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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

24
Mar10

estes dias que passam 202

d'oliveira

Dizer o quê?

 

Uma leitora amabilíssima e um leitor que lhe não fica atrás escreveram-me perguntando a razão do meu silêncio sobre o que se passa no seu (deles) partido, o PSD. Pelos considerandos, deduzi que não estavam satisfeitos com aquela balbúrdia e que pertenciam ao verdadeiro universo social-democrata, isto é à corrente menor e mais esquecida do PSD.

Em abono da verdade quase diria que estariam melhor no P.S. se este estivesse um pouco mais à esquerda. Mas não lhes recomendo a transferência por motivos que a seguir tentarei explicitar.

Começando pela resposta: raramente falo do PSD porque não pertenço a essa “guerra”. Sempre entendi que o partido fundado por Balsemão, Sá Carneiro e Magalhães Mota (vale a pena recordar os fundadores) chegara tarde e a más horas. Deveria, e poderia, ter-se fundado (e legitimado) antes do 25 de Abril. Razões de vária ordem terão impedido estes três homens, de cuja coragem nunca duvidei, de dar esse passo. Alguém me confidenciou que eles apostavam muito num P.S. menos esquerdista. Que tinham a esperança de que, uma vez democratizado o país, a carga marxistóide do P.S. se diluísse num programa semelhante ao do SPD alemão em vez de macaquearem o PSF de Miterrand. Foi assim? Ignoro-o. De todo o modo perderam uma hipótese única de se apresentarem como formação do centro esquerda. Dir-se-á que com isso impediram a formação de um grande partido de Direita. É provável. Mas destruíram a chamada opção “social-democrata” e converteram-se numa federação de caciques locais, de tecnocratas marcelistas, de órfãos liberais de Marcello, de populistas onde, de longe em longe, aparecem os tais sociais democratas. Actualmente, o PSD é (como o actual P.S.) um partido desideologizado. E isso vê-se cruelmente neste sobe e desce de candidatos e putativos candidatos que disputam a liderança.  Assim sendo, compreende-se que não só nunca me tenha atraído mas até me irrite mais do que convém a uma pessoa da minha idade.

Portanto, amigos leitores, desculpem mas tratem vocês disso. Eu, para carnavais desses, nunca dei, não dou e não darei.

E voltemos ao P.S. Também aqui, cada vez vale menos a pena falar. O P.S. tornou-se numa espécie de partido coreano. Anda tudo à volta de um líder de desconhecidas qualidades, ideologicamente neutro, detentor de todo o poder e capaz, como os eucaliptos, de criar o deserto à sua volta. O P.S. é Sócrates (est5e, não o glorioso grego) e não se vê nada para além dele.

Ou vê-se e é a isso que vimos.

Vê-se um pobre diabo distrital, o senhor Renato Sampaio, conhecido localmente por ter averbado no seu mandato a mais vergonhosa derrota eleitoral para a Câmara do Porto. Desconhecendo-se na criatura qualquer lampejo de teoria, poder-se-ia pensar que estava apenas a cumprir calendário. Mas não. O homenzinho mexe-se, agita-se, estrebucha, cavila e eructa. Agora entendeu apoiar um qualquer congénere para a concelhia da Trofa. Ao contrário de outros, que acham que “de minibus non curat praetor”, Sampaio vai à luta e e entendendo que a actual presidente da Câmara da Trofa não tem qualidades (apesar de a contra-corrente, pelo seu esforço, ter conquistado esta câmara ao PSD) resolveu dizer que a dita senhora é “um caudilho de saias”. E que “não foi para isso que o PS foi fundado”. Temo  bem que Sampaio não consiga alinhar duas frases sobre as razões por que o P.S. foi fundado mas isso já não é surpresa no pantanal ideológico em que florescem muitos dos mais preclaros dirigentes socialistas nortenhos. O que me preocupa é o machismo grosseiro e ordinário da expressão: “Caudilhos de saias”! À uma porque as mulheres usam mais vezes calças do que saias. Depois por que a burrice recobre aquela velha pergunta “quem é que aqui usa calças?”, tomadas estas como símbolo da autoridade. Depois por que é deselegante como discurso, sexista como afirmação e cretina como constatação. Afinal foi a senhora Joana Lima quem, ao contrario de Sampaio, provou, no terreno, ter capacidade e carisma suficientes para conquistar uma câmara ao PSD.

