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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

15
Nov10

Au Bonheur des Dames 254

d'oliveira

 

Si non é vero...

Vem no “Público”, manancial inesgotável. Um senhor juiz entendeu reduzir em duas horas diárias o seu trabalho por via dos impostos que lhe vão cair em cima.

Sª Ex.ª exarou um despacho onde, preto no branco, e com uma encantadora falta de gramática, afirma que o seu ordenado será reduzido em 600 euros por causa das “reduções a que as remunerações dos juízes irão ser sujeitos...

Ao que parece, o Meritíssimo Juiz teme que também a remuneração da amantíssima esposa seja afectada.

Por estas ponderosas razões, vê-se forçado a reduzir o seu horário de trabalho “de modo a possibilitar que o seu agregado familiar honre os compromissos financeiros” entretanto assumidos.

O jornal, com uma incompreensível falta de imaginação, não vê a relação entre  o aligeirar do horário e a assumpção dos compromissos financeiros.

Tentemos ajudar a jornalista autora da notícia. O que o distinto jurista vem significar, entrelinhas, é isto:  a queda do seu rendimento disponível vai obrigá-lo a procurar algum trabalho remunerado cujo rendimento reponha o anterior saldo com que contava e, pelos vistos, lhe possibilitava quanto muito. viver apertadamente, não obstante constar que os ordenados dos juízes chegam a ser 4,2 vezes mais altos do que o salário médio da restante peonagem nacional (enquanto em países mais pobres, v.g. França ou Alemanha, a diferença se resuma a duas vezes). Isto sem falar no célebre subsídio de residência ( coisa pouca que não chega a ser o dobro do salário mínimo nacional...) que se prolonga para lá da cessação efectiva de funções.

E que trabalho?, perguntará a leitorinha desconfiada. De facto, aos senhores juízes estão vedadas quaisquer actividades remuneradas.

A resposta é, todavia, simples. S.ª Ex.ª  ao olhar à sua volta, com o ar perdido do náufrago cercado de dívidas e compromissos que urge honrar, só viu uma solução: despedir o pessoal doméstico. A “mulher a dias”, melhor dizendo, já que dadas as condições económicas  que se adivinham na sua pundonorosa escrita, não creio que se desse ao luxo de ter “empregada interna”, cozinheira, mordomo, motorista ou uma mera governanta.

E quando digo “mulher a dias”, limito-me a um modesto cálculo do que custará na terra onde o senhor juiz exerce o seu sacrificado múnus, uma empregada que entre cerca das oito da manhã e saia pelas quatro da tarde. Cinco dias por semana, ou seja 40 horas, mais os encargos com a segurança social e o seguro. E a alimentação da criatura, que essa gente come por tês, credo!

Passaremos, portanto, a ver S.ª Ex.ª com os seguintes horários e tarefas: segundas e quartas passa a roupa a ferro, aspira a sala e o corredor, prepara o jantar. Terças e quintas lavam-se as janelas, prepara-se a máquina da roupa (num dia a escura, noutro a clara), limpa-se o pó e aspiram-se os quartos. À sexta vai-se ao super para as compras semanais.

Fazer tudo isto em duas horas diárias releva do milagre e mostra bem a fibra do magistrado. Se ele consegue substituir cabalmente a serviçal provando, como se espera e fervorosamente se deseja, que o trabalho do patrão vale quatro vezes o da assalariada, então ficará também provada e esclarecida, de uma vez por todas, a diferença salarial entre juízes e media nacional acima referida (os famosos 4,2!...)

Provam-se, assim, e de uma penada, várias coisas. A começar, a razão, que nunca se questionou, do singular protesto do senhor juiz. Depois, a valorização da carreira da magistratura judicial que, mesmo sacrificada, se desdobra para além do conhecimento jurídico para o espinhoso e incompreendido domínio das “arts de la maison”. E finalmente, a consabida má fé das proletárias mulheres a dias que levam a luta de classes ao ponto de fazerem em oito horas o mesmo que um cidadão juiz faz em duas!

Ah!..., se pudéssemos começar a contratar senhoras e meninas com o curso completo de Direito e a frequência igualmente completa do CEJ para nos aliviarem das tarefas caseiras...

E por aqui me fico: tenho em agenda para hoje, uma lista de compras no super (laranjas, óleo, cebolas, sal, batatas, areia para as gatas, e uma coisa misteriosa chamada woolite (roupa escura!) E diospiros se forem maduros, doces e baratos – recomendação ameaçadora da CG). Se algum(a) senhor(a) juiz(a) me quiser dar uma mãozinha agradeço.

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