso poeta beat americano, que conheci através de uma antologia de José Palla e Carmo “A poesia americana contemporânea” e que em 1973, graças à D. Quixote, publicou o primeiro livro traduzido do autor. “Uivo”. Mas estão de certeza esgotados. Em vez dele, e sobre vários males comuns da pátria, vale a pena ler Victor Cunha Rego , na mesma editora: “Na prática a teoria é outra”, um calhamaço de quase 900 páginas. Um jornalista como há poucos e um analista político ainda dos mais raros. E escreve muito bem. E deve ter chateado um milhão de pessoas. Vale a pena lê-lo sem preconceito.

Também, e do mesmo Palla e Carmo, vale a pena referir a “Obra perfeitamente incompleta” sob o nome de José Sezinando, Tinta da China, 2018.

*as vinhetas Buarcos no "Atlas"  de Pedro Teixeira (1634) na edição de 2005, Siloe, ex nº 434; o fortim de Palheiros que, no mapa de Teixeira se situaria a meio da curva da baía. Não consta por ainda não ter sido construído. 

 

 

 

 

11
Jul20

estes dias que passam 449

d'oliveira

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Os dias da peste

Jornada 115

Não há volta a dar-lhe

mcr, 11 de Julho

 

 

Chamemos mais uma vez à colação o Rui Feijó, um amigo certo sobretudo nas horas difíceis e que já não esyá cá para se rir disto.

Para quem não teve o prazer (e a honra!) de o conhecer, o Rui foi um dos primeiros divulgadores do neo-realismo e, justamente por isso, o seu nome aparece em vários livros de memórias de autores dessa escola e como destinatário de poemas. E com inteira justiça, convém dizê-lo: foi um dos três compradores da revista Vértice, então no 2º ou 3º número. Esta revista transformou-se no porta-voz do movimento neo-realista, foi alvo de tenaz perseguição da Censura e durou enquanto revista interveniente até 1974. Depois, passou a ser irrelevante e nem sei se não se finou já.

Mais tarde, o seu nome aparece em dezenas ou centenas de manifestos, abaixo-assinados, artigos de crítica literáriaou como um dos primeiros membros da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos.

Fora das luzes da ribalta, R F acolheu na sua propriedade inúmeros “clandestinos” e vários fugitivos à polícia, alguns dos quais (por todos Manuel Alegre que fez ali a versão final da “Praça da Canção” que, aliás, também ali foi dactilografada pelo casal Feijó)).

Antes, durante a guerra, Rui Feijó fez parte da “rede Shell” uma organização resistente que, perante uma iminente invasão de Portugal criou dezenas de esconderijos e de depósitos de combustível. A rede tinha a direcção de um agente diplomático inglês e foi parcialmente descoberta e alguns dos seus membros conheceram a prisão).

Depois do 25 A, Feijó foi durante uns meses presidente da Câmara de Lousada e depois deputado pelo PS à Assembleia Constituinte, Acabada a redacção da Constituição e aprovada esta, Feijó sacudiu a poeira dos sapatos e regressou ao Norte e a uma vida pacata onde sobressai o seu trabalgo como Delegado Regional do Norete da Secretaria de Estado da Cultura (que nunca precisou da patente ministerial para levar a cabo um relevante trabalho de difusão cultural).

Ora, foi a este preclaro resistente que uma criatura militante do PC uma vez acusou de ser um “anti-comunista primário”. Feijó com muitos anos de combate democrático às costas nem estremeceu: “Primário, secundário e universitário!, retorquiu, voltando cstas ao debilóide façanhudo que não conseguiu dizer mais nada.

Ora, e aqui chegados como diria o dr. Marques Mendes, um epígono pequenino do “professor Marcello” na televisão, eis que, do fim da idade das trevas nos chega a voz do sr Jerónimo Sousa acusando os críticos da nomeação da senhor dr.ª Rita Rato para a direcção do Museu do Aljube. “anticomunismo primário” ou algo no mesmo estilo foi a acusação do Secretário Geral d PCP a todos quantos lembraram as características exigidas no concurso para o provimento do lugar e as deram como não existentes no currículo da candidata Rato.

Pelos vistos, apesar de não reunir os items constantes do anúncio do concurso, a recém nomeada terá brilhado na “entrevista”. Sobre o assunto, eu, que tive o trabalho de presidir a dezenas, muitas dezenas, de concursos do mesmo género, queria apenas referir que a “entrevista” serve sobretudo para desempatar. Até se chegar a esse patamar há que provar que o currículo do candidato está conforme ao pedido no anúncio do concurso. A dr.ª Irene Pimentel, insuspeita historiadora especialista justamente em história contemporânea e, sobretudo, em muito do que um museu como o do Aljube pode acolher, teve a coragem (e é preciso coragem nestas questões que metem candidatos do PC) de referir a questão central. Sem provar conhecimentos de História, mormente contemporânea e experiencia em museologia ninguém em principio poderia passar ao estádio da entrevista. Mesmo se, como também já se aponta, a EGEAC (promotora deste fait divers) não fosse obrigada a promover um concurso.

Mas promoveu, publicou as condições mínimas e, mesmo assim, alguém que não as possuía, passou à fase da entrevista. Onde, sempre segundo os da EGEAC a dr.ª Rato brilhou fortemente. Mas esse alegado brilho, mesmo se real, padece de um mal absoluto. A candidata não satisfazia as exigências do concurso, ponto final, parágrafo. Seim isso não pode haver entrevista. Se houve é contra o espírito e a letra do concurso.

Claro que nada disto será tido em linha de conta. Este concurso (não obrigatório, saliente-se de novo) parece feito com estranhas intenções como por exemplo legitimar uma escolha antecipada. Provavelmente, dada a escassa importância do citado museu, ninguém esperava grande concorrência e sobretudo que aparecessem historiadores e museólogos. Mas apareceram. Grande chatice! Felizmente havia o esquema da entrevista que de per si não pode ser contestada a menos que tivesse sido gravada. O que obviamente não aconteceu.

O dr. Rui Tavares, num prodígio de raciocínio equilibrista veio defender (Público 1o de Julho) que a falta de metier em História ou em Museografia não é grave (pelos vistos as condições do concurso não servem para nada!). Assim a dr.ª Rato poderia ocupar o o lugar. Aqui chegados (cfr referência acima) o Dr. Tavares depois de ter dado uma no cravo experimentou agora outra na ferradura. E foi esta: numa entrevista antiga sobre o GULAG, a dr.ª Rato afirmou não poder ter uma opinião sobre (e cito) uma “experiência” que “admitia” “que pudesse ter acontecido”,

Para Tavares esse é o peado “único” da concorrente que vai gerir uma asa onde também pode ter ocorrido uma experiencia que temos de admitir pode ter ocorrido, a saber pressões selvagens e inauditas sobre presos não só políticos mas também de delito comum que quanto a violência cintra eles tem exactamente os mesmos direitos dos retantes cidadãos encarcerados por delitos de opinião.

