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Incursões

Instância de Retemperação.

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Estes dias que passam 171

d'oliveira, 03.07.09

 Bengalada neles!

 (carta ao meu amigo João que está desanimado com o espectáculo da pátria)

Conhecemo-nos há uns bons quarenta e cinco anos. Mais até. É de Coimbra, que tu agora votas às gemonias, que vem a nossa amizade, afeiçoada em combates comuns, num tempo de esbirros, de delatores, de solidão. Fizemo-nos cidadãos nas Assembleias Magnas ao frio vivo das noites invernosas no pátio do Palácio dos Grilos, sede da AAC. Aí com muita oratória, igual dose de entusiasmo, muita inocência, deslumbrados, começámos a perceber um mundo diferente daquele em que até então tínhamos vivido. Vínhamos de famílias acomodadas que se podiam dar ao luxo de mandar os filhos para a Universidade, de lhes pagar cama, mesa e roupa lavada numa terra distante, de lhes perdoar, mesmo, algum que outro arroubo contestário. Os nossos pais, pelo menos o meu, apesar de não comungar com a nossa aspiração, estavam ao nosso lado, apoiavam-nos mesmo quando, nos casos meu e do meu irmão, acabámos com o costado em Caxias.

Tu, mesmo, já em Lisboa, arriscaste e não pouco ao assumir responsabilidades politicas clandestinas e estudantis na direcção do movimento associativo.

Vivemos tempos difíceis, durante os primeiros vinte e cinco anos da nossa vida adulta. Assistimos, interviemos, esforçámo-nos (como já confessaste em páginas tuas na internet) durante os anos de fogo e rosas que se sucederam ao 25 de Abril. E muitos anos depois, já com cinquentinhas ainda fomos dar uma mãozinha aos Estados Gerais. E fomos mesmo assim: não pedimos, não queríamos, sequer admitíamos que no horizonte imediato do nosso contributo houvesse uma prebenda qualquer.

Depois desta breve incursão pelo nosso percurso que reivindico com algum orgulho é altura de te dizer que, desta vez, não te apoio na tua desalentada denúncia da situação que vivemos.

Gente como nós já passou por muito pior para se assustar com estes pobres diabos que se pavoneiam na capoeira politica em que eles mesmos se meteram. Isto, caro João, são umas pobres galinhas sem raça definida que sonharam ser águias e nem sequer chegam a urubus. Atiçadas pelo cheiro da carniça, ei-las que aparecem num cacarejo dementado a disputar os restos que caem da mesa do orçamento.

Perante esse espectáculo resta-nos não só a indignação (ainda temos capacidade de nos indignar) mas sobretudo a denúncia das negociatas, das mentirolas (será que eles pensam que somos todos uns anjinhos?) da falta de perspectiva a curto, médio e longo prazo.

E sobretudo é possível, mesmo nos blogs, que tu agora achas pouco interessantes, expor-lhes as vergonhas ao sol. Somos cidadãos que sabem o que isso custou. Somos cidadãos a quem os mais elementares direitos, políticos, sociais, culturais, foram durante longo tempo sonegados. Soubemos resistir a isso, soubemos ultrapassar isso, soubemos até vencer isso. Mal iria o mundo, mal estaríamos nós, se agora nos remetêssemos ao silêncio, à tristeza e ao desalento. Bem pelo contrario, esta situação permite, mesmo a velhos combatentes, desenferrujar a língua, a caneta e o que mais for necessário para combater esta gente que arrenega de tudo, que não tem espinha nem ideais, não tem vergonha nem ética.

Não temos, hoje, mais a perder do que tínhamos em circunstâncias muito piores. Só os adversários são inferiores aos daquele tempo. Em tudo, mas isso não é óbice para não nos mobilizarmos. Era o que faltava. Animo, companheiro! Salut I forza nel canut!  

 

* isto ia chamar-se “varapau neles!” mas lembrei-me a tempo que o nosso amigo d’Oliveira tem uma série com o título “A varapau” pelo que optei pela bengala, coisa a que a nossa idade pode começar a fazer jus, E uma bengala dá sempre jeito.  

 

 

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