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Incursões

Instância de Retemperação.

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Au Bonheur des Dames 199

d'oliveira, 25.07.09

Um velho senhor deitado no chão

 

Deixem-me partilhar esta convosco. Se é que estão para aturar um velho cavalheiro que se lembra de demasiadas coisas como se o antes fosse melhor do que o agora.

Ando atarefado a organizar os meus textos publicados neste blog. Contas feitas, e por baixo, passam dos setecentos. Em quatro anos é obra. Setecentos textos a duas três paginas cada, eu, em vez de Ribeiro, tendo para Proust (traduzido em calão, claro, que eu até gosto muito do velho senhor por muitas e boas razões. Até pelo “petit pain de mur jaune le plus beau tableau du monde”: ora tomem lá que é para saberem). Portanto, nem imaginam a trabalheira. Ele é gralhas que escaparam a tudo, ele são números repetidos, no Au bonheur de repente passa-se do 152 para o 158, onde é que ficaram os cinco que faltam, por vezes não há títulos, enfim um forrobodó do catorze!

Ora, para esta ingente tarefa que cumpro aplicadamente com a assessoria das gatas (que volta e meia resolvem saltar para a mesa e passear entre mim e o computador) o melhor é ouvir música. Poderia socorrer-me do IPod mas há na televisão um belíssimo canal. o mezzo, que tem a vantagem de apresentar coisas variadas e, muitas vezes, novas para mim. Ora agora mesmo, está a passar o 3º andamento da Nona de Beethoven.

E, de súbito, vem-me à memória o avô Alcino Correia Ribeiro, exportador de vinho do Porto, provador de primeira, homem severo, culto e poupado até dizer basta.

Quando apareceram os discos de 33 rotações e, concomitantemente, umas aparelhagens relativamente cómodas para os ouvir, o avô esqueceu-se da forretice e atirou-se de caras. Ele fora toda a vida, e especialmente na sua juventude, um frequentador de concertos, sobretudo na Alemanha (antes de 1914!) onde passara dois ou três anos a estudar Química e coisas relacionadas com a vinicultura.

Para estrear a aparelhagem, comprou de rajada as nove sinfonias anunciadas na “Stern”, que ele teimosamente continuava a assinar (o avô falava seis ou sete línguas vivas e duas mortas, atrevendo-se mesmo a ler Homero no original!). Quando aquilo chegou e finalmente desembrulhamos aquela resma de discos (mesmo assim eram muitos) o avô anunciou triunfal que iria começar pela nona (três discos pelo menos) e que para a ouvir em condições naquela sala não havia  melhor posição do  que deitados no chão.

E foi assim que, nesse dia (entre todos abençoado), ouvi pela primeira vez a nona, dirigida, penso, pelo von Karajan. Deitado no chão, duro apesar dos tapetes, com cinco intervalos para mudar o disco, tudo minuciosamente explicado pelo avô durante os intervalos. Se bem me lembro a explicação obedecia, como não podia deixar de ser, a critérios em voga nos anos imediatamente anteriores à guerra. Não importa. Sempre que oiço a nona, é do velho senhor que me lembro, do seu pueril entusiasmo, do profundo conhecimento da peça, que ele cantarolava de fio a pavio. E da ode à alegria que obviamente traduzia com facilidade e rigor.

Hoje, a CG saiu de modo que o 3º andamento da nona escutou-se comigo no chão com uma gata na barriga e outra encostada à perna direita. Expliquei-lhes tudo tal como me lembrava. E creio que elas apreciaram.

 

E como manda uma antiquíssima tradição, fomos de seguida comer um pouco de paté. Para mim com um copo de vinho tinto. As gatas beberam água que se consolaram...

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