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Incursões

Instância de Retemperação.

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02
Dez10

Estes dias que passam 222

d'oliveira



Alguém deu por isso?

 

Passou um 1º de Dezembro. A data comemora a revolta portuguesa contra o domínio dos Filipes, dos espanhóis, para ser mais exacto. Ou, talvez melhor, a revolta contra as novas medidas centralizadoras do Estado espanhol, na sequência, aliás, do que se passava em França com o Rei Sol. Por toda a península, sobretudo na Catalunha, houve revoltas. Entre esta e Portugal, os reis espanhóis optaram. Sorte nossa.

De facto, a história de Portugal como país independente tornou-se definitiva em 1640 (mais os trinta anos de guerra, claro). Pessoalmente penso que a data tem a sua importância e que, por isso, mereceria mais atenção. Infelizmente, cai sobre ela a mancha do consulado de Salazar, das famosas comemorações dos centenários, das exaltações nacionalistas e de tudo o que isso ainda dói.

Há tempos, aqui mesmo, um amigo e colega que muito prezo, defendia uma ideia que me parece peregrina: que o 5 de Outubro  mereceria muito maior atenção do que o 1 de Dezembro. Sem ofensa, isso parece-me tresandar a ideologia pouco fundamentada. Em 1910, mudou-se de regime. Só! Mesmo que, por um novo milagre das rosas, se valorizasse positivamente os dezasseis anos da primeira República, com dificuldade veríamos mudanças significativas na sociedade portuguesa. Por junto o divórcio e o registo civil. Direitos e garantias dos cidadãos estavam fixados desde há muito, na monarquia (“republicana”) constitucional. O colégio eleitoral até diminuiu durante a “república”; o ensino, mesmo se entendermos que as universidades do Porto e de Lisboa surgiram do nada (o que é rotundamente falso), não viveu momentos revolucionários. As mulheres amargaram até ao consulado de Salazar para terem direito de voto e verem finalmente as primeiras deputadas eleitas (pela UN!!!). A separação da Igreja e do Estado perdeu muita da relevância agressiva durante a guerra (1916-18) altura em que de repente se percebeu que, sem capelães militares, a tropa já desmotivada e impreparada não faria grande coisa. Isto para não falar de Fátima, da burrice intolerante que permitiu a reacção católica vitoriosa mesmo nos meios anteriormente republicanos. E no que toca a direitos sociais, mormente dos trabalhadores, foi o que se viu: a República em menos de um ano passou a ser odiada não só pelos sindicalistas mas todos quantos sentiam na pele a desgraça de ter de vender a preço vil a sua força de trabalho.

Por tudo isto, dói ver passar o 1 de Dezembro no meio da geral indiferença. Pior, no meio da mais crassa ignorância. Desconhecer a nossa própria história é meio caminho andado para desaparecermos como Povo, como Cultura e como Nação. De país de santos (?) e de heróis (??) passámos a ser uma waste land, um ajuntamento descoroçoado, uma reserva de mão de obra barata que se dirige indiferentemente para a  Europa ou para Angola à procura de emprego e estabilidade profissional.

Neste cenário desolador, nem apetece rir da última descoberta do descendente dos reis portugueses e alegado candidato ao trono. Com efeito, o senhor D Duarte de Bragança anunciou que vai pedir a (dupla) nacionalidade timorense! Sª alteza está convicta que Timor a conhece, que é o liurai de Portugal (sic).

Deixando de lado esta fantasia do descendente de D. Miguel, resta-nos lamber as feridas causadas pela afronta da FIFA que não nos quis endividar ainda mais com um tolo campeonato do mundo de futebol, entendendo, e bem, que dois países à beira do FMI fariam melhor em poupar os escassos recursos para tarefas menos gloriosas mas seguramente mais úteis.

 

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