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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

29
Mar10

Au Bonheur des Dames 225

d'oliveira

Desengoma-te!

Ai leitoras gentis isto está fraco. Fraco? Fraquíssimo! É o PEC que ameaça os portugas de mil descontos no já descontado ordenado, na descontadíssima reforma, no subsídio que mais parece um sub-subsídio, enfim, em tudo em que “eles” puderem deitar a mão.

Merecemos isto? Que mal teremos feito a Deus ou aos deuses, sobretudo a estes, para que a coorte luciferina ou as Erínias fossem atiçadas contra o povo miúdo, de que Vocês e eu fazemos parte, o povo que rosna mas paga os impostos (se calhar por que não consegue fugir com o rabo à seringa, mas paga e é isso que importa sublinhar), o povo que vai perdendo se não perdeu já toda as parcas expectativas de ver “isto” andar para a frente.

Disse expectativas porque já não me atrevo a dizer esperança. Esperança é palavra nobre (como amigo, laranja ou mar) e não pode, não deve, ser usada neste pântano lúgubre para onde uma elite dessorada e absolutamente incapaz nos conduziu.

A resposta à pergunta lá de cima é: merecemos! Fomos nós que votámos nesta quadrilha de incapazes. Fomos nós que aceitámos como boa a mentira do deficit “ligeiramente” acima do previsto. Fomos nós que acreditámos quando eles disseram que a crise, embora grave, estava praticamente ultrapassada. Fomos nós, ou alguns de nós, que fechando os olhos à realidade ensurdecedora, que acreditámos que as medidas eventualmente constantes dos manifestos eleitorais eram, apesar de tudo, medidas socialmente justas, economicamente ajustadas e politicamente democráticas.

Haja, daí, desse lado do ecrã, alguém que consiga explicar este facto simples e incontroverso: um partido “socialista” a levar a cabo, com inabilidade, insensibilidade e ignorância, a política que os seus opositores de “direita” provavelmente executariam com mais cuidado, rigor e credibilidade.

A Primavera entrou, dizem. Deram conta? Acaso as chuvas pararam, o sol brilhou, o tempo melhorou? Esta Primavera que bate à porta mas não entra, que chama por nós mas foge, que hesita e retrocede, é bem a metáfora deste tempo que nos é dado viver.

E a esperança? Onde para essa cada vez mais rara virtude teologal? Estará de férias como a fé? Desertou deste país à beira mágoa, como a caridade?

Olho para a esplanada deserta, para o jardim encharcado, para o gato cinzento recolhido da borrasca numa cadeira à espera dum fugaz raio de sol. Nem as cachorrinhas do costume lhe ladram. Adiaram o instinto para melhor altura. Poupam forças para o que confusamente sabem que pode ainda vir. E não é a esperança que lhes fará arrebitar as orelhas ou abanar a cauda.

Hoje, o jornal traz a notícia de um prémio cinematográfico atribuído a Susana Sousa Dias. Pelo filme “48”, uma longa entrevista a antigos perseguidos pela polícia política de que só se ouvem as vozes enquanto pelo ecrã desfilam milhares de fotografias dos arquivos do Registo Geral de Presos (de frente, de lado e de través). E por que é que falo disto? Ora por uma simples e clara razão. Nesses tempos, nesses duros, amargos, tempos as coisas corriam mal. Muito mal. Vivia-se no quarto escuro, com quotidianas dificuldades, no cinema a preto e branco, no mundo a branco sujo e preto forte. Mas vivia-se. Com raiva, com lágrimas, com fome de tudo e, para alguns, não tão poucos, com fome de comida. Mas tinha-se esperança. Uma esperança persistente, como o musgo, uma esperança renovada como a volta das andorinhas, uma esperança simples que se alimentava da solidariedade dos companheiros e amigos, partilhada em sítios tão improváveis como uma cela em Caxias, um banco de faculdade em Coimbra, uma banca de oficina numa fabriqueta, um banco de jardim num encontro clandestino, uma mesa de café de província, uma lota clandestina à beira-praia.

E agora? Onde para essa esperança que nos salvava, que nos animava, que nos aquecia?

Respondam, se puderem.

 

* a gravura de hoje: um Cristo desse sublime Georges Rouault pintor cristão de que não consegui encontrar a composição “demain il fera beau disait le naufragé” da série Miserere, vista no Porto há uns bons cinquenta anos na companhia da Alcinda, do Jorge e da João Delgado.

** o título recorre a um velho dichote coimbrão que significa desenrasca-te, que estás mais só que uma brisa no deserto.

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