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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Uma conversa antiga

JSC, 29.07.09

Já me doem os olhos só de pensar que vou perder este lugar. Nasci aqui, neste beco e todos os dias calcorreei estas lajes. Agora até vou ter de ficar longe destas pedras, eu que me afeiçoei tanto a elas. Às tantas não há alternativa. É quase como o bagaço do Manel. Não há alternativa ao bagaço do Manel. Por falar nisso, como vai ser agora que me vão levar para fora daqui?

Claro que a Câmara bem poderia alojar-nos nas casas que tem vagas ali ao lado. São para outros, já estão distribuídas, disseram-nos. Aqui conhecemo-nos todos e ninguém sabe para quem são. Porque não hão-de ser para nós se fomos nós que nascemos aqui, crescemos e amamos aqui, fizemos e vimos nascer os nossos filhos aqui. Porquê não hão-de ser para nós, que queremos morrer aqui?

Mas essa gente nada sabe destes sentimentos. Vieram de fora e têm o poder e a força do lado deles. Poder que lhe demos. O nosso destino não tem alternativa. Só no Barredo há dezenas de casa fechadas e mantêm-nos na Mitra, no Aleixo, em Pego Negro, longe dos Bacalhoeiros nosso miradouro e trampolim para o rio.

Se ao menos restasse a esperança do retorno, até nem importava que fosse o mesmo prédio, no mesmo andar, pelo menos a mesma rua ou outra pegada. Mas nem isso.

O problema é que não há alternativa e ninguém tem culpa disso. Aliás, nesta terra nenhum governante sabe o que é assumir responsabilidades. Quando alguma coisa menos boa acontece é sempre por culpa do acaso, da chuva, da corrente, do vento, do calor, dos burocratas, que é como quem diz, culpa de Deus e nunca de quem governa.

O povo bem suspira e do ar que trespassa as ruelas pressente-se a angustia que vai adentro das fachadas em decomposição. Só que os governantes apenas pressentem estas coisas de quatro em quatro anos e para chegar a esta realidade vêm aconchegados em veículos blindados, de bancos reclináveis electricamente, espaçosos e bem equipados, para que a coluna não sofra qualquer dano, sempre protegidos por polícias e seguranças a fingir de assessores. Depois é a distribuição dos olhares sobre os eleitores, que não sobre as pessoas e os problemas. Talvez seja por isso que se espantam tanto quanto um prédio desaba ou quando o rio se enche ou os incêndios devastam as serras e as geadas queimem os campos.

Os políticos que temos tido, disse, se não são os profetas da desgraça são os fazedores da nossa desgraça. Os homens sem eira nem beira, os habitantes dos bairros de lata, o trabalho infantil, os sem abrigo, eis o exército gerado pelos políticos. Essa casta que detendo o poder nada faz ou pouco faz que contrarie a lógica da acumulação e da apropriação da riqueza. É uma casta que se reveza no poder e sacia clientelas diferentes com interesses afins.

São esses interesses que os aproxima depois da refrega eleitoral. Meses e meses de guerra, a rosa contra a laranja e vice-versa, o porco contra o burro e vice versa, ele são insultos, acusações de má gestão, de incompetência, inércia, compadrio, delações e o mais que se sabe. Depois é o dia dos votos e todos se reconciliam. Os derrotados falam primeiro, para saudar os vencedores e os vencedores falam a seguir para dizer que a vitória não é deles mas de todos e que vão governar para todos e não apenas para os que votaram neles. É a declaração de paz. Seguem-se almoços de trabalho, reuniões para concluir que ninguém pode ficar de fora (referem-se aos que lá estavam antes), que é preciso uma equipa coesa, mas com o apoio de todos porque os superiores interesses do povo exigem que se entendam. E entendem-se!

Desse entendimento resulta a partilha dos cargos ministeriais, dos pelouros, o recrutamento dos secretários, a nomeação de gestores, dos assessores que serão sempre os fiéis amigos, aqueles que melhor serviram e ajudaram a subida de quem recruta.

Quando se substituem uns aos outros, os que saem fazem discursos de balanço enfermados de adjectivos e raciocínios laudatórios ao trabalho desenvolvido. E com eles estarão sempre os subsídio-dependentes, os fazedores de opinião, todos aqueles que fazem da sua vida o degrau, a escada por onde trepam políticos e disso dependem uns e outros.

Estranha democracia esta que escorraça as pessoas para fora do seu habitat natural, que não cuida das franjas alargadas do povo que espreita pelas vielas denegridas nem das pessoas que dormem nas soleiras dos portais, onde os comissários dos governos não chegam.

 

 

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