Eu nada sei sobre a dr.ªa Rato que, aos 26 aninhos se acolheu à Assembleia da República” onde este por duas legislaturas só saindo por não ter conseguido a eleição pelo círculo da Europa. Esta é, sem desdouro, a experiência da referida senhora que provavelmente saiu dos quadros das juventudes comunistas directamente para a AR sem passar por essa coisa chata e sensaborona que é a de ter de trabalhar na vida de todos os dias. Não recordo nenhum discurso, nenhuma proposta da referida senhora enquanto parlamentar mas vou dar-lhe o benefício da dúvida e aceitar que possa ter contribuído prodigiosamente para a felicidade do proletariado português, das classes trabalhadoras e do povo.

Todavia, a sua ida para uma candidatura onde não teria possibilidade alguma levanta-me uma dúvida. Alguém se quis ver livre dela? Alguém pensou que uma mulher jovem convenceria os emigrantes? Alguém pensou que se não fosse eleita, logo se arranjaria um lugarzinho tranquilo e bem pago para a recompensar dos trabalhos insanos do parlamento?

Tal como a “entrevista” nunca saberemos.

Ou melhor, sabe-se sem margem para dúvidas, que quem criticar a opção concursal corre o risco de ser considerado anti-comunista. Primário, claro que o PC ainda não reconheceu os dois escalões inventados pelo Rui Feijó.

a vinheta: a fotografia (de fonte soviética !...) é da tal "experiencia" que se "admite" como vaga probabilidade nunca comprovada, claro. O gulag (como os fornos crematórios) nunca existiu. 

10
Jul20

estes dias que passam 448

d'oliveira

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Os dias da peste

Jornada 114

Aproveitando a pandemia

mcr, 10 de Julho

 

Dantes eram as férias grandes. Um mês antes, quando elas já urgiam, faziam-se grandes planos: Vou ler os livros X e Y. Vou dar um passeio a pé todos os dias. E de cinco quilómetros. Vou ter cuidado com o que comerei. Saladas, peixe grelhado, fruta. Nada de doces! Pouco pão...

E depois vinham as férias e no primeiro dia arrumavam-se os livros, ia-se por mantimentos e, porque o tempo já não dava, almoçava-se na praia. Num desses muitos “chiringuitos” de praia cuja comodidade é exígua mas que estão mesmo ali, à mão de semear. E pedia-se o peixe grelhado. E, já agora, para entreter, umas azeitonas, uns queijinhos picantes enquanto se espera. E pão para acompanhar os queijinhos. “Já se viu comer queijo sem pão? E sem vinho? Não, que estamos de férias, saia uma rodada de “imperiais”. Frescas, fresquíssimas, vindas directamente do polo norte que está uma calorina que não se aguenta..."

O peixe vem. Com batatinhas pequenas e com pele, quase como se fossem batatas a murro. Entre ahs! e ohs! comovidos, aviava-se o peixe.

“Peixe não puxa carroça” lembrava alguém. Saia uma sobremesa para dar consistência. E lá vinha uma travessa de pudim, ou de creme queimado ou um doce tradicional.

“Não se devia comer isto que é um verdadeiro atentado calórico!”, salientava outro. “- É só hoje que ainda nem chegámos verdadeiramente”.

Um cafezinho para rebater. "Será que estes gajos tem um cordial para acompanhar? Uma aguardente velha, um medronho (Porra este gajo pensa que estamos no Algarve!) . Se não, marcha um whisky, só um fundinho com duas pedras de gelo..."

“Vamos dar uma volta por aí?” – “Eh, pá, com este calorão? Vou mas é bater uma soneca e lá para as cinco volta-se à praia para um mergulho”

Às cinco, cinco e tal, toda a gente no chiringuito. “Vamos ao banho?” “- Já tenho banhos que cheguem para hoje. Vou beber uma cervejola que estou com um secão dos antigos.” “Olha há tremoços”. “Manda vir dois pratinhos que eu alinho”. “E eu”. “E eu ...”

Ao começo da noite, alguém propõe uma volta pelos restaurantes da marginal. E lá se vai numa conversa alegre, passo lento, parando diante de cada porta para ver as ementas, os preços, e se a freguesia: tem cara de estar bem...

“Aqui para nos que ninguém nos ouve, acho que o meu estômago tem um buraco. O peixe é bom mas isto não carbura sem uma carninha..."

E vá de abifalhar-se à fartazana que um dia não são dias e o raio do ar do mar abre cá um apetite que nem vos digo nem vos conto.

Bem comidos, bem bebidos eis que alguém se lembra de uma famosa casa de gelados. Melhores dos que os do Santini! E verdadeiramente italianos...

Sentados na esplanada com taças de gelado cheias de tudo, é um gosto ver as pessoas que passam. E as raparigas. Ai, as raparigas no Verão. Roupa ligeira, ar de quem quer conquistar a noite...

No dia seguinte, só um se levanta antes das dez da matina. E, de castigo, vai comprar o pão. E, já agora, uns scones. E um queijo que estava ali mesmo a rir-se para mim, o sacaninha. Anda cá que já te vou contar uma história...

Eu poderia, estar mais trinta linhas a contar como as boas intenções de férias, a começar por acordar cedo e cedo erguer, naufragam ao segundo dia.

Mas depois de um pequeno almoço copioso, há que ir por uma bica para acordar. E outra para esmoer enquanto se lê o jornal. Na esplanada do chiringuito, mesmo frente ao mar.

Depois havemos de ir para a praia, deitarmo-nos ao sol, besuntados de creme por via das queimaduras com um livro que se não abre.

E assim sucessivamente.

Desenganem-se os leitores que julgam que estou a tirar uma selfie. Eu, juro, levanto-me cedo, vou pelo pão e pelo jornal, chego a casa, faço sumo de laranja para toda a gente (e se o não fizer ninguém o faz, podem estar certos), sigo para a praia, carregado de cadeirinha, guarda sol, livro gordo, paro para o café matinal que só tem graça e sentido fora de casa. E instalo-me na tenda que montei, ou seja, guarda-sol e cadeirinha, rapo do livro e vou lendo. Há uns tempos, numa loja onde compro a roupinha e cujo dono é meu amigo, apareceu um bencerragem que me mediu uns bons cinco minutos e me atirou -“V. não é aquele gajo que está horas a ler, sentado à sombra e que se levanta de quando em quando para dar um mergulho? E que, à uma da tarde batida, desfaz a feira e carrega com todas as suas imbambas para a segunda mesa do chiringuito onde já o esperam um pires de azeitonas e uma imperial?”

-“Esse mesmo meu comandante. Depois hão de vir pimentos do padrão, salada mista e peixinho grelhado. E mais uma imperial. Sem doces mas com café no fim. Sem cordiais que estou de regime há muitos anos...”

E descobri que, naquela praia da ria, a sul de Sanxenxo, em frente da “Postiña” era mais conhecido que o arroz doce. O gajo que lê, repimpado. E que faz as palavras cruzadas do “El País”. E usa um panamá velho mas confortável, mesmo debaixo do guarda-sol...

