Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

missanga a pataco 70

d'oliveira, 26.05.09

          

  Um debate perdido

 

Vi durante alguns minutos o debate sobre a justiça no prós e contras da RTP.  E digo durante alguns minutos (10, 15 ou um pouco mais) porque não aguentei mais. E não aguentei por uma razão simples: Laborinho Lúcio falava em alhos e os seus companheiros de mesa respondiam em bugalhos. Ou, por outras palavras, LL ia-lhes perguntando se queriam aumentar ou dominuir os direitos e garantias e eles respondiam que a justiça não funcionava. O caso mais espantoso passou-se com o dr Henrique Granadeiro. Ele acha que tudo está inquinado e que a culpa vai direita para os clãs jurídicos. É uma opinião que deveria ter sido provada com factos. Mas isso ficou no tinteiro. O dr Lobo Antunes disse, e bem, que a Saude e a Justiça devem ser direitos acessíveis a todos. E não apenas aos ricos. E que isso ocorria na Justiça. Que quem tem dinheiro safa-se sempre ou quase. Conviria ao dr Lobo Antunes ir de vez em quando a um Centro de Saude ou espreitar uma urgência de um grande hospital. E perguntar se porventura lá vê algum rico. E, já agora, responder se são iguais os meios de um doente rico e um doente do SNS para enfrentar por exemplo um cancro…

Um senhor sacerdote que confessava a sua absoluta ignorância, em concreto (sic), das questões jurídicas afirmava que não basta ao agente da justiça ler cartapácios. Claro que não. Mas dizia, depois, que é preciso uma consciencia ética apurada. Sem dúvida. Só se esqueceu de dizer como é que se chega a esse ponto, como é que se recruta o agente com a dita alta consciencia ética. Aliás até poderia dizer se, no seio do seu grémio, a Igreja, isso ocorre. Ou se ocorre sempre. Se todos os religiosos regulares ou seculares detém essa “alta consciência ética”. E por aí fora.

Vivemos um tempo dificil. Como também LL disse a máquina da justiça portuguesa está pensada para vinte ou trinta anos atrás. Competiria a todos, mormente a quem legisla mas não só, definir que justiça queremos, que meios lhe damos, que recursos lhe afectamos, que liberdades e garantias desejamos, que limites devemos impor ao simples accionar dos recursos, que penas queremos para o perjúrio (saberão os leitores, e saberá o dr Lobo Antunes a que pena se sujeita um falso testemunho nos EUA e porque é que um cidadão como o senhor Madoff rapidamente se declara culpado? Tenho a percepção que não.), como é que pretendemos organizar os tribunais, etc, etc.... Alguém em seu perfeito juizo entende que os códigos penal e de processo penal, solenemente votados na Assembleia protegem os cidadãos inocentes e punem com adequada severidade os criminosos. Alguém, em seu perfeito juízo, acha boas as regras em vigor para a aplicação de penas suspensas?

Mas não, na maior parte dos casos, assobiamos para o lado e “eles”, juizes, advogados, procuradores e criminosos, que se entendam. Não é connosco. Nada é connosco. As fugas de informação de processos virão todas do procurador ou do juíz de instrução? E não andará por aí um (só um) advogado manhoso a alimentar a curiosidade dos jornalistas? Ou um familiar do arguido? Que diabo, seremos assim tão ingénuos?

Estes debates deveriam servir para perceber. Para tal deveriam ter como intervenientes pessoas que conhecessem os temas. E que fizessem o trabalho de casa. E que, além de gostarem de se ouvir, de pensarem que têm algo para dizer, tivessem também tempo e paciência para ouvir o que os outros dizem. Para dar o braço a torcer se for caso disso. Mas, desculpem-me a franqueza, aquilo ao fim de um quarto de hora já era uma cacafonia. Assim não vamos lá. 

3 comentários

  • Imagem de perfil

    d'oliveira 26.05.2009

    Como disse apanhei o debate exactamente quando se começou a falar de justiça pelo que pensei que era sobre isso que se falava. como diz o comentarista anterior os restantes sobre este assunto, absolutamente vital (são a nossa vida, a nossa honra e a nossa fazenda que estão em causa) só Laborinho sabia o que dizia.
    Aliás ia agora escrever em comentário esta correcção mas já não fui a tempo. De todo o modo mantenho integralmente o que disse pelas razões que também aponto. A Justiça está na base do sistema democrático. Pela divisão dos poderes, pela defesa dos direitos pela realização mesmo que forçada da igualdade e pela defesa da liberdade.
    A questão do bota-abaixismo, cara amiga, vem do século XVI. Desde Sá de Miranda e Camões!... Ou seja, as elites estrangeiradas sempre tentaram comparar o país com as restantes nações da Europa. E sempre o acharam em desvantagem. como Eça o viu. Ou Ramalho Ortigão, ou Abel Salazar, ou o Cavaleiro de Oliveira, ou Ribeiro Sanches, ou o grupo de Genebra para sermos actuais.
    Tive a sorte de fazer prolongadas estadias lá fora: na Alemanha, na Holanda, em França e na Itália para não referir a Espanha aqui ao lado. voltei sempre a Portugal mesmo quando tive hipótese de ficar lá fora (melhor em todos os aspectos, diga-se já). Voltei porque sou combativo, porque me indigno, porque não me calo nem nunca me calei. Mas começo a ficar desolado, muito desolado. E farto. É por isso que não suporto o nacionalismo exacerbado de tantos que fazem dos nossos defeitos virtudes. Que acham que...apesar de tudo... enfim, talvez, ora, ora. Este é o país da desculpabilização colectiva.somos como dizia uma personagem de Eça o "torrãozinho de açúcar". Não chega e faz mal ao fígado!
    O famoso lema right or wrong is my country pode ser muito bom em Inglaterra porque a Inglaterra é grande, fez-se grande, e defende-se com unhas e dentes. no país do "magalhães" a coisa entra pelo ridículo.
    E já agora, que estamos com a mão na massa, pensemos um pouco nos dialogantes. O dr Lobo Antunes v~e o mal na justiça a duas velocidades e esquece as três velocidades da Saúde. Deve pensar que os pobres têm as mesmas hipóteses que os ricos...
    O dr Granadeiro foi o Presidente da PT até há pouco mas também foi um fiel serventuário do antigo regime. em cargos políticos de alta importância. Claro que depois de Abril deve ter visto a luz!... agora perora sobre a democracia. É pró que estamos...
  • Imagem de perfil

    O meu olhar 27.05.2009

    Mcr, eu concordo que este é um país de desculpabilização colectiva. Aliás, na minha opinião, esse é um dos grandes problemas nacionais. Também sou das que não se cala e se indigna, por isso admiro quem o faz duma forma mais frontal e mais "arriscada" do que a minha, como foi e é o seu caso.
    Tudo isso não retira uma outra coisa que me parece essencial: o discurso corrente neste país, que se espalha na blogosfera, na comunicação social, nos cafés, nos empregos, é derrotista, pessimista, difamatório, não construtivo. Com isto o que eu quero reforçar é que, paralelamente à crítica, deveria haver um discurso construtivo de formação e construção de algo. Isto é como na psiquiatria: é fácil desmontar uma narrativa do passado, difícil é apoiar as pessoas na construção duma nova visão e acção.
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.