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Incursões

Instância de Retemperação.

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Au Bonheur des Dames 244

d'oliveira, 27.09.10

The same old story

 

Não sei se é por ciclos mas a verdade é que de longe em longe há uma leitora que me anuncia triunfante e acusadora: já sei de onde vem o título das suas crónicas.

E vá de explicar-me que, na rua do Carmo, em Lisboa, quase em frente aos velhos armazéns do Chiado há um estabelecimento que ostenta na fachada (bem bonita, aliás) o au bonheur des dames.

Hoje a coisa fiou ainda mais fino: a minha querida amiga Laurinda atirou-me com a mesma objurgatória e eu lá me expliquei. Tudo á mesa do café da manhã, na esplanada ou já de saída, nem me lembro. Cheguei a casa, abri o computador e uma leitora, “L” (misteriosa letra) vem-me com a mesma treta.

Bom, visto isto, esta estranha insistência no continente mais do que no conteúdo, aí vão, outra vez, a minha explicação.

Quando comecei a colaborar neste blog, lembrei-me de criar séries mais ou menos temáticas de textos. E de numerar os posts. Não devo ser o único nem pretendo isso, convém dizê-lo, mas a verdade é que, movido por um súbito machismo soft, por alguma longínqua lembrança e pelo respeito a Zola, resolvi intitular a primeira série com o título de uma sua célebre obra, justamente “Au bonheur des Dames” que, se a memória não me falha conta o nascimento de uns “grandes armazéns” que se chamam exactamente assim. E que seiam os célebres “Grands Magazins du Louvre, passe o pedantismo desta referência. Da obra fez-se um filme com o mesmo título, realizado por Julien Duvivier  em 1930, com Dita de Parlo, Pierre de Guingand e Ginette Maddie.

E por que é  entendi homenagear Zola? Bom, sobram razões mas atenhamo-nos apenas a estas: é um excelente escritor, um romancista talentoso (Au bonheur é aliás o primeiro volume da série romanesca Les Rougon Macquart) e um polemista de forte veias.

Zola foi também uma espécie de arauto dos pintores impressionistas que defendeu, elogiou e de quem era amigo. Suponho que há até vários retratos dele feitos pelos maiores do grupo.

Finalmente, com “J’accuse”, Zola inaugurou, e de que magnífica maneira, o ciclo de grandes intelectuais comprometidos, defendendo com uma inimitável coragem e enorme solidão o capitão Alfred Dreyfus, acusado de traição fundamentalmente por ser judeu. “J’accuse”, publicado no jornal “L’Aurore” “incendiou” (como alguém disse, a opinião pública francesa e teve forte eco internacional. De certo modo, traçou a fronteira ainda hoje existente entre esquerda e direita xenófoba que, urge aliás, recordar, tem sete vidas na França dos Direitos Humanos.

Suponho que estas razões permitem perceber a origem da minha homenagem, ao mesmo tempo que, uma leitura em segundo grau permite dar ao título desviado o tal inocente toque machista que não recuso nem me envergonha.

Eu gostaria, olá se gostaria, de escrever estas croniquetas para um conjunto de leitores que se divertissem, que as sentissem um pouco suas. Falo normalmente em leitoras por uma série de razões: tenho (e isso alegra-me profundamente) um par de fieis leitoras que de longe em longe me interpelam. Há, em Portugal e no mundo, mais leitoras que leitores suponho que 60/40% o que é significativo. Não será estranho que estes pobres escritos tenham mais público feminino do que masculino. Alguém me disse que eu corro o risco de cair num paradoxo: os meus temas seriam predominantemente “masculinos” coisa que esbarraria no grupo das leitoras. Atrevo-me contudo a pensar que essa ideia de que há temas predominantemente masculinos naquilo que escrevo é pura tolice. Tento falar de assuntos que suponho interessantes e que só por estultícia é que seriam reservados à gens masculina. As mulheres que conheço, que são minhas amigas, as que amei e as que me não ligaram nenhum, sempre as vi discutirem tudo com uma liberdade e uma inteireza que não sofrem essa sofisticada capitis diminutio que dá ao homem a praça e à mulher a casa. Talvez esta minha intima convicção me salve de um que outro machismo de que não estou livre (nem quero...).