E todos os dias, um livro novo. Ali vai tudo. História, ensaios literários ou políticos, ficção, até poesia! E muitos policiais, claro que o Verão é propício e em Espanha há belíssimas colecções de policiais.

 

 

A pandemia foi um pouco como as férias. Férias forçadas, claro mas, com a idade que levo, sem afazeres profissionais, os dias e as semanas confundem-se. Com a pandemia, a esplanada ficou proibida durante dois longos meses, e o café de café idem. Mas os projectos para ocupar esse tempo suspenso foram muitos.

E, milagre!, alguns já se cumpriram. Assim inventariei, fotografei e fiz fichas dos quadros na parede. E das esculturas. E das máscaras africanas. E da arte popular.

As fotografias estão um desastre. De todo o modo, servem para o efeito. Aliás para mais do que um. Algumas, duas dezenas, pelo menos, das máscaras precisam de identificação. As fotografias depois de impressas numa folha A4 irão à inspecção sabia do sr. Keita, um cavalheiro do Mali, especialista e dono da única loja de arte africana no Porto. Uma boa e grande loja com umas centenas de peças, algumas das quais invendáveis dado o seu tamanho. O sr. Keita, faz frequentes incursões na África Ocidental e vem carregado de peças. Só a mim já vendeu mais de quarenta mas tem um grupo fiel de compradores (entre eles o Álvaro Siza) com os quais se fotografa sorridente. Agora, já se dispõe a identificar as peças que vende mas dantes não o fazia, o freguês não perguntava, ou perguntava e depois esquecia-se. Enfim, um sarilho e uma confusão desnecessários.

Perguntará algum/a leitor/a atrevido/a. Para quê inventariar as pinturas, as máscaras e tudo resto? Em boa verdade, nem eu sei responder. Ou melhor, no caso das máscaras, já não tenho a boa memória de outros tempos e isso perturba-me, irrita-me e faz-me desconfiar de algum ahlzeimer galopante. Portanto, toca de catalogar, identificar, fichar. A ver se entra na cabecinha pensadora...

E, por outro lado, que se há de fazer quando o vírus ronda ameaçador?

Na vinheta: José Rodrigues, pastel, (76x56,1) Esta peça adquirida nos finais (?) de oitenta é das primeiras onde a “obsessão” (palavra do artista) por Salomé se manifesta. Foi a segunda vez (no caso de obras do Zé) que valeu a pena ter chegado logo à hora da abertura da exposição e de a ter imediatamente reservado. Antecipei-me assim, e sem o saber, ao Miguel Veiga, um excelente amigo, culto, dono de um bela (e grande) colecção e infelizmente já desaparecido.

09
Jul20

estes dias que passam 447

d'oliveira

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Os dias da peste

Jornada 113

Quem anda à chuva...

mcr, 9 de Julho

 

 

Sou, de meu natural, um tanto ou quanto distraído. E as distrações pagam-se caro, as mais das vezes. Ontem, por exemplo: escrevi a peça habitual deste diário informal. Arranjei as gravuras que se impunham e, quando ia transferir o texto escrito para o blog, nada! O folhetim tinha desaparecido! Para onde foi o sacaninha? Tentei procura-lo de todas as maneiras possíveis e hoje, recorri aos talentos múltiplos de Rui Silva, um mago dos computadores apple que já me salvou várias vezes. Ao fim de um enérgico quarto de hora, nem ele conseguiu dar com o rasto da crónica perdida. Agora só um milagre da Rainha Santa, Ou nem isso, que hoje em dia os milagres estão pela hora da morte. Ou não há ou são tão caros que ninguém se arrisca a gastar umas velas das grandes com o pedido.

Ou melhor, milagres desses difíceis de entender continuam a suceder. Por exemplo, o sr Putin vai poder presidir aos destinos da Rússia por mais uns bons anos. Morre no cargo como antes sucedeu a vários ex-governantes daquelas bandas (Stalin, por exemplo. Ou Brejnev esse morto-vivo que, durante anos, representou para alguns cavalheiros de cá a nova versão post guerra fria da “URSS sol da terra”, como afectuosamente o dr. Cunhal e vários epígonos domésticos e estrangeiros se referiam à pátria do socialismo real.)

Outro exemplo: Trump. Quando se pensou que já nada nele ns espantaria, ei-lo que “twita” triunfante outra imbecilidade. Sob o aplauso de uma multidão republicana fascinada pelo génio daquela força da natureza maldosa.

E poderíamos continuar assim que miraculados não faltam desde Maduro a Ortega com passagem por Bolsonaro. Destes três, mas há mais, bem poderia dizer-se que ao lado do dengue, da febre amarela e do cólera, eles causam mais dano e lembram aos humanos a teses vingativa de um Deus que envia as pragas ao Egipto ou exige a cabeça de Isaque.

E domesticamente? Pois o nobre povo também viu e vê desfilar por esses campos fora milagres vários e de muito exemplo e proveito. Assim temos que para poupar a Centeno um desemprego nel mezzo camin da sua vida, eis que lhe é entregue o Banco de Portugal pra provar ao mundo que nós portugueses somos porreirinhos. E para reforçar essa convicçãoo eis que sem ser licenciada em História, sem ter experiência de museografia, uma senhora ex-deputada do PCP recebe no regaço nãs as flores da rainha santa já mencionada mas as chaves do Museu do Aljube. Para tal, alguém há de ter considerado que para governar um acervo pobre de um museu também não especialmente rico nada melhor do que alguém com militância política mesmo se essa já não lhe tivesse permitido usufruir das comodidades contestável dessa antiga prisão.

Perguntar-se-á: onde está o milagre. Ora a resposta é fácil e dupla: por um lado toda a gente (ou alguma) achou normal essas nomeações, por outro os nomeados acharam-se modesta e perfeitamente aptos a exercer o cargo.

Só o escriba que estas traça é que não consegue perceber a sua má sorte e o desaparecimento do seu texto. Provavelmente não o terá gravado bem antes de o tentar meter no blog. Arriscou-se: andou à chuva e, por não ter uma alma pura e um coração terno, molhou-se.

na vinheta: Hokusai: de "as trinta e seis vistas do monte Fuji" (chuva e vento)

É relativamente fácil encontrar livros de estampas de Hokusai. A FNAC, vá lá saber-se porquê, costuma ter. São, ainda por cima, muito em conta. com sorte também aparecem Hiroshige e Utamaro. 

