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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

25
Mar10

Diário Político 141

mcr

Lutos, enganos e outras bizarrias

 

O Senhor Mário Lino era ministro do senhor José Sócrates. Ministreava nas Obras Públicas e, já agora, na Recuperação de Desertos. Foi ele quem abriu uma rota segura para os raros palmares e escassíssimos oásis da Margem Sul, ao aceitar (à ponta de cimitarra no roliço pescocinho...) um aeroporto para lá do Tejo.

Fora isso e umas vagas imprecações em francês nada mais distinguia este ex-comunista da linha dura e armada (há quem o ligue à ARA como se sabe), não constam do seu curriculum vitae especiais qualidades que o habilitem sem mais a ser o manda chuva da Cimpor. Ou melhor: dos pontos de vista político e ético, há as mais sérias reservas a vê-lo, ainda de luto pela perda do posto ministerial, a assumir um cargo deste tipo, numa empresa ora dependente da CGD, dependente, como se sabe, por sua vez do Governo.

Não que seja ilegal, nada disso. É deselegante, surpreendente e sabe a postiço. Já antes se sentira idêntica sensação com a rápida ascensão da senhora doutora Lurdes Rodrigues à presidência de uma fundação para a qual não se descortinava nela qualquer específica vocação. Mas com essa senhora tudo é possível depois do estrondo com que governou a desastrosa 5 de Outubro. Claro que sempre se poderá dizer que, depois, de tanto cimento auto-estradal nada mais adequado para Lino que passar de comprador a fornecedor do mesmo material...

2 ainda a propósito dos grandiosos projectos babilónicos deste singular cavalheiro, eis que no Porto, um colóquio que reúne especialistas em transportes e território, condena sem apelo nem agravo a ideia de ligar o Porto e Vigo por TGV. Condena, é pouco: arrasa! A nível de custos, a nível de utilidade, a nível de tudo. Alvaro Domingues relembra as auto-estradas existentes (e escassamente frequentadas, acrescento eu, usuário habitual da Porto-Valença) e por piada até fala em pôr-lhes carris por cima!...

O economista António Figueiredo põe o dedo na ferida ao denunciar o embuste do transporte de mercadorias e os restantes afinaram pelo mesmo diapasão excepção feita a Braga da Cruz, excelso presidente da Fundação de Serralves que lembrou oportunamente que o projecto estava apenas adiado.

Eu, modestíssimo opinante e obrigado pagador de impostos já aqui disse, e por várias vezes, quão bizarro e violento me parecia esta patetice ferroviária. Um comboio rápido custa dez vezes menos e mesmo assim seria preciso saber se valia a pena.

Sempre no âmbito do Norte profundo, eis que Luis Filipe Meneses, entusiasta dos aviõezinhos sobre o Douro vem agora dizer que a corrida combinada entre os presidentes das edilidades do Porto e de Lisboa (de cujos bolsos infelizmente não sairá nunca um tostão para o caso mais previsível da corrida dar prejuízo) não tem o “agrémente” de Gaia. LFM, depois de ter uivado impropérios sobre a trasfega da Red Bull para Lisboa, não consegue disfarçar o mal-estar de não ter sido ele o autor desta proposta apaziguadora. O homem é, sempre foi e será sempre assim.

Ainda no Norte, ah o norte..., eis que um repolhudo grupo de arquitectos vem denunciando as eventuais transformações de um Mercado (o mercado  do Bom Sucesso) que vegeta na mais indigna e vil tristeza. Sei do que falo porque lá vou de quando em quando. Aquilo é tristonho, os vendedores vendem pouco, mal e caro, os produtos são poucos, os espaços vazios dão um toque de abandono e pouca higiene ao conjunto.

Eu não sei se o projecto de reconverter aquela quase montureira é bom ou mau. Tal como está, e está assim há muitos anos, não presta, é um espectáculo degradante que, decerto, só aos olhos dos famosos arquitectos protestários, será evocador do casticismo reles da Invicta cidade. Eu gostaria de os ver propor alternativas interessantes, um verdadeiro mercado como o de Barcelona onde até de passeio se pode ir, uma orgia de cores, de aromas, de produtos, de alegria, de conforto, de limpeza de gulodice. Mas o Porto não é nem nunca será Barcelona, sequer um dos seus mais desinteressantes arrabaldes.

E relembro, para os esquecidos, uma polémica de há trinta ou mais anos sobre um outro mercado emblemático do Porto: o Mercado da Fruta, belíssima construção de ferro que se reabilitou. Ninguém permitiu que lhe dessem uma utilidade qualquer que valesse o esforço financeiro e o preço pagos. Vegetou miseravelmente anos a fio. Degradou-se tragicamente pelo mau uso, pelo não uso, pelo abuso. Agora vai ser um night club ou algo do género, privado, cedido por tuta e meia.  No Porto é assim. Obra que se faça à custa do erário municipal para uso público cedo morre de morte macaca. Aconteceu com um restaurante junto da praia do Molhe, repetiu-se e muito mais gravemente com um “Edifício Transparente” encomendado por uma negregada e generosíssima Porto 2001. Nunca se percebeu para que é que aquilo servia. Foi soçobrando na imundície e no abandono até ao que se vê. Basta entrar. Basta saber a ridicularia que agora, e por favor, uma empresa paga para dar uso àquilo. Um uso ao arrepio de qualquer eventual ideia (se sequer isso tivesse ocorrido aos da 2001) que levou a encomendar aquele elefante branco ao arquitecto Solá Morales.

E terminemos, que isto dói mais do que fede, e fede muito. O partido que ganhou as eleições legislativas garantiu aos votantes um défice e uma situação que não eram verdadeiros. Ganhou as eleições. Agora o Governo vem com o PEC e com o défice que se sabe. E jura que não aumenta impostos. Ou seja, a dedução específica que desaparece no IRS não é nada. E o IRS não aumenta!...

Vivemos num pais onde a mentira grassa, onde o desperdício é a lei natural, onde as obras se fazem apenas por que sim. Os cidadãos pagam. Os políticos riem-se, os ministros reformam-se em administradores de empresas onde o Estado tem posição hegemónica, os estádios estão desertos de espectadores mas crivados de dívidas e o futebol excita paixões sórdidas.

Mas descobrimos a Índia, fizemoso Brasil e  inventámos o fado... e temos turismo barato e de pé descalço.

 

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