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Incursões

Instância de Retemperação.

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22
Jun10

Estes dias que passam 208

d'oliveira

Por essa auto-estrada fora...

 

De manhã, pela fresquinha, eis que me meti ao caminho, de longada até Lisboa onde venho  cumprir um calendário apertado mas jubiloso. Não só estar uns dias com a old lady que me fez, o que já não é coisa pouca, mas assistir ao lançamento do livro do Vasco, fazer uma razia pelos alfarrabistas (e pela feira dos mesmos no próximo sábado, mas também ver se estou com um par de amigos para umas cervejolas e má língua. E, finalmente, voltar à Torre do Tombo para ir consultar mais três processos meus de que não tinha conhecimento. Ao todo são, até à data, que eu já não ponho as mãos no fogo, oito. Acrescente-se um outro, do Porto, o último em data (1973), que os meus amigos e “conquistadores” da sede local da PIDE me trouxeram em mão. Vou brevemente entregá-lo ao Arquivo Nacional Torre do Tombo para ficar mais nítida a minha fraca biografia político-social.  Eu ia agora descrever em pormenor a tomada da pide portuense mas a coisa foi de tal modo surpreendente que decidi fazer um post só sobre isso. E previno desde já as leitoras gentis e os cavalheiros de bem que se dão ao trabalho de me ler que não resisto (não resistirei) a um pouco de fantasia no tempero com que envolverei essa historieta de que fui testemunha de primeiro balcão.

Estas minhas viagens até à “cidade de mármore e granito(?)”, são de carro. A família mais chegada vive em Oeiras pelo que seria uma maçada tremenda vir no comboio (que é óptimo, escrevi óptimo com p mudo, ó defensores do acordo!) pois depois teria de ir ao Cais do Sodré e andar sempre ao sabor dos horários dos comboios da linha.

Vindo de carro, uso uma série de auto-estradas seguindo um critério simples: prefiro as menos frequentadas. Ora, para quem vem do Porto, a lógica propõe a A29, a A25, a A17, a A8 a CREL e finalmente a A5 até Oeiras. Desta meia dúzia apenas há duas com um volume de tráfego intenso: a A29 até Espinho, maxime Ovar e a A5. A CREL tem um trânsito perfeitamente suportável, a A8 (Leiria CREL) tem longos trechos de solidão e a A17 (Aveiro, figueira, Leiria) é uma fervurinha.

Nestes trezentos e trinta quilómetros há (havia) 90 (Porto Mira) absolutamente gratuitos. E, suponho, a CREL, ainda não se paga. Se é assim, temos que um terço da viagem é à custa do Zé. Claro que, como pagador (obrigado) de impostos, também esportulei o cacauzinho com as estradas se fizeram.

O actual clamor contra o fim das SCUT irrita-me. Porque sei que muita scut tem alternativas razoáveis. E quando tal alternativa não existe, então sim, deveria haver identificadores para os moradores das zonas afectadas (e só esses) que os isentassem de pagamento. Também não me parece escandaloso que a Via do Infante seja scut. Quem se lembra da estrada 125 (rua 125 como dizia uma cantiga) percebe que ali a alternativa era uma aldrabice. Outros troços haverá igualmente miseráveis e dignos do mesmo tratamento. Porém a regra deverá ser sempre o princípio utilizador-pagador é o mais justo e o mais sensato. E o mais adequado num país que deveria habituar-se a viver com os parcos meios que tem. Com um limite: o fim das scut tem de ser geral e não faseado. Mesmo que alguma razão o aconselhasse conviria lembrar que uma medida destas é também política e anunciar o fim das scut só no norte é, no mínimo, uma patetice. Ou uma sacanice se eventualmente no sul se verificar uma longa espera para aplicar a lei.

Há uma cultura do transporte individual que cresceu exponencialmente com as auto-estradas e a suburbiorização do país. O carro, mesmo caro (e é caro, caríssimo) passou a ser um bem de consumo obrigatório. Passem por um bairro “social” com as rendas que se sabem e vejam o parque automóvel. Não tenho nada contra o direito de cada um ter um automóvel. Todavia, percebo mal como é que é possível fazer um esforço tão grande e, ao mesmo tempo, ter de recorrer à habitação social.

Fique claro que não pretendo impedir quem quer que seja do privilégio de ter o pópó e muito menos quero condenar quem não tem meios a viver na rua. Só que, mais uma vez, suspeito que aqui as contas se fazem no joelho. Como aqueloutras, lembram-se, da Câmara Municipal de Lisboa que atribuiu casas com rendas ridículas a um conjunto de pessoas (desde uma vereadora a um conhecido jornalista e escritor) como se de desprotegidos se tratasse.

Neste rincão somos todos pobres para pagar mas, mesmo com a crise, já se sabe que para as praias exóticas, para o Brasil e para a Dominicana não diminuíram as reservas. E também foi notícia que explodiu a venda de televisões de grande ecrã, incluindo, as de plasma.

Os senhores políticos falam da necessidade de sacrifícios, de reduzir as despesas do Estado, mas a ERC tem, imagine-se, pasme-se, mais de setenta funcionários. E deu lucro. O lucro, claro, vem das taxas das empresas de comunicação social e parece que vai em boa parte para esta surpreendente entidade cuja utilidade nunca percebi.

Uns senhores vereadores da CM Porto entenderam propor, entre outras medidas de extraordinário alcance, a instalação de uma casa de chá ou algo semelhante no jardim da Rotunda da Boavista. E provavelmente porque acham pouca a música da Casa da Música também se proporia qualquer coisa como um coreto. Para quem não saiba. A Rotunda da Boavista, de seu nome oficial, Praça Mousinho de Albuquerque, tem no seu perímetro quatro locais onde se toma café. Num raio de cinquenta metros tem mais oito. E num raio de cem metros outros tantos locais entre cafés pastelarias e restaurantes.

Esta mania camarária de competir com os privados erguendo, à custa dos contribuintes, locais de vocação eminentemente privada, tem um estarrecedor antecedente. Há uma boa dúzia de anos, ou mesmo mais, algum génio da edilidade ou similar entendeu dever construir na Avenida do Brasil, frente ao mar, um pavilhão com fins obviamente restaurativos. A coisa lá se fez, foi concessionada a uma criatura que rapidamente deu com os burrinhos na água. A casa fechou mas rapidamente reabriu graças à caridosa intervenção de uma conhecida marca de pizzas que provavelmente terá obtido aquilo por dez reis de mel coado. O mesmo, aliás ocorreu, com o famoso Edifício Transparente, uma coisa caríssima, encomendada a um arquitecto caríssimo para a qual, por mais que uma pessoa se esforce, não se vê razão de ser. Ao longo dos anos também os concessionários se baldaram até um salvador pegar naquilo e dar-lhe um uso medíocre. E a preço de saldo, está bom de ver.

Somos ricos, coitados de nós, sofremos do mal de Midas, transformamos em merda todo o ouro em que tocamos. E se, acaso, pensamos numa tolice não há descanso enquanto a não cometemos. Normalmente de forma excessiva, cumpre dizer.

Leitoras gentis. Eu não estou mal disposto, nem zangado com o mundo, bem pelo contrário. Mas as viagens em auto-estrada e sozinho pregam-me estas partidas. Com alguma coisa me hei-de entreter enquanto vou dando ao pedal sem ver vivalma.

 

 

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