Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Au Bonheur des Dames 193

d'oliveira, 01.07.09

 

Estará tudo isto a saque?

 

A pergunta será, porventura ociosa dado que a maioria das gentis leitorinhas responderá sem hesitações que sim, que entrámos no tempo dos urubus e que anda meio mundo a enganar o outro meio.

É possível, mas eu, que sou da velha guarda e que ainda tenho alguma fé no próximo, caio que nem um pato em todas as que me aparecem. Ou, se não caio, titubeio. Ora vejam.

Estava eu, todo contente a gozar um sábado de grande calma lendo ( ou melhor folheando) de parceria com a minha gata Kiki de Montparnasse, duas aquisições literárias recentes, a saber, “Mil anos de poesia europea” e “La aventura de pensar” do Savater.

E a que vem tão extravagante junção?, perguntará a habitual leitora cartesiana e curiosa. Ora, a nada, ou melhor, tal leitura deveu-se ao facto de estar a dar entrada dos livros no ficheiro e, como de costume, resolvi demorar-me a dar uma vista de olhos. A Kiki entusiasmou-se com um capítulo sobre Hume e a radicalização do empirismo (e toda a gente sabe quão empírica pode ser uma gata cinzenta e amadora de fiambre da perna extra ((mas sempre da marca Nobre!, nisso se parecendo com a minha augusta mãe que em fiambres é muito selectiva. Deve ser da idade…)) enquanto eu a tentava com as primeiras linhas de “Orlando furioso” (le donne, i cavalier, L’arme, gli amori, le cortesie, l’audaci imprese io canto…) quando me batem à porta.

Fiz das tripas coração e arrastei-me até à entrada, desta vez acompanhado da gata Ingrid Bergmann que é uma criaturinha curiosa até mais não e muito dada a estabelecer novas amizades.

Era um cavalheiro da “clix” que me vinha propor, num só pacote, este mundo, o outro e toda uma nova maneira de estar na internet. E na fibra óptica!, diz-me de lado a Ingrid. E na fibra óptica, concordo eu.

Contas feitas, por menos do que eu pagava na Zon, ofereciam-me a felicidade, a velocidade e os canais 2 e 3 da RAI. E mais coisas, claro, mas retenho estas que foram as que mais me bateram no olho voraz.

O pobre, quando a esmola é grande, desconfia e eu, macaco velho e já com o rabo pelado, resolvi fazer algumas perguntas. Se tinha de esfurancar a casa toda (Homessa! Nada disso! É tudo wireless!), se alem das duas boxes que queria poderia ter televisão nas restantes divisões (Pois claro, era o que faltava!),se poderia organizar, nas boxes, uma lista de canais favoritos, obliterando a escória televisiva e ordenando-os à minha maneira (isso da primeira vez fazem-lhe os instaladores mas de todo o modo é uma fervurinha!) e finalmente se poderia ter uma “pen” para o serviço de internet móvel, uma coisa mais eficaz do que a de que dispunha, mais rápida, mais fiável etc, etc… (gargalhada dos vendedores, na altura já eram dois: cheirava-lhes a carniça fresca, claro: que sim, que estivesse descansado.)

Assinei os papeis perante o olhar critico, e no momento, kanteano da Kiki e o entusiasmo da estouvada Ingrid.

Até hoje, dia maior da nova vida toda em fibra óptica. Hoje, dia dos prodígios, recebi logo pela manhã uma encomenda com o dispositivo de internet móvel que me pareceu rigorosamente idêntico ao que já tinha! E à uma e meia, estacionavam cá em casa dois instaladores da Clix cheios de fios.

Intrigado, e desconfiado, perguntei o porquê da fiarada.  Era para escavacar parte das paredes e levar a tal óptica a 100mps aos locais de consumo.

Resolvi começar por perguntar se me instalavam nas boxes o tal programa de favoritos explicando que não gosto de ver o canal bromberg das cotações, a MTV e outras balivérnias. Os rapazes torceram-se, franziram o sobrolho e murmuraram que isso não era assim tão líquido. Até a Ingrid Bergmann que obviamente acorrera para confraternizar com os visitantes pareceu desconcertda. Aterrado, resolvi indagar se poderia ver televisão mesmo nas divisões onde não haveria instalação de boxes. Não!

Não?, bradei, estarrecido, então o que é que faço?

Põe mais boxes.

E pago!

Ai não! Se lhe disseram que era de borla pode tirar o cavalinho da chuva.

Manda a verdade que a tanto os “comerciais” clixonianos não se atreveram. Mas, perante a minha pergunta clara e objectiva, disseram que onde não haveria box haveria apenas o pacote primário da clix!

Em poucas (e escolhidas) palavras: alguém me tinha tomado por lorpa, me tinha enfiado o barrete até aos ombros e me servia gato por lebre, salvo seja (desculpem lá gatas, isto é uma velha expressão portuguesa, não é nada sobre vocês”.)

Alto e pára o baile! Assim nem vale a pena começar. Vamos já ver o que diz a clix e se as coisas foram como dizem, foi pena o passeio porque para serviço assim-assim já me basta a Zon.

E terminou desta maneira, com protesto assinado, a aventura de migração para a clix. Clix que a pariu! No mesmo momento resolvi devolver o dispositivo de internet móvel que era, como eu suspeitava, a mesmíssima coisa que já tinha. A propósito já está encomendada a outra operadora, aliás à minha operadora para este efeito, a famosa pen que os clixordeiros não têm.

Na passada, negociei com a Zon um novo contrato mais barato, com mais regalias do que anterior. Eu não sei se quem é zon está on como eles apregoam. Sei, todavia, que com algumas outras, ou outra, operadora não se está on. Está-se off. 

(Kiki, o Berkeley não é ainda para a tua idade!  E o Schopenhauer muito menos! )

 

 mcr com Kiki de Montparnasse e Ingrid Bergman de Andrade escreveram este Au Bonheur des Dames et des Chattes

 

* "La Aventura de pensar", Fernando Savater, Debate, 2009

"Mil años de poesia europea", Francisco Rico, Backlist, 2009

** na gravura Kiki e Ingrid a fazerem pose para o dr Manuel António Pina 

1 comentário

Comentar post