 

 

08
Jul20

estes dias que passam 446

d'oliveira

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os dias da peste 

jornada 112 

O BAPTISMO CÍVICO-POLÍTICO DEJEAN PIERRE LOBHO

ou A AFRICANIZAÇÃO VISTA DESDE PESCARA

mcr, 8 de Julho

 

Em 1972 teve Pescara a honra insigne de hospedar a sessão de Verão da Faculté Internationale pour l'Enseignement du Droit Comparé. O mérito cabe por inteiro ao Professore R. Balzarini, reitor da privada "Libera Universitá degli Studi Gabrielle D'Anunzio", professor da Universidade de Trieste e, dizia-se, antigo membro do governo da república de Saló. Se o era não se dava por isso. "Barzo", para os veteranos daquelas andanças turístico-jurídicas, recebia com requintes de príncipe napolitano a chusma jovem e bem humorada dos comparatistas. Ele era quartinhos individuais em pequeno e simpático hotel, praia privativa (!!!), entrada gratuita na boite mais "in" e, espanto dos espantos, uma "mensa" universitária que apresentava lista variada e chefe de mesa prestabilíssimo e vestido a preceito. O programa extra escolar deu direito a um orgiástico fim de semana nas ilhas Tremiti e a duas estadias na montanha consumidas em copiosos banquetes, passeios para esmoer e concertos de rara qualidade para o toque cultural da praxe. Houve mesmo quem tivesse tido tempo para, no intervalo da praia, do ténis, da boite e do resto, frequentar as aulas e os seminários que tornaram aquele Verão inesquecível para este vosso criado.

 

A comunidade estudiosa e itinerante dos jus-comparatistas atingia as duas centenas entre alunos e professores e vinha das mais variadas partes do mundo, ainda que com uma enorme supremacia europeia. Do velho continente destacavam-se um poderoso misto hispano-catalão, a tribu galo-belga, a aguerrida hoste germânica e um pancadão de italianos que jogava em casa. No lote dos exemplares únicos avultavam o que estas traça, um luxemburguês de fino trato e um zairense do povo lingala, formado por Bruxelas, conservador até dizer basta e que dava por Jean Pierre Lobho (este Lohbo era mesmo o portuga Lobo ainda que o seu usuário fosse negro negríssimo. Parece que vinha de uma poderosa família de chefes que, nos fins do sec XVIII, chegara à fala com sertanejos lusitanos que lhes terão oferecido na mesma bandeja nome, religião, panos e missangas em troca do direito de comerciar por aqueles cafundós.

 

Sabedor da presença de um filho do nobre povo nação valente e imortal, logo Lobho se apresentou com protestos de amizade e repulsa q.b. pelos que, na mata angolana, se opunham ao império do Minho a Timor. Se bem recordo a poderosa etnia lingala não morria de amores pelas autoridades congolesas (que já tinham afogado em sangue o Katanga e o Kasai), marechal Mobutu incluído. Julgo que também não iam à bola com o MPLA que deveria parecer demasiado severo para um povo comerciante e contrabandista .

 

A princípio a postura do JP deixou-me incomodado que, por esses mimosos tempos, ainda acreditava na "progresia" africana tanto mais que tinha sido colega, amigo e companheiro de infortúnios vários de muitos que desafiavam a salazarice dominante. Porém, o diabo do zairense tinha uma real e sentida paixão por África, falava sete ou oito vernáculos e era um portento a explicar as máscaras dogon ou a história Kikuio. Sobretudo, sobretudo não se armava em "classe dirigente" e discorria sobre os patrícios mais humildes sem paternalismo.

 

Exprobei-lhe, sob o aplauso de Anne N.,belíssima e ardente afro-americana e "leftist" como convinha, a ingenuidade política, recomendei-lhe 3 doses de Franz Fanon (ele há um tempo para tudo até para o pobre Fanon..) e apresentei-o ao sofisticado grupo de veteranos na comparatística de que eu era um dos mais sólidos pilares.

 

Singrava a sessão de Pescara envolta no dolce farniente próprio da estação calmosa quando, qual tormenta de verão, nos surge, insone e lívido (digamos cinzento antracite) o nosso JP Lobho. Telegrama urgente da pátria longínqua, logo confirmado por todos os jornais, informava o nosso amigo e o mundo em geral, que o tal de Mobutu resolvera africanizar o país, torná-lo, não direi mais -ou sequer- democrático, mas menos neo-colonizado. Dados os manifestos inconvenientes em mexer com os poderosos interesses estrangeiros, de que o presidente recebia farta côngrua por baixo da mesa, tinha Sua Magnitude Que o Pariu decidido acabar com a notória e escandalosa herança colonial que se traduzia no facto de a maioria dos zairenses citadinos usarem nomes europeus e cristãos. Vai daí ordens eram transmitidas, dare-dare, à populaça, para se dotar de nomenclatura indubitavelmente tropical. O marechal lui-même ajuntava a Mobutu os nomes Sese Seko de insofismável proveniência africana.

 

JP estava inconformado. Sentia-se africano dos quatro costados, era preto retinto e não percebia o alcance político-cultural de (para além do seu nome irrevelável dado nas cerimónias rituais) inventar um novo nome. Levava desfaçatez ao ponto de perguntar se, subitamente, se reescreveria uma história outra do quintal do rei Leopoldo que em Berlin se traçara para conter os apetites veementes de ingleses, alemães, franceses e portugueses.

 

JP achava que sendo JP há 25 ou 30 anos tinha direitos históricos e comprovados sobre o Jean-Pierrre com que o tinham conduzido à pia baptismal e que ainda o Zaire não era Zaire, nem sequer Congo ex-belga, e já ele escrevia, num cursivo decente, nos seus "cahiers d'écolier" o nome e, quiçá, como no verso de Éluard, a palavra "liberté".

 

Todavia, a ordem ,vindo de quem vinha, era indiscutível. Havia que escolher nome e dar constância do mesmo no consulado zairense mais próximo para obter novo passaporte.

 

Entendeu a turbamulta jurídica que a ocasião requeria festejo a condizer pelo que jurando todos, embora, que entre os seus pares JP continuaria JP, haveria que encontrar nome capaz para o reafricanizado Lobho. Foram dias de frenética procura, de alianças e traições para fazer vingar um nome que junto ao Lobho (que por fas ou por nefas permaneceria!!!...) mostrasse ao mundo, ou pelo menos a Kinshasa, que os dois apóstolos estavam excelentemente substituidos.

 

Não me alongarei -até porque os anos passaram e a esclerose avança a todo o vapor dissipando os poucos farrapos de memória que me restam- sobre a enorme quantidade de propostas que deram entrada na mesa presidida por um romeno de nome Mihail e secretariada pela catalã Montserrrat e por um holandês discretíssimo que dava por Cees.

 

Também não revelarei o nome actual do JP não vá o doido ter voltado à pátria madrasta deixando inconsoláveis os amigos de Bruxelas . Menciono, por junto e atacado, as três menções honrosas que a douta se bem que ligeiramente alcoolizada assembleia elegeu: Lobho Pincho Moruno y Olé (proposta conjunta do bloco ibérico e de um irredentista chileno); Lobho Lualua Tantan, apresentada pelo bloco belga (valão) e pelo representante do Grão Ducado do Luxemburgo, Édmond Gérard; Lobho é pericoloso spogerse da autoria da dupla JC Brégi (França) e Michael Reynolds (Reino Unido).

 

Contra esta última proposta houve dois votos: o da Maeve O' Donahue representante da Irlanda e o da comunidade italiana (com a exclusão da Vanna Caravella que o achava "romântico e cosmopolita") que afirmava a pés juntos que no nome havia dois verbos e que aquilo não passava de um anúncio escrito nas janelas dos comboios italianos e que significava apenas é perigoso debruçar-se. Os italianos são gentilíssimos ms têm muito mau perder...  

  Gaudeamus igitur!

 

 

 

 

07
Jul20

estes dias que passam 445

d'oliveira

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Os dias da peste

Jornada 111

Desconfinando...

mcr, 7 de Julho

 

 

Sair do buraco nunca foi fácil e deste é ainda mais difícil. Vejam o que se passa com a TAP, uma amante cara, velha e pouco fiel. O único ponto decente da “nacionalização” (não vale a pena andarmos a baptizar a coisa com outros nomes: aquilo é uma nacionalização disfarçada com um Pedrosa a fingir de sócio minoritário e uma imensa promessa de vir a ser um sorvedouro de dinheiros públicos) é a defesa de (alguns, não todos) empregos e de alguns (não todos) dos fornecedores.

Até nestes dois items o sr. Pedro Nuno dos Santos foi incapaz de ser rigoroso. A TAP vai emagrecer fortemente, o que significa menos tripulantes, menos pessoal de manutenção e de apoio, menos fornecimentos de toda a espécie. Portanto, aquelas contas gigantescas, aquele dilúvio de números atirados para cima dos deputados e de nós todos, são falsas. Falsas!

A segunda razão é a que deriva do facto de haver comunidades portuguesas espalhadas por esse mundo fora e a TAP ser o meio ideal de transporte de toda essa boa gente quando vem de romaria à pátria madrasta. Pelos vistos, não há outras companhias que voem dos mesmos locais!!!Este patético argumento, a que acresce aqueloutro de quando se embarca num avião da TAP logo nos sentimentos em casa, a comer cozido à portuguesa e sardinhas assadas com pimentos, tudo acompanhado por um tinto alentejano ou por um verde do verde Minho...

E depois, isto faria rir se não fosse tão ridículo e estúpido, há o “prestígio” de Portugal. Qualquer aborígene da Nova Guiné, ao ver um avião da TAP lá no alto, fica comovido e invejoso “ah lá vai um pedacinho do torrãozinho de açúcar...”

O problema é que já conhecíamos de ginjeira o Sr Nuno Pedro. Foi ele o imortal autor da frase em que os alemães ficariam de perninhas a tremer caso “o leão da Estrela” rugisse!

Uma criatura com este teor de patrioteirismo genial não daria sequer para cabo de esquadra nas ilhas Comores mas aqui subiu a ministro e é candidato a Secretário Geral!...

Na TAP todos vamos perder. Todos, não! O sr Neeleman saiu de carteira recheada, driblando o ministro que o ameaçava. 55 milhões fora o que posteriormente vai escorrer...

 

No fim de semana, em Albufeira, 300 jovens holandeses, finalistas do secundário, armaram uma barraca das gordas ao tentar festejar em grupo fim das aulas nos longínquos países baixos. Parece que virão mais umas largas centenas que obviamente, mesmo sendo menores, tentarão emborrachar-se alegremente na Oura.

Este é o turismo porque ansiamos e que permitimos.

Aguentem que é serviço!

 

Na “outra banda” perto de Lisboa um inteligente alugou uma vivenda para um “evento” alegadamente para dez pessoas. Apareceram 300, número repetitivo. O barulho fez a vizinhança chamar a GNR. Esta, pelos vistos, estragou a festa. Espera-se que tenha identificado todos e cada um dos festivos participantes para aplicar, a todos e cada um!, a respectiva multa.

Cheira-me que este é apenas um desejo pio meu.

 

A única boa notícia do dia é que parece que Bolsonaro contraiu o vírus. A segunda boa notícia que se espera é que o vírus cumpra galhardamente o seu dever e qua a criatura engrosse o número de baixas que enluta o Brasil. Por uma vez, que não morram só os pobres, os desprotegidos, os de baixo...

 

Finalmente, num zapping demasiado rápido e tardio, vi na RTP África uma criatura afirmar que em S Tomé, já nos estertores do Império, havia escravatura. Que havia uma situação miserável é uma verdade mas conviria usar melhor as palavras. E saber um pouco mais do assunto. Entrevistadora e entrevistada partilhavam com igual desembaraço e entusiasmo uma ignorância crassa que só dá argumentos a todos quantos negam o desastre que foi a colonização, sobretudo em S Tomé.

 

A reabertura da fronteira terrestre com Espanha permitiu-nos ouvir o dr. Costa num arrebatado discurso em portunhol. Os espanhóis devem ter ficados estasiados, agradecidos e um pouco confusos. Aplaudiram, demonstrando que não levaram a mal o assassínio da língua pátria.

Olé!

06
Jul20

estes dias que passam 444

d'oliveira

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Os dias da peste

Jornada centésima décima

 Alfredo Tropa, the end...

mcr, 6 de Julho

 

 

Corria o ano de 1960, estaríamos em Novembro ou Dezembro, já não consigo precisar. Em Coimbra, era eu caloiro. Um caloiro, para os praxistas mais virulentos era menos que nada, estava “abaixo de cão” e, talvez, mas não garanto “abaixo de polícia”. Além desse correr o risco de ser rapado caso se fosse apanhado na rua depois do toque da “cabra”, havia ainda as “mobilizações” ou seja convocatórias a que o caloiro tinha de obedecer e que serviam para vários fins desde ser gozado numa república até fazer pequenos recados aos “doutores”.

Fui, nesse mês acima citado, “mobilizado por um “doutor” para ir varrero Centro de Estudos Cinematográficos da Associação Académica. A tarefa não foi penosa tanto mais que conhecia vários dos responsáveis dessa secção entre os quais o “Farrica” que agora já nao está entre comas e é o nome de um médico filho de outro que foi condiscípulo do meu pai, o Ângelo, a Isabel Boleo e Alfredo Tropa que exercia de presidente.

Ao fim de uma meia hora, já era membro do CEC e dispensado de varrer o chão novamente. Devo ao convívio dessa rapaziada as primeiras noções de linguagem cinematográfica e as primeiras leituras de Pudovkin, Aristarco ou das revistas “Positif” e Cahiers du cinema”.

O Alfredo tinha a paixão do cinema e explicava bem. Tão bem que poucos dias depois fui-me inscrever no Cine Clube de Coimbra que durante anos foi presidido por Orlando de Carvalho que laboriosa e inteligentemente ia escrevendo os boletins e as fichas críticas de cada filme apresentado. Julgo que essas intervenções foram do melhor que ele produziu, pela inteligência, pelo conhecimento, pela cultura e pelo estilo.

Voltando ao Tropa, só reencontrei 8e não fisicamente) quando a televisão ia passando curtas metragens, ou quando ele aparecia no genérico de alguns filmes marcantes do novo cinema português (Mudar de Vida, Belarmino...).

Segui-lhe a carreira televisiva, longa carreira, honrada carreira que, eventualmente, lhe tiru tempo para filmar o que quereria, pois só me lembro do “Pedro Só” e de um longo documentário sobre o Fernando Assis Pacheco de quem ele era amigo.

E foi, justamente, no 50º aniversário do Assis que finalmente o reencontrei. Depois da morte do Fernando, voltamo-nos a cruzar em sucessivas homenagens ao poeta. Porém, nessa altura já o Alfrdo Tropa fora vítima de um AVC que lhe roubara boa parte da memória.

Aliás, da última vez que nos vimos, em mais outra homenagem ao Assis, eu que fazia parte do painel de palestrantes, entendi homenagear o Tropa e contei a história da minha mobilização e posterior carreira brevíssima de varredor. Antes não o tivesse feito, pois ele que já não se lembrava de Coimbra, entendeu pedir desculpa por algo que sempre lhe agradeci, ou seja a minha entrada nesse obscuro e fascinante mundo do cinema.

Há, cá em casa, no que chamamos o “escritório 2” meia dúzia de estantes carregadas de livros, dicionários, scripts completos de filmes bem como quatro estantes com quase mil DVDs, cuidadosamente arrumados por realizador em ordem alfabética. Estão lá todas as minhas paixões, desde o Ford aos irmãos Marx, desde uma meia centena de Westerns até os grandes italianos (Visconti, Fellini, Paolini, Risi e mais uns quantos) E o Buñuel, o Bergman um par de franceses (ai, o Renoir!!!) enfim uma filmoteca que termina, receio confessá-lo nos anos oitenta/noventa.

Eu faço parte de uma geração que descobriu o prazer do cinema, graças às matinés dominicais em que acompanhávamos a minha mãe e amigas ao Cinema Peninsular na Figueira. A miudagem entrava à borla e apinhava-se nos camarotes laterais. Não sei se era boa ideia mas aí vimos tudo, desde “E tudo o vento levou” (que umas cavalgaduras mal ajaezadas à andaluza agora querem queimar) até ao magnífico e esquecido “Não há paz entre as oliveiras”, uma suma neo-realista de Giuseppe de Santis (1950).

E se é verdade que o gosto, o bichinho, do cinema estava cá, foi esse maravilhoso ano no CEC que, ao dar-me outras chaves para ver melhor, me permitiu afinar o gosto, redobrar o prazer da sala escura e perceber. E isso foi um pouco obra do Tropa e amigos que convidaram um miúdo e lhe mostraram a primeira grande carta de marear pelos caminhos infindos do cinema.

Agora, o Público de ontem traz a notícia da morte esse homem bom, desse apaixonado pelo cinema. Neste momento já deve estar numa conversa de bica aberta com um pancadão de amigos realizadores que se reúnem no fim da estrada de tijolo amarelo, aos crepúsculos como convém a gente de bem que fez do cinema essa arte absoluta do século XX.

The End!

 

(agora o que ficava bem era o belísimo "the end" dos Doors que iluminam esse extraordinário filme que se chama Apocalipse now. Acho que o Tropa gostaria...)

05
Jul20

estes dias que passam 443

d'oliveira

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Os dias da peste

Jornada centésima nona

As patrióticas indignações

mcr, 5 de Julho

 

 

Isto seria risível se não fosse patético. E tolo!E mais uma séria de adjectivos que não vou usar por temer um processo por ofensas aos mais altos poderes do Estado.

A Inglaterra tem, com mais uma série de países europeus, um critério para a quarentena obrigatória de quem vem de países onde o covid se passeia impune e sem pudor: o número de novas infecções por cem mil habitantes. É um bom critério? É um mau? Um assim-assim ?

É um critério, e basta. E não é só inglês mas está, tal qual o covid fdp, espalhado por vários países da União Europeia (e não só!...).

Portanto não há aqui nenhuma maldade escondida com o dito cujo de fora. Não há aqui nenhuma intenção de perseguir a terra lusitana dos egrégios avós e das areias algarvias.

É uma chatice? É!

Estamos a ser discriminados? Não.

Eu não quero assacar culpas a ninguém, mas a verdade, verdadeira, a “áspera verdade” de que Danton falava, é esta. Por cá, melhor dizendo (mas não só...) pela cintura pobre de Lisboa, o covid ceva-se impunemente em milhares de portugueses, mormente pobres, proletários & assimilados, gente que vive em casas miseráveis, que é obrigada a “enlatar-se” em transportes públicos insuficientes, a horas impróprias.

Gente que tem de trabalhar sob pena de não poder pôr na mesa uma refeição apressada e exígua para os filhos e restante família a cargo.

Gente que é mal paga porque tem as piores tarefas, as que pedem menos preparação e educação e que, em consequência, não oferece grandes salários. Gente emigrada, claro, mas não só.

De todo o modo, gente, seres humanos, escondidos para lá dos prédios luxuosos, das avenidas largas, do mar à vista, do progresso que o actual Governo tem dado às mãos cheias depois de um par de miseráveis ter gerido a herança de uma criatura que dava por Sócrates.

Comecemos pela Sr.ª Ministra da Saúde que fala pelos cotovelos mas, como dizia um sábio cozinheiro macua para a minha mãe e acerca de um rapazola na rua, “está só a falar...”

A dita criatura tem prosápia e descaramento. S.ª Ex.ª entende que o mal não é dos transportes mas do ambiente de trabalho. Traduzindo: o mal não é da meia hora para cá e da outra meia hora para lá como sardinhas em lata. O mal é do local de trabalho onde eventualmente até há hipótese de se manter algum “distanciamento social” e onde há, ou pode haver inspecções de toda a ordem de agentes dos poderes públicos. A nova salvadora sanitária deve confundir dois tempos diferentes: o tempo da viajem e o tempo do local de trabalho. O primeiro será sempre inferior ao segundo mas tem uma agravante de peso, de muito peso. É tudo a monte, uma rebaldaria absoluta e obrigatória. Se isto não convida o covid a lixar o mais resistente, vou ali e venho já!

Eu percebo, olá se percebo, a senhora ministra, coitada. Os transportes públicos dependem e muito do Governo, do Estado. Comboios, metro, autocarros dos serviços de transporte municipalizados etc... tudo isso tem a mãozinha do Estado e do Governo por trás. E a mãozinha pode não estar convenientemente lavada e desinfectada.

Querem que eu faça um desenho ou basta-vos ver as imagens deprimentes e acusadoras que a televisão nos traz à hora do jantar?

Depois temos o trio maravilha: o Sr. Presidente da República que se afirma “magoado” com a nossa “mais antiga aliada”. O Sr. Primeiro Ministro que, à imagem e semelhança de Trump, entendeu twitar uns números engenhosos para provar que o Algarve está bem e recomenda-se eque a Inglaterra está pior e não tem vergonha. Se a Inglaterra está pior, a que título se querem cá os “bifes” infectados? Será para pôr o Algarve como Lisboa? Ou S.ª Ex.ª julga que basta o ar de Faro para matar o covid clandestino e transportado pelos turistas da “pérfida Albion”?

E finalmente, o Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros que, em tempos, até ameaçou retaliar, a dizer um par de inconsequências que alguém menos generoso do que eu qualificaria de dislates sobre este grave assunto.

Só falo deste trio (e ainda da criaturinha da saúde que aqui só aprece como o contrapeso de uma compra no talho) por uma simples razão. Estes três senhores não são, nem têm a fama de ser, estúpidos. Eu conheço o terceiro e garanto que ele é, até, uma pessoa claramente inteligente. Os drs. Costa e Rebelo de Sousa, provaram em inúmeras intervenções televisivas que de burros nada têm, bem pelo contrário. Aliás, só assim se explica o sucesso político que lhes vem caindo em cima.

 

Todavia, estes ilustres varões, têm da malta, da marabunta, dos paisanos, dos cidadãos em geral uma ideia simples: acham-nos uns paus mandados, carne para canhão, uns simplórios, uns pobres de espírito (mesmo sem lhes dar em troca o reino celestial mas apenas uma caricatura de Portugal). No fundo, desprezam-nos. Esta gentinha serve para selfies, beijinhos e votar de quatro em quatro anos.

E, por isso, vá de nos enrolar com a maldade intrínseca dos ingliches & assimilados. Só por pura inveja é que nos metem no saco da quarentena.

Daqui a pouco vão citar o mapa cor de rosa e o Ultimato. E antes que venham com essa, e virão!, conviria lembrar que na época do mapa rosadinho a ocupação de territórios africanos na “costa e na contracosta” se resumia ao litoral e em alguns escassos casos no mato até cem duzentos quilómetros do litoral. O resto era desconhecido ou quase. Não havia, como resultava das diligências diplomáticas que precederam e, mais, tarde continuaram, a famigerada Conferência de Berlin, uma verdadeira ocupação dos territórios imensos para os quais aliás não tínhamos tropa, recursos e, muito menos, candidatos a colonos.

É verdade que, de permeio, e contra as ambições lusas, apareceu um “cavalheiro de industria” chamado Cecil Rhodes, que tinha o sonho imperial de ligar o Cabo ao Cairo.

É verdade, também, que houve um primeiro acordo entre Portugal e a Grã Bretanha que foi miseravelmente torpedeado pela minoria parlamentar republicana (com forte ajuda de várias facções monárquicas, convém acrescentar). Depois foi o que se viu. À recusa nacional e patriótica sucedeu-se o Ultimato e assinou-se um acordo pior. A pátria, ou alguns por ela, protestou com veemência cobrindo de crepes a estátua de Camões (coisa que assombrou todo o mundo civilizado), organizando procissões civis de protesto, um peditório nacional para comprar uma esquadra de guerra capaz de bater os piratas bretões. E um cavalheiro seguramente influenciado pelo grande vate coberto de luto escreveu “A Portuguesa” onde se dizia, preto no branco, “contra os bretões, marchar, marchar”.

Tudo isto, e muito mais, se desvaneceu vinte e muitos anos depois, quando, para participar numa guerra que não era nossa, mandamos para França umas dezenas de milhar de soldados, treinados à pressa em Tancos (o milagre de Tancos”!!!) que, à falta de navios nacionais, embarcaram em barcos ingleses, foram posteriormente treinados por oficiais ingleses e fardados pela Inglaterra. E fique claro que nem a França nem a Inglaterra nos queriam lá. Depois, foi o que se viu: a tragédia de La Lys, o soldado Milhões, e o regresso à pátria de centos de oficiais que engrossaram as fileiras do 28 de Maio.

 

Ai meus amigos e leitores, só me lembro e mal de António Nobre e da má sina de ter nascido em Portugal. Merecíamos mais e, desde logo, a verdade.

Será que esta gente pensa que engana o Pópulo? Não percebem que a simples informação diária de mais infecções, mais mortos, mais internados, desmente o triunfal êxito nacional que eles usam como gabarolice extrema?

Por quem raio nos tomam?

