Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

23
Jun10

Au Bonheur des Dames 233

d'oliveira

A memória em tumulto

 

Hoje passei toda a manhã e parte da tarde na Torre do Tombo. Consultei dois processos (e espero que sejam os últimos) em que a PIDE me mimoseia com múltiplas referências e um chorrilho delirante de acusações que vai ao ponto de me meter num grupo bombista. Lamento muito ter de, tantos anos depois, destruir tão vantajosa fama. Nunca vi uma bomba, nunca soube delas, nunca estive com alguém a preparar, discutir, sequer pensar, bombas. A minha guerra era outra e nunca brandi uma arma, sequer um canivete.

Por junto recordo um frente a frente com um grupo de estudantes de direita, à porta de uma sala nos Gerais, em que ergui um guarda-chuva ameaçador. Todavia, um dos adversários, uivou que guarda-chuvas não estavam previstos naquele torneio medieval e prontamente o recolhi. Se bem me lembro aquilo não passou de uns encontrões.

Na massa gigantesca de folhas desses dois processos (um dos quais com dez espessos volumes) escolhi cerca de seiscentas páginas que me dizem, directa ou indirectamente, respeito. No processo mais pequeno, o chamado P I(individual?, investigação?) 27946 (285 páginas seleccionadas) descobri, melhor dizendo “redescobri” uma história tristíssima. Uma criatura com o pseudónimo de “Catarina” conta histórias sobre todo o nosso grupo conspirativo. Ou seja, passada a crise de 69, licenciados quase todos nós, que fizéramos parte do CONGE, grupo informal que dirigira boa parte da luta estudantil, continuámos a reunir. Animávamos então a editora Centelha e cada um desenvolvia o seu pequeno trabalho subversivo. Essas reuniões esporádicas serviam para tentarmos elaborar uma plataforma teórica de futuras actuações políticas e duraram até termos, quase todos, aderido ao MES. Quase todos, repito que um ou outro desembocou na LUAR e vários entenderam aderir ao PCP.

A “Catarina” era mulher de um dos nossos melhores elementos. Casamento desigual, diga-se desde já que a rapariga era ignorante e não teria grandes estudos. Depois do 25 de Abril foi identificada e o marido foi cominado a abandoná-la. Coisa que ele não fez por razões sentimentais, mesmo se, e como era o caso, a “Catarina” fosse suspeita de ter dormido com um agente da PIDE que a seduzira para melhor obter informações. Convém dizer que boa parte dessas informações apesar de factuais não adquiriam uma dimensão trágica justamente por que a informante era burrinha e ignorante.

Boa parte do grupo cortou então relações com esse amigo. Eu não, embora não possa dizer porquê. Ou “exactamente” porquê. E fui amigo dele até à sua morte. Já agora há que dizer que morreu a cumprir uma missão de grande dignidade: dava consulta gratuita e semanal aos antigos clientes do pai.

A “Catarina” deve ainda estar por aí viva. Gostaria de pensar que tem remorsos, que sente a falta do marido, que se envergonha das denúncias que fez e das eventuais aventuras de cama com o pide. Mas também não faço muita questão disso.

Há mais informadores no mesmo processo, por exemplo um “Queiroz” que mais tarde tentarei saber quem é.

Vi este processo numa corrida. Mandei digitalizar as folhas que já referi portanto não estive para perder tempo. Mas, subitamente, os anos duros de 71-74 voltaram-me à memória  trouxeram com ele o fantasma desse amigo morto.

O outro processo é estranhíssimo. Corresponde a um momento bem mais difícil, porquanto estive preso, bem como todos os restantes citados nesse PC (processo crime) 290/71.

O que mais me admira é que nada, absolutamente nada, me liga aos restantes arguidos. Eu já estava formado, embora frequentasse o Curso Complementar de Ciências Jurídicas (6º ano de Direito). Eles eram todos estudantes, quadros importantes do “movimento associativo” e (todos ou bastantes) estariam associados à recentíssima UEC ou a algo anterior e semelhante. Eu, como no processo se faz menção, era tido como “pró-chinês”. E acusado de ligações com um grupo “marxista-leninista” sediado em Paris e dirigido por Hélder Costa.

Como resolvi guardar para mais tarde o estudo das partes processuais que pedi para serem digitalizadas, não posso desde já, dar muito mais informações sobre o que por lá se dirá. Bem me bastou ter de aviar doze volumes para escolher a parte mais substancial do processo.

A meio dessa corrida por páginas azuis, entendi ir almoçar. Saí da Torre do Tombo, cheguei-me ao Campo Grande em busca de pascigo e onde é que havia de entrar? No velho “Tatu”, uma relíquia dos anos 60 e de muita reunião conspirativo-cervejeira no ano de 62. Aquilo está decadente, claro, mas subitamente o perfume desses anos de brasa, a recordação de uma rapariga de cabelo negro e olhos azuis (Ai!....), os meus dezoito anos, as primeiras fugas à polícia, a certeza de que o mundo iria ser salvo por nós, a fé no materialismo dialéctico & associados, tudo me caiu em cima.

E de repente recordei os cafés lisboetas da época, a Nova-Iorque, a Grã-fina, o Vavá, o Clube Universitário de Jazz, os apartamentos onde dormíamos, eu e o Carlos Bravo, emissários da direcção da AAC a Lisboa, para informações, os nossos amigos das secções de propaganda das pró-associações de estudantes, a Casa dos Estudantes do Império, enfim aventuras só possíveis quando se tem a vida pela frente e a coragem da ingenuidade. E da generosidade...

Vai longa esta romagem ao passado mas não queria deixar de recordar os meus reencontrados co-arguidos no processo 290/71, Emília Ralha, Ana Paula Almeida, Rodrigo Santiago, Romeu Cunha Reis, Domingos Lopes, Luís TYeives, Carlos Fraião, João Pena dos Reis, Luís Alves, António Marinho Pinto, Maria José Teixeira Ribeiro, Celso Baptista, Carlos Viana Jorge e Alfredo Fernandes Martins.

E já agora: porque razão todos eles tiveram cauções de quatro ou sete contos e a mim, só a mim, couberam dez contos? Seria por ser mais velho? Por já estar licenciado? Ou, definitivamente, a PIDE tinha-me como o mais perigoso?

 

Vai esta em memória do Alfredo FM e do João B., amigos queridos e desaparecidos demasiado cedo.

* a gravura: entrada do reduto norte da prisão de Caxias

Comentar:

CorretorMais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.