Deixemos entretanto Sampaio que já se gastou demasiada cera com tão ruim defunto, e passemos ao extraordinário deputado Ricardo Rodrigues.

Tal como os ananases, vem dos Açores mas é menos útil. E a razão é simples. Enquanto o ananás serve para imensas receitas culinárias, RR só serve para “dizer coisas”. E não se veda. Agora veio com essa extraordinária exigência de chamar Manuela Ferreira Leite à Comissão que investiga o caso TVI. A que título? Será a senhora Ferreira Leite, titular de algum órgão de soberania, terá ela tido alguma influência nos acontecimentos, será que da sua decisão, ou não, resultariam negócios desta monta? Ou, RR, sempre desnorteado, a resolveu tornar Primeira Ministra alternativa, agora que a piedosa senhora quaresmalmente se retira da cena política?

Eu não sei se a proposta de RR foi recebida com uma gargalhada ou apenas com estupor. É que há coisas que, de tão incongruentes, deixam uma pessoa transida de pasmo, em estado comatoso, incapaz de responder a algo que, aliás, nem resposta merece. No P.S., pelos vistos, as posições de RR não merecem crítica. Será que o mal não é dele, mas dos que o aturam e apoiam?

E para terminar esta romaria ao “dégoût”, regressemos, desanimadamente, ao sempre eterno senhor Lello. Parece que a criatura não gosta que os jornalistas saibam  qual o uso que ele dá ao computador que o Parlamento lhe fornece. Da última vez que tive notícia da sua computação, Lello, o opinante, mandava para o twitter esta pérola literária: “Que seca!

Referia-se, como é evidente (nele, claro, sempre nele), à quase unânime homenagem que o Parlamento prestava a Manuel Alegre no seu última dia na Assembleia.

Presume-se que os jornalistas terão sentido curiosidade em ver a que mais aventuras computacionais se dedicará este esforçado pilar do parlamento. Joga o gamão no aparelho?  Vê as meninas despidas no “sologatitas.com”? Lê o circunspecto “The Times” na página respectiva? Troca e-mails com anedotas com os colegas de outros parlamentos? Ou pesquisa na internet as últimas novidades literárias desde um recentíssimo Cioram (“Aforismos”, Letra Livre, ed) e outro não menos recente  Semprun (“Au creux des nuages”)? Convenhamos que esta última hipótese é meramente académica, mas enfim, merece de todo o modo ser considerada quanto mais não seja para aviso a leitores desprevenidos.

O senhor Lello ainda não se terá dado conta que está num parlamento. Poderia ter lido, com proveito apesar do esforço de meninges, algum texto de Eça sobre o Parlamento e ele há-os de excepcional graça e estilo. Deveria saber que, já que pagamos essa sua voluptuosa sinecura, temos o direito de saber o que faz durante as longas horas das sessões em que é suposto estar atento e pronto a intervir para melhorar a situação da pátria mal amada.

Alguém me disse que Lello se considera um veterano, um dos “últimos”. Terá com isto querido significar que era dos bons, dos da primeira carrada, dos de que valia a pena falar. Erro dele, e forte: Lello, na sua antiguidade, é um dos primeiros, um dos que nos fazem olhar para o parlamento com algum rubor nas faces e seguir apressadamente em frente, sem nos determos. Por receio de que nos tomem como mais um deles.

Mesmo na Páscoa est modus in rebus...

 

 

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