04
Jul20

estes dias que passam 442

d'oliveira

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Os dias da peste

Jornada centésima oitava

A nacionalidade

mcr, 4 de Julho

K, ou Kapa, como lhe chamamos disse-me uma vez que a pior conversa a ter seja com quem for, é sobre Israel. “Ou sobre os judeus”, acrescentou “pois não sendo exactamente a mesma coisa, suscitam as mesmas perplexidades, os mesmos remorsos, as mesmas desculpas”. Isto, exactamente assim pois depois repetiu-o num artigo de que só conservei este recorte, foi afirmado em plenos anos sessenta, por altura de uma das guerras relâmpago entre Israel e os vizinhos. Os leitores (e as leitoras, já agora) porventura não se lembrarão disto, destes tempos tumultuosos no Médio Oriente, já depois da independência de Israel, da guerra por causa d canal de Suez (que os israelitas aproveitaram e de que foram os únicos beneficiários), e depois de uma série de recontros relâmpagos que acabaram sempre da mesma maneira: Israel crescia em território e os vizinhos minguavam. Não vale a pena, lembrar que boa parte dos conflitos foram iniciados pelos países árabes, açulados ora pelo Egipto, ora pela Síria e sempre com duas vítimas: o Líbano e a Jordânia. De facto foi para ests dois países que confluíram as centenas de milhares de refugiados árabes expulsos primeiro do território inicial de Israel, depois do que primeiramente foi ocupado e finalmente de todos os restantes territórios onde a guerra se foi travando. Como pano de fundo ideológico e cultural havia sempre mais do mesmo. Os árabes eram atrasados, meros camponeses, beduínos enquanto os israelitas em muito menor número eram instruídos, capazes de autênticos milagres (plantavam no deserto...) Os árabes, mesmo quando não tinham qualquer simpatia pelo nazismo eram sempre comparados ao boche sequioso de sangue e pronto a acender os fornos crematórios. Em boa verdade, a propaganda nacionalista de certos grupos e partidos árabes que queriam correr com os judeus até ao mar onde se afogariam, dava direito a todas as interpretações. Os tempos, entretanto foram mudando, as lideranças também, e os palestinianos, pouco a pouco, foram emergindo mais como vítimas do que como agressores. No Líbano, os militares israelitas cometeram o irreparável quando permitiram a invasão dos campos de refugiados palestinianos por nacionalistas que Israel armou até aos dentes. A causa palestiniana teve altos e baixos, mais baixos que altos, porquanto minorias pequeníssimas tentaram ser o braço armado e terrorista da “nação palestiniana”. Quando o “Setembro Negro” o “Al Fatah” & similares apareceram muito boa gente ficou horrorizada. O massacre dos jogos Olímpicos de Munique foi o ponto alto. A esta infâmia, vista em todas as televisões, sucedeu outra, escondida, secreta e eficaz: o assassinato de todos os membros do comando palestiniano e de alguns inocentes que as equipas executoras israelitas confundiram com os criminosos. Note-se, já agora, que aqui, o crime foi superiormente dirigido pelo Estado de Israel. Mas isso passou mais ou menos desapercebido ou não comoveu demasiadamente os governos ocidentais e sobretudo o governo americano que sempre apoiou e defendeu, e armou Israel. Ao que parece, ou pelo menos é o que constava e consta, as grandes fortunas judaicas americanas, grandes contribuintes nas eleições presidenciais dos EUA, exerceram a necessária pressão para que tudo isso sucedesse. Espero que ninguém tente enviesadamente ler o que acima escrevi como um ataque ao capitalismo judaico versão hitleriana. Pessoalmente, julgo que se fosse judeu, o mínimo que exigiria aos ricos membros da comunidade é que contribuíssem para a causa de um povo que esteve à beira da extinção (e que nessa altura, em certas partes do mundo, mormente para lá da “cortina de ferro” passava por outra vaga de perseguições menos evidentes, menos fatais mas claramente tendentes a expulsar as fracas minorias judias que ainda lá viviam. E, na verdade, alguns milhares de judeus soviéticos tiveram licença das autoridades para emigrar para Israel onde, mesmo hoje, ainda representam uma das facções mais violentas do nacionalismo israelita). Portanto, e desde 1948, assiste-se a este drama que invariavelmente acaba sempre da mesma maneira: Israel cresce e os outros vão desaparecendo. Daqui a dias ou meses, o estado israelita aumentará de novo o seu território esbulhando os palestinianos. Com o beneplácito de Trump e a mão de Netanyahu. É por isto que, na sombra da lei de nacionalidade para os descendentes dos sefarditas, esta realidade está presente. Não que seja gritada da janela, não foram poucos os murmúrios de que uma lei restritiva impediria cidadãos israelitas de ter um porto seguro em Portugal. Vejamos porém, o que é que está em causa. Simplesmente uma lei que visava “reparar” uma injustiça: a expulsão dos judeus que se recusaram a converter-se ao cristianismo. Como de costume, não há números. Quantos se converteram, quantos partiram? E, entre os que partiram, quantos eram portugueses e quantos eram recém chegados de Espanha pois os “reis católicos”, antes de quaisquer outros quiseram começar a construir uma Espanha com a chamada “limpeza de sangue”. É que não foram apenas os judeus que foram compelidos a sair. Também os “moriscos”, ou seja os habitantes muçulmanos (muitos dos quais nem sangue árabe ou berbere teriam) foram directamente empurrados para Marrocos. Por razões que se prendiam com a tonta ideia de unificar a península sob o trono português, eis que também cá se entendeu correr com os judeus. Com uma nuance de peso: caso se convertessem podiam ficar. E isso ocorreu numa escala bastante grande, como se sabe, e posteriores perseguições da Inquisição fartamente comprovam. E foi assim que, sobretudo em zonas da raia e do interior do país, subsistiram comunidades judaizantes escondidas até ao século XX. Portanto, há cerca de quinhentos anos um número indeterminado mas importante de judeus, saiu de Portugal e distribuiu-se pelos países do Magreb, pela Holanda, por Veneza e pela Turquia, compreendendo neste caso parte importante do norte da Grécia. Falariam, muitos deles um crioulo baseado no português, eventualmente também no castelhano e que passou à posteridade com o nome de “ladino”. Supõe-se que hoje tal dialecto esteja morto só sendo conhecido de estudiosos. É possível que algumas dezenas de palavras ainda subsistam e até que sejam usadas. De todo o modo, ao fim de vinte e cinco gerações, seria um impensável milagre que se mantivesse. Como milagre seria que, em quinhentos anos a ideia de uma pátria portuguesa fosse algo que unisse quem quer que seja sobretudo comunidades separadas geograficamente, para já não falar nos que, durante o Holocausto desapareceram, se é que nos países de acolhimento não foram também vítimas de pogroms de vária latitude e efeitos. A ideia de, num súbito anseio de arrependimento, se legislar no sentido de dar aos descendentes dos expulsos a nacionalidade portuguesa apenas baseada na comprovação (dificílima, se não quase impossível) de ligação ao reino manuelino, a nacionalidade já é de per si, algo de obviamente generoso mas de difícil compreensão. É que nada nos liga aos que quinhentos anos antes tomaram uma decisão, de resto tomada pelo rei e por alguns apaniguados na corte alucinados com a ideia de conquistar pacificamente um território várias vezes superior ao nosso e povoado por uma povo seis ou sete vezes maior. Mas, aceitemos, a dita lei pelo que vale. Parece óbvio que ela se deve restringir a quem se sinta de algum modo ligado a Portugal, à cultua portuguesa, aos costumes nacionais, mormente à língua. E também não será descabido pensar-se que a concessão de nacionalidade se deveria restringir a quem quisesse viver em Portugal, porquanto de outro modo a nacionalidade apenas serve para viajar dentro do espaço Schengen sem os constrangimentos que gente extra-comunitária sofre. Pelos vistos, este país de que fortes percentagens de habitantes saem todos os anos desde há séculos, atrai ou atraiu já mais de 23.000 peticionários! Não sei se os entretanto novos portugueses vieram ou não para Portugal mesmo se aceite que algumas dezenas se terão deixado atrair pelas belezas locais, pelo fado, pelo vinho do Porto, pela chanfana ou pelo bacalhau com todos. Não cito o leitão à moda da bairrada, nem a feijoada à transmontana por motivos evidentes... E muito menos as alheiras que hoje em dia são quase inteiramente feitas com carne de porco. De resto, ninguém pode garantir que a sua origem tenha algo a ver com as comunidades secretas de judeus devotos e escondidos. Entretanto, a Espanha que teve uma lei semelhante mas mais restritiva já não nacionaliza descendentes de judeus que eventualmente tenham vivido em território espanhol e que provavelmente seriam quatro ou cinco vezes mais do que os de Portugal. Como não parece inclinada a chamar os descendentes dos moriscos mesmo se em certa propaganda do “Califado” do Daesh ainda se reivindique a Andaluzia... Em boa verdade, não me faz qualquer espécie a petição da nacionalidade portuguesa por quem quer que seja, mesmo se já me irrite, o passaporte concedido a uns cavalheiros de grande e duvidosa fortuna que pelo facto de cá comprarem um casarão caríssimo se instalam e viajam por essa europa fora graças a esse artifício. Para mim, e até prova em contrário, esses “investimentos” cheiram a branqueamento de capitais eles mesmos mais que duvidosos... Decerto é a inveja que me faz dizer isto e levantar esta suspeita carregada de má fé sobre criaturas “honradíssimas”...

O livro a ler: “Da vida e feitos de el rei d. Manuel” por D jerónimo Osório, onde se pode ler a verdadeira história do massacre de Lisboa (1506) e da rápida e dura intervenção do Rei contra os mandantes e participantes em tal crime. Se o dr. Mário Soares tivesse lido este probo bispo de Silves talvez pensasse duas vezes antes de pedir perdão por algo de que nem ele nem ninguém hoje, ontem e anteontem pode ser culpado ou acusado.

Na vinheta: menino judeu no ghetto de Varsóvia; menino palestiniano junto do pai morto durante uma manifestação de palestinianos